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A Geneticista Mayana Zatz responde pergunta em sua coluna em Veja.com: Genética. Acompanhe a coluna que fala sobre CT, CTE, etc. Veja abaixo e a íntegra na fonte:

 

http://vejaonline.abril.com.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=1&pageCode=1298

 
Publicado por:
Normando Oliveira. 
 
Membro Fundador da Comunidade ELA / ALS_Brasil.
 
 
 
COLUNISTAS

 
Genética

Mayana Zatz

Geneticista e diretora do Centro
de Estudos do Genoma Humano (USP)
E-mail: mayanazatz.ciencia@gmail.com

 Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

Técnica de clonagem

Cara doutora Mayana, a senhora sabe me dizer por que o Ian Wilmut desistiu de usar a técnica de clonagem terapêutica nas suas pesquisas? (Paulo Roque) Eu estava na Inglaterra, em janeiro desse ano quando Ian Wilmut, o pai da ovelha Dolly, anunciou que iria desistir de tentar a técnica de clonagem terapêutica para as suas pesquisas. Em vez disso, ele iria usar a tecnologia de reprogramar células da pele através da introdução de um vírus, as células iPS - um feito que acabava de ser publicado pelos pesquisadores Thomson e Yamanaka. Imediatamente as pessoas contra pesquisas com células-tronco embrionárias (CTE) anunciaram: "Até o Ian Wilmut desistiu de clonar embriões humanos".

Os fatos e as versões dos fatos

Na realidade Ian Wilmut nunca pensou em clonar embriões humanos. O que ele quer é pesquisar uma doença gravíssima, a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Nesta doença, a pessoa perde rapidamente todos os movimentos porque ocorre a morte dos neurônios motores - as células nervosas responsáveis pelos movimentos. É a doença que acometeu o famoso físico inglês Stephens Hawkins. Para realizar essa pesquisa, o doutor Wilmut precisava gerar linhagens de células nervosas desses pacientes.

A única maneira na ocasião para conseguir isso era reprogramando células adultas desses pacientes para que elas se comportassem como embrionárias e formassem células nervosas em laboratório. Como? A partir da técnica chamada de "clonagem terapêutica". Isto é, cientistas teriam de retirar o núcleo de uma célula (onde está contido todo o DNA) de um paciente com a doença. Esse núcleo seria então inserido em um óvulo sem núcleo. Se o óvulo começasse a se dividir ele iria adquirir as características de uma CTE, isto é, conseguiria formar todos os tecidos do corpo.

O que pretendia Ian Wilmut?

Se a técnica funcionasse ele poderia gerar em laboratório células-nervosas de pacientes acometidos por ELA e testar diferentes estratégias para tentar curar a doença. Acontece que a técnica de transferência de núcleos, ou clonagem terapêutica é dificílima na prática. Todos devem se lembrar do grupo coreano que anunciou ter conseguido a clonagem terapêutica com células humanas e que depois se revelou como uma fraude. E Ian Wilmut que pretendia colaborar com os pesquisadores coreanos viu de repente todos os seus esforços irem por água abaixo.

Como viabilizar as pesquisas?

Quanto os grupos do Thomson e Yamanaka anunciaram que haviam conseguido fazer uma célula da pele se comportar como embrionária através da ativação de três ou quatro genes introduzidos na célula por meio de um vírus - as chamadas células iPS (induced pluripotent stem cells) - surgiu a alternativa. Ao invés de reprogramar células de pacientes pela técnica de clonagem terapêutica, Ian Wilmut iria usar a estratégia de Thomson e Yamanaka. Isto é, retirar células de pacientes, inserir um vírus nessas células, tentar transformá-las em CTE e depois em neurônios.

Em resumo, Ian Wilmut precisava reprogramar células adultas de pacientes para desenvolver suas pesquisas. Como não teve sucesso com a clonagem terapêutica resolveu tentar reprogramar células adotando a nova tecnologia. Não por motivo religioso ou ético. Trocou uma técnica por outra. Trata-se de uma pesquisa extremamente importante. Torço muito para que dessa vez ele tenha sucesso.

A ironia é que a clonagem terapêutica foi proibida e as células iPS são aplaudidas. É uma grande contradição. Ainda não entenderam que se trata exatamente da mesma coisa: reprogramar células adultas para que se comportem como embrionárias.

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