Da arte como transição
12:46 @ 13/04/2007
Sim, a arte não é força criadora, atividade criativa, dependente da criatividade do artista.
Arte não pode ser só talento-dom, posto que também é dedicação e exclusividade de atenção.
Mas, de onde vem - e como se mantém - essa paixão avassaladora que arrasta e subsiste por detrás de todo artista - e até um economista pode o ser, mas duvido que um burocrata o seja - para que ele persista atrelado ao abismo de experiências que são necessárias para a arte, enquanto ofício e vida?
Um artista precisa experiênciar, tomar contato com o mais variado espectro de "motivações" - e um matemático inclusive pode fazer isso - para que surja, de dentro dele, vindo de fora dele (e então as noções de fora-dentro do sujeito se tornam irrelevantes), a potência criadora que subjuga, dessa maneira, o virtuosismo, a capacidade de repetição e representação do mesmo. Aliás, ele é artista - e não um burocrata, um técnico ou um virtuouse - porque algo nele é novidade, ainda que do mesmo. É o mesmo quadro, é a mesma língua, é o mesmo gesto que ele repete incessantemente, mas sempre apresentado-se novidade, com sentido, um modo de apresentação, um pensamento diferente, singular-plural.
E, com isso, talvez a "força criadora", o "dom divino", tome de assalto aquela meticulosa dedicação laboriosa a que o artista se entregue - livre e descompromissadamente - para "criar".
Assim, talvez por isso mesmo a arte seja, e não a filosofia, a melhor transição entre a teologia-religião e a ciência-conhecimento. Na sua re-invenção de valores novos, contemporâneos ao seu tempo, mas pré-existente e exatos, a arte pode abolir - e até destruir - nossa necessidade de ídolos e de metafísicas. Ela se prende ao mundo, porque liberta esse mesmo mundo e o mantém mundo-mutante-mutável.
A arte, enfim, é técnica e labor. Mas, por importante que é a "criatividade" do artista, torna-se inoportuno ceder espaço demais, ainda que ocupe mais espaço, ao treino e à repetição. A criação é o mílimetro de dignidade da arte.
E a arte é arte justamente por não ser mais-do-mesmo e não precisar se auto-justificar sendo tão diferente - e promovendo a solidão do artista-louco.
Mas, mesmo assim, não precisa ser bela. E, em sendo bela, não deixa, claro, de ser arte.
Afinal, a beleza é o estranhamento que somos capazes de suportar. Ou, como nos versos de Rilke: "a beleza é o início do Terror, devido à sua rara intensidade e, portanto, à crueldade que nos espera"
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