Tirem as mãos da Embrapa!
6/9/2012 13:29,
Paulo Kliass - de Brasília
http://correiodobrasil.com.br/tirem-as-maos-da-embrapa/512225/#.UEns66CD_pc
Alguém poderia nos explicar as razões que levariam um parlamentar
eleito pelo Partido dos Trabalhadores a propor o caminho da privatização
para a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária? Sim, a nossa
conhecida EMBRAPA, referência em todo o mundo quando o assunto é
pesquisa agropecuária. Para quem tiver pistas ou respostas, cartas para
redação.

A empresa estatal Embrapa é referência mundial na pesquisa agropecuária
Mas o fato é que foi apresentado no Senado Federal o PLS n° 222/2008,
projeto nessa linha, de autoria de Delcídio Amaral, senador eleito pelo
PT do Mato Grosso do Sul. Como a maioria das matérias no Congresso
Nacional tem o ritmo de sua tramitação condicionado pelas marés da
grande política, só agora nesse ano o projeto passou a receber maior
destaque da imprensa e demais atores envolvidos.
Em 2009, a Comissão de Agricultura do Senado aprovou um relatório
contrário ao projeto. A matéria ficou esse tempo todo esquecida, mas eis
que no começo de 2012, ao passar pela Comissão de Assuntos Econômicos
(CAE), quase foi aprovada pelo Parecer do Relator nesse colegiado, o
Senador Gim Argello – suplente do conhecido Joaquim Roriz do PMDB/DF, um
dos grandes representantes do agronegócio no parlamento. O Parecer
retornou ao Relator e aguarda o momento de voltar à pauta da CAE.
Permanece o mistério a respeito de sua eventual mudança de opinião.
De qualquer maneira, os dois partidos aqui mencionados pertencem à base
de apoio do governo e, em tese, bastaria uma sinalização clara do
Palácio do Planalto para que a discussão fosse encerrada de forma
definitiva. A dúvida que muitos se colocam é a respeito das razões que
estariam levando o governo a se calar diante de tão grave risco.
Criada em 1973, a EMBRAPA deverá completar 4 décadas de
existência no início do próximo ano. Ao longo de sua história, tem
deixado um vasto elenco de contribuições para o desenvolvimento de nosso
País nos setores da agricultura e da pecuária. A preocupação com a
pesquisa de novas técnicas de sementes, lavoura e cultivo permitiu que o
Brasil alcançasse importante grau de autonomia em relação aos países
mais desenvolvidos. A inovação se fez presente também na busca de
aperfeiçoamento de raças e espécies para nosso plantel tradicional de
carne e leite, mas ampliando para outros campos da produção animal
(aves, abelhas, peixes, entre outros).
Constituída desde sua criação sob a adequada forma de empresa estatal
do governo federal, a EMBRAPA sempre buscou manter uma estreita
parceria com as linhas de trabalho desenvolvidas no interior das
universidades brasileiras e demais centros de pesquisa similares. Por
outro lado, sua proximidade com a realidade concreta do campo se baseava
na formação e capacitação de seu quadro funcional, de maneira a sempre
buscar converter os resultados das pesquisas em verdadeiras conquistas
para a atividade agropecuária nacional. Exatamente em função de sua
característica pública e estatal, a empresa logrou manter sua
independência face aos grandes grupos do agronegócio multinacional e foi
exitosa em estabelecer uma forma bem brasileira de operar com a
agropecuária.
Enquanto o paradigma da abertura de mercado, por meio da
internacionalização da economia, se generalizava por todas as áreas, a
EMBRAPA lutava para preservar sua autonomia de pesquisa e de resultados.
Com isso, conseguiu demonstrar ao Brasil e ao mundo que era possível
ser eficiente e propor uma forma específica, particular, nossa, de
operar no mundo vegetal e animal com vistas a aumentar a oferta de meios
para assegurar a alimentação da população. E tudo isso em um modelo
jurídico de “empresa pública”, em que a totalidade do capital é
propriedade da União.
Na verdade, um dos problemas que a empresa atravessa é a política de
corte de verbas ao longo dos últimos anos. A obsessão dos sucessivos
governos com a obtenção de superávit primário a qualquer custo provocou a
redução paulatina dos gastos nas chamadas áreas socais. No caso da
EMBRAPA, a capacidade de investimento e de atualização de suas pesquisas
foi seriamente comprometida com tal irresponsabilidade. No entanto, o
que surpreende os analistas é a incrível capacidade de seu corpo
funcional em permanecer fiel ao projeto original e oferecer um
maravilhoso exemplo de resistência, não obstante as dificuldades
enfrentadas em seu cotidiano.
Mas, então, afinal o que nos propõe o Senador Delcídio? Desde logo já
vou avisando: não, não se trata daquela privatização clássica, de venda
total do patrimônio da empresa. Ele “apenas” sugere a sutil
transformação do estatuto jurídico da EMBRAPA – que deixaria de ser
empresa pública e passaria a ser empresa de economia mista. Além disso,
um artigo de seu projeto permite que 49% do capital da empresa sejam de
propriedade do capital privado e negociados nas bolsas de valores. O
transformismo retórico já viria nos argumentar que – ora, veja bem,
Paulo! – não se trata de privatização, mas tão somente de abertura da
participação acionária ao capital privado. Mais ou menos como tentam nos
convencer de que a concessão por 30 anos de uma ferrovia tampouco se
caracteriza como uma forma sutil de privatização. Ou que a concessão de
exploração de poços de petróleo, por décadas pelas grandes corporações
estrangeiras, também escapa à definição de privatização.
De acordo com as palavras do próprio autor do Projeto,
- Para buscar solução aos problemas orçamentários da empresa, bem
como para modernizar sua estrutura operacional, reduzindo o excesso de
burocracia, apresentamos a proposta de alteração de seu regime jurídico,
tornando a Embrapa uma empresa de economia mista, com ações negociadas
em bolsa. Esse procedimento permitirá que a empresa capte recursos de
grandes companhias de pesquisas em produção agrícola, dando condições
para que se torne competitiva, sem qualquer risco de perda, por parte do
Brasil, de todo o conhecimento já adquirido e do que ainda há de ser
desenvolvido pela Embrapa.
Ora, se por um lado o Senador Delcídio acerta a respeito da
necessidade de medidas para superar os citados “problemas orçamentários
da empresa”, por outro lado ele se equivoca profundamente com a solução
apontada – a privatização. A eficiência da EMBRAPA em sua área de
atuação é fenômeno de amplo reconhecimento em nosso País e mesmo no
exterior.
Se o governo considera estratégico para o desenvolvimento sustentável
um órgão público com tal experiência acumulada e capacidade técnica
qualificada, basta fazer com a nossa empresa de excelência em
agropecuária o mesmo que tem feito com o BNDES, o Banco do Brasil, Caixa
Econômica Federal e Petrobrás.
Trata-se de uma operação singela de aporte de recursos e
capitalização, uma vez que a União é detentora de 100% do capital da
EMBRAPA. No caso das estatais mencionadas, são freqüentemente anunciadas
operações de injeção de recursos por parte do Tesouro Nacional da ordem
de muitas dezenas de bilhões de reais. A intenção é capitalizar a
empresa, reforçar seu caixa no curto prazo e aumentar sua capacidade de
investimento para o médio e o longo prazos. Exatamente o que se faz
necessário e urgente também com a EMBRAPA, para evitar seu sucateamento e
permitir que ela se recoloque em condições de continuar apresentando no
futuro o que sempre fez muito bem até recentemente.
Oferecer a possibilidade de participação do capital privado até o
limite de 49% das ações, ainda com a alternativa delas serem negociadas
em Bolsa, é de uma irresponsabilidade atroz. Esse cenário abriria a
estratégia de presença no interior da direção e da administração da
empresa para suas poderosas concorrentes multinacionais. Afinal qual
seria o interesse das empresas estrangeiras do oligopólio global de
sementes, transgênicos, fertilizantes e agrotóxicos em participar de
eventual abertura oferecida pelo governo brasileiro? Obviamente que o
objetivo seria criar dificuldades para aquela que vem representando uma
alternativa a seus mega-negócios, ou seja, inviabilizar a EMBRAPA como
empresa.
Ou alguém tem alguma ilusão a respeito das boas intenções de
Monsanto, Syngenta, Dow Chemical, Bayer, Basf e Dupont, entre tantas
outras candidatas a essa generosidade a elas oferecida, quanto à
continuidade dos programas desenvolvidos até agora pela EMBRAPA? Os
resultados das pesquisas e o desenvolvimento tecnológico alcançado pela
empresa brasileira caminham no sentido contrário aos interesses desses
gigantes do complexo econômico do agronegócio. Por que desenvolver
cultivares adaptados aos biomas brasileiros? Por que se preocupar com
aspectos “secundários” como tecnologia social, inclusão social e
respeito à sustentabilidade? Por que estabelecer programas de cooperação
internacional com países latino-americanos, africanos ou asiáticos?
Se o governo pretende retirar qualquer dúvida a respeito da
privatização da EMBRAPA, esse é o momento. Afinal, depois de estimular a
concessão de setores especiais para a exploração pelo capital privado –
como fez recentemente com ferrovias, aeroportos, portos, hidrovias e
rodovias – paira no ar um certo desconforto político junto aos grupos
que defendem a importância da presença do Estado em setores estratégicos
de nossa economia. Além disso, é bom lembrar também que a Senadora
Kátia Abreu (TO), presidente da Confederação Nacional de Agricultura,
acabou de sair do DEM e agora faz parte da base de apoio do governo no
Congresso (sic). E o Palácio do Planalto tem demonstrado receio em
contrariar os interesses da bancada ruralista, como ocorreu com a
votação do Código Florestal.
O que se pede é muito simples: basta que a Presidenta Dilma
desautorize a intenção de apoiar esse PLS privatizante e anuncie
claramente que seu governo não pretende autorizar a participação do
capital privado na EMBRAPA. E, claro, que apresente, ao mesmo tempo, uma
estratégia efetiva de recomposição da capacidade de investimento da
empresa, por meio de aportes do Tesouro Nacional. Afinal, como diz o
poeta, o tempo não pára e a empresa não pode correr o risco de ficar
para trás.
Paulo Kliass é Especialista em Políticas
Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em
Economia pela Universidade de Paris 10.Matérias Relacionadas:
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