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A FÍSICA DO CEARÁ EM LUTO

 

Foi com enorme pesar que as comunidades científicas do Ceará tomaram ciência do súbito falecimento do Professor Raimundo Alberto Normando, ocorrido à noite de ontem, dia 31.12.2006, nesta capital. O Professor Normando era, na verdade, um expert em física fenomenológica. Possuidor de um profundo conhecimento da matéria, e sendo ele dono de um talento especial para o ensino, o que fazia com grande destreza, conseguia formar simples um campo de saber, dito complexo, despertando vocações de novos físicos, no meio da nossa briosa juventude.

 

Nos anos sessenta, a sua apostila de Física ficou famosa por catapultar tantos jovens aos bancos universitários, mesmo os particularmente avessos ao estudo da Física, isso por descomplicar assuntos áridos, e supostamente difíceis, mercê da forma prática e objetiva de sua montagem, notadamente didática.

 

Nasceu o Prof. Normando em Fortaleza, há 72 anos, no seio de uma família, de estrato humilde, filho de um ferroviário da Rede de Viação Cearense, que sabia da importância de educar a sua prole e preparar seus filhos, para a vida, incentivando-os ao estudo permanente, em que pesem as limitações financeiras, advindas dos seus parcos vencimentos de operário da antiga Estrada de Ferro. Fundamentalmente, a sua formação escolar foi cumprida em escola pública, em especial, no velho Liceu do Ceará, onde sempre foi tido como um aplicado aluno.

 

Na década de cinqüenta, a despeito das dificuldades monetárias, obteve apoio de seu genitor, para largar o seu torrão, a fim de realizar o sonho de ser físico, conseguindo ingressar, mediante vestibular, na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde foi bacharelado em Física. A inexistência dessa graduação, no Ceará, àquela época, impeliu-o a buscar sua realização profissional em outro estado, mesmo ciente dos empecilhos que teria de enfrentar em uma terra distante, mas teve a felicidade de contar com a sensibilidade paterna, diante da aspiração do seu filho estudioso e da escolha que seu rebento fizera.

 

Ao longo da sua vida acadêmica, foi um lente, por excelência, tendo sido professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, antes de ser admitido na Universidade Federal do Ceará (UFC). À UFC, por três décadas, serviu com extrema dedicação e competência, tendo exercido funções de extrema relevância, como: Presidente da Comissão Coordenadora de Vestibular (CCV), Pró-Reitor de Graduação e Vice-Reitor. Em grande parte, foi responsável pela consolidação da Graduação em Física, mantida pelo antigo Instituto de Física, concorrendo, ainda, para a implementação da Pós-Graduação da Física, sendo esta enquadrada, hoje, entre os melhores programas do país, nessa área, o que constitui motivo de orgulho para a UFC e para a gente cearense. Praticamente, todos os docentes e pesquisadores da Física, atuantes no Ceará, foram seus alunos e/ou com ele mantiveram relações de convivência pessoal e profissional.

 

Homem de pensamento cartesiano e ações pragmáticas; sabia, aliás, como poucos, analisar detidamente um problema e desvendar as soluções mais oportunas para cada situação-­problema, transferindo abstrações, de matiz teórica, para o cotidiano, trazendo inovações gerenciais, sempre de notável valia.

 

Também foi docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), entidade sobejamente favorecida, quando de sua aposentadoria na UFC, pois o Professor Normando trouxe uma vasta experiência, tanto administrativa como fundada na docência. Foi ele peça-chave para a melhoria da Licenciatura em Física e a criação do Bacharelado em Física da UECE. Nos primórdios da UECE, tendo sido convidado para assumir a Reitoria da novel entidade, declinou da oferta para não interromper compromissos assumidos com a gestão da UFC, muito embora tenha ele se prontificado a colaborar com o novo dirigente da instituição, o que fez sempre que para tanto foi solicitado.

 

Apesar da aposentadoria compulsória, por ter ultrapassado a idade-limite de 70 anos, ainda continuava ativo e muito produtivo, atuando intensamente na Comissão Executiva do Vestibular da UECE, onde exercia um papel vital na feitura de concursos e vestibulares; serve de exemplo o ocorrido entre agosto e outubro, do ano recém-findo, quando lidou com uma centena de provas dos concursos públicos da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará.

 

No convívio social, era tido como uma pessoa bastante afável, além de ser um notório "causer", revelado nos intervalos e pausas que fazia para espairecer, quebrando a rotina da extenuante, porém prazerosa, tarefa de revisão e exame das questões destinadas a concursos diversos. A maçonaria, para ele, não era apenas uma confraria reservada a encontro social, mas uma instituição à qual devotava o seu apreço, como instrumento de exercício da cidadania, expresso em obras de benemerência e ação social, para o bem do próximo.

 

 

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No ano pretérito, motivado pelo sentimento de brasilidade, e diante dos descalabros da corrupção que avassala o país, o Prof. Normando brindou a sociedade cearense com um curioso e intrigante estudo sobre o tamanho da "Corrupção no Brasil", indagando "Que fazer com 10 bilhõe$? O livro, rico em informações e comparações, as mais diversas, demonstra o quão bem informado era o Prof. Normando, conseguindo repassar ao leitor a sensação de aviltamento que pesava sobre ele, um cidadão probo, de caráter, plasmado na seriedade e na retidão, duramente provado no exercício de suas atribuições públicas.

 

O desaparecimento físico do Prof. Normando deixa uma lacuna de difícil reposição, apesar de ratificar o caráter transitório da vida terrena e de realçar a grandeza da existência humana, atingida em outra dimensão. Certamente, terá ele agora a oportunidade de, em outro plano, o espiritual, travar embates com outros físicos nacionais que partiram antes dele: Schemberg, Lattes, Leite Lopes, dentre outros.

 

Não será uma surpresa se, lá nas alturas, o Prof. Normando, mercê da sua grande habilidade para negociar, conseguir que os resultados das discussões no campo da fenomenologia, forjadas em esferas "para além do nosso entendimento", tragam mais luzes para aclarar as idéias dos tantos físicos que aqui continuam e que, com o seu passamento, enfrentam o viés da orfandade no conhecimento da matéria.

 

Como um aguerrido cavaleiro normando, que desceu das terras nórdicas para a Bretanha, segue, agora, em Paz, meu bom Normando, para o Valhalla, a morada final dos guerreiros vikings tombados em combate. Afinal, muitos foram os embates que você superou, sempre com grande determinação e tirocínio, legando-nos feitos e realizações, em prol do ensino superior cearense, que a posteridade certamente haverá de reconhecer.

 

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor titular de Saúde Pública da UECE

 

 

 

 

                                                                                   

Please Help

18:18 @ 08/01/2007

PLEASE HELP!

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Jornal Tribuna do Ceará,

26.04.2000

 

 

“Please Help!” Esse, o apelo que, utilizando-se do “correio ele­trônico” de uma universidade, deixou-nos a Sra. Fleming, tu­rista que nos visitou faz pouco.  O Prof. Gilberto Santiago foi portador da men­sagem, que nos enviou “devido à ligação do Conselho de Educação com a Secretaria de Turismo”.  Penso que as considerações deixadas pela turista transpõem o mero “caso de polícia” e os limites da “negli­gência governamental”. Socializo-as aqui, com vistas à refle­xão mais vertical com todos os que se solidarizam em nossa “cívitas”.

 

Diz a mensagem: “Chamo-me Melina Fleming e já estive em Fortaleza mais de uma vez. É um lugar muito agradável. Gostaria, po­rém, de uma grave queixa no tocante à segurança. Não sei para onde en­viar minha mensagem, pois não tenho conhecimento de como fun­ciona a segurança do Estado do Ceará, e sei que vocês são uma univer­sidade apenas. Vocês, porém, mais do que eu, conhecem as au­torida­des e podem levar adiante minha mensagem, em nome de todos os tu­ristas que visitam Fortaleza.

 

Estou muito triste e desapontada com tantos casos de violên­cia na Cidade de Fortaleza, especialmente nas praias próximas a ela. Visitei Pecém, onde o Governo está cons­truindo uma obra de infra-estrutura muito interessante, o novo porto, e lá fui vítima de um horrível assalto. Foi um assalto que se estendeu por longo tempo e não pude entender por que não apareceu nenhum poli­cial. Mais tarde, algumas pessoas do lugar informaram-me que os po­liciais costumam não fazer nada porque os assaltantes são conheci­dos seus, e isso me chocou muito. Não deixem que uma linda cidade como Fortaleza seja aban­donada por seus turistas, por causa da negli­gência governamental! Grata, Melina Fleming, mfleming@biggsco.com”.

 

                                                                                                                                 Uma “”queixa policial” não cairia numa universidade nem em conselho de educação.  O aviso, pois, é de que a violência atenta con­tra a sustentabili­dade de nosso turismo e os sonhos da geração de em­prego e riqueza, se os turistas fogem, os cidadãos se contêm em “containers”, se per­dem força os versos de Paula Ney, a falar de uma já distante “loura desposada do sol, a dormitar sob a sombra dos pal­mares”. 

 

                                                                                                                                 Que as “tribos urbanas” e os estrategistas de nosso desen­vol­vimento reflitam sobre a questão, nos “dietéti­cos” (?) cafés-da-manhã, almoços-de-traba­lho, happies-hours e jantares-noite-a-dentro! 

 

                                                                                                                                 (Transcrito do livro “Educação: insistências e mutações – Coletânea de publiacados em jornais de Fortaleza (1985 a 2001). Fortaleza, Edições UVA, 1982) 

 

 

Normando à direita de Celso Furtado

 

VIDAS EM OUT DOOR

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 27/12/1995

 

Ao Conselho de Educação do Ceará, chegam-nos adesões à proposta de solidariedade em torno de um projeto de futuro para o sesquicentenário Liceu do Ceará. Vêm elas de todos os lados. De nossos três senadores (Beni Veras, Lúcio Alcântara e Sérgio Machado). De intelectuais do porte de Liberal de Castro, Eduar­do Diatahy, Fausto Nilo, Romeu Duarte (Presidente do IAB Nacional) e Joaquim Cartaxo (recém-eleito Presidente do mes­mo órgão em nível local). De empresários da área da comunica­ção como Demócrito Dummar. De Ariosto Holanda, Secretário de Ciência e Tecnologia, além (é claro) do Secretário e equipe dirigente da Secretaria da Educação. De outros tantos que crêem na forca indutora dos protótipos!

 

Em meio às adesões, um depoimento nos sensibiliza. Tra­ta-se de um filho de operário, que não teria outro caminho (é o que ele próprio nos diz) senão o da escola pública. No Liceu do Ceará, ele chegou a conviver com gente que ele confessa de me­lhor nível socioeconômico que o seu. Mas, para outros, ele re­passava a própria farda e os já usados livros didáticos, por serem, esses, muito mais pobres que ele. No Liceu, aprendeu tudo o que pôde. Até francês, sem a ajuda de curso externo nenhum. E bem, já que, só com o que estudou no Liceu, pôde, no vestibular da então Faculdade Nacional de Filosofia (da hoje UERJ), conquis­tar um nacionalmente cobiçado 2º  lugar. Hoje, ele é um dos mais respeitados professores e autor didático na área de Física. Ex ­pró-reitor e ex-vice-reitor da UFC, presta assessoria às univer­sidades de todo o País.

 

Um exemplo do produto da escola pública de qualidade possível. Um devedor do Liceu, como ele se manifesta, disposto a colaborar com o projeto proposto. Seu nome: Raimundo Al­berto Normando.

 

Como Normando, são muitos, cujos rostos poderiam figu­rar nos out doors de nossa cidade. Mais do que os bem-sucedidos nos episódicos vestibulares de nossas universidades, eles são egres­sos da escola pública com um êxito mais durável: - na vida. Um marketing bem mais convincente, convenhamos, já que lastreado no eloqüente testemunho de uma factível escola pública de qualidade, como já foi o Liceu!

 

(Extraído da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza. Fortaleza, Edições UVA, 2002, p. 28)

 

Disponível no endereço: http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

 

 

Lembro-me. Em reunião do Conselho de Educação do Ceará, recebíamos representantes das diversas confissões religiosas, com vistas ao ensino religioso em nossas escolas públicas, nos termos da LDB.  Eis que chega o então reitor da UECe, professor Manasses Fonteles, com a notícia do ataque às torres gêmeas.  No hall, televisor ligado, assistíamos, incrédulos, às cenas para muitos de nós uma ficção.

 

Em casa, advogada amiga de meus filhos conta-me que telefonou para o namorado, evangélico tal qual ela, que, informado por ela sobre a catástrofe, levou-o até a janela do apartamento, quando só avistou densa e negra fumaça.

 

Sobre os sonhos desfeitos, a fossa do namorado e a re/visão do mundo entre eles, escrevi o artigo abaixo.  Padre Amorim, vigário da Igreja de Fátima, fez publicar o artigo no Jornal de sua paróquia, num apelo em prol da reconciliação entre Jeová, Cristo e Alá...

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JEOVÁ, CRISTO E ALÁ

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo – 03.10.2001

 

"Arrasado! Desde que, ao abrir a janela do apartamento, em lugar das torres gêmeas, viu ape­nas fumaça" - ­conta-me a jo­vem advogada cearense, sobre o namorado, resi­dente nos arredores de Nova York.

 

A jovem advogada lamenta o si­nistro. Mas, religiosa, colhe sinais de Deus na tragédia. Para ela, os Estados Unidos e o mundo ocidental esta­riam lendo a Bíblia sob equivocado olhar: cada um, feito Narciso, a en­xergar-se imagem de um Cristo sem dores e queda, o lado apenas do res­surrecto, do triunfante, do talhado para o sucesso... E isso, de forma arro­gante, sem atentar para o axioma cristão "Os humildes serão exal­tados". No texto bíblico, ela me apon­ta sinais muitos dessa lição: do Cal­vário de Cristo à queda de Saulo con­vertendo-se em Paulo (pequeno).

 

Ox/Alá, Cristo e Jeová, que Cristina tenha razão! É tempo de invertermos a lógica do mundo, chamando árabes e judeus a refa­zerem relações mal resolvidas des­de Ismael e Isaac, herdeiros do mesmo tronco, Abraão. De não mais dividirmos irmãos entre as searas de Caim e Abel, do mal e do bem. De não construirmos um éden de poucos (nações, grupos e indivíduos), sob o signo do "a quem mais tem, mais será dado".

 

O Globo, assim, será pasto e se­mente da violência que se abateu sobre a América e, faz tempo, in­vade-nos o cotidiano das cidades e campos. É tempo de reeditarmos a "Última Ceia", para que, com Cristo, repartamos o pão e o vi­nho, e os multipliquemos para sa­ciar a crônica fome das gentes, pe­lo milagre da tecnologia.

 

Mais que nunca, é hora de a "Última Ceia" tornar-se "mesa de entendimento" em que se assen­tem, além de Cristo, dois outros indispensáveis atores: Jeová e Alá, para que se revejam equívocos his­tóricos de caminhadas e horizon­tes do projeto humano na Terra, rumo às prometidas terras.

 

E que, se "guerra santa" ou "cruzada" nessa mesa se pactuar, que seja contra a indignidade e a pobreza. E pela paz, por cujo sinal aspira Cristina!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Uni­versidade Federal do Ceará e da Universidade Esta­dual do Ceará, ora exercendo a presidência do Conse­lho de Educação do Ceará.

 

 

 

 

SINOS DE MINHA INFÂNCIA

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo , 20 de março de 2002

 

 

Uma cena me intrigava, em criança. Se, na Matriz de Ipueiras, dobra­vam dolentes os sinos, al­guém "passava desta para a melhor"; se repicavam alegres, "um anjinho subia aos céus". Can­ções nos falavam de "léguas tira­nas, "paus-de-arara", "estrada do Canindé", "Padirn Ciço", "missões de Frei Damião". Na escola, apren­díamos que, por aqui, somos todos "Moacir, o filho da dor". E, predes­tinação de uma raça, lá me fui eu em busca dos verdes e do eldora­do do centro-sul.

 

Lá, era o dito, "São Paulo expor­ta café; e o Ceará, o talento" - váli­do este, só se exportado. Um dia voltei e, cedo, abracei o verbo "mu­dar", trocando o "contra as secas" pelo "em favor das águas". E hoje sou dos que pensam que o acúmu­lo e os caminhos das águas, sem uma mudança cultural, a pouco nos levará. Hypérides Macedo ga­rante que já teríamos água sufi­ciente e que, para o verde das plantas, "basta um tiquinho". E, ante os aquiescentes olhares dos secretá­rios Pedro Sisnando e Carlos Ma­tos, depõe-nos: "Em Israel, todo ci­dadão tem um jardim na cabeça".

 

Em nossas cabeças, ao invés, ha­bitamos ilusórias "Twin Towers" e os Beach Parks de nosso alienado lazer. E alimentamos vãos sonhos de que, "se der o carneiro", arran­camo-nos daqui "pro Rio de Janeiro".

 

 Tempo, pois, de chamar religio­sos, artistas, educadores, políticos, a sociedade enfim, para um novo "contrato social" a se assentar na revisão de suas cláusulas pétreas: do projeto de Deus aos nascidos aqui; do pacto histórico celebrado por nós, de Moacir a Tasso Jereis­sati; da convivência social e huma­na, afinal. Se, como antes, os sinos celebrarão ou não a mortalidade infantil. Se o sol e o vento, desper­dício energético, ainda nos quei­marão e açoitarão. Se o semi-árido será ou não a terra da expiação, do "penitencial turismo".

 

Questão, pois, aberta aos que, na escola e na sociedade, são res­ponsáveis por este "tema transver­sal", em nossa vida e cultura!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Uni­versidade Federal do Ceará (UFC) e da Universi­dade Estadual do Ceará (Uece). Ora exercendo a pre­sidência do Conselho de Educação do Ceará.

 

 

 

 

 

 

VISÕES SOBRE DEUS

 

Jean Kleber Mattos

 

Das matérias constantes da discussão sobre o tema: Ciência não exclui Deus destaco a entrevista de Francis Collins, como excelente. Percebe-se no entanto, que os cientistas, em sua maioria, são cautelosos quando se pronunciam sobre assuntos polêmicos como: células tronco, clonagem humana etc, o que mostra que temos medo natural daquilo que desconhecemos.

 

O que muda a meu ver é a idéia do homem sobre Deus. Antes antropomórfica, a figura de um ancião de barbas longas, diáfano, em meio às nuvens, do Catecismo Católico. O grande pai.  O Grande Arquiteto do Universo registrado nos livros da Maçonaria  ou simplesmente Luz, segundo algumas literaturas de caráter espírita.

 

São recursos didáticos visando nosso equilíbrio psicológico, pois temos dificuldade de lidar com grandezas do nível de anos-luz, por exemplo, da infinitude do universo, tamanho das galá­xias etc. E o que dizer de moral, costumes, religião, que são ex­pressão das culturas dos povos?

 

Quando um cientista diz que não creremos mais em Deus sem dúvida se refere a um modelo de crença onde uma imagem conveniente foi proposta.

 

Se nossa idéia de Deus é antropomórfica, obviamente transferimos para ela nossos sentimentos de ser humano: um Deus que castiga, um Deus que se enfurece, um Deus que toma partido, um Deus que mata, um Deus que escolhe um povo como "o seu povo".

 

Estou me sentindo cada dia mais imunizado em relação a essas notícias que servem ao sensacionalismo dos jornais, ou quem sabe, a interesses político-ideológicos (como não?). Já houve presidente da república que, creio, para evitar problemas (criou outros até...) se declarou ateu.

 

De fato, nascimento e morte de universos inteiros, fora de nossas pobres escalas de compreensão, estão sempre ocor­rendo, com uma dinâmica inimaginável. 

 

Questionamo-nos sobre a nossa transitoriedade e sobre nosso encontro com Deus após a morte, imaginando que,  indi­víduos, permaneceremos. Não há, para muitos filósofos qualquer garantia a esse respeito. Médiuns afirmam comunicar-se com desencarnados, aos quais restou a consciência acompanhada de matéria sutil denominada perispírito. Fisiologistas a seu turno, afirmam que a consciência se expressa no cérebro e, sem meta­bolismo (os mortos o perderam), nada feito.

 

Sobram-nos dúvidas sobre a vida "post-mortem".  No en­tanto, descrer que exista uma inteligência na fenomenologia das galáxias não me parece lógico. 

 

Jean Kleber Mattos é professor da Universidade de Brasília (UnB)

ACADEMIA E A DISCUSSÃO SOBRE DEUS

 

Ricardo Marques

 

Conheço o pensamento do genial Collins, que incomoda o establishment pseudocientífico (o pessoal que tomou o poder na ciência moderna, criando dogmas que não podem ser questionados e censurando posturas divergentes da do status quo).

 

Como ele, há milhares de cientistas no mundo, sérios e que professam a fé cristã; dentre estes, há centenas que são famosos, pensadores de referência em suas áreas, especialmente na Biologia, na Química, na Física, na Palentologia, na Geologia e na Arqueologia. Mas, infelizmente, segundo eles mesmos reclamam, o sistema acadêmico não lhes dá espaço para expressarem seus pontos de vista na área espiritual, e quando tentam fazê-lo, são ridicularizados pelo sistema, são jeitosamente afastados de conferências, aulas e palestras, seus trabalhos passam a ser vetados na maioria dos periódicos e tornam-se vítimas de campanhas de difamação. Nada de novo, portanto - é a forma de sempre do homem agir, seja do lado religioso (como já aconteceu na História), seja político, seja científico.

 

(...) Por outro lado, estranha-me que quando se manifestam publicamente opiniões denegrindo o cristianismo, por exemplo, chovem opiniões de apoio às críticas, partindo de todo tipo de gente, especialmente de acadêmicos. Mas estes silenciam quando ocorrem manifestações públicas de apoio ao cristianismo ou à fé, de um ponto de vista não secularizado. Seriam os argumentos incontestáveis demais para que aqueles ousassem comentar, sob risco de comprometerem seu status quo e sua vaidade? Ou a Verdade é algo por demais aterrorizante para eles, diante de uma cosmovisão dogmática que a ciência lhes ensinou a adotar, embora a neguem?

 

Vejamos o que aparece por aí...

 

 

RELIGIOSOS, MESMO ATEUS...

 

Muito bom o artigo "Jeová, Cristo e Alá", professor Marcondes. Sempre digo que religião só traz discórdia.

 

Jesus nunca pregou religião no sentido adquirido ao longo da História, mas sim, o perdão, o amor a Deus e ao próximo, a negação do eu, a humildade, o sermos servos uns dos outros, o fazer o bem, o ser justo - e também ensinou que se pregasse as "boas novas de salvação", o arrependimento e a libertação dos pecados, a conversão, o novo nascimento, a santificação, a vida eterna, a Ele (Jesus) como o "único Caminho" e a "única Verdade" etc. Está tudo lá, devidamente registrado, Só não aprendemos, e insistimos em continuar sendo religiosos (mesmo os ateus), por ignorância e teimosia, mesmo, não concorda?

 

Ricardo Marques é biólogo, dirigente do Colégio Kerigma, em Fortaleza

 

 

DEUS “EXISTE” EM NÓS

 

Adail Sobral

(Mensagem dirigida a Marcondes Rosa)

 

Não é que o "semi-alheio" é a base de tudo na vida mesmo? Se Deus só passa a existir como ato pleno, em vez de potência absoluta, ou seja, em sua criação, realizada, ato, produto em ação, cada um de nós (não me perdõem a violência gramatical; intentio é intentio), nada é exceto no contato com o(s) outro(s), e, em verdade Deus só passa mesmo a existir ao criar sua imagem e semelhança, nós, para ter interlocutor(es).

 

Creio que Ele se diverte muito com nossas vãs tentativas de cerni-lo, ele que é o inapreensível. Diverte-se com compaixão de nós e se compraz de sermos seres que o buscam  em suas tentativas de dizer quem ele é, e  quando por vezes alguns se põem a querer fazer as vezes d'Ele, provavelmente ele diz, em sua língua, tudo é pó.

 

Tua presença no mundo, que um dia descobri por acaso, e que muito tem contribuído para minha evolução no tocante a conviver com os contrários, é, como a de todos, inclusive a dos "maus", parte de um desígnio que, celeste, se combina com formas de realização únicas, já nos genes, que somos cada um de nós.  Admirável criação que não nega os esforços da ciência e que, em verdade, se faz perceber quanto mais esta avança.

 

Hoje me dedico a traduzir muitos textos científicos e a cada dia me surpreendo com duas coisas: a impossibilidade lógica que é a existência da vida, e a variedade da vida em meio a um núcleo comum. Minhas "obras", gotas num oceano infinito de enunciados em confronto (e para isso têm de ter algo em comum), têm sua leitura generosa um engrandecimento que provavelmente não merecem.

 

Logo, estou certo ao dizer da iluminação que trazes a uma parcela do universo. Uma coisa é certa: não és um "homem líquido", desses que tomam a forma do recipiente onde estão; és um plasmador!


   
Adail Ubirajara Sobral possui graduação em Licenciatura em Letras (Inglês) pela Universidade Federal da Bahia (1977) , especialização em Lingüística pela Universidade Estadual de Campinas (1980) , mestrado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1999) e doutorado em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005) . Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Lingüística Aplicada. Atuando principalmente nos seguintes temas: Gêneros Discursivos, "Parasitarismo", Intergenericidade, Dialogismo - Bakhtn, Gênero - Texto - Discurso e Auto-Ajuda - Vertente.

(Texto gerado automaticamente pela aplicação CVLattes)

Última atualização do currículo em 07/04/2006
Endereço para acessar este CV:

http://lattes.cnpq.br/0397923948069690

 

 

Vai piorar (Antero Coelho Neto)

14:03 @ 27/01/2007

 

 

VAI PIORAR!

O cenário atual na América Latina é extremamente preocupante e o recente relatório das Nações Unidas mostra isto com destaque. O 1% das pessoas mais ricas do planeta possuem 40% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre é dona de apenas 1%.

 

Antero Coelho

O Povo - 27/01/2007 01:13


Não digam que sou um pessimista, pois tenho demonstrado há muitos anos o meu otimismo “protoplasmático". Mas está previsto, por alguns que ousam dizer a verdade, que nesta ou na próxima década, a situação vai explodir.

 

No meu livro, "O futurista e o adivinho" (publicado em 2001) fiz uma previsão mais otimista para o Brasil no ano 2010 que, infelizmente, não vamos alcançar.

 

O cenário atual na América Latina é extremamente preocupante e o recente relatório das Nações Unidas mostra isto com destaque. O 1% das pessoas mais ricas do planeta possuem 40% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre é dona de apenas 1%. América do Norte, Europa e alguns países da Ásia possuem 90% do total. E o Brasil é o pior da América Latina com mais de 50% da população com menos de 1 salário mínimo por mês e com os mais ricos com mais de 80% de nossa riqueza.

 

Concentração de riqueza é muito mais importante que inflação e crescimento econômico dos países. Quando era Diretor da OMS na Colômbia, integrante das Nações Unidas, ouvi Presidentes do Banco Mundial e do BID, dizerem que, a longo prazo, era mais preocupante a má distribuição da riqueza na AL e no mundo todo do que a inflação.

 

E não ouvimos quase falar da má distribuição de renda pelo nosso governo atual e passado. Tática política ou medo de desagradar aos ricos? Querem solucionar o problema ou manter os mesmos "representantes"? Ou por que muitos políticos são também ricos? Por que não maior IR para os mais ricos, e menor para os que ganham pouco? Por que não temos imposto sobre patrimônio como nos países ricos? Sabemos que, no Brasil, mais de 60% da carga de IR da pessoa física recai sobre a classe média e somente 25% sobre os mais ricos.

 

E os novos dados do IBGE, revelando que a expectativa de vida do brasileiro passou para 71,9 anos? E com mais de 10% de idosos dos milhões de habitantes? E os imensos problemas que virão além dos já existentes, com a Previdência, saúde, moradia e emprego? Não estamos preparados para tanto.

 

Não é preciso ser sociólogo para saber que é a grandeza da classe média que oferece estabilidade e satisfação de viver para os países que apresentam boa qualidade de vida. E a nossa classe média diminui a cada ano que passa. Neste mês o CAGED (Ministério do Trabalho) informou que a renda da classe média caiu 46% nos últimos 6 anos.

 

Todos que já moraram ou freqüentam países ricos sabem da felicidade de suas classes médias que nem de política falam e muitos nem votam porque sabem que tudo vai continuar melhorando.

 

Será que as medidas e projetos atuais, tipo Fome-Zero, melhorarão a distribuição de renda do país? Será que o comportamento do Presidente se declarando mais para o centro, vai melhorar a situação?

 

Que pode fazer um "miserável" com 4 ou mais filhos e que não ganha sequer um salário mínimo? O que fará ou o que poderá ser no futuro, um jovem que não tem nem mesmo o que comer?

 

E nós se fôssemos esses pais "miseráveis" sem ter o que oferecer aos nossos filhos famintos não faríamos "qualquer coisa" para conseguir mantê-los vivos? Honestidade, ética, cidadania, justiça, que palavras são essas para famintos e "miseráveis"?

 

Eu também faria qualquer coisa. E tenho certeza de que Deus me perdoaria. Ele não pode estar de acordo com essas desigualdades tão monstruosas.

 

Desculpem "companheiros", mas estou que não agüento mais!

 

ANTERO COELHO NETO é médico

 

 

  

 

O ALUNO PERFEITO

,

Rubem Alves 

 

Ele se chamava Memorioso, pois seus pais julgavam que a memória perfeita é essencial para uma boa educação

 

Rubem Alves é educador, escritor e colunista da “Folha de SP”, onde publicou este texto:

 

Era uma vez um jovem casal que estava muito feliz. Ela estava grávida, e eles esperavam com grande ansiedade o filho que iria nascer.

 

Transcorridos os nove meses de gravidez, ele nasceu. Ela deu à luz um lindo computador! Que felicidade ter um computador como filho! Era o filho que desejavam ter! Por isso eles haviam rezado muito, durante toda a gravidez, chegando mesmo a fazer promessas.

 

O batizado foi uma festança. Deram-lhe o nome de Memorioso, porque julgavam que uma memória perfeita é o essencial para uma boa educação. Educação é memorização. Crianças com memória perfeita vão bem na escola e não têm problemas para passar no vestibular.

 

E foi isso mesmo que aconteceu. Memorioso memorizava tudo que os professores ensinavam. Mas tudo mesmo. E não reclamava. Seus companheiros reclamavam, diziam que aquelas coisas que lhes eram ensinadas não faziam sentido. Suas inteligências recusavam-se a aprender. Tiravam notas ruins. Ficavam de recuperação.

 

Isso não acontecia com Memorioso. Ele memorizava com a mesma facilidade a maneira de extrair raiz quadrada, reações químicas, fórmulas de física, acidentes geográficos, populações de países longínquos, datas de eventos históricos, nomes de reis, imperadores, revolucionários, santos, escritores, descobridores, cientistas, palavras novas, regras de gramática, livros inteiros, línguas estrangeiras. Sabia de cor todas as informações sobre o mundo cultural.

 

A memória de Memorioso era igual à do personagem do Jorge Luis Borges de nome Funes. Só tirava dez, o que era motivo de grande orgulho para os seus pais.

 

E os outros casais, pais e mães dos colegas de Memorioso, morriam de inveja. Quando filhos chegavam em casa trazendo boletins com notas em vermelho eles gritavam: "por que você não é como o Memorioso?"

 

Memorioso foi o primeiro no vestibular. O cursinho que ele freqüentara publicou sua fotografia em outdoors. Apareceu na televisão como exemplo a ser seguido por todos os jovens.

 

Na universidade, foi a mesma coisa. Só tirava dez. Chegou, finalmente, o dia tão esperado: a formatura. Memorioso foi o grande herói, elogiado pelos professores. Ganhou medalhas e mesmo uma bolsa para doutoramento no MIT.

 

Depois da cerimônia acadêmica foi a festa. E estavam todos felizes no jantar quando uma moça se aproximou de Memorioso e se apresentou: "Sou repórter. Posso lhe fazer uma pergunta?" "Pode fazer", disse Memorioso confiante. Sua memória continha todas as respostas.

 

Aí ela falou: "De tudo o que você memorizou qual foi aquilo que você mais amou? Que mais prazer lhe deu?"

 

Memorioso ficou mudo. Os circuitos de sua memória funcionavam com a velocidade da luz procurando a resposta. Mas aquilo não lhe fora ensinado. Seu rosto ficou vermelho. Começou a suar. Sua temperatura subiu.

 

E, de repente, seus olhos ficaram muito abertos, parados, e se ouviu um chiado estranho dentro de sua cabeça, enquanto fumaça saia por suas orelhas. Memorioso primeiro travou. Deixou de responder a estímulos.

 

Depois apagou, entrou em coma. Levado às pressas para o hospital de computadores, verificaram que seu disco rígido estava irreparavelmente danificado.

 

Há perguntas para as quais a memória não tem respostas . É que tais respostas não se encontram na memória. Encontram-se no coração, onde mora a emoção...

 

(Folha de SP, 24/1)

 

 

IMPORTANTE ALERTA

 

 

 

 

Obrigado por divulgar o "Memorioso" de Rubem Alves. É um importante alerta (...) As civilizações poderiam pensar com urgência em construir um enorme jardim da infância ou misto de
paraíso da supervisão da paisagem para o subconjunto de desajustados que além de desajustados são preguiçosos...


Roberto Mueller.
Da UFViçosa (<G)
 
 
A ESCOLA NÃO É CHATA?

 

 

Assim, a seu ver, os culpados são só os eventuais desajustes dos (ex)-alunos?  E, a seu ver, a escola não é "chata"?

Pode até não ser, mas que ela anda incapacitada de vencer a concorrência, isso ela anda, pois mantém o sonho dourado de uma época em que nos formamos, em que a realidade e o alunado era outro. Aliás, os jovens de hoje sonham pouco, querem pouco, esperam pouco, recebem pouco e pouco reclamam, limitando-se a fugir do "chato".

Em que fracassamos? Alguns que outrora não saíram da escola não têm sido um bom exemplo nem estímulo ao estudo. Ou, retomando a velha piada: Cargo de Confiança a R.000 para analfabeto é objeto de nomeação. Motorista só com 2º grau e concurso.

Quanto ao mais, também sou um desajustado que detestou a escola dos "anos dourados", só que, mesmo assim, fiquei nela para  tentar torná-la menos chata. Até agora tem dado certo. Mas gotas, como alguns de nós somos, pouco podem num oceano.

Somos todos culpados.

Adail Sobral

 

DISCURSO COMERCIAL

Apenas temos que tomar alguns cuidados com esse discurso comercial e fácil  do Rubens Alves. Do texto lido, fiquei com a impressão de que alunos disciplinados e estudiosos não devem ser vistos com bons olhos...

 

Sebastião 

magalhaesanta@uol.com.br