Grupos

 

Isolda Castelo Branco

 

FAMÍLIA, PÓS-MODERNIDADE,

CIDADANIA E POLÍTICAS SOCIAIS

 

Isolda Castelo Branco

 

        Com o objetivo de discutir subsídios para o estabelecimento de Políticas Sociais sobre as Famílias das camadas populares, escolhi um caminho reflexivo dividido em 3 partes:

 

a)   Em sintonia com os estudos mais recentes da bibliografia brasileira, sobre esta temática. Num primeiro momento farei algumas considerações sobre as Famílias das camadas médias e a Pós-Modernidade, por considerar que estes conhecimentos poderão também ser úteis para a elaboração das Políticas Públicas.

 

b)   Em seguida, contextualizarei as Famílias das camadas populares, tendo como foco o exercício da cidadania;

 

c)   Por fim, fazer uma análise sobre as Políticas Sociais governamentais.

 

1. FAMÍLIAS DAS CAMADAS MÉDIAS E A PÓS-MODERNIDADE

 

        Consultando a bibliografia mais recente sobre Família, encontro em Vaitsman (1991), uma reflexão sobre Famílias das camadas médias, a Pós-Modernidade e as transformações atuais no cotidiano dessas famílias.

Não pretendemos aprofundar a polêmica existente entre a modernidade e a pós modernidade, até porque os pesquisadores, das diferentes áreas, das Ciências Sociais, ainda não chegaram a um acordo.

Nossa intenção é verificar “como os comportamentos e padrões heterogêneos, flexíveis, instáveis e plurais de casamento e da família, em determinado segmento social, vinculam-se a transformações sociais mais amplas, no curso das quais se redefiniram as práticas de gênero”.

O debate entre modernidade e pós-modernidade é fértil e tem múltiplos aspectos. Vaitsman (1991) adota o ponto de vista de ver a pós-modernidade como uma tendência, uma concepção surgida da cultura urbana e dos valores contemporâneos. Conforme a autora “quando se fala em pós-modernidade seja na arte, na arquitetura, na cultura, no texto literário, na economia, na política, ou na família, está se falando da aceitação da coexistência e da mistura de códigos e de mundos, do reconhecimento da heterogeneidade que existe na sociedade contemporânea, mas sobretudo de uma heterogeneidade que agora se quer reconhecida como legítima. Na pós-modernidade a pluralidade, o particular e o local contrapõem-se a idéia de unidade geral e universal”.

Além destas características, Baudrillard complementa afirmando que o centro da organização da vida cotidiana atual é constituído por sistemas de signos e imagens, onde as imagens dos meios de comunicação de massa e da publicidade criam desejos através de um tempo extremamente volátil. Na sociedade contemporânea, a própria produção de mercadorias foi substituída pela produção de signos e imagens. O impulso, o desejo, a espontaneidade teriam passado a preponderar sobre a razão, e a vida cotidiana e a cultura seriam marcadas por estes traços.

As transformações, na organização socioeconômica e cultural, provenientes do estágio atual, atingido pelo capitalismo, ajudam a “explicar por que as pessoas passaram a se descartar com muito mais facilidade não apenas dos bens, mas também de valores, estilos de vida, e relações estáveis”

A família conjugal moderna, que se desenvolveu juntamente com os processos de modernização e industrialização, tornou-se o padrão dominante entre as camadas médias dos grandes centros urbanos até a década de 60.

Na substituição da família moderna pela pós-moderna, a heterogeneidade, a pluralidade, a flexibilidade, a instabilidade e a incerteza tornaram-se a regra. Entretanto, em diferentes partes da sociedade contemporânea “a concepção moderna de casamento e família fundada no individualismo patriarcal passou a conviver com uma concepção pós-moderna na qual a heterogeneidade, efemeridade, a contextualidade de padrões e comportamentos tornaram-se traços dominantes e legítimos”.

Para Vaitsman os modelos universalistas de casamento e família foram desafiados e o que se observa hoje é a convivência de vários modelos. “Diante de situação de vida diversificada e em constante mudança, as escolhas e decisões de homens e mulheres em relação à vida afetivo-sexual tornaram-se flexíveis e plurais, não obedecendo a padrões estabelecidos”. A manutenção do casamento e da família subordinou-se à satisfação emocional, princípio que passou a orientar comportamentos e a estimular as pessoas a recusar relações íntimas sentidas como insatisfatórias.

Passaremos agora a contextualização das Famílias das camadas populares.

 

        2.    FAMÍLIAS DAS CAMADAS POPULARES

 

São muitos os pesquisadores que estudam as Famílias das camadas pobres. Entre eles, do meu ponto de vista, Cynthia Sarti é quem melhor caracteriza essas famílias, e oferece subsídios que podem integrar a formulação de Políticas públicas sobre o assunto.

A abordagem sugerida pela pesquisadora, em relação às famílias pobres, se define por uma história, onde as famílias contam sobre si mesmas. Cada família terá uma versão de sua história, a qual dá significado à experiência vivida, ou seja, “trabalhar com famílias requer abertura para uma escuta, a fim de localizar os pontos de vulnerabilidade, mas também os recursos disponíveis”.

Cynthia denomina as famílias de “enredadas”, demonstrando assim que há diferenças fundamentais entre as famílias dos diversos segmentos sociais, sendo a principal característica das famílias pobres, a sua configuração em rede. As dificuldades enfrentadas para a realização dos papéis familiares, no núcleo conjugal, diante de uniões instáveis e empregos incertos, desencadeiam “arranjos” que envolvem a rede de parentesco como um todo, a fim de viabilizar a existência da família. Entre os pobres, a família tem um valor central, em suas vidas, como rede de apoio diante de sua experiência de desamparo social.

Em suas representações, a família é vista como um valor, onde a reciprocidade é fundamentada por uma relação hierárquica, em que o pai é a autoridade maior, e a mãe tem um papel crucial. Conforme Woortman (1987), “isso não significa sua centralidade na família, mas o cumprimento de seu papel de gênero como mantenedora da unidade familiar numa estrutura que inclui o papel complementar masculino, deslocado para outros homens na ausência do pai/marido. A centralidade está no par masculino/feminino”.

O elemento constitutivo da identidade do homem é o trabalho; sua autoridade dentro da família depende de sua responsabilidade, a dimensão moral do papel masculino. A identidade da mulher é definida pela maternidade. São as qualidades de mãe esposa e dona de casa seus atributos fundamentais. A mulher torna-se um ser moral, em contraposição ao homem como ser produtivo. O comportamento sexual da mulher é o critério fundamental de sua conduta moral.

O namoro, visto como etapa central da concretização do “projeto familiar” é demarcado por regras e padrões culturais que orientam as relações entre os sexos, regulando a manifestação do afeto e da sexualidade. O casamento é considerado como uma predestinação, uma “sina”, que pode, ou não, corresponder às suas expectativas, e depende fundamentalmente do marido; a mulher é escolhida; sendo portanto o homem o maior responsável pelo sucesso do projeto.

O vínculo mais forte dessas famílias é o que ocorre entre pais e filhos, em que as obrigações morais atuam de forma significativa. As crianças, muitas vezes, sobretudo nos casos de separação dos pais, passam a não ser uma responsabilidade exclusiva da mãe, ou do pai, mas de toda a rede de sociabilidade em que a família está envolvida. A “circulação das crianças” como um padrão cultural legítimo permite que se estabeleçam os vínculos de sangue e de criação onde pode existir uma diversidade de mães.

Na formulação das Políticas Sociais é essencial que se mantenha o foco na família entendida em sua dimensão de rede. No mundo simbólico, dos pobres, “a família tem precedência sobre os indivíduos e a vulnerabilidade de um de seus membros enfraquece o grupo como um todo”. 

 

        3. POLÍTICAS SOCIAIS SOBRE FAMÍLIAS

 

As políticas sociais, no Brasil, sobretudo as que são dirigidas às famílias das camadas pobres, não tem alterado muito o quadro de pobreza e exclusão dessa parcela significativa da população brasileira.

Para efeito do estabelecimento das Políticas Sociais conceituamos a família, conforme Brant, como “o primeiro locus que referencia e totaliza a proteção e a socialização dos indivíduos. Independente das múltiplas formas e desenho que a família contemporânea apresenta, ela se constitui como um canal de iniciação de aprendizado dos afetos e das relações sociais”.

A política social brasileira caracteriza-se como elitista, assistencialista e tutelar, quando é direcionada aos segmentos desfavorecidos da população brasileira. O desenho dessa política é extremamente setorizado, centralista e institucionalizado, elegendo o indivíduo como portador de direitos e centro da política social.

Nos anos 70 a opção das políticas sociais recaiu sobre a mulher e em 1990 o olhar das políticas  voltou-se para as crianças na família.

Atualmente a Família está no centro das políticas de proteção social, e vem sendo percebida como base estratégica para condução de políticas públicas. Nos últimos anos são inúmeros os Programas e Projetos dirigidos ao atendimento das demandas familiares; entretanto, a família não pode ser vista apenas como estratégia dessas políticas. É necessário que as iniciativas sejam dirigidas para o fortalecimento das competências familiares, sem as quais dificilmente as políticas terão êxito.

Para Brant “é preciso retomar as unidades de família e comunidade como pontos de partida de práticas sociais. As famílias e as comunidades precisam de apoio direcionado ao maior e melhor fruto usufruto de bens e serviços indispensáveis alteração de qualidade de vida e exclusão a que estão submetidas.”

Para a pesquisadora, serviços especializados de atenção à família como programas de geração de renda, complementação de renda familiar, rede de serviços comunitários de apoio psicossocial e cultural e atendimento a pequenas demandas de justiça devem fazer parte integrante de uma pauta concreta na priorização da família na agenda da política social. Entretanto, de maior importância são os serviços intersetoriais em forma de pacto entre as políticas setoriais de maneira a garantir a retotalização das ações, hoje setorizadas e fragmentadas. Por outro lado, sua eficácia só será assegurada se todos estes serviços constarem do projeto político nacional.

O sucesso, de políticas sociais do governo, de atenção às famílias, depende da conjugação de ações e apoios advindos das demais políticas setoriais das diversas secretarias e sobretudo de uma rede de inclusão, proteção e promoção, envolvendo famílias e comunidades no usufruto eficaz destas atenções básicas.

Quanto à Metodologia de trabalho com as Famílias penso que com todas estas reflexões poderemos construir uma metodologia que contemple muitos dos aspectos aqui colocados, sobretudo se nos aprofundarmos no conhecimento do universo familiar das camadas populares.

São bastante sugestivas as metodologias de trabalho com as famílias provenientes do Programa Bolsa-Escola que se propõe a promover o fortalecimento dos vínculos comunitários e de solidariedade; fortalecer as identidades individuais e coletivas; possibilitar o acesso e a utilização de bens e serviços sociais; promover a autonomia socioeconômica para a emancipação das famílias. Suas ações desencadeiam o resgate das culturas próprias, a capacitação para projetar o futuro, organizar o cotidiano e participar da vida comunitária

Atividades tais como acompanhamento socioeducativo, visitas domiciliares, plantões de atendimento, avaliações sobre o impacto da permanência da família no programa. Alfabetização de adultos, introdução à leitura e à escrita, qualificação profissional e geração de renda e construção de interfaces e parcerias, são algumas das idéias que podem constar na construção de uma Metodologia de trabalho com as famílias.

 

***

 

Gostaria de concluir com as palavras de Laura Castro Ramo no livro Família, Redes, Laços e Políticas Públicas, quando diz:

Sobre o trabalho realizado, nas idas e vindas. Os olhos presos no hoje e no amanhã; a vida crescendo nas vilas e favelas. As Famílias se metamorfoseando, esforços infinitos, constituindo uma cidade. Diversa, plural, abundante de vida. Na cotidianidade, os conflitos: a insegurança, a violência, as drogas, o desemprego. Conversas. Permuta de angústias e sonhos, conquistas e perdas tecendo o percurso.

A equipe profissional desafiada, alerta, na procura da rota das relações democráticas; da cidade democrática. Um espaço, um lugar onde seja possível aprender a condição humana pela pronunciação própria e pelo reconhecimento do outro – igual e diferente - sujeito de liberdade e dignidade.

As crianças crescem na família e na escola. A sociedade aprende a solidariedade e a paz.

 

 

 

O duplo olhar de Jano

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo 05 Jan 2009


            Janeiro é mês que, em sua origem, remete-nos a Jano, deus romano de duplo olhar. Olhar à frente, aberto ao futuro; olhar atrás, fechando-se aos já passados ciclos. Evocar Jano agora nos parece oportuno, tanto no País quanto no Globo, neste momento de crise.


            Um rápido flashback. Quedas várias, desde o muro de Berlim: a da União Soviética e as atuais do mercado e dos surtos de reação às agressões ecológicas em todo o Planeta. Hora, sem dúvida, de repensarmos os infringidos valores desde a Revolução Francesa: os da “liberdade, igualdade e fraternidade”, retomados, sob feições diversas pelas correntes liberais, socialistas e social-democráticas. E, sob tais parâmetros, formular a visão nossa como integrados “cidadãos, profissionais e pessoas”, portos a nos desenhar o destino de nossa vida educacional, social e política.

 

            Hoje, vida política, educacional e social é coisa, por muitos, vista sem praia e sentido. Mais forte até, “coisa suja”, embora repisemos, com Aristóteles, que o homem é um animal político. Aos poucos, porém, vamos percebendo que o ente político de Aristóteles transpõe a pequenez do eventual jogo do capital, do prosaico aqui-e-agora histórico, a nos fazer a todos cidadãos a habitar o planeta como personagens. Vivemos, pois, em um mundo “para além do capital”, onde razão e fé se abraçam, olhos nossos – à frente e atrás – tal qual Jano, a nos fazer a vida como seres imagem e semelhança do Criador.

            Jano recebia dos romanos, na antiguidade, duas funções: a daquele que se abre e ao mesmo tempo do que se fecha. O momento é de fecharmos o ciclo passado em nossa história, país e planeta, abrindo-nos novos ciclo e visão: o da superação de ver a vida social, o País e o Planeta subordinados ao capital.

 

            É a reflexão que nos impõe, neste janeiro, o duplo olhar de Jano!


            MARCONDES ROSA DE SOUSA
            Professor da UFC e da Uece

 

Escrever, verbo intransitivo

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 19 Jan 2009

               

             Os janeiros – repisemos – trazem-nos o olhar à frente e atrás, a dupla face de Jano. E, a mim, aquariano, o olhar sobre a escola e, nela, o escrever.


        Reporto-me aos tempos de adolescente, egresso das caatingas das Ipueiras para as brumas da Serra dos Órgãos, no Seminário de Petrópolis.  Ao final do ano, uma caneta a mim de prêmio, símbolo e estímulo ao escrever. Alegando humildade, rejeito-a. O bispo reclama-me não ter eu aprendido a diferença entre “húmus” (chão) e “vanus” (oco, vazio). Lição, a caneta de volta. E, nela, o responsável “ofício do escrever”.


        Nos fechados anos 70, sob a coordenação de Adísia Sá, publicamos, pela Editora Vozes, de Petrópolis, o livro Fundamentos científicos da Comunicação, cabendo-me discorrer sobre os fundamentos lingüísticos. À época, os arapongas viram-nos sob as metonímias do “mar cor de rosa” com a editora do clero. E logo depois, nos tempos do Ciclo Básico, na UFC, a metodologia Oficina do Pensar, considerada pelo MEC, entre as mais avançadas do País, despertaria preocupante olhar sobre nossos propósitos. Lembro-me haver deixado tais setores sem nada entender ante a frase: “escrever é verbo intransitivo”...



        Jano, em seu duplo olhar, à frente e atrás, ostenta-nos dual a nossa escola e, produto dela, seus alunos. De um lado, gênios até, figurando alguns entre os melhores “deste País” e do mundo. De outro, escolas (privadas e públicas) entre as piores do globo. Nelas, alunos analfabetos funcionais.


        Em mim, a lição que, em Petrópolis, ratificada após no Seminário da Imaculada, em Campinas (SP), deixaram-me os professores sobre o escrever e o ofício do pensar. Verbos, os dois, intransitivos, alicerces de uma escola a formar “cidadãos, profissionais e pessoas”, porto constitucional e seguro para nossa combalida educação.



Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

marcondesrosa@gmail.com.br

 

A crônica “Escrever verbo intransitivo”

E os despertos sentimentos de concordância

 

              

 

        “Escrever, verbo intransitivo”, crônica que publicamos na página Opinião do Jornal O Povo, parece que a muitos - sobretudo aos aquarianos, portadores do duplo olhar de Jano - despertou sentimentos de concordâncias.

 

        Entre os educadores, verbo bitransitivo

 

        De pronto, recebo de Sebastião, magalhaesanta@uol.com.br, não só a concordância com essa visão dual em relação ao amor: “um amor transitivo, direcionado a um objeto, idéia fixa, possessiva, carcereira de horizontes”.  Entretanto, no  que toca ao escrever, diz ele: “Quero crer que escrever seja intransitivo apenas na licenciosidade poética, praticada às escondidas, guardada a sete chaves, cada dia mais ausente dos espaços escolares”. 

 

        “Entre os educadores”, acredita ele, “reina um escrever bitransitivo: aprendizes devem escrever alguma coisa para alguém ler e, ainda, de forma adequada.  Fortemente respaldadas nos princípios de objetividade, mensurabilidade de amar e de escrever: prevalece o burocrático sobre o poético”.

 

        Belo artigo evocativo

 

        Do professor Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, ediatahy@secrel.com.br, que , em co-autoria conosco,  compartilhou dessa obra, aduzindo-lhe a visão dos fundamentos sociológicos da comunicação,  recebo e-mail  nos termos a seguir:

 

  “Já escrevi para você algumas vezes nos últimos dias, sempre sem comentário de sua parte. Pensei que estivesse ausente. De manhã, abro o jornal, e me deparo com esse belo artigo evocativo. Gostei.”

 

        Beleza dos contrapontos

 

        Do professor Gervásio G. Bastos, ggbastos@ufc.br>, da UFC,  recebo:

       

  “Pensando bem, os aquarianos têm todas as características dos de outros signos. A face dupla de Janus é de fato emblemática para nós professores. Nossas melhores aulas, penso, são aquelas em que, de um lado, ensinamos aos alunos e, opostamente, aprendemos com eles. De um modo geral, é a beleza dos contrapontos.

 

A mim, a Astrologia parece uma teoria a que nos podemos dedicar de boa fé, ou simplesmente como graça na comunicação; há certa beleza nela. Mas, na prática, seus resultados são de difícil mensuração. É como a Quiromancia, cujos adeptos têm certa crença de que seu futuro se lhe reflitam nas linhas palmares.”

 

        Educação: descaso de sociedade e governo

 

        Dentre outros, chega-me de Ariane Aguirre, arianecaguirre@gmail.com, avó,  pelo lado materno, de meus netos Pedro e Davi, de Cláudio, meu primogênito:

 

  “(...) Gostei de sua crônica, digna de mestre. Mas não ao alcance de estudantes medíocres, porque não tiveram chances, escolaridade e oportunidade dignas. Culpa de uma sociedade e um governo que não se preocupam com a educação. Sua crônica aponta exatamente para o descaso de ambos.  Mas é a vida. E, nela, todos se esquecem dos jovens, preteridos de quase tudo!”

       

         Metonímia com o “mar cor de rosa”

 

        Curioso! Em minha crônica “Escrever, verbo intransitivo” refiro-me a estranhas metonímias que aos autores dos Fundamentos científicos da comunicação foram lançadas em razão de sua relação com a Editora Vozes, de Petrópolis, navegando eles em  “mar cor de rosa” ...  E, cá para nós, tive eu de, aos “arapongas”, explicar por que motivo editora tão importante procuraria grupo cearense, se não por motivos de evocações suas  com o quase vermelho, atenuado embora com um ... “mar cor de rosa”... 

 

        Língua forma, não substância

 

        Foi aí que, em defesa, à época, minha e do grupo, revelei, aos setores que, na vida universitária, policiavam-nos o comportamento político, uma “visão processual e intransitiva do processo de comunicação”.  Em meu caso, visão fonoestilistica, a extrair dos próprios sons a esfericidade em suas mensagens. E nesse contexto, as citações de obras minhas outras como “Elementos de Fonoestilística”, a nos mostrar, contidas nos fonemas, riquezas como as no verso, extraído do soneto ‘A um poeta’, de Olavo Bilac: “Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua”, onde as vogais tônicas em gradação, as consoantes oclusivas se amainando até o suar final, a seqüência dos vocábulos enfim nos dão a conotação do trabalho encadeado, expresso pela conjunção aditiva “e”, tudo a nos sugerir simultaneidades...

 

        Em minha e nossa defesa, terminei por, junto a tais “arapongas” – em um escondido setor na própria reitoria da UFC (denominado, se não me engano, ASI) -  terminei por revelar minha visão e interesse na comunicação como processo: o escrever, enfim, com  a força de verbo intransitivo, a gramática (frásica e transfrásica) vista, a língua, enfim, nos termos de Ferdinand de Saussure, o pai da lingüística moderna, “como uma forma e não uma substância”, um “sistema de signos vocais arbitrários, por meio dos quais os homens se comunicam em uma dada sociedade”.  E tome-lhe versos, como os do simbolista Cruz e Souza:

 

        Vozes veladas, veludosas vozes,

        Volúpias dos violões, vozes veladas,

        Vivas, vãs, vulcanizadas...

 

        Forma e não substância, pois, sob parâmetros “intransitivos”, tanto numa “gramática da língua” quanto em proposta “gramática do discurso”, transfrásica esta última (vale dizer, para além da frase) ...

 

 

“A serra da Ibiapaba,

Nua, mãos no bolso,

Fumava um cigarro,

Sentada num banco

da Praça do Ferreira”

 

 

        A lingua é uma forma e não substância, apregoou o pai da lingüística moderna.  Forma, não, porém, ao ponto em que colega no Curso de Letras da UFC, resvalou em seus exageros formais.

 

        No périplo que me obrigaram no Curso de Letras da UFC, saía eu da disciplina Literatura Portuguesa para Língua Portuguesa I. Em minha primeira aula, parti do conceito saussureano de língua: “sistema de signos vocais arbitrários por meio dos quais os homens se comunicam em uma dada sociedade”, transcrito no verde-escuro quadro-negro, em minha sala de aula...

 

        Súbito, nela adentra, sem que os alunos soubessem de quem se tratava, o professor titular de lingüística.  Pega do apagador e, da definição saussureana, apagando-lhe da definação “por meio dos quais os homens se comunicam numa dada sociedade”, para espanto, na sala, meu e dos absortos alunos a me encarar.  Vira-se ele então para os alunos e sentencia, escandindo os segmentos melódicos:

 

        “A serra da Ibiapaba,

        Nua, mãos no bolso,

        Fumava um cigarro,

        Sentada num banco

        Da Praça do Ferreira”.

 

        Os alunos, atônitos, olhos em mim, assistem ao professor, ex cátedra a sentenciar: “A frase é perfeita: tem sujeito, predicado ... Mas, ao invés de significado, um absurdo. É frase porque tem estrutura formal perfeita, não lhe importando o que significa... É isso, o que interessa, interpretação da afirmação de Saussure:a língua é uma forma e não uma substância”...

 

        Nisso, olhar sobre mim, afirmou que o conceito era da área lingüística, não cabendo a mim, professor de língua portuguesa. E que eu a ele, professor titular, aguardasse..  E, bruscamente, os alunos a encará-lo, deixou a sala de aula, – o que deixou meus alunos preocupados...

 

        No primeiro intervalo, logo após a aula, o departamento é convocado para reunião extraordinária.  Na paula, queixa do referido professor titular de lingüística.  Na pauta, a queixa contra o conceito de língua proferido em minha aula de ... língua portuguesa.  Discussão acalorada.  Súbito, o convite do contista Moreira Campos, professor da área literária, para um rápido cafezinho.  De mim se aproxima e me recomenda paciência.  Ele havia proposto a constituição de uma comissão para apurar a denúncia.  E me tranqüiliza: “Aqui, quando queremos que uma coisa não vá para frente, nomeamos uma comissão”...

 

        Assim foi. E pude eu, dando força à língua como processo formal, sob uma percepção intransitiva (lingüística, literária, filosofófica enfim), em minha tarefa docente. 

 

        A proteção de Moreira Campos me levaria ao Ciclo Básico, por ele então coordenado. Um dia, eu já pró-reitor, pela segunda vez, um colega lembraria a todos proteção de Moreira Campos a mim, desde aluno aos cargos, escada que, por certo, não subiria sozinho.  O respeitado contista Moreira Campos, que, com suas frases curtas e prenhes de significação, como em seus contos, costumava afirmar, explicando os flagrantes que o levariam a produção literário: “Seu Marcondes, ali, naquele olhar, eu vi e captei o flagrante.  Ali, estava o conto...”.  Muitos não entendiam.  Desta feita, entendi-lhe a humildade e a grandeza da frase ao se referir a mim: “Mérito dele! Saco vazio, colega, não se põe em pé”...

 

       

        No princípio, era o verbo 

        

        Com essas lembranças, vou até uma estante onde guardo  meus velhos e saudosos livros. E, dela, retiro dois  exemplares da obra Teoria da literatura, a reunir textos dos formalistas russos:  um da Editora Globo, de Porto Alegre, em vistosa mas dura capa vermelha, a incluir o capítulo “A escola poética formalista e o marxismo”, de Leon Trotsky.  Um livro, este, sob literal apelo ao visual.  Outro, edição francesa,  em discretas cores, o apelo voltado para  o sensível tato.  Os dois, manuseio-os, sempre que, em relembranças nostálgicas, tento reeditar, em passagens sublinhadas,  a trazer, de volta, visões de outrora, todas elas da época, a marcharem rumo à afirmação de McLuhan em relação aos meios de comunicação: “o meio é a mensagem”.

 

        Em meio a tais recordações, os dois livros me trazem sensações diferentes.  A edição francesa, a sugerência táctil e do confortável, que sempre me proporcionou.  Já a edição brasileira, com sua capa em forte vermelho, conquanto a me provocar às mãos incômodas calosidades e manuseio difícil das páginas...

 

        É na edição brasileira que reencontro o capítulo “A escola poética formalista e o marxismo, de Leon Trotsky:

 

 “A escola formalista representa um idealismo frustrado, aplicado às questões de arte. Os formalistas revelam uma religiosidade que amadurece rapidamente; são discípulos de São João: crêem que ‘no princípio era o Verbo’. Nós, por outro lado, cremos que no princípio era a ação, e a palavra acompanhou-a, como sua sombra fonética” (p. 85)

 

Esqueceram-se eles (que nos perdoem Trotsky e os marxistas) de que o verbo se fez carne - a ação - e habitou entre nós... Os formalistas seguiram em frente tornando-se estruturalistas.

 

 

Surge a gramática  do “além da frase”

 

Para os estruturalistas, a lingüística havia parado na frase. Evidente, entretanto, que “o próprio discurso (como conjunto de frases) é organizado e que, por esta organização, ele aparece como a mensagem de outra língua (langue) dos lingüistas: o discurso tem suas unidades, suas regras, sua ‘gramática’: além da frase e, ainda que composto unicamente de frases, o discurso deve ser naturalmente o objeto de uma segunda lingüística.

 

Esta Lingüística do discurso teve, durante muito tempo, um nome glorioso: a Retórica; mas, como seqüencia de todo um jogo histórico, a retórica tendo passado para o lado das belas-letras, e as belas-letras tendo-se separado do estudo da linguagem, foi necessário retomar recentemente o problema como novo: a nova lingüística do discurso não está ainda desenvolvida, mas está ao menos postulada, pelos próprios lingüistas” (era a observação de Roland Barthes, em seu ensaio Introdução à Análise Estrutural da narrativa. Petrópolis, Editora Vozes, 1971)

 

Essa gramática do discurso desenvolveu-se, construindo categorias próprias na dimensão além da frase.

 

Com Roland Barthes trabalhei com as categorias “informação” e dos “faits divers”, no jornalismo. Aprendi muito sobre a força dos “faits divers”, cujo apelo transpõe os limites das categorias das informações de nossos jornais.  Na manchete “Criança afugenta ladrão com revólver de brinquedo” podemos sentir o quanto tal fato transpõe as categorias da informação e o tempo da informação de nossos diários...

 

        Essa nova retórica,  de feição translinguística,  repõe seus focos sobre os agentes do processo de comunicação – emissor e receptor, dois actantes em construtiva ação dialógica.  Sob a ótica de Bakhtin, os dois agentes em diálogo, no processo de comunicação ... "semi-alheio".  Umberto Eco, a partir das várias edições de sua “Obra Aberta”, alargando os limites desse “diálogo” ... 

 

 

Exageros da obra aberta

 

Diz-nos, com efeito, Umberto Eco:

 

“Em 1957, J. M. Castillet escreveu um livro intitulado La hora del lector, Foi realmente um profeta. Em 1962, escrevi minha Opera aperta (Obra aberta). Nesse livro, eu defendia o papel ativo do intérprete na leitura de textos dotados de valor estético. Quando aquelas páginas foram escritas, meus leitores focaliza­ram principalmente o lado aberto de toda a questão, subestimando o fato de que a leitura aberta que eu defendia era uma atividade provocada por uma obra (e vi­sando à sua interpretação). Em outras palavras, eu estava estudando a dialética entre os direitos de seus intérpretes. Tenho a impressão de que, no decorrer das últimas décadas, os direitos dos intérpretes foram exagerados”

 

 (...) Algumas teo­rias da crítica contemporânea afirmam que a única leitura confiável de um texto é uma leitura equivocada, que a existência de um texto só é dada pela ca­deia de respostas que evoca e que, como Todorov sugeriu maliciosamente (...) um texto é apenas um piquenique onde o autor entra com as palavras e os leitores com o sentido”. (Eco, Umberto. Interpretação e Superinterpretação.  São Paulo, Martins Fontes, 2005. pp. 27-28.

 

 

Votos a Diatahy

 

A Diatahy, parceiro como co-autor dos Fundamentos científicos da comunicação, desejo relembrar as sadias cumplicidades em nossa caminhada, na UFC, na UECe, no Conselho de Educação, em nossa articulada vida política, citadina e pessoal (em seu transcendente nível do per/sonare).

 

 

Votos a Gervásio

 

Ao professor Gervásio, o alargar da dupla face de Jano, na beleza dos contrapontos: a) no diálogo em dupla-mão entre o ensino e a aprendizagem; b) alunos a aprender com os docentes e os docentes a colher lições de seus alunos; c) os saberes não oficiais como astrologia e quiromancia a se acolherem, entre nós e sem preconceitos, como forma do pensar a vida e o mundo;

 

Votos a Sebastião

 

Ao Sebastião, a percepção da dialética a equilibrar as diversas faces do escrever, do amor, da comunicação em geral e o abrir de nossos olhos para a força originariamente do intransitivo em  nossos verbos, a nos revelar, essa, a força do verbo, que do Gênese ao Apocalipse, faz-se verbo, faz-se concreta carne, habitando entre nós...

 

Votos a Ariane Aguirre

 

A Ariane Aguirre, a preocupação em linguagem direta das avós e mães, diante da importância entre nós da educação, num culposo pacto entre sociedade e governo, num futuro no qual, os a despeito de escolarizados, lançados à vida como analfabetos funcionais, corram o risco de, sem futuro, não encontrem o esperado lugar na vida...

 

 

Onde estava eu?

 

        Diatahy, além de outros, no Grupo Ethos-paidéia,  estranhara minha ausência e/ou laconicidade, a me indagar onde estava. Diria que, nestes dias de janeiro, domina-me, além do duplo olhar de Jano, o que os horoscopistas denominam de “inferno astral”.  E, em outros tempos, era, essa época, ocasião em que eu fugia para bem longe...

 

        Hoje, fico a pensar em aviões, nos tempos de agora, “aterrissando” ...  nas águas, o “inferno astral” convertendo-se em “depressão” e eu a curtir reflexões em meio a solidões.

 

        Em ocasiões assim, o espelho (mesmo o narcíseo das águas) insiste em me mostrar, feito rugas, as sete ou mais faces da vida.  Sinto-me a trilhar,  gauche na vida, na voz em comando de um desses desocupados anjos tortos...

 

        A vida, um bonde cheio de pernas a perturbar-me o safenado coração.  E eu, um prosaico Raimundo a procurar, incessante, fazer rimas com o mundo, sem alcançar solução ...

 

        Seguirei, como no poema de Carlos Drummond de Andrade, mesmo só, o diálogo com a lua e o conhaque, a me botarem, tenham a certeza, comovido como o diabo,

 

        Abraço a todos,

        Marcondes Rosa

 

        21.01.2009

 

 

Poema de sete faces

 

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

 

Post Scriptum:

 

Adísia Sá: depoimento

 

E José Marques de Melo que fez surgir o que ele chamava de “escola do Ceará”, ou seja, um grupo de professores universitários - de áreas diversas – que discutia , estudava e escrevia sobre comunicação. E , foi por sua mão e estimulo, que o grupo produziu “Fundamentos Científicos da Comunicação” editado, por sua indicação, pela Editora Vozes.

 

 

 

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Marcondes Rosa de Sousa