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Empresas em Comunhão

19:54 @ 02/11/2008

Empresas em Comunhão

Aliando o princípio espiritual “Que todos sejam Um” à doutrina da Economia de Comunhão, que envolve já oitocentas empresas em todo o mundo, o Movimento dos Focolares reúne hoje mais de quatro milhões de seguidores. Em Portugal, dez empresas trocam a “cultura do Ter” pela “cultura do Dar”, seguindo preceitos éticos de uma gestão responsável

A reflexão a seguir deseja mostrar a necessidade de se criar um espaço para dar condições de formar as pessoas, particularmente os executivos que participam da Economia de Comunhão.

 

Diante dos grandes desafios que esse Projeto propõe é necessário que o executivo seja formado nesta visão, para que seja ao mesmo tempo conceitual e prático. Que consiga bons resultados, ser excelente técnico e possa desenvolver todos os aspectos da espiritualidade da unidade nos processos humanos de desenvolvimento.

 

Evidencia-se esta falta de formação, quando observamos o uso de frases como estas: “ninguém é perfeito”, “cada um tem o seu estilo”, “todo mundo faz assim”, “não há clima em nossa empresa para falar essas coisas”, “isso é fora da realidade”, “no nosso país não dá...”, “na teoria, tudo parece bonito, mas no chão da fábrica isso não funciona”, e assim por diante. Ou conclusões como esta: “Ele é um gênio técnico, mas é intratável como ser humano”.

 

Tais premissas muitas vezes são usadas como pretexto, para não optarmos pela experimentação dos princípios da EdC, no dia-a-dia do mundo do trabalho; outras vezes servem para justificar falhas de formação e deficiências administrativas. Essas lacunas na formação geram conflitos internos nas pessoas, porque elas acabam vivendo valores diferentes nas várias atividades do ser humano, dificultando assim o desenvolvimento completo da experiência de Economia de Comunhão.

 

Desse modo, acabamos nos acomodando com essas “deficiências normais” que prejudicam o desenvolvimento da experiência da EdC e tambem  o nosso, como pessoa. Por isso precisamos descobrir uma maneira de crescer continuadamente, em formação e educação. Essa formação deve ir além da aquisição de conhecimentos técnicos, que são importantes e indispensáveis, mas não é suficiente; devemos formar a “pessoa por completo”, particularmente o “executivo” a fim de que seja competente em todos os aspectos da vida da empresa, que, na realidade, não deixa de ser uma conseqüência da sua vida pessoal. Essa conscientização e formação contínua nos dariam a sabedoria para implantar os aspectos da espiritualidade da unidade no mundo do trabalho, envolvendo todas as dimensões da vida empresarial, das mais simples, que podem parecer inexpressivas, até as mais complexas.

 

Existirão as dúvidas porque estamos à procura da “verdade”. Na vivência do dia-a-dia da EdC, notamos que o grande inimigo para seu desenvolvimento não é a dúvida e sim o medo. Nós nos sentimos pressionados constantemente pelo medo! Medo de perder as coisas que pensamos que podem nos proporcionar a felicidade; medo de errar, medo de perder a imagem que outras pessoas fazem de nós, ou daquilo que pensamos ser, medo de perder nosso capital, nossas idéias e tudo aquilo que sonhamos ter.

 

Lembro-me que quando nós fizemos essa escolha, de viver a fraternidade na nossa empresa, ou seja, quando optamos por fazer a experiência de EdC, senti medo. Medo e angústia, porque, como um alarme, me vinham idéias que haviam ficado registradas em minha memória, idéias de coisas que vivenciei em outra época. Embora esse medo fosse real, ele foi acionado por coisas que não existiam mais, por fatos registrados em minha memória. Então, não foi a nova escolha que me deu insegurança, mas foram lembranças de um passado que não existia mais. E a coragem de fazer essa escolha me fez observar esse fenômeno com clareza e constatar que havíamos escolhido o caminho certo. Isso me libertou de temores repletos de falsas idéias.

 

Uma das grandes virtudes da Economia de Comunhão é a abertura, que trará liberdade para que essa experiência venha a ser renovada como qualquer organismo vivo que evolui. É importante lembrar também que o grande propulsor dessa experiência é a ,    e as dúvidas que surgem, são elementos que irão fortalece-la e criar vida nova, eliminando o passado e nos colocando no momento presente.

 

Questionemo-nos!

 

É necessário que nos questionemos continuamente e nos desapeguemos de todos os conceitos, de todas as coisas e ideologias, para estarmos abertos à verdade contida na essência da Economia de Comunhão, que tem suas raízes na Fraternidade Universal.

 

Um outro ponto importante para a Economia de Comunhão é o acompanhamento daquilo que acontece nas empresas para que não haja um distanciamento entre a vida e a teoria.

 

Devemos lembrar que todos os trabalhos acadêmicos e teóricos, também são importantes porque nos indicam o caminho, e são necessários para provar premissas diferentes das aceitas pela sociedade. Mas tudo o que acontece nas empresas e nos pólos é o grande instrumento que irá mostrar a possibilidade de uma vida econômica nova porque contém o poder de transformação pelo exemplo. Podemos ilustrar isso com o que aconteceu com Galileu Galilei (1564-1642) no início da Idade Moderna. Ele convidou a sociedade da época a olhar pelo telescópio que havia inventado (era uma luneta montada num tripé). Com isso Galileu foi um dos protagonistas na criação de uma nova física, segundo a qual a Terra girava ao redor do Sol e que era a gravidade que nos mantinha presos à Terra. Entretanto, muitos relutaram a olhar pelo telescópio porque tinham medo de colocar em questionamento aquilo que acreditavam, ou seja, na antiga física que afirmava que a Terra era o centro do universo. Relutaram porque a constatação de que a Terra gira em torno do Sol os obrigava a mudar a concepção que tinham do Universo.

 

A EdC e o telescópio.

 

Ao ler e estudar a EdC é preciso sempre usar o telescópio, que no nosso caso são os Pólos Empresariais que dão visibilidade ao Projeto, são os faróis da EdC. Esses pólos e essas empresas deverão evidenciar a verdade que está escrita no texto da Vida, que contém a mensagem de Deus.

 

Quando perguntaram a Beethoven, o grande gênio da música, o que ele queria expressar com a 3ª sinfonia, o grande mestre respondeu: “Se eu pudesse expressar com palavras o que ela significa, não precisaria expressar com a música”.

 

Assim, somente com uma grande sensibilidade e abertura, que surgem quando vivemos a Arte de Amar, será possível captar a realidade que existe nos Pólos Empresariais.

 

A melhor maneira de nos aproximarmos e entendermos a mudança de paradigma existente na EdC é nos questionarmos continuamente e nos formarmos individualmente para olhar as pessoas como pessoas novas, sem preconceitos nem lembranças negativas, e com o coração aberto. Este exercício de reflexão nos libertará de nossos preconceitos: veremos que a Economia de Comunhão é um novo manual de Vida e traz um novo significado da economia para a humanidade.

 

Focando e refletindo

 

Com este foco sugerimos algumas reflexões para sermos mais eficazes:

 

  • Alinhar pensamentos e atividades que os novos paradigmas exigem. Quando nos libertamos da educação tradicional e procuramos novos conhecimentos, podemos perder a essência, o foco do que estávamos procurando, que é a felicidade do ser humano, usando a economia como ferramenta para este objetivo;
  • Incorporar todo o desenvolvimento que acontece nas empresas, nos pólos empresariais e no setor acadêmico para criar uma unidade maior nas abordagens das experiências das empresas e das teorias desenvolvidas pelos acadêmicos;
  • Focar a essência da EdC nos princípios e valores que devem ser imutáveis. Não se deter em princípios técnicos e administrativos, que sofrem constante evolução;
  • Integrar as empresas e a EdC no contexto global da sociedade, não permanecendo apenas no âmbito da empresa e do Movimento dos Focolares;
  • Criar espaços para diálogos e comunhão nos seguintes aspectos: debates sobre assuntos lógico-racionais, desenvolvimentos de idéias intuitivas, motivação de experiências estabelecendo relações com movimentos teóricos, acadêmicos e gerenciais que devem ser interpretados e adaptados para a realidade da Economia de Comunhão.

 

Para que isso aconteça sugerimos dez itens/assuntos a serem desenvolvidos por pessoas competentes, num ambiente de fraternidade, onde não há aquele que ensina e outro que aprende, mas juntos descobrirmos caminhos para uma formação mais intensa e completa dos agentes da EdC, o que, com certeza, trará uma renovação continuada a esse Projeto.

 

(1) O papel político da EdC:

 

  • Contribuir para o desenvolvimento de uma sociedade sustentável, visto que a EdC propõe uma otimização de sete princípios, segundo o círculo das cores, os quais priorizam a vida da empresa e não a maximização dos lucros;
  • Ter consciência do poder de influência que a EdC pode exercer na comunidade, e tornar-se agente dessa transformação;
  • Demonstrar o valor que essa experiência tem perante a sociedade, ou seja, ela pode contribuir nas mudanças sociais, e a ESPRI é um grande exemplo disso, pois é formada por aproximadamente 3.600 acionistas pequenos que, juntos, tornaram possível a experiência do pólo Spartaco;
  • Propor uma nova inserção social, mais justiça e, consequentemente, um novo conceito ético;
  • Globalizar novos valores nesse novo conceito de sociedade mundial que está surgindo;
  • Trazer um bem-estar social e econômico, grande instrumento político de mudança, sem esperar das grandes esferas, mas a partir do exemplo pessoal;
  • Oferecer uma proposta de uma utopia realizável para que as pessoas, principalmente os jovens, tenham esperança no futuro.

 

(2) EdC como agente de transformação:

 

  • Quebrar o círculo “vicioso” onde os problemas crônicos na economia geram outros problemas, e transformá-los em um círculo “virtuoso”, em que as soluções gerem motivação para outras soluções;
  • Estabelecer estratégias em valores e princípios novos que substituirão, de maneira programada e gradativa, os que existem hoje;
  • Contextualizar e definir a EdC dentro das grandes tendências da economia;
  • Liderar as mudanças no mundo econômico. Para que isso aconteça, “enxergar” o futuro a ser atingido.

 

(3) O executivo como catalisador de resultados:

 

  • O empresário da EdC deve acreditar no impossível e ser capaz de viabilizá-lo encontrando e criando essas oportunidades;
  • O empresário da EdC deve motivar a todos para superar o âmbito exclusivamente racional;
  • O empresário da EdC deve fazer as coisas acontecerem para não ficar apenas no nível de idéias;
  • O empresário da EdC deve agir e se responsabilizar pela sua empresa, sem se voltar para si mesmo, mas pensar sempre no todo da experiência.

 

(4) O executivo como técnico:

 

  • Deve ser competente e dominar a técnica do que irá produzir, levando a empresa a ter sucesso. De fato, são requisitos para o empresário da EdC: ser competente, honesto e confiável;
  • Deve ter visão ampla do funcionamento da empresa no contexto que ela está inserida e acompanhar as novas tecnologias;
  • Deve desenvolver novas técnicas administrativas alinhadas aos princípios da EdC.

 

(5) O executivo como negociador:

 

  • Deve ser capaz de desencadear negócios e levá-los a uma conclusão satisfatória;
  • Deve conquistar confiança das pessoas e negociar de forma aberta e transparente;
  • Deve negociar fundamentado nos valores da EdC e criar relacionamentos autênticos;
  • Deve transformar conflitos em processos de conhecimento mútuo.

 

(6) O executivo como educador:

 

  • Gerar sucesso, que deve vir da aprendizagem coletiva e não unicamente do saber individual;
  • Valorizar as premissas que cada pessoa acredita para criar sinergia e unidade no grupo;
  • Intensificar o diálogo para aumentar a capacidade de pensar como grupo (inteligência coletiva);
  • Desenvolver técnicas modernas de formação para potencializar a capacidade interior das pessoas;
  • Ser exemplo sempre, pois o exemplo é uma dimensão importantíssima para o aprendizado.

 

(7) O executivo como líder de líderes:

 

  • O executivo deve ser um motivador de pessoas para potencializar o grupo;
  • No executivo de EdC destaca-se um tipo de liderança que é mais serviço do que poder;
  • O executivo deve liderar um processo de mudança contínua;
  • Deve estimular o comprometimento e o envolvimento de todos no grupo;
  • Deve desenvolver a capacidade de comunicação e transmissão de idéias, reuniões e entrevistas, entre outros.

 

(8) O executivo como exemplo de vida:

 

  • Deve estar sempre motivado pelo Ideal de um mundo melhor – consciente de ser ele um agente transformador;
  • Desenvolver a sabedoria de vida, para poder ser modelo, evitando  cultivar apenas o conhecimento técnico;
  • Usar como didática os sete princípios da EdC e, para isso, desenvolver a “força interior” através do Ideal da Unidade.

 

(9) O executivo como cultivador de valores:

 

  • Ter como essência da estratégia no processo de desenvolvimento da empresa, a espiritualidade de comunhão;
  • Aprender com o passado, mas estar sempre livre para viver intensamente o presente;
  • Possuir, como referência, os valores de EdC para o desenvolvimento pessoal e, pelo exemplo, transmitir isso a todos aqueles que estão ao seu redor;
  • Formar as pessoas para que entendam as vantagens de se manterem unidos.

 

(10) O executivo como comunicador:

 

  • Criar uma estrutura na empresa capaz de gerar uma boa intereção entre seus membros;
  • Investir num verdadeira intercâmbio para conciliar interesses;
  • Sintonizar e manter a unidade nas idéias entre as empresas de EdC, através de uma comunicação eficaz e permanente;
  • Saber transmitir a essência da experiência da EdC.

 

Estas reflexões sobre a Economia de Comunhão focalizam prioridades, ampliam a percepção da realidade e adicionam valores humanos à economia, o que significa abrir caminhos para um novo paradigma. Entretanto estes novos paradigmas não nascem por definição, mas são construídos. Eles nascem da escolha que fazemos provocando o surgimento de uma consciência coletiva que liga o conhecimento e ação de forma competente. Só assim conseguiremos mudar a cultura da dominação, da acumulação, do consumismo e do individualismo, para o paradigma da unidade e comunhão.

 

 

Rodolfo Leibholz,1 de maio de 2007.

congresso EdC

23:47 @ 23/10/2008

Depois de três meses do nosso congresso EdC, é com grande alegria que nos dirigimos a vocês que estiveram conosco naqueles dias extraordinários, mas também a você que, por algum motivo, não pôde estar presente. Para revivermos aqueles dias, retomamos os momentos mais significativos do evento. Esta foi a primeira vez que o Congresso EdC realizado aqui na Mariápolis Ginetta não foi nacional, e sim regional, para a região de São Paulo e da Mariápolis Ginetta, nos dias 21 e 22 de junho. Éramos 206 participantes, com alguns representantes de outras regiões, além de uma do Peru e um dos Estados Unidos. Tinha-se a impressão de que Chiara estava bem presente e, do céu, parecia estar conduzindo cada momento, acompanhando e encorajando os participantes a concretizarem o seu sonho. O encontro foi encerrado com uma primavera de idéias, propósitos, novos compromissos, novos desafios, nova coragem. Através de vários flashes percebe-se que o convite a uma comunhão na liberdade, expresso no painel, foi acolhido por todos. Já na abertura, Chiara, em sua mensagem dirigida aos participantes do Congresso realizado em Castelgandolfo, em novembro de 2007, e a nós neste Congresso, convida todos os empresários da EdC a crescerem e se fortalecerem no carisma da unidade, para exercerem uma gestão empresarial, segundo os sete aspectos da espiritualidade da Unidade. As experiências relatadas evidenciaram, mais uma vez, a fidelidade do empresário ao projeto, ao superar as condições derisco, as adversidades em que se desenvolvem as empresas em geral e também as de EdC. A presença da Comissão Central da Economia de Comunhão, na pessoa de Léo Andringa, indicou o atual empenho de fazer emergir da unidade entre os membros da EdC o pensamento e o coração de Chiara. As palestras mobilizaram os corações, desencadeando ou confirmando nas empresas as estruturas de comunhão. Num outro vídeo, Chiara assegura aos empresários que o aspecto mais importante deste projeto é ser uma Obra de Deus, e que Ele é o autor principal que suscita e acompanha as ações. Faz um apelo a todos a deixarem “Jesus agir”. Mostra que não é possível mais combater a globalização e o terrorismo com recursos diplomáticos ou militares, mas com forças espirituais, com a mobilização dos corações. A comunhão presente no carisma e na EdC, é enraizada no amor, uma esperança para o futuro da humanidade. O vídeo sobre a EdC, editado por Margareth Cohën, proporcionou a oportunidade de dar uma volta ao mundo para conhecer as empresas espalhadas na face da terra, e ver o desenvolvimento da Economia de Comunhão. A carta póstuma a Chiara, escrita por Luigino Bruni, traduziu os sentimentos de todos os apaixonados pelo carisma e vocacionados em EdC, em agradecimento a ela por nos ter gerado, cultivado e encorajado a transformar em vida a possibilidade de sonhar com o impossível.

Caríssimos participantes do Congresso EdC

21 e 22 de Junho

Mariápolis Ginetta

São Paulo

Chiara Lubich

23:38 @ 21/10/2008

No início dos anos 40, Chiara Lubich, uma jovem com pouco mais de 20 anos, ensinava entre as carteiras das escolas do ensino fundamental de Trento. Tinha se matriculado na faculdade de filosofia da Universidade de Veneza, impelida pela busca da verdade, quando, justamente no clima de ódio e violência da Segunda Guerra Mundial, diante do desmoronamento de todas as coisas, descobre Deus como o único Ideal que permanece. Deus, descoberto como Amor, irá iluminar e transformar a sua existência e a de muitos outros, mostrando-lhe o objetivo da vida: colaborar na atuação das palavras do testamento de Jesus "Que todos sejam um".
Com o passar do tempo, compreender-se-á que naquelas palavras se encerra o projeto original de Deus: compor a família humana na unidade.
Durante estes anos, iniciou-se uma história onde estão contidas as sementes do futuro desenvolvimento.

Em pouco mais de 50 anos, da experiência do Evangelho vivido no dia-a-dia tem início uma corrente de espiritualidade, a
espiritualidade da unidade que suscita um movimento de renovação espiritual e social de dimensões mundiais: o Movimento dos Focolares.

Ao contrário da economia consumista,
baseada na cultura do 'ter',
a Economia de Comunhão é
a economia da partilha.
Isso pode parecer difícil, árduo, heróico.

Mas não é assim, pois o homem,
criado à imagem de Deus, que é Amor,
encontra a sua realização
justamente no amor, na partilha.
Esta exigência reside
no mais íntimo do seu ser,
quer ele tenha fé ou não.

E é nesta constatação,
comprovada pela nossa experiência,
que está a esperança de uma difusão
universal da ECONOMIA DE COMUNHÃO.

 

Chiara Lubich - Maio de 1991

A economista, ativista e futurista Hazel Henderson, que escreve para mais de 250 jornais no mundo inteiro, é uma das principais porta-vozes dos movimentos sociais que criticam o sistema econômico atual. Autora de livros como Além da Globalização e Cidadania Planetária, Hazel fala de uma economia do amor e defende a inclusão de critérios de qualidade de vida para calcular a riqueza das nações.

No Brasil, o Instituto Vivendo Valores (IVV), presidido pelo consultor australiano Ken O´Donnell, abriu espaço para o diálogo sobre valores humanos dentro das organizações. Com base na filosofia da Brahma Kumaris World Spiritual University (BKWSU), organização não-governamental internacional cujo objetivo é ajudar indivíduos a experimentar sua própria espiritualidade, tem trabalhado para fazer com que as pessoas entendam o significado e as conseqüências da ação individual interligada com a ação global.

Vale lembrar também o trabalho de Oscar Motomura, um dos maiores especialistas brasileiros em treinamento de executivos, que também tem insistido que as pessoas devem procurar formas mais criativas de ser úteis. Num de seus artigos, Motomura defende a idéia de "uma educação voltada para a formação do caráter, do resgate da essência do ser humano e da formação de pessoas capazes de servir a seus semelhantes".

Apesar de essas idéias parecerem paradoxais para os dias de hoje, algumas empresas espalhadas pelo mundo já demonstraram que é possível fazer negócios dentro de um capitalismo transformado. A Economia de Comunhão (EdC), que nasceu durante a Segunda Guerra Mundial, no Movimento dos Focolares, ligado à Igreja Católica, é um exemplo de como é possível incluir valores como felicidade, realização, participação, confiança e desenvolvimento sustentável na maneira de fazer negócios. Baseada no humanismo cristão, a EdC surge como um novo paradigma, que rejeita o individualismo e propõe novos parâmetros para as relações econômicas. Hoje, o Projeto de Economia de Comunhão na Liberdade conta com 790 empresas no mundo todo. Desse total, 125 se encontram no Brasil.

"A EdC não está baseada na cultura do ter e do acúmulo de bens, mas na cultura da partilha", explicou o empresário Luís Colela, durante o evento Da Economia Solidária à Economia da Comunhão, realizado no final de agosto de 2007, pelo Núcleo de Estudos do Futuro (NEF) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). "Isso não significa que a pessoa não possa adquirir propriedades etc. O que queremos dizer é que o indivíduo deve prestar atenção em outros valores que não sejam os da cultura consumista", diz. "Estamos falando de pequenas ações que mudam paradigmas consagrados", continua.

A EdC surgiu no Brasil quando a italiana Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares visitou o país em 1991. Ao entrar em contato com o enorme contraste social brasileiro, Chiara propôs a criação de empresas que teriam como objetivo acabar com a miséria no mundo. Segundo Chiara, essas empresas deveriam ser dirigidas por pessoas competentes e honestas, e os lucros obtidos seriam destinados a três finalidades: o desenvolvimento da empresa, o atendimento a necessidades dos pobres e a formação de jovens. "Isso não é o mesmo que fazer filantropia, pois a intenção da EdC é envolver as pessoas. Eu diria que na EdC você pesca junto com o funcionário", explica Colela.

Desde então, algumas empresas já existentes no Brasil passaram a atuar de acordo com os princípios da EdC. Outras foram abertas especialmente para atender a demanda feita por Chiara. É o caso do Pólo Empresarial Spartaco, complexo formado por seis empresas que foi criado em 1994, em Cotia (SP). Projetado para servir de exemplo para o mundo todo de como a EdC pode funcionar, o Pólo Spartaco foi construído numa região com baixo índice de desenvolvimento humano e econômico. Ali trabalham cerca de 130 pessoas recrutadas na região. "O pólo funciona numa área muito carente, na qual os indivíduos têm poucas chances de arrumar um bom emprego", explica Odilon Augusto Souza Júnior, presidente da Rotogine, empresa ligada ao pólo que atua com rotomoldagem de plástico e sistemas de reúso de água.

A Rotogine começou suas atividades graças ao francês François Neveus, membro do Movimento dos Focolares, que doou à empresa uma tecnologia de tratamento de efluentes. Hoje a Rotogine fatura R$ 3 milhões por ano. Desse total, 10% são remetidos para o centro do Movimento Focolares, em Roma, na Itália, outra parcela é destinada a cursos para formação de jovens e o que resta é reinvestido na empresa.

Trabalho em Família

As histórias de ajuda mútua entre os donos de empresa e seus funcionários são comuns dentro da EdC. A Rotogine, por exemplo, já ajudou seus funcionários a comprar terrenos e a construir casas, por meio de empréstimos que são pagos sem taxas de juros, num período acordado com a empresa. "Uma vez fomos visitar um funcionário e descobrimos que ele morava num barraco. Pensamos que não seria justo uma pessoa que trabalha em nossa empresa viver em condições tão ruins quanto aquelas", afirma Odilon. "Procuramos sempre conversar com nosso público interno para saber como anda a família, os filhos e tudo o que está ligado ao seu bem-estar", continua.

Além disso, a empresa costuma orientar os empregados em relação a negociações comerciais e sobre os riscos que alguns tipos de empréstimo podem trazer. Quando há uma gestante no corpo de funcionários, alguém da empresa acompanha o pré-natal e oferece toda a assistência de que a mulher precisa. A empresa também tem plano de carreira para seus empregados, política de cargos e salários, e oferece cursos para desenvolvimento profissional. O resultado é um ambiente de trabalho mais harmonioso e familiar. De acordo com Odilon, "ninguém quer deixar de trabalhar aqui no pólo e a maioria dos nossos funcionários está conosco desde a abertura da empresa".

Isso não significa que não ocorram demissões. Já houve casos de pessoas que não se adaptaram ao clima da empresa e tiveram de ser dispensadas. "As empresas da EdC funcionam como uma organização qualquer. Aqui não é cabide de empregos", explica Odilon. "Mas geralmente a demissão só acontece quando a pessoa se comporta de forma inadequada. Em caso de mau desempenho, procuramos dar ao funcionário todo o apoio necessário para que ele desenvolva bem sua função."

Um caso curioso de demissão é o de José Amilton, eletricista carioca de 42 anos, que trabalhou na Rotogine por quatro anos. "Um dia, o serviço no setor elétrico acabou e José Amilton ficou encostado em outra área, sem muito o que fazer e sem motivação, pois não estava mais atuando naquilo de que gostava", conta Odilon. "Seria o caso de demitir o funcionário, mas, em vez disso, decidimos que o bacana seria ajudá-lo a abrir sua própria empresa." Dessa forma, José Amilton se tornou fornecedor da Rotogine e também passou a realizar serviços para outras empresas.

Isso só foi possível porque, enquanto trabalhou no pólo, José Amilton fez cursos na área e se capacitou profissionalmente. "Eu sinto que aqui na Rotogine os empregados são tratados como indivíduos. O pessoal da empresa conversa com cada funcionário e procura saber se ele está feliz ou não", afirma Amilton. "Eu, por exemplo, nunca tinha imaginado que poderia ter minha própria empresa, até que a Rotogine me fez a proposta. Trabalhando por conta própria, meu faturamento mensal dobrou."

Odilon, que trabalhou na multinacional Rockwell do Brasil durante 17 anos, garante que é muito mais feliz atuando numa empresa da EdC. "Eu me sinto realizado em saber que a forma como trabalhamos traz benefícios para outras pessoas. Numa multinacional, seria impossível fazer o que faço na Rotogine, pois lá eu não tinha poder de decisão", afirma.

O investimento inicial para a construção do Pólo Empresarial Spartaco veio da Espri S.A. Empreendimentos, Serviços e Projetos Industriais, cujo capital é constituído pela subscrição de acionistas do Brasil e do exterior que desejam contribuir com a EdC. Atualmente a empresa conta com cerca de 3.600 acionistas e seu capital social ultrapassa R$ 2 milhões.

Valores e Sustentabilidade

A Confeitaria Espiga Dourada é parada obrigatória para quem passa pela Estrada Bunjiro Nakao, que liga São Paulo a Ibiúna. Localizado na Mariápolis Ginetta, centro de formação de membros do Focolares em Vargem Grande Paulista (SP), o empreendimento é um dos grandes casos de sucesso da EdC e uma bela vitrine para o movimento. Tudo começou em 1991, quando duas moças do Focolares decidiram vender pães e biscoitos caseiros na beira da estrada. O sucesso foi tão grande que logo elas puderam montar uma barraca para comercializar seus produtos, a qual se transformou mais tarde numa pequena loja.

"Todo mundo que passava por aqui virava nosso freguês. As pessoas se encantavam com o tratamento que recebiam e voltavam sempre", conta a italiana Adriana Valle, responsável por administrar a Espiga Dourada. "Sempre tivemos vontade de abrir um lugar maior, com mesinhas para as pessoas sentarem. Eu tinha um projeto pronto na cabeça, mas não havia dinheiro para isso."

Foi quando um cliente antigo tomou conhecimento de que a Espiga Dourada fazia parte da EdC e fez uma doação para o empreendimento. "Eu me lembro que para aumentar nosso negócio pensamos em contratar um padeiro famoso. E ele nos perguntou quantos sacos de farinha a gente usava por dia. Respondi que era um só. E então ele disse que estávamos fazendo uma grande besteira em aumentar nossas instalações, pois não teríamos lucro. Hoje já usamos seis sacos de farinha por dia, e a empresa tem faturamento mensal de R$ 80 mil", comemora Adriana.

O motivo desse sucesso, segundo a empresária, é o respeito pelas pessoas. "Aqui, cliente, fornecedor e funcionário são sempre bem tratados. Acredito que toda pessoa tem o direito natural de ser respeitada. Nosso empreendimento dá certo porque dialogamos muito com todos que estão ao nosso redor. E, quando você trata bem uma pessoa, coisas boas voltam para você."

Apesar de não fazer parte do movimento de responsabilidade social, a Espiga Dourada tem aspectos de uma empresa sustentável. Sua arquitetura, com grandes janelas e telhado de vidro, permite uma iluminação natural. Os arredores da confeitaria são bem arborizados e a sombra oferecida pelas árvores possibilita um ambiente agradável e sem uso de ar condicionado. O lixo da empresa é reciclado e, segundo Adriana, existe uma preocupação muito grande com o consumo de energia, telefone e água. "Converso com todos os funcionários sobre a importância de economizar esses recursos. No último mês, economizamos R$ 500 na conta de luz", afirma. "Também costumamos vender as latinhas deixadas pelos clientes. O dinheiro é doado a quem necessita."

Economia de Comunhão e RSE

Uma pesquisa realizada pelos professores Mario Couto Soares Pinto e Sergio Proença Leitão, ambos do Departamento de Graduação em Administração de Empresas da PUC-RJ, demonstra que as empresas que fazem parte da EdC têm um forte sentido ético e são altamente competitivas e socialmente responsáveis. Esse trabalho resultou no livro "Economia de Comunhão: Empresas para um Capitalismo Transformado, publicado em 2006 pela editora FGV. Com base na teoria dos stakeholders e no movimento de RSE, o livro mostra como empresas que seguem a ideologia da EdC estão abrindo caminho para um capitalismo transformado.

Uma das conclusões de seu trabalho é a de que há uma grande compatibilidade entre EdC, teoria dos stakeholders e RSE, uma vez que todas possuem pontos em comum, como ética nos negócios e competitividade. Segundo Soares Pinto, na EdC a preocupação com os aspectos da RSE, como o respeito ao meio ambiente, por exemplo, ocorre "não por força de constrangimentos legais, mas pela inseparabilidade do resultado de suas ações".

"As empresas que fazem parte da EdC não possuem uma preocupação teórica com a RSE. No entanto, a autenticidade da proposta é tão grande que os resultados são visíveis", explica Soares Pinto. "As mudanças na gestão acontecem porque essas empresas realmente possuem tais valores. Por outro lado, muitas empresas do movimento de RSE costumam usar suas ações como forma de divulgar a marca", compara.

Durante o período de estudos, Soares Pinto testemunhou diversas situações que o deixaram impressionado. Segundo ele, uma empresa chegou a indicar os serviços de um concorrente para todos os seus clientes a fim de ajudá-lo a sair da falência. Em outra ocasião, o professor viu uma empresa ser insistentemente assediada para fabricar armas, mas os donos recusaram a proposta, mesmo sabendo que a nova ocupação iria triplicar seu faturamento.

Outra forte característica da EdC observada pelo pesquisador é a espiritualidade. "Quando cheguei para fazer esse trabalho, estava muito cético em relação a tudo que me diziam. Sempre olhei com alguma desconfiança a questão da espiritualidade, pois acredito que muitas vezes a religião pode esconder outra realidade", afirma. "No entanto, terminei meu trabalho convencido de que, nesse caso, a espiritualidade gera um comportamento positivo tanto nos funcionários quanto nos gerentes."

Para Soares Pinto, isso não quer dizer que as partes interessadas da empresa devam seguir alguma religião. "Os gerentes das empresas de EdC costumam dizer: "Se você gosta de gente, então temos afinidade. Na minha opinião, essas empresas encontraram uma forma de contornar o capitalismo de hoje. Acredito que eles estejam procurando uma terceira via."

Esta pesquisa teve como objetivo verificar se os princípios de gestão da Economia de Comunhão, caracterizada por aspectos solidários, humanos e religiosos, são evidenciados na dinâmica de uma organização que adere a esta proposta. Para isso fez-se imprescindível levantar informações sobre este modelo, pouco conhecido no meio acadêmico. O método utilizado para a pesquisa baseou-se na abordagem qualitativa, com ênfase no estudo de caso da empresa FEMAQ S.A., recorrendo-se à entrevista semi-estruturada, à observação e ao levantamento documental como técnicas de coleta dos dados. Para que o objetivo fosse alcançado, no primeiro momento foram diferenciados os conceitos da Economia de Comunhão e Economia Solidária, dado a confusão que por vezes tem ocorrido entre estes dois conceitos que subsidiam diferentes modelos. Em seguida foram abordados os conceitos teóricos fundamentais, sobre os quais a pesquisa foi desenvolvida: valores, valores organizacionais, filosofia (de vida), solidariedade, caráter e dádiva. Na terceira parte foram enfatizados os aspectos da Economia de Comunhão, sua origem, discurso e repercussão. Concluiu-se que as diversas evidências encontradas na empresa estudada, como relacionamento mais humanizado, confiança, ambiente familiar, possibilidade de ser humano (não perfeito) e outros permitem classificá-la no estilo de gestão inerente ao modelo da Economia de Comunhão.

Economia da comunhão é a denominação dada à partilha dos lucros de uma empresa em três terços: parte para aplicações na própria empresa, outra em benefício dos funcionários e outra destinada aos pobres. Difundida no Brasil a partir da Comunidade de Mariápolis, hoje a economia da comunhão é adotada por aproximadamente 80 empresas no País. No mundo, já são oitocentas, contemplando perto de 7.000 famílias. A gestão dos recursos para a população carente é centralizada, com cadastramento e renovação periódica das famílias, que recebem não apenas alimentos, mas também tratamento médico, dentário, cursos de aprimoramento e outros tipos de assistência.Rodolfo Leibholz é um engenheiro mecânico formado pela Unicamp em 1972. Em 85, juntamente com seu irmão, também engenheiro, abriu a Femaq – Fundição, Engenharia e Máquinas, sediada em Piracicaba. Passados seis anos, depois de um começo difícil, a empresa já tinha alcançado a estabilidade financeira fornecendo material fundido para os grandes da indústria automobilística e hoje também exporta para Estados Unidos, Alemanha, Argentina e África do Sul."Mesmo na época, em 91, teríamos condições de, vendendo a empresa, parar de trabalhar. Creio que seja o sonho de qualquer empresário, o ápice do capitalismo: poder parar de trabalhar", recorda Rodolfo. Mas foi justamente naquele ano que os dois engenheiros decidiram adotar na Femaq a economia da comunhão. "Não sentíamos necessidade de ficar cada vez mais ricos. Decidimos continuar gerando riqueza com os meios produtivos, mas distribuí-la, colocando o homem e o amor acima de tudo".Era uma revolução em termos empresariais e os irmãos tinham noção de que estavam colocando em risco o próprio negócio. Mas valeu a pena conferir "se o amor vence a tudo". A produção, que era de 30 toneladas homem/ano em 1985, passou para 70t em 95 e saltou para 90t em 2000. Como comparação, a média do setor é de 35 toneladas homem/ano no Brasil, 66t nos Estados Unidos e de 65t no Japão.Atualmente, os 70 funcionários da empresa produzem seis mil toneladas por ano, proporcionando um faturamento anual de R$ 15 milhões. Em 99, a Femaq recebeu o prêmio Fundação Getúlio Vargas por sua filosofia de trabalho. "Ganhamos em produtividade a ponto de poder competir no mercado externo", afirma Rodolfo. "O funcionário mostra muito mais motivação não apenas pelos ganhos pessoais em salário, condições de trabalho e oportunidade de aprimoramento, mas também por ver que pessoas pobres estão sendo beneficiadas com a sua produção".Desde 91, seis novas empresas do chamado pólo industrial de Mariápolis nasceram já sob a nova cultura. E Rodolfo Leibholz anuncia que está se associando a duas empresas, uma brasileira e outra francesa, para montar unidades de reciclagem de plásticos, seguindo a economia da comunhão. "Será nossa primeira multinacional", festeja.

"O sistema econômico, assim como existe, caminha para uma explosão. Mas se formos inteligentes, podemos "implodir" toda essa "construção", injetando-lhe um líquido novo para renová-la radicalmente a partir de dentro. Esse novo líquido poderia ser um projeto nascido no Brasil em 1991, com o nome de "Economida de Comunhão". A colocação lado a lado desses dois termos já é por si mesma provacadora. Percebo isso claramente e quem me chamou a atenção foi um agente financeiro da "City" londrina que foi à Itália justamente para enternder como se podem colocar lado a la os dois termos ..".

 
sds.
Nélio

PROJETO Economia de Comunhão

20:23 @ 16/10/2008

PROJETO Economia de Comunhão

Em 1991, com a visita de Chiara Lubich à Mariápolis Araceli, teve início, no Brasil, o PROJETO Economia de Comunhão, fruto maduro do empenho socio-econômico do Movimento. Diante do dramático quadro social do Brasil, reconhecendo a generosidade e a prontidão de seu povo, Chiara sentiu a urgência de fazer algo. De fato, assim escreveu em seu diário: (...) erradicar a "coroa de espinhos", como o cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, chama o cinturão de pobreza e miséria que circunda a cidade repleta de arranha-céus"(...) Se São Paulo, em 1890, era uma vila, e agora é uma floresta de arranha-céus, podemos ver o que é capaz de fazer o capital nas mãos de alguns e a exploração de muitos. Por que - perguntou-se - tamanha potência não se orienta à solução dos imensos problemas do Brasil? Porque falta o amor ao irmão, porque domina o cálculo, o egoísmo... Precisamos crescer até o ponto em que o bem caminhe por si. A esperança existe - ou melhor - a certeza".

      Diante desta constatação, três fatores impulsionaram Chiara a lançar naqueles dias o projeto que inicialmente chamou PROJETO BRASIL: a prática contínua da comunhão dos bens no Movimento, a exemplo das primeiras comunidades cristãs; a existência das "Mariápolis permanentes", verdadeiros laboratórios nos quais experimenta-se o que seria uma sociedade regida pelos princípios evangélicos; e a Encíclica Centesimus Annus, na qual o Papa convida à solidariedade também num sistema econômico com dimensão planetária. Com isso, amadureceu na mente de Chiara o projeto da Economia de Comunhão na Liberdade, ponto de passagem da comunhão de bens entre as pessoas e grupos à comunhão de bens dentro de um sistema econômico. Trata-se da criação ou da reestruturação de empresas, pequenas ou grandes, entendidas como comunidade de pessoas, cujos proprietários livremente distribuem os lucros de acordo com o novo critério.

       A novidade está na distribuição dos lucros para três finalidades: 1) consolidação da empresa com justos salários e respeito às leis vigentes; 2) ajuda aos necessitados e criação de postos de trabalho; 3) sustento a estruturas aptas para formar homens capazes de viver a cultura da solidariedade, a cultura da partilha. Esta idéia foi acolhida primeiramente no Brasil, com entusiasmo e concretitude, e logo se estendeu pelos cinco continentes. Estão nascendo empresas desse tipo em toda parte, implantadas por membros do Movimento, com capital e tecnologia partilhadas também entre as nações e continentes.

      Alguns estudos sobre esta experiência estão sendo elaborados, e o próprio Papa João Paulo II, em Santo Domingo, em outubro de 1992, indicou a urgência de uma economia de comunhão (pela primeira vez usou esta expressão) para superar o desnível entre o Norte e o Sul do planeta.

      CONCRETIZAÇÕES E INFLUÊNCIA

      No Brasil, aproximadamente 80 pequenas e médias empresas aderiram ao projeto lançado por Chiara Lubich.

      Surgiu, nas proximidades da Mariápolis Ginetta, o Pólo Industrial "Spartaco", com a finalidade de demonstrar a viabilidade e a atualidade do projeto, que hoje conta com 6 empresas.

       O Brasil, berço da Economia de Comunhão, em sua experiência piloto, tornou-se conhecido em todos os outros países onde o Movimento atua. De fato, onde quer que seja apresentada a Economia de Comunhão, o Brasil torna-se conhecido, como ponto de partida e atuação desse projeto reconhecidamente atual e necessário.

       A notícia do projeto chegou até a KBS, emissora televisiva coreana que enviou uma equipe de reportagem para documentar a solução que o Movimento dos Focolares oferece ao grave problema da pobreza. A audiência foi surpreendente e uma nova visão do Brasil pôde ser assimilada, segundo o que o jornalista informou posteriormente. Em Medellin, Ercília Fiorelli, empresária brasileira, juntamente com Rodolfo e Henrique Leibholz, também empresários, no Congresso Internacional sobre Gerenciamento de Sustentação, promovido pela Universidade de Antioquia, apresentaram as raízes e os fundamentos da Economia de Comunhão, ilustrando-a com experiências pessoais, que tiveram repercussões promissoras.

       Hoje são aproximadamente 850 as empresas, de várias dimensões que, no mundo, aderiram ao projeto. Na América Latina, aproximadamente 200, das quais 80 no Brasil; na Europa, 300. Um número discreto na América do Norte e na Ásia, especialmente nas Filipinas, e algumas outras na África e na Austrália.

      São dezenas as teses e monografias já concluídas sobre a Economia de Comunhão, em diferentes Universidades dos cinco continentes. Faculdades na Europa, Austrália, América Latina estão organizando seminários e congressos para estudar o desenvolvimento desta nova experiência.

       Em vários Congressos de Economia, o projeto foi apresentado e ilustrado com experiências concretas da Economia de Comunhão, em especial sobre a realidade brasileira, como em Medellin, Lion, Londres (Oxford), Budapeste, Piacenza, Lublin. Em Lion, Lublin e Budapeste, o Projeto foi apresentado pela socióloga brasileira, Vera Araújo, que atualmente integra o Centro de Estudos do Movimento, com sede em Roma.

      Em 1996, Chiara Lubich recebeu o doutorado honoris causa, em Ciências Sociais, da Universidade Católica de Lublin, na Polônia. Um dos motivos da entrega da laurea "ad honorem" foi justamente devido a Economia de Comunhão.

      O decano da Faculdade de Ciências Sociais, prof. Adam Biela, ao pronunciar a "laudatio", enfatizou que hoje "as ciências sociais buscam uma síntese dos princípios, um paradigma capaz de vencer o crescimento das ambições individuais, do excesso de autonomia do indivíduo e dos grupos elitistas que não levam em consideração o bem das outras pessoas. Um paradigma capaz de vencer a rivalidade crônica que muitas vezes é motivo de comportamentos agressivos, e também a crescente desproporção entre uma camada de pessoas que enriquecem de modo injusto e pessoas jogadas às margens da miséria, do desemprego, sem teto (...) Portanto, as ciências sociais buscam um paradigma que ajude a tornar mais civilizada a realidade social, que transforme extensas áreas de desintegração, de conflitos, de guerras e de mortes insensatas, preparadas por homens para outros homens, em espaços de integração, concórdia e benevolência recíproca entre os homens (...) É necessário propor um programa de integração social que mostre ao povo novas dimensões psicológicas, sociais, econômicas, mas também religioso-espirituais... um programa para a construção da unidade nas famílias, nos grupos profissionais, nas comunidades locais e nas relações econômicas. (...) Chiara Lubich criou um fenômeno social que pode ter o significado de uma revolução copernicana nas ciências sociais".

      É significativo o fato de que os primeiros reconhecimentos oficiais saiam do leste Europeu e da América Latina.

      Em abril-maio de 1998, Chiara Lubich recebeu um doutorado h.c. da Universidade Estadual da capital argentina; no Brasil, lhe foi conferido um outro doutorado h.c. em "Economia" pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP, pela sua inspiração do projeto da Economia de Comunhão, um novo caminho econômico aberto diante da insatisfatória resposta do capitalismo e do comunismo.

      OUTROS LINKS

       Site Internacional da Economia de ComunhãoTudo sobre a EdC, Elenco de teses já defendidas disponíveis para download, textos, notícias e outros....

       Site internacional do Movimento em portuguêsVer a página sobre a Economia de Comunhão

       Economia de comunhão na liberdade – Artigo de Alberto Ferrucci, empresário italiano, ilustrando o impacto da Economia de Comunhão nas empresas, uma análise profunda da economia e do homem econômico, e da reviravolta proposta por este novo modelo. Em português.

      The Economy of Sharing- Site Australiano, em inglês.