Grupos

 

Quousque tandem, Catilina?


Quem observa a pluralidade de nossos partidos políticos os vê com todas as tintas da desvairada sedução pelo poder.  Exemplos aí estão, no Ceará e no País.  Em São Paulo, o Democratas (DEM), ora a se abrigar sob o teto e a grife recuperada do velho PSD.  Cá entre nós, no Ceará, deputados estaduais respondem a processo junto ao Conselho de Ética e Disciplina do PSDB, por aceitarem a chamado para cargos no governo estadual
 
Na televisão, chamadas reiteradas ostenta-nos o atual  governador de Pernambuco a  nos vender a ideia da construção de um “Brasil Novo”, em sutil concorrência com os Ferreira Gomes, já que Ciro e Cid integram com ele o mesmo partido.  E cada agremiação partidária, diga-se, dispõe de seu estatuto, onde, acima de eventuais interesses privados, ostentam-se objetivos e princípios programáticos, a se seguirem nos três níveis de nossa federação.
 
Há sim, uma pluralidade de siglas em nossa vida nacional, algumas delas desconhecidas pela grande maioria de nossa população.  E uma revisão de nossas agremiação políticas cremos que é tempo de ocorrer.  Na verdade, os partidos se fragmentam. literalmente partindo-se em facções diversas, reduzidas, por vezes, às ideias e vontade de um só líder.  O poder, diga-se, seduz os partidos para perto de si, em troca de cargos e, nesse jogo, “objetivos e princípios programáticos” caem por terra... 
 
Esse, o quadro no País, regiões e cá entre nos.  Os partidos ostentam seus estatutos (princípios, objetivos e estrutura).  Finda a eleição, o poder tenta atrair-nos todos para seu jogo.  Assim, por tempo, temos percorrido nossa jornada política.  No passado, a velha UDN (União Democrática Nacional), o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro)  dentre outros...
 
Quosque tandem, Catilina? (até quando, Catilina?)
 
Marcondes Rosa de Sousa
Professor da UFC e da UECe

Dilma, a presidenta? O Povo - 25.02.2011 Li na imprensa a Coluna Conversa com a Presidenta (sic). No texto, em negrito, a referência, em todo ele, à forma “presidenta”. Na foto, a presidenta com a faixa verde-amarela. E aí, numa faixa esverdeada, a observação aos leitores: “Enviar a pergunta à presidente Dilma... Revisor de jornal por anos e professor da área de língua e literatura, vou até meus dicionários, com o propósito, sei lá, de derrubar do cavalo o “lulês”... “Presidenta”, diz-nos o Instituto Antônio Houaiss, no volumoso e moderno Dicionário Houais da Língua Portuguesa, que o vocábulo é a mulher que preside um país ou uma organização. Antenor Nascente segue a mesma linha em seu Dicionário da língua portuguesa (2004). E entre outros tantos, Silveira Bueno, em sua coleção Grande Dicionário Etimológico-prosódico da Língua Portuguesa (Edição Saraiva). E termino enfim por cair eu do cavalo, ao voltar à palmatória de dona Ester, mãe de Gerardo Melo Mourão. Um dia, numa classe de alunos dos vários níveis, deu-me ela a palmatória e mandou que desse bolos em todos. Lelete Mourão foi a primeira. Lançou-me ela olhar de piedade. Deixei cair a palmatória em tom suave. Furiosa, a professora ensina a todos como imprimir forte bolo... No Seminário em Petrópolis, aprendi com Dom Cintra a distinção entre humildade e vaidade. Melhor média, a minha. Com o “não mereço”, recuso e troféu. Humildade, nasce do húmus, o chão. Vaidade, do vazio. Em Campinas (SP), no Seminário da Imaculada, Monsenhor Luiz de Abreu. Um dia, ouço-o a declarar em bom som: “Ao melhor aluno, não mais que 9. Ao melhor professor, não mais que 9,5. E 10 apenas para Deus!” E após pausa: “Dei o primeiro dez”. É verdade: São Paulo exporta café e o Ceará, o talento. Razões a Lula, caí do cavalo... Marcondes Rosa - Professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará

Marcondes em entrevista na TVE a Ricardo Guilherme

 

Ideário nascido do barro do chão

O Povo - 03.12.2010

 

Eleições. Num só dia, apuração e proclamação dos eleitos. Campanha acirrada, Lula cabo eleitoral da candidata em sua primeira eleição. Nela, Tiririca, o palhaço nordestino em São Paulo com votação a eleger quatro deputados. O senador Miguel Malta (PR/ES) acredita, diz a Revista Veja, que o palhaço pode contribuir muito na defesa dos 14 milhões de analfabetos no País. Por tal razão, a proposta do senador para a abertura de votação dos analfabetos. Acredita ele que nossa atual legislação é injusta com os analfabetos. Lula é semianalfabeto, diz ele, e nem precisaria saber ler e escrever. Pode ter assessores para isso.

 

Em nossas eleições recentes, reacenderam-se as disputas entre paulistas e mineiros. O PT mineiro já notificou 15 prefeitos aderentes ao “dilmasia” (apoio ao tucano Anastasia). E Serra ora a postular a presidência do PSDB, também ambicionada pelos mineiros. No Ceará, queixa-se o governador de que os Ferreira Gomes, ora no PSB, já ensaiam migrar para o PRB do vice-presidente José de Alencar.

 

Dias atrás, participo de reunião do Conselho de Ética e Disciplina do PSDB cearense. E nele me vem todo o pensamento de Celso Furtado, na palestra “Dos ideais do CIC a uma prática de governo”, de Tasso Jereissati. Fernando Henrique Cardoso, que por aqui passava à cata de adeptos para a então nascente social democracia, assistia à palestra após o debate. E terminou por confessar: “Mas esta é que é a social democracia que buscamos – a, como o baião, nascida do barro do chão”.

 

Nas discussões sobre as posturas antiéticas, no PSDB cearense, técnicos catalogavam facetas das traições. Até que voz mais ponderada traduziu-nos a preocupação: “Não devemos ter olhos voltados para o retrovisor, mas lançados para a refundação de um ideário social democrático à nossa frente”.

 

É o que esperamos nós todos.

 

Marcondes Rosa de Sousa

marcondesrosa@gmail.com

 

ESCREVE MENSALMENTE 

 

 

 

Quem paga a música escolhe a dança?

 

Marisa Lajolo [1]

 

Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso.

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima  e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.  

    Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá  não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça. 

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o  rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida,   quer proibir de integrar  acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE  acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são  expressões pelas quais  Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns  podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis.  Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900)   traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho.  Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta  no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação - manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta  face ao que lêem.

 

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.  Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que  quem paga o livro escolha  a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos. Trata-se de uma idéia pobre,  precária e incorreta que além de considerar as crianças como  tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que  a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário-  pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis  coincide com o lamento geral  – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira.    Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir,  a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções,  estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores  . .  

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho”, a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância  de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ;  (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado   e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso  equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida  transforma livros em produtos de botica, que devem circular  acompanhados de bula com instruções de uso.  

O que a nota exigida  deve explicar ?  o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura  ? A quem deve a editora encomendar  a nota explicativa ?  Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é  um livro racista ?  Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC ? 

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro .  Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada.  E este modelito da mordaça de agora talvez seja  mais pernicioso  do que a ostensiva queima de livros em praça  pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa  Pátria amada idolatrada salve salve.  E salve-se quem puder... pois desta vez  a censura não quer determinar apenas  o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como  se deve ler o que se lê!

 

1) Marisa Lajolo é Profa. Titular (aposentada) da UNICAMP; Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie;  Pequisadora Senior do CNPq.; Ex Secretária de Educação de Atibaia (SP);  Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro  de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil) , obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2009 como melhor livro de Não Ficção.  

 

 

 



 

 

 

O voto em Tiririca

 

O Povo - 05.11.2010| 01:30

Dia de eleição, segundo turno. Como no primeiro, preferi ir até minha seção de táxi, em papos com o motorista. Em quem vota o senhor? Respondo-lhe. Ele me indaga o processo pelo qual seu voto seria propositalmente nulo. E o papo resvala para Tiririca, o palhaço, que já dera a resposta do porquê não se candidatara, em sua terra, o Ceará:   “É que, lá, na minha terra, eles não são abestados”...

 

Insólita esta eleição. Nela, contamos com o próprio presidente da República, onipresente, em todo o País e a toda hora, nos comícios e na televisão, como cabo eleitoral, a pedir votos para sua candidata, Dilma Rousseff, como a primeira mulher, a “presidenta”, no dialeto de Lula... E, nessa onda, terminaria por derrubar históricos políticos, como Tasso Jereissati, no Ceará, em seu repisado jogo do “quem vota em um vota no outro e quem vota no outro vota no um”...

 

O Nordeste terminaria por carrear os mais altos índices para a candidata de Lula. Isso, pouco se falando de desenvolvimento da Região, de presença maior da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), de ideias deixadas por Celso Furtado. Passados os ataques entre os dois candidatos, Dilma e Serra, terão de sobressaltar as eventuais baixezas entre eles. Deputados, senadores, governadores e os diferentes partidos, na construtiva dialética de seus pontos e contrapontos, terão que olhar em frente para o País, num esperado diálogo em prol do Brasil.

 

Em passado não tão distante, figuras como o animal Cacareco, entre muitas, foram a expressão do popular protesto contra nossa política. Hoje, como procurava o motorista que me levou para a urna eletrônica, tal expressão se torna mais difícil. E Tiririca foi a expressão dos paulistas para a nossa Câmara alta, que terá que rever ética e política...

 

Cidadãos, assim esperamos!


Marcondes Rosa de Sousa é professorf. da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará

 

E-mail marcondesrosa@gmail.com

 

 

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A Social Democracia Brasileira

 

O Povo - 08.10.2010

 

Eleições. Cedo, levanto-me. Sou dos primeiros a votar. Ao sair, uma anciã me aborda. “Votou contra a onda de corrupção que assola o País?” Polegar para cima, digo que sim. No táxi, o motorista me dá conta da compra de votos nos bairros, no Centro e no Interior. Ao final da noite, a notícia: Tasso não conseguira se eleger.

 

Conheci Tasso quando, pró-reitor de extensão da UFC, aguardava eu um dia Celso Furtado, então retornado ao País, que vinha, por mediação de Violeta Arraes, para os Encontros Culturais. No aeroporto, conheci os “jovens empresários do CIC”, ali à espera de conferencista que não viera, liderados pelo governador Gonzaga Mota, que quis abraçar seu professor. Celso topou antes passar pelo Centro Industrial do Ceará (CIC). Depois, retornaria por uma quinzena.



Beni Veras, então a assessorar Tasso governador, pede-me que, ghost writer, esboce roteiro para a palestra “Dos ideais do CIC a uma prática de governo”. Que ideais? – indago-lhe. Ele, a sorrir, sugere-me que os extraia da prática... Fernando Henrique Cardoso assistiu a essa palestra, sentenciando ao final: “Mas essa é que é a social democracia brasileira. Não a abstrata que importamos da Europa”.
Ciro, tive-o, coordenador do 1º Ciclo de Humanidades, como aluno.



Tasso governador, elegeria ele prefeito de Fortaleza. Quando pró-reitor de Extensão, aqui realizamos o Festival de Fortaleza do Cinema Nacional e a quinta edição do internacional FestRio. Depois, intriga-me ao chegar a seu gabinete, ele governador, e ver foto que, no ângulo de quem a tirou, sugeria queda de braços dele com Tasso. E, nordestino, vejo este agora retrair-se do projeto político que iniciamos: http://www.almacarioca.net/luiz-inacio-nao-veio-ver-celso-joao-ubaldo-ribeiro/. E o clamor geral é que ele não se afaste dos rumos outrora iniciados.



Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

http://www.almacarioca.net/luiz-inacio-nao-veio-ver-celso-joao-ubaldo-ribeiro/

               Gilberto Gil

      (De onde vem o baião"

 

 

Em busca da felicidade concreta

O Povo - 10/09/2010

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Conheci-o dos tempos em que, ao coordenar o 1º Ciclo de Humanidades, na Universidade Federal do Ceará (UFC), ele já demonstrava, à frente do Grupo C4, sensível capacidade de liderança entre os estudantes. Algum tempo depois, no marketing político, dava conta dessa vocação no envolvimento de grupos diversos mais amplos.

 

Agora, ali estou em sua casa e a convite seu, ele a mostrar-me, didático, tese sua de doutorado, no Exterior, a eleger como norte e motivação entre as pessoas a busca concreta de sua felicidade. Papel dos grupos, o divisar, entre eles próprios, dos horizontes a lhes pautar a história. E o dos intelectuais, o apontar desse norte, a explicitar-se em temas, sob o clássico lema da unidade na diversidade.

 

Aos poucos, vou entendendo melhor os pontos básicos da tese do outrora aluno. E passo a entender a fugacidade de nosso marketing político, construído de cima para baixo, as bases previamente não consultadas, pouco sobre isso tendo a dizer. O inverso disso, tenta o anfitrião mostrar-me, em experiência com a edição de jornais extraídos dos encontros e papos, em bairros e gerações diferentes de Fortaleza e de algumas cidades do interior cearense. Aos poucos, do chão da realidade aos anseios dos sonhos, é possível ver-se a construção gradativa e concreta da felicidade...

 

Folheio exemplares de jornais oriundos e em circulação em diferentes bairros de Fortaleza e comunidades do interior do Estado. Neles, visível a conotação concreta de uma política que se arranque do árido barro do chão, a buscar uma felicidade concreta.

 

Longo o papo que ali tivemos. Nele, a necessidade de, nessa linha, rever-se não só nosso marketing eleitoral como nossa própria atividade política, orientando-se para a construção de uma democracia real como ora nos propõe o ex-aluno de outrora, Pedro Carvalho Neto.

 

Marcondes Rosa - Professor da Uece e da UFC

marcondesrosa@gmail.com

 

Rádio Universitária ontem e hoje (Marcondes Rosa de Sousa

13:33 @ 14/08/2010

Rádio Universitária ontem e hoje

 

 

 

Marcondes Rosa de Sousa  

Professor da UFC e da Uece

O Povo - 13/08/2010

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Confesso-lhes a emoção ao depor em vídeo, na Rádio Universitária, sobre seus primeiros momentos, quando, assessor de planejamento do reitor Paulo Elpídio, dávamos corpo aos anseios “de canais mais amplos na comunicação entre o mundo acadêmico e o povo”, expresso em seminário geral. Nascia aí a rádio, com estímulo do Ministro Eduardo Portella e da Rádio Jornal do Brasil.

 

Legava-nos sinal fraco o Dentel. Acalmava-nos, ao trio conceptor da emissora, já no ar, em caráter experimental, Rodger Rogério: “Esquenta não” convidando-nos, a Clóvis Catunda e a mim, para um filme científico.

 

Era a história de ponte que se derrubara com o simples soprar de uma brisa, na mesma frequência.  Nos estúdios da emissora em experiência, adentra o professor Liberal de Castro, a expressar revolta contra as críticas à Universidade Federal do Ceará (UFC).

 

É que os intelectuais, em pesquisa recém feita, queriam um busto ao boticário Ferreira, mas o povão queria uma fonte. “Eureka, acordei. A água pode ser essa brisa”. E, de Alencar, ocorria-me: “Iracema saiu do banho, o aljôfar da água ainda a roreja como a doce mangaba que corou em manhã de chuva”.

 

Na Rádio, em experimentação, a água passamos a jogá-la em burborinhos a se confundir por meio de poemas, letras de música, em tudo. Ao final, o bordão: “Rádio Universitária, valorizando e repensando o Nordeste”. Guilherme Neto nos traz papo com Edson Queiroz, que descobria ter a água mais valor que o gás...

 

Hoje, “grafifeiro” da Rádio Universitária, na expressão de Paulo Elpídio, sinto o desejo de todos os cearenses no sentido de que a UFC estenda-se para além do Polo Cultural do Benfica, em todo o Ceará, levando mais longe o ensino, a pesquisa e a extensão. A educação, estendendo-se como aljôfar da água a rorejar-nos...

 

 

Que país é este? (Marcondes Rosa de Sousa)

14:26 @ 17/07/2010

 

 

Que país é este?

O Povo - 16/07/2010

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             Pela manhã, nos jornais cearenses que assino, o impacto da manchete: “Casal de empresários é morto em casa de praia”. Chocado, absorvo a matéria em seus detalhes, perplexo ante o crime.

 

            Nas revistas que me chegam, o crime em detalhe de Bruno, goleiro do Flamengo, levado afinal à prisão. Na Internet, são cada vez mais frequentes as listas dos “fichas sujas”, num apelo aos eleitores para que lhes neguemos o voto. Entre educadores, cresce a intensidade dos bullyings – as violências físicas ou verbais, mais frequentes, a cada ano, em nossas escolas.

 

            Em meio a tudo isso, eis que, em minha conta bancária, sou surpreendido com a notória agressão, vítima eu a sofrer de estelionato: “Artigo 171 do Código Penal – Obter para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”.

 

            No caso, constato, em minha conta bancária, o lançamento, numa única data, de sete débitos supostamente autorizados por mim.. Tudo em favor de Associação de Servidores Públicos Federais, estranhamente localizada em São Luiz, no Maranhão. Agora exige o banco, que me tem como “cliente desde 3/1991”, seja eu quem tenha de provar não haver contraído o estranho débito... Deverei registrar a queixa num Boletim de Ocorrência (BO), só após o que terei crédito...

 

            Queixas assim, ouço-as de colegas e amigos, com contas no mesmo e em outros bancos. E, cada vez mais, relembro o refrão de Fitzgerald, repisado, em meus tempos de faculdade, pelo escritor e professor Moreira Campos: “Drama social algum é maior que minha dor de dente”.

 

            “Dor de dente” que terminamos por aprender a suportar. Mas isso, sem que deixemos de ora apregoar, aos quatro ventos, a indagação de longe a nos acompanhar: “Que país é esse?”

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe

 

 

O Brasil nasceu aqui! (Marcondes Rosa de Sousa)

12:01 @ 19/06/2010

 

 

Celso Furtado na UFC

O Brasil nasceu aqui!

                                                                                             Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

Dias atrás, cumpri promessa feita por mim a Rosa Furtado, que, no lançamento dos 50 anos da obra Formação Econômica do Brasil, por ela organizada, cobrara-me prometidas “velhas fitas já rotas” sobre as perspectivas para a região nordestina, palestra e debate de Celso Furtado, entre nós, nos anos 80, a nos unir desde as facções de esquerda aos então jovens empresários do CIC, em seu projeto de mudanças, voltado para o combate pobreza à luz dos versos de Luiz Gonzaga e Zé Dantas (médico): “... mas, doutor, uma esmola, para um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

 

Nordestinos, continuamos a alimentar saudades dos tempos em que a SUDENE tinha seu superintendente a integrar o Conselho Monetário Nacional.  Agora, são tempos em que as idéias  de Celso e do governo de nossa federação parecem inspirar queixas como as de João Ubaldo Ribeiro, em sua crônica “Luiz Inácio não veio ver Celso”, quando este morreu:  “... o fato é que ele não veio. Recitaram-se palavras de pesar, decretou-se luto oficial, escreveram-se necrológios e a herança de Celso Furtado perdurará, ao contrário do poder e da glória do mundo. Nosso irmão Luiz Inácio não veio ver nosso irmão Celso”.

 

Postas, as candidaturas à presidência de nossa república.  E, com elas, a esperança de que  as facções políticas enxerguem, em nossa federação, a natural “unidade na diversidade”, imanente no termo desde sua etimologia – de foedus, aliança, em latim) - sepultando equívocos como os dos “dois brasis” e o da confederação do equador.  Que todos cantem sua terra, como Celso, ao declarar seu amor ao Nordeste e ao País, aqui, na UFC: “O Nordeste existe pelo seu peso histórico, no Brasil. Pela sua participação demográfica, no Brasil. Pelo fato de que o Brasil nasceu aqui. Ninguém nos dá lição de brasilidade!”

 

 

E-mail: marcondesrosa@gmail.com

 

 

José Saramago (José do Vale Pinheiro Feitosa)

11:10 @ 19/06/2010

 

 

JOSÉ SARAMAGO

José do Vale Pinheiro Feitosa

            José Saramago,

            Sabe aquela escuridão, mofada, entremeada de teias de aranha, que entupia os tubos pelos quais se respira, foi ela que te transportou para as paredes vulcânicas das Ilhas Canárias. Tu, carregado pelo braço leve de Pilar del Rio, fostes além daquele adro católico que enterra a alma portuguesa como um manto a sufocar o broto de novas flores. Sal amargo, salamargo, salamandra das pedras das Canárias.

            Membro do partido comunista em solo português, como este da terra brasilis,  senha para ser perseguido, acusado, demitido, culpado de tudo, até da fúria dos poderosos que, violenta, lanha tua pele em chagas. Pois quisestes muito,“participar em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemónico, sempre destrutivas.”

            Aquela hierarquia das cinzas, tumular dos espíritos obrigados a nascer. Tão pálida de luz e de olhos fundos, refestelada nas adegas de conventos, nos anéis cardinalícios, junto ao coração da piedosa esposa do Sr. Ministro. Ali, ao pé do ouvido, no silêncio de corredores, na ausência de testemunhas, todo um povo pobre e sofrido perdeu o progresso do século, sofreu o abandono da nova jornada interrompida num lamaçal que atolou a todos por quase um século.

            E quando tua família sai pelas brechas incontidas do regime de contenção, tornaste-se, tu, Saramago, hoje reverenciado pelos cínicos que te atraiçoaram, pelo mesmo Cavaco Silva do teu exílio nas Canárias quando ousastes ser um evangelista com as marcas do tempo de agora. E teu relato autobiográfico revela a falência do ensino técnico dos tempos “americanhalhados” da indigência pedagógica do Brasil. Do ensino, tornado aborto do espírito humano, de porcas, parafusos e arruelas. 

            Como dizes: “meus pais haviam chegado à conclusão de que, por falta de meios, não poderiam continuar a manter-me no liceu. A única alternativa que se apresentava seria entrar para uma escola de ensino profissional, e assim se fez: durante cinco anos aprendi o ofício de serralheiro mecânico. O mais surpreendente era que o plano de estudos da escola, naquele tempo, embora obviamente orientado para formações profissionais técnicas, incluía, além do Francês, uma disciplina de Literatura.”

            Sabe Zé, quando falastes da morte sem medo, falavas da vida. Ficou uma sensação de que o contrário da vida não é a morte, esta instituição lendária. O contrário da vida é o medo, o apego ao inseguro como se rocha fosse e tal apego não passa de um bem material em processo de liquefação. Como todos os bens e riquezas, que servem mais para causar dor no outro, do que dar coragem a quem os possui. E tudo, Zé, para demonstrar a burrice de alcaides, prefeitos e vereadores, bibliotecas para a juventude não existem. Como tu, no teu atrasado e espezinhado Portugal ainda pudeste freqüentar:  frequentar, nos períodos nocturnos de funcionamento, uma biblioteca pública de Lisboa. E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.

            Zé, o mundo é outro mesmo! Os livros se tornaram produtos comerciais. Os escritores meros anéis de ligação na máquina de produção, distribuição e consumo. Bem sabes que teu mundo se tornou universal pelo Prêmio Nobel, sem o qual, talvez, ninguém te escutasse tanto quanto se escutou e hoje, condoídos, repetem o quanto tinhas para dizer. Se não fosse o prêmio, bem menos.

            Outro dia, Zé, olhando o calendário das tuas publicações outro sentimento me roubou da mortalidade. Não eras aquele tipinho de mídia, precoce, veloz, que se torna personalidade como Lady Gaga, assim como uma espuma de shampoo. Escorre pela pele e se vai pelo ralo da próxima atração. Tuas publicações é a senha para que todo escritor, todo poeta, todo artista vá muito além dos limites de si mesmo e daqueles externos que existem para te confundir.

            Se tinhas 24 anos quando de tua primeira publicação, tanto tempo não viram letras impressas dos teus poemas. Somente aos 43 anos retornastes às publicações com teus poemas. O primeiro romance aos 55, outro aos 57, levaste uma década escrevendo mesmo romance. Eis a marca de que não é no sucesso, na idade e nem no produto que “todo artista tem ir onde o povo estar”.

            José Saramago, um humano como nós. Um ateu que escreveu um evangelho. Um comunista que viveu a perseguição de sê-lo. 

Não me preocupei com a censura, que não sentia em Campinas (Marcondes Rosa)

15:12 @ 16/06/2010

 

 

sábado, 12 de junho de 2010

"Não me preocupei com a censura, que não sentia, em Campinas, às minhas cartas"

 

 

Hoje temos a história de alguém que veio de longe, passou por outro seminário até aportar no ex-SIC. Saiba como ele descobriu a diferença entre "vaidade" e "humildade" e entenda esta intrigante história de censura lendo a instigante e longa entrevista.Lendo-a inteira fica fácil entender a última frase de sua entrevista.Com todas as informações acima ficou fácil adivinhar quem é nosso entrevistado. Ou não?

 

Para o hoje extinto ex-SIC (Seminário da Imaculada em Campinas) entrei em 1959, numa transferência de turma que, do Seminário Diocesano de Petrópolis, restávamos tão só o Julio, o Mataruna e eu. Em Campinas, compúnhamos eclética turma, de transferidos outros de várias dioceses que para ali acorríamos em preparação ao seminário maior.

 

Para o Seminário de Petrópolis, parti de bem longe daí: de Ipueiras (água retirada em tupi), encravada no semi-árido nordestino, no Ceará.

 

 

Em Ipueiras, éramos quase todos da classe média e católicos praticantes, a participar dos atos litúrgicos como “acólitos” (coroinhas), sob o olhar de padre Francisco Correia Lima, à cata de vocações.


Um dia, Pe, Correia, dá-nos a notícia de que, em Fortaleza, havia tido contacto com o então visitador apostólico dos seminários, no País, Dom Manuel da Cunha Cintra, bispo de Petrópolis, que revelou estar sua diocese disposta a receber, a cada ano, dolescentes de Ipueiras que manifestassem vocação para o sacerdócio. Três nomes foram a escolha, naquele primeiro ano, de padre Correia: os de seus acólitos Helder Sabóia, Antônio Frota Neto e eu.


Hélder, na última hora, desistiu. Frota Neto e eu partimos. Frota deixaria o seminário e, de sua saga como jornalista, onde os tempos do Seminário Diocesano de Petrópolis se incluem, escreveu, em quase 500 páginas o seu “Quase (retratos de uma época)”, onde relata essa e outras histórias. Hoje, acompanhando sua esposa, que cumpre funções diplomáticas na Suíça.


Ao final daquele primeiro ano, cena curiosa, presidida por Dom Cintra marcou-me. Os melhores das diversas turmas ali eram chamados e premiados. Por último, meu nome foi solenemente citado como a “melhor média de todo o seminário”. Chamado, levantei-me e de Dom Cintra recebi (isso me ficou até hoje marcado) uma caneta Compactor como prêmio. Num ato que, para mim, era de humildade, devolvi a caneta.


Dom Cintra, em tom paternal, falou da diferença entre “humildade”, que vem de “húmus” (chão) e de vaidade, de “vanitas” (oco, vazio). Pediu-me que, na vida, me lembrasse de tal diferença, pisando o chão e esquivando-me da vacuidade da “vaidade”. Recebi a caneta e, cabisbaixo, voltei amargando a lição. Essa cena marcou-me fundo. Até hoje não consigo lidar com caneta-tinteiro. Ela me suja as mãos. E o escrever, em minha vida, terminou por se tornar uma missão...

 

  • Quantos anos tinha quando entrou?

 

Ao ingressar no Seminário Nossa Senhora do Amor Divino, em Petrópolis (RJ) tinha por volta de 12 anos. Ao transferir-me para o Seminário da Imaculada, em Campinas, uns 17 anos.

 

  • Quantos anos tinha quando saiu?

Saí do Ex-SIC ao final de 1960. Em 23 de novembro de 1960, recebia da Academia Literária Santo Tomás de Aquino, o livro “... a seara de Caim, Romance da Revolução no Brasil”, de Rosalina Coelho Lisboa, em cuja falsa folha de rosto, grafada vinha a dedicatória: “Ao sextanista acadêmico Marcondes Rosa de Sousa, a Academia Literário Santo Tomás de Aquino oferece este livro como prêmio áureo;


Diretor: Mons. Luiz de Abreu
Presidente: José Luíz Naves
Campinas, 23 de novembro de 1960

 

  • Por que saiu do seminário?

Não sei ao certo as razões. Mas lembro que já estava fazendo os exames finais no Ex-sic quando recebi a notícia de meu pai, que estava em Brasília, assessorando um ministro cearense e “dando uma força” na importação de candangos oriundos do Ceará.
Foi em meio às provas, ansiedades e outras preocupações que recebi telefonema de meu pai. Coincidente a isso, andei, para colegas de Petrópolis, tecendo loas à educação em Campinas. Não me preocupei com a censura, que não sentia, em Campinas, às minhas cartas. Mas o inesperado me veio, do reitor do Seminário de Petrópolis, como que a toldar meu entusiasmo com o Seminário da Imaculada. Não sei como, mas carta do então padre Veloso, ultimada com a frase de Rui Barbosa, criou-me preocupantes embaraços. Sobretudo pela frase de Rui Barbosa, citada a pretexto de minhas observações: “Onde os meninos campam de doutores é sinal que os doutores não passam de meninos”.


 

Óbvia, a criação de arestas entre os superiores de um campo e outro. Passei uns dias, na Baixada Fluminense, hóspede de Mataruna em Caxias. Refleti sobre a violência, naquele campo, ao passarmos, várias vezes pela fortificada casa de Tenório Cavalcante... E, confesso, tive medo (tantas as histórias) de enfrentar trabalho de evangelização por essas bandas... E talvez tenha sido esse sentimento que terminou por me levar a atender ao convite de meu pai, à época na nascente cidade bandeirante, em Brasília.


 

Lá fiquei algum tempo. Rejeitei, porém, dois bons empregos e terminei por voltar ao Ceará e enfrentar o vestibular para os cursos de direito (na UFC) e de letras (na Faculdade de Filosofia do Ceará, que logo se tornaria parte integrante da nascente Universidade Estadual do Ceara - UECe). Nos vestibulares, figurei entre os primeiros lugares.

 

  • O que aprendeu no ex-SIC?

Em Petrópolis, aprendi a diferença entre a vaidade (nascida do oco, vazio) e a humildade, do húmus, do chão. E isso me fez, em Campinas, reagir de outra forma a possíveis elogios. Aprendi um novo conceito de humildade.


Na verdade, em meus primeiros dias, em Campinas, lembro-me de que estávamos no refeitório quando, de repente, entra Monsenhor Luiz de Abreu, a nos pedir um pouco de silêncio.
Retórico, ele nos diz: “Meus filhos, como professor, sempre adotei o seguinte critério. Ao melhor aluno, não mais do que nove; ao melhor professor, não mais que nove e meio”. E, após retórica pausa, concluiu: “Dez, apenas para Deus. Mas, desta feita, resolvi fazer uma exceção”. E concluiu: “É verdade, São Paulo exporta café, mas é o Ceará que exporta talento”.
Eu, o único cearense ali.

Tinha eu, a essa altura, absorvido a lição de chão e humildade que de Petrópolis me ficara. Mas, em Campinas, convivi com novo universo: o da diversidade e da fecunda convivência com o plural. Pluralidade revelada nos sotaques das diversas regiões não só de São Paulo como de nós outros, de outras regiões, para ali transferidos.

Os elogios de Mons. Luiz de Abreu me despertaram o senso de responsabilidade em relação ao verbo escrever.
E esse sentimento evoca-me trechos do artigo “O poder da caneta”, que escrevi no Jornal O Povo: “(...) chega-me a denúncia da professora Marisa Lajolo, da Unicamp/SP, em defesa de duas qualificadas docentes da PUC/RS. Marisa vale-se do poema: “Na primeira noite, eles se aproximam/ e roubam uma flor/do nosso jardim./E não dizemos nada./Na segunda noite, já não se escondem:/pisam as flores, matam nosso cão,/e não dizemos nada./Até que um dia, o mais frágil deles/entra sozinho em nossa casa,/rouba-nos a luz/ e, conhecendo nosso medo,/arranca-nos a voz da garganta./E já não podemos dizer nada.”
Dizer algo podemos sim – diz-nos a laureada Marisa. Solidário com ela, vou além. Se nos arrancam a garganta, sobra-nos o poder maior da caneta, mais afiado e durável que os temporãos interesses do marketing econômico e político!”

 

  • O que faltou aprender?

 

Nos embates da vida, a partir das lições do seminário (em Petrópolis e Campinas), aprendi o básico e essencial para a vida: a humildade e a esfericidade do mundo e da vida. E isso, associado à tríplice queda cardíaca, me tem levado a visão mais larga da vida e do mundo

 

  • O que fez depois que saiu? Estudou o que?

 

Voltando ao Ceará, cursei Ciências Jurídicas e Sociais, na Faculdade de Direito da UFC e Letras (curso iniciado na Faculdade Católica de Filosofia, após transferido para o curso de Letras da UFC.

 

  • Qual sua trajetória profissional após a saída do ex-SIC?

 

Ainda estudante, fui nomeado revisor da Imprensa Oficial do Estado. Na vida acadêmica, fui um dos fundadores da Revista “O Caboré”, onde tive experiência literária nos contos e ensaios que lá deixei. E, na vida jurídica, ensaiei passos como “solicitador” e, logo após cheguei a advogar. Logo, no entanto, prestei concurso para o Colégio Militar de Fortaleza. Tempos depois, para professor titular da Faculdade de Filosofia Dom Aureliano Matos, em Limoeiro do Norte (Ce) e, logo após, para professor adjunto da Faculdade de Letras (UECe).


Na UFC, fui Coordenador do 1º Ciclo, Assessor de Planejamento Universitário junto à Reitoria, Pró-reitor de Extensão (em dois períodos), Conceptor e um dos que implantaram da Rádio Universitária (FM) e editor de várias coleções, onde se destacam “Documentos Universitários”, e várias obras sobre o pensamento universitário.


Junto ao Governo do Estado, fui Superintendente da então Televisão Educativa do Ceará. Diretor do Departamento de Audiovisual da Secretaria de Cultura, Turismo e Desportos do Ceará, ao tempo em que a saudosa e amiga Violeta Arraes esteve à frente dela. Foi quando terminaria eu por coordenar, num pool com as diversas instituições - Tasso ,Governador e Ciro Gomes, prefeito de Fortaleza - o nacional Seminário Cinema e Literatura, duas edições do Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro e, por fim, a VI Edição do FestRio, trazido do Rio para Fortaleza.

 


Ainda no âmbito do Estado, fui, por 8 anos, presidente do Conselho de Educação do Ceará e Coordenador do Fórum Nacional dos Conselhos de Educação do País e, nessa condição, extinto à época o Conselho Federal de Educação, compondo grupo de trabalho com vistas à implantação da LDB no País.

 

  • Trabalha ainda?
  •  

Hoje, estou aposentado. Cláudio, meu filho, me critica porque não aceitei aposentar-me por invalidez, o que me traria a conotação de inutilidade. Mas, no campo político, aceitei fazer parte do Conselho de Ética e Disciplina do PSDB/Ce.
Inicialmente, essa foi idéia, alguns anos atrás, de Beni Veras, quando vice-governador de Tasso Jereissati. Fui convidado para um encontro nacional, em Brasília. Lá, tive a surpresa. Beni havia cedido o lugar a ele reservado, no Conselho Deliberativo nacional do PSDB, a mim. Hoje, logo após, meus acidentes cardiovasculares, tive a surpresa de haver sido eleito como integrante do Conselho de Ética e Disciplina. Por razões de saúde, não aceitei a presidência desse órgão.Além dessa atividade política, escrevo regularmente artigos para os jornais.

  • Casou? Tem filhos? Netos?

Casado com Euterpe, professora de literatura inglesa da UFC (aposentada). três filhos: Claudio, agrônomo e músico. Juliana, odontóloga, e Leonardo, músico, hoje em Berlim. Netos: de Cláudio, Pedro e Davi; de Juliana, a paulista de Ribeirão Preto, onde Dráulio e Juliana eram professores da USP. Lara, um ano.

 

  • Quais as recordações mais marcantes do tempo de ex-SIC? 

Difícil, a resposta. Na realidade, tudo ali, em Campinas, seduzia-me, a mim, saído das caatingas cearenses e depois do frígido céu da serra dos órgãos, Hoje, sou levado a crer que foram marcas em mim deixadas pelo ex-SIC: a pluralidade, que me alargou a visão-do-mundo, e a sedução pelo novo e o diferente.

 

  • Cite um personagem com que conviveu na época que o impressionou positiva ou negativamente.

Positivamente, Pe. Comblin, pela sabedoria e a paciência. Negativamente, Pe. Karl Laga, embora o reputasse um sábio, pela sua petulância de proclamar, numa crítica às gramáticas latinas de língua portuguesa: “eu sou a gramática viva”...


http://kairosnostambemsomosigreja.blogspot.com/2009/08/dadis-biograficos-de-jose-comblin.html

 

  • Sobrou algum mágoa? Qual? .

Mágoa alguma!

  • Se voltasse no tempo iria novamente para o ex-SIC? Por que?

 

Não tenho do que me queixar. O Ex-SIC, ao somar-se, dialeticamente, ao Seminário de Petrópolis, deu-me as bases para o futuro. Se a história retrocedesse, voltaria a ele, sim!

  • Quais as principais mudanças que a entrada (e/ou saída) do seminário provocou em você?

 

Ele me abriu as sendas da vida. Por onde passei, sempre adotei postura pluralista e de compreensão das diferentes visões construtivamente, em síntese.

  • Se dedica à Igreja  Católica atualmente?

Volto aos fechados anos 70. A UFC a sediar encontro nacional de reitores. Neste, a influente figura do reitor da Universidade Católica de Petrópolis, Dom José Fernandes Veloso.


Ele se recorda de mim. E ainda se lembra do exótico nome de meu pai - Wencery Félix de Sousa. Consulta a lista telefônica. Minha mãe informa-lhe que papai havia morrido e que eu era professor da UFC, responsável pelo Ciclo Básico. Dom Veloso, satisfeito, conclui. Não vai ser difícil encontrá-lo.


Saímos à noite para jantar. Nos papos, os planos frustrados de me enviar para Lovaina e Roma. Agradecido e a sorrir, digo-lhe que a diocese não perdeu seu tempo: “Nem sei bem, mas nem à missa vou mais. Penso até que sou ateu.
Dom Veloso sorri e diz: “Não confunda ser cristão e católico com o ir à missa. Já conversei com vários professores que me deram conta de quem é você. E anote: poucos são os cristãos como você”...


Parece que Dom Veloso tinha razão. Lembro-me dos mais recentes acidentes cardíacos que tive. Passados os momentos mais críticos, um dos médicos me confidenciou: “Você tem um cartaz enorme com o Homem lá de cima”. Não entendi. E ele me explicou: “Você aqui chegou só, sem família, sem ninguém. Estávamos, médicos e enfermeiras, programando o longo feriado. E foi isso o que lhe salvou. Agradeça a Ele.


Ao sair do hospital passei uns tempos na casa de Solange, minha única irmã, ex-freira, casada com Luiz Marques, ex-marista. Resolvi, toda semana, em Messejana, bairro onde ela mora, ir à missa e onde sou pouco conhecido. Um dia, uma senhora, a me observar, indagou-me quase afirmando: “O senhor é padre, não é?” E eu lhe indaguei o porquê. Ela, seu jeito...

 

  • Qual sua relação com a religião atualmente?

Hoje, posso dizer que me reconciliei com a religião, embora tenha tomado o sacrifício da missa como o meio mais eloqüente dessa relação.

 

  • Como você compara a sua religiosidade daquela época com a atual?

No passado, desde quando, acólito em Ipueiras, derrubei um padre no altar para que ele não pisasse em uma hóstia que caíra, a religiosidade, em mim, marcou-se pela sua ritualidade. Em Petrópolis, fui cerimoniário. Lembro-me de uma vez em que fui participei dos rituais celebrados pelo Cardeal Spellman. Após, incensar o altar, ele me passou o turíbulo. Em peguei o turíbulo, uma das mãos abaixo da dele e outra – queimei-a, mas não infringi o ritual, perto já das brasas. Ele, assustado, esboçou um “I’m sorry”...

  • Como você compara a Igreja Católica daquela época com a atual?

“In illo tempore”, a igreja, de costas para a platéia, era, sobretudo, o ritual, visto como teatralização para os fiéis. Hoje, em tudo, ela se caracteriza como participação coletiva de todos os fiéis.

  • O que você acha dos reencontros com os ex-colegas do ex-SIC?

Minha participação, eu aqui distante, é pela leitura da participação e comentários dos que lá nos diversos lugares, se encontram. Algo como uma participação tipo “torcida”.

  • Alguma sugestão?

Penso que devamos evoluir para uma página, um grupo, um blog – ou coisa que o valha, para um contacto mais permanente entre nós. Sugestão a pautar sendas mais permanentes e cotidianas...

  • Qual pergunta você gostaria de ter respondido e que não foi feita?

Não me ocorre nenhuma ....

  • Alguma mensagem especial aos do ex-SIC?

Talvez, aqui distante, falar um pouco de meu sentimento ao acompanhar as reuniões do ex-SIC. Na verdade, em nenhum de nós – os que participam ativamente e os que, como eu, acompanham e torcem à distância – não nos brota o mero sentimento romântico e nostálgico de retorno ao passado.


 

Dias atrás, recebi do presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, um convite para noite de autógrafo da edição comemorativa dos 50 anos da obra de Celso Furtado, em suas 568 páginas, no Centro Cultural do Banco do Nordeste do Brasil, no Centro da Cidade.


Pensei que, em lá chegando, não seria reconhecido pela maioria. Peguei um táxi e lá cheguei. No elevador, encontrei-me com economista que, nos anos 80, foi dos que dialogaram, em palestra nos “Encontros Culturais” da UFC. com Celso Furtado. Entrei no auditório. Políticos do PT, do PCdoB de todos os partidos, a me cumprimentar.


Longos, os discursos, as análises, as reminiscências. Terminados, no hall do edifício, um coquetel. Postei-me, primeiro, na fila para os autógrafos, a organizadora da edição comemorativa dos 50 anos, Rosa Freire d’Aguiar Furtado. E fiquei a esperar dela reconhecer-me ou não.


Ao ver-me, ela bradou: “Marcondes? Um prazer autografar a obra. Você está me devendo as gravações da palestra e debate de Celso, nos anos 80”. Deu-me seu endereço e, na folha de rosto da obra, postou o seguinte autógrafo: “Para o caro Marcondes Rosa, companheiro de tantas lutas de Celso, um abraço, Rosa Freire d’Aguiar Furtado”


Aí, fico a pensar. O “ex” ... SIC não é um passado. Mas o renascer vigoroso de um passado prenhe do amanhã.

 

Marcondes Rosa de Sousa

e-mails:
marcondesrosa@terra.com.br
marcondessousa@terra.com.br
marcondesrosa@gmail.com

Endereço postal:
Rua José Benigno Soares, no. 375
Edson Queiroz 375
60810 – 230 – Fortaleza (Ceará)

Grupo de Discussão e Blog
http://www.grupos.com.br/group/ethos-paideia/
http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

Telefones:
(85) 32781598
(85) 99894813

Aí está, com a ficha completa. Agora, basta você comentar, lembrando sempre de identificar-se caso utilize a opção "Anônimo".

J. Reinaldo Rocha (62-67)

J.Reinaldo Rocha

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http://ex-sicampinas.blogspot.com/2010/06/nao-me-preocupei-com-censura-que-nao.html

Secas como neves perenes (Marcondes Rosa de Sousa)

16:41 @ 01/06/2010

Celso Furtado na Rádio Universitária (FM)

 

Secas como neves perenes

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 28 Mai 2010


Noite. No Centro Cultural do BNB, lá estou, convidado por Salmito Filho, presidente da Câmara de Vereadores de Fortaleza, para lançamento da edição comemorativa dos 50 anos do livro ``Formação Econômica do Brasil``, de Celso Furtado.

No auditório, rostos a relembrar-me os anos 80, quando para aqui trouxemos Celso, para nos falar das perspectivas que tínhamos para a região nordestina.


No hall do edifício, em noite de autógrafos, recebo de Rosa Furtado, organizadora do livro, em suas 568 páginas, amáveis palavras: ``Para o caro Marcondes Rosa, companheiro de tantas lutas de Celso, com o abraço de Rosa d-Aguiar Freire Furtado``.


Tudo ali me fez voltar, pró-reitor de extensão da UFC, Violeta Arraes dando-me conta de Celso então retornando ao País. Telefone à mão, convido-o para que, nos Encontros Culturais, nos falasse das perspectivas que tínhamos para o Nordeste. No aeroporto, encontro, acompanhando a plêiade dos então ``jovens empresários do CIC`` (Centro Industrial do Ceará), o governador Gonzaga Mota, à espera de conferencista não vindo. Celso pactuamos que por lá passaria, atraindo muitos para a UFC.


Na palestra, Celso advoga o crescimento econômico a se metamorfosear em desenvolvimento: o projeto social dando prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da população.``As secas, parte da realidade nordestina, como as neves são parte do mundo dos esquimós.``


Lamenta o declínio da Sudene, cujo superintendente, a seu tempo, participava da política econômica e financeira do País, membro de pleno direito do Conselho Monetário Nacional.


Em suas palavras, ``deixaremos de ser vistos com complacência ou como reserva de caça para aventureiros políticos``. E ``recuperaremos o papel que já nos coube na condução dos destinos nacionais``. Regiões a compor nossa foedus (aliança)!


Marcondes Rosa de Souza escreve quinzenalmente neste espaço




MARCONDES ROSA

Professor da UFC e da Uece

E-mail - marcondesrosa@gmail.com

 

 

 

Educação, atitudes inadequadas e inversão de valores estabalecidos (Teoberto Landim)

14:20 @ 07/05/2010

 

 

Teoberto Landim

 

 

TEMA: “COMPREENDA A INFLUÊNCIA DO HUMANO EM TUDO”

 

ASSUNTO: “Educação, atitudes inadequadas e inversão de valores estabelecidos”

 

 

“Por melhor que você esteja, não deixe de ousar,

não deixe de tentar ser melhor a cada dia’

 

                               Teoberto Landim  (2002)

 

 

 

 

 

A educação no Brasil, com a nova LDB, não vislumbra uma redenção ou reprodução do saber, mas busca uma visão transformadora, com a participação de todos, onde ensinar e aprender favoreçam uma interação social digna e capaz de promover mudanças consideráveis no que se possa almejar: uma sociedade mais justa e fraterna, onde todos tenham oportunidades iguais, assistindo às crianças, jovens e adultos, partindo do pressuposto da realidade rumo à qualificação ampla do cotidiano.

 

Portanto, a escola tem como objetivo a socialização e a sistematização do saber para a cidadania e, no bojo de toda práxis pedagógica, direcioná-lo ao indivíduo que se pretende formar, trabalhando-o nos aspectos psicológicos-afetivos, cognitivos e intelectivos, levando-o à formação de um ser crítico, participativo e, acima de tudo, comprometido com sua realidade social, política e humanitária. Desse modo, busca-se diretrizes que norteiam o trabalho coletivo e participativo, em que a função social da escola não perde sua função específica quanto à formação do cidadão em sua plenitude.

 

Diante dos objetivos e finalidades de sua missão, a escola deve ter como ideal a construção de uma sociedade mais justa, solidária, fraterna, participativa e ética, onde os valores de cada segmento sejam respeitados; deve visar também a formação de um cidadão crítico, participativo, coerente com suas ações, com habilidades e competências, e capaz de construir esta sociedade que o país quer.

 

Sabe-se que no mundo contemporâneo os valores morais acabam gerando dificuldades nas relações sociais e humanas. Há diagnósticos que afirmam que os maiores problemas sociais são gerados pelos conflitos de interesse entre os indivíduos, criando deste modo impasse nas relações interpessoais. No jogo de interesse se excluem alguns valores como a ética, a consciência e a solidariedade. O que se percebe é que a falta de ética nas relações pessoais e profissionais acaba criando dificuldades no trabalho e até mesmo no seio da família, por exemplo: os pais já não impõem respeito aos filhos, não há diálogo dentro de casa; no trabalho o companheirismo é vencido pela concorrência acirrada entre colegas, impedindo desta feita o crescimento coletivo.

 

A educação é um instrumento de democratização necessário para a formação de cidadãos conscientes de seus valores humanos e que a escola, diante  dessa realidade, exerça o papel de educadora e formadora de uma sociedade crítica e transformadora. Deste modo, seus programas de ação devem ser também um instrumento teórico-metodológico para a transformação da realidade, por isso a finalidade dessa construção é exercer uma atividade engajada, coerente e científica, estabelecendo critério, fins e meio para o aperfeiçoamento, como desenvolver ações cooperativas que sejam eficazes como elemento de organização e integração da atividade prática da escola nesse processo de transformação. Daí também a necessidade de conscientização política, propiciando ao educando uma visão de vida e de mundo coerentes.

 

Sabe-se que no mundo moderno (ou pós-moderno?) a evolução se processa muito rapidamente: o “novo” logo fica “velho”. As leis mudam constantemente para atender os direitos do cidadão. As minorias antes reprimidas, passaram a ter vozes, como os negros, as mulheres e os homossexuais. A dinâmica da vida em sociedade requer do indivíduo uma constante adaptação aos padrões e legislação de uma comunidade inserida num contexto globalizado. Repito, tudo acontece rapidamente. Os procedimentos de informação acabaram com o isolamento, mesmo daqueles que vivem em localidades as mais longínquas. Antenas parabólicas, como guarda-chuva, despontam dos telhados de casas e casebres como símbolos de que o homem está ligado no que acontece no mundo, por mais distante que ele esteja dos grandes centros: ele sabe de tudo sobre seu time de futebol, sobre política, sobre a moda, sobre o último assalto ocorrido.

 

Com essas transformações a educação no mundo inteiro passou a viver uma grande crise em todos os níveis, mas a maior delas foi a de não saber acompanhar as transformações deste mesmo mundo. A educação permaneceu atrelada aos modelos de que para alguém aprender é necessário que algo seja ensinado  -  subentende-se aqui dois procedimentos imediatamente comparáveis: a transmissão de conteúdos e a memorização. Deste modo, de que depende a aprendizagem? Claro,, vai depender da assimilação e da explicação do professor. As teorias de Piaget propõem um novo caminho: o professor desenvolve a função de promover operações: ensinar a operar, quer dizer, o papel do professor é ensinar a construir o conhecimento, mais importante do que só transmitir conteúdo.

 

A verdade é que atualmente a escola confronta-se com um mundo em transformação constante, como já falamos, com diversidade de situações e o processo de globalização, para que ela busque uma nova significação através da formação integral e humanizada, num panorama integrador e coerente com a sociedade, associado ao enriquecimento da interação professor/aluno, há de se investir no universo da ciência e da tecnologia, gerando adaptação de cultura e modernização da mentalidade. Envolve aqui o que poderíamos chamar de uma política educacional: como proceder esta relação entre “global” e o “local”? André Gide, intelectual francês, diz que é falando de sua aldeia que um escritor se torna universal. Neste sentido, o slogan da Universidade Federal do Ceará  “do regional para o universal” representa esta proposta de valorização do contexto regional para, através dele, atingir a universalidade. 

 

A educação para Delors(2000) “é uma experiência, em contato com a qual a criança aprende a descobrir-se a si mesma, desenvolve as relações com os outros, adquire bases no campo do conhecimento e do saber”. Diante do exposto, esclarecemos que o pensamento de Delors estabelece três vertentes fundamentais que apontarão o sucesso de uma proposta de renovação pedagógica: a comunidade local, órgãos diretivos das escolas, professores e a família; outra, a legislação, a LDB, por exemplo; e a comunidade internacional.

 

Segundo Cardoso e Vieira (2001) a escola é a primeira instituição da qual a criança passa afazer parte fora da família. Na escola ela convive com outras pessoas de origens e hábitos diferentes. A família e a mediadora entre o indivíduo e a sociedade, portanto, é a família a formadora de nossa primeira identidade social. Mas com a evolução do mundo, que faz que a escola também se transforme, e principalmente a partir dos anos 90, não restou à família outra saída: deixou de ser aquela tradicionalmente estabelecida com modelo homogêneo, passando a adquirir formas múltiplas  de organização, entretanto, não perdeu a função de proteção e de socialização.

 

Queremos ressaltar que a família que é a base da sociedade, foi se fragmentando e abandonando o seu papel de primeira instituição educadora no processo de formação,  gerando um novo desafio para a escola, pois os pais acabaram delegando à escola não só a formação cultural do seu filho como também a formação moral . Convém ressaltar o que diz a LDB, no seu Art.1º.:

 

“A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais”.

 

Pelo exposto na LDB, a educação tem caráter abrangente que extrapola os limites da atuação da escola. Ora, esse dever dos pais de assistir, criar e educar os filhos menores já está também na Constituição Federal em seu Art. 227, que estabelece como dever da família, da sociedade e do Estado.

 

 Portanto, com a transformação da família, com a dissolução dos lares, as crises matrimoniais, a dificuldade de compatibilizar casamento, trabalho e vida, a formação e o relacionamento no casamento, transferiram para a escola essa responsabilidade. Na educação “ideal” a escola é o berço da sistematização do processo de formação do indivíduo, estabelecendo os alicerces para a formação continuada que prosseguirá com a qualificação profissional e o exercício da cidadania como quer a LDB, em seu Art. 22.

 

Finalmente, segundo Freinet(1985), a escola atual precisa alargar seus horizontes, ter que integrar o seu processo no processo da natureza e da vida social, se quiser equilibrar a educação e dar-lhe o máximo de eficiência que a justifique.

 

A maioria das correntes pedagógicas em voga dão ênfase a relação professor/aluno. Piaget(1985) ensina que o indivíduo não atinge suas construções intelectuais senão na medida em que é sede de intenções coletivas. A corrente Construtivista consiste, pois, em educar através da interação do aluno com o meio, cabendo ao professor encorajar o alunos a buscar respostas a partir da investigação dos fenômenos  naturais e científicos. Assim, tais correntes como a Sócio-Interacionismo, a Montessoriana e mesmo o próprio Freinet dizem que aprende-se através da observação e do registro que se constitui em material de estudo. Estas correntes vêem o professor como um mediador.

 

Entretanto, a ação educativa é uma ação política fundamentada em determinada corrente filosófica, ou seja, em uma ideologia. Tem-se a política com concretização (o campo prático) e a ideologia é o campo teórico, que sustenta (pelos pressupostos) a prática pedagógica à maneira de ser e estar no mundo.

 

Na verdade, frente a uma tendência as transversalidades temáticas, ou a multidisciplinaridade, a prática pedagógica pós-moderna não se restringe a uma única corrente, ao contrário, inspira-se no conjunto delas na busca da formação do cidadão.

Para marcar o pensamento das escolas de Ensino Fundamental e Médio em Fortaleza, tomamos dois autores. Segundo Paulo Freire, cabe aos educadores construir uma prática coerente com uma visão democrática e emancipatória, deve-se criar com os alunos vivências que reafirmem o compromisso com o saber, com a aprendizagem, e não com a nota ou aprovação simplesmente. Já Vigotsky lembra que todo desenvolvimento psicológico está interligado à historicidade no que diz respeito às condições materiais  concretas que cercam o educando. O sujeito transforma o mundo em que vive e o mundo modificado transforma esse mesmo mundo.

 

Acompanhando a evolução do mundo moderno, as escolas adotam a abordagem Construtivista, aqui o foco do ensino está no entendimento de que aprender não é copiar ou reproduzir uma realidade. O aluno é sujeito no processo de ensino aprendizagem sendo capaz de elaborar uma representação pessoal sobre o conteúdo objeto da aprendizagem. O ensino gera situações que levam o aluno a estabelecer relações, identificar semelhanças e diferenças, interpretar situações, analisar e organizar elementos envolvidos na situação ou no objeto, planejar intervenções na realidade, avaliar o antes e o depois, estabelecer novas relações que permitam ir mais além.

 

 Tudo isso explorando ao máximo o conhecimento prévio. O conhecimento escolar será significante, crítico, duradouro e criativo, conduzindo o aluno a compreender, usufruir e transformar a realidade. Deste modo compreende-se a influência do humano em tudo, entendendo que a educação é um fator transformador de atitudes inadequadas  e inversão de valores que norteiam a existência humana. Razão por que a escola deve se adaptar às mudanças sofridas pela sociedade, para propiciar ao homem condições para o seu aperfeiçoamento, seja ele acadêmico, profissional ou pessoal.

Um exemplo a seguir (Sérgio Machado)

13:04 @ 05/05/2010

Sergio Machado

 

Um exemplo a seguir

 

Sergio Machado
O Povo - 05 Mai 2010

 

O presidente Lula lança ao mar, nesta sexta-feira (7), o primeiro navio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mas o petroleiro Suezmax, construído pelo Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco, representa muito mais: é um marco do processo de revitalização da indústria naval brasileira e também o símbolo de um tipo de desenvolvimento voltado para melhorar a vida das pessoas.

 

O navio lançado ao mar significa uma nova era para os moradores dos municípios da região onde está instalado o estaleiro. São novos horizontes, novos postos de trabalho com carteira assinada e oportunidades de capacitação e aperfeiçoamento profissional. Trabalhadores que só encontrariam boas perspectivas de emprego migrando para o Sudeste adquiriram o direito de melhorar de vida no lugar onde nasceram e se criaram.

 

Depois de 20 anos sem uma única encomenda de um navio de grande porte, a indústria naval brasileira renasce mundialmente competitiva, gerando renda e empregos dignos e utilizando processos construtivos modernos. Foi a visão e a firme determinação do presidente Lula que possibilitou a materialização daquilo que, para os descrentes, não passava de utopia.

 

Recebemos a missão de desenvolver um programa que restituísse a nossa soberania nos mares. De fato, é inadmissível que um país com quase 8 mil km de costa e mais de 40 mil km de rios navegáveis fique nas mãos de armadores estrangeiros para fazer o seu comércio internacional. No Brasil, 95% deste comércio são feitos por navio. Gastamos US$ 16 bilhões anuais em transporte marítimo. Deste total, menos de 4% ficam a cargo de armadores brasileiros.

 

A necessidade de modernizar e ampliar a frota da Transpetro, acentuada pelo significativo aumento de nossa produção petrolífera, se transformou na oportunidade para fazer renascer a nossa indústria naval, em novas bases. O volume de encomendas proporcionado pelo nosso Programa de Modernização e Expansão da Frota (Promef) já mudou a face do setor. Hoje, o Brasil já possui a quarta maior carteira de encomendas de navios petroleiros do mundo. Além de polos tradicionais como o Rio de Janeiro, a atividade se expande para outras regiões.

 

As perspectivas geradas pela produção do pré-sal estimularam a geração de projetos, muitos situados no Nordeste, pois a demanda prevista é duradoura, assegurando a sustentabilidade dos investimentos. Com o resultado da nossa licitação para a construção de oito navios gaseiros, o Ceará também ganha a sua primeira grande oportunidade de desenvolver o setor. Serão 10 mil novos empregos, com um cenário de demanda garantida e crescente por muitos anos.

 

Pernambuco é uma boa inspiração. O Atlântico Sul, viabilizado pelas encomendas da Transpetro, já foi chamado de ``estaleiro virtual``. Hoje, graças ao sucesso do empreendimento, o conceito ganhou conotação positiva. O ideal é que possamos seguir esse bom exemplo. O Ceará merece e precisa.

 

Sergio Machado - Presidente da Transpetro

 

Maurício Einhorn gravando a vida (José do Vale Pinheiro Feitosa)

11:33 @ 02/05/2010

Maurício Einhorn gravando a vida

José do Vale Pinheiro Feitosa

O som de uma harmônica de boca ecoou entre as palmeiras da praça, desde os espigões do topo delas, passando pela folhagem dos pés de benjamim, carregados de sementes e Lacerdinhas. Como um cosmo, respirava em cada poro da existência até mesmo naquelas bolinhas pretas e duras que são as sementes das palmeiras. Foi quando uma voz, acompanhada pela harmônica, encantou o ambiente:

Alguém como tu,

Assim como tu, eu preciso encontro

Alguém sempre meu

De olhar como o teu

Que me faça sonhar...

 

E, na madrugada solitário, num banco da Praça Siqueira Campos, tive saudades de mim mesmo. Saudades de todas aquelas meninas, com seus olhares dissimulados, que me deixavam queimando de dúvidas. Saudades da minha intensidade, mesmo que sob incertezas, com que as amavas e ainda as amo.

Sob efeito da abertura do “show” de gravação do disco “Maurício Einhorn e Convidados”, na noite de ontem, 30 de abril de 2010, na Sala Cecília Meireles. A platéia de amigos e músicos da carreira deste extraordinário instrumentista. À exceção de Billy Blanco, apoiando seu passo trôpego numa bengala, a maioria não faz parte do écran da televisão. São músicos verdadeiros, do cerne da música, do fundo do palco, mas que constroem a maravilha de arranjos que parecem naturais quando são pura criação, aqui e, eternamente, humanas. Naquele estágio em que, efetivamente, se revela o quanto Deus é criatura deles.

Não poderia estar mais bem acompanhado. Uma turma de engenheiros, físicos e matemáticos, todos, músicos instrumentistas. Vivem de suas profissões, mas tocam em seus apartamentos, nos bares da cidade, sem o peso terrível com que os músicos têm que matar o leão da sobrevivência todos os dias. E foi, neste clima, que falávamos das agruras do músico instrumentista: Maurício Einhorn, um símbolo da cultura musical internacional, entre os melhores junto a Jean “Toots” Thielemans, por vezes não tem grana para fechar o pagamento do condomínio do prédio em que mora e o atrasa.

Quando aquele homem alto veio ao palco, com sua roupa do cotidiano das ruas do Leme, alto, dominando a cena, era de uma gentileza pura como os carbonos brilhantes de um diamante. Um carinho com os amigos e a platéia em geral só comparado ao seu gesto, quando, no meio da gravação, abre uma garrafa de litro e meio de água mineral, levanta em oferta para o seu público e bebe um gole. Um gesto de educação, tão distante, destes jovens nervosos no palco que parecem o centro do mundo.

É preciso ver. Maurício Einhorn quebrando a vulgaridade dos “shows” de absoluta coreografia, destas bandas caídas, destes artistas de palco, destas embalagens de consumo fugaz, como uma barra de chocolate. Ele tocava, como um ferreiro na oficina, olhava para um músico e outro, se afastava, simples assim, como se caminha na rua, apenas para melhor ouvir e visualizar os sons que aqueles gênios da música extraiam. Da mais pura e intensa fonte humana: Alberto Chimelli, Luiz Alves, João Cortez, Roberto Sion,Dario Galante, Augusto Mattoso e Rafael Barata. Isso acrescido de um dos melhore regionais de chorinho da atualidade aqui no Rio de Janeiro.   

O disco é uma comemoração especial na vida de Maurício Einhorn. No próximo dia 20 de maio ele completa 78 anos, sendo 73 anos dedicados ao instrumento – ganhou sua primeira gaita em 1937, quando tinha 5 anos. A Sala Cecília Meireles cheia, ainda pediu um bis e ele assim se confraternizou, com todos cantando parabéns. Ele abraçado a todos os artistas. Incluindo seu diretor e produtor Danilo Bossa Nova. E aqui uma variante aos músicos de todo o nosso país, na periferia do mercado de sucessos.

Maurício Einhorn foi a Ubá, terra de Ary Barroso em Minas Gerais para um evento musical e lá encontrou, vendendo livros, o seu produtor atual. Danilo Bossa Nova tivera sucesso como cantor no inicio da Bossa Nova, recebeu o apelido de Altamiro Carrilho. Depois de ter viajado pela América do Sul, acompanhando Dilu Mello, Danilo se apresentou na TV Excelsior, TV Tupi, TV Rio, Boite Plaza, onde começou a bossa nova, na Boite Cangaceiro, cantando com Elizete Cardoso e Rildo Hora. Foi ajudado por Roberto Carlos na divulgação do seu disco nas rádios.

No final da gravação do CD, fomos para o Bar do Ernesto com a turma de músicos. Entre ouvir um conjunto que tocava na casa, dançar um pouco, beber e comer, um bom papo sobre música. Ora, vocês não precisam mais arrancar o feijão da terra. O que fazer do tempo? A resposta: o que Maurício Einhorn faz. Uma intensa procura de regiões inalcançáveis de cada um, através do instrumento musical que mais gosta, como se escala o estreito do cume do Everest.

Aliás, na altura rarefeita do Everest, se encontra metros abaixo, os pulmões de Maurício Einhorn, sobre o fechamento de um enfisema, adquirido como fumante passivo nas casas de shows em que os músicos instrumentistas, especialmente os jazzísticos, exerciam sua profissão. Aquela mistura entre o espaço fechado, o esfumaçado dos cigarros e o sopro em suas gaitas.

Na volta para deitar-me e dormir, tinha a certeza que assistira a algo muito singular. Em todos os sentidos, especialmente o programa musical, a expressão de arte, mas, também, a possibilidade de que aquilo não se repita tão facilmente. Um evento como aquele, uma gravação, um público e uma divulgação, é algo extremamente difícil e, economicamente, caro. Como o caro em economia só envolve moeda, não diz sobre arte, está aí a dificuldade, não na escassez de oportunidades.  

 

A Ciro Gomes (Marcondes Rosa de Sousa)

11:46 @ 01/05/2010

 

A Ciro Gomes

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

O Povo - 30 Abr 2010

           

          Pelos meios de comunicação, acompanho o lançamento das candidaturas à Presidência da República. Entre elas, a de Ciro Gomes, ora posta de lado por seu próprio partido. Conheço Ciro desde quando ele era estudante, no 1º Ciclo de Humanidades, na Universidade Federal do Ceará (UFC), por mim coordenado. Sou testemunha, desde então, de sua retórica polêmica no atrito entre as correntes várias de esquerda.


         Anos depois, à frente do Departamento de Audiovisuais da Secretaria de Cultura, na gestão da saudosa Violeta Arraes, damos, Ciro prefeito de Fortaleza, com seu charme entre artistas, na VI Edição do FestRio, em Fortaleza.


         Alguns anos depois, Ciro governador, volto ao cargo de pró-reitor de Extensão da UFC. É quando me vejo entre as personalidades várias de nossa sociedade, na ``Operação São Tomé`` com o intuito de mostrar a todos que o Canal do Trabalhador não era uma ficção, mas realidade. Sobre a visita, escrevi, no Tribuna do Ceará, artigo a se ultimar: ``Pouca coisa consigo dizer, a não ser o refrão de Y-Juca Pirama: meninos, eu vi``.

         Já no artigo ``Papo passatempo na estrada``, em 9/2/2000, no mesmo jornal, registro conversa que um professor argentino e eu tivemos, no trecho entre Salvador e Feira de Santana. O professor, a exaltar qualidades e ímpetos de Ciro. Mas a lhe ponderar idade e frágil estrutura partidária, atribuindo-lhe a messiânica função de um João Batista a abrir veredas.


         Desde meus tempos no Ciclo Básico, tenho admiração e respeito por Ciro Gomes. Fico, porém, a pensar se não devam ser repensadas suas qualidades e fraquezas, ele tido sempre um mero João Batista a abrir sendas aos outros. No papo do professor: ``A oportunidade é um cavalo que passa selado. Pular ou não, questão de decisão``. Creio que nos cabe indagar: ``Papos no alongar-se da estrada ou vaticínio?`` Tempo de se repensar!


 

 

 

Orós e Castanhão (Cássio Borges)

22:55 @ 21/04/2010

Açude Castanhão

 

Orós e Castanhão

 

Cássio Borges
O Povo - 14 Abr 2010

 

Os açudes Orós e Castanhão têm características estruturais diferentes, embora estejam construídos no mesmo rio e tenham suas alturas praticamente equivalentes, isto é, 54 e 60 metros, respectivamente. O Orós, criação exclusiva do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), tem 600 metros de comprimento, enquanto o Castanhão tem 7.770. O Orós tem sua capacidade máxima de acumulação de dois bilhões de m³. O Castanhão, 6,7 bilhões. A distância que separa esses açudes é de cerca de 150 km, mas a diferença topográfica entre os dois é da ordem de 100 metros. O Orós está numa posição mais elevada. Ressalte-se que o açude Castanhão dispõe de um ``volume de espera`` de 2,3 bilhões de m³, insignificante para cheias excepcionais como às de 1974 e 1985, como exemplos.

 

Feitas as comparações acima, o que mais pode impressionar aos leigos da ciência hidrológica é saber que os dois açudes têm em comum quase a mesma vazão regularizada (com 100% de garantia), não obstante o Castanhão ter uma capacidade de acumulação 3,5 vezes maior (pasmem!) do que a do Orós. Ressalte-se que a vazão regularizada de um açude é a sua característica mais importante, pois é a que, afinal, define os reais benefícios que ele pode oferecer.

 

Esta questão da vazão regularizada do açude Castanhão foi um dos temas mais questionados durante os quase 15 anos de discussão em torno desse empreendimento. O que nos parece estranho é a omissão de tal informação no Plano Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Ceará (1992) e em todos os documentos oficiais de sua Secretaria de Recursos Hídricos. Até mesmo no livro mais recente publicado (2002) sobre essa obra ``Castanhão - Do sonho a realidade``, de autoria do competente engenherio agrônomo Francisco Pardaillan de Lima, um dos responsáveis pela elaboração do EIA/Rima do Castanhão, esse dado sobre sua a vazão regularizada é, mais uma vez, omitido.

 

Somente com o bem elaborado e convincente parecer do professor Theóphilo Ottoni para a Semace, em 1992, constando mais de 100 páginas, o ``mistério``, digamos assim, foi esclarecido: ``A vazão regularizada do açude Castanhão gira em torno de 10 a 12 m3/s``, afirma. As explicações técnicas, do ponto de vista hidrológico, do porquê o açude Castanhão só dispõe de, no máximo, 12 m3/s (idêntica à do Orós), segundo Theóphilo Ottoni, um dos expoentes máximos da engenharia nacional na área de hidrologia e hidráulica, estão expostas no livro ``A face oculta da Barragem do Castanhão``, de nossa autoria, editado em 1999.

 

Em suma, tanto fazia construir uma barragem com 6,7 bilhões de m³ de acumulação, como outra, no mesmo local, com 1,2 bilhão de m3, os benéficos gerados seriam praticamente os mesmos e os impactos negativos seriam, logicamente, muito menores.

 

Cássio Borges - Engenheiro civil com especialização em recursos  hídricos   e barragens -  

 

E-mail - borgescassio@hotmail.com

 

 

Muito chão por andar (Marcondes Rosa de Sousa)

16:48 @ 21/04/2010

Famílias sem teto

 

Muito chão por andar

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 19 Abr 2010

 

Postas aí estão as candidaturas à Presidência da República. Entre elas, os discursos à frente, o passado e o futuro de nossa democracia. E isso me evoca, dos meados anos 80, a presença entre nós de Celso Furtado, nos Encontros Culturais da Universidade Federal do Ceará (UFC), então cá trazido: ``Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria de população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento``. Daí, a advertência: ``Essa metamorfose não se dá espontaneamente. Ela é fruto da realização de um projeto, expressão de uma vontade política”.

     

Esse norte, desde então, passaria, na vida política cearense, a pautar toda uma caminhada, em um ``projeto de mudanças`` marcado por iniciativas como ``os agentes de saúde`` e ``a universalização do ensino``, espraiando-se, logo após, por todo o País. Hoje, olhos postos nos candidatos à Presidência da República, pouco poderíamos qualificar os eventuais candidatos nos jargões ``esquerda`` e ``direita``. Diria, ao invés, como o poeta, que, no campo político, ``progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso é uma fatalidade``.

 

No País e aqui, temos na busca pela democracia muito chão por andar. Nas ruas, crianças ainda se veem sem teto, sem lar, sem escolas. À porta dos hospitais, pessoas sem assistência, sem cuidados, sem leitos.

 

Nossa educação, onde um atropelado ``todos na escola``, amarga ainda o ``entre as piores do mundo``. E a assistência à saúde fica em muito a desejar como um direito de todos.

 

A quem, de fora, nos olha, somos vistos maduros. E quem nos pisa o chão, vê o quanto temos ainda por trilhar. Infantil é rotular-nos de esquerda e direita, em nossa pluripartidária política. O mesmo que se diga de nossa educação (básica e profissional), responsável pela constitucional tríade ``cidadão, profissional e pessoa``.

 

 

Marcondes Rosa de Sousa  é Professor da UFC e da UECe 

 

 

Vários anos após Tiradentes (José do Vale Pinheiro Feitosa)

12:17 @ 21/04/2010

 

 

VÁRIOS ANOS APÓS TIRADENTES

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

           

             Entre as mais belas, históricas, simbólicas e bucólicas cidades brasileiras se encontra a cidade de Tiradentes em Minas Gerais. Ao lado da Serra de São José, a cidade tem ruas inclinadas, ladeiras consideráveis, um patrimônio barroco importante e numa das ruas principais se encontra o atelier de Oscar Araripe. Este nascido no Rio de Janeiro e descendente do território do Cariri.

            Desta junção da cidade, que leva o apelido de Joaquim José da Silva Xavier, e o artista descendente do movimento Republicano de 1817, relevante na cidade de Crato, é que nasce esta história. A história de Tiradentes, nesta terra de doutores que até hoje se imaginam os herdeiros naturais da liderança nacional, basta ver que o argumento entra como fel da oposição ao Presidente Lula. Afinal o nome Tiradentes fazia parte da depreciação com que os “aristocratas” a serviço do colonialismo português e do sistema imperial, como humilhação, deram a uma das tarefas com que o jovem e pobre revolucionário ganhava a vida.

            Uma coisa não se pode esquecer com o movimento republicano brasileiro, seus heróis começaram a vir do povo e não da “nata do lixo”. Tiradentes, com a República, passou a ser um dos primeiros heróis de origem fora da aristocracia escravocrata, de modo figadal ligada à Europa e não ao jovem país. Por isso, a 21 de abril, se lembra o enforcamento e posterior esquartejamento deste homem, 46 anos após seu nascimento não por acaso no distrito chamado de Pombal.     

            A morte de Tiradentes ocorreu 25 anos antes da revolução de 1817 e há apenas 3 anos após a Revolução Francesa. O requinte do processo fazia parte do “terror” com que a elite portuguesa e seus acólitos nacionais sentiam aquele tsunami a revolucionar a economia e a política européia. Deram-lhe a alcunha pejorativa, foi o único efetivamente executado e criaram “maldades” que até hoje infestam certas instituições e o pensamento político de certo tipo de gente.

            Não se pode pensar em democracia que não se pense em igualdade. A humilhação do nome Tiradentes é a prova histórica da pretensão ao privilégio e à ética do meu pirão primeiro com que certo tipo de “condutor” e “formador de opinião” pretende perpetuar um mundo privado apenas para si e os seus. Corre no sangue, está na medula desta gente que teima em deixar cadáveres estendidos no chão.

            Cadáveres não apenas enforcados. Mas esquartejados como Tiradentes. Com seu sangue escrever um documento declarando sinistra a sua memória. Deixar pedaços do seu corpo à margem do leito onde os brasileiros transitam para que se aterrorizem com o que lhes pode acontecer. Finalmente, no panteão do gólgota, apresentar sua cabeça decepada.

            Assim agindo, se imaginam protegidos atrás das cercas elétricas e dos carros blindados. Pensam ter cortado toda a esperança da revolta e do ódio – pois o ódio é uma das esperanças mais intensas que existe – tanto em pensamento como em obra. Imaginam-se, como então, rasgar os escritos dos Iluministas e as cartas da revolução que tendem a fugir ao controle dos capitalistas.     

 

Vamos discutir a sério? - Marcondes Rosa de Sousa

11:08 @ 03/04/2010

 

Vamos discutir a sério?

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 05 Abr 2010

 


Em ``Espelho, espelho meu``, aqui lançado, dei vazão a papo de professores da Universidade Federal do Ceará (UFC) a reclamarem desta presença maior em nossa sociedade. Logo após, artigo do vice-reitor Henry Campos mostrava a ``UFC presente na construção do CE``. Ao comentar meu artigo, a presidente do CIC, Roseana Medeiros, propõe que governo, academia e iniciativa privada unam-se com vistas ao bem-estar social. E de Paulo Elpídio recebo a provocação: ``Vamos discutir a sério essa questão?``

Assessor de planejamento de Paulo Elpídio, abro o Volume 3 da Coleção ``Documentos Universitários``, por mim coordenada: ``Seminário Geral & uma tentativa de administração solitária``, estratégia que resgatava, dos tempos de Martins Filho, o diálogo entre o dentro e o fora da instituição. E, lá, a proposta da abertura de ``canais em dupla mão com os setores sociais``, o que redundaria na criação da Rádio Universitária (FM), com tal vocação.

Abro e folheio, em suas 301 páginas, o livro ``Para onde vai a universidade brasileira``, das Edições UFC, apresentado pelo então reitor Paulo Elpídio. Nele, figuro a compor a comissão organizadora. E, no final, ao lado de Sofia Lerche, com leitura sobre o evento, a ressaltar a necessidade de a
vida acadêmica trilhar duas vertentes no jogo dialético: entre a corporação acadêmica e seu entorno (a vida social). Ou em meus termos: o olhar em frente (dimensão prospectiva) e dos valores a se perseguir (dimensão teleológica).

Razões a Roseana Medeiros. Que governo, academia e iniciativa privada se voltem para o bem-estar social. Vamos discutir a sério essa questão? Sim, é todo o nosso entorno social hoje a exigir tal postura de nossas ``indústrias sem chaminés`` - isto é, toda a rede de instituições (privadas e públicas) de nosso ensino superior.

MARCONDES ROSA DE SOUSA
Professor universitário

 

 

Vamos discutir a sério essa questão? (Paulo Elpídio de Menezes Neto)

08:21 @ 29/03/2010

            

                         

 

 

 

            Meu Caro Marcondes,

 

            Os "posts" alinhados poderiam constituir, em princípio, um temário básico e provisório sobre a "entente" "governo, academia e iniciativa privada". Se servir ao bem-estar social, muito bem. Desconfio, entretanto, que este não seja o objetivo central do "contrato" que se quer ver celebrado entre estas instâncias. 

 

            Padecemos de excesso de governo, de iniciativas privadas que não sobrevivem sem o público e de uma academia corporativa e "corporativista" que não consegue enxergar as resistências internas às mudanças e à inovação.

 

            Governo e academia foram tomados de assalto por velhas ideologias, renascidas das cinzas, em nome de uma forma  de nacionalismo e populismo que imaginávamos enterrados. A iniciativa privada adotou, como bandeira e inspiração, os dogmas do governo, o viés de um, sucesso momentâneo, e até contribui em seu favor, animada pelos elevados índices de aceitação do governo e do seu chefe. Excessos à parte, o empresariado se mostra  como "companheiro de viagem" ideal para essa travessia cheia de riscos previsíveis.

 

            Não, não sou de direita. Assim como Hugo Chávez e Lula não são de esquerda. De minha parte por convicção ou por ignorância geográfica; o que nada tem a ver com a percepção dos dois grandes líderes, os maiores que pisaram neste solo gentil herdado de Cortés, Pissaro e Cabral. O "bolivarianista" Chávez e o nosso "redentorista", a quem falta, apenas, um título consagrador: por que não lhe conferimos, por justa causa, o de  benfeitor perpétuo do mundo?

 

            Vamos por em pé um temário em torno do qual possamos discutir, a sério, esta questão?

 

            Por exemplo, como cruzariam iniciativa privada e academia, na perspectiva de produção de conhecimento e de qualificação profissional? E o governo, além de financiar ou deixar de financiar, que propósitos alimenta em relação à educação superior?

 

            Em que medida poderíamos extrair da Academia uma avaliação dos seus esforços e do governo as ideia que alimentam as suas políticas públicas? E da iniciativa privada, onde se colocam os objetivos reais da sua ação, além dos pressupostos "racionais" do lucro?

 

            Vamos conversar sobre isso? Disponho-me a ajudá-lo na elaboração deste cardápio.

 

            Paulo Elpidio 

 

Governo, academia e iniciativa privada voltados para o bem-estar social (Roseana Medeiros)

13:47 @ 27/03/2010

 

 

 

Governo, academia e iniciativa privada voltados para o bem-estar social

             (De Roseana Medeiros de Oliveira a Marcondes Rosa de Sousa)

 

 

Prezado Professor Marcondes Rosa,

 

Acreditamos que todo país que busca o desenvolvimento sustentável precisa, entre outras ações, converter conhecimento científico em inovação. No entanto, isso não pode ser feito de forma isolada. É importante que governo, academia e empresas enxerguem o mesmo fim. A inovação é um processo agregador.

 

 

      Reconhecemos que esse é também um processo de mão dupla. A parceria entre empresas e universidades, por exemplo, não deve se dar apenas do conhecimento vindo do setor acadêmico e se tornando realidade pelas mãos da indústria. Se partirmos do princípio que muitas pesquisas nascem das necessidades das empresas, é possível imaginar que o desenvolvimento de inovações possa partir de demandas do setor produtivo, e não somente de projetos de pesquisadores, muitas vezes, sem nenhuma familiaridade com o mercado. Que ambas abram suas portas às necessidades comuns e ao crescimento do país.

 

 

     Em nossa gestão, estamos priorizando, seja através do Observatório Social em Educação ou de outras ações, a conexão com a academia e órgãos governamentais, visando um Ceará inovador com bases sólidas.

 

 

     Para a solenidade de posse da nova gestão, o CIC convidou representantes das universidades locais, inclusive para a mesa de honra, o digníssimo reitor da UFC, Jesualdo Pereira Farias, que justificou a sua ausência por motivos de viagem.

 

 

    Na certeza de que os seus artigos sempre serão enriquecedores, nos despedimos cordialmente.

 

Roseane Medeiros de Oliveira

Presidente

 

 

CIC - CENTRO INDUSTRIAL DO CEARÁ
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UFC presente na construção do Ceará (Henry de Holanda Campos)

12:20 @ 27/03/2010

 

UFC presente na construção do CE

 

Henry de Holanda Campos
O Povo - 25 Mar 2010

               

                Mais de 1.500 notícias foram inseridas no portal da Universidade Federal do Ceará (UFC) desde 23 de outubro de 2008, início da atual gestão. Elas descrevem realizações, eventos, obras diversas e conquistas dessa instituição que, aos 55 anos, se inclui entre as maiores e melhores universidades brasileiras, sejam quais forem os indicadores utilizados. Concebida sob o lema do ``Universal pelo regional``, a UFC materializa, através do trabalho continuado pelos sucessores do inesquecível Martins Filho, o exemplo de uma instituição cuja história é continuamente escrita.


                Essa afirmativa é referenciada por dados irrefutáveis, como a instalação de três campi no Interior, com 20 cursos de graduação. Uma centena de cursos são ofertados a 28 mil alunos, representando crescimento de 29,7 % no período 2007-2009, aí incluidos os semipresenciais, em 28 municípios. Na pós-graduação, com oito novos cursos de doutorado e 17 de mestrado, o incremento foi de 38,5% no mesmo período.


                O fortalecimento da pesquisa traduz-se no seu orçamento, atualmente de mais de R$ 50 milhões, e na representação de 78,5% dos grupos de excelência em pesquisa no Ceará, onde a UFC chega a ser responsável, em algumas áreas, por mais de 90% do conhecimento produzido. Só em 2009, mais de R$ 22 milhões foram investidos em obras e mais de R$ 16 milhões em equipamentos.


                A interlocução com a sociedade intensifica-se através de 700 ações extensionistas, que chegam a todo o Estado e a mais de meio milhão de cearenses. Criam-se e revitalizam-se espaços para as artes e a cultura. Uma forte parceria com o projeto de desenvolvimento do Ceará baliza o crescimento institucional. A renovação de quase um terço do quadro docente acompanha-se de novas práticas de gestão. A UFC se apresenta à sociedade como um livro aberto, desde as primeiras páginas, enredado na história do Ceará e indissociável de seu desenvolvimento, o que a torna um dos nossos maiores patrimônios.


                Henry de Holanda Campos é Vice-reitor da UFC

 

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Espelho, espelho meu ... (Marcondes Rosa de Sousa)

22:17 @ 24/03/2010

 

Espelho, espelho meu...

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

O Povo - 22 Mar 2010

 

Às portas do Banco do Brasil, no espaço da reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), dou com colegas professores. No papo, a distância crescente da administração superior dessa instituição para com a sociedade, não mais vista ``pólo cultural do Benfica``. No papo, queixa a se estender à Universidade Estadual do Ceará (Uece), da qual sou professor. Falo-lhes sobre carta recente de Paulo Elpídio, ex-reitor da UFC nos anos 80, a se queixar de dois eventos onde lamentava a ausência da UFC - numa feira editorial no Rio, a ausência das ``Edições UFC`` e, em Paris, o mesmo a envolver editoras brasileiras, sem a UFC. Falo-lhes da recente posse da professora Roseane Medeiros, da Unifor (da qual fui professor), a primeira mulher à frente do Centro Industrial do Ceará (CIC) onde não vi representação alguma de nossas universidades.

            Ali, voltei aos tempos de pró-reitor de Extensão da UFC, quando para aqui, em convênio com O POVO, trouxemos Celso Furtado para, nos ``Encontros culturais``, nos falar das perspectivas para o Nordeste. Dali, Celso, depois, voltaria, a convite do CIC, traçando com os então jovens
empresários as sendas do ``movimento das mudanças``.

            Na posse de Roseane, não senti a presença da UFC a liderar a caudal de seus festivais (nacionais e internacionais) de cinema, encontros a indagar o ``Para onde vai a universidade brasileira``... Ali no CIC vi, porém,
diretores de instituições privadas de ensino superior, a quem, um dia, Jorge Parente, ao presidir a Federação das Indústrias do Estado do Ceará, nesta nos daria posse, num futurista insight, como ``indústrias sem chaminés``. Passo pela Unifor. Um painel evoca-me a história de Branca de Neve. Nela, a indagação ``espelho, espelho meu``, na narcísea sugestão da estrada por ela buscada: ``Unifor, a incomparável, em ensino, pesquisa e extensão``.

 

     Que as demais a sigam!



           

 

 

Indústrias sem chaminés (Marcondes Rosa de Sousa)

12:25 @ 16/03/2010

Roseane Medeiros

 

INDÚSTRIAS SEM CHAMINÉS

 

 

Fui dos primeiros a chegar, a convite de Robinson de Castro e Silva, à Casa da Indústria, para a transmissão do cargo de presidente do Centro Industrial do Ceará à primeira mulher, Roseane Medeiros. Driblei fotógrafos e jornalistas.  Discreto, sentei-me distante das cadeiras reservadas aos que iriam empossar-se.

Em flashback, surgiam-me, ali, três momentos marcantes na história do CIC. O de seu início, desde sua criação até os anos 80, a agregar as ditas “indústrias de chaminés”.  Sua evolução, nos primórdios dos anos 80, quando, para aqui trazíamos, a convite da UFC e do Jornal O Povo (mediado por mim então pró-reitor de extensão), Celso Furtado, recém retornado de longo exílio, para nos falar das perspectivas que teríamos com vistas ao desenvolvimento da região nordestina, que, a convite dos “jovens empresários do CIC”, ao Ceará retornaria depois.

Um conjunto musical, integrado por filho da presidente a empossar-se, evocou-nos os Beatles com intentado sotaque de nordestinidade, em tributo à Roseane.  Observo os ali presentes: os mundos empresarial, social e político do Ceará a transpor o arcaico conceito das “indústrias de chaminés”.  E isso me faz recordar gesto de Jorge Parente, ali cedendo seu lugar à nossa prefeita, em atraso, e, na Fiec, anos atrás, eu então presidente do Conselho de Educação do Ceará, ao dar posse, às nossas universidades, formadoras do capital humano.

Hoje, o CIC já navega tais águas.  A gestão de Robinson Castro e Silva, com seu Observatório Social em Educação, vai nesse rumo.  Justo quando a consciência ecológica que, hoje temos, sedimenta-se em toda a educação, da infantil à de todo cidadão, seguindo as sendas abertas por Jorge Parente: mesa de negociação do caleidoscópio da sociedade de agora.

Educação, da infantil à permanente, agora vê-se capital social e humano.

e-mail: marcondesrosa@gmail.com

 

Em tempo:

O presente artigo, escrevi-o para publicação no Jornal O Povo, na segunda-feira que, por coincidência, era o dedicado às mulheres.  Num gesto simbólico, o editoria da página “Opinião, convidou articulistas do sexo feminino, lá a falar de temáticas femininas a personagem principal deste meu artigo. 

 

.Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

Revolução Semântica (Paulo Elpídio de Menezes Neto)

10:56 @ 23/02/2010

 

Paulo Elpídio e familiar

 

Revolução semântica 

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto 
 

      “Toda vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno”,

Karl Popper 
 

            Em artigo recente, Roberto Damatta compara Lula a Prometeu: o personagem mítico roubou aos deuses o fogo da sabedoria, o metalúrgico-sindicalista, sagrado presidente, deitou a mão sobre as glórias do Plano Real e apossou-se dos ganhos do governo satanizado dos social-democratas.  O resto da estória é conhecido, é engenho político sem precedentes que a muitos surpreendeu e a tantos encheu de justificadas dúvidas e incertezas.

 

Assistimos, nestes poucos anos, ao nascimento de um governo midiático, avalista de um Estado-espetáculo e auto-referencial, cenário de uma revolução que se renova e se fortalece no domínio da construção de imagens cativantes. Convivemos com uma obra primorosa de engenharia léxica, da qual se extraiu uma revolução semântica e com ela foram redesenhados conceitos, premissas, convencimentos, ideários, hábitos e preconceitos. O esvaziamento do conteúdo das palavras e do significado recorrente que lhes deu cara e figura tem alcance considerável na fixação do objeto ou da idéia que designam ou pretendem excluir, simplesmente.

 

            É como se houvesse operado uma profilaxia saneadora no seu sentido original, com a retirada do registro inconveniente de significados indesejáveis para substituí-los por outros mais operacionais e socialmente mais convincentes. De uns tempos para cá, passamos a empregar, com freqüência inusitada, o adjetivo “republicano”, depois de termos exaurido o uso da palavra “cidadania”, do emprego das ações “inclusivas” e de terem sido denunciadas intoleráveis situações “excludentes”, pelos quais hão de ser responsabilizadas, naturalmente, as elites que nos colonizaram ao longo destes quinhentos anos de governos liberais e neoliberais, durante os quais foi “inventado” o Brasil.

 

Agora, felizmente, em boa hora, preparamo-nos para a sua “reinvenção”, não só a do Brasil, mas a do mundo, mediante modelos e técnicas sutis, entre elas a de “reaparelhamento” do Estado, como viemos saber na semana passada, ao som de abundantes manifestações patrióticas de um bem sucedido e ruidoso inventário partidário realizado em Brasília.

 

            A ambigüidade das intenções manifestas e das dissimuladas pela conveniência dos significados fez das palavras em uso no mundo político instrumento de múltiplas aplicações, chave-mestra de muitas entradas, “links” reveladores de dissimuladas intenções. No mais das vezes, o maniqueísmo secretado por essa ambigüidade aparentemente ingênua promove a catalogação de posições e dos indivíduos, atribuindo-lhes classificação condenatória ou absolvendo os pecadores, conforme as conveniências da ocasião, a uma simples troca de sinal do seu significado original. 

 

            Da geografia da Convenção herdamos a designação de esquerda, direita e centro, classificação genérica na qual se enquadram – assim imaginamos -- as tendências, os antagonismos e as cumplicidades políticas e ideológicas que alimentam o poder dos homens e as forças do governo. Nesta quadra dos grandes prodígios da “Pátria-grande” a que assistimos afortunadamente, embora sem os merecimentos de outros cidadãos mais aplicados, foram associados ou diluídos, por obra piedosa da semântica, conceitos e acepções discrepantes, cuja serventia está na confusão que produz em quem pretende entendê-los.

 

A “direita”, historicamente representada pelos “girondinos”, agentes pressurosos da consolidação das conquistas burguesas e empenhados em evitar os agravos revolucionários, passou a sinônimo de “liberal” e “neoliberal” e de todo o cinismo de que os homens são capazes de armazenar e carregar durante a sua passagem vacilante por este vale de lágrimas, servidos pelo livre arbítrio, condição que os torna, ainda, mais perigosos para os homens de bem e os cidadãos insuspeitados, as famílias numerosas da esquerda e os eventuais “companheiros de viagem” admitidos em comodato durante o breve percurso do assédio e tomada do poder. 

 

O que mais incrimina e condena, neste jogo de palavras vãs, sortilégio de dúvidas e cumplicidades dissimuladas? A suspeita de ser “liberal” (ou “neoliberal”, pecado em dupla porção) ou a falha de caráter de quem é apontado como “de direita”? Do “centro”, guardamos a má fama de oportunismo que exala, ainda assim útil a todas as intenções, sobretudo as dos “jacobinos”, transformado em esteio da esquerda secular, massa de todas as manobras de “governabilidade”, eufemismo cínico que, no Brasil, explica todas as proezas das alianças e as suas generosas conquistas.

 

            Do que estamos a falar, afinal? Sobre questões imponderáveis, hão de pensar os justiceiros, que tremem de ódio santo ao menor sinal de dúvida sobre os mandamentos e dogmas da verdade eleita. Não são poucos os indícios de um auto-de-fé que se foi armando em torno dos homens desprevenidos, dos que fogem ao engajamento instantâneo, empurrando-os para o canto das definições impositivas. Vale lembrar, a propósito da exacerbação maniqueísta a que nos vimos expostos, as doutas palavras de um eminente assessor presidencial,  para quem existe, no Brasil, um “retraimento do pensamento crítico” fragilidade que favorece a ascensão real de uma “subintelectualidade de direita”.  

 

            Em um país construído e movido por interesses transeuntes, sem identidade política ou fisionomia partidária, como o Brasil antes, durante e pós-Lula, não parece tarefa fácil distinguir com razoável precisão o que diferencia a “direita” da “esquerda” e entender como se mantêm as alianças construídas na base do escambo político, da troca da estipêndios e de provisórias intenções. Discordar, da mesma forma como exercer a oposição, são tarefas ingratas – e perigosas, a História o comprova, segundo os registros sobre a intolerância da fé e das ideologias dos homens.

 

             Diante dessa dúvida “hamleteana”, a “ascensão de uma subintelectualidade de direita” parece menos arriscada para a democracia em construção nos laboratórios do PT, do que o “retraimento” do pensamento critico, cujas evidências se acumulam por força das obras improvisadas da “reinvenção” anunciada do Brasil.

 

 

 

Que horror!!! Discussão sobre homossexualidade em Uganda

11:46 @ 20/02/2010

 

QUE HORROR!!!

 

From: Sandra Paulino

To: agnus@powermail.com.br

Sent: Wednesday, February 17, 2010 10:50 AM

Subject: Fw: Diga não à Pena de Morte para Gays da Uganda

 

QUE HORROR!

***

 

Amigos,

 

           Aqueles que receberam a msg sobre Uganda e o assassinato institucional dos "diferentes" e aderiram à "petition on line", meu sincero agradecimento. Aos que me responderam dizendo que "isso não vai adiantar nada!", ofereço o vídeo espetacular a seguir. Aos que dizem que aquilo deve ser feito não tenho nada a dizer.

 

sandra paulino

 

***

 

Sandra, já estou em contato há algumas semanas com um amigo de Uganda. Ele não é cristão, mas conhece um pastor em cuja igreja há grande número de ex-homossexuais, e ele está ajudando esse pastor e várias igrejas cristãs a se organizarem na luta contra essa aberração de lei que prende homossexuais e os condena à pena de morte...

 

 Mas esse meu amigo disse que a população tem pedido uma outra lei, que seja humana, tolerante e ética, mas que ponha algum limite especificamente no avanço desenfreado e violento da militância ativista GLBT de lá, que, segundo eles, é financiada por George Soros (um dos grandes promotores do movimento pró-pedofilia no mundo) e está doutrinando crianças ugandenses à prática homoerótica, causando muitos estragos psicológicos nos pequenos. Parece que há diversas ONGs preocupadas com esse lado da questão, ao mesmo tempo em que estão defendendo os homossexuais contra essa lei odienta.

 

            Se eu tiver mais informações, envio para a lista.

           

            Abraço!

Ricardo.

 

De: vilemarfc@gmail.com


Enviada em: quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 17:15
ethos-paideia@grupos.com.br

Ricardo, nessa você superou...

Dê-nos fontes seguras e precisas que sustentem ser o financista George Soros um dos promotores de movimento pró-pedofilia...

Dê-nos fontes de que realmente existem EX-gays...

Doutrinar crianças à prática Homo-erótica em Uganda, um país extremamente violento, com práticas atávicas de lutas sangrentas intestinas, de práticas selvagens de sacrificios humanos via religião/cultos/seitas, um país em que falta comida e agua mas sonbra armas nas mãos de crianças e adolescentes... Sei não, acho que esse seu amigo se enganou de fato e de direito... HHUUMMMM...!!!!!

Ah. talvez seja a tal "via religiosa doutrinária" dele.

 

***

 

 

 

From: ricardobmarques@uol.com.br

 

Vilemar,  sem cinismo, homem, por favor...

 

Como deve ter lido em minha mensagem, não afirmei a história do George Soros, deixei claro ter sido uma menção feita pela pessoa a que me referi. Mas esse dado não é novidade, só que nunca precisei confirmá-lo, pois nunca me envolvi com esse assunto. Quando eu tiver informação segura e factual, a trarei à lista como FATO, como costumo fazer. Se não trouxe assim, é porque mantenho minha coerência.

 

Fontes seguras sobre existência de ex-gays existem aos montes, quem tem real interesse basta fazer uma simples pesquisa, como eu costumo fazer ao transitar nos opsotos lados das questões sobre as quais quero aprender. Mesmo assim, em muitas mensagens minhas durante minha longa estada no Ethos-Paidéia, nos últimos anos, as PROVAS foram fartamente entregues a você e aos demais colegas.

 

Pode resgatar as mensagens sobre o tema e as encontrará, inclusive com diversas citações de trabalhos científicos de psiquiatras e psicólogos, testemunhos pessoais, livros, reportagens etc. Ah, claro: meus depoimentos pessoais também pois, como deve lembrar-se, revelei o quanto amo os homossexuais, quantos amigos GLBT tenho e descrevi em detalhes o trabalho que tenho com eles, inclusive as menções necessárias aos muitos EX-homossexuais masculinos e femininos com quem convivo semanalmente na comunidade de que participo. Ops, desculpe – esqueci que esses tipos de fatos e provas não contam, não... Eles são estranhamente esquecidos e ignorados, pois ferem certas convicções dogmáticas e absolutistas, né? (rsrsrsrs).

 

Se você estivesse melhor informado, descobriria que o doutrinamento de crianças a práticas homoeróticas é um fenômeno mundial e está ocorrendo em quase em todo tipo de sociedade. Só a desconheço, ao menor por enquanto, em certa tribos indígenas, pois não existe homossexualismo entre eles, exceto nas culturas corrompidas pelo homem branco – e mesmo assim, nestas, ocorre a horrenda prática de eles matarem os que se envolvem em práticas homossexuais assim que percebem qualquer tendência nesse sentido.

 

Quanto a esse meu amigo, se prestar atenção à minha mensagem, verá que ele não é religioso. Apenas está ajudando um pastor e algumas igrejas no combate à lei que pune homossexuais em Uganda, mas ele não tem qualquer “via religiosa doutrinária”, seja lá o que isso significa. O cara é um antropólogo ateu.

 

Por fim, queria alertar você, mais uma vez, amigo, a respeito de sua postura preconceituosa que o faz seletivo a respeito de minhas mensagens: observe que preferiu me criticar na menção que fiz à pedofilia em Uganda, que foi ponto periférico na mensagem, em vez de aplaudir o foco da mensagem, que foi a movimentação que se está fazendo em Uganda contra a lei que pune homossexuais. Viu como, intencionalmente ou não, é fácil para você distorcer as coisas e me “discriminar”, produzir “intolerância e preconceito” e, quem sabe, até “incitação ao ódio”? (São acusações ridículas que ativistas costumam fazer a pessoas comuns que possuem opiniões que os incomodam, mas contra as quais não têm argumentos, restando-lhes apenas denegrir, censurar, ridicularizar e perseguir quem eles quiserem, até se livrarem do incômodo).

 

Perdoe-me dizer-lhe, velho amigo, mas foi você quem se superou nessa. Ponha a mão na consciência, é só um pretensioso pedido de quem gosta muito de você.

 

Ricardo.

 

 

 

 

 

Nordestinidade (Marcondes Rosa de Sousa)

22:37 @ 19/02/2010

Celso Furtado na Rádio Universitária (1984)

 

Nordestinidade

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 01 Fev 2010

 

Na Assembleia Legislativa do Ceará, ouço de deputado federal a observação de que aqui somos, entre os da região, o estado que mais tem o sentimento de nordestinidade. 

Por instantes, isso me leva aos anos 80 quando para cá trouxemos Celso Furtado então retornado da Europa para que nos falasse sobre as perspectivas que tínhamos para a região (www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/permalink/9489.html). 

O auditório Castelo Branco tornou-se pequeno para tanta ocorrência, aos gritos ``concha-concha-concha`` de ávida busca de vias contra o arbítrio. Celso aceitaria antes passar pelo Centro Industrial do Ceará, para breves palavras no vácuo de palestrante não vindo. Depois, voltaria para estar com ``os então jovens empresários``, e discorrer sobre ``Dos ideais do CIC a uma prática de governo.`` 

Novo ciclo. Tal ideário esgota-se: ``Eu considero que são 15 anos. O ciclo de Vargas fora 15 anos (...) O próprio ciclo da República, da Constituição de 1946, durou de 1946 até 1964: 18 anos``. Ouço de Gonzagão e Zé Dantas (médico) as admoestações após seca dos anos 50: ``Mas doutor uma esmola para um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão``. Ou, na versão, da CNBB: o ``clientelismo governamental`` distorcendo a ``bolsa família` na busca da droga, da violência e do crime. 

Algum tempo atrás, participo, a convite de Rosa Furtado, presidente Cultural do Centro Internacional Celso Furtado, e de Robert Smith (BNB). Em novo ciclo, a Região hoje busca um novo Nordeste. Persiste-lhe, porém, recobrado, o mesmo norte: ``Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento``. Norte que nos seduzirá aos muitos que agora perseguimos a metamorfose feito estrela na Região e no País.

 Assim seja! 


MARCONDES ROSA DE SOUSA 

Professor da UFC e da UECe  

 

 

 

 

 

Poema de Vilemar F. Costa

19:54 @ 19/02/2010

 

Flanar pela rua
Vaguear caminhos e o pensamento
A deriva da própria vida a flutuar
Na existência e suas inconstâncias

Sob leve brisa vadiar
Na hora que o sol foge,
Prender a tarde na sola dos pés
Cruzar tempo, espaço e vento

Paredes baldias, vitrines, portas de aço, casas
A paisagem de concreto, espessa textura
Que reverbera calada, seus neons incandescentes
E a canícula sofrida.

Vozes atravessam a calçada,
Bêbados mendigos crianças, limitam
O ir e vir dos burgueses apressados
Espantados e enojados dos invisíveis citadinos

Ônibus escorrem, tomados de modorra
Carroças puxadas a homens
Motocicletas e peruas,
Algumas em movimento

Numa praça flanelinhas inebriados
Aguardam o final do litúrgico oficio
Para ganhar o real

Sombreada nas torres da igreja
A banca de velhas revistas e jornais
Guarda o tuberculoso esquálido a praguejar

O poeta ébrio beija a boca da noite
Sorve estrelas, enlouquecido
Impreca contra passantes que teimam instigá-lo

Enquanto homogays heteroguys safistas
Feito bibelôs coloridos
Fazem algazarras e riem-se,


Prostitutas alegres velhos assanhados
Trocam olhares lúbricos mútuos
À sombra do centro de cultura

No meio-fio, lauto banquete de carcaças podres
sobras de alimentos servidas em sacos de lixo,
nutrem a fome de crianças verminosas
velhos decrépitos mendigos loucos e bêbados

Praças poetas bêbados flanelinhas
velhos homos lesbios putas e loucos
Crianças verminadas e michês,
Estão invisíveis na cidade cega

Não refresca a alma
Não há espairecer
Observar o lado invisível da cidade
Nem há como

Falsear o céu no chão a vadiar
Ir por outros ares a imaginar
Verdes prados caminhos retos fontes refrescantes
Borboletas plantas pássaros insetos

Impossível no passeio divagar
flanar e não enxergar, a invisível dor
Mesmo que a tentação obrigue,
dispor os pés descalços no chão

À beira da noite que vem baixando,
Ousar-se livre como um pássaro
É apenas crônica delusão
No campo de morangos

Onde nada é real, para a elite do andar de cima
Presa entre condomínios e shoppings
Viver de olhos fechados é mais fácil**

Vilemar F. Costa
* Free as a bird : Lennon – McCartney - Ringo

** Strawberry fields forever : Lennon - McCartney

PoEma de Vilemar F. Costa

 

O silêncio de Buda (Sebastião Magalhães Santa)

19:12 @ 19/02/2010

 

Muitos são os silêncios
poucos serão ouvidos

O silêncio de Buda

O cristianismo nasceu
das palavras de Cristo

o Zen nasceu de um silêncio de Buda

um dia o iluminado
em lugar do sermão
apresentou aos discípulos
uma flor
sem dizer palavra
um único discípulo entendeu
mahakasyapa
primeiro patriarca do zen
a doutrina da meditação silenciosa
da concentração descontraída
da dança não dançada
da voz sem voz
da iluminação súbita
da luz interior
da superação dialética dos contrários
da vida diária...

 

***

As vezes, em razão de nossa incapacidade de ouvir, acabamos achando que Deus, nossa imagem e semelhança, também é surdo. Dai saímos gritando, gritando... Deveríamos trocar o Amém pelo amem!

Abraços silenciosos.
Sebastião

magalhaesanta@uol.com.br

 

A mãe do Presidente (Nilze Costa e Silva)

16:56 @ 19/02/2010

 

A mãe do Presidente

 

Nilze Costa e Silva

 O Povo – 09.01.2010  

 

Assisti ao filme “Lula, o filho do Brasil“ quase sempre com lágrimas nos olhos. O filme, na realidade, tem o mérito de homenagear uma mulher valente e voluntariosa. Uma mulher guerreira, modelo de superação da extrema pobreza, da fome, do exílio forçado, do abandono e da violência doméstica.

 

Dona Lidu era uma mulher teimosa. Saiu de Garanhuns, agreste de Pernambuco, região castigada pela seca, carregando oito filhos em busca de uma vida melhor em São Paulo. Lá morava o marido, que a largou com um filho na barriga. Entrou com seus rebentos em um caminhão pau-de-arara e garantiu a todos eles que a vida iria melhorar. “É só teimar“, dizia ela. Enfrentando poeira, calor e fome, trazia no colo um menino que se tornaria presidente do maior país da América Latina.

 

Em Santos, Lidu teve que lutar, enfrentar enchentes e brigar para defender seus filhos do pai violento e alcoólatra. Os filhos pequenos tornam-se vítimas do trabalho infantil e começam a trabalhar como ambulantes, engraxates e empregados domésticos para ajudar no sustento da família. Mas Dona Lidu teimava em manter a família unida e honesta. Lidu era dessas pessoas otimistas, confiante no futuro. Foi ela quem, pessoalmente, matriculou o futuro presidente no curso de torneiro mecânico e estava lá aplaudindo quando ele recebeu o certificado.

 

Tinha sempre um abraço e um afago, na alegria e na tristeza, inclusive quando ele perdeu um dedo da mão em um acidente de trabalho. Quando Lula enfrentou a dor de ver mortos sua primeira esposa e o filho, ao mesmo tempo, ela estava lá, consolando-o. Lula entrou no movimento sindical contra a sua vontade. Durante a ditadura, a mãe chorava com a possibilidade de sua prisão. O filme nos enche de esperança. É um grande exemplo para os brasileiros, a provar que com honestidade, trabalho e inteligência um menino pobre e nordestino pode se tornar um líder operário e até chegar à presidência da República.

 

Nilze Costa e Silva – Escritora
nilzecosta@terra.com.br

 

Feliz Ano Novo (Marcondes Rosa de Sousa)

11:52 @ 07/01/2010

Feliz Ano Novo

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 04 Jan 2010

 

Adentramos, afinal, o ano de 2010. E a respirar a atmosfera pós Conferência do Clima, em Copenhague, considerada ambígua pelo Green Peace: de um lado, um fracasso, já que os líderes mundiais não conseguiram o esperado acordo sobre o aquecimento global do Planeta; de outro, felizmente, o sucesso, a revelar a força da sociedade civil a pressionar os governantes. Em outros termos: a crença de que, se não podemos mudar a ciência, adequando-a ao pouco avanço da Conferência, poderemos mudar os políticos.

Em nosso País, o presidente Lula já havia anunciado proposta de tornar a corrupção um crime hediondo, a indagar-se retórico: ``O que é afinal um paraíso fiscal senão fruto da corrupção?`` Quem colaborou à distância e por meio de petições, enviando recados, descobriu quão frustrante é ver a política e a economia fazerem refém o futuro da humanidade. Daí, o apostar-se num contínuo processo de educação não formal: ``... nos momentos de desânimo, devemos lembrar que temos de seguir em frente (...) engajando o setor privado, os governos locais e as outras pessoas para transformar nossa comunidade e criar mais pressão!``

 Missão, sem dúvida, que há de ser abraçada por nossa educação, no sentido lato e restrito de nossa Lei de Diretrizes e Bases (LDB): escola, família, igrejas, meios de comunicação, agremiações políticas. Haveremos de despertar, em nossas crianças, jovens e cidadãos enfim, uma consciência ecológica. Sinais desse aquecimento aí estão evidentes. O planeta se aquece, os dilúvios se ensaiam, cada vez mais perto de nós, Noés sem arca a clamar por um planeta ecologicamente sustentável.

Que 2010 nos traga o darem-se mãos, cabeças e corações de todos nós para salvar o planeta, ciência, tecnologia e serviços voltados para esse tal horizonte. Aí, teremos um feliz Ano Novo!

Marcondes Rosa de Sousa é Professor da UFC e da Uece

 

Corrupção, crime hediondo (Marcondes Rosa de Sousa)

14:16 @ 22/12/2009

 

Corrupção, crime hediondo

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 21 Dez 2009


          Desde a Grécia antiga, política é a arte de bem governar. Com Nicolau Maquiavel, em seus conselhos ao Príncipe, tal arte passou a se eivar de astúcia e má fé até, a se chocar com a moral. E do que se cognominou, entre nós, de lei do Gérson - o levar vantagem em tudo. Chocaram-nos as cenas dos dólares na cueca envolvendo petistas. E, agora, os flagrantes das câmeras: cédulas nos bolsos e meias de políticos do Distrito Federal.

 

         Num revide a conter essa onda, o presidente Lula enviou ao Congresso projeto de lei que caracteriza como hediondos os crimes de corrupção passiva, ativa, peculato e a concussão (exigência por funcionário de vantagens para si).A corrupção não se restringe aos políticos. Em corrente, ela se estende pela sociedade, envolvendo empresários e setores outros no ``toma-lá-dá-cá``.

 

        Nesse contexto, a educação tem papel importante. É que o País, as regiões e o Ceará (este a anunciar milhares deles por vir) terão de ampliar empregos, que exigirão qualificação. Emprego hoje deixa de ser mera mão-de-obra, lastreado por ``capital humano`` e preparado pela educação. Sem ele, teríamos de importá-lo de fora, alimentando os desempregados com programas como o bolsa-família.

 

        Este, agora, terá de voltar ao inicial bolsa-escola - o trabalho a trilhar, para os capazes, o bíblico preceito do ``comerás o pão com o suor do teu rosto`` e do ``sem uma arte e um ofício não se é filho de Deus``, lição que dom Aureliano Mattos legou a Ariosto Holanda em criança e hoje pai dos Centecs.

 

       Hoje, com o aquecimento global, os países tentam dar-se mãos, cabeças, coração e capital para salvar o Planeta, dirigindo ciência e tecnologia para esse propósito. Remover o crime hediondo da corrupção e investir na educação como capital humano é o caminho, que esperamos!


MARCONDES ROSA DE SOUSA

Professor da UFC e da Uece

 

 

 

 

A ética como esteio na vida cotidiana (Hélder Sabóia)

12:24 @ 09/12/2009

Tomás de Aquino

A ÉTICA COMO ESTEIO NA VIDA COTIDIANA

O que define o comportamento ético? É uma indagação difícil de encontrar uma resposta consensual posto que perpassa pela visão de mundo de cada um de nós. Muitos filósofos definem a ética como o modo socialmente correto de convivermos com o semelhante. Elegemos o pensamento de São Tomás de Aquino que, embasado em Aristóteles, visualizou a ética imanente à psique humana e, que, como uma bússola, estaria sempre a indicar o reto caminho, em direção ao Deus Supremo que, por essência, é justiça, amor e caridade.

            A ética, para São Tomás, não se prende às flutuações dos sentimentos e das emoções porque, a exemplo do Direito Natural, é inabalável e permanente pois sinal da presença de Deus no âmago de cada pessoa. Muitos haverão de indagar como ser ético neste mundo globalizado que criou uma sociedade científico-tecnológica onde o progresso das comunicações apequenou o mundo, tudo ficando perto de tudo. A qualquer distância, usamos os evoluídos meios de comunicação para mudar costumes e formas de expressão.  

Neste contexto, os valores cristãos tradicionais foram relativizados sob a influência das culturas de outros povos que professam outros credos. E mais uma vez a pergunta: como não nos desviarmos da ética ante tantas seduções de nossa cultura consumista, das influências midiáticas de uma sociedade  que exacerba o individualismo em detrimento de uma convivência fraterna. Pela ótica cristã poderíamos dizer: basta seguir os ensinamentos de Cristo que, respondendo a dúvida existencial de seus apóstolos, disse: “Sigam-me. Eu o sou o caminho a verdade e a vida”.

Para os menos crédulos na existência transcendental, por que não nos guiarmos pela luz do direito natural que Cícero, o insigne orador da antiguidade, definiu como “A razão reta, conforme à natureza, gravada em todos os corações; imutável e eterna cuja voz ensina e prescreve o bem .Essa lei não pode ser contestada, nem anulada. É Deus seu inventor, sancionador e publicador”.

Outra indagação se nos apresenta: por que a invocação da ética para titular esta modesta reflexão? Respondemos simplesmente: porque o Natal se aproxima. O Natal, essa festa que se auto-denuncia pela iluminação feérica das praças, das ruas, das avenidas; luzes tênues, multicores, repletas de simbolismo no interior dos lares. Mas, acima de tudo, um facho de luz, vindo dos paramos celestiais, invade-nos até a intimidade da consciência e parece querer nos mostrar o amor ágape, aquele que, proclamado pelos justos, reveste-se de pleno ecumenismo, abrangendo, na sua totalidade semântica, o sagrado respeito à natureza.

Leonardo Boff, incansável defensor da ecologia, diz que o homem só encontrará felicidade quando vivenciar, com equilíbrio, suas dimensões cósmicas do “eu” e do “nós” em busca de sua integração sistêmica na sociedade e na natureza. E por que, passada a luminosa festa do Natal, não permanecermos no sentimento natalino no nosso cotidiano, vivenciando a ética mística de São Tomás ou a naturalista do grande Cícero? Afinal, ambas convergem para alcançarmos a enteléquia que é a perfeição máxima no Ser, em Deus que, em essência, é amor. Bento XVI ratifica essa concepção teleológica em sua encíclica “Deus caritas est”. E, segundo o jusfilósofo Fábio Konder Comparato, precisamos, nos dias de hoje, cada vez mais de uma nova ética, “pois premidos por duas correntes históricas antagônicas, somos chamados a decidir de que forma pretendemos unificar a humanidade –se  com base na força militar, na dominação tecnológica e na concentração do poder econômico, ou se  amparados na dignidade transcendente da pessoa humana”.

Feliz Natal!  

Francisco Hélder Catunda de Sabóia

(Funcionário aposentado do Banco do Nordeste do Brasil)

Vida (Vilemar F. Costa)

12:11 @ 09/12/2009

 

Vida

 

Vida que depressa vai ultrapassando

A vida

Que alimenta

A morte

Que alimenta

A vida

Que é breve

Ainda inacabada enquanto memória

Enquanto em mim mora.

 

Vida que marcha soturna 

Fertilizando-se nos elementos,

Através do tempo e da dor

Parindo alegrias, esperanças,

O tecido entrelaçado de luz e sombra,

Melodia e poesia, germes e frutos

Com que nos veste

E que se estende, toca, cobre, cobra

Entecida de paixão, juízo e razão.

 

Vida móbile que retalha os dias

Sangrando o hoje e o amanhã,

Delimita e sulca o caminho

Entre o berço e o cemitério

Na viagem que se faz ao caminhar,

Não sabendo

Onde está escondida

A nova vida

A velha morte,

Saídas entre as vidas

No combate fértil da esperança

No parir do embate entre céu e terra.

 

Vida em que tudo está

Sempre

Rodando e em transito:

As palavras, as pessoas,

O tempo, o vento,

O hálito, o olhar,

A natureza, a dor,

Os anjos e os demônios

Rondando

A desde já velha vida

E a nova morte em ânsia.

 

Vida que a morte move

Ávida,

Há vida na morte ávida,

E no percurso

A paixão move a vida

Antes de tudo,

Sustenta-a o conflito instinto e razão,

Num circular ciclo dúbio

Em que sobe ao céu e desce à terra

Das coisas divinas para as humanas.

 

Vida terrenal

Essência perecível

No galope ultrapassando

O transito da memória

Edênica,

No pesar da saudade 

Da pátria original distante.

De saudade é feito vida.

 

Vilemar  F.  Costa  .’.     HTTP://VIAPOESE.BLOGSPOT.COM

 

 

 

A escrita hoje a voar! (Marcondes Rosa de Sousa)

16:19 @ 08/12/2009

 

 

A escrita hoje a voar!

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 07 Dez 2009

         

            Do Rio, escreve-nos Paulo Elpídio, ex-reitor da UFC e hoje na administração da Cândido Mendes. Diz-nos que, em visita à Bienal do Livro, estranhou a ausência das Edições UFC. E que, no ano Brasil-França, onde escritores e cientistas eram esperados, nenhum cearense. Daí, recorrer ao vice-reitor, seu amigo, para o relato da desagradável surpresa.

 

De Paulo Elpídio, fui assessor de planejamento. No inicial Seminário Geral, colhemos o clamor geral por um canal em dupla-mão para o diálogo entre a universidade e seu entorno. Daí, com tal missão, a Rádio Universitária, passarela entre a academia e o meio. E aí a mobilização do mundo empresarial e da CUT na discussão: ``Para onde vai a universidade brasileira?``, Gomes Pereira a provocar, e eu um Pero Vaz de Caminha.

 

Anchieta Esmeraldo Barreto me faz pró-reitor de extensão, com a missão de estreitar tal diálogo, nos campos comunitário e cultural, no Ceará e em Xapuri (Acre). Celso Furtado, então retornado ao País, lança-nos a base para o desenvolvimento da região. Tempos de forte ação cultural, destaque para o Seminário Cinema e Literatura e os Festivais de Cinema e Audiovisual. Volto a pró-reitor na gestão de Antônio Albuquerque, com a mesma linha. Na Fiec (Federação das Indústrias do Estado do Ceará), Jorge Parente já dera assento às Instituições de Ensino Superior, como indústrias sem chaminés. E, agora, é o Centro Industrial do Ceará a se embasar no Observatório da Educação, as escolas adentrando no clima de responsabilidade social e ecológica.

 

Tudo hoje a transpor a estreita visão sindical de outrora. Na Associação Cearense de Imprensa, Ivonete Maia a querer espaço para uma ``imprensa`` além do verba volant, scripta manent`` (o verbal voa e o escrito permanece). O escrito hoje voa, jornais e livros na web. Daí, a Associação Cearense de Imprensa espaço mais amplo para repensarmos a comunicação. A Ivonete, nossa adesão!

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará

 

 

As tias high-tec e as manchetes desta terça-feira (J. do Vale P. Feitosa)

15:33 @ 08/12/2009

Chapada do Araripe

 

As tias high-tech

e a manchetes desta terça feira

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

 

Rosa, Maria e Raimunda viram o sol ligar o lume do dia como todo dia fazem. Tia Rosa olha para o sol vermelho nascendo por trás do Serrote do Cachimbo e pensa nas cores que predominaram na internet desde domingo. Um sol bem futebolístico, até uma bola é. Tia Maria franze o cenho de preocupação com o açude baixando o nível da água. Tia Raimunda chama as duas para lerem os jornais digitais no amanhecer desta terça feira. 

 

E a manchete principal é: “Temporal provoca morte, interdita a Marginal Tietê e paralisa São Paulo”. Em ato quase automático, Maria volta a olhar para o seu açude minguando enquanto os paulistanos xingam a natureza cruel igual fazem aos governos do estado que não dão vazão às águas nas ruas. Rosa comenta: água não é mole não. Engana com aquela malemolência toda, mas carrega uma força por dentro capaz de mudar tudo no seu caminho.

 

A próxima manchete fez Raimunda puxar um riso irônico de canto de boca: “Obama recorre à saúde para controlar emissões.” Maria atenta, viu a crítica da irmã pela vírgula ferina nos lábios. Levantou a cabeça perguntando em silêncio à irmã o motivo para tal sorriso e Raimunda, fugindo ao seu habitual recato, expôs seu espírito gaiato de cearense, a maior parte das vezes escondido e explicou: por isso é que Buiu tinha razão quando dizia que era melhor um peido estrondando do que uma tripa dando nó. E Obama quer controlar as emissões com a saúde, nada mais na contramão da brincadeira de tia Raimunda.

 

Passaram com tédio na outra manchete que falava na morte de mais de 100 em ataques dentro de Bagdá. Tia Rosa explicou-se: esta manchete já é velha. Vem dando há mais de seis anos. E foram descendo, ou subindo, depende de quem descreve, a página do jornal até chegarem à manchete: “Madonna pensa em adotar mais uma criança”. As três empacaram na manchete. Não sabiam traduzir a frase.

 

Tia Raimunda diante da mudez das três expressa o sentimento coletivo: se ela pensa ninguém poderia estar sabendo. Como o jornal diz que ela pensa? O jornal já está adivinhando pensamento? Rosa balança a cabeça e estalando os lábios em desagrado diz: é que ela não pensa, ela disse ao jornalista. Mas então o jornalista está mentindo, se achando Deus, comentou tia Maria.

 

Mas, meninas, não é só isso não, continuou Raimunda. Esta Madona está virando uma mandona, parece uma creche. Aí tia Rosa pegando o espírito gozador agora para si, diz: e vai botar estes filhos adotados todinhos para morar naquele castelo lá da França onde aquele jogador de Futebol Ronaldo casou a uma modelo chamada Cacareli. Maria corrigiu o nome da modelo: não é Cacareli não, é Cigoreli! Errado as duas o certo é Cicarelli. – falou Tia Raimunda e acertou em cheio.

 

Nisto o café cheirou desde a cozinha em que ebulia e as três pararam a sessão de jornais na internet. O dia prometia muito calor no sertão do Potengi.

Por um projeto de País (Marcondes Rosa de Sousa)

14:20 @ 01/12/2009

 

Ciro Gomes no FestRio

 

POR UM PROJETO DE PAÍS

                                                                                    

Nos jornais, leio: “Ciro reafirma que abre mão por Aécio”. Isso, caso este se viabilize como presidenciável do PSDB.  E isso, acredita, é “tão importante para o Brasil que sua candidatura não mais é necessária”.

Ciro, conheci-o, no início dos anos 80, quando, na UFC, exercia eu a função de Coordenador do 1º Ciclo de Humanidades, onde tentava apartar dissensões entre ele e João Alfredo (este hoje no PSol).

Algum tempo depois, Ciro, então jovem prefeito de Fortaleza, em apoio a Tasso e à Secretaria de Cultura do Ceará, dirigida por Violeta Arraes Gervaiseau (a me ter no Departamento de Cinema e Audiovisuais), resolvem abrigar, no Ceará, o FestRio, em sua 5ª edição, abrindo nossas potencialidades para a implantação aqui de um pólo de cinema e audiovisuais.

 Eleito governador, vou, a seu convite, a seu provisório gabinete.  Foto no alto me surpreende... Em abraço, Ciro e Tasso, num comício.  Intriga-me o  ângulo da câmera  a flagrar possível queda-de-braço entre os dois...

Para essa geração de políticos, um ideal latente. Fernando Henrique, ao assistir de Tasso, um dia, a palestra “Dos ideais do CIC a uma prática de governo”, exclamou: “Mas essa é que é a social democracia que buscamos: a que, como o baião, vem de baixo, do barro do chão. Não a abstrata que importamos da Europa”. Idéias que aqui haviam sido plantadas por Celso Furtado, na UFC e no CIC...

Para Ciro, está maduro que “Aécio encerra o provincianismo da disputa entre o PT e PSDB de São Paulo”. E conclui: “A minha necessidade aguda de ser candidato não remanesce mais, já que Aécio pode convocar todos os brasileiros decentes de todos os partidos, que é como ele faz em Minas Gerais, e celebrar um projeto de País que dê avanço ao que o presidente Lula representou”.

É o que esperamos todos, no Ceará, no Nordeste e no País!

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECE

 

 

 

 

A violência em nossas escolas (Marcondes Rosa de Sousa)

00:35 @ 13/11/2009

 

A violência em nossas escolas

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo  09 Nov 2009

 

Nos jornais, observo as discussões sobre carreira e papel do professor, no Ceará, o 4º. piso salarial do País. E releio artigo que, em 2002, escrevi sobre ``Violência nas escolas``, onde cito pesquisa em escolas públicas e privadas de todo o Brasil. Nesta, a violência se destaca em três planos: a) a física (golpes, ferimentos, crimes e sexual); b) as incivilidades (grosserias, humilhações e desrespeitos); c) a simbólica (falta de sentido na escola, alunos postos à margem do social, atores escolares em atrito, os bullyings enfim).

 

Na terra de Iracema, os alunos não se toleram (52%, o mais alto índice no Brasil), detestam as aulas (44%), a administração da escola (12%) e o atrito entre os mestres. Escola, lugar nada prazeroso, de brigas e conflito para a solução dos problemas, de assédios sexuais de origem docente e de violência física e verbal. Medidas mais sugeridas: vigilância policial na escola e entorno, diálogo entre alunos e professores, direção das escolas e famílias, parceria enfim entre escola e comunidade.

 

Recordo-me, quando presidente do Conselho de Educação do Ceará, conseguimos reunir, em legais portas fechadas, os mais importantes atores da educação escolar. De jovem líder estudantil, ouvimos ásperas críticas. Dirigente da reunião, propus-lhe trocarmos de lugar. Ele, em tal papel, ouviu, de mim ``estudante``, o relato. E, surpresa geral, deu-nos a todos razão...

 

A violência há que se discutir entre os atores principais da educação (escola, família e sociedade). E isso em todos os seus aspectos a desenvolver-se na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino, nos movimentos sociais, organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais, aí inclusos os meios de comunicação, informais agentes de nossa educação  (Art. 1º. da LDB).


MARCONDES ROSA DE SOUSA
Professor da UFC e da Uece
marcondesrosa@gmail.com

http://opovo.uol.com.br/opovo/opiniao/926776.html

 

 

Cristo e Walt Disney (Marcondes Rosa de Sousa)

15:06 @ 27/10/2009

Claudio Moura Castro

                                                                      

Cristo e Walt Disney...

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 26 Out 2009

 

``Comecei a ler, mas parei quando ele junta Jesus Cristo com Walt Disney e caracteriza Jesus como um contador de história``, diz integrante do Grupo Ethos-paideia, que, na Internet, coordeno, sobre a crônica “Educar é como contar histórias”, de Cláudio de Moura Castro, na Revista Veja.

 

De imediato, vi-me criança, a velha babá a repisar-me estórias de Trancoso. E, em mim, o bordão ficado: ``Princesa surda, uda e muda``. Adolescente, em Petrópolis, ouvia fábulas de Fedro e Esopo, que, nas aulas, traduzia do latim e do grego ao lado das parábolas de Cristo. Em Campinas (SP), padre Joseph Comblin, professor de grego e teólogo, conjugava tal relação.

 

Jovem, retornado ao Ceará, a narrativa me chega, no Curso de Letras, como parâmetro mais alto, nos estudos do formalismo russo, a embasar linguística e semiologia modernas. E, já casado, surpreendo-me, com o primogênito, literalmente ``in/fante`` (ainda não falante), tentando, em meio a gestos e ímpetos interjectivos, narrar seu recente esmagar de uma barata...

 

Hoje, meus netos vão além. Já me fizeram modernizar o programa de Teoria Literária, para compreender o texto literário (o narrativo aí incluído) construtivo dialógico entre autor e leitor. Eles, nas estórias que lhes conto, dão seu tom, mudando-lhes o curso. Elas têm de ir na direção do horizonte projetado por eles ouvintes...

 

As palavras de Cristo hão, sim, de varar os séculos, perenizando-se como textos abertos à interpretação, numa relação dialógica com seus leitores e ouvintes... São textos narrativos e, como tal abertos à interpretação por todos.

 

Razão a Cláudio Moura Castro. Educar é, sim, como contar histórias. Com ele, haverá de concordar o escritor e sensível profissional da informática Vilemarfc. Professores e alunos, na escola, hão de construir um produtivo diálogo!

 

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

marcondesrosa@gmail.com

 

 

 

Educação para o Séc. XXI (Isolda Castelo Branco) - III

21:53 @ 21/09/2009

 

 

 

                        Eclipse do sol e da lua

 

 

Outro aspecto, assinalado no Relatório, diz respeito à equidade de gê­nero: “ O progresso sustentável em direção à universalização da educa­ção requer o empoderamento das mulheres e das meninas, uma vez que o nível edu­cacional da mãe é um determinante forte da matrícula e desempenho dos filhos na escola”. 

 

As questões de gênero vão muito além dos indicadores quantitativos de matrícula e conclusão de curso. Um amplo campo de pesquisas conforme o Relatório  “documenta a falta de sensibilidade de gênero no currículo esco­lar, nos materiais didáticos e vieses de gênero, nas interações de sala de aula, que favorecem a participação dos meninos em detrimento das meni­nas” Para que a igualdade de gênero seja atingida, sobretudo de­vido à maior vulnerabilidade, à gravidez indesejada, é fundamental que os direitos sexuais e reprodutivos sejam garantidos. 

 

Com Frei Beto penso que “outrora, falava-se em realidade: análise da re­ali­dade, inserir-se na realidade. Hoje a palavra é virtualidade; o sexo também se tornou virtual, não há envolvimento emocional, controla-se tudo no mouse. Estamos construindo super homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados”. 

 

O que se pode observar hoje é que a prioridade, em torno da qual vivem os adolescentes, é o sexo. Sem as informações biológicas sobre o funcio­na­mento dos ciclos sexuais, masculinos e femininos, necessárias à pre­servação das doenças e da gravidez precoce, dominados pelos hormô­nios, expostos e estimulados pela programação da TV, que relaciona sexo com dinheiro e vi­olência, os adolescentes realizam suas experiências se­xuais sem estabelecer vínculos, sem a necessária vivência da intimidade, nem o amadurecimento para realização de uma vida emocional  rica e gratificante.

 

Na minha perspectiva, os meios de comunicação têm uma alta respon­sabi­lidade no processo de subjetivação de crianças e adolescentes, no que tange ao aumento da violência e ao exercício da sexualidade. 

 

A polêmica entre os estudiosos deste assunto é grande. Mas como gosto sempre de me apoiar em dados da realidade, para não permanecer só na te­oria, fiz um levantamento em uma escola pública e uma favela, sobre como nossas crianças (7 e 8 anos) estão vendo a novela Favorita, cujos re­sultados comentarei a seguir.  

 

Os desenhos, em sua quase totalidade, revelaram  explicitamente o nível de violência da novela, demonstrando, desta maneira, como está sendo for­mado o imaginário de nossas crianças, expostas a um tipo de violência in­suportável para nós adultos. 

 

Apesar de estarmos preocupados profundamente com os aspectos cog­niti­vos da Educação, tipos de aprendizagem (que conteúdos precisam dominar, como transmiti-los) não estamos conseguindo motivar nossos alu­nos(as). Grande parte dos adolescentes não está estudando nem lendo.   

 

Aproveito a reflexão feita por Rubem Alves, numa entrevista concedida a Josiane Benedet, para entrar em consonância com sua maneira de pen­sar. “Além de insistir que os professores não devem se preocupar tanto em ensi­nar, sendo o mais importante ajudar o aluno a descobrir, e estar disposto ao risco de não saber, ele insiste no desenvolvimento da capaci­dade de sentir. É preciso ensinar os alunos a gostar de música, apreciar as obras artísticas, gostar de poesia. Sabemos que esses ensinos, na era tecnológica, não nos en­sinam a fazer nada, mas ensinam o que é funda­mental, e o que importa re­almente na vida: sentir, porque os conteúdos cognitivos nos oferecem meios para viver, mas somente a sensibilidade nos dá razões para viver, e é isso que é mais ausente nos nossos sistemas educacionais porque não constitui material para o vestibular”. 

 

Diante das novas configurações familiares, onde os pais dispõem de pouco tempo para os filhos, e os conflitos tornam cada vez mais difícil a convivên­cia familiar, o papel da Escola tornou-se fundamental, não só para aprendi­zagem dos conteúdos cognitivos, mas como um espaço de socialização, dos novos saberes, do encontro, do afeto, de extrema im­portância para a forma­ção de suas personalidades. 

PERSPECTIVAS

            Pensei, para 2009, nas perspectivas com as seguintes Metas educacionais :   

           1.      Conhecer o contexto sócio, econômico e cultural do Ce­ará/Fortaleza. Estudar a literatura cearense, assim como as Artes Plásticas, teatro e compositores musicais.  

 

        2.      Despertar o gosto pela leitura através do desenvolvimento das múl­ti­plas linguagens (vídeo- clipe, teatro, cinema, literatura) que lhes é familiar. 

 

 

       3.      Possibilitar o acesso à informática, e aos inúmeros sites educacio­nais que podem   motivar os alunos e facilitar o trabalho dos pro­fessores. 

       4.      Conhecer o perfil dos educandos por meio do estudo da Psico­logia dos Adolescentes. Saber o que pensam, fazem e sentem; quais seus verdadeiros interesses e necessidades. 

       5. Ensinar a Pensar através do estudo da Filosofia  com o objetivo de desenvolver nos educandos uma nova ótica do mundo, o espí­rito crí­tico  e novas formas de relações de poder dentro da Escola. 

       6. Tornar possível a educação afetivo/sexual, tendo como prioridade  a educação dos sentimentos. 

                                                                                     XXX

Educação para o Séc. XXI - Isolda Castelo Branco (II)

21:31 @ 21/09/2009

 

 

                             Eclipse sol e lua

 

4.1 Aprender a conhecer 

 

 

O Brasil possui experiências educacionais exitosas que já serviram de modelo para outros países.

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O sistema de alfabetização, criado por Paulo Freire,  (infeliz­mente desconhecido por muitos educadores) que propõe uma educação li­bertadora, seria capaz de resolver o problema do anal­fabetismo bra­sileiro, se não fosse a vontade política de não re­solvê-lo. 

 

Novas experiências, exitosas, no interior do Estado, nesta área, têm sido acrescentadas com o Letramento, que inclui as diversas lingua­gens, sobretudo as artísticas, bastante valorizadas, no Re­latório (UNESCO), e que vem sendo desenvolvidas pelo Prof. Ca­valcante Junior da UNIFOR ( Universidade de Fortaleza).

 

Lauro de Oliveira Lima foi  o grande educador, que, juntamente com uma Equipe de professores, da qual fiz parte, divulgou a teo­ria pia­getiana na cidade e no interior do Estado do Ceará, e em outros Esta­dos. Elaborou, em seus livros, diretrizes de uma Edu­cação para o En­sino Médio, que hoje estão sendo aproveitadas e valorizadas. 

 

Darcy Ribeiro, como Reitor da Universidade de Brasília, fez uma ver­da­deira revolução no sistema educacional do Ensino Superior brasileiro.  

 

O que foi feito de todo este riquíssimo acervo de conhecimentos sobre a Educação no Brasil? 

 

1.      Por que esta situação vergonhosa da Educação Brasileira na atuali­dade? 

 

Aprender a conhecer supõe, antes de tudo aprender a aprender; ter o prazer de compreender, de descobrir, de experimentar, porque mais importante do que a aquisição de um repertório de saberes codificados é o domínio dos instrumentos do conhecimento. 

 

A nova função dos professores é de mediador, ensinar os alunos a pro­curar os conhecimentos que  deseja transmitir,  com  a ajuda da internet, com quem os alunos estão tão familiarizados. O conhecimento é múlti­plo, evolui constantemente; os professores com aulas, em três turnos e, sem condições de adquirir livros para sua atualização, sentem-se, muitas vezes, em condi­ção de inferioridade em relação a seus alunos. 

 

Conforme o Relatório (UNESCO) a “sucessão muito rápida de informa­ções mediatizadas, o “zappping” tão freqüente, prejudicam de fato o processo de descoberta , que implica duração e aprofundamento de apreensão dos con­teúdos” .

 

No aprender a conhecer é fundamental a importância da Alfabetização, da formação de professores e alunos leitores, o que assegura, como diz Paulo Freire, nossa capacidade de ler o mundo para ter condições de ajudar na sua transformação. 

 

Jean Soublin, do jornal francês, LE MONDE, a partir de uma pesquisa, realizada pela Associação dos editores, chegou a algumas conclusões sobre a leitura no Brasil, que considero, até certo ponto, verdadeiras.

 

As conclusões desta sondagem foram as seguintes:

 

“No Brasil, vendem-se apenas dois livros por habitante cada ano; uma forte maioria confessa não ter lido nenhum livro durante o ano. A TV ocupa o tempo livre dos estudantes brasileiros e nas novelas onipresen­tes, procura-se em vão um personagem lendo, comprando ou mencio­nando o nome de algum livro. Os estudantes mais favorecidos preferem surfar na Internet”. 

 

Nosso grande desafio: a motivação de nossos alunos; o que fazer para que os alunos tenham gosto pelo conhecimento sistemático, oferecido pelas Es­colas, uma vez que seu  nível de informação hoje em dia é muito elevado e diversificado? Como motivar alunos muito inteligentes, inqui­etos e com um bom nível de informação? 

 

A revolução tecnológica trouxe consigo uma nova forma de pensar, de ver o mundo, uma nova lógica e novos parâmetros de comportamento. A aprendizagem do conhecimento hoje passa fundamentalmente pela In­for­mática. Num mundo globalizado e competitivo a Informática se im­põe como a grande ferramenta de alavancagem das mais diversas com­petên­cias. 

 

Entretanto, não basta multiplicar o número de computadores, e dar cur­sos de Informática, porque a prática tem nos mostrado que os adoles­centes não navegam buscando conhecimento, informações relacionadas com as disci­plinas das Escolas, fazendo pesquisas; seu uso restringe-se ao MSN, ao OR­KUT e sobretudo aos jogos eletrônicos.  

 

Dormem altas horas da madrugada, comunicando-se com jovens do mundo inteiro, falando sobre seus interesses necessidades e projetos que muitas ve­zes desconhecemos. 

 

Uma grande preocupação, dos pais, na atualidade, é com o problema da pedofilia via internet. Não sabem como controlar as crianças, que desde muito cedo, navegam como querem na internet. Sem o controle dos adultos, pesquisam o que lhes interessa, sujeitos, como é do nosso conhe­cimento, ao assédio e sedução sexual dos internautas. 

 

Governo, prefeitura, empresários e Universidades, no Ceará, estão de­sen­volvendo um enorme esforço e investindo na área da Tecnologia da Infor­mação, onde deverão ser criados, Cinturão Digital, Gigafor (já em funcio­namento) e os Parques Tecnológicos. Em sintonia com os Progra­mas do go­verno federal, estão tentando tornar o Ensino Médio mais atraente para os jovens, capacitando-os nesta área de grande importância para o desenvol­vimento de nosso Estado. 

 

4.2 Aprender a Fazer 

 

As perguntas fundamentais, diante das permanentes transformações e exi­gências do mercado de trabalho, de acordo com o Relatório são as se­guintes: como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever qual será sua evolução? Como aprender a comportar-se, eficazmente, numa situação de incerteza, como participar na criação do futuro? São in­dagações constantes do Relatório da UNESCO. 

 

Diante da urgência de se pensar soluções, para nossa situação educacio­nal, e, com as demandas das empresas por mão de obra qualificada, têm sido apresentadas algumas tentativas para compensar nosso atraso, e  responder, sobretudo às necessidades das indústrias modernas, para que os jovens pos­sam fazer sua inserção no mercado de trabalho. 

 

Entretanto, é preciso levar em conta que o progresso técnico modifica, ine­vitavelmente, as qualificações exigidas pelos novos processos de pro­dução. De acordo com o Relatório “as tarefas físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, daí a importância maior ser dada às qualidades como a capacidade de se comunicar, trabalhar com os ou­tros, gerir e resol­ver conflitos, tornam-se cada vez mais importantes. As qualificações hoje devem ter uma base mais comportamental. Trata-se mais de uma qualifica­ção social do que uma qualificação profissional”  

 

As exigências do mercado são muitas vezes super valorizadas, e daí a im­portância dada, em detrimento de outros aspectos de maior valor, às técni­cas de avaliação, aos indicadores educacionais e sócio-econômicos.

 

Estas atitudes dos educadores sugerem certa predominância de uma vi­são positivista da Educação, cuja maior preocupação, com os resultados objeti­vos, demonstra uma concepção mecanicista, que mascara os as­pectos qua­litativos que possivelmente darão uma visão mais rea­lista do nosso quadro educacional.

 

Embora reconheça o valor concedido sobretudo aos indicadores, como ins­trumentos de avaliação, considero que os educandos devem priorita­ria­mente ser preparados para a Vida e não para o mercado. 

 

4.3 Aprender a Conviver 

 

Uma pergunta, constante do Relatório,  pode nortear nossa reflexão: é pos­sível conceber uma educação capaz de evitar conflitos, ou de re­solvê-los de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos ou­tros, de suas culturas, de sua espiritualidade?  

 

O aumento preocupante da violência, nas Escolas brasileiras, está a exi­gir, não só um verdadeiro diagnóstico da situação educacional, como um  reco­nhecimento de que aperfeiçoar o sistema de controle e punição não tem atingido os resultados desejados. 

O espírito de competição, o nível de pobreza da população, as exigências do mercado de trabalho e o individualismo, que caracterizam o mundo atual, têm favorecido o ambiente propício para a escalada da violência. 

 

Os adolescentes vivem situações familiares altamente conflitantes. Num ambiente em que a mãe é a “chefe de família”e os pais, desempregados, tor­nam-se alcoólatras, que “modelos” possuem para a formação de suas perso­nalidades? 

 

Os adolescentes possuem uma extraordinária energia vital e capacidade cri­ativa, que, ou será canalizada em seu benefício e dos outros, ou se voltará contra a Sociedade. Um dos resultados de uma pesquisa recente,  entre os adolescentes, da Venezuela, demonstrou o desejo que eles têm de serem agentes de seu próprio futuro. 

 

Trabalhar os preconceitos, a diversidade sexual e a equidade de gênero po­dem oferecer pistas para o desenvolvimento de um maior espírito de cola­boração entre os jovens. 

 

A aplicação de uma metodologia construtivista, que exige a participação dos alunos, como sujeitos do conhecimento, juntamente com a realização de projetos, com pesquisas por eles desenvolvidas, em grupo, poderá fa­cilitar a aquisição de atitudes mais solidárias e construtivas. 

 

4.4 Aprender a SER 

 

Voltando ao que disse anteriormente, sobre o que nos falta pensar, na área da Educação,  e ao que considero um dos principais eixos desta mi­nha refle­xão, vou analisar que tipo de Homem e Mulher estamos preo­cupados em formar, na perspectiva das relações de gênero. 

 

Toda Ciência tem seu objeto de estudo determinado e conhecido. Na Educa­ção o que conhecemos de nosso objeto de estudo, que é o nosso(a) aprendiz?  

 

O que sabemos do perfil psicológico (bastante diferenciado das décadas passadas) de nossos alunos(as)? Como elaboram os conceitos das mais di­versas disciplinas, adquiridos na Escola, em que consiste seu universo sim­bólico, quais são seus interesses, sonhos, desejos e necessidades? 

 

Os adolescentes de hoje são inteligentes, dinâmicos, criativos, mas ime­dia­tistas, querem respostas prontas, como as que conseguem quando clicam no Google ou em outros sites de busca. Em sua maioria,  não gostam de regras,  só as que são por eles elaboradas; vivem em seu mundo virtual, fazendo parte de comunidades do Orkut, onde encon­tram respostas para suas dúvi­das e sua necessidade de comunicação.  

 

Acostumados desde muito cedo a ver uma sucessão de imagens e cenas, passarem rapidamente diante de seus olhos, na TV, têm dificuldade de con­centração. São inquietos, incapazes de ouvir o outro, de fazer   matu­rar as coisas assimiladas dentro de si. Grande parte deles não têm inte­resse pela literatura; e sua escrita, via Internet, resume-se ao que escre­vem em seus có­digos lingüísticos, desconhecidos pelos adultos. 

 

Sentem-se muito bem adaptados ao mundo tecnológico, usando as múl­ti­plas funções de um celular, jogando videogame, ouvindo músicas no MP3, discutindo filmes. 

 

Continua>

Educação para o Séc. XXI - Isolda Castelo Branco (I)

20:56 @ 21/09/2009

Eclipse lua e sol

 

 

TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DA

EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI

                                               

Isolda Castelo Branco

(Trabalho apresentado num Encontro sobre Educação)

 Pensar a Educação para o século XXI é um desafio muito grande tendo em vista sua abrangência. Fica difícil fazer um recorte diante de tantos Programas, como o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), Brasil alfabetizado, Planos: Estadual e Municipal, publicações dos mais diversos autores, como Foucault, Bourdieu, Hanna Arendt que dis­cutem os aspec­tos teóricos da Educação, as inúmeras Conferências sobre o assunto;  Rela­tório sobre  os quatro pilares  estabelecidos pela UNESCO e o Programa brasileiro “Todos pela Educação”. 

 

Entretanto, vou procurar situá-la, na minha perspectiva,  no mundo glo­ba­lizado, na  Sociedade pós-moderna, do conhecimento, analisar o tipo de Homem/ Mulher que queremos formar, e como as escolas estão res­pon­dendo às demandas e exigências do progresso científico, para, em seguida, apresentar meu olhar sobre as perspectivas futuras.  

 

Não pretendo aprofundar as discussões sobre a sociedade pós-moderna, mas pensar com Frei Betto, que afirma: “o avanço da tecnologia, da in­for­matização, da robótica, a gloogleatização da cultura, a telecelulariza­ção das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras”. 

 

 “Para o referido autor para o pós-moderno a história findou. O que im­porta é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e impor­tante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e perma­nente; já não há pensamento crítico, neste mundo competitivo, o homem prefere ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator”. 

 

Eu acrescento algumas outras características: ausência de padrões de re­fe­rência, as incertezas, a fluidez e a fragmentação, um bombardeio de in­formações sem crítica; ausência de questionamentos porque as regras não são mais necessárias e uma cultura do excesso pouco criticada. 

 

A sociedade do conhecimento que valoriza o capital intelectual, exige que os cidadãos possuam capacidades e aptidões nas mais diferentes áreas, como informática, línguas estrangeiras, criatividade, espírito cien­tífico, condições para resolver problemas, liderança e sobretudo capaci­dade de interação. 

           

2. Que tipo de Educação pode ser pensado para esta Sociedade? 

 

Considero que pensar a Educação não significa situá-la apenas em ter­mos pedagógicos,  verificando quais os recursos econômicos disponíveis, (FUN­DEB), o papel da  Escola, da aprendizagem, a situação do professor e os processos de avaliação do ensino com seus indicadores. 

 

Embora todos esses aspectos tenham sua grande importância, vou fixar-me em dois eixos: a inserção da Educação no contexto social e no tipo de Ho­mem/Mulher que queremos formar. 

 

Pretendo, a partir desta rápida caracterização da nossa Sociedade, anali­sar aspectos do mundo globalizado, a situação da Educação brasileira, para em seguida desenvolver os quatro pilares de Jacques Delors, sobre Educação, estabelecidos pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educa­ção, Ciência e Cultura). 

 

Minha escolha baseia-se na opção que os integrantes do Relatório da UNESCO fizeram “por uma concepção pedagógica que foge ao padrão he­gemônico da razão cartesiana, estrutural ou positivista, sugerindo mesmo o movimento dialético da historicidade, a partir da transforma­ção dos edu­candos em sujeitos de seu próprio processo educativo e de seu devir”. 

 

          3. Inserção da Educação no mundo globalizado 

 

A globalização é sempre vista em termos econômicos a partir dos gran­des blocos: EEUU, União Européia e Mercosul. A globalização para ter uma di­mensão mais significativa poderia intercambiar também os as­pectos cultu­rais e educacionais. O Brasil, devido a língua predominante (portuguesa), diferentemente dos outros países da América Latina, não tem oportunidade de conhecer nem trocar experiências com os demais. Temos um único canal de TV (circuito fechado) CNN, que traz informa­ções sobre América Latina. 

 

Os modelos de Educação, vigentes nos outros países, desde que conheci­dos,  como os da Finlândia, Cuba, EEUU, Portugal, Argentina e Chile, entre outros, podem oferecer, aos pesquisadores brasileiros, subsídios necessários para o salto de qualidade que precisamos dar. 

 

As experiências desses países demonstram a importância da alfabetiza­ção em massa (Cuba), a valorização dos professores, (Finlândia, EEUU), experi­ências renovadoras do sistema educacional, (Portugal), e a impor­tância da leitura e da  cultura (Argentina e Chile).  

 

Antes de desenvolver os quatro pilares  estabelecidos pelo Relatório da UNESCO vamos apresentar sumariamente algumas características da so­cie­dade brasileira. 

 

      3.1   Situação do Brasil no mundo global. 

 

O Brasil possui riquezas incomensuráveis; as descobertas atuais são inúme­ras: biodiversidade, da Amazônia, as novas descobertas do pré-sal, petróleo, biodiesel, energia eólica, minérios, entre outras, que já estão sendo motivo de interesse dos países desenvolvidos. Paralelamente, a toda esta riqueza, como já é do nosso conhecimento, somos também um país com uma imensa desigualdade so­ci­al-exclusão/favelas/desemprego/ situação precária da saúde/ violên­cia estrutural/doméstica e nas escolas. 

 

A violência tem sido estimulada pela Mídia por intermédio de alguns de seus programas infantis e para adultos.

 

A situação de violência, de nossas Escolas, é assustadora, e está a exigir uma análise mais aprofundada. Infelizmente muitos alunos com grande poten­cial e liderança são perseguidos e expulsos da Escola. Alguns deles tornam-se os mais temidos “bandidos”; entretanto, o que se percebe é uma tendên­cia a responsabilizar as crianças e os adolescentes pela vio­lência da socie­dade brasileira, deixando de identificar os verdadeiros responsáveis pelas atrocidades cometidas no ambiente escolar. Diante deste quadro, pretendo examinar, até que ponto possuímos as condi­ções que podem nos tornar capazes de cumprir, juntamente com os outros países em desenvolvimento os quatro pilares estabelecidos pelo Relatório da UNESCO. 

 

  4.   Os Quatro pilares estabelecidos pelo Relatório da UNESCO  

4.1  Aprender a conhecer

            4.2  Aprender a fazer

 4.3 Aprender a viver juntos

            4.4 Aprender a ser 

 

 

(Continua)

O parlamento está de costas para a sociedade (Claudio Couto, da FGV)

10:23 @ 21/09/2009

 

"O Parlamento está de costas para a sociedade''

 

‘*Cláudio Couto, doutor em ciência política pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e professor da Fundação Getúlio Vargas, é estudioso da área de conflitos e coalizões políticas - características do pano de fundo da votação de ontem no Conselho de Ética do Senado.

 

Para Couto, o cenário que levou ao arquivamento das denúncias e representações contra o presidente da Casa, José Sarney* (PMDB-AP), custará caro ao Parlamento, que insiste em sustentar oligarquias em detrimento da opinião popular.*

 

A entrevista é de Roberto Almeida, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-08-2009.

 

*Eis a entrevista.*

 

*Como analisar o contexto dos arquivamentos?*

 

O acordo entre a base do governo e a oposição indica que há uma oligarquia que compõe a classe política profissionalizada no Brasil e, particularmente, a classe parlamentar. Falo em termos de oligarquia porque em uma situação em que mesmo governistas e oposicionistas, que a rigor disputam ferrenhamente o poder, conseguem entrar em acordo sobre uma questão tão divisiva como essa.

 

O fato é que todos têm a perder com a continuidade das investigações, e os interesses comuns entre oposição e governo vão contra interesses que são entendidos pela sociedade como interesses de toda a sociedade.

 

*É a total dissociação da opinião popular?*

 

 Creio que sim. O Parlamento está de costas tanto para a opinião pública quanto para a opinião social mais ampla. A sociedade de um modo geral se vê evidentemente contrariada com esse tipo de arquivamento, que ao meu entender solapa a legitimidade do Parlamento. Cada vez que o Parlamento toma decisões para proteger interesses privados de seus membros, entendidos eles como uma corporação, as pessoas vão entender que o Congresso é formado por um grupo de pessoas preocupado unicamente com os seus próprios ganhos, ilegítimas para ocupar os cargos que ocupam e transferindo essa ilegitimidade para a própria instituição. Esse é o preço mais alto que se paga.

 

*Como avalia o desenvolvimento da crise no PT?*

 

É uma crise porque é o principal partido do governo, o partido do presidente, e o presidente deixou muito claro desde o começo do processo que queria a preservação de *José Sarney*. Se o seu próprio partido tem uma divisão interna e tem gente que acha que o presidente está errado, é uma crise importante dentro do PT. Sobretudo quando algumas dessas lideranças são muito importantes dentro do partido.

 

É complicado para eles justamente nessa hora em que princípios éticos estão sendo jogados fora pelo PT e em que o uso da coisa pública para fins privados pelo presidente do Senado se tornou tão evidente. Não é uma crise insuperável, mas não quer dizer que algumas cicatrizes não vão permanecer. Já há tantas cicatrizes no PT e essa seria mais uma.

 

*Como reformar uma instituição desacreditada?*

 

Em um prazo muito longo, com uma conduta diferenciada dos parlamentares. Mais um escândalo como esse mantém as coisas no péssimo nível que já se encontram. A recuperação vai demorar ainda mais.

 

 

Fonte: UNISINOS

 

 

 

Como justificar uma dolorosa ausência? (Paulo Elpídio de M. Neto)

22:48 @ 19/09/2009

 

 

 

Como justificar uma dolorosa ausência

Paulo Elpídio de Menezes Neto

 

 

 

Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2009

 

Meu caro Henry,

 

Indago-me, por vezes, com certa relutância e visível hesitação, sobre como deveria proceder um “ex” de qualquer coisa para colaborar com os remanescentes em atividade, os agentes das ações cotidianas, sem, contudo, criar-lhes constrangimentos ou fazer mossa aos seus incontáveis afazeres. Não é fácil, como haverá de ver você, quando houver cumprido a sua brilhante e valiosa passagem pela UFC.

 

No mais das vezes, calo-me, furtando-me a manifestar pensamentos e juízos, em respeito aos que estão na linha de frente dessas freqüentes e indesejáveis querelas ou circunstâncias. É claro que me refiro à UFC, instituição à qual consagrei mais de trinta anos de minha vida, sem afazeres paralelos ou interesses transversais. Não estou convencido se contribuí à altura dos desafios que tive que enfrentar. Ninguém poderá firmar julgamento definitivo a esse respeito. Pelo menos, sem a necessária distância que permite julgamento sereno e imparcial.

 

Faço-lhe essas ponderações, em respeito a uma velha amizade, e a alguém que, como você, tem uma folha corrida exemplar, como médico, professor e gestor, em nossa Universidade.  Essas ressalvas servem de anteparo a algumas observações que decidi fazer-lhe, pessoalmente, apenas para justificar a minha boa intenção, ainda que não a possa separar do sentimento crítico que ela dissimula.

 

Estive, neste final de semana, logo após regressar de Fortaleza, onde passei um mês de férias, entre netos e raros e diletos amigos, em visita à Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no ato da sua inauguração. Poucos eventos podem assemelhar-se a essa iniciativa da Câmara Brasileira de Livro. A Bienal representa uma demonstração de vitalidade da produção editorial brasileira e dos avanços que conseguimos assegurar ao longo dos anos, no plano intelectual e científico, e na indústria da produção de livros.

 

No exercício da reitoria da UFC e, posteriormente, quando Secretário da Educação Superior, pude, representando o governo, contribuir decisivamente para assegurar a participação dos programas editoriais universitários, com o projeto PROEDI e os recursos orçamentários disponíveis à época. Posteriormente, foi constituída uma associação de editoras universitárias – a ABEU – cujo papel deve ser assinalado como relevante em favor da expansão da produção editorial universitária, à qual coube estimular e encorajar as Universidades e os seus projetos editoriais.

 

Pois bem. Lá estive, movido pelo interesse intelectual de quem se habituou a conviver com livros, desde tenra idade, como, aliás, todos nós, dominado pela curiosidade de quem espreita as novidades anunciadas e espera fazer descobertas, entre novidades e coisas velhas.

 

Na longa peregrinação pelos amplos salões da Bienal, vislumbrei a mostra das editoras universitárias, organizada em um enorme stand, sob a responsabilidade da ABEU. Com a vocação de editor, ainda não aposentada, percorri as salas e as estantes, nas quais mais de 15 editoras expunham a sua produção. Lembrei-me, de repente, de procurar o acervo da UFC, cuja editora ocupou, no passado, lugar de destaque entre as similares, tendo a sua produção distribuída em todo o território nacional, em regime de co-edição.

 

Nada havia ali que lembrasse a vitalidade intelectual do Ceará, muito menos da UFC. Entrei no site da Bienal, em grau de recurso. De fato, do Ceará, do que trouxesse a marca cearense nada estava ao alcance dos olhos ou das mãos, a não ser alguns títulos publicados pela Editora do Senado Federal. Das Edições UFC (era esse o nome da editora, terá mudado, nesses últimos anos, é da nossa índole mudar as aparências, afinal) nada a registrar. Uma ausência que denunciava um vazio que, de fato, não existe. Sabemos que muitos escrevem e publicam no Ceará, às vezes às próprias expensas que as vias oficiais ocupam-se com outras iniciativas.

 

Uma coisa puxa outra. Nas festividades do ano Brasil-França, contentamo-nos, os cearenses, com a exibição de alguns poucos filmes e, eventualmente, alguma fala, por força das circunstâncias. Nós que, nos passado desenvolvemos numerosos programas de cooperação com a França (escrevi um ensaio sobre esse tema, na área das Ciências Sociais), no âmbito da UFC, fomos marginalizados dos eventos anunciados e realizados. O estado do Ceará ficou à margem de todas as iniciativas, relacionadas com as relações culturais e científicas entre o Brasil e a França, por razões desconhecidas. Desconhecidas? Consta que, promovida uma reunião por agentes consulares e diplomáticos franceses, em Fortaleza, os representantes oficiais das instituições ou não compareceram ou deixaram de apresentar os projetos a prazo. Sabemos, agora, que mais de 100 personalidades franceses, escritores, cientistas e homens de cultura, vieram ao Brasil ou estão por vir, além dos Rafales anunciados, em visita a instituições e unidades da federação...

 

Como justificar essa dolorosa ausência? O que podemos fazer para recompor nossos balanços positivos no plano da cooperação universitária com a França? Há o que fazer?

 

Dirigi-me ao Embaixador da França, lamentando o esquecimento a que o Ceará fora relegado, justamente pelo sucesso vivido das nossas colaborações passadas. Só então descobri que, de fato, ausentáramo-nos das negociações em momentos decisivos. Fazer o quê?

 

Não me leve a mal. Escrevo-lhe essas considerações, com cópias a amigos, sem o intuito de agravar ou censurar quem quer que seja. Não me cabe exercer esse papel; se me coubesse a iniciativa, não o faria. Peço-lhe que faça chegar cópia ao professor Jesualdo. Faltam-me intimidade e encorajamento para fazê-lo pessoalmente. Não senti, em meus breves contatos com o reitor, que ponderações ou cogitações de dúvida pareçam-lhe apropriadas, na relação entre estranhos.

 

Um grande abraço e a amizade de sempre,

 

Paulo Elpídio

 

 

A catástrofe de nossa educação (Marcondes Rosa de Sousa)

22:30 @ 19/09/2009

A catástrofe de nossa educação

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 14 Set 2009

“75,6 mil crianças de 6 e 7 anos são analfabetas”, confessa a Secretaria de Educação do Ceará. “A escola pública no Estado enfrenta situação de verdadeira catástrofe” - diz-nos Márcia Campos - “75,6 mil das crianças entre 6 e 7 anos estão na escola mas não sabem ler, escrever ou entender.

 

Tais desafios envolvem os amplos atores da educação (escola, família, sociedade). E nossas forças produtivas, sob a liderança do Centro Industrial do Ceará (CIC), lança-nos a par com 14 cidades brasileiras, o “Observatório de Educação”, a nos transpor o arcaico das “indústrias de chaminés” rumo ao moderno das “indústrias culturais” para toda a federação (União, estados e municípios) no clima de responsabilidade social e ecológico.

 

Nessa linha, recebo, de Ariosto Holanda, discurso a propor, no combate às desigualdades regionais no País, “revolução educacional, científica e tecnológica, hoje com 1.200 CVTs (Centros Vocacionais Tecnológicos)”. Tudo, à luz da lição que, de Dom Aureliano Mattos, colheu: “sem uma arte e um ofício, não se é filho de Deus”.

 

Do Senador Cristovam Buarque, acompanho a luta sem tréguas pela educação em artigos, discursos, pronunciamentos. E de Sérgio Machado, presidente da Transpetro, leio loas ao Programa de Aceleramento de Lula, com 25% de investimentos ao Nordeste – “o dobro da fatia do PIB”, possível rede de fornecedores. Mas evitando-se “enfrentar situação de catástrofe: indústrias isoladas a importar matéria-prima do Sul-sudeste”...

 

Abro a Carta Magna e a LDB. Saltam-me os três horizontes prescritos para a educação: o cidadão (ser social), o profissional (o construtor da vida pelo trabalho) e a pessoa (o ser transcendente). E a martelar-me, os versos de Gonzagão e Zé Dantas: “... uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe

marcondesrosa@gmail.com

 

 

 

90 ANOS DO CIC (Vertical S/A)

10:30 @ 07/09/2009

Vertical S/A

90 anos do CIC

Jocélio Leal
O Povo - 06 Set 2009



O programa Vertical S/A, na TV O POVO, debateu os 90 anos do Centro Industrial do Ceará (CIC) com o atual presidente, Robinson de Castro, e com um ex-presidente, o economista Lima Matos. Mais do que uma retrospectiva dos últimos 30 anos da entidade, quando de fato entrou para a história, ao servir de celeiro para uma geração de empresários-políticos, fez provocações sobre o futuro. Leia trechos.

NOVOS INVESTIMENTOS

 

Lima Matos - Há um certo planejamento, como por exemplo, refinaria. Nós trabalhamos um pouco na universidade até com cursos já na área de petróleo, na UFC, mas é preciso mais coisa já para discutir. Por exemplo, qual o impacto naquelas 10 cidades ao redor do Pecém? Eu sei que o Estado está começando a fazer, mas precisa ir mais a fundo para se debater esse assunto. É preciso um avanço. O Estado está avançando, a Prefeitura de Fortaleza também, mas é possível uma intensidade maior e deixar mais claro para a sociedade todos os indicadores dessas mudanças.


COPA
LM-
O governador já lançou em reunião com a gente, na Fiec e no CIC, uma proposta de em torno de R$ 10 a 15 bilhões em investimento. O Cid me mostrou uma série de obras que ele está conseguindo. A sociedade precisa se engajar um pouco mais, é preciso que a gente se envolva através de diversas entidades, para verificar que Estado é esse que vem aí. Se vier 50% do que está programado, o Ceará sai de 2% do PIB brasileiro pra 4%, 5%, uma revolução. Para essa revolução, o Ceará não está preparado ainda. A sociedade nem sequer está percebendo essa mudança.

POLÍTICA
LM -
A sociedade hoje é órfã de um processo político mais forte. Aqui no Ceará quantas lideranças estavam no PMDB e passaram para o PSDB, quantas estavam no PSDB e passaram para o PSB, para outros partidos, e a ideologia ficou misturada a uma relação pessoal. Então nós precisávamos de uma reforma política. Você não vê PMDB, PSDB, PT levando para os seus núcleos debates sobre o futuro do Ceará.


ROBINSON DE CASTRO - Eu acho que é preciso primeiro superar essa crise de representação. A bancada, como um todo, nacional está muito preocupada com seus interesses pessoais locais. Não tem uma agenda que contemple interesses comuns, interesses maiores. Está faltando um pouco de cultura, de cidadania, de politização da sociedade como um todo, ai entra a educação.



PLANEJAMENTO
LM -
As lideranças precisam discutir um pouco mais, acho que o CIC foi responsável por uma mudança no Estado fundamental, que nós participamos, realmente. Mas precisamos rediscutir o Estado para 20 anos depois, estabelecendo quais são as premissas que nós vamos trabalhar, quais são os setores que o Ceará quer atacar. Na área do conhecimento qual é nosso potencial maior, o que a gente precisa desenvolver mais e com as âncoras que estão chegando ai. O que precisa desenvolver no setor universitário.

EDUCAÇÃO
RC -
Nós contratamos um consultor professor-doutor que defendeu uma tese sobre observatório em educação, ele montou todo o modelo de gestão, de sustentabilidade desse instrumento que o CIC vai inaugurar, mas que é um instrumento da sociedade. Vai ter um grupo de notáveis que vai estar em torno desse observatório e daí a gente terá condições de discutir isso, pautar isso mais amplamente. A inauguração está prevista para outubro.


LM - Hoje nós não temos 1ª e 2º grau bons, nós temos um nível de pessoas que passam, mas depois são praticamente analfabetos. E enquanto estados como Minas Gerais têm 15 universidades federais, nós temos uma com alguns campi avançados e a estadual com algumas diversificações no interior. Precisamos ter muito mais em educação.

 

Brasil do ódio quer punir o beijo (Paulo Ghiraldelli)

09:40 @ 07/09/2009

 

Brasil do ódio quer punir o beijo

 

Friday, September 4, 2009

By Paulo Ghiraldelli

 

Depois de 1964, quando uma pessoa de mau caráter queria eliminar um concorrente em qualquer lugar de nossa sociedade, já não tinha a seu favor somente os instrumentos baixos de costume. Ganhou outro, decisivo: a delação. Bastava falar: “comunista” ou, logo depois, “terrorista”. Pronto, o teto do acusado desabava e a vaga ficava com o delator. Muita gente subiu na vida desse modo após 64. Alguns estão aí até hoje, usufruindo do bom e do melhor por conta da maldade que cometeram naquela época.

 

O Estado de Direito precisa pegar os criminosos, claro, mas justamente por ser um Estado de Direito e não uma ditadura, tudo deve ser feito pela eficácia, não pela propaganda, não pela campanha. Não se caça criminosos com campanha. A campanha afugenta o verdadeiro criminoso e deixa indefeso o inocente. Em um prazo rápido, toda a sociedade é vítima de delações maldosas, como as que vivemos no período ditatorial, ou delações criadas a partir dos fantasmas fomentados pela campanha.

 

Quando se iniciou o “caça às bruxas” em relação à pedofilia no Brasil, escrevi dizendo que iríamos logo caminhar para o que estamos vivendo: os criminosos não estão presos e, no lugar deles, uma série de pessoas doentes são escorraçadas. Agora, as coisas pioraram. Nem mais se trata de doentes, e sim de pessoas sadias, completamente corretas em seus procedimentos, que começam a ir para a cadeia. E o que é mais terrível, chocante: não só adultos, mas as próprias crianças estão sendo submetidas a tratamentos traumáticos. Em nome do amor, faz-se o ódio, em nome da proteção das crianças, cria-se a tortura infantil.

 

O caso do italiano preso por beijar a filha de oito anos, no Estado do Ceará, (artigo) mostra que estamos dando passos fortes em direção à era do ódio no Brasil. A mãe, brasileira, explicou o caso. Mas a polícia, guiada por uma lei errada, e vizinhos dirigidos por uma campanha alucinada contra a pedofilia, colocaram o homem na cadeia. Se não bastasse isso, também levaram a criança de oito anos que, agora, está respondendo interrogatório para dizer … ora, para dize o que? O que vão perguntar para essa criança? Vão perguntar para ela se o pai a beijou na boca? Vão perguntar para ela se o pai “fez amor” com ela? Que isso? Quem vai fazer essas perguntas? Funcionários públicos com diplomas de psicólogos formados por essas bugigangas atuais chamadas faculdades? Você, leitor, sabe bem o que é isso? Você, leitor, entende o terror que isso representa para a criança, para o pai e, daqui a pouco, para todos nós?

 

Não pense você que estamos fora da mira da lei e das vozes da delação. Quando se institui o terror, todos nós somos vítimas. Pois, ao contrário do que disse a maioria dos jornais televisivos, o costume de beijar na boca os filhos pequenos não é um costume só italiano. O que a imprensa medrosa omitiu é que no Brasil nós fazemos isso. Além do mais, somos netos de quem, em boa parte dos Estados, senão de italianos?

Daqui a pouco, as coisas não vão mais ficar só na questão do beijo. Logo as fotos que pais tiram de filhos começarão a servir de material de suspeita e delação. Aguardem: o terror está dando apenas seus primeiros passos.

Sei que os conservadores, os mal-amados, os que possuem ódio do próprio corpo, os que não conseguem entender o que são relações de afeto corporal vão reagir contra este meu texto. Alguns, inclusive, vão me acusar de querer proteger pedófilos. Também fui acusado de proteger comunistas no passado. Em alguns casos, até de ser comunista ou terrorista. Conheço bem essa gente que adora a delação. Mas, do mesmo modo que, no passado, não fiquei do lado do “caça às bruxas”, também aqui reajo. Pois não podemos deixar nossas crianças e seus pais à mercê da loucura de pessoas desequilibradas, que continuam incentivando as campanhas contra a pedofilia como se, gritando a quatro cantos “pedófilo” “pedófilo”, fossem proteger alguém.

 

Se você sai gritando “pedófilo” na rua, acredite, as redes de pedofilia e de prostituição infantil vão se esconder. A única coisa que você vai conseguir, fazendo isso, é colocar logo um parente seu, completamente inocente, na cadeia. Porque as pessoas inocentes irão continuar com seus hábitos normais. E dentro de nossos hábitos, a carícia em nossas crianças é regra, não é exceção.

 

Por que há pessoas fazendo tanto barulho em relação à pedofilia? Teriam sido elas vítimas? Ou elas são pessoas sem causa e, enfim, por considerarem o sexo algo sujo, imaginam que todo mundo que se aproxima de uma criança – inclusive um pai – é um maníaco sexual? Por que estamos dando tanta voz para essa gente que não consegue ter orgasmo, que é visivelmente mal amada? Por que essa gente desequilibrada emocionalmente pode ficar no controle de mecanismos que despertam o “caça às bruxas”? O que está ocorrendo com a nossa sociedade? Esquecemos rapidamente nosso passado, quando a o clima “vale delatar todo terrorista” terminou por colocar inocentes sob o regime da barbárie.

 

Estamos acuados porque ninguém tem coragem de se colocar contra essas campanhas, pois há o medo de ser acusado de querer proteger a pedofilia. Ora, eu não tenho medo. Sei perfeitamente que a pedofilia é uma doença, e sei perfeitamente que os obcecados contra a pedofilia são tão ou mais doentes que os pedófilos. Aliás, não tenho mais filhos pequenos, e evito contato com crianças. Já quando era professor, tentava passar o mais longe possível de alunas. Pois a maldade estava à solta. Agora, então, nem me fale.

 

O que foi solto na nossa sociedade, mesmo, é o demônio. Foi esse demônio que colocou o italiano na cadeia, pois ele estava bem encarnado nos que o delataram. Agora, tudo isso só vai servir para traumatizar para sempre a filha do italiano, que está lá, na delegacia, com oito aninhos, tentando salvar o pai. Terá ela clareza da maldade que é o Brasil? Será que ela conseguirá ser sabida? Ou as perguntas irão confundi-la e ela acabará por condenar seu pai? Como irá proceder? Será que ela não vai gerar o mesmo estrago criado tantas outras vezes, onde vidas foram destruídas pela maldade da denúncia? Esquecemos assim, tão fácil, a célebre loucura feita contra os proprietários daquela escola paulista – lembram?

 

Sei bem que filosoficamente é Rousseau o responsável por tudo isso. Foi ele quem destituiu o poder de Descartes e Locke de dizer algo sobre a infância e a pedagogia. Tornou-se o “dono da infância”. Seu conceito de infância se tornou o conceito de infância par excelence. Com ele, as crianças viraram anjos indefesos, que precisavam continuar em estado de natureza, puras, protegidas por redomas de vidro. Quando Freud tentou falar em sexualidade infantil, isso ganhou apenas os muito escolarizados. No senso comum, a idéia é que o filho do outro é sempre adulto, e o nosso filho sempre criança. Então, não vai ser difícil ver alguns dos delatores tratando marmanjos de vinte e cinco anos como bebês, em casa, enquanto vão acusar o italiano e a criança de oito anos de estarem “em ato de pecado” – sim, só falta isso. Mas isso não vai tardar. Pois conheço bem a mentalidade reacionária de quem está sustentando essas campanhas contra a pedofilia. De ineficazes, essas campanhas estão se tornando altamente nocivas.

 

Embora eu saiba a origem filosófica do problema, só com filosofia eu não posso ajudar a solucionar o caso. Preciso falar claro, avisar todos claramente do que está ocorrendo. Pois não quero ver pais amorosos sendo punidos, em meu país, por amarem seus filhos. Quem iria imaginar que, um dia, no Brasil, iríamos para a cadeia por beijar filhos? Nenhum de nós pode agüentar isso. Não podemos deixar o Brasil do ódio vencer o Brasil do amor.

 

São Paulo, 4 de setembro de 2009

© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

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A crise não é só do Senado... (Maia Junior)

13:22 @ 04/09/2009

 

A crise não é só do Senado...

 

Francisco de Queiroz Maia Júnior
O Povo - 12 Ago 

 

Os recentes episódios no Senado Federal deixaram muita gente estarrecida. Contudo, eles são a sequência lógica de um processo de decomposição da política nacional – que, por sua vez, revela um problema ainda mais sério: o progressivo distanciamento da sociedade brasileira dos valores morais e do apego à legalidade.  

 

Há uma inversão preocupante de valores. No senado, por exemplo, Renan Calheiros, que há pouco tempo era réu em várias acusações, agora exibe sem nenhum pudor seus dotes de advogado, juiz e promotor.

 

Com o aval da “maioria na Casa” e em nome da “governabilidade”, Renan casa e batiza sob o aplauso de uma trupe que tem histórico igualmente suspeito ou o silêncio envergonhado de algumas lideranças da “base aliada”.

 

E ai surge uma questão: Como um governo e um presidente que alardeiam ter aceitação de quase 80% se submetem aos caprichos de Sarney, Renan e sua trupe? Por que Lula não usa seu prestígio para romper com velhas práticas e aprimorar as instituições republicanas?

 

Em entrevista recente, os senadores Tião Viana (PT) e Jarbas Vasconcelos (PMDB) questionaram essa postura do presidente Lula. Segundo Viana, “Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes da sua posse. E é papel do chefe de estado fazer com que instituições como o Parlamento sejam vigorosas”.

 

Na contramão, no entanto, o presidente Lula elegeu como novos líderes políticos gente como Sarney, Renan e Collor - que, pelo histórico, tendem a reconduzir a política brasileira a momentos de triste lembrança.

 

O pior: quem ousa questionar esse caminho equivocado – caso dos senadores Pedro Simon e Tasso Jereissati – é rechaçado com uma virulência e uma falta apreço pela opinião pública só vistas em regimes ditatoriais.

 

O próprio presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque, escolhido por Renan, afirmou que não ligava à mínima para a opinião pública. O que se pode esperar, então, de pessoas como essas que estão em postos-chave da República (cujo significado é “coisa pública”)?

 

O fato é que com o aval de Lula, gente de histórico controvertido está assumindo poderes e feições perigosas. Políticos que em outros países estariam respondendo aos tribunais ou atrás das grades não deveriam exibir tanto poder e se portar com tanto cinismo. Tampouco deveriam ter a pretensão de calar e subjugar à força pessoas dignas que se insurgem contra eles.

 

As pessoas de bem não podem aceitar esse estado de coisas passivamente; precisam e devem manifestar sua indignação.

 

Se os maus líderes prevalecerem, o prejuízo não será só do Senado ou da política brasileira. Os maus líderes propagam péssimos exemplos e corrompem de forma grave a estrutura de qualquer sociedade – que jamais pode prosperar sem a crença no valor do trabalho, sem a obediência à lei e o culto aos valores éticos e morais.