Grupos

Celso Furtado (anos 80 na UFC)

  

PARTIDOS POLÍTICOS EM FRANGALHOS

(Mensagem aos do Grupo Ethos-Paidéia,

ethos-paideia@grupos.com.br)

 

 

Cedo, acordei. Rápida vista nos jornais.  No caderno “política”, olhos na tônica de Sérgio Machado – a da (re)união das forças políticas do Ceará. Balanço a cabeça ante os crescentes frangalhos: o PT cearense, fragmentado, levando o deputado Guimarães (irmão de Genoíno, deputado federal por São Paulo) a  exclamar: “Nunca se viu isso na história do PT”.

 

Boquiaberto, de longe observando os atritos entre dois “históricos amigos” meus, Cartaxo e Ilário, recordo, anos atrás, o apelo de Sérgio, em exatos seis minutos, numa reunião da Federação das Indústrias do Ceará, o hoje presidente da Transpetro, a reeditar os sonhos do Barão de Mauá de outrora, diante de auditório lotado pelas diversas forças políticas, empresariais e acadêmicas que ele reclamava estarmos tudo perdendo pelo fato delas em dispersão. E ouviria, depois, eu, ali feito histórico “Pero Vaz de Caminha”, nessa jornada, justo de Ilário: “Mas você sabe que, no PT, quem mais tem jogo-de-cintura para isso sou eu”, afirmação que, depois, num restaurante, ao lado da esposa (deputada estadual a concordar), a mim repetiria...

 

            MÍDIA EM SEU PAPEL:

DERRUBAR MUROS

E COSTURAR ABRAÇOS

           

Toca o telefone. Na linha, Ivonete Maia, jornalista e colega professora na UFC. Assunto, eleição, nesta terça, na ACI (Associação Cearense de Imprensa). Ela a me pedir apoio à sua candidatura.  Análises rápidas dos dois sobre o jornalismo e postura dos meios de comunicação em geral, no Ceará, sua democrática abertura, mas pouca habilidade ainda na barthesiana leitura “psicanalítica e metafísica do mundo” do nosso dia a dia e do jogo histórico-prospectivo, entre o passado e o futuro. 

 

            A propósito do tema, falo-lhe do intuito de um grupo de “juntar os cacos”, a partir de três atores em perdidos “monólogos coletivos” (os atribuídos por Piaget ao mundo infantil), sob a sombra antiética dos muricis, cada qual a cuidar de si: intelectuais, gestores (estatais e privados) e o mundo político.  E, nisso, falo da reedição nossa no curso perdido de nossa história. Ivonete vai além. Conta-me experiência recente sua como ombudsman da UFC: “Marcondes, estou horrorizada, a UFC não é mais aquela!”, o mesmo clima de dispersão e dos muricis da vida, trancada ainda em seus medievais muros... Digo-lhe do insulamento interno que hoje observo em cada corporação e falo de artigo meu, nessa segunda-feira, espaço em que, quinzenalmente, nos alternamos, ela e eu.

 

            A ela, falo de minhas recentes surpresas, do por mim inesperado até, quando de recente passagem minha pela UECe e a UFC, onde mais me sobressaltei: a dos arranhões múltiplos postos de lado. E do “topamos” crescendo – vale dizer, voltar ao clima da (re) união das forças, por mim ouvido nos diferentes campos por onde andei.

 

Hora, sim, concorda Ivonete, de grande ação da ACI na recuperação de seu papel analítico e aglutinador, repondo a história, em seu fluxo entre o agora e os ideais cultivados e preservados desde o passado, o olhar, porém, a desenhar e construir o futuro.

 

            “Até terça! Lá, na ACI, estarei” – esperançoso, asseguro-lhe. E, nesta manhã de hoje, após contactos na Assembléia Legislativa com deputados amigos, de diferentes partidos, em que tento alastrar o “topamos” em inesperado crescendo, vou até a ACI, eleitor de seu quadro diretor.  

 

Nela, reencontro-me com amigos dos meios de comunicação (jornais, TVs, colunistas dos vários setores de nossa sociedade, além de radialistas), aí incluídos os dos tempos da Rádio Universitária (FM) (eu da equipe de sua idealização, ao tempo de Paulo Elpídio reitor da UFC).  

 

            Reencontro-me, além de Ivonete, com Adísia Sá, parceira dos “Fundamentos científicos da comunicação”, obra publicada, nos anos 70 pela Editora Vozes de Petrópolis, a inaugurar talvez, no País, o olhar de várias ciências sobre a comunicação, que, aos “órgãos de segurança”, na época, alimentada por um dos 7 pecados capitais, a inveja (no próprio mundo universitário) tacharia de “cor de rosa” – em meu caso, de um “mar-cor-de-rosa”.  Este, sim, foi pauta nacional e em Portugal, do qual não guardo exemplar algum, tanta a dor histórica que em mim me causaria ele... E, nos abraços, a conversão do “oh! que saudades que tenho” em pauta ao desenhar o futuro: cimento da diversidade cultural e política, a buscar diálogo e pactuação (crença colhida pouco antes por mim da boca de um deputado, em relação ao poder de costura dos meios de comunicação).

 

           

            O SABER, INDÚSTRIA

CIENTÍFICO-CULTURAL

            COM ASSENTO NA FIEC...

 

           

            Em casa, releio o artigo “Em sua porta, o futuro”, no Jornal “O Povo”.  E, por e-mail, remeto ao Jornal Laboratório de curso de jornalismo, outro artigo – a mim pedido “inédito” (sic), por instituição da órbita privada, sobre “educação brasileira”, onde, num balanço de minha história na educação cearense e nacional, no jogo entre fracassos e sonhos, concluo havermos morrido na praia – isto é, porto final não alcançado, mas seguramente a contabilizar o sucesso nos termos de Mário de Andrade, no poema “O poeta come amendoim”, em 1924: “progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso é uma fatalidade”...

 

           Depois, o lançar, num preescrever, idéias avulsas para artigo solicitado pelo Sindicato das Escolas Particulares, o SINEPE/Ce, onde me volta a idéia, guardada em stand by, da “Câmara de Educação Superior”, desde quando eu, presidente do Conselho de Educação do Ceará, já nos instantes finais, em reunião com o Banco Mundial, recebíamos, para surpresa minha, o amigo Antonio Gomes Pereira,  a chefiar a delegação e Beni Veras, então vice-governador, a presidir o encontro do qual participavam técnicos do Estado e instituições universitárias, entre outros.

 

           Nessa reunião, terminei por me sentir “em casa”.  Inesperados abraços de Gomes Pereira, de pró-reitores vários “deste País”, que, desde muito, não via, dirigentes das instituições universitárias.  A ênfase do Banco Mundial ali expressa era a brasileira ênfase do governo brasileiro, na educação, em seus projetos de “universalização” da “educação básica”, pouco se voltando para a na verdade ... “fundamental”, no caso, a “educação infantil”.

 

            Em minha fala, confesso que, sem peias, excedi-me. De logo, a propósito de insinuações do Banco Mundial orientadas pelo urgente cuidar de nossa educação infantil, evoquei a desculpa de dias atrás, no Fórum da Modernidade, onde o Conselho de Educação e as Instituições Educacionais, ouviam Eunice Durhan, do MEC, sobre nossos desafios, então com urgência maior no ensino, na nomenclatura oficial brasileira ... “fundamental”: Nessa pauta, concluía eu ali, ante o grupo com o Banco Mundial:

 

 “Nossa ação urgente, ante tal quadro,  quando o mundo já tem, como desafio, a universalização da educação superior”,  isso pode nos deixar a correr atrás do atraso, no dizer de Keynes, deixando para depois ... “quando todos já estivermos mortos”.

 

Na verdade, havia eu feito enorme esforço por envolver, no encontro, as instituições de ensino superior (públicas e privadas) para que, na linha do aludido Fórum da Modernidade, pudéssemos criar um sistema aberto de educação superior, com os olhos voltados para que, em articulação com o mundo produtivo e os setores outros de nossa sociedade, atacássemos os problemas do Estado, na linha do lema da UFC, isto é, na tensão entre o universal e o regional.

 

Duro esforço, mas as instituições todas estavam ali.  Em minha fala, vendo alguns antigos colegas, ex-pró-reitores de extensão do País, testemunhas de minha luta, lancei, sim, a frase registrada por Paulo Elpídio, no seu livro inconficências@indeletáveis.com.br – os deslizes dos outros e os nossos também. Fortaleza. Imprece/Oficina da Palavra, 2007, , à p. 128:

 

“Por 30 anos, vivi sempre no limitar entre a universidade, de um lado, e a sociedade e governo, de outro, tentando um namoro entre os dois lados. Lamentavelmente, vejo, após 30 anos, que nada mais consegui que um ... coito interrompido”

 

Diálogo entre mim e o Vice-governador Beni Veras não está nas “inconfidências” de Paulo Elpídio. Dele, relato agora, alguns trechos.  Beni me responde que a culpa, se existente, não caberia ao governo e nem à sociedade. Mas ao próprio mundo universitário, trancado em seu medieval fosso... Respondo-lhe que, ao governo, caberia, numa gramática de sedução, a dar direção a esse namoro, a iniciativa do levar à cama os dois: academia e governo... Em resposta, Beni pede aos técnicos do Estado que nos deixem a sós, ali restando, daí em diante, além da equipe do Banco Mundial, apenas secretários do Estado (o Presidente do Conselho em tal nível) e os dirigentes das IES (particulares e públicas) ali presentes...

 

Dias depois, em reunião em que, a meu lado, estava o presidente da Fiec, dele ouviria eu “cochichos” a reclamar da não inclusão, nesse grupo, dos componentes do mundo econômico. Retruco ao então presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, Jorge Parente, a lhe dar razão, reclamando-lhe, em contrapartida, o não tomarem assento, na FIEC, as “indústrias do conhecimento” (as IES), lugar privativo tão só a muitas das já caducas “indústrias da chaminé”, citando Clark Kerr, em seu livro “Os usos da Universidade”, traduzido pelas Edições UFC, pela Profa. Débora Cândida Dias Soares, sob o olhar final de Valnir Chagas. Aí, com certeza, o passo embora simbólico que Jorge Parente, em resposta, inaugurava, encetando ampla frente em prol do repensar os caminhos do desenvolvimento do Estado, numa tentativa de abrir caminhos para o abraço entre os mundos intelectual, o dos gestores e o tato e ação política.

 

Projeto, infelizmente, que, logo, com a mudança de dirigentes nos diversos níveis, quando visão e clima voltariam à batuta de dirigentes supostamente mais objetivos, conquanto mais prosaicos.

 

Quanto à educação infantil, Gomes Pereira tinha razão. E, com tato, em reunião, se não me engano do Pacto de Cooperação, tecia sutil e delicada queixa, dirigida “a meu amigo Marcondes...”

 

 A queixa espraiou-se. E eu, logo, me daria conta de que Gomes tinha razão e não apenas com artigos, mas com ação, tentei, pela convocação dos diversos atores da educação em tal nível, amargar, em ação, reiterados  “atos de contrição”.

 

 

HEGEMONIAS EM CACOS

 

À mesma página, das inconfidências@indeletáveis, lá se encontram insistências minhas com a temática, expressas nos títulos de meus artigos:

 

“Hoje, escrevi outro artigo, a falar “Na desunião, o fracasso”.  Ontem, o dia inteiro, a proposta de um grande seminário, em parceria com instituições européias lideradas pela Universidade de Barcelona. Sérgio Machado, em conversa conosco, achou pouco: é preciso incluir os Estados Unidos e o mundo oriental” (Id.ib)

 

Hegemonias em cacos – o título de um dos meus artigos. ‘Em farelos’, a confissão de alguns líderes políticos e sociais. Mas uma certeza aí está. Não dá para alimentar uma democracia helênica nem a da Revolução Francesa. O mundo se inquieta. O povo aí está impaciente (...) a exigir institutos como o ‘recall’. E o Oriente, a despeito das democracias formais, está mostrando que é possível se chegar lá.

 

“Continuo na luta, acreditando. Acho que Virgílio Távora foi ator principal da ‘União pelo Ceará’. Hoje, ouço coisas como: foi quem abrigou a noção de planejamento no Ceará; b) foram três indispensáveis ajudas que tornaram possível, nos anos 80, o movimento do CIC: 1. o apoio do Jornal do Brasil; 2. o de Gonzaga Mota, então governador; 3. o apoio que nos deu Virgílio. Além de coronel,  visão de futuro. Não é a toda que figura como dos poucos políticos como ‘o cearense do século’ (fui do júri final)” – Id.ib. pp. 128-129.

           

 

COMO DOU COM

GOMES PEREIRA

 

Estava eu procurando, no Google, artigos meus, por aí afora. Apus, na busca, meu nome. E, aqui e ali, surpresas muitas. Isso, noite adentro. Lá pelo 80ª ocorrência, o livro “Para onde vai universidade brasileira” e ... “no sebo”!

 

            .Para falar a verdade, nem me apercebo, olhos fitos “no sebo”.  Para minha surpresa, o positivo espanto, no Grupo Ethos-Paidéia, com a imediata reação de nosso festejado nacional lingüista e tradutor, Adail Sobral, sempre, embora discreto, oportuno e arguto. Curioso, sem perceber a reação de Adail, tento encontrar, nos meus guardados, um exemplar do livro. Debalde. Lá, pela madrugada, acordo e, sem querer, dou com um exemplar, bem visível numa das estantes, em meu gabinete.

 

 Enquanto isso, no Blog da ADAUFC -  Associação dos Docentes e Pensionistas Aposentados da UFC, http://adaufc.blig.ig.com.br/, leio:

 

 

 

 “Caro professor, aposentado ou não, Tente abrir o nosso blog que terá informações interessantes e proveitosas. Não fique surpreso com a mensagem de natal enviada pelo Prof. Gomes, que é sócio da ADAUFC e, mesmo de longe, morando nos Estados Unidos, mantém sempre um contato com a nossa Associação como se estivesse perto de nós. Prof. Gilberto Vale”

 

 

QUEIXAS MIL,

MAS AFINAL

O “TOPAMOS”

 

Na ADAUFC, pela UECe e, depois, na UFC, após burocrático périplo com vistas a encaminhar problemas meus, converso sobre a busca de con(s)ertos e co(c)ertos dos reclamados frangalhos entre cabeça, mãos e tato, em nossa sociedade – aí a própria cabeça sob a visão de agora, os ângulos das “inteligências multiplas” a se darem as mãos, sob a regência dos transcendentes valores, no esforço pelo rejuntar dos frangalhos...

 

Queixas mil, sim, tive de ouvir. Mas, ao final, para minha surpresa, o convencimento e o inesperado “topamos”, seguido do “por onde então começar?”.  Lembro-me dos anos 80, com o Simpósio “Para onde vai a universidade brasileira?” e Celso Furtado, que nos arrastaria a todos – das esquerdas aos políticos e os então “novos empresários” do CIC (Centro Industrial do Ceará), no Seminário “Perspectivas para o Desenvolvimento do Nordeste”, onde pregou “crescimento econômico a se metamorfosear em desenvolvimento”.

 

Queixas mil, mas, felizmente, o  “topamos”, a me surpreender. E a indagação imediata do “por onde começar?”.  Aí, me veio a lembrança do que, no passado, untou-nos, como coisa mais importante: a) o “Para onde vai a universidade brasileira”; b) o “Perspectivas para o Desenvolvimento do Nordeste”, e o porto do “crescimento a se metamorfosear em desenvolvimento”, com Celso Furtado, guru a nos (re) unir todos (das esquerdas aos empresários do Centro Industrial do Ceará).

 

 

O FUTURO

À NOSSA PORTA!

 

De minha parte, alegro-me, como confessei ao fechar o artigo dessa última segunda, “Na sua porta, o futuro”, ao citar entusiástica adesão de Antonio Gomes Pereira e Paulo Elpídio, daí nascendo intensa troca de idéias, que, aos deste Grupo Ethos-Paidéia, solidarizamos:

 

 

Surpreendo-me. De todos os cantos, o "contem comigo". Como os de Paulo Elpídio, a sediar, na UFC dos anos 80, esse clima. E, do frio em Washington, Antônio Gomes Pereira, outrora a indagar o "para onde" dos "jardins de Academo nacional, a nos falar do futuro a nos chegar "de repente, sem sequer bater na porta". E dos tigres asiáticos, "que mudaram de zoológico (...), de vocabulário, prioridade e tecnologia".

 

Nessa troca de idéias em que, gradativamente, outros vão, aos poucos, participando, além do economista Cláudio Ferreira Lima, Osmundo Rebouças – do Banco do Nordeste e da nacional equipe do plano real, entre outros, as discussões, por ora, em clima de tempestade-de-idéias, poroso às adesões de todos os lados.  O importante é o renascer da esperança.  O futuro, arrancado do agora, olhar à frente, para além do simples “revirar das saudades” (nas palavras de meu irmão, Walmir Rosa de Sousa).

 

Papos reatam-se.  Paulo Elpídio com a sadia ânsia do “mãos à obra”, já apontando vias a navegar, águas pequenas dos interesses menores a serem invadidas pela água grande, como nordestinos rios a sepultar, com os rios recobrados em suas cheias, as cacimbas privatizadas sob cadeados...

 

A Paulo Elpídio, Gomes Pereira, em nossos papos, confessa:

 

“Alegra-me o entusiasmo despertado pela idéia de repensar, aberta e responsavelmente, a universidade brasileira. Quem diria que, 25 anos mais tarde, iríamos outra vez vibrar com essa convocação. Parece uma contradição (já identificada, faz anos, por Jacques Barzun, no seu livro "A Casa do Intelecto") que a instituição que se assenta sobre a racionalidade se torne, às vezes. tão atarantada e ineficiente.

 

 Pensando bem, não é bem assim. A procura cíclica do Santo Graal mediante reformas é de fato a consciência de uma missão sempre desafiada pelo tempo e o desenvolvimento, e a que a universidade deve responder ou antecipar-se de maneira significativa. Daí que a temática de hoje não será a de 25 atrás, mas se orienta no mesmo sentido de, instituição medieval, fazer-se genuinamente do seu tempo para poder falar do seu tempo (educar, formar, pesquisar, liderar) e servir ao seu tempo

 

De Paulo Elpídio, muitos os papos, a nos instigar sob a pauta do “por onde começar”, aqui prometidos solidarizados com todos os do Ethos-Paidéia.   Da Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (APESC), que congrega também as instituições particulares de ensino superior do Ceará, o “topamos”, almoço por marcar e, de já a recuperação de encontro nacional, aqui no Ceará realizado nos anos 60, marcando, em nossa história, a preocupação do mundo acadêmico, com os caminhos de nosso ensino superior. Sem dúvida, o passo primeiro para o que, nos anos 80, se converteria no diálogo entre os “de dentro” e os “de fora”: o mundo acadêmico e o social, a buscar o desenho de nosso amanhã.

 

 

IMPRESSÃO DE QUE

O FUTURO PASSOU

 

Muitos, os telefonemas que, a propósito do artigo, para surpresa minha, recebi, em solidariedade com o espírito, o tom e a proposta do (re) unir nossas dispersões.

 

Destaque, entre essas manifestações, a de Pedro Sisnando Leite, de quem fui colega (ele de planejamento e eu, pela segunda vez, de extensão,. Ele de histórica participação na UFC, no Banco do Nordeste, no Governo do Estado do Ceará, na Sudene, entre outros campos:

 

“Caro Marcondes,

 

       O sentimento que chegou a minha mente ao ler seu marcante artigo do jornal “O Povo" de hoje foi de que “O Futuro Passou". Durante trinta anos, estudamos, ensinamos, trabalhamos certos de que estávamos construindo um futuro próspero. Com as pessoas felizes e em paz consigo e com o nosso Estado  e com o nosso belo País.  Como a água que corre no rio sem retorno, é o que parece que aconteceu com as realizações de nossas vidas.

 

      A esperança é que tenham ficado algumas sementes dos nossos sonhos e de nossas atividades, que honestamente e eticamente semeamos ao passar dos anos, dos preciosos anos de nossa longa peregrinação que Deus nos permitiu aqui na terra.

 

       Não estou frustrado pelo que não foi possível realizar, mas feliz pelo pouco que realizei juntamente com você e tantos outros Dons Quixotes que amam a sua terra e o seu povo. Não podemos ser responsáveis pelo que os outros não fizeram, mas é bom explicitar essas lamentáveis falhas.

 

       Continue manifestando sua indignação em voz alta, ou através de sua afiada pena de escrever que é uma poderosa arma do intelectual atuante que  você sempre  foi. Prometo voltar com um artigo sobre “O Futuro Passou" para o nosso Blog.

 

        Fraternalmente,

        Pedro Sisnando

psisnando <psisnando@terra.com.br”

 

 

Sem dúvida, a provocação de Sérgio Machado, que, um dia, confessou-nos que, para surpresa minha, dois olhares – à exceção, claro, de Celso Furtado, de quem nasceria – mais apoiaram o Movimento das Mudanças, no Ceará, foram: a do Coronel (do Exército), Virgílio Távora, contra o “clientelismo político”  e a do ... Jornal do Brasil.

 

Fiquei satisfeito.  Conheci VT, numa curiosa reunião, ao tempo de João Goulart, de movimento então nascente, a “Arca de Noé”, quando, ao lado do então governador, saboreei, pela primeira vez, um uísque, de memorável nome “Cavalo Branco” (talvez porque me induziria a cavalgar..). Era reunião em que, estudantes, apenas dois – Valdizar, que fugiria, logo após, no 31 de março, para a União Soviética, e eu, em meio a representantes dos mais diferentes setores sociais.

 

Só muitos anos depois, retirei de minha cabeça a idéia de que, naquele dia, teria eu participado de movimento nascente para a derrubada de nossa democracia, o 31 de março...  Soube, para surpresa e alívio meus, que a “Arca de Noé”, justo ao contrário, era liderado por VT, em solidariedade a seu amigo e compadre ... João Goulart...

 

 

            MUDANÇA POSSÍVEL,

            INSTITUIÇÕES VIÁVEIS

            VALORES EM PAUTA

 

 

            O Grupo Ethos-paidéia, aberto à dimensão amplas do “Ethos” – na dimensão abrange de nossos dias, de “social responsabilidade” e de ampla “paidéia” a nos conduzir, infantes do nascer ao morrer, mãos dadas seus amplos agentes (escola, família e sociedade), em dimensão “urbs et orbis”, a abranger a tensão entre o local e o global.

 

            Por isso, a proposta de aqui receber, com toda honra e esperança, Antonio Gomes Pereira, sintonizado conosco, nos termos de comunicação só agora jogada no Grupo.

 

Bem-vindo!

 

Marcondes:

 

Não risque meu nome do seu caderno. Ao contrário, inscreva-me entre os que são o ethos-paideia. Estou certo de que estarei em casa, sintonizado com aqueles que crêem  na possibilidade de mudança, na viabilidade das instituições, na necessidade dos valores. 

 

Um abraço,

Gomes    

 

***

 

 

Bem-vindo, que o seja entre nós!

Marcondes Rosa de Sousa

Coordenador do Grupo

Ethos-Paidéia

 

 

 

 

           

 

           

 

 

           

 

 

 

 

Barão de Mauá

 

O PARTIDO DO CEARÁ

 

 

Sérgio Machado

 

 

Acredito que nossos líderes - ou boa parte deles –

estão comprometidos com esse mesmo objetivo:

ajudar o Ceará a desenvolver-se mais rápido

 

 

O Povo - 05/01/2008 

 

Até as vozes mais pessimistas têm admitido que o Brasil atravessa uma rota econômica notável, graças a uma virtuosa conjugação de astros que vai da estabilidade monetária, melhoria das contas externas, crescimento econômico e maior distribuição de renda. Se esses fatores se mantiverem, o Brasil pode ter a certeza de estar construindo as bases para integrar, daqui a alguns anos, a galeria de nações mais ricas e desenvolvidas do planeta.

 

Eis por que estamos convocados a uma séria decisão: unir esforços em torno de uma meta comum. Refiro-me aos enormes desafios que um Estado ainda pobre como o Ceará terá pela frente. O Estado não pode se dar ao luxo de ver o País crescendo e permanecer apenas assistindo à festa. Este momento é e será nosso também, desde que façamos a lição de casa. E isso significa convergência entre todas as forças do Estado, mesmo aquelas que foram divergentes no passado, a fim de que não percamos a oportunidade que bate à nossa porta.

 

Acredito que nossos líderes - ou boa parte deles - estão comprometidos com esse mesmo objetivo: ajudar o Ceará a desenvolver-se mais rápido. Não é uma tarefa fácil, mas nossa sorte é que há fatores muito mais favoráveis à articulação, ao consenso, ao crescimento comum. Um deles é que momentos de virtuosismo econômico, como este, estimulam os projetos verdadeiramente coletivos.

 

Outro motivo para o otimismo é o amadurecimento das instituições democráticas. Sem uma democracia sólida, nenhum desenvolvimento é sustentado. Ademais, temos hoje, entre as lideranças do Estado, considerável maturidade política. Temos quadros preparados, tanto políticos quanto empresariais e sindicais.

 

Por tais motivos estou otimista para os próximos meses que virão. Desde que aceitemos, políticos de todos os matizes, colorações, ideologias e partidos, esta convocação. Sob a liderança de Cid Gomes, o nome natural para exercer esse papel pelo cargo que ocupa hoje no Estado, essa união de esforços nos conduzirá a um partido único, o Partido do Ceará.

 

Como tarefa principal está a tentativa de encontrar novas frentes de investimento e produção. Isso significa encontrar o nosso papel na economia globalizada, o que fará a diferença entre o sucesso e o fracasso no futuro.

 

Esta é a mensagem que gostaria de dar aos cearenses neste 2008 que acaba de chegar.

 

Sérgio Machado - Presidente da Petrobras Transporte (Transporte). Foi presidente do Centro Industrial do Ceará (CIC), secretário de governo do Estado do Ceará, deputado federal e senador

 

 

Resina encarnado

Em sua porta, o futuro!

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 21/01/2008 

 

Partido do Ceará - provocação de Sérgio Machado. Momento nosso, na economia globalizada, para nós, em histórico reprise da União pelo Ceará e do Pró-Mudanças, contra "a miséria e o clientelismo"

 

"Vocação de resina" impele-me ao juntar forças em cacos: intelectuais, gestores, políticos. Moral política, em baixa, entre nós: 91% no País; 81%, no Ceará. Mundo econômico, sob o ilusório boom da construção civil. Agricultura, nem mesmo a familiar, sob a distorção das "bolsas", nada atentas ao "vicio da esmola", alertado por Gonzagão e Zé Dantas...

 

No mundo acadêmico, o morrer na praia: educação nossa, entre as piores do mundo. Nas IES do Estado, greve crônica. Piso salarial reposto pelo STF adiando-se, sob grosseiros dribles, para "quando todos nós mortos", ouvi de colega. Quadro análogo, na UFC: depressões, descrenças, suicídios até. Área privada, docentes a se queixarem, "jumentos de verdureiros". O apelo ao repensar, como outrora, a nos reunir sob o milagre da reposição de sentimentos e armas. Como outrora, nos anos 80. Em torno de Celso Furtado, a irmanarmo-nos com as perspectivas de um "crescimento a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento". E, nesse tom, a indagação "Para onde vai a universidade brasileira?", o País, no diálogo entre os "de dentro" e os "de fora" do mundo acadêmico.

 

Surpreendo-me. De todos os cantos, o "contem comigo". Como os de Paulo Elpídio, a sediar, na UFC dos anos 80, esse clima. E, do frio em Washington, Antônio Gomes Pereira, outrora a indagar o "para onde" dos "jardins de Academo nacional, a nos falar do futuro a nos chegar "de repente, sem sequer bater na porta". E dos tigres asiáticos, "que mudaram de zoológico (...), de vocabulário, prioridade e tecnologia".

 

Você, o que diz?



Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

 

Homofobia em outdoor

Nilze Costa e Silva

O Povo - ,18/01/2008

 

Um outdoor provoca polêmica nas listas de discussão da Internet e na cidade onde foi colocado recentemente, Campina Grande. Estampa-se a palavra Homossexualismo em letras grandes e maiúsculas. E logo abaixo: "Deus fez o homem e a mulher e viu que era bom!" Longe de querer afirmar que abusaram da liberdade de expressão, causou-me surpresa tamanho incitamento à intolerância, em nome de Deus, que com certeza não aprova tanta discriminação. Coerentemente e atendendo ao pedido de ativistas gays e organizações ligadas aos Direitos Humanos, a juíza Maria Emília de Oliveira, da 1ª Vara Cível de Campina Grande determinou a retirada dos outdoors.

 

A entidade denominada "Consciência Cristã" responsabilizou-se pelo atentado à liberdade de expressão da sexualidade. Liberdade esta que não tem nada a ver com religião ou mesmo com qualquer ameaça à família. Essa é uma visão fundamentalista do cristianismo. Tal como o racismo e o machismo, a homofobia dissemina ódios da mesma forma que durante o período colonial, quando a Igreja Católica julgava e condenava os hereges junto aos homossexuais, acusadas de violar os dogmas da heterossexualidade. Alguma coisa mudou? O que se vê são homossexuais discriminados, presos, maltratados e assassinados (em nome de Deus?).

 

A Igreja às vezes cega para o que foi dito em benefício da humanidade pelos próprios santos reconhecidos pela igreja: "Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver discórdia, que eu leve a união". Que consciência cristã é essa que incita o ódio às diferenças? A homofobia é não só uma manifestação de intolerância ao modo diferente de expressar a sexualidade, mas sobretudo uma violação da dignidade humana e até mesmo um desrespeito às palavras de Jesus, que tanto insistiu até a morte: "Ama o próximo como a ti mesmo".

 

Nilze Costa e Silva - Escritora e conselheira do Conselho Cearense dos Direitos da Mulher

 

 

FÉ E RAZÃO EM ABRAÇO

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

Natal! Machado, o de Assis, me cai, com saudades da “velha noite amiga, noite cristã, berço do Nazareno” (Séc. XIX), a lembrar, desde São Francisco, o de Assis (1223), os hoje raros presépios. Em nossa volta, o marketing a espraiar sede nos lucros, e a distorcer ceias, Papai Noel, presentes, canções natalinas... E a nos ficar, a chave-de-ouro do famoso Soneto de Natal: “Mudaria o natal ou mudei eu?”

 

Nesse quadro, uma luz: a de Bento XVI, a pautar aos cristãos, vida futura a não se perder no vazio e no chão.  Salva-nos a esperança, a nos dar sentido à vida cá na terra e à ressurrecta após. Míopes, se não aliadas à fé e a caridade, em nossa política, os esforços em prol da tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”. Também, ideais como o marxista, se restritos à pura “ordem e distribuição econômica”.  E até a ciência, se, solitária e cega, não se pautar por esse horizonte. 

 

Só a cáritas - o amor a irmanar-nos como obra e filhos de Deus - poderá redimir-nos. Possível, a “amizade entre a inteligência e a fé” a nos trazer “maturidade científica e espiritual” (diz o papa a universitários). Voltar àquela “noite cristã, berço do Nazareno” impõe-nos repensar-nos a jornada na terra: fé, esperança e caridade, mãos dadas a nos rever passado, presente e futuro.  Assim, as hoje múltiplas inteligências.  A da fé (a transcendente), no consórcio com as várias outras, a nos repensar ética e vida política, na construção de nosso amanhã.  E, urgente, a de nossa educação (escolar e social), hoje, nesta terra de Santa Cruz, vista entre as piores do mundo, para que forme mulheres e homens na integrada feição de profissional (o construtor), cidadão (o ente social e político) e pessoa (em sua dimensão transcendente maior). 

 

Tudo sob o olhar “assim na terra como no céu”.  São meus votos.  Que assim seja!

 

 

 

 

 

AS VENDEDORAS DE SONHOS

 

Um sonho! É o que ela diz querer me vender. Um sonho para casais, o que inclui um cruzeiro pelo Caribe e a promessa de noites inesquecvíeis nos mais luxuosos hotéis de Miami, Orlando (nos Estados Unidos) e Buenos Aires (na Argentina). Um sonho, tornado iminente pela compra de uma simples cautela.

Nada de armações. Ali, diante de mim, a comprovação de tudo. O sorteio das cautelas dar-se-á no próximo dia 13 de dezembro, às 20 horas, em um jantar a ser oferecido no Iate Clube de Fortaleza.

Ela me mostra o prospecto de informações sobre o sorteio. Patrocinando e garantindo tudo, estava ali a Sociedade dos Amigos da Democracia, da qual a vendedora dizia-se não apenas membro como uma das fiadoras. Uma entidade sem fins lucrativos, que realizará o sorteio com o curioso e poético objetivo assim expresso: manter os amigos unidos e as portas da sociedade abertas para todo o mundo”.

A vendedora me fala do sonho ali posto à venda. Enquanto ela se perde nos sonhos que me tenta vender, confesso que minhas atenções se voltam mais para ela, a vendedora, E, por isso mesmo, termino por não me conter, abrindo-me num explosivo frouxo de riso. Explico-me. Eu já antevia essa visita. Só não esperava que o objeto da venda fosse um sonho (mesmo um sonho real, factível e assegurado aos vencedores). De outras vezes, havia sido igualmente visitado. Mas, nessas ocasiões, a vendedora conseguia me passar cautelas de carros velhos, jóias que dizia de família e, da última vez, de uma placa de ouro.

Agora, era diferente. Quem diria! O prêmio do sorteio era um sonho. E sonhos por onde? Por um mundo bem diferente dos sonhos pregados, nas praças, pela vendedora às suas habituais platélas de excluídos: desta vez, nas praças, pelos ambientes e paisagens de um mundo capitalista e burguês. quem te viu, quem te vê!” - não me contenho, sorrindo.

A vendedora, sentindo-se flagrada em sua contradição, desmancha-se, por sua vez, numa incontida gargalhada e justifica-se: “P’ra vocé ver aonde o aperto e a determinação de pagar as contas termina levando a gente!’. E aí discorremos, por longo tempo, sobre aonde, na vida pessoal, os percalços políticos terminam nos conduzindo.

Na verdade, tem sido sempre assim. Após cada eleição, lá se vêm elas (Rosa e Maria) à cata dos amigos (sejam de seu círculo político ou não). Elas entram, de corpo e alma, em uma empreitada política. E vivem o sonho e a aventura de sua caminhada. Jamais se sentem derrotadas, conquistem ou não os cargos formais. Nessa aventura, gastam tudo o que têm e o que não têm. Ao fim de tudo, restam os pedaços de conta, pendurados por toda parte.

Desta vez, conta-me Rosa, a coisa foi braba. Navegaram, solitárias, por uma via marginal, desamparadas do tradicional apoio dos demais partidos da esquerda. E, isso, no plano pessoal, custou-lhes caro. Numa campanha, de fato, tudo são gastos. E, por ironia, o que legalmente é gratuito (a propaganda pela televisão e o rádio) termina, na prática, sendo o mais caro. “È certo (explica-me Rosa) que tínhamos o tempo gratuito. Mas a televisão e o rádio não estão aí, ao vivo, à nossa disposição. Tivemos de contratar uma produtora para fazer os programas. E, aí, um aluguel de som aqui, uma viagem ali, somados aos gastos com a propaganda dita gratuita, ficou dependurada uma conta de mais de cem mil reais”.

“Vendemos tudo”, diz-me Rosa num estranho ar de preocupação, mas de satisfação pessoal... Maria, segundo ela, já se desfez do carro, do computador e de outros objetos pessoais. Entrou, fundo e arriscadamente, no cheque-ouro e levantou empréstimos nos bancos, Tudo isso, sem muito horizonte à frente, já que em 31 de dezembro terá terminado o seu mandato de deputada federal e, em conseqüência, não terá mais vencimentos.

Rosa, a vendedora de sonhos, me pede ajuda. Decido ajudá-las (a ela e Maria) apostando no sonho. Ela me pergunta por pessoas outras na Universidade. Digo-lhe onde encontrá-las. Ela quer mais, de nossa tradicional amizade. Insinua-me que posso ficar com uma dezena de cautelas: “Você pode passá-las aos seus amigos do PSDB - diz-me numa leve ironia. Retruco-lhe que meus amigos do PSDB não poderão dedicar-se aos devaneios de viajar em janeiro porque deverão estar no batente governamental, aqui ou em Brasília. Compro eu, porque em janeiro deverei tirar férias, estando portanto com disposição e tempo para embarcar em sonhos...

Ela se despede, entre sorrisos. Uma professora entra-me na sala. E me pergunta, surpresa, o porquê de minha ajuda a Rosa e Maria. Pergunto-lhe se ela quer que eu comece a responder do ponto de vista político ou do psicológico. A professora, sem entender, dá de ombros, como a me dizer: tanto faz. Começo lhe dizendo que, pessoalmente, me fascina o divergente de mim. E, brincando, afirmo que gosto tanto do diferente que casei com uma mulher. Se gostasse do igual a mim, deveria achar melhor viver com uma pessoa do mesmo sexo. Para mim, o oposto a mim me completa. E, cercando-me do diferente de mim, tento ser um equilíbrio plural de minhas próprias divergências. Por isso, ao ocupar qualquer cargo público, gosto de escolher pessoas de formação dilferente da minha, para o trabalho a meu lado, Nenhum deles de minha mesma formação. Dessa forma, penso, termino por enriquecer minha visão.

Sob a perspectiva política, creio, como insinua Maquiavel, desde 1536, que, entre a oposição e a situação, há uma certa cumplicidade. A oposição joga um papel fundamental no sentido da sustentabilidade da situação. E, para mim, Rosa e Maria, são um pouco o símbolo disso. Não votei em nenhuma das duas. Meu voto para Governador e para o Senado foi público. Votei em Tasso (fiz campanha) e, nos jornais, assinei manifesto de solidariedade e apoio a Sérgio Machado e Lúcio Alcântara. Mas, de Maria e de Rosa, não me neguei a ficar com alguns de seus bônus. E, dessa forma, ajudei-as. Por quê? Porque, primeiro, elas são um pedaço esquecido de mim. São meu lado romântico, aventureiro, inconseqüente, utópico, quixotesco, anárquico até. E me sinto satisfeito pagando um tributo a esse lado, necessário para o equilíbrio de mim.

Politicamente, meus sonhos são outros, em relação aos de Rosa e Maria. Elas acreditam na democracia direta e eu, ao contrário, sou parlamentarista. Minha crença é, portanto, naquilo que elas querem acabar (o parlamento). Elas acreditam na revolução armada. Eu sou de paz, da razão e do voto. Sua utopia é um socialismo de um horizonte distante. Sou mais pragmático. Acredito no sonho possível do equilíbrio social-democrático. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Sou pela síntese do que a humanidade conseguiu de bom no socialismo e no capitalismo. Sou, finalmente, contra o lado mau dos dois caminhos.

Mas, em meu sonho, cabem os sonhos de Rosa e Maria. Na sociedade que imagino, há lugar e função para elas. Em minha utopia, os sonhos mais extremos são salutares e imprescindíveis. E, nesse mundo plural, as mais diversas tribos hão de ter seus dialetos, seus deuses, suas crenças, pois democracia, para mim, mais que o império da maioria é a convivência saudável das minorias.

Rosa e Maria são a expressão e canal dos excluídos, São os necessários camelôs dos muitos que habitam nossas praças, favelas e ruas.

Outro dia, Tasso, citando Nelson Rodrigues, disse que a unanimidade é burra. Pois bem, em nosso meio político, Rosa e Maria podem simbolizar a porção necessária para que tenhamos uma sociedade inteligente.

Rosa e Maria, as vendedoras de sonhos, estão aí às voltas com uma conta de cem mil reais a pagar. Essa conta não é só delas. A mim, como pessoa, faz-me bem, a meu pluralismo, ajudar a saldar essa dívida: A mim,. cidadão, sinto-me responsável por contribuir com um pequeno quinhão. Afinal, posso até não gostar. Mas elas cumprem uma função e são necessárias em nossa sociedade. Por isso, pago, com prazer, minha cota.

E você? Você pode não ter nada a ver com Maria ou com Rosa. Pode até não gostar nada delas. E se confessar integrante do percentual de pessoas que a elas rejeita ou até delas tem raiva. Mas pense bem.  Elas podem ser o seu lado escondido, a sua face oculta, como, de mim, são o pedaço romântico que perdi, lá pelos anos 60...

Se voce pensar assim, não precisa explicações maiores, como as que tento dar a você. Apenas chame sua companheira ou seu companheiro e lhe proponha: “Que tal a gente apelar para a sorte e, quem sabe, viver o sonho de algumas noites inesquecíveis em Miami, Orlando ou Buenos Aires?”

Fará bem a você. Fará bem à vitalidade e à maturidade de nossa democracia!... E, se assim for, todos os anônimos camelôs de sonhos, que habitam a nossa sociedade, sensibilizados, lhe agradecerão.

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Divulgação ora em tributo ao Prof. Raimundo Alberto Normando, então vice-reitor da Universidade Federal do Ceará e falecido nas festas de ano passado, em 2007, que apesar de conhecido por suas posturas tidas por muitos como conservadora, sensibilizou-se com a crônica, telefonando-me e pedindo a mim que lhe enviasse cautelas.  Ele, a mim, argumentou que se sentia no dever de às “vendedoras de sonhos” pagar o tributo de que se sentia devedo.

Tal crônica de Marcondes Rosa de Sousa foi emitda, na voz do saudoso Almir Pedreira, no programa diário “Comentário”, emitido no dia 25.11.94, nos horários de 07:00 e 12:00, pela Rádio Universitária (FM), da Universidade Federal do Ceará.

 

Na foto que encima este texto, as “vendedoras de sonho” -  Maria Luíza Fontenete Fontenele e Rosa da Fonseca, no Plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, por ocasião da recepção, anos após, por Marcondes Rosa de Sousa da Medalha Otávio Lobo, comenda do Poder Legislativo dada às maiores personalidades da educação, no Ceará.

 

 

 

 

 

 

80 anos a pautar caminhos

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 07/01/2008 

 

 

O POVO! Sonho de Demócrito Rocha e Paulo Sarasate, 80 anos atrás, a arrancar do chão, de uma gente sofrida, uma história, expressa no cotidiano, autêntica "psicanálise e metafísica do mundo" (Roland Barthes). A de um Ceará, como o Rio Jaguaribe, "pobre doente (...) pedinte e desnutrido, (...) artéria aberta, resistindo e morrendo" (Demócrito Rocha).

 

Assim, O POVO vem assumindo o papel que, dos meios de comunicação, espera a LDB, como agente de educação social, sobretudo pela gradual abertura aos mecanismos sociais de participação popular e à democrática convivência das minorias, em nossa sociedade. Nele, crescente tem sido o diálogo entre o mundo intelectual-em suas várias inteligências, a da religiosidade aí incluída - a dos gestores (estatal e social) e a do tato político. Não só da educação social. O jornal torna-se, ele próprio, veículo a adentrar nossas escolas (bibliotecas e salas de aula).

 

Mais que isso, nestes tempos neogutenberguianos, irmana-se ele, braços dados com outras linguagens (rádio, televisão e dos livros), lançando, a voar, seus textos, pela Web, em amplo, participativo e globalizado diálogo. E isso, sob a feição do "caos produtivo" e do "pensamento complexo", cadernos, páginas, colunas, integrando-se entre si e com a visão dos leitores.

 

Leitor e colaborador, ao longo dos anos, sinto-me, de alguma forma, ator em tal caminhada, quando da ação de professor na área da comunicação, pró-reitor da UFC, gestor na área da comunicação, da cultura e da educação.

 

Ao O POVO, neste aniversário, os parabéns pela contribuição dada, nestes 80 anos, ao padrão de jornalismo participativo no Ceará. Um jornalismo que, na bem achada expressão de seu presidente, Demócrito Dummar, posta-se à frente dos fatos, a pautar pactuados caminhos.

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

Reitoria da UFC

 

 

Oitenta anos passados

 

Paulo Elpídio Menezes Neto

 Povo - 26/01/2008

 

 

Oito décadas na vida de um jornal é um marco significativo no registro dos fatos do cotidiano, testemunhos que se transformam, dadas as contingências pelas quais passam as nações, em história. Poucos dos grandes órgãos da imprensa brasileira terão ultrapassado essa contagem; muitos desapareceram, após presença efêmera e breve aparição, engolidos pelo envelhecimento precoce do seu projeto, esmagado pelos desafios dos novos tempos ou pelas amargas imposições do mercado. O POVO está entre os heróicos remanescentes dos jornais cearenses fundados no século passado: superou, solitariamente, os limites de sobrevida, a partir do qual um jornal desprende-se da sua condição de empresa e organização, vinculada a um grupo, para tornar-se uma instituição de caráter público, pelo papel que representa na sociedade e o alcance da sua voz e a influência dos propósitos que defende.

 

Não me foi dada a oportunidade de manifestar-me sobre esse feito expressivo na edição que registrou, como um filme retrospectivo, de denso teor documentário, o dia-a-dia da edificação deste jornal, obra coletiva de, pelo menos, três gerações de empreendedores e jornalistas. Não são, entretanto, tênues as minhas ligações com O POVO. Não fôra a condição de colaborador, de quem se iniciou em suas colunas, há mais de trinta anos, ou de ex-membro e secretário-executivo do seu Conselho Editorial, seria, certamente, a de agente de uma das mais bem sucedidas parcerias culturais, iniciadas com a Universidade Federal do Ceará.

 

Nestes oitenta anos bem contados, O POVO foi testemunha atenta e participante dos principais eventos que marcaram o Ceará, desde o advento do Estado Novo até os dias que correm, nesta sereníssima república, cansada de guerra, sarada dos desacertos e vicissitudes obrados pelos homens e pelas suas triviais circunstâncias. Assistiu a instalação da Interventoria, no Estado Novo. Abriu suas páginas para noticiar a dramático afundamento dos navios brasileiros em nossas águas territoriais. Cobriu com isenção os passos da Liga Eleitoral Católica, personificação do poder político nos agentes da Igreja Católica, a maior força político-eleitoral do Ceará daqueles tempos. Desfolhou o cotidiano das intrigas políticas, entre greis urbanas e as oligarquias, representadas nos partidos que, após a redemocratização, se revezaram no poder estadual, UDN "versus" PSD, em diligente contraponto de interesses, ao lado de algumas siglas dissonantes e minoritárias de menor relevância política. Veio 1964, e com ele os Atos Institucionais, o ciclo de generais-presidentes e os governadores biônicos, extraídos em Brasília, segundo critérios dissimulados, com suporte nas hostes revolucionárias que, no Ceará, detinham poder e a influência sobre o executivo, o legislativo e o judiciário e, para cabal cumprimento das suas tarefas, os órgãos federais, cujo acesso impunha lealdade ideológica e fidelidade aos seus pretendentes.

 

O POVO não escapou às restrições impostas pela censura política, que punha jornalistas sob suspeição: mas não se dobrou à inquisição movida pelos agentes da nova ordem. Celebrou a reconquista das franquias democráticas, com a eleição de Tancredo Neves e de Tasso Jereissati e mostrou em suas páginas o fim das oligarquias e o advento de uma nova classe de políticos. Os grandes empreendimentos deste largo período? A conclusão do Orós e do porto do Mucuripe. A extensão da energia de Paulo Afonso ao Ceará, no primeiro governo de Virgílio Távora. A criação da Universidade Federal do Ceará e do Banco do Nordeste, o mais destacado feito da história dos cearenses, que mudaria a fisionomia do Ceará, do ponto de vista político, social, educacional e econômico, graças à determinação de dois atores inconfundíveis, Antônio Martins Filho e Raul Barbosa. Da UFC se originariam todas as outras universidades, as estaduais e a UNIFOR. Do BNB e da UFC nasceriam os quadros que alimentam governo e iniciativa privada no Ceará e no Nordeste.

 

O POVO é a criação de um jornalista, poeta e escritor, obra perpetuada pela sucessão em família, iniciada naqueles começos incertos com Demócrito Rocha e prosseguindo com Paulo Sarasate, jornalista e homem público, Creusa Rocha, Albaniza Rocha Ferreira Lopes e Demócrito Dumar, atual presidente e modernizador, sob cujo comando chegou ao Século XXI, renovado e cheio de vitalidade. Sem esquecer, naturalmente, os profissionais que passaram por sua redação ou nela se fizeram e construíram a sua reputação como jornalistas e intelectuais, e não foram poucos.

 

Paulo Elpídio Menezes Neto - Cientista Político



 

 

 

 

 

INFANTES MONÓLOGOS COLETIVOS

A SE MOLDAR EM PRODUTIVO CAOS

(Parte I)

 

 

SURPRESA ENTRE OS ACHADOS

(A Adail Sobral e aos do Ethos-Paidéia)

 

Ontem, em busca, pela Web, de textos meus a voar, dei com, já “no sebo” o livro “Para onde vai e universidade brasileira?", eu, assessor de planejamento de Paulo Elpídio de Menezes Neto. Já altas horas da noite, dei uma procurada em minhas estantes pelo livro. Quase por acaso, encontrei-o. Foi um seminário que aqui tramamos (surgido das conversas de Paulo Elpídio conosco).  Sempre olhos à frente, a buscar o “para onde”...  Aí, montamos uma “Comissão Organizadora: Antônio Gomes Pereira (hoje, depois de BID, Sesu-Mec-pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação da UFC e outras coisas, hoje a morar nos USA), Jacques Therrien (canadense professor da UFC,  Sofia Lerche Vieira e eu).  E, para que a coisa não cheirasse ao simples olhar para a frente da UFC, convidamos, como consultores, no País: Antônio Muniz Resende (Unicamp), Carlos Roberto Jamil Cury (UFMG), Raulino Tramontin (Ipea/CNRH), Valnir Cavalcante Chagas (UnB).  E, cá para nós, passamos muito de nossos dramas e sonhos, em papos, para esta comissão.

 

No País, depoentes, foram convidados vultos “de dentro” e “de fora” da academia. Isso, dos mais importantes setores da vida social (empresários, trabalhadores, igreja ...) o mundo a cercar nossas academia, e beneficiários possíveis para o depoimento e o debate (no livro, contei para mais de quarenta).  Tudo registrado em 301 páginas (...) Na edição do livro, à p. 281, sob o título “Duas leituras do Simpósio, há “Nota do Organizador” (Antonio Gomes Pereira: “Solicitou-se, de antemão, a alguns dos Consultores e a alguns membros da Comissão Organizadora, que tentassem registrar as grandes ênfases do Simpósio. Concluídos os trabalhos, Carlos Roberto Jamil Cury (UFMG) e Raulino Tramontin (CNRH) esquematizaram os principais desenvolvimentos e assinalaram as observações maiores. Apoiada nesse esboço e em sua própria participação, Sofia Lerche Vieira (UFC)  redigiu sua leitura do evento. Dispondo de todos esses elementos, Marcondes Rosa de Sousa (UFC) expressou também o que lhe foi dado ler no Simpósio. Ambas as leitura foram objeto de discussão dos quatro observadores, sendo ambos os trabalhos de convergência de todos quatro, embora, ao cabo, redigidas por dois apenas. Tal o valor de cada um dos trabalhos e tal sua intercomplementaridade que decidimos publicar os dois”

 

O Simpósio teve o patrocínio: Secretária de Ensino Superior (Sesu/Mec), Instituto Nacional de Estudos e pesquisas Educacionais (Inep/Mec), Coordenação do Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior (Capes/Mec), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura. Na capa e na folha de rosto, figuram, participantes : Adoaldo Moura da Silva, Antônio Paim, Antonio Gomes Pereira (organizador), Antonio Jesus Alencar Ferrei, Constância Nogara, Edivaldo Boaventura. Alcides Germano, José Carlos de Lima Vaz, José Mindlin. Luiz Antonio Cunha, Luiz Pinguelli, Marcondes Rosa de Sousa, Simon Schwartzman, Sofia Lerche Vieira, Walnir Chagas. O evento foi em 1982 e a obra, pelas “Edições UFC”, de 1983, antes mesmo da discussão sobre as “Perspectivas para a Região Nordestina”, num histórico encontro com Celso Furtado (1984), quando aí já era eu pró-reitor de extensão.  Hoje, quando nossas universidades (em sua maioria) recolheram-se aos medievais guetos do Cardeal Newman, acreditamos que encontros como esse -  25 anos depois – seriam oportunos não só rever, desde então aos dias de hoje, caminhadas do mundo acadêmico  e ... “deste País”, no reclamado abraço entre (desculpem-me o chavão) intelectuais, gestores e políticos...

 

Se houver interesse, no Grupo Ethos-Paidéia (e no aberto erga omnes do Blog  de tal Blog -  http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/ - divulgaremos pelo menos questões porventura persistentes desde épocas quando a angústia era mais expressiva, no que toca ao descompasso entre o “dentro” e o “social entorno” de nossas Instituições de Ensino Superior.  Minha visão não se contamina nem me leva, com isso, a infantis ou pessimistas ímpetos de saudade, mas a busca de caminhada integrada, entre o dentro e o fora do mundo acadêmico rumo a um amanhã, coisa que parece onde pouco avançamos...

 

No texto final, a meu cargo, destaco: “(...) A verdadeira contribuição do encontro não reside na resposta conclusa à pergunta “para onde vai a universidade brasileira”, mas nos rumos a serem seguidos no processo do repensar hoje a universidade brasileira.  Tal repensar deverá ser o de sua direção, num diálogo construtivo entre os “de dentro” e os “de fora”, numa visão pluralista. Tal repensar, finalmente, não se poderá dissociar do repensar do projeto social brasileiro, pois “a universidade brasileira vai para onde for a sociedade brasileira”  (p. 290).

 

 

QUE UNIVERSIDADE QUEREMOS

(De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa)

           

 

O Seminário realizado em 1983, que deu origem ao livro "Para Onde vai a Universidade Brasileira?" completou ou estará a completar, neste ano, 25 anos. O registro feito pelo professor Adail e secundado por você, que o completa com evocações pertinentes, recupera a memória de uma iniciativa que, decorridos um quarto de século, não perdeu o seu significado e o alcance de previsões e perspectivas ainda hoje atuais.

 

Tenho recebido -- e com insistência surpreendente -- comentários sobre o evento, já distante, nem por essa razão esquecido, e sugestões para que articulasse uma reedição do Seminário, com o propósito de projetar visões e perspectivas, a partir de uma avaliação substancial do projeto brasileiro de universidade, do que se fez e do que deixou de ser feito, neste largo período.

 

Valeria a pena iniciar o estudo dessa arqueologia de boas intenções acumuladas (e da incúria de muitos governos) tentando fixar a distância que se ampliou (se é que foi, um dia, mais curta) entre a concepção que a sociedade brasileira faz da universidade e aquela que os governos exibem, provisória e transeunte, em suas arremetidas isoladas, a destempo, sem fundamentação objetiva e organização estratégica. A questão se agrava na medida em que, não sendo a educação uma prioridade, na concepção do povo e das elites, não possuímos um modelo de universidade desenhado pelos arquitetos do Estado e da sua inepta burocracia, tampouco pela sociedade, motivada por outros interesses pontuais.

 

Talvez o tema devesse assumir outra dimensão: Que universidade queremos? Ou Universidade para quê? O Seminário e o livro a que aludimos, você com o entusiasmo de formulador impenitente, eu com a visão crítica, reforçada pela idade e pelo ceticismo bem pensante, fugiu à regra das iniciativas do gênero. Primeiramente, porque resultou de um projeto, elaborado por uma comissão de gente do ofício, de educadores e de pessoas ligadas a setores essenciais da vida social. Em segundo lugar, porque, na sua realização, não se limitou a congregar educadores, pedagogos e planejadores da alta burocracia, mas convocou trabalhadores diretamente envolvidos com tarefas correntes em setores produtivos da sociedade. Os sindicatos de trabalhadores, empresários, a Igreja, parlamentares, jornalistas, intelectuais, estudantes e a Academia, devidamente representada.Tudo, em uma ampla dimensão nacional, eis que o Seminário não se limitou ao Ceará. A lista de convidados, em anexo, fala com ênfase de como se pretendeu compor a análise que se faria, como ocorreu, sobre uma questão mal estudada, discutida de forma transversal por grupos de militantes mal-informados, nas corporações de interesses ou simplesmente ignorada pela chamada "intelligentzia" brasileira.

 

Na organização, que não sejam esquecidos Valnir Chagas, Antonio Gomes Pereira e Marcondes Rosa, encorajados por um Reitor que, coisa rara entre esses profissionais do governo universitário, jamais aceitou deixar-se engessar pelos ditamos da burocracia, é o que me conforta, em mais de trinta anos de atividades dedicadas à educação.

 

Poderíamos "vender" a idéia à nossa Universidade: a organização de um novo Seminário, passados 25 anos, para um mergulho nas questões que, ainda hoje, travam e frustram a ação das universidades no Brasil. De minha parte, estou à disposição. Poderíamos, enquanto aguardamos resposta ao desafio lançado, iniciar o debate (forma de aquecimento inicial) pela Internet, aqui neste site, a partir de um temário fixado e de um grupo de debatedores convidados.

 

PONTO PRIMEIRO,

REPENSAR OS VALORES

(De Marcondes Rosa e aos preocupados

Com o amanhã)

 

Hoje, estive, tratando de interesses meus tanto na UECe (apesar de em longa greve, mais de dois meses) e, depois, na UFC.  Nas duas, encontrei muitos professores, praticamente de todas as áreas.  Em ambas, aproveitei o tempo, embora curto, para uma conversa, sobretudo com os aposentados.  Nessa conversa, o papel da instituição universitária, como diriam os jovens, "tipo assim ... já fomos bons nisso".  Papel de se repensar no contexto do salutar diálogo entre o mundo acadêmico e seu entorno/destinação, quando tocamos os tempos não apenas dos seminários com dimensão nacional e a linha editorial da UFC (Editora e coleções múltiplas em todas as áreas).

 

 Depois, na Adaufc, encontrei-me com vários colegas.  Aí, o papo foi longo.  Não só sobre o repensar da instituição, nos moldes do "Para onde vai a universidade brasileira" (se não seria o tempo de recobrar essa linha) como o papel desse mundo acadêmico, hoje, "neste País", no diálogo necessário, com os gestores (estatais e sociais) e o mundo político. Ponto primeiro, proposta minha, repensar os valores.  Valores hoje, à luz das diversas dimensões sob a batuta das "inteligências múltiplas", a começar pela transcendente.  No grupo, boa aceitação.

 

Consegui o e-mail de Gomes -  Antonio Gomes Pereira, nos Estados Unidos. Gomes, na UFC, foi peça fundamental, nos anos 70/80, no pensar e nas proposições primeiras da reforma universitária e da incessante busca "para onde vai a universidade brasileira".  Sei que o amplo diálogo no meu chavão "cabeças, mãos e tato/coração" não será fácil. Desconfianças múltiplas entre tais campos. Mas é urgente depormos preconceitos e armas e começar o diálogo. Do campo político, até o Psol, recebemos, de alguma forma, aceitação para o ... "diálogo", desde que, em minha tradução, nosso acerto de contas não seja, mais uma vez, submissão à pauta dos dominantes, mas, sob perspectiva de uma democracia plural, as classes em luta ... a "dialogar".  Para mim, perfeito! Democracia é o juntar desse contraditório mosaico.  E diálogo não se faz em assentimentos solitários e concordâncias, mas em negociação dos cantos e contracantos a desenharem harmonias.  Ruídos, convertendo-se em dissonantes acordes... Mãos à obra, diz Paulo Elpídio.  Em frente, pois! Nosso Paulo Elpídio, hoje na Cândido Mendes (RJ) vive e viveu a universidade, de chefe de departamento e reitor, nos altos escalões do MEC, passando por secretário estadual de educação no Ceará.

 

DE REPENTE, O FUTURO

SEM SEQUER BATER-NOS À PORTA

(De Gomes Pereira a Marcondes Rosa)

 

Que surpresa, rapaz! Trouxe calor ao janeiro (inelutavelmente frio) de Washington. Inveja do seu papo e convívio com várias instâncias da nossa querida UFC, e sentir que o teleológico "Para Onde Vai?" se mantém imprescindível. Aplausos ao Paulo Elpídio. Parece que nossos "olhos de olhar," instrumentos de análise e tentativas de solução responderam às circunstâncias.  Um ministro de educação sul-americano, discutindo as prioridades de seu país, dizia em reunião privada: "Meus professores estão preparados para a escola de...1870." Às vezes, pelo pouco que tenho lido e ouvido das reformas universitárias mais recentes, saio com a impressão de que estão agarradas ao passado. A temática não faz mais do que arranhar a casca do assunto. O futuro agora chega de repente, sem sequer bater à porta. E os acadêmicos (as exceções são proféticas) parecem mais vulneráveis aos processos entrópicos do que outros personagens periféricos e dialógicos.  

 

Que o Brasil precisa re-significar sua universidade é consensual. Precisa reconhecer-lhe uma agenda e responsabilidade que demora a ser aberta, discutida e implementada. Veja o que está acontecendo com a Índia. Embora muito do seu avanço ainda não tenha alcançado as massas marginalizadas, o País surge no cenário tecnológico com uma presença e proposta impactantes. E isso se deve muito a seus Institutos de Tecnologia, (fiz um trabalho sobre eles no meu doutorado, 1978-82, em Los Angeles) moldados no Massachusetts Institute of Technology - MIT, aqui de Cambridge/Boston, mas com audácias e padrões próprios.  Os tigres asiáticos mudaram de zoológico. E de vocabulário, prioridades e cronologia.    Não vou mais longe. Uma iniciativa da natureza "Para Onde Vai?" poderia contribuir para retirar a universidade brasileira desse trecho de derrapagem (ideológica, no seu tanto) e imprimir-lhe, no asfalto, a relevância, a co-responsabilidade e a dinâmica reclamadas pelo Brasil de hoje. Continuemos o diálogo.

 

O TELEOLÓGICO ‘PARA ONDE VAI’

A MANTER-SE IMPRESCINDÍVEL

(De Marcondes Rosa a Gomes Pereira)

 

Alegria, a minha! Sobretudo por sua sensação de que "o teleológico 'para onde vai' ... "se mantém imprescindível".  Nele, à pg. 287, lá estou eu a resumir o encontro, sob o prisma da "Dimensão prospectiva ou teleológica". Ontem, na ADAUFC, muitos colegas orgulhosos de sua "presença" (virtual, no mínimo) entre nós. E, em mim, a esperança na rediscussão do mundo acadêmico a dialogar com seu entorno e parcerias, com o tempo a se tornar em inócuo e infantil "monólogo coletivo" das forças do intelecto, da gestão e do tato político.  Muitos, a mim, têm recorrido, acreditando eles no que os marketeiros, certa feita, denominaram em alguns de nós, vale dizer, com o poder de resina, a rejuntar as "hegemonias em cacos" de nossa sociedade. Hoje, aposentado, estou a me valer de um grupo de discussão, sintomaticamente denominado de ethos-paidéia, onde o ethos toma a conotação (hoje esposada no Brasil com o sabor de ampla responsabilidade social) e a paidéia grega alarga-se no abraço entre escola, família e sociedade, numa ampla e continuada ação "do nascer ao morrer". Gostaríamos, o Grupo, de contar com você.  E, de já, socializar, com o Ethos-Paidéia, nossos contactos.

 

O “A QUE SERVE?”, UM BOM COMEÇO...

(De Paulo Elpídio a Gomes Pereira)

 

Sob o calor das primeiras manifestações de interesse (ou de curiosidade) reproduzo trechos de mensagens enviadas ao desvelado pastor e nauta, Marcondes, a quem elegeremos o mediador das nossas dúvidas e ansiedades (anseios?) nestas preliminares de aquecimento. Nada do que afirmo ou insinuo é de sua responsabilidade. Reclamo a autoria impertinente das conjecturas e dos deslizes de ceticismo que alguém haverá de vislumbrar por entre linhas e reticências.

 

Levei pelo menos duas décadas para descobrir o endereço eletrônico de Antônio Gomes Pereira de quem fui amigo, já há tanto tempo, que quase disso nos esquecemos, ele e eu... Já perdera as esperanças, reconfortado, entretanto, por notícia recente que dava o cidadão Gomes Pereira de regresso a Brasília, sob a sombra protetora e benfazeja de Eda Machado. Não animo ilusões, porém guardei a atitude combativa de outros tempos, daqueles dias sombrios quando a revolução entronizou na nossa Universidade Federal do Ceará o anti-reitor ideal para os vôos dos jovens em primeira plumagem. Felizmente, passam os desastres como os seus autores e cúmplices. Creio que o "para onde" teleológico do Gomes é um bom começo. Ou o para "que serve", de índole mais utilitária, mais próxima aos nossos desalentos e frustrações. Que bom ouvir uma palavra sua...

 

            QUEM DIRIA! 25 ANOS MAIS TARDE, 

VIBRAR COM ESSA CONVOCAÇÃO!

(De Gomes Pereira para Paulo Elpídio)

 

(...) Nunca deixamos de ser amigos, tenho certeza. Nossa amizade, em caminhos que se bifurcaram mesmo ainda no Brasil, foi mais que perfeita. Se já éramos amigos desde os tempos em que trabalhamos sob o mesmo teto da Faculdade de Filosofia, iluminada pelo Valnir e comandada pela Pe. Luz, mais se fortaleceu, quando, retornado de meu doutorado, fui chamado por você para ir trabalhar junto a seu gabinete. Iniciamos com uma tentativa de Pesquisa Institucional, e avançamos com o Seminário "Para Onde Vai a Universidade Brasileira?" Tudo isso fundamentado num diálogo intelectual dos mais fecundos e promissores e num tratamento informal que desafiava o protocolo.

 

Um privilégio interagir (e aprender) com você, num nível de franqueza e numa dimensão de serviço que nunca esqueci. Conjuguemos o verbo direitinho, no presente e no futuro.   Estive em Brasilia, em agosto-setembro, colaborando no livro escrito coletivamente sobre o Edson Machado, figura que admiramos ambos. Chamaram-me por haver sido um dos interlocutores mais freqüentes do Edson durante sua gestão no DAU - Departamento de Assuntos Universitários. A tarefa serviu-me para entrar em contacto com tantos dos antigos colegas. A propósito, deliciei-me com seu trabalho, escrito com a capacidade analítica para esquadrinhar o social e o político de maneira cirúrgica e elegante. 

 

Alegra-me o entusiasmo despertado pela idéia de repensar, aberta e responsavelmente,  a universidade brasileira. Quem diria que, 25 anos mais tarde, iríamos outra vez vibrar com essa convocação. Parece uma contradição (já identificada, faz anos, por Jacques Barzun, no seu livro "A Casa do Intelecto") que a instituição que se assenta sobre a racionalidade se torne às vezes tão atarantada e ineficiente. Pensando bem, não é bem assim. A procura cíclica do Santo Graal mediante reformas é de fato a consciência de uma missão sempre desafiada pelo tempo e o desenvolvimento, e a que a universidade deve responder ou antecipar-se de maneira significativa. Daí que a temática de hoje não será a de 25 atrás, mas se orienta no mesmo sentido de, instituição medieval, fazer-se genuinamente do seu tempo para poder falar do seu tempo (educar, formar, pesquisar, liderar) e servir ao seu tempo.    

 

BALANÇO DAS CONQUISTAS

E FRUSTRAÇÕES

(De Paulo Paulo Elpídio a Gomes Pereira)

 

As amizades não fenecem, meu caro Gomes, tiram férias, interrompidas pelos desígnios dos viventes, pelas necessidades de sobrevivência, as ocupações, os interesses que se superpõem. Viver, afinal, consiste em permanente adaptação às contingências. Amizade é com a fé, guardamo-las pela vida inteira, a menos que razões ponderáveis nos levem a perdê-las. Não foi, não é o nosso caso, bem sei. ‘Não esqueço as idéias e projetos que nos associaram, quando da nossa iniciação na UFC, aprendizes de oficiais de obras (de feiticeiros?), e aquele que nos levaram à cumplicidade, mais tarde, quando o destino nos cooptara para as funções de direção na universidade. São bons registros. Tenho-os organizados, como munição para alguns registros nos quais trabalho, uma espécie de crônica mal-comportada daqueles tempos. 

 

A idéia de um "balanço" das conquistas e frustrações acumuladas no projeto da universidade brasileira (da UFC, como uma vertente que não poderá ser negligenciada) até hoje não sensibilizou os analistas e observadores mais dedicados. Comandam a discussão e qualquer intento de proceder a uma ampla avaliação dos dividendos e prejuízos acumulados, os cometimentos que se anunciam a cada novo governo. Como a pauta não foge das variações conhecidas e das questões dos meios,  as idéias são subtraídas do contraponto burocrático. Não se avalia o que se fez ou deixou de fazer, nem o que é proposto: e se o fizéssemos mergulharíamos fatalmente no contraditório de ações transeuntes, dessas a que os governantes, servidos dos planejadores do dia, se lançam em seus planos medíocres, que se reproduzem infinitamente.  Vale a pena fazer essa tentativa. O trampolim que se nos oferece, apesar da boa vontade e motivação que nos aproximou, agora, parece-me acanhado, a poucos metros do nível das águas correntes. Mas é o que temos. Eis aí uma missão para o super-Marcondes, homem que não enjeita desafios.

 

REFLEXÕES A ENVOLVER

OS GRUPOS VISÍVEIS E ORGANIZADOS

De Izaira Silvino ao Ethos-Paidéia)

 

Por mim, tudo maravilhoso. Estou entre os que, aposentados (embora não pertença à Associação -- telefonei, outro dia pra lá, e, apesar de dizer que estava em Brasília, fui atendida com uma tal morosidade e "não sei de que a senhora está falando", que desisti da luta!), estão à disposição. Gostaria de lembrar que, em reflexões que tais, o envolvimento com o todo dos que habitam e fazem a universidade é essencial - leia-se estudantes, Funcionários, extencionistas, pais etc. (e não só como "sociedade", mas como grupos organizados e visíveis, com voz e VOTO).

 

PADRÕES E LIMITES

DA REGRA DEMOCRÁTICA

De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa

 

(...) É reação preventiva. No meu longo ministério de cultor da Ciência Política que até professei a incautos alunos, aprendi que a democracia traz, com a sua mensagem reveladora de um governo de todos para todos, mecanismos que não podem ser esquecidos. A regra democrática impõe limites e padrões que frustram a índole dominadora das maiorias ou o vozerio de quem fala mais alto. Ademais, o princípio da representação vem a ser o antídoto às tentações totalitárias que põem em risco o frágil edificío da democracia. Pois entre nós, está em voga pôr sob suspeição a democracia -- e impugná-la como instrumento perverso a serviço das elites. É hábito entre brasileiros, quando não se compreende aquilo sobre o qual falamos ou não apreciamos, tentar criar um substitutivo; somos inovadores por ato de nascimento...

 

VISÃO DE DENTRO E DE FORA,

O DIÁLOGO MAIS DEMOCRÁTICO

(De Marcondes Rosa a Paulo Elpídio)

 

Concordo, em tudo gênero, numero e grau, meu “sempre reitor”, Paulo Elpídio.  E o modelo utilizado quando do Simpósio foi, para mim, o mais democrático, na seleção e no nível dos “de dentro” e “de fora” da universidade e, como o fizemos nos tempos de Celso Furtado, aí com a difusão “erga omnes” por via da Rádio Universitário.  Isso, sem vaias, mas, no último caso, com a ânsia, tão só, do refrão “concha... concha, queremos participar”.

 

(...) Sérgio Machado, depois do almoço, da ida ao interior, da descrição do quadro de “monólogo coletivo” e de vultos em nossa atual meio (governamental, empresarial e intelectual mesmo), amainou um pouco seu ardor pela visão dos programas governamentais: um, o do Barão de Mauá, onde ele transferiu seu posto – o do novo BM, ao Lula, em foto sufocado pelo peso do bem produzido livro; outro, o do ardor pelas “bolsas”.  Telefonou para mim, decepcionado: não havia, no interior do Ceará, em realidade, não mais “agricultura familiar” mas, nem mesmo, agricultura de forma alguma.  Por outro lado, sentia o mundo político, sem visão.  A maior parte, a viajar, trocando tudo por cargos, dinheiro e prestígio. Meios de comunicação, mesmo com o “caos produtivo” de O Povo, interesses e falta de “poder de resina” para untar o “caos produtivo”, torre-de-Babel, onde todos são intelectuais, o agora transvestido de “amanhã”.  Empresários, apostando na construção civil, sem previsível amanhã. Outros, sem qualquer base e visão, para pactuar resinas a juntas os ora iludidos pedaços costurados... Mas, vamos lá!  Estou tentando, via aposentados da Adauf e talvez alguns pró-reitores da UFC recobrar o prestígio que a UFC está perdendo até para a Unifor e, se não abrir os sonhos para as faculdades particulares...

 

Para onde, pois, devem ir, na busca do amanhecer, o de Celso Furtado, intelectuais, gestores e políticos, em meio à esquisofrenia, que ora batizamos de ... “produtivo caos”?  Recorro ao apocalipse e, de volta ao Gênesis, e concluo, aos valores. Revendo de Moisés a Zé Dirceu, com paradas em Rousseau, Maquiavel, Sun Tsu... Agora, sou fã do seu amigo: Edgar Morin, em seu “pensamento complexo” a soldar-se, em gestalt, pela ação de um criativo caos... Em frente. Mas sua cabeça, mãos em abraços e prática em gestão são bem mais amplas e acreditadas que as a mim possíveis. (...) Gostaria de, em conversa sua, com Hélio Barros, Tarquínio, Gomes Pereira, e muitos outros (...) que a gente propusesse alguma coisa.  

 

UNIVERSIDADE:

ENTE CARREGADO DE PARADOXOS.

(De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa)

 

(,,,) Não sei o que se poderia fazer pela UFC. É certo que ela tem sido vítima, como as demais federais, do círculo vicioso gerado pela inação dos governos e pelo conformismo corporativista dos seus membros. As universidades habituaram-se a radicar a discussão interna na questão dos meios. E esqueceram-se de trazer para o primeiro plano as questões de fundo, aquelas que estão associadas ao esforço coletivo dos que "fazem" a universidade. A sua missão, os seus objetivos. A necessidade de revisão ampla dos seus programas e do que poderíamos chamar (ainda que almas virtuosas coragem de pudor) dos produtos gerados por ela.

 

Se temos modernamente a universidade como uma central de abastecimento de conhecimento que oferece a oportunidade de formação para as profissões e elabora conhecimento novo a partir das suas pesquisas e do que se produz em outros centros, deveremos voltar nossas conjecturas para outras dimensões que não sejam apenas aquelas que tratam de salários e verbas. Não é possível atrelar o pensamento criador e o labor universitário à lógica dos burocratas do governo. Que sejam reivindicados benefícios, verbas, orçamentos e programas, nenhuma instituição sobrevive sem recursos. Mas perecerá, também, à míngua de imaginação e de voluntariado para a construção de inovações e do conhecimento. Não é possível cruzar os braços à espera que o MEC abra as suas burras. Não é com greves que se pressiona o governo, seja ele qual for, qual seja a sua índole, socialista ou neoliberal. A pressão é exercida com competência acadêmica, com obra feita, com trabalho, etc. e tal. 

 

Desejarão os atuais dirigentes da UFC, os professores em seus postos inabordáveis, a colaboração dos expulsos pela idade ou pela aposentadoria?  Não é de agora, a experiência que trazemos do passado revela a universidade como um ente carregado de paradoxos. A sua bateria crítica volta-se, sempre, contra o mundo externo, a sociedade, os partidos, o governo. É um organismo desprovido de capacidade de auto-crítica.  Só há luta interna, quando se avizinha a eleição de reitor ou em disputa por benefícios anunciados.

Não estoui esquecendo as exceções que são elas, afinal, que justificam a regra.

 

Dito isso, vamos lá. Por onde começamos? Por onde se agarra o touro? Pelos chifres ou dando-lhes feno para aplacar a fome? Hein? As reflexões do Sérgio sobre os políticos e as suas des/obras, o desencanto com a voracidade dos clientes do governo, fizeram-me lembrar uma velha história. Era governador de Minas Gerais Benedito Valadares, um desses políticos pouco afeitos ao trabalho, mas muito devotado à arte dos favores. Certo dia, após ouvir as queixas de vários secretários de estado, as suas lamúrias e críticas ao governo estadual, desolado com tanta inépcia e incompetência, balançou a cabeça, rendido às evidências e lastimou-se:  "-- Este governo é uma m...!"  O dele que outra não haveria de ser...Vamos à luta!

 

(Continua)

 

 

 

 

 

Anarquismo

 

INFANTES MONÓLOGOS COLETIVOS

A SE MOLDAR EM PRODUTIVO CAOS

(Parte II)

 

 

QUAL O PRIMEIRO PASSO ?

(De Marcondes Rosa a Paulo Elpídio, Gomes Pereira

E ao Grupo Ethos-Paidéia)

 

            Estou, parece, com a corda toda.  Hoje, telefonei para o Jornal “O Povo”, ao enviar meu artigo e, conversando um pouco sobre a história e o tom hoje do periódico, pedi a Emiliane, do quadro responsável pela Página “Opinião”, que ela fizesse meu artigo e o papo chegaren até o Presidente Demócrito Dummar. Papo, sobretudo, aos jornalistas mais jovens, sobre a histórica vocação de O Povo. Ela me disse que o pessoal havia gostado do meu artigo sobre a caminhada de O Povo, de Demócrito (o poeta) ao outro Demócrito, o preocupado com o arrancar do chão do quotidiano os sonhos a pautar o jornal, na construção do futuro.

 

(...) Agora telefonei para a ADAUFC (aposentados e pensionistas) e estou tentando contacto com a APESC (a englobar o universo docente de todo o Estado, a mais velha das associações docentes, onde colhi vibrações com a idéia a ter a reconstrução e o diálogo como horizonte.) À ADAUFC, pedi e-mails do pessoal.  Gostei da iniciativa da criação de um blog bastante ágil e moderno.  Foi lá que consegui o endereço do Gomes.  Pelo menos lá, vejo a turma preocupada com o algo fazer para não cair em depressão e muito menos na morte, como vários, e até ao suicídio como o último a se queimar ateando álcool no corpo. Remédio para isso é a construção do futuro, recobrando sonhos deixados no passado. Estou, nas horas construídas "vagas", aproveitando a(s) lista(s) de discussão e jogando fermento e brasa, o quanto possível.  Não pode, claro, isso em tom do esbulho. Até a nostálgica "Ex_sic" - a significar o "extinto Seminário da Imaculada, de Campinas (SP), onde me reencontro com ex-colegas do porte de Antonio Joaquim Severino e Celso Ming, meus ex-colegas de turma.

 

(...) Ontem, à noite, telefonei para Sérgio, narrando-lhe os papos nossos (sobretudo, os seus, de Gomes e meus). Disse-lhe haver trazido para mim, as críticas que ele próprio também fizera aos mundos político, empresarial e social no Estado. E lhe falei da reação a ponto de depor e repor armas e  sentimentos. (...) Conversei com Cláudio Ferreira Lima, que, ao lado de Diatahy (para mim, excelente crítico), Fausto Nilo e outros importantes, no Conselho Editorial do Jornal "O Povo".  Cláudio insiste em meios outros de comunicação que não só os jornais, a atingir uns triviais 10 por cento de nossa população.  Ele, cansado de viagem, eu em meio ao ruído no Iguatemi, ficamos de, em pequeno grupo, pensarmos as estratégias. Ainda ontem, a propósito, Ivonete Maia me telefonou. Amanhã, eleições na ACI, ela candidata.  Preocupada, com as relações entre a ACI, despovoada no Centro, ea revitalização do Centro. Peguei-lhe o gancho e olhos, na mesma lógica - extrair do passado os sonhos além - coisa de aquariano, marcado pelo janeiro, também eu ... - falei-lhe do poder de costura da ACI, a reunir universo mais amplo de nossa comunicação.  Ela topou! Mas (ou sobretudo?) depois de sua experiência última de "ombudsman" da UFC: "Mas, depois dessa, Marcondes, estou horrorizada como a UFC decresceu em interesse e nível! Seguramente, não é mais aquela. Como podemos nossa geração recompô-la?" Falei-lhe um pouco dos sonhos, planos, do futuro a nos invadir a casa, sem tempo de bater à porta: "Terça, estou lá. Faça sua campanha e depois disso, um punhado de gente pode se reunir e a gente terá muito chão pela frente!" Ela vibrou.

 

(...) E nós, qual o passo primeiro?  Para mim, vai ter que ser por etapas. Quem envolvido  - percebi eu - nos três mundos, expressa primeiro suas queixas e arranhões, para, depois da catarse, depor suas armas. Quem só cidadão leva tempo também para deitar fora suas queixas.  Assim, na dialética entre crença/descrença a apontar para o "não tem outro caminho", a gente vai tocando o barco.  Nisso, concluí, fogueira se alimentando do exemplo, como o nosso, de quem já mostrou braços e visão no passado e presente (como o caso de muitos que estão, incansáveis, no batente)

 

 

 SOPRANDO A CHAMA

(De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa)

 

O foguinho acabará pegando. De início, faz-se com gravetos e sopros, depois entram as toras maiores. Gostei do artigo. Seria conveniente que analisássemos a estratégia da iniciativa. A partir da idéia, fixemos o foco central, identifiquemos outros cidadãos cúmplices, convençamo-los a aderir a uma boa causa, e cuidemos de definir como colocaremos o andor na procissão. Todo cuidado é pouco que o santo tem poucos fiéis. Falar de universidade e sobre universidade incomoda muita gente: aos que não têm afinidades com ela e aos que, nela labutando, não o fazem com o compromisso dos que com ela se identificam.

 

 

POR ONDE PEGAR O TOURO?

(De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa 

 

Se pela movimentação e o otimismo redobrado podemos medir a vitalidade das pessoas, em energia física e mental, o amigo está remoçando, a instilar força e decisão em pensamentos e gestos audazes. Estou animado com tanto entusiasmo de sua parte. E a cumplicidade generosa do Gomes.

 

Manifesto algumas dúvidas, quiçá hesitações não contornadas. Falamos, a rigor, de quê? Da universidade, em sua versão brasileira, transitória e improvisada, neste curto itinerário de pouco mais de cinqüenta anos? Pretendemos "repensá-la", avaliar o que foi e o que poderia ter sido? Cogitaríamos da tentação de "descontrair" o que existe (não sei se poderíamos nomear de "modelo"), procedendo a uma espécie de avaliação política dos seus desígnios e do papel que, afinal, bem ou mal, vem representando entre os brasileiros? Seria uma "reedição" dos termos e perspectivas do Seminário sobre o qual modelaríamos a discussão e os horizontes dessa vasta catarse? Ou tomamos a UFC e as nossas universidades estaduais, como foco para uma análise detida das suas dificuldades, limitações e mal-entendidos? Partiríamos para uma ação de índole salvacionista, do gênero "médicos sem-fronteiras", ou "greenpeace"? Denunciando responsabilidades, faltas e a inépcia dos governos e a indiferença da sociedade? Na primeira hipótese, abriríamos uma discussão pesada para a qual deveríamos recorrer a competências reconhecidas (e críticas) no País (Claudio Moura Castro, Arthur Giannotti, Edson Nunes, Eunice Durham, os irmãos Schwartzmann, Vanilda Paiva, Roberto Damatta, Hélgio Trindade, o senador Buarque, Wanderlei Guilherme dos Santos, Luiz Antônio Cunha, Nina Beatriz Ranieri, Maria de Lurdes Fávero,entre outros). Entre cearenses, Sofia Lerche Vieira,Eduardo Diatahy, Roberto Cláudio Bezerra (o pai), Manfredo, Marcondes (et pour cause), Walton, Claudio Ferreira Lima, André Haguette, Roberto Schmith, Magalhães (está no BID?), Adolfo Marinho, Henry Campos, entre outros igualmente bem votados. O envolvimento da Secretaria de Ciência e Tecnologia e do seu titular, ex-reitor da UFC, René Barreira, seria recomendável, numa perspectiva estratégica de comprometimento do governo do estado com a questão universitária amplo espectro (lato sensu), foram da miudeza das reivindicações corporativas, das greves e das negaças dos governos, que vêm de longe, já o Tasso não incluía as universidades entre as questões relevantes do seu governo, eram consideradas vetores de despesa incontrolável.

 

Na segunda hipótese, às idéias que modelam e dão contorno à universidade serão envolvidas (e provavelmente esquecidas) com o trivial dos problemas dos "meios", quanto custam, de onde tirar o dinheiro, o argumento  gasto, de tão repetido, de que não é atribuição do poder estadual a criação e manutenção de universidades... As conveniências, as visões particulares de questões abrangentes, ganharão o proscênio, os atores das pequenas misérias e fugazes grandezas serão os "crooners" da festa. O empurra-para-lá das responsabilidades não assumidas: quem é, afinal, o responsável pelas situações apontadas? Torna-se evidente que essa saída tem que ser evitada, a raiz da questão não está nas pessoas, mas no que elas pensam ou como as ações foram implementadas.

 

Ambas as vertentes são positivas e, abordadas com coragem e isenção, produzirão resultados expressivos. Em uma estratégia mais envolvente (na qual você está aparentemente envolvido), valeria comprometer com a iniciativa o governo do estado (através da SECITECe de outros órgãos), a prefeitura de Fortaleza, a Assembléia Legislativa, a Câmara Municipal, CEE, alguns sindicatos da área educacional, os jornais e estações de TVs locais (ou um dentre eles), o BNB, O SIC a Federação das Indústrias, a representação federal no Senado e na Câmara, como promotores/patrocinadores, com direito a voz, palpite e subvenção. Para começar, uma Comissão organizadora, com representantes das entidades eleitas como patrocinadoras. Ao lado, uma comissão de especialistas, cearenses e de fora. Seria esse o caminho?

 

TODOS OS CAMINHOS

NOS LEVAM AO TOURO

(De Marcondes Rosa a Paulo Elpídio)

 

Com certeza, o apelo, aos poucos, começa a nos mobilizar. E, na questão levantada pelo Prof. Paulo Elpídio, por onde pegar o touro, penso que, cercando-o de todos os lados, o mais aconselhável é seguir a trilha do "todos os caminhos nos levam a Roma". Horizontes mais estratégicos e mais amplos, para mim, são fundamentais. É, com certeza, à luz deles que pautaremos nossa caminhada. Começar por eles, penso que é apelar para que o amanhã e a "água grande" norteiem e sepultem as miudezas a nos dividir. A dialética entre as duas águas - a grande e as cacimbas nos leitos secos cercadas pelos menores - terão a grande que sepultar as pequenas.

 

Os nomes, sem dúvida, são ótimos.  Claro que, lembrança aqui lembrança ali, por outros setores, ampliarão esse leque de reflexão.  E, com relação aos atores hoje em nossos governos (nos três níveis da federação), até para que se dêem as mãos, a lembrança é fundamental, contribuindo com o clima de desarmamento de eventuais atritos entre as facções. Sim, penso que os caminhos são esses.  Amanhã,  Ivonete disputa a ACI. E eu, nessas coisas, acho a comunicação coisa fundamental na cimentação de nossa sociedade.  Por certo que tais temáticas e eventos não se tornarão meros sopros dos ventos.  Meios de comunicação são necessários agentes sociais de comunicação.  Assim, sempre os tive -  nos que fundamos, que dirigimos, para os que contribuímos com vistas a uma  ação educacional e, assim, novos perfil e papel. Eles cimentam, untando-os, os setores produtivos de nossa sociedade. São, pois, fundamentais. Abramos, pois, o oportuno debate.

 

PENSAMENTOS A FORTALECER NOSSOS DESTINOS

(Adesão do economista Osmundo Rebouças confesso a Marcondes Rosa)

 

Seu artigo (excelente) de hoje me induziu a fortalecer meus pensamentos sobre os nossos destinos, especialmente do Ceará. Há alguns dias, conversando com o Sérgio Machado (no mesmo dia em que ele disse que tinha almoçado com você), falamos sobre a necessidade de retomarmos nossas reuniões para discutirmos o futuro. Você toparia conversarmos sobre uma agenda nesse sentido? O Sérgio me disse que planeja estar aqui em Fortaleza todo mês, quando poderíamos reunir um pequeno grupo, contando com ele. Quem mais?

 

 

ADESÃO À IDÉIA DE CIENTISTA POLÍCO

(De Josenio Parente a Marcondes Rosa)

Caro Marcondes Rosa, Gostei dessa sua contribuição para a história e, claro, para a construção do futuro. Sou um admirador de sua perspicácia. Invejo sua capacidade de análise e vejo que uma peça como essa que você elabora terá, por muito tempo, uma grande contribuição para compreendermos a crise dos partidos políticos. Estou esperançoso de que estamos no caminho para a construção de um novo pacto liberal e republicano. Não podemos ficar na ambigüidade entre o tradicional e o moderno. E essa análise veio em boa hora.      

EM SINTONIA COM OS QUE CRÊEM EM MUDANÇA

(De Gomes Pereira a Marcondes Rosa)

 

Não risque meu nome do seu caderno. Ao contrário, inscreva-me entre os que são o ethos-paideia. Estou certo de que estarei em casa, sintonizado com aqueles que crêem  na possibilidade de mudança, na viabilidade das instituições, na necessidade dos valores

***

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AMPLIAÇÃO DAS LICENÇAS

MATERNIDADE E PATERNIDADE.

 

 

 

 

Assunta Maria Fiel Cabral[1]

 

 

A maternidade e a paternidade são condições muito especiais na vida de mulheres e homens, pois significa um momento de assumir compromissos e responsabilidades com o desenvolvimento integral de um novo ser humano, tendo como base a sua proteção e garantia de direitos.

 

A proteção de uma criança após seu nascimento se alicerça na garantia de saúde e na convivência familiar, onde a amamentação é indubitavelmente o suporte desta conjunção, uma vez que estimula e contribui para um saudável crescimento infantil.

 

Os benefícios do aleitamento materno são indiscutíveis e comprovados cientificamente. Além da função energética e nutricional, a amamentação propicia também aconchego e afetividade, sentimentos essenciais na construção do relacionamento materno-filial. Por isso, a Organização Mundial da Saúde – OMS recomenda o aleitamento materno exclusivo durante os seis primeiros meses de vida da criança.

 

 Nesta perspectiva, a campanha idealizada pela Sociedade Brasileira de Pediatria – “LICENÇA MATERNIDADE: SEIS MESES É MELHOR!” – está ganhando força.

 

Em todas as partes do país, Estados e Municípios estão aderindo a esta campanha, criando leis que efetivam este direito, incluindo também o aumento da licença paternidade, considerando a importância da participação e apoio do pai com a criança e a mãe durante a lactação.

 

Neste contexto de avanços das políticas públicas e garantia de direitos, urge que gestores e gestoras se sensibilizem e se comprometam com esta causa para assim beneficiar um enorme contingente de trabalhadores e trabalhadoras e seus filhos e filhas.

 

Num cenário de avanços das legislações sociais para garantia de direitos, a ampliação das licenças maternidade e paternidade é mais um importante passo na trajetória de luta, defesa e efetivação dos direitos humanos no Brasil.

 

[1]Assistente Social; Professora; Mestra em Educação; Assessora do Gabinete da Governadora do Estado do Pará.

 

 

 



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DESIGUALDADE

Fernanda Quinderé

 

Há Natal

Nos becos que não conheço

Nas vielas que não sei

Na sombra dos nossos mortos

Na lembrança dos que foram

Na pressa dos que se foram

Sem nem mesmo saber por quê

 

É Natal

Na avenida iluminada

Na praça com anjos de luz

Nas ruas congestionadas

Na conta-cartão liberada

Na volúpia de comprar mais

 

Há Natal

Na criação dos atores

Sonhadoras criaturas

Andejos a sacralizar

Manjedouras e lapinhas

Como senhores do tempo

Em tempo de profanizar

 

Há Natal

Na poeira azul dos viajantes

Na lua gris da madrugada

Rebordando estrelas encantadas

Abismo dos nossos ancestrais

 

 

É Natal

No adro da igreja vazia

No homem que diz amém

No vermelho que decora

A hora em que verde foi, outrora

A cor da celebração

 

 

É Natal

No branco-azul do branco

Nos trenós das chaminés

Na sacristia, no sacristão

Entre amigos ocultos ou não

 

 

Há Natal

No vinho repartido em festa

No banquete da família enlutada

Contemplada com o amor dos descendentes

Presentes nos lares que se desfazem

Pelos pais que já não são

 

 

Há Natal

Na cognação das flores

Na virgem que já não é

Na solidão dos pecadores

No jejum da irmandade

No ofertório da posteridade

No ritual espontâneo da oblação

Na fé, no sal, no pão

 

 

Há Natal

Na casa de abobe, na palafita

Na capela fechada, na beata contrita

Na criança que chora

No homem que espera

Na mãe com um filho no ventre

No desvão da poesia

Na casa sem mesa posta

Na mesa posta sem pão

 

 

Há Natal

Na vida, na verdade

Na presença oculta de Deus

Presença divina do espírito

Do filho que se fez homem

Abençoando desigualdades

 

Fortaleza, Natal de 2007

 

(Ora publicado,  mesmo após o Natal, em razão de sua força estética e do denunciante flagrar das desigualdades perenes entre os homens)

 

 

 

 

DESENVOLVIMENTO CAPENGA

O Estado

20 nov. 2007

 

O desenvolvimento do Ceará tem se dado. com ênfase no segmento econômico em seu sentido mais estrito, como demonstra o patamar atingido na melhoria da infra-estrutura (estradas, energia, telefonia fixa e celular, portos e aeroportos), a implantação de !ndústrias e alternativas de agro-negócio. A esse desenvolvimento falta, porém, o adequado equilíbrio do desenvolvimento social (renda, educação e saúde) e as necessárias mudanças culturais. Nossa mentalidade continua voltada aos modos de fazer e vícios do passado.

Em recente viagem pela BR 222, no trecho Fortaleza-Tianguá, seguindo depois pela rodovia estadual 187, no sentido Tianguá-Viçosa do Ceará, constatamos como nossa vegetação está cada vez mais rala, com sinais dramáticos de avanço da desertificação. 0s rios e os riachos, em sua quase totalidade, estão secos, apresentando assoreamento em suas margens e elevações próximas a morros, onde a erosão produz sua obra de contínua e progressiva devastação.

O mais gritante é a queima das margens das estradas, provocadas por pontas de cigarro dos que passam de carro ou a pé e, sobretudo, a presença de verdadeiros “tapetes” de sacos plásticos, lançados pela população, que se estendem indefinidamente, formando um cenário deprimente. Nos banheiros das paradas de restaurantes e postos de combustíveis, imperam a sujeira e o desleixo, dando uma mostra visual do nível de nossa educação. A qualidade e o grau de conservação adequada dos alimentos representam um verdadeiro desafio à segurança alimentar e ao desejo do turista de algum dia vir a repetir o percurso.

Na cidade de Viçosa, como em tantas outras, vigora a ditadura das muralhas de som dos veículos, cujos proprietários parecem disputar um prêmio secreto de quem produz mais barulho e tem o pior repertório musical, em total desrespeito pela presença alheia.

Neste detalhe, como em tantos outros que revelam a qualidade de vida coletiva, espelha-se a grande falta que faz, em nosso desenvolvimento, uma educação que demonstre a importância a ser dada ao meio-ambiente, aos cuidados  com a saúde, e ao respeito devido aos direitos dos outros, capazes de nos retirar da inércia de continuar a trilhar os caminhos irracionais do desenvolvimento capenga.


Antônio de Albuquerque Sousa Filho - Professor Aposentado da UFC

 

 

 

 

 

 

Apresentação

 

Não é pequena a distância que separa a concepção da Universidade como “claustro acadêmico”, formalizada pelo Cardeal Newman, das modernas perspectivas funcionalistas, tão em voga em nosso tempo, para as quais a honorável Instituição deveria despojar-se do peso do seu passado para defrontar-se com os desafios das suas novas missões.

 

Até mesmo a idéia de um “corpo de pesquisadores”, como representação legítima das suas funções nucleares, esposada por Abraham Flexner, parece não corresponder mais às expectativas alimentadas por aqueles que buscam na Universidade atitudes afirmativas que justifiquem a sua existência. Não menos consistente apresenta-se aos olhos críticos dos representantes dos setores produtivos da economia, a Universidade “indústria do conhecimento”, como a quis ver reconhecida Clark Kerr.

 

Estas concepções, tomadas dentre tantas outras, nas quais se projetam velhas e novas perspectivas do papel da Universidade, sugerem uma indisfarçável perplexidade em face das profundas transformações sociais ocorridas ao longo das quatro últimas décadas, quanto à missão e aos compromissos fundamentais do Ensino Superior.

 

Julgamentos severos, extraídos de sentimentos ambíguos quanto à idéia de modernidade, de eficiência e de mudança, condenam impiedosamente o que parece velho e antiquado, sugerindo novas formas, modelos inovadores, suscetíveis de transformar o que nos chegou do passado. Mudar significa, em um certo sentido, despojar-se do que não é novo, arquivar velhos trastes imprestáveis, que a moda tornou caducos. Raramente, e assim mesmo de modo furtivo e dissimulado, como quem se aproveita de um momento de distração da vigilância atenta das patrulhas inovadoras, questiona-se o formalismo epidérmico das mudanças e dos anseios de modernidade.

 

Onde faltou à Universidade o ar renovador da liberdade, sempre que modelos rígidos de organização lhe foram impostos ou se pretendeu dela fazer uma unidade “produtiva”, frustrou-se a sua criatividade, asfixiou-se a sua autonomia, descaracterizando-a como Universidade, comprometendo e desnaturando os princípios básicos que lhe dão força e com os quais ela elabora a sua própria identidade.

 

Assim sucedeu sempre que ela se moldou às ideologias de Estado, dominada por uma falsa concepção de “utilidade”, posta a serviço de objetivos imediatos, como a Universidade napoleônica, ou como as Universidades do Povo, dos países de economia dirigida. O que dizer das Universidades que sobreviveram à ascensão insopitável dos movimentos nazi-fascistas da Europa?

 

O processo instaurado contra a Universidade revela, na sua gênese e na sua própria essência, uma visão limitada da sua inesgotável capacidade de renovação. Uma falsa intuição do que formar na Universidade tem induzido algumas cabeças de boa fé a privilegiar o acessório em detrimento do essencial, em dar ênfase aos aspectos formais, exteriores, como se, nesse caso, o continente se sobrepusesse ao conteúdo, as formas às funções e as estruturas representassem o sinal evidente de um compromisso com o passado ou de uma abertura para o futuro.

 

As reformas por que tem passado no Brasil o sistema educacional, em particular o ensino superior, encontraram a sua justificativa em numerosos instrumentos legais, nos quais se consagrou o desígnio de alterar os elementos da estrutura formal, atribuindo-se à organicidade do sistema e às suas funções vitais importância subalterna. Mesmo quando algumas idéias substantivas de reforma despontaram, arrimadas em propósitos inovadores, terminaram por prevalecer os impulsos irrefreáveis de um formalismo legisferante, do qual não conseguimos até hoje desvencilhar-nos.

 

A Universidade brasileira, mal saída da sua adolescência, sem o peso da tradição de que se revestem as instituições que lhe serviram de modelo e inspiração, oferece muito pouco a reformar. Valnir Chagas assinalou com propriedade esta circunstância: “O resultado aí está: o que se veio chamar de Universidade brasileira não chegou a ser Universidade na acepção técnica da palavra, por inexistir estrutural e funcionalmente como tal; nem brasileira como pode e deve ser, por não estar em equação com as características atuais da realidade nacional”.

 

Como estratégia básica da reforma da Universidade brasileira, impõe-se que se distingam os problemas para os quais são reclamadas soluções urgentes daqueles que demandam análise cuidadosa e responsável, por sua natureza peculiar e pelos componentes estruturais que fixam o quadro geral de um processo de crise acumulado. Os primeiros deverão encontrar desfecho satisfatório através de medidas rápidas e eficazes, com o que se haveria de conferir um inegável grau de confiabilidade aos propósitos do Governo na esfera da Educação. Quanto aos segundos, não há como omitir a sua complexidade, pois que exigem, como parece evidente e indiscutível, reflexão em profundidade do sistema educacional brasileiro.

 

Em relação ao ensino superior e à Universidade em particular, urge que se proceda, sem delongas e sem retórica excessiva, a urna reflexão detida do perfil da instituição universitária, do verdadeiro sentido que se deverá emprestar ao seu papel e do seu lugar nas estratégias globais de desenvolvimento econômico, social e político do País.

 

A necessidade de promover uma avaliação crítica da reforma universitária, reconhecida por amplos setores da sociedade brasileira, materializou-se, recentemente, na constituição, pela Ministra Esther de Figueiredo Ferraz, de um grupo de trabalho, ao qual estará afeta a tarefa de analisar e repensar os caminhos da Universidade brasileira.

 

A expectativa gerada por pronunciamentos governamentais que enfatizaram a necessidade imperiosa de mobilização de toda a sociedade brasileira e dos diversos segmentos da comunidade universitária com vistas à definição de um novo perfil para a Instituição, impõe que o debate se alargue e ganhe a legitimação de uma ampla discussão nacional. Os problemas conjunturais e estruturais da Universidade deverão ser, assim, repensados, como medida preliminar para que a Instituição possa encontrar as trilhas que a levem a uma reconciliação com a realidade brasileira, liberada dos modelos que a têm asfixiado e frustrado a sua capacidade criativa.

 

Os textos que compõem este volume constituem, originalmente, a contribuição de seus autores para a discussão do tema “Para onde vai a Universidade brasileira?”, objeto de um Simpósio promovido pela Universidade Federal do Ceará, em Outubro de 1982, com o patrocínio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), da Secretaria de Educação Superior (SESU) e da Coordenação do Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES), do Ministério da Educação e Cultura; e da Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC).

 

A Universidade Federal do Ceará, com a realização desse Simpósio, pretendeu reunir material significativo, que agora vem á publicidade, para uma ampla reflexão em torno de uma questão cuja importância não pode ser negligenciada por mais tempo.

 

PAULO ELPÍDIO DE MENEZES NETO
Reitor

 

(Apresentação do livro Para onde vai a universidade brasileira. Fortaleza, Edições UFC, 1983)

 





 





 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

Introdução

 

 

Os trabalhos que constituíram, de origem, o Simpósio “Para Onde Vai a Universidade Brasileira?” realizado em Fortaleza, nos dias 28 e 29 de outubro de 1982, pela Universidade Federal do Ceará, tornam-se livro agora. Simpósio e livro cabem no mesmo contexto de justificação.

 

Congregou o evento cerca de cinqüenta convidados (cf. Anexo II) em torno de exposições e debates impregnados de atualidade, pertinência, sentido de crítica e antecipação. Tratou-se, com efeito, de identificar as grandes linhas de força da instituição universitária deste momento brasileiro, e de projetá-las no tempo e no espaço. Apesar de não terem sido dos mais fecundos os exercícios de futurologia nas ciências sociais, nada nos exime de marcar precedência sobre o fato consumado. Incumbe-nos, certamente, delinear o perfil institucional da universidade numa consulta que vai e vem entre a circunstância (o meta-sistema, o “de fora”, o centrífugo) e a in-stãncia (a organização, o “de dentro”, o centrípeto). Não é a universidade de ontem que buscamos, todavia.

 

Quando mais impositivos eram os dogmas de toda ordem, já se sabia o amanhã. Hoje, porém, a nossa busca é permeada de titubeios, de imponderáveis e de variáveis intervenientes. Nossas certezas são quase sempre estatísticas, e somos sempre precavidos nas generalizações. Suspeitamos, porém, que as realidades universitária e social aí não se exaurem. Passamos então a pagar tributo tanto ao racionalismo apolíneo e ordenador quanto ao impulso dionisíaco e inovador. Ironicamente, a “house of intellect” (Barsun) nem sempre é a mais arrumada. Eis por que, por muitos caminhos, pelas diferentes percepções, pelos diversos critérios, é preciso distinguir para onde vai a universidade brasileira dos anos 80.

 

À Universidade Federal do Ceará não falta experiência em discutir a universidade brasileira. Através de seminários e encontros locais e regionais, através de linha editorial especifica, através, sobretudo, das propostas concretas dos seus líderes e professores, esta Universidade tem caminhado nessa direção.

 

De início reuniu uma Comissão Organizadora local e convidou consultores de fora (cf. Anexo 1). Aí já se fixaram os dois grandes temas do simpósio e uma relação de possíveis con7erencistas, Passou-se então a consolidar a lista dos con7erencistas do 1.0 dia (tema), e dos expositores do 2.° dia (terna). Dentro das indagações que caracterizam cada tema, todos eles dispuseram de ampla flexibilidade no enfoque. A preocupação constante era de reunir pessoas que, com diferente background acadêmico ou profissional, pudessem enriquecer as discussões e discernir os novos caminhos. Foi intenção do simpósio valorizar ao máximo a contribuição dos conferencistas, debatedores e expositores convidados. Detalhes do programa foram meticulosamente estudados pela Comissão Organizadora, inclusive horários e condução dos debates.

 

Para se ter uma idéia do desenvolvimento do simpósio, leia-se o Anexo 1. Nesta publicação, todavia, a seqüência imposta ao texto não se submete à ordem de apresentação oral. Lá ocorreu, nos dois dias, uma ordem psicológica: primeiro, todas as conferências a criarem um vasto pano de fundo; depois os debates correspondentes; por fim, as discussões mais abran gentes envolvendo todo o espectro. Aqui no livro, a ordem torna-se lógica: às conferências e exposições se seguem imediatamente os respectivos debates.

 

As conferências e exposições se provavam extremamente fecundas. Valnir Chagas fixa, de saída o status quaestionis, observando sobretudo a “pendularidade quase regular” entre aberturas e fechamentos da Universidade brasileira. Aponta Simon Schwartzman como essa universidade se pensa mitif icadamente, na ilusão do modelo único, O Padre José Carlos de Lima Vaz, 5. J. analisa o atual período de transição e dia gnostica modelos e funções. A questão cor porativa foi enfatizada por Luiz Antônio Cunha, que salienta seu papel reformulador. Adroaldo Moura da Silva defende que não compete à escola profissionalizar, e sim equipar para a compreensão e domínio do meio físico e social. Para José Mindlin, igualmente, o papel da universidade não é o de formar profissionais competentes, e Jesus Alencar acentua que a Universidade não existe para o trabalhador ou é uma realidade tão distante “como se fosse cousa do outro mundo”. Frei Constáncio Nogara, O. F . M. discorre sobre as expectativas da Igreja quando á Universidade, no seu compromisso com o Homem.

 

Tendo participado da Comissão Organizadora, foi um privilégio poder coordenar os trabalhos e debates em plenário. Aumentou, porém, a responsabilidade quando me incumbiram cie organizar e publicar as contribuições e os resultados do Simpósio. De fato, por muitas pessoas se deve repartir o mérito que haja: ao Magnífico Reitor Paulo Elpídio de Menezes Neto, que teve a iniciativa, ao Vice-Reitor José Anchieta Esmeraldo Barreto, aos autores e participantes, aos patrocinactores, a Francisco Carvalho, pela perícia de transmudar “tapes” em textos, aos habilidosos e pacientes linotipistas e funcionários da Imprensa Universitária sob o comando de Anselmo Frazão. Foi uma satisfação ter colaborado com todos eles para a difusão de algo que valeu a pena.


ANTÔNIO GOMES PEREIRA
Organizador

 

 

 




 

 

 

 

 

 

CONCESSÃO DA MEDALHA OTÁVIO LOBO

A LAURO DE OLIVEIRA LIMA

 

Dias atrás, a convite do Presidente da Assembléia Legislativa, na qualidade de integrante da galeria dos que receberam a Medalha Otávio Lobo, com a qual o Poder Legislativo do Estado do Ceará condecora os maiores nomes da educação no Ceará, estive presente na entrega da honraria a LAURO DE OLIVEIRA LIMA, ali, por motivo de saúde, representado por um de seus filhos, da mesma comenda.

Confesso-lhes que duas reações ali me invadiram: a) o como me senti – e isso confessei a professores ali sentados a meu lado – pequeno ante a magnitude histórica de Lauro, na mesma galeria; b) o diminuto, conquanto seleto, número de pessoas ali a tributar homenagens ao polêmico e grande educador.

Aqui, gostaria de transcrever homenagem da Página “Opinião” do Jornal “O Povo”, prestou a Lauro de Oliveira Lima, em 10 de abril de 2007, por ocasião da concessão pela UFC do título de Doutor Honoris Causa, ao educador, um dos artigos, “Minha universidade”, lido agora no Plenário da Assembléia Legislativa do Ceará, por sua autora, Ester Barroso, em sessão solene presidida pelo Deputado Artur Bruno, ex-aluno e ora proponente do título ao grande educador.

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OPINIÃO

FORTALEZA-CE, TERÇA FEIRA, 10 de abril de 2007-12-08

LAURO DE OLIVEIRA LIMA

Na véspera dos 85 anos de idade do professor Lauro de Oliveira Lima, a serem completados depois de amanhã, nesta quinta-feira, O POVO abre suas páginas para homenagear um dos mais eminentes educadores brasileiros, recentemente agraciado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará.  Ao se incorporar à homenagem, tributada com muita justiça, co mestre, O POVO sente-se orgulhoso de ter tido o privilégio de contá-lo entre seus colaboradores da página de Opinião, e assim contribuído para a difusão de suas idéias revolucionárias na Educação.

 

Minha universidade

Ester Barroso

 

Nas épocas decadentes, a adulação prodigaliza a mancheias o título de gênio aos poderosos. Imbecis há que o outorgam a si próprios. Os que se elevam sobre a mediania são marginalizados, desestiinados, escarnecidos, proscritos em seu próprio país. Sua presença humilharia com a força do contraste. Bastam os vulgares. As academias se povoam de míopes, de charatães, de servis, de burocratas. Os tartufos, os inimigos de toda luz estelar, de toda palavra sonora persigam-se diante do herético, do subversIvo, do pioneIro. Ter um ideal é um crime que os poderosos não perdoam. O idealista é supliciado nos impérios absolutos, nas monarquias constitucionais e nas repúblicas burguesas. A Sócrates deram cicuta, o desterro a Dante, o cárcere a Galileu, a fogueira a Giordano Bruno, o isolamento a Espinosa.

Compreende-se, porque, só agora (O4/l/O7), aos 86 anos, o filósofo pedagogo, Lauro de Oliveira Lima,  cearense, conhecido no Brasil e no exterior, foi outorgado com o título do Doutor Honoris Causa  da Universidade Federal do Ceará, proposição do reitor Renê Barreira, que foi sou aluno, no Ginásio Agapito dos Santos, fundado por Lauro.

Lá iniciou suas experiências pedagógicas, inspiradas nas teorias do grande epistemólogo suiço, Jean Piaget.  Piaget foi o pioneiro absoluto na descrição dos estágios de desenvolvimento mental da criança. Criou também a epistemologia genética, ciência que demonstra como o conhecimento é gerado no organismo, como se aprende. Lauro foi o introdutor do pensamento de Piaget no Brasil. Foi o criador do método psicogenético fundamento nos estágios do desenvolvimento mental, daí denominar-se “educação pela inteligência”. Lauro fez-se o aríete da ciência contra curandeirismo pedagógico. Foi o educador mais fecundo, fértil e injustiçado no nosso país. Foi vítima do silêncio, da sabotagem, da inveja, do obscurantismo, da politicalha, da prepotênia e dos lacaios.

Seu pecado original foi desorbitar as pupilas em direção às estrelas antes que o dia amanhecesse para todos. Nunca teve paciência resignada, nem a mansidão  de quem se acomoda às circunstâncias, para vegetar tranqüilamente. E um polemizador contundente,  irônico, avassalador em suas criticas, porém, sempre foi vanguarda em tudo que propôs em sua trajetória íngreme e corajosa pela educação. De fato, a educação conserva-se empírica e tradicionalista, Mesmo as”renovaçõcs” pedagógicas apóiam-se em pura “festividade” experimentalista, geralmente de pouca duração. Hoje, qualquer proposta pedagógica, não fundamentada na psicologia genética, é, simplesmente, uma contrafação.  

Em pleno coração da velhice, Lauro continua a pensar por si mesmo, sempre alerta contra os que queriam desplumar as asas dos seus grandes sonhos. E, mesmo depois de sua partida eterna, ainda ousaria a arrebentar a tumba mais resistente, se lhe fosse dado antever a esperança de que ressuscitaria de entre as cinzas, como a ave mitológica..

Conheci e convivi muitos anos com o professor Lauro, quando fui sua aluna e professo no seu Ginásio Agapito dos Santos, onde o grande mestre me ajudou a aprender tudo o que aprendi.  Por isso, dentre todas as universidades por que passei, incluve a USP, considero o professor Lauro de Oliveira Lima a minha verdadeira universidade.

ESTER BARROSO é professora e técnica em educação do Ministério da Educação.

 

 

 

 

 

 

MANCO PISO DO AGORA

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor da UFC e da UECe

 

 

No supermercado, leitor de meus artigos, aborda-me orgulhoso graduado em engenharia da UFC de outrora, a lamentar a falta de sorte igual do filho a nossas graduações hoje em descuido.

 

Ex-aluno do 1º. Ciclo da UFC dos anos 70, achega-se, a louvar-me a coordenação na formação piramidal, sob currículo multidisciplinar, em projetos como “Oficina do Pensar”, a elogiar-se no País. De mim, repasso, em contraponto a tal euforia, as “inteligências múltiplas” ainda por vir: arquitetos sem a noção de espaço; dentistas e micro-cirurgiões sem controle motor; psicólogos sem as visões inter e intra-pessoal; juristas e os das letras, sem verbo; artistas, sem tato e emoção.

 

No caixa, cede-me precedência uma ex-aluna: “A meus professores, os tributos ao que somos”. E me conta o primeiro lugar em concurso, entre 300.  Na saída, outra ex-aluna: “Lembra-se de mim?” Escando-lhe, por inteiro, o nome. E, orgulhosa, a mãe: “Sou a mãe dela”.

 

À noite, jantar à noite com Júlio Wiggers, nacional parceiro de lutas (pró-reitor, educação indígena, conselhos de educação).  No papo, o ontem, o agora e o amanhã. Em casa, jornais e Web. E o bordão do País entre os 40 piores do mundo. Repasso slogans como o “todos por uma educação de qualidade para todos”, a atropelar porto (cidadão, profissional e pessoa) e o “qual?” da qualidade nada atentado.

 

A sós, títulos e autocríticas de minha história de vida. No peito, marcas de coração em retalhos. A meus professores – da infância à universidade, tributos devidos a eles.  Nos jornais, a festa fílmica à ronda “chic”, em defesa ao chão de nossos direitos.  Em tom inverso, o ao chão bem mais largo da educação, onde o docente, sobre manco  e alienado piso, mendigado sob o refrão do pára-choque do velho fusca de outrora: “Hei de vencer mesmo sendo professor”!

 

 

 

 

Obstinação de Ariosto

 

Marcondes Rosa

O Povo - 10/12/2007



"Quem tem medo do pequeno?" Com a frase, provocava-nos, aos da UFC, e pró-reitores de extensão pelo País, Ariosto Holanda. Depois, ouviria, no governo do Estado, o ciúme a ele ... "secretário-de-fundo-de-quintal". Com o tempo, o tropel do "todos pela educação (...) para todos" a atropelar-nos o "sem porto e qualidade". No Conselho de Educação do Ceará, daria eu dribles ao cartorial, à espera da LDB, credenciando CVTs e Centecs, a contar com a solidariedade de Ulisses Panisset, presidente do CNE: "gesto ousado que assinamos embaixo".

 

Guardiões do erário público não compreendiam os sonhados "laboratórios do 1º mundo" para os pobres."É que sou Joãozinho Trinta da educação. Pobres gostam de laboratórios dos ricos", dizia ele. E, cá p'ra nós, foi intuição de filha e esposa de industriais, Renata Jereissati, que viu a importância deles para crianças literais pés-de-chinelo, num Centec...

 

Em Minas, Aécio Neves conferiu a Ariosto, que ali "prestou assessoria técnica e motivação política" para os previstos 122 CVTs (47 inaugurados), a Medalha da Inconfidência. E, em Brasília, outorgaram-lhe a Medalha do Conhecimento, o Ministério do Desenvolvimento Econômico, o Sebrae e a CNI.

 

Em artigo de O POVO (27.12.2000), registrávamos, em Limoeiro do Norte, ao referir-se ao credenciamento de tais unidades, pelo CEC, o "engasgo-quase-choro" de Ariosto, ao recordar, criança, a lição de Dom Aureliano Mattos, com seus liceus de artes e ofício de outrora: "sem arte e ofício, não somos filhos de Deus ou cidadãos".

 

Hoje, a educação brasileira patina entre as últimas do planeta. Tempo, pois, de tributos à obstinação histórica de Ariosto Holanda. E, a mim, de confesso orgulho pela cumplicidade revelada na expressão "gesto ousado" de Ulisses Panisset, presidente do CNE, em solidariedade a gesto do CEC!

 

Marcondes Rosa é Professor da UFC e da Uece



 

 

PRODUTOS DO CEARÁ

ANTÔNIO DE ALBUQUERQUE S. FILHO
DIARIO
DO NORDESTE
- 18/11/2007

 

 

O turista que chega ao Ceará e visita o centro de artesanato - - o Mercado Central, por exemplo - - procura adquirir, além de confecções, artigos produzidos pelo setor agropecuário: derivados do caju (principalmente a castanha), queijo de coalho, farinha de mandioca, rapadura, aguardente e doces caseiros.

Por conta disto, o Sebrae-CE, nos anos de 97-98, contratou especialistas para estudar a qualidade desses produtos, através de pesquisas, em todo o Estado, visando à melhoria da qualidade e para criar uma padronização através de “selos” específicos.

O professor Francisco Teles, do Departamento de Tecnologia do Centro de Ciências Agrárias da UFC, encarregou-se do queijo de coalho. Por intermédio de equipes de pesquisadores, percorreu as zonas produtoras, identificando, como fatores de baixa qualidade dos produtos, não somente a ausência de pasteurização do leite (comprovada pela presença de coliformes fecais), mas também armazenamento inadequado e embalagens fora do padrão, dentre outros. O professor Renato Casimiro, também da UFC, analisou a produção artesanal da aguardente local, encontrando alto teor de cobre - componente que é poderoso fator causador do câncer hepático - bem como resíduos de metanol, adição de caramelos de amido de milho, visando alterar a coloração da bebida, além da presença de traços de detergentes líquidos, para aumentar artificialmente a durabilidade da bebida. Já o engenheiro agrônomo Raimundo Antônio, da Ematerce-CE, fez levantamento completo sobre a farinha de mandioca, a qual, por ser cozida em fornos de tijolos, apresenta várias impurezas.

Estados como Minas Gerais, Pernambuco e Paraná têm realizado ações para melhoria desses produtos. Apesar de todo esse esforço de estudo e pesquisa realizado e dos recursos investidos, até agora os órgãos responsáveis parecem solenemente ignorar a questão, deixando de reconhecer que o Ceará precisa urgentemente promover mudanças na fabricação de tais produtos, de modo a garantir a sua qualidade.

Esta meta constitui um desafio. E a criação de um selo de qualidade seria, no mínimo, um bom início.

* Professor aposentado da UFC, onde foi reitor.

 

 

 


 


EDUCAÇÃO, FRACASSOS E SONHOS
:

 

http://www.sinepe-ce.org.br/ler.php?noticia=391

25-01-2008

 

 

Os janeiros evocam-nos o duplo olhar à frente e atrás do mitológico Jano. E a mim, em nossa educação, diria, num balanço entre fracassos e sonhos, com Mário de Andrade, em “O poeta come amendoim” (1924): “progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso é uma fatalidade”.

 

Avanços, na universalização. Mas, nosso dedo pouco a apontar para a qual/idade. Pior, morrendo na praia, não alcançado o porto: o mundo do trabalho (o profissional), a prática social (o cidadão) e o ser transcendente (a pessoa). Seus agentes (escola, família e sociedade) a se atropelarem nos infantis “monólogos coletivos” (de Piaget), sem astros a nos pautar valores na caminhada.

 

O olho atrás de Jano a nos levar, de volta, aos anos 80. Celso Furtado, aqui, a prever “longo amanhecer” do País e da Região, rumo ao “crescimento econômico a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento”. Clima em dueto com o Simpósio “Para onde vai a universidade brasileira”, aqui trazidos os nacionais olhares “de dentro” e “de fora” rumo ao “mudar”, a se tornarem bandeira de projeto social e político a partir do Ceará.

 

Nesse projeto, cabeças (em suas inteligências múltiplas), mãos (as da gestão estatal e social) e tato (do mundo político) foram-se, gradualmente, abraçando-se, olhos postos no amanhã. Em tal caminhada, as instituições de ensino superior (públicas e privadas), vistas em sua função de moldar o capital humano – as “indústrias do conhecimento”, termo de Clark Kerr, no livro “Os usos da universidade” (Edições UFC). E, como tal, com assento (embora simbólico) na FIEC, onde “indústrias das chaminés” já se enxergavam caducas.

 

Desde então, demo-nos conta de que o pensamento, não mais positivista, sob o lema “ordem e progresso”, mas sob a ótica agora complexa, o caos a ter função produtiva. E, nesse contexto, inteligências, hoje múltiplas – da verbal à transcendente – dão-se as mãos, a se constituir em “cláusulas pétreas” nos valores de amplo contrato social, na diacronia de Moisés e Rousseau aos dias de agora, de Maquiavel, Sun Tsu e ... Zé Dirceus!

 

Nesse clima, há, sim, de mudar o ilusório e atrasado marketing dos primeiros lugares de nossas escolas. Surpresas como a do Instituto Dom Barreto, em Teresina, a nos fazer cair do cavalo. E hoje são os próprios pais que aí estão a reclamar out doors outros a lhes mostrar onde estariam os primeiros lugares de outrora e, ao mesmo tempo, onde estudaram os hoje bem sucedidos na vida.

 

Na vida de hoje, não bastam os valores da democracia e pedagogia desde os gregos. Ou mesmo dos ideais da Revolução Francesa, em sua perseguida tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”, nem a divisão do pão, tão só, do marxismo. Bento XVI tem razão a nos recobrar “fé, esperança e caridade (a cáritas na dimensão do amor, não da esmola). Isso, com vistas a um “amanhã” a nos transcender o aqui e agora, em vida eterna, num abraço entre fé e razão – míopes ideais e valores de nossa democracia liberal, como do marxismo (nós irmãos apenas no pão) ou dos limites de uma ciência sem valores, despida de um transcendente para quê...

 

Nestes janeiros, samurais nesse ardor entre nós levantados, como Sérgio Machado, olhos permanentes nos sonhos (hoje o de Barão de Mauá), incitam-nos ao voltarmos os olhos para o amanhã, que, como os tigres asiáticos (o mesmo, nos diz Antônio Gomes Pereira), sem nos bater à porta, feito Irene, de Bandeira, “sem nos pedir licença” aí está a nos acordar. Ou, como um dia, cá entre nós, o embaixador Jadiel de Oliveira, em sua experiência nos quatro cantos do mundo, a nos falar dos pragmáticos rumos do Oriente. Indago-lhe se modelo para o Brasil. E ele: “Sim, desde que se a partir do Ceará”. “Por quê?” – indaguei-me. E ele: “É que, aqui, como no Oriente, o sol libertário sempre nasce mais cedo”.

 

Entre nós, o clima na superfície é a das três forças – intelectuais, gestores e políticos – em dispersão, sob a cláusula de infantil “monólogo coletivo” de Piaget. Intelectuais, em seus fossos medievais. Gestores, a cuidar do efêmero aqui e agora das bolsas – as do mercado e as da esmola, sem atentar para o “viciar ou matar de vergonha o cidadão”, alerta de Zé Dantas e Gonzagão. Políticos, sem ética e à sombra dos muricis, cada qual a cuidar de si...

 

Onda a irromper, a de nossos vulcões, nestes janeiros, a volta do duplo olhar de Jano. O passado, a nos recobrar o sonho à frente, do amanhecer. Tal como, na previsão de Jadiel de Oliveira, o sol, aqui, a nascer mais cedo. E isso, com medo, de, como em nosso passado, levar bruta vaia do irreverente “Ceará Moleque”, a surpreendê-lo, em plena Praça do Ferreira, em Fortaleza, por seu preguiçoso retardo.

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceara, ex-presidente do Conselho de Educação do Ceará e ex-Presidente do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação do País.

 

 

 

                    VISÃO TRANSCENDENTE

                       ABRAÇO ENTRE FÉ E RAZÃO

                       DISCUSSÃO NO ETHOS-PAIDÉIA

                       (EM CURSO)

 

   

 

VALORES E TRANSCENDÊNCIA

De Paulo Elpídio a Marcondes Rosa

 

    

(...) Recolhi esta passagem do seu e-mail:

 

Agora, é o Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, que, de forma análoga, como os "materia­listas" da UFC, que nos pedem não confundamos sua conduta científica "materialista" com a "in­credulidade" numa força divina mais alta" ...

 

Não sei se me fiz entender, nas minhas ímpias conjecturas sobre a fé. Não sou, confessada­mente, um militante da "jihad", armado pela intolerância e as inabaláveis certezas, venham elas da re­velação divina ou da crença ideológica. Não empunharia uma cimitarra  em defesa de nenhum pressu­posto, premissa ou juízo de valor, salvo a ironia, essa forma moleque de não levar as coisas muito a sério. Ademais, não me considero "materialista", pelo pecado irrecorrível de não ser "espiritualista", religioso, como é dado às pessoas sensatas e tementes a Deus; se seria eu ateu, não posso afirmar, tampouco negar, falta-me convicção para assumir essa posição extrema; também não reconheceria minha "incredulidade numa força divina mais alta", muito menos desdenharia das insopitáveis imposi­ções do destino e das forças superiores que tiram aos pecadores a fé e a devolvem, por gestos, obras e intenções reconhecidas.

 

Esses sentimentos não podem ser rotulados, as classificações e as tipologias são insuficientes para caracterizar os humanos impulsos e as humanas fraquezas. Não me justifico, não me explico – e não o faço por vaidade ou soberba, porém por não saber como defender-me em minhas faltas e expli­car minha indigência na posse desses sentimentos de crença, fé, disciplina e submissão a regras, que tanta falta fazem aos homens de arraigada filiação religiosa...

 

Podemos continuar esse contraponto estimulante, não levando em consideração a distinção, para mim secundária, entre conduta científica de inspiração "materialista" e "incredulidade". Podería­mos tentar melhor direcionar essa adorável peleja: fica ao seu cargo, como mediador de todas as nos­sas intenções, encontrar o eixo para a continuidade dessa conversa entre amigos.

 

           

    A RELIGIÃO DE NOSSAS UNIVERSIDADES

     De Augustus Nicodemus, Chanceler da

     Universidade Mackensie (SP)

 

    

    "As universidades hoje são, provavelmente, os ambientes mais intolerantes e monopolizados que se pode encontrar. A visão que as domina é a do pensamento científico oriundo do Iluminismo...Os alunos são formados na visão secularizada de mundo e são ensinados a se amoldar à cultura."

 

   

INTOLERÂNCIA SE DILUINDO

     De Marcondes Rosa a Ricardo Marques

 

    Li as declarações do Chanceler da Universidade Mackensie.  Mas gostaria de lhe confessar que, aos pou­cos, essa intolerância, nas universidades, aqui reposta, aos poucos, sinto, se vai diluindo, na medida em que percepções como a do “pensamento complexo” e a natureza múltipla e solidária entre as inteligências, vai amainando os chamados “cortes epistemológicos” de nosso pensar.

 

    Nunca me esqueço de “Amaral dos ratos”, em meu curso de licenciatura na UFC.  Pela manhã, escandali­zou-me ao afirmar que todo o pensamento de um homem ele, em sua psicologia, explicava na ca­beça de um rato.  À noite, eu e amigos, na casa dele, pela Revista Caboré, a esperá-lo para uma entre­vista.  Na espera, a galeria de retratos na parede, um visível pastor, num púlpito a pregar.  “Seu irmão? – perguntei. E ele: “Eu. Sou pastor!” E eu, intrigado: “E sua frase sobre o pensar do homem na cabeça de um rato?” Ele: “não confunda as coisas.  Na universidade, sou materialista.  Saindo de lá, sou religioso”.

 

    Tal postura acompanhou-nos, sim, por muitos anos.  Até o Manassés, reitor hoje da dita Mackenzie, já me revelou pudores quanto à divisão de território, opondo-se a insinuações minhas com vistas a cursos de educação religiosa, ele quando reitor da UECe (e olhe que somos amigos...)

 

    Eu próprio.  Nos anos 70, após 40 anos, reencontro, cá em Fortaleza, o antigo reitor do Seminário de Petró­polis.  Ele, aí, já prestigiado bispo, reitor da Universidade Católica de Petrópolis, altamente credenci­ado pelo governo, lembra-se de mim, sabe que estou na UFC e saímos para jantar.  Conversa vai conversa vem, lá vem pergunta engasgada por mais de quarenta anos: por que a visível proteção dele a mim e cum­plicidade de todos para me mandarem para Louvaina e Roma. Termino lhe afirmando.  Iriam perder tempo e dinheiro. Quem sou eu? Acho que até ateu eu sou. Nunca mais sequer fui à missa.  Ele se riu e me disse que não confundisse ritualidades com cristianidade ou religião.  E ultimou: “Olhe, na UFC, quando perguntei por você (eu dirigia o então Ciclo Básico), fiquei contente, valeu a pena.  Sabe por que? Porque dos, mais de cem alunos que, com você entraram, em 55, no Seminário em Petrópolis, o mais cristão era você...

 

    E saiu a me contar a história-de-vida dos então caídos nas sarjetas da Baixada fluminense. Já, aqui neste Grupo, contei a história, além das inteligências múltiplas, do médico que me assustou, depois de eu haver expulsado vários “religiosos” de minha sala, por picaretagens, ele, o médico a medir meus ímpetos transcendentes num aparelho!  O diabo do ponteiro dava saltos.  E eu lhe disse que tudo ali estava errado: “Eu expulsei foram uns quatro pastores de minha sala”.  Ele a sorrir me perguntou como eu explicaria o “emputecimento” de Cristo com os “vendilhões do tempo”...

 

    Aí, comecei a questionar meu “ateísmo”.  Um dia, conferencista da Unicamp, em Fortaleza, mostrava as se­des das inteligências no cérebro.  Omitiu a “transcendente”.  Pedi um aparte e perguntei a ele sobre a dita cuja.  Ele me mostrou, no cérebro, a sede de tais estímulos elétricos.  Aí, a indagação do “por quê” da omissão: Ele se riu. Disse que a pesquisa dele era financiada pela Universidade e o CNPq e, entre risos do auditório e dele, indagando-me: “Quer que a Universidade e o CNPq cortem o financiamento de minha pes­quisa?”

 

    Esse clima novo, Ricardo, foi o que, pelo menos entre os aposentados, os mais ateístas, agora, estou des­cobrindo.  Claro que, em conversas francas, sempre a colocar os mais afoitos na frente: “Você devia es­crever artigos sobre isso”.  De mim, não os condeno.  Universidade sempre foi partidária dos tratados de Tordesilha.  Do Cardeal Newman até hoje, são ainda “cidadelas medievais”, a cultuar desinteressados e “a-úteis” saberes...  

 

    Fui, por duas vezes, pró-reitor de extensão e senti isso.  E não foi sem sentido o meu desabafo no fra­casso que, após 30 anos, senti, numa reunião com o Banco Mundial, aqui em Fortaleza:

 

“Trinta anos, trabalhei sempre no limiar entre a universidade e a sociedade, tentando um namoro entre os dois.  Hoje, amargo o fracasso de que haver conseguido nada mais, ao invés de um namoro ... um coito interrompido!” 

 

    Se elas ainda se emperram em sua introversão, imagine na solidarização das diversas formas do conhe­cer para além do filosófico e do noético mundo das religiões... Os tempos, porém, Ricardo, são outros.  E estou convicto de que costurar nossa esfarrapada roupa do conhecer aí está a nos desafiar.  Por isso, deixo, neste espaço em tudo a nos reeditar o episódio da “torre de Babel”, o apelo pela opção, mais madura e signo até dos novos tempos: a de Pentecoste: todos a falar sua língua e, no campo da emoção (leia-se hoje de seu tipo de inteligência) a se entender e a ser “persona” (de personare), como canal de comunica­ção com o Espírito Santo...

 

    Fica o apelo. Vou parar. Senão, daqui a pouco, o Grupo tentará apor, em mim, uma placa: religioso, cris­tão, espiritualista, espiritista e coisas do gênero.  E vasculhar as versões bíblicas, para descobrir qual de suas versões são a fonte de minhas citações (rsrs)

 

    A intenção é extrair do calesdoscópio, da multiversidade, das “línguas de fogo” (e não da fria razão), os caminhos do homem sobre este “vale de lágrimas”.  Esperança, salve! – nos diria Bento XVI.

 

Post Scriptum:

 

    Dom Veloso parece que tinha razão.  Ou mesmo o pessoal de Moroni Torgan (bispo entre os mórmons e meu amigo).  É que um dia recebi um grupo de estudantes americanos, em minha casa, com prospectos re­ligiosos dos mórmons. 

 

    Para ser gentil, discuti, com eles, alguns tópicos da Bíblia.  Eles se entre olharam e, em pouco, se fo­ram.  Dia seguinte dois pastores mórmons vieram ter comigo. E, a sorrir, me explicaram: “É que os estu­dantes nos disseram que o homem lá sabe muita bíblia. Melhor alguém mais culto ir para conversar com ele. Desde então, costumo logo responder, quando procurado para indesejadas catequeses: “Sou (a) teu! Jamais eles irão entender, na minha voz, a perspectiva do “alfa privativo grego como prefixo”.

 

   

OS TEMPOS AGORA SÃO OUTROS

De Ricardo Marques a Marcondes Rosa

 

     Também acho que as coisas estão mudando no meio acadêmico. Ainda há muita e arraigada vaidade, arro­gância e intolerância contra quem pensa diferente do establishment que os poderosos do momento ele­geram, mas pelo menos hoje já venho encontrando algumas mentes mais abertas.

 

    O pensamento complexo, minha paixão de anos, ainda representa uma dificuldade para grande parte dos paradigmas que continuam alicerçando a academia, porém, como bem o disse, já nos deparamos com um ou outro “doutor” disposto a dialogar sobre ele. É claro, e isso era de se esperar, ainda são por demais freqüentes aplicações e extrapolações de seus princípios e, não raro, percebe-se uma tendência a que acabe por se tornar apenas mais um paradigma, a ditar “novas verdades” que tentarão calar os loucos que ousa­rem questionar os pontos de extrapolação de suas aplicações. Mas as coisas são assim mesmo.

 

    Conheci o Amaral Vieira, foi meu professor de Fisiologia I e II. Críticas à parte (algumas verdadeiras), foi ele o único professor de toda a minha graduação que, já nos anos 80, se aventurava a desafiar a turma com aulas pautadas em perguntas e questionamentos, levando-nos a pensar, criticar, debater e descobrir. Todos os demais professores se limitavam a “transmitir conteúdos”, repetindo como papagaios os conteú­dos dos livros que “adotavam” para a disciplina (outra aberração). Ah, sim! E para garantir não serem con­fundidos pela memória ou não se desviarem um milímetro do livro-texto, usavam retroprojetor e transparên­cias foto-copiadas do próprio livro ou copiadas a mão – chamávamos estes de “transprofessores”, e corria a piada de que, se faltasse energia no meio da aula e o retro-projetor apagasse, a aula tinha de ser interrom­pida, pois, por si mesmo, a maioria dos mestres pouco sabia de fato para sustentar o trabalho... (rsrsrsr).

 

    Lembro-me que, depois de algumas aulas de Fisiologia em que o Amaral nos instigou com perguntas e dis­cussões, e depois nos levou ao laboratório para estudarmos o funcionamento do cérebro dos macacos num eletrofisiógrafo e dos ratos naquelas gaiolas de vidro controladas por computador, um grupo de alunos se dirigiu ao chefe do departamento para pedir a troca do professor. Motivo? Na opinião deles, Amaral “en­rolava aula”. Queriam um professor que “desse matéria no quadro” e que eles pudessem “copiar no ca­derno”; queriam que ele “usasse um livro-texto” e que “dissesse as páginas que ia cobrar nas provas”.

 

    Fui radicalmente contra a substituição, que acabou não acontecendo, mas ali me dei conta do porque de boa parte do desastre que era e é a educação brasileira, antes e depois do vestibular, e por que, por exem­plo, não conseguíamos ganhar um Nobel no país. Alunos e professores há muito haviam firmado um talvez inconsciente pacto de mediocridade, onde “ensinar” e “aprender”, da escola à universidade, seriam apenas o fácil trabalhinho de repetir conteúdos dos livros para uma platéia que quer justamente isso, e depois fazer “provas” com perguntas pré-programadas e repetitivas sobre aqueles conteúdos. Pensar, nem pensar.

 

    Naquele tempo, Amaral já praticava, a duras penas, a Educação para o Pensar, coisa que somente hoje em dia é que temos visto tomar corpo. Ora, àquela época eu vinha da Engenharia, onde estudei três anos e, não suportando a excessiva influência da visão cartesiana das coisas, larguei tudo, comecei do zero, fiz novo vestibular e decidi seguir meu sonho de criança, que era ser cientista. Desde então, jamais deixei a pesquisa, que continuo fazendo e publicando todos os anos, como neurobiólogo, paleontólogo e ecólogo.

 

    Mas, paralelamente, foi estudando biologia que conheci Piaget, e conhecendo Piaget abriu-se, para mim, as portas do mundo da Educação. Contudo, não a “educação” que se fazia, e sim a que constrói pes­soas de forma integral, em todas as suas dimensões. A partir daí conheci e fui me relacionando com os pensamentos de Edgar Morin, Roger Lewin, Humberto Maturana e tantos outros. E, é claro, de Rubem Alves. Nutria-se em mim o pensamento complexo, e quando me referia a esse assunto nos corredores e salas da UFC, olhavam-me como a contemplar um doido em delírio. Não me deixei intimidar, mesmo assim, e conti­nuei caminhando nesse sentido.

 

    Apaixonado por Educação, abdiquei de um doutorado em Kent, na Inglaterra, já com tudo preparado, e de­cidi ficar para fundar, com um grupo de idealistas, o Colégio Kerigma, uma fundação educacional e sem fins lucrativos cujo intuito era e é o de por em prática os sonhados ideais de uma educação crítica e para o pensar, uma excelência acadêmica, uma educação integral e, também, valores e princípios da ética cristã. Já defendíamos a concepção de múltiplas inteligências, e quando, anos depois, Howard Gardner surgiu no cenário internacional com sua revolucionária teoria das inteligências múltiplas, apenas olhei para alguns educadores do Kerigma e nos limitamos a sorrir... Hoje, 20 anos depois, fui convidado pela diretoria da Fundação para reassumir a Direção Geral, com grandes planos para esta escola. Estou muito, muito ani­mado e feliz.

 

    Passei anos sem ver Amaral. Mas este ano tenho assessorado a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educa­ção Superior do Estado em alguns projetos e programas, e lá encontrei Amaral coordenando um grupo temático de consultores na área de Cosmologia. Que coisa! Conversei com ele e o vi mais amadurecido ainda em relação às concepções do acadêmico, a demonstrar concordância com meu pensamento de que o conhecimento não tem fronteiras nem áreas, e que o homem foi quem “compartimentalizou” as coisas. As­sim, um fisiologista pode, claro, enveredar pela cosmologia e por outras paragens, sem nenhum problema. Ele não sabia, mas essa caminhada também era minha, pois já coordenei o departamento de astrofísica da SBAA (a primeira sociedade astronômica do Brasil), assim como o de selenografia (estudo da Lua), e tenho um livro publicado sob o título: “Astronomia: Princípios”. Tenho pensado em integrar o grupo de Cosmologia da Secitece, pois já faço parte do de Tecnologia da Informação e do de Meio Ambiente.

 

    Sim, professor Marcondes, os tempos são outros. Os enxergamos de maneiras um pouco distintas, em al­guns aspectos específicos, talvez pelo fato de nossos caleidoscópios, por mais plurais e multicoloridos que sejam, terem uma lente terminal diferente um do outro. Mesmo assim, a complexidade existe e os tempos são realmente outros, mesmo com a insistência (prevista) de se manterem fortemente intolerantes contra o que os incomodam. Mas considero essa diversidade uma riqueza, e gostaria muito de que, entre nós, sejamos dotados de discernimento para crescermos mutuamente com essas diferenças.

 

    Aproveitando, antes de finalizar: sobre os mórmons, conheço-os de perto. Eles não têm pastores. E, caso paire alguma dúvida, não são cristãos, tampouco evangélicos.

 

 

PENSAMENTO COMPLEXO

& INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

De Marcondes Rosa a Ricardo Marques

 

    Depois deste seu relato, fico, cada vez mais, convencido de que, como reaprendi em minha caminhada, na Universidade - e, sobretudo, após ela, nas funções que ocupei na educação - a instituição “currículum vitae” perdeu seu original sentido do “correr da vida”.  Mancadas que, no Conselho de Educação, dei com meu faro a prenunciar potencialidades dos eventuais candidato. É que, certa feita, fui pelo Governador so­bre alguns eventuais candidatos, cujos “currículos”, sob meu olhar, era de gente que não se definia na vida (...).  Aí foi quando uma das candidatas questionadas literalmente me despertou para a “história-de-vida”, onde eventuais e não-compreendidos “pedaços de vida” podem encontrar sua lógica.  A partir desse mo­mento, a “história-de-vida” tornou-se obrigatória como ponto de partida para a escolha de conselheiros. Logo depois, outro governador e, aí, tudo voltou ao que era dantes, o “curriculum vitae” sob a feição estáti­ca e tradicional...

 

    Fico feliz com o breve “trailler de sua caminhada, em busca de um saber, mesmo visto como loucura, por muitos do dito mundo de Academo. De minha parte, sofri na pele, maledicências e diz-que-diz múltiplos pela universidade. Mas, graças a Deus, em casa, nas “brigas entre os filhos”, parece que, em todos deixei marcas e traços, a duras penas (por vezes até criticados, como no caso de Leo – hoje na Alemanha, que abandonou engenharia civil para dar sentimento à sua visão matemática e dedicar-se à musica), a Juliana, recém-doutora pela USP, que misturou sua dança com a odontologia voltada para crianças, casada com um dos poucos especialistas, pós-doctor em ... física-médica, a literalmente ora a correr por “Oropa, França e Bahia”, Finlândias e Estados Unidos...

 

    Espero que inteligências assim dêem, à nossa anacolútica sociedade, o sinal de que o saber, global e com­plexo, não se avoluma em superpostas faixas, como queriam os positivistas, sob o comando da genera­lidade crescente, a nos infundir a ilusão da “ordem e progresso”...

 

    Parabéns pela caminhada.  E espero que, neste grupo, o Ethos-Paidéia, tenhamos olhos muito mais volta­dos para o caleidoscópio do que para a distribuição em fatiados cortes (ditos epistemológicos) de nosso saber.  Isso, o que, um dia, em Gramado, tentando juntar numa “rede” (observe a profundidade do vocábulo) pregava eu para a de Radiodifusão Educativa do País, recebia eu e alguns poucos o aval entusi­ástico do então governador Pedro Simon.  Um dia, vê-lo-ia eu, no Ceará, a reproduzir o roteiro da  “Es­trada do Canindé”, onde, “quem é rico anda em burrico e quem é pobre anda a pé”.  Lá estava, a pagar promessa, nos dias recentes de agora, o hoje entre mais respeitados senadores de nosso País. E, “a pé” pela es­trada de Canindé”...

 

     Em Gramado (RS), víamos que nossa força e unidade, como pregavam os clássicos, estão no lema da “unidade na diversidade”.  Como reafirmam nossos economistas: nossa força, na diversidade. Nós outros, nossa de­mocracia, no diálogo entre as minorias.  No poema de Fernanda Quideré, aqui lançado, Cristo, que se fez homem, “abençoando desigualdades”...

 

    Cabeças, não desvinculadas, das mãos e do tato, existem em pessoas que têm os olhos à frente.  E, neste Ethos-Paidéia, pressinto muitos.  Pessoalmente, mesmo quando, em ímpetos de “adolescentes pro­longados” proclamamos nossos “l’etat c’est moi”, fechando olhos e ouvidos para o horizonte, sei que, logo depois, descem, com ao húmus do chão, do qual fomos feitos, pelo criador, que nele se viu em espelho...

 

    Parabéns! Quando tempo tiver, guardarei, no Blog do Ethos-Paidéia, textos antológicos assim. E, encon­trando-se com Amaral (o dos ratos, em minha época, irmão do Amaral, ex-ministro, meu colega no curto período do Curso de Filosofia da Faculdade Católica de Filosofia), por onde vários “loucos” passamos (rsrs).

 

 

NÃO ESTEJA COMIGO MAS COM A BÍBLIA

De Ricardo Marques a Isolda Castela Branco

 

      Obrigado, Isolda. Mas não esteja comigo, pois quem sou eu? Esteja, antes, com a Bíblia, verdadeiro e único tratado de revelação divina que, na vaidade pretensiosa de minha experiência e formação, como bió­logo, paleontólogo e neurocientista, gestor do conhecimento, analista de inteligência e até metido a filó­sofo, critiquei durante anos...

 

    Isso mesmo, minha visão apenas humanista e pseudocientífica me fazia enxergar a Bíblia como um compêndio mitológico, e a citava apenas seletivamente, extraindo suas partes fora de seu real con­texto, ignorando elementos de exegese e hermenêutica, quando, por exemplo, algum trecho me servia para ilustrações.

 

    Menos polido e mais direto do que meu dileto mestre Marcondes, minha firme concepção de complexi­dade e de teoria do caos, influenciadas por minha paixão pela cosmovisão quântica e por muitas leituras nessas áreas, e a associação disto com os conhecimentos históricos que imaginamos entender em falsa e pretensa isenção, eu era daqueles que enveredava em discussões acirradas, onde eu encarnava a figura do anti-religioso, crítico e acusador da Bíblia e do que eu pensava ser o cristianismo.

 

    Porém, sempre trouxe em mim uma característica marcante: a de buscador da verdade. Nunca fui polemiza­dor, as polêmicas nas quais eu me metia o fazia por pura tentativa de tentar esclarecer o que eu, pretensioso, julgava como "mentes obscurecidas", vivendo ainda na era medieval. Claro, continuo convicto de que a complexidade e a teoria do caos [que gera nova ordem, em ciclos] é, ao menos por enquanto, o que melhor explica o universo e até mesmo ALGUNS aspectos da natureza e da sociedade. A diferença é que, hoje, eu não consigo ver que se aplica a TUDO.

 

    Nesta Lista já discorri longamente sobre isso, demonstrando como e por que acredito que, por exemplo, não se aplica à dimensão espiritual, diferente, por exemplo, do que crê, como eu cria antes, a filosofia ori­ental. A mesma discussão enveredou pelo tema Verdade Relativa X Verdade Absoluta, quando argumen­tei que as duas existem - há, portanto, absolutos no universo material e imaterial, independente da pers­pectiva de quem vê. Houve quem se debatesse para não assumir isso, mas acho que não tem jeito, não... (hehehehehe).

 

    Essa postura de buscador da verdade me garantiu uma vantagem: a de, mesmo pretensioso (sem o perce­ber), eu estava e estou sempre aberto a mudar de posição, se devidamente convencido. E lamento que isso seja meio raro no ser humano. Depois, no cristianismo bíblico e não-religioso, que eu não sabia existir, entendi que, para Jesus, para os apóstolos e para os profetas, o convencimento era apenas um passo em direção à vida eterna - o principal, que eu só vim a conhecer depois, era o da "conversão", que vem após o convencimento, mas somente para aqueles que se humilham, como Cristo ensinou.

 

    Mas não foi "só" a Bíblia, Isolda. No trajeto, conheci cabeças pensantes e experientes que passaram por caminhos bem mais impressionantes que o meu, e, humildemente, entenderam, e souberam mudar de postura.  Menciono com freqüência C.S.Lewis, filósofo e filólogo, professor de Oxford, que era conhecido como "ateu empedernido" - não ler suas obras, a exemplo de Cristianismo Puro e Simples, O Problema do Sofrimento, A Abolição do Homem, Peso de Glória, Surpreendido pela Alegria, Um Experimento em Criti­cismo, Os Quatro Amores e vários outros, é como nos auto-condenar a uma filosofia de vida seletiva, sem muita honestidade intelectual, e seria como assumir o medo de nos descobrir enganados sobre aquilo que teimosamente nos imaginamos convictos, que parece ser "inteligente" adotar e promover, mas, no fundo da alma, tememos não ser suficientemente sólido, ou ser excessivamente relativístico, ao ponto de, se permi­tirmos alguma criticidade, termos que dar o braço a torcer... Eu sugeriria, ainda, pelo menos a leitura de C.S. Lewis e Freud debatem Deus, amor, sexo e o sentido da vida (trad. Gabriele Greggersen - Ed. Ultimato) de Armand Nicoli, e A Antropologia Filosófica de C. S. Lewis, (Ed. Mackenzie), de Gabriele Greggersen.

 

    Passeei, meio atônito, pela filosofia contundente de Francis Schaeffer, em A Morte da Razão, as argumen­tações e comprovações arqueológicas de grandes arqueólogos, como F. Albright e o atualíssimo Carsten Peter Thiede, da Universidade de Oxford, um dos maiores especialistas do mundo em papiros, e que faz denúncias, em seu livro Testemunha Ocular de Jesus, de "conspirações" de acadêmicos para omitir descobertas científicas que comprovam a Bíblia, e até mesmo fraudar descobertas que provoquem a crença nas teses da moda, de que a Bíblia carece de fundamento histórico-arqueológico (e ele apresenta evidên­cias incontestes do contrário). Mas há outros que um dia mencionarei com mais calma. Deixo, ainda, a su­gestão de leitura de Evidências que exigem um veredicto e Mais que um Carpinteiro, ambos do genial Josh McDowell, outro ex-ateu; e A Morte de um Guru, do ex-mestre hindu Rabi Maharaj.

 

    Diferente da Ilvis, não perdi a esperança no homem, até porque a própria Bíblia, aliando-se à Ciência, in­dica que o ser humano herdará não só uma vida física eterna, mas também "novos céus e nova terra" - para deleite dos que, como eu e professor Marcondes, crêem no caos gerando ordem. Só que, desta vez, o novo, segundo dizem as Escrituras, será permanente - e aí é um exemplo onde eu e o mestre Marcondes conseguimos discordar (mas só por enquanto). O que me põe afinado com a Ilvis é não só a inconformidade com tudo isso de terrível que o homem tem feito com a sociedade e o planeta, mas a crença - sendo que a minha é numa perspectiva bíblica e cristã - de que isso está nos conduzindo a uma autodestruição que cul­minará numa sociedade cada vez pior, fruto do mal uso do livre arbítrio, "até que Cristo volte", como Ele próprio garantiu que o faria, "em poder e glória", quando "todo olho o verá" - mas que seria repentina­mente, "como um ladrão de noite". Por isso recomendou: "vigiai e orai".

 

    Antes disso, uma nova ordem anticristã e terrível, marcada pelo excessivo humanismo e pela "morte do amor" - sugiro que todos leiam o que o próprio Jesus disse a respeito desses "últimos tempos", os quais muitos não crêem. Mas, depois disso, uma nova e permanente realidade, renovada, perene, eterna.

 

     "Cedi enfim ... admitindo que Deus era Deus, e ajoelhei-me e orei. A dureza de Deus é mais suave que a suavidade dos homens, e Sua coerção é nossa libertação" (C. S. Lewis).

 

    Se puderem, não me julguem - nem mesmo como idiota, como fiz com tantos, por tanto tempo.

 

 

Continua> 

     

     

 

 

METENDO O BEDELHO

De Circe Vidigal a Adail Sobral

 

 

Enfim, não quero ser mal compreendida, Adail. Expressei um pensamento baseado em dois conceitos bem estabelecidos nas Escrituras bíblicas, mas que não têm que receber a concordância de ninguém que adote conceitos distintos dos que usei.

 

Se alguém se julga cristão por entender que ser cristão é outra coisa, diferente da que me referi, ou se acha que é religioso por acreditar que ser religioso é algo diferente do conceito que adotei, está tudo bem, não há ofensas embutidas em nenhuma abordagem.

 

 

     RELIGIOSIDADE E CRISTIANISMO

     De Adail Sobral a Circe Vidigal

 

     

      Concordo plenamente! O Ricardo, impetuoso, como eu, às vezes quer dizer exatamente isso, mas, ao fazer distinções teóricas, abre o flanco para meus questionamentos. Provoco, mas sei que, no fim, ele mostrará justo essa face verdadeira, a essência de seu pensamento. Eu julgo "religioso" o contrário do que ele diz, mas sei bem o que ele está dizendo. Cristo falou do sábado... Disso falou o Ricardo, e discordei só dos termos, não da definição.

 

      (...)  Eu disse  que não se pode generalizar, ou seja, que há tanto religiosos como cristãos bons e maus. E dis­cordei da definição de religioso e de cristão, como sendo, a daquele, negativa e a deste, positiva.  Logo, sobre o "verdadeiro" isso ou aquilo, nada tenho a dizer, justo por que não se pode dizer que religioso é algo negativo e cristão algo bom em princípio.

 

   

    TRÊS AS VERSÕES BÍBLICAS CONCORRENTES

     Ricardo Marques: E quais são elas?

    Adail: “A hebraica, a católica e a evangélica, que têm fundo comum, mas exibem divergências, em vários pontos”.


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MOMENTOS PENTECOSTAIS

De Marcondes Rosa  a Ricardo Marques e Adail Sobral

 

Fico,  com certo ar de inveja, a torcer e observar a discussão de vocês sobre cristianidade, espiritua­lidade e espiritismo até.  E, em meio a isso, as classificações sobre quem é ateu, religioso e as diversas tribos ... cristãs.

 

Impressionou-me a conclusão última que, para mim com certo sabor de humildade, Adail arcou para si.  Mas, fico, Adail, observando seu currículo, participação aqui e alhures e, por acaso, abro o livro Bakhtin – Conceitos Chaves, onde, ao final, duas páginas, em resumo, falam dos autores da obra.  Em primeiro lugar, por ordem alfabética, o de Adail Sobral. Curto, gostaria de copiá-lo, antes de minha conclusão:

 

     “Mestre pela USP, doutorando (à época da publicação da obra) em lingüística aplicada no IAEL-PUC/SPO e tradutor profissional nas áreas de filosofia, estudos teológicos, direito internacional, lógica e temas da atualidade.  Dentre os autores por ele traduzidos, estão David Harvey, Charles Taylor, Joseph Campbel, Santa Tereza de Jesus, Edward Edinger, Steven Conoor, J. Ferater Mora, J. Baudrilhan, Lélix Guattari e B. Kk. Chesterton.”

 

    Fico a pensar.  Quem se dedica à tradução de áreas tão complexas, a envolver “estudos teológicos” em meio a vastas e integráveis áreas, a menos que siga a risca o lema “traduttore, traditore” dificilmente será um “ateu” (não no sentido que, no cargo de presidente do Conselho de Educação do Ceará, quando tive de assumir: o do teor precedido do “alfa privativo” (rsrs), o que me recomentava, à época, o tato, que, bem sucedido, tive a co/laboração de todos, iniciada pela Igreja Universal, antes disposta a assumir, para si, bancando-a sozinha, o papel da “educação religiosa”).

 

    Sob minha ótica, pouco importa, em nosso caso – mais até no caso de entes de vulto em tal ponto, com Adail, Ricardo e outros a compor este grupo, questão mais alta entre nós. Nesta segunda, véspera de Natal, está programado artigo meu.  Pediram-me, com antecedência que enviasse o artigo, o que ontem fiz.  E, aproveitando minha inquietação já demonstrada aqui, quando, em minha mensagem de Natal, lancei, do velho Machado, o de Assis, ao buscar saudoso “noite cristã, berço do Nazareno”, os presépios do outro e medieval  “de Assis”.   Em meio ao drama que a Machado invadiu-lhe o drama, que o levou à provocação da chave-de-ouro, “Mudaria o Natal ou mudei eu”, tento, nas pegadas dos “salvos na esperança”, de Bento XVI, um clima entre nós, já com apoio de nossa ciência, para abraço mais firme entre “fé e razão” (com o aval das inteligências múltiplas) e, sob essa perspectiva, o repensar de nossa ética e política e, mais fundo, de nossa educação, em real dar-se as mais entre o profissional (em seu trabalho de construção do mundo), o cidadão (animal a dar-se as mãos no contorno do social) e a pessoa (a integrar-nos a todos num projeto político e transcendente maior).

 

    Não tenho contrato com o jornal, que exige que as matérias ali programadas só possam ser divulgadas. Mas, por diversas vezes, tive problemas nesse tocante. Descobriria, porém, a razão. Brigas entre os edito­res, em geral, das diversas correntes do PT.  Isso, mais forte, quando artigo meu, à meia-noite, foi retirado, eu a defender o “PT Matuto”, hoje acusado de partidário do “mensalão”... Mas, de logo, ao observar as dis­cussões do grupo, o conselho que extraí, à época da educação religiosa, de um colega da UECe, a dirigir, entre nós a CNBB, após cerrada briga entre católicos: “Leve para o Conselho essa reunião, você, conheço, tem o tato necessário e eu o conheço.  Não tive outra saída. Fiz-me a/teu, pondo abaixo a diversidade de linguagens na Torre de Babel e optando justo pela diversidade de linguagens em Pentecoste.

 

    Creio que, agora, vivemos, nessa sede e diversidade do transcendente,  momentos construtivamente ... “pentecostais”, orquestrados pelos construtivos momentos das “inteligências múltiplas”.  É orquestrá-las na direção da humanidade, do país e de nós todos.  Orquestração que dá à educação (escolar e social) essa necessária e urgente tarefa.  Sobretudo, “neste País” – tenho, sim, responsabilidade e culpa por isso – que, apesar de todo esforço e atropelamento, chegamos à praia entre os quarenta piores países do mundo.

 

    Moral dessa história, sem censura, mas gostaria de (re) unir o grupo na direção construtiva, orquestrando as dissonâncias pentecostais, sob a batuta das inteligências múltiplas, dentro da proposta (por Bento XVI) da “amizade entre a fé e a razão”...  E estou sabendo o que digo.  Desta feita, eu é que, (a) teu, estou caindo do cavalo com os ditos “ateus” que, na Universidade e nos partidos políticos estou encontrando.  Mas é aquela história de todos a me querer à frente dos grupos (o que entendo, dizem os outros que não, do “or­questador das dissonâncias”, que, se não der certo, o “bode expiatório” aqui leva a culpa.

 

    Voltaremos ao tema.  Não sei por onde, mas, tenho a certeza, chegaremos lá, cabeças, mãos e corações a engendrar e pautar os caminhos. Que o Natal nos ilumine.

 

     Observação:

 

    Colega minha, Darci Weihs, que integra esse Grupo, hoje autêntica embaixadora do Brasil ente os brasileiros na Alemanha, acaba de me telefonar, após visita com o marido alemão, que, segundo ela, fala um divino português, de retorno de Ipueiras e de volta para a Alemanha, marcou encontro, amanhã, comigo. Na pauta, o marido, que, acompa­nha o Ethos-Paidéia, que quer participar do grupo, (re)unindo colegas nossos lá (Colônia e de vários outros ex-alunos nossos).

 

    Na conversa, pode até o seu conterrâneo, Bento XVI, participar desse grupo.  Pelo menos, alguns ex-alunos deles, teólogos e filósofos hoje em nossas universidades cearenses, estariam em tais condições. Não, não é brincadeira, não... Meu humor está, aos poucos, voltando. Mas essa afirmação não vai por conta do humor.  Para não pensarem que perdi meu (a)teísmo, entusiasmei-me por essa idéia quando dei, em Fortaleza com out doors sobre esse tema, a reunir personalidades do País.  Poucos, porém, me falaram da real discussão entre personalidades das mais diversas religiões.  E não sei se dentro da temática que está a me inquietar.  

 

 

NÃO POSSO MESMO SER ATEU

Adail Sobral em confissão a Ricardo Marques

E ao Grupo Ethos-Paidéia

 

 

 

(...) quanto aos seus bem fundados esclarecimentos, Ricardo, só tenho uma coisa a fazer: concordar com suas palavras. E ser mais claro no que pretendo dizer.  Há 3 versões das **escrituras sagradas** que envolvem duas das religiões universais, o judaísmo e o cristianismo, este com duas vertentes. O erro foi dizer "Bíblia", a velha mania das simplificações descuidadas. Veja que as diferenças entre essas escrituras tornam no mínimo complicado dizer "segundo a Bíblia", pois há, a rigor, duas Bíblias, que incorporam algo das escrituras judaicas de uma maneira toda própria que de modo algum têm identidade, porque as escrituras dizem o que dizem, mas a comunidade que as interpreta o faz à sua ma¬neira, inclusive mutável no tempo, e nos termos da validação específica conferida por essa comunidade a seus intérpretes legítimos.

 

Há todo um conjunto doutrinal, teológico e cúltico/cultual distinto a provar o que digo. E gostei de falar disso porque o levei a fazer esses esclarecimentos. O Marcondes me deixou sem jeito ao me tomar como foco e me "denunciar". Não posso mesmo ser ateu, sob pena de não conseguir traduzir certos textos, que pedem uma suspensão da descrença para ser entendidos. Assim como amigos meus que seguem religiões não quereriam traduzir certos outros que traduzo. De minha parte, tenho uma relação pessoal com o divino, e ela não passa pela religião organizada, ao menos no sentido de eu ser praticante. Sigo, porém, uns manda¬mentos que são ao mesmo tempo da ordem da religião e da ordem da ética filosófica, e isso tem dado certo para mim.

 

 

VALORES PARA CRIANÇAS E JOVENS
De Solange Rosa para Ricardo Marques
 

 

Coerência é o que falta a muitos de nós, embora saibamos o que é certo, ético, nem sempre somos, como seu amigo, corajoso para romper com os maus exemplos. Continuo investindo na formação dos valores para crianças e jovens, mesmo que aparentemente não veja resultados, isto parece até loucura...

 

A propósito, sem estar eu fazendo propaganda, mas até feliz como uma coleção de livros didáticos para o ensino fundamental (1º ao 5º anos) que insiste nos valores como elemento de formação, é "Aprender Juntos" - Ed.SM, nas áreas de língua portuguesa, matemática, ciências, história e geografia. Procure conhecer e me dê seu parecer.

 
 
ABRAÇO ENTRE FÉ E RAZÃO
Trecho de artigo de Marcondes Rosa
 

 

“Nesse quadro, uma luz: a de Bento XVI, a pautar aos cristãos, vida futura a não se perder no vazio e no chão.  Salva-nos a esperança, a nos dar sentido à vida cá na terra e à ressurrecta após. Míopes, se não aliadas à fé e a caridade, em nossa política, os esforços em prol da tríade “liberdade, igualdade e fraternidade”. Também, ideais como o marxista, se restritos à pura “ordem e distribuição econômica”.  E até a ciência, se, solitária e cega, não se pautar por esse horizonte.” 

 

 

SOBRE CRÍTICA E PAPEL DA MÍDIA DE BENTO XVI

(ALFABETIZAÇÃO, DEMOCRACIA E DIÁLOGO ENTRE OS POVOS)

De Ricardo Marques no Grupo Ethos-Paidéia

 

Apesar de eu não ser católico, e de considerar que há coisas boas nos meios de comunicação (eu mesmo sou usuário de várias delas), tenho de admitir que Bento XVI está certíssimo nas acusações que faz. Sem dúvida, a  mídia induz comportamentos, e como nos últimos anos só ressalta os comportamentos humanos mais asquerosos, tem sido grandemente responsável pela sociedade degradada, pervertida e doente que aí está.

 

 

ADOLESCENTE PROLONGADA AMADURECENDO

Confissões De Circe Vidigal a Marcondes Rosa

 

Os grandes homens acreditam em Deus. Eu, que fui atéia convicta, só comecei a ver de forma diferente através da Ciência. Incrível, ein? E me sentia muito confortável, na minha condição existencialista, orgulhosa da minha humanidade, do meu pertencimento à Natureza. Também foi bom, pois me deu um grande reforço na noção de responsabilidade, já que não devia satisfações à ninguém, só a mim mesma. Mas a possibilidade de Deus ampliou-me os horizontes e também gostei. "Vi que era bom" .

 

E desde então venho crescendo por dentro e desaparecendo por fora ( na tentativa de anulação do ego ) exercício muito difícil para alguém que poderia ser anjo mas é simplesmente um humano decaído. Não tenho nenhuma religião exotérica, mas me iniciei no rosa-cruz áurea e hoje pertenço a uma Escola de Mistérios Jessênia (gnóstica-cristã-cabalista)Temos farta literatura discipular, nenhuma regra, nenhuma proibição, nenhum templo. Mas com as modificações que foram me acontecendo, tornei-me relativamente vegetariana (sem nehum radicalismo) cada vez suporto menos o alcool ( fui uma emérita biriteira, socialmente) e melhorei muito meu temperamento "pavio curto".

 

Sempre fui de natureza tolerante e tranqüila, mas adorava uma polêmica, no bom sentido. Hoje, acho que poucas coisas valem um enfrentamento de idéias precisam ser, realmente, muito sérias.

 

É isso aí, mestre. A sua adolescente prolongada está amadurecendo, envelhecendo alegremente, com todas as suas dores físicas e a saúde debilitada. Antes, me achava uma mulher de sorte, pela família que consegui criar sozinha e com sucesso; hoje sinto-me uma mulher abençoada e "protegida lá do alto". Deus tem sido bom comigo.

 

 

MUDANÇA, INSTITUIÇÕES E VALORES

De Antonio Gomes Pereira a Marcondes Rosa

Coordenador do Grupo Ethos-Paidéia

 

 

Não risque meu nome do seu caderno. Ao contrário, inscreva-me entre os que são o seu Ethos-Paidéia . Estou certo de que estarei em casa, sintonizado com aqueles que crêem na possibilidade de mudança, na viabilidade das instituições, na necessidade dos valores.

 

 

 
NO BLOG, PERDEU-SE A SEQüÊNCIA
Critica de Ricardo Marques
 

Muito boa a iniciativa. Porém, na Lista os debates seguiam seqüências de argumentações e contra-argumentações, que davam ao leitor a possibilidade de ter acesso a visões divergentes de um mesmo assunto. No Blog, essa seqüência se perdeu, havendo muitas lacunas e algumas contribuições ausentes das contestações apresentadas (para citar um exemplo, o artigo da Nilze sobre os outdoors “homofóbicos”, mas há outros). Isso, evidentemente, impede que o leitor do Blog adquira uma percepção completa dos temas debatidos...

 

Minha sugestão é que se tente expor no Blog a seqüência temporal das várias contribuições sobre cada tema. Se ficar muito longo, pode-se por tudo em tópicos com hiperlink para algum lugar onde o leitor interessado possa acessar o conteúdo em detalhes. O que acha?

 

 

VISÃO DO COORDENADOR

Em resposta a Ricardo Marques

 

 

Colhida a sugestão. Mas, de plano, uma explicação.  Essa matéria sobre a discussão dos valores foi - fora divulgada, em parte, o seu final - nela  não constando tragada em seu final, o que agora se corrige.  Quanto ao enxugamento da discussão, é verdade.  Por vezes, ela se prolonga, detendo-se em acidentes e detalhes a nos fazer perder o fio da meada.  Meu trabalho foi o de limpar o curso da estrada, ser perder o destino. Por outro lado, a temática da homofobia mereceu, no mesmo Blog (e anteriormente), a publicação do artigo de Nilze.  Artigos terão sempre o destaque de sua divulgação por si próprios.

 

Se, na verdade, pretendem persistir quase a reduzir os valores na discussão da opção nossa pelo sexo, creio que perderemos, em amplitude – e a própria discussão mais ampla – da questão de nossos valores. Por mim o assunto, embora tenha revelado importante, ele traz, em seu bojo, questão maior sob perspectiva axiológica e ética, em nossa sociedade de hoje.