Grupos

A derrota dos intelectuais

A Derrota dos Intelectuais

A grande derrotada nestas eleições presidenciais foi a classe dos intelectuais deste país, que nitidamente perdeu espaço e poder. Os intelectuais criticaram Lula com sua política econômica de juros altos, dizendo que estava tudo errado, inclusive companheiros de partido, advertindo que com essa política ele jamais seria reeleito. Lula contrariou a todos. Apostou em manter a inflação baixa, e o resultado nas pesquisas está aí.


Os intelectuais agora terão tempo suficiente para responder à seguinte questão: se os juros altos beneficiam os ricos e prejudicam os pobres, por que a grande maioria dos ricos e a classe média estão preferindo Alckmin, e os pobres, Lula?


O próprio PSDB se cansou de sua ala intelectual ao escolher Geraldo Alckmin. Os intelectuais que sobraram no PSDB não conseguiram alinhavar um plano de governo até quatro dias atrás, quinze dias antes das eleições. Ultimamente, o que caracterizou nossos intelectuais foi o silêncio. Eles mesmos admitiram essa constatação. Os mais independentes se limitaram a manifestar sua indignação diante da corrupção sem ao menos apresentar um esboço de solução. Não vi ninguém sugerir aumento das verbas para cursos superiores de contabilidade, auditoria e fiscalização, dizimadas durante o governo militar.


Todo país precisa de pessoas pensantes de várias disciplinas para, juntas, encontrar soluções para suas aflições. Os Estados Unidos devem muito a seus think tanks, como Brookings Institute, NBER, Russell Sage Foundation, muitos criados em 1910 e que contribuíram para o desenvolvimento do país. Leiam The Idea Brokers, de James A. Smith. Talvez seja por isso que o Brasil está à deriva, sem rumo e sem projeto. Pesquisem os sites de nossas principais universidades e procurem as “soluções para a corrupção”, soluções para os juros altos”, “ soluções para a questão da previdência”, “soluções para fazer o Brasil crescer”.


Quando muito, encontraremos papers de um professor ou outro, raramente uma solução multidisciplinar incluindo direito, economia, administração, demografia, sociologia, medicina, atuária, só para citar as áreas que deveriam se reunir para achar uma saída para a previdência, por exemplo.


Nossos planos de combate à inflação não foram criados por universidades com o concurso de psicólogos, contadores de custos, administradores, advogados, publicitários, economistas de várias escolas, como deveria ter ocorrido. O mais dramático dos planos, o Plano Collor, foi elaborado às pressas por três economistas enfurnados num hotel.


O cerne do conceito de universidade é justamente congregar intelectuais num mesmo lugar ou “universo”, para que eles pesquisem e proponham soluções em conjunto. Se fosse para todos ficarem enfurnados em suas faculdades, não necessitaríamos de universidades. Quando eles assinam algo em conjunto, são muitas vezes abaixo-assinados ou artigos que não vão além da crítica, destrutiva de preferência, ou platitudes como “precisamos aumentar os gastos com a educação”.


Nossos intelectuais, com notórias exceções, têm muita dificuldade para desenvolver trabalhos em grupo. A grande maioria é no fundo individualista, egocêntrica, vaidosa e persegue seus interesses pessoais de pesquisa. Muitas das qualidades que eles próprios criticam e odeiam.


No setor privado, quem não sabe trabalhar em equipe ou em grupo não mantém o emprego nem um dia sequer. Não é esse tipo de intelectual de que o Brasil desesperadamente necessita. Intelectuais custam caro. Sustentá-los para que fiquem pensando por nós nas faculdades é um luxo que somente países desenvolvidos têm condições de custear. Nossos intelectuais têm de mostrar mais eficiência e capacidade de cooperação entre si. Num país pobre, eles precisam justificar cada centavo que o povo neles deposita. Um recente estudo da OCDE mostra que o Brasil é o país que mais gasta com universidades e não tem o retorno que deveria.


Este silêncio, essa flagrante omissão no especificar soluções multidisciplinares, em entrar nos detalhes, a tendência de ser simplesmente contra alguma coisa, não justifica o salário. Corremos o risco de o povo, os políticos, os governantes, não mais acreditarem na manutenção da classe intelectual.


Stephen Kanitz é formado pela Harvard Business School (
www.kanitz.com.br)

Editora Abril, Revista Veja, edição 1975, ano 39, nº 38, 27 de setembro de 2006, página 24

 Derrota dos Intelectuais

 

 

 

 

Crescimento econômico aliado

a desenvolvimento sustentável

 

(...) harmonizar crescimento econômico com o desenvolvimento sustentável, como queria Francisco de Assis (o medieval e o mítico de agora), voltado para os “menores” e, agora, o ecológico, (potencialidades e limites da natureza), criação divina, Irmão Sol, Irmã Lua, de onde, adões e evas, brotados do chão animados pelo “sopro divino”, nascemos todos... (Marcondes Rosa de Sousa, coordenador do Grupo Ethos-Paidéia)

 

 

 

            Neste domingo, cada um de nós, de alguma forma, estará depositando nas urnas seu voto, que, mais que obrigação, é desejo, recado.  Que escolhamos, cada um, o direito de expressar nosso desejo:  nos melhores, a nosso ver, da melhor farinha do saco, em branco, nulo, não “neles mas nela”, de protesto que o seja...

 

            De minha parte, gostaria (tentando colher, ao meu redor, o que vai no “inconsciente coletivo de nosso povo”), de transcrever, para a reflexão, neste momento, texto que extraio de Leonardo Boff, em seminário realizado em Brasília:           

 

            Segunda categoria: irmão menor, frater minor. Menor, porque, naquela divisão social burguesa de maiores e menores, ele ficou com os menores. Este é o sentido social de menor. Sua ordem é a dos frades menores e se escreve, abreviando, O.F.M, Ordem dos Frades Menores. Além desta ordem tem a Ordem dos Mínimos, menores ainda que os menores, mais radicais ainda. E hoje nós inventamos mais uma ordem, a dos lascados. Há todo um movimento nordestino dos frades, para a criação da Ordem franciscana dos lascados, da Ecclesia Lascatorum, da ordem dos lascados.

 

            Imaginem vocês que, lá no Ceará, São Francisco é nordestino, não é de Assis, é São Francisco do Canindé*.  É o maior santuário franciscano do mundo e passam por lá milhares e milhares de pessoas.  Estive lá, várias vezes.  O povo acha que os frades escondem São Francisco dentro daquele convento enorme.  Estão o povo vai à Igreja de São Francisco, paga as promessas, desfila diante do convento, olha-o com curiosidade para ver se ele está lá dentro. E dizem uns aos outros: “São Francisco está lá dentro, escondido. Eu o vi. Estes padres alemães são maus, escondem São Francisco”. Isto porque a mentalidade mítica popular não é diacrônica. Ela é sincrônica. Moisés, Jesus, João XXIII vivem todos num mesmo tempo. Não é o São Francisco Medieval. É o São Francisco de hoje, que está em Canindé, e não é de Assis.

 

São Francisco, portanto, é frade menor.

 

ELEIÇÕES 2006: Voto como direito PDF Imprimir E-mail
Por Marcondes Rosa de Sousa*   
28 de setembro de 2006

claudio-entrevistaprojetobrasil1Em pouco, iremos às urnas. O clima agora é bem outro. Política é "coisa suja", a nos despertar asco e absenteísmo. Em vão, a Justiça Eleitoral põe em close up o voto como direito. Os partidários do voto como protesto e "recado" retraem-se. E a maioria busca os "menos corruptos", ante o quadro do "farinha do mesmo saco". Em casa, folhetos me pedem o voto, com a desculpa da invasão de meu lar. E, em público, candidato amigo me deixa, sem jeito, "santinho" seu...

Afasto-me da TV e dos jornais. Mergulho em leitura. Nisso, o Conselheiro Federal de Economia, Cláudio Ferreira Lima (Foto), por e-mail me envia “Um projeto para o Brasil: a força da unidade na diversidade”, proposta do Cofecon, para debate, nesta eleição, com vistas à construção de um projeto assentado no desenvolvimento sustentável: “um crescimento econômico eficiente e racional, que respeita as pessoas e os limites da natureza”. Em tudo, do prólogo ao fecho, com vistas ao debate das grandes questões nacionais, sob a pauta do “retornamos a Celso Furtado: O valor do trabalho de um economista, como de resto de qualquer pesquisador, resulta da combinação de dois ingredientes: imaginação e coragem para arriscar na busca do incerto”.

Tal porto, nos versos de Eduardo Galeano citados: "Onde se recebe renda per capita? Tem morto de fome querendo saber. Em nossas terras, os numerinhos têm melhor sorte que as pessoas. Quantos vão bem quando a economia vai bem? Quantos se desenvolvem com o desenvolvimento?" Por fim, o legado de Celso, em suas proféticas palavras: "Os países da periferia do capitalismo estão condenados a 'inventar' suas estratégias de desenvolvimento. Caso contrário, entregarão seu destino aos processos de reiteração das condições que geram a dependência e o atraso".

E "dependência e atraso", não é, sem dúvida, o destino ..."deste País"! 

Fonte: Jornal O Povo do Ceará - 27/09/2006


_______________________
* Professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente. e-mail: marcondes1943@yahoo.com.br

Extraído de: http://www.cofecon.org.com.br/

 

Ouvir estrelas (Marcondes Rosa)

13:25 @ 03/10/2006

Olavo Bilac

 

 

OUVIR ESTRELAS

 

Marcondes Rosa de Sousa

     

      Vejo o País, buscando entender-lhe os contrastes. Os indi­cadores eufóricos falam de crescimento. E a pobreza inclui-se à mesa e na escola. Os diplomas, porém, resvalam sem fundos, sem qualidade, per­didos do porto do emprego. A expectativa de vida se amplia. Mas se afoga na depressão dos aposentos. A liberdade se escancara nas fronteiras e ruas. Mas para o crime organizado, os cidadãos, por trás das grades e cercas, reclusos nos lares, trabalho e lazer. Política se associa a corrupção. E a mai­oria descrê de seu sentido (69%, diz o Ibope).

 

       O cosmo, desde Galileu, se move em órbita. Astros nascem, morrem e se transformam. E o pensamento hoje se diz complexo, unindo ciência e religião, dos rituais primitivos ao zen-budismo. O homem, de inteligência múltipla (que inclui espiritualidade e afeto), vê-se um todo de corpo e alma. Judeus, islamitas e cristãos se dão as mãos. E a era se diz “simbólica” - o mítico e o lógico em diálogo. O apocalipse retoma o sentido de “revelação”, em linguagem surrealista, de “fim de um ciclo”, mas de prenúncio de nova ordem: a holística, do caleidoscópio, da tensão produtiva entre o império da maioria e o direito das minorias e diferentes.

 

       Com os astrônomos, aprendemos que plutão é asteróide menor, persistindo, porém, no horóscopo. Reis magos, guiados por um astro, voltamos à manjedoura de uma estrebaria, onde o verbo se fez carne, prenúncio do ecológico depois retomado por Francisco, o “de Assis”, depois “das Chagas” - hoje o das romarias de um francisco de agora: “o de Canindé”, no agreste nordestino.  

 

      Tempo de reler Bilac e ouvir estrelas. Conversar com elas e retomar o sentido primário da caridade. Não a humilhação da esmola, mas o amor-doação. “Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas”. Este, o não-dito, esperança latente!

     

     

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará

        

 

 

 

 

 

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráficos corretos e be­los), em cadernos onde começávamos a “cobrir” as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas. Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Catunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipu­eiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradeci­mento, abraçá-la.

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (I)

 

Uma reflexão sobre a leitura

a partir de pessoal história-de-vida

 

Por Marcondes Rosa de Sousa

 

 

1.     Um manifesto a provocar discussão

 

Do Prof. Vagner Muniz, omv@belasletras.br, recebe­mos, na Lista de Discussões “Ethos-Paidéia” – que, no “sítio” http://www.grupos.com.br/ethos-paideia, coordenamos, a in­trigante notí­cia de que, pelo ambiente universitário, estaria cir­culando um “Manifesto contra a leitura”. De início, diz-nos o professor, que, ao fato, não dispensou maiores atenções. Afinal, já estava se acostumando com as reações de seus alunos, em respostas às sondagens, feitas a cada início de perí­odo letivo, to­das na direção do “não gosto de ler” ou “não tenho costume de ler”. 

 

Mas agora, diz Vagner, a coisa se torna diferente. Aca­bara de conhe­cer a res­ponsável pelo documento: não uma jovem mas uma senhora de uns 50 anos. Tão contra a leitura, a ponto de a ter vetado aos seus próprios dois filhos.  A razão? É que, a seu ver, a leitura de livros seria uma visão estática sobre a reali­dade, esta, por natureza, dinâmica. Tratar-se-ia, pois, de pro­cesso de congelamento da vida, ao contrário da observação di­reta do mundo, que nos permitiria, deste, apre­ender-lhe o caráter dinâmico... A leitura, as­sim, sob a ótica de tal aluna, seria pro­cesso a nos “emburrecer”!

 

O Prof. Vagner Muniz, em sua mensagem,  diz-nos, de si, “mais vi­vendo, menos aprendendo”. O que dizer de nós ou­tros? No Centro de Hu­manida­des da UECe, encontro o Prof. Francisco Auto Filho, da área de fi­losofia, uma vida inteira em sofreguidão pelas bibliotecas e livrarias. Auto Filho, em meio a baforadas de seu cachimbo, balança a cabeça e sentencia: “Essa gente não gosta de livros. E olhe que não são apenas os alunos. Mui­tos professores jovens pensam assim”. Quanto a mim, já na casa dos 60, fi­cam-me a martelar os refrões da canção: “estou ficando velho e acabado”, tantas as novas bossas, em nosso ca­minho...

 

Coincidência! Havia pedido a meus alunos da disciplina “Produção de Textos”, no Curso de Letras da UECe, que, com base em suas histórias-de-vida, falassem de como adquiriram eles o “código escrito”, a partir de sua ambiência − familiar, es­colar e sociocultural. Que, ao (re)ler cada um seu itinerário de vida, analisasse as imbricadas funções da leitura, da prá­tica da escrita, dos ”modelos” (o gramatical, o retórico e o da poé­tica), e da ortografia. A eles, falei do tal manifesto. Alguém, com uma pitada de iro­nia, insinuou: “essa aluna deve ter lido muito”. Quando os demais per­gun­taram por quê, ele concluiu: “Ora, se a leitura emburrece...”

 

 

2. Leitura, input da escrita

 

A mim, ‘escrevente’ na acepção tomada por Roland Barthes em opo­sição ao ‘escritor’, a “tese” da aluna põe-me abaixo todas as crenças e práti­cas onde a leitura se posta como o input maior não só da prática da es­crita como na aquisição do próprio “código escrito”. “Leitura”, sim, em sua di­mensão mais estrita – a dos livros. Mas “leitura” também sob perspectiva mais ampla: a translingüística e semiológica (da vida e do mundo), ba­silar ao dialético jogo da desconstrução/reconstrução de nossa realidade e en­torno.

 

2.   Só aprendemos aquilo

 que tem significação para nós

 

Enquanto leio tópicos das histórias-de-vida de meus alu­nos, fico a matutar. Na verdade, sou partidário do socrático “nosce te ipsum” (o “co­nhece-te a ti mesmo”). E do “ti mesmo” como referência maior do amor pregado por Cristo para se che­gar até o amor ao próximo e a Deus. Com Ferdinand de Saus­sure (o pai da lingüística moderna), aprendi que lingua­gem e língua pressupõem significação: meras estruturas formais, se vazias de significado, não chegam a lugar nenhum. E, com pe­dagogos, colhi a lição de que nada aprendemos se o objeto de nossa aprendizagem não nos faz sentido. Daí, o valor que damos à história-de-vida, onde, ao contrário dos curricula vitae de agora, nos quais a vida (pelo menos sob a perspectiva etimoló­gica deveria ter curso), flagra-se quase sempre, estática e em pe­da­ços.

 

 Volto ao passado e releio cenas de minha própria histó­ria-de-vida (escolar e profissional).

 

4. No semi-árido das águas retiradas

 

Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipu­ei­ras (“águas retiradas”, em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a lei­tura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a de­ci­fragem do mundo. Lei­tura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, “leitura da oralidade” – a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Ca­rochinha, que me iam chegando das babás e empregadas do­mésticas e dos múltiplos contadores de história a povoar os ser­tões.

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráfi­cos corretos e belos), em cadernos onde começávamos a “co­brir” as letras, buscando-lhes feições cla­ras e estéticas.  Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Ca­tunda, profes­sora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros di­dáticos, um deles nos chamava a atenção: o “manus­crito”, onde textos es­critos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreen­síveis “garran­chos”, nas últi­mas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na es­cola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mou­rão) , na mesma cidade, tínhamos de decifrar.

 

Garranchos assim, bem mais antigos, eu os encontrava nos gigantes­cos livros em que se registravam as escrituras dos imóveis, no cartório de meu pai. “Livros enormes” sob minha ótica infantil, campo aberto onde ca­rimbos eram “boizinhos” e “rezes” nos imensos campos por entre garran­chos e carrapichos  da manuscrita caatinga. Dali, extraíam-se as histórias das duras conquistas das glebas de terra, romanceadas por meu pai, exímio con­tador de história. Conquistas desde os tempos das sesmarias até os dias de então, que ali afinal se registravam a buscar prote­ção e amparo da lei: ao norte e ao sul, limitando-se com terras dos “coronéis” fulano e sicrano; a leste e oeste, “enquanto re­sistência houver”!...

 

Curioso! O oral e o escrito, em dueto, surgiam-me imbri­cados desde a infância. E a leitura, já aí, não se continha na es­trita dimensão, a dos li­vros. Abria-se, mais ampla, para o inter­pretar de nosso redor. Tudo, em bem dosada mistura entre o real e o fantástico. A leitura dos livros, sim. Mas a “leitura” que, com o pai da lingüística, a chamaríamos “semiológica”.

 

 

 

 

 

 

 

 

Da primeira vez (lembro-me muito), não consegui realizar a tarefa. Ao professor, con­tei todo meu drama na busca e pauta do assunto. Ele, sorrindo, apenas me disse: “Se você ti­vesse, por escrito, contado toda sua busca, garanto que, só aí, teria já ultrapassado as cinco li­nhas”. Daí por diante, olhos nas cinco linhas diá­rias, aprendi a observar e registrar a vida a meu redor: os passeios, os filmes a que assistia, os papos que tinha, os comentários, as reflexões en­fim...

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (II)

 

5. Por entre as brumas da Serra dos Órgãos

 

Adolescente, vi-me arrancado das retiradas águas e das caatingas, transposto para as brumas da Serra dos Órgãos, no Seminário Nossa Se­nhora do Amor Divino, em Petrópolis (RJ), a compor eclética mistura de ga­rotos atraídos da Baixada Flumi­nense, do brabo interior das Minas Gerais e dois outros “paus-de-arara” (o jornalista Frota Neto e eu), estes da aridez das caa­tingas, todos ali, em cristã irmandade, lado a lado com remanes­cen­tes das casas de Orleans e Bragança.

 

Volta-me o dueto dos tempos de infância. Fábulas e estó­rias, desta feita, nos versos de Fedro e Esopo. Música e canto coral, sob a pauta grego­riana, a se casar com os textos litúrgicos. Na biblioteca, os clássicos a dar o tom. Nas salas de aula, a An­tologia Nacional, a nos sugerir os adequados pa­râmetros dos vá­rios usos lingüísticos. De quebra, as cartas e Catilinárias de Cí­cero; os versos de Ovídio e Virgílio, entre outros, os Diálogos de Pla­tão, a Anábase de Xenofonte...

 

Até os castigos nos calariam feitos lição. Para cada tra­quinagem, de­corar versos e textos. Lembro-me de “As pombas”, de Raimundo Correia, o poema primeiro que me coube, por cas­tigo, decorar. E do ódio que tive, como castigo por infração maior, ao ter de pólo na ponta da língua o “Cân­tico do Calvá­rio”, de Fagundes Varela, escrito, num jato, ao chegar em casa o poeta e encontrar o filho morto (rezava o biografismo dos livros didáticos da época), e, sobre o féretro, produzir longos versos a falar de “um frio so­nhar que é morto”... Irresponsável! − conde­nava eu (revoltado com o cas­tigo) as farras do pai-poeta e a vi­são melodramática do romantismo nos tempos do “mal do sé­culo”!...

 

Hoje, releio tudo isso não tanto como castigo mas sob outra ótica: a do dueto entre o oral e escrito, na infância e a es­cola consolidando-se, quem sabe estabelecendo os padrões me­lódicos em minha prática de escrita e es­tilo!  Somem-se a isso, os “discursos” que tínhamos de pronunciar na “aca­demia literá­ria”, os textos do script das peças teatrais onde éramos ato­res.  Em tudo, uma coincidência: quem nos regia - nas aulas, na “academia literá­ria” ou nos cânticos -  era o mesmo professor, sob  o compasso dos textos e dos cânticos, a nos ensinar portu­guês e música ao mesmo tempo.

 

6. O “Caderno das Cinco Linhas”

 

Foi desse professor, Pe. Paulo Elias Daher Chedier, a idéia do “Caderno das Cinco Linhas”. Era um caderno, em Pe­trópolis, obrigatório a todos nós. Na capa, o dístico de Plínio: nulla dies sine línea (dia algum sem uma linha). A cada dia, a apresentação das cinco linhas mínimas ao profes­sor de portu­guês.

 

Da primeira vez (lembro-me muito), não consegui reali­zar a tarefa. Ao professor, contei todo meu drama na busca e pauta do assunto. Ele, sor­rindo, apenas me disse: “Se você ti­vesse, por escrito, contado toda sua busca, garanto que, só aí, te­ria já ultrapassado as cinco linhas”. Daí por di­ante, olhos nas cinco linhas diárias, aprendi a observar e registrar a vida a meu redor: os passeios, os filmes a que assistia, os papos que tinha, os co­mentários, as reflexões enfim...

  

 

7. Oral e escrito, o dueto

 

No Seminário da Imaculada, em Campinas (SP), ultima­ria meus es­tudos de seminário menor. E tais padrões tiveram continuidade. Poucas, as diferenças. O dueto entre o oral e o es­crito ia mais fundo: a “academia literá­ria”, as peças de teatro. E um dado novo, um jornal e uma “rádio”, projetos que terminei por coordenar.

 

Curioso! Décadas após, era eu, na UFC, um do grupo a conceber e implantar a Rádio Universitária e o Jornal Universi­tário. No Estado, termi­naria por presidir a Televisão Educativa e junto à Secretaria Estadual de Cultura, implantaria o Departa­mento de Audiovisuais.  Tudo, numa salutar e semiológica aproximação de linguagens, onde expressões como “gramática do cinema e do audiovisual” não escandalizava ninguém...

 

Voltemos ao Seminário da Imaculada. Como professor de português, ao invés de um músico, um orador desta feita – Mons. Luiz de Abreu, ex-deputado estadual ardoroso fã dos da Revolução Constitucionalista, em São Paulo.  Em latim, um pa­dre belga, Karl Laga, a nos introduzir nos versos de Ovídio e Virgí­lio. No grego e na química, outro belga, também sacerdote, que, em Mede­lin, tornar-se-ia depois importante: Joseph Com­blin.

 

Diferente dos brasi­leiros, o professor de latim não tinha lá tantas preocupações com a tradução. Queria que sentíssemos o texto diretamente, a partir, sobretudo, de sua me­lodia e dos procedimentos sonoros. Tentava nos contaminar em lendo, ele próprio, o texto. E, numa leitura expressiva, pro­curava passar-nos o ritmo e a musicalidade das onomatopéias (os ícones), das ilustrações sonoras (os ín­dices) e dos símbolos.  Quem sabe aí estariam as raízes de minha paixão, anos depois, pela fonoesti­lística, como professor, na UFC e na UECe dos anos 70!

 

Confesso. Este professor, o de latim, nos chocou, de iní­cio. Ao exa­minar as gramáticas e livros didáticos à nossa dispo­sição no Brasil, não gos­tou de nenhum deles. Nem mesmo os editados em Portugal. Entre os brasi­leiros, uma só tolerância: “Os autores deste, pelo menos, eu os conheço. Fo­ram meus alu­nos em Lovaina. E, a sorrir, concluiu: “Pelo visto, eu terei de ser, para vocês, a gra­mática viva”. E, dias depois, na primeira avaliação, mandava-nos ler um cântico a falar do amor entre Enéas e Dido. E, como redação, a temática “A psicologia do amor”. Isso para seminaristas de uns 17 anos, obviamente nada afeitos à “arte de amar”. E, acima de tudo, redi­gida ... em latim!

 

 

 

 

A leitura, assim, não é ato que possa operar-se na solidão. Não é propriedade individual de ninguém. É algo que os sociolingüistas chamam de "semi-alheia" - isto é, em parte "nossa" e em parte "dos outros". Ler, pois, é compartilhar, já que se opera no permanente jogo dialético da reflexão crítica, do somar experiências entre autor (o emissor) e leitor (receptor).

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (III)

 

 

8. Bula de remédio, algo mais chato?

 

Padrões assim, com o tempo, me foram fi­cando.  Os melódicos da frase e do texto, mais que outros quaisquer. Ao prestar vestibular para o Curso de Direito, na Universidade Federal do Ce­ará, no início dos anos 60, dei-me conta do quanto o ritmo oratório de Cícero me fascinava. Eram tempos em que ainda existia, no vestibular, prova oral de latim.

 

Sorteia-me o examinador um texto. E, di­ante de mim, o prólogo das Catilinárias. Sem olhar para o livro, recito o trecho apontado pelo profes­sor. Aqui e ali, perguntas do examinador sobre tempos primitivos de verbo e de­clinações mais complicadas. Faz-me pergunta sob dada forma verbal, equi­vocando-se, porém, na prosódia. Ad­virto-o do engano. Ele, afinal, me per­gunta onde e por quantos anos havia estudado latim. Após a res­posta, a nota: sete! Indago-lhe o que errei. E o pro­fessor: “Nada! Mas os três pontos retirados vão como re­cado: nunca corrija um examinador!”

 

Dois anos depois, esse “examinador” era professor meu de direito comercial. Foi quando nos deixou uma lição sobre a necessidade de lei­tura: “Quem for da área jurídica há de se acostu­mar a ler tudo. Se nada lhe cair às mãos, que leia ... bula de remédio”. E, como que a justificar o con­selho, indagava-nos: “Vocês conhecem algo mais chato que bula de remédio?”  Muitos de meus co­legas não entendiam o que a leitura de tais bulas tinha com a linguagem forense ...

 

 

9. A música a lastrear as palavras

 

Cenas assim marcariam minha história-de-vida docente, ressur­gindo aqui e ali. Lá pelos anos 70, alunas minhas do Curso de Letras da UFC re­clamavam da densidade dos livros que eu lhes pas­sava. Um dia, uma colega professora da área de biblioteconomia resolveu descobrir o que de tão denso existia num dos capítulos passados.  Tomou do livro e, em voz alta, leu alguns parágrafos. As alunas se entreolharam. Desta feita, haviam enten­dido. Sem nada dizer, pediram-me o livro de volta. Ao ter comigo, a pro­fessora me relata o fato sem nada entender.

 

Moral dessa história. A leitura sonora (dita expressiva), com entoa­ção adequada e segmentos melódicos postos em seus devidos lugares, havia levado as alunas à compreensão do texto, antes não conseguida pelo fato de os elementos significantes estarem em desencontro com os significados, na leitura antes intentada por elas. Aí me lembrei da leitura oral que prati­quei em minha in­fância e adolescência. Na facul­dade, vi o signo lingüístico a ter por significante a “imagem acús­tica”. Ao estudar as artes, vi a lite­ratura (a ter por objeto for­mal a palavra) compor o quadro das ar­tes rítmicas, ao lado da música e da dança. Daí, a insistência que, com meus alunos, tenho tido em relação à “leitura expressiva” – aquela que se rea­liza rítmica e sonora.

 

10. Nulla dies sine linea

 

Por essa época, eis que colega de seminário em Petrópolis, Antônio Carlos Duarte, em passa­gem por Fortaleza, me localiza. Papos e nostálgi­cas relembranças. Entre elas, a do “Caderno das Cinco Linhas”, tido por todos do tempo como es­tratégia eficaz para a prática da escrita. Duarte era um dos responsáveis então pela criação da Associ­ação dos Ex-Alunos do Se­minário Nossa Senhora do Amor Divino, em Petrópolis. Levou meus cader­nos, amostragem de como, ao não passar um só dia nem uma linha, apren­díamos a escrever, nos tempos do seminário.

 

11. A “Oficina do Pensar”

 

Em 1977, coordenava eu, junto ao 1º Ciclo de Humanidades da Universidade Federal do Ce­ará, um “Projeto Redação”, que se tornaria co­nhe­cido como “Oficina do Pensar”. Na apresentação do opúsculo aos alu­nos, assim explicávamos:

 

            “Os professores que participam deste “Projeto Redação, ora em curso nesta Universidade, acreditam que, para escrever, é preciso pensar. E que, para pensar, é necessário educar-se a percepção e a maneira de sentir. Por isso, este método visa ao treinamento da ca­pacidade de per­ceber e sentir tanto a realidade direta­mente como indiretamente pela leitura. Depois, um treinamento da capacidade de pensar e, finalmente, de falar e escrever”.

 

         E, mais adiante, no que se refere es­pecificamente ao pro­cesso de ler:

 

            “Se você realizar o treinamento per­ceptivo e sensitivo de que fa­lamos, terá maior desenvoltura no pensar e no comu­nicar-se, oralmente e por escrito. Mas, muito maior ainda, se aproveita o que muita gente mais experiente que você per­cebeu, sentiu e pensou. Mas como poderei ter acesso à experiência de outros? – per­guntará você. Pela leitura – respondere­mos – porque ler é captar a experiên­cia acumulada. Quando você lê, não apenas percebe e sente na pele de outros, mas, so­bretudo, desenvolve a sua própria capaci­dade de perceber, sentir e de comunicar-se”.

 

 

12. Não se processa a leitura em solidão

 

            A essa altura, tínhamos o processo de ler como “captação da experiên­cia acumulada por ou­tros”. No fundo, a visão de que a capacidade hu­mana da linguagem realiza-se no jogo e constru­ção entre o social e o in­dividual: a língua como cons­trução coletiva (o código social), a partir do per­manente compartilhamento entre os “discursos in­dividuais”, em que seus atores plurais revezam-se no diálogo entre emissores e receptores.  A lei­tura, assim, não é ato que possa operar-se na soli­dão. Não é propriedade indivi­dual de ninguém. É algo que os sociolingüistas chamam de “semi-alheia”– isto é, em parte “nossa” e em parte “dos outros”. Ler, pois, é compartilhar, já que se opera no per­manente jogo dialético da reflexão crítica, do so­mar experiências entre autor (o emissor) e leitor (receptor).

 

            A nós professores, a essa altura, já nos domi­nava a consciência de que a língua não se ex­pressa apenas na frase. De que há uma “sintaxe” além da frase a tecer o “discurso” num texto - a unidade mais ampla, soldada por mecanismos a lhe emprestar coesão e coerência. O texto, pois, é um te­cido, armado em camadas: das de superfície às profundas, umas significan­tes das outras.

 

            Éramos cientes já de que as palavras não re­tratam o mundo apenas sob a perspectiva con­ceitual (de imagem intelectual dos objetos). Tal retra­tação vai além sob o crivo de nossos vários sentidos. E mais: a lastrear esse quadro, o mundo emotivo. Em outras palavras: no texto, os “con­ceptos”, os “perceptos” e os “afectos” – vale di­zer, as “unidades conceituais”, as “perceptivas” e as “afetivas”...

 

            Os estudos lingüísticos e estilísticos aos pou­cos abandonavam suas “re­duções eidéticas” que os prendiam aos limites do conceitual (a “ima­gem intelectual do objeto) e aos da realidade obje­tiva, possibilitando que o “dis­curso” e o texto avançassem não só para além dos limites da frase como também até as profundezas maiores da re­presentação do mundo e da vida: a conceitual, a imagético-sensorial e a emotiva.

 

 

 

 

 

<$BlogPosts_Titulo$>

<$BlogPosts_Data$>

<$BlogPosts_Texto$>

\clip_image001.gif">Grupos.com.br 2005 - Todos os direitos reservados

 

 

 

 

Hoje é cada vez mais forte, em mim, a crença de que "no principio, era a interjeição"! A cena da Torre de Babel, já no Velho Testamento, derrubou-nos as estacas da engenharia e da razão, quando não sustentadas pela coesão da linguagem. O advento de Pentecoste, porém - quando Cristo com seu projeto já era morto -, veio mostrar-nos que o próprio verbo, sem as "línguas de fogo" da emoção, pouco é capaz de construir.

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (IV)

 

 

13. No princípio, a interjeição

 

  Professor, confesso que lá pelos anos 70 e 80, quando a emoção ainda não se reconhecia um dos tipos da hoje “inteligência múltipla”, tí­nhamos ainda o afetivo em plano e lugar ainda difusos. Di­ria que, em nossa “gramática” (a da língua e a do discurso), tentávamos articular o antigo e o novo testamentos. “No princípio”, quando Jeová criara o mundo, era o “nome” dado por ele às coisas postas no céu e na terra. Depois, com São João, reconhe­cíamos que “no princípio, era o verbo”. E aí, na tensão entre thema e rhema (sujeito e predicado), pensávamos ter descoberto o jogo lingüístico: frá­sico e transfrásico (além da frase, textual). A mim, intriga­vam-me, já aí, as pentecos­tais línguas-de-fogo da emoção: cada um a falar sua língua e, a despeito disso, todos a se entenderem...

 

  Hoje é cada vez mais forte, em mim, a crença de que “no principio, era a interjeição”! A cena da Torre de Babel, já no Velho Testa­mento, derrubou-nos as estacas da engenharia e da razão, quando não sustentadas pela coesão da lin­guagem. O advento de Pentecoste, porém  – quando Cristo com seu projeto já era morto –, veio mostrar-nos que o próprio verbo, sem as “línguas de fogo” da emoção, pouco é capaz de construir.

 

                        14. A criança, o pai do homem

 

Hoje, com Pedrinho, o neto, reaprendo a li­ção de Wordsworth: “a cri­ança é o pai do homem”. A observar as relações de Pedrinho com o mundo, chego a pensar que, “no princípio, é a interjeição”, tal a incidência de onomatopéias, exclamações e confusos sons a lhe servir de veículos para a retra­tação do mundo.

 

 Acompanho-lhe – eu agora o aprendiz − as tentativas, em suas confusões fo­nológicas, ao ten­tar referir-se ora ao “au-au” (o cachorro), ora ao ‘ou-ou” (o vovô), em fônica confusão entre os dois... E, atento, sigo-lhe as tentativas de, ao mistu­rar as mais diversas sensações (gusta­tivas, táteis, auditivas, olfativas, cinéticas), cons­truir a si­nesté­sica tradução de seu entorno.

 

 Tomo sustos quando o vejo atirar objetos ao chão. E a sorrir, como que a gritar um “heu­reka” quando, triunfante, desmistifica o todo em cacos, como a compreender, com a desmontagem analítica das peças, o segredo do todo, amálgama das partes diversas. Tudo, como se o mistério da vida e do mundo nada mais fosse que o dialético jogo do desconstruir/reconstruir, no contínuo vai-e-vem entre a análise e a síntese..

 

    Ante o protesto do filho-pai, para quem “avô põe o neto a perder”, co­meço a “reler”, sob a atmosfera do dístico “a criança é o pai do homem”, toda a minha pedagogia. E, nessa atmosfera, é com surpresa que, no Audi­tório Castelo Branco (UFC), ouço por ocasião da recepção por ela do título de professora emérita, a Glauce de Barros Viana, que comigo foi pró-rei­tora (ela de pesquisa e pós-graduação e eu de extensão). Alegro-me solidário a vê-la desmitificar o comportamento dos cientistas como um jogo de crianças...

 

    Fiquei pensando na “visão revista” dos pro­fessores (quando postos na galeria dos “eméritos”) e de nós outros mortais (quando “avós”), uns e ou­tros talvez criticados (como pelos filhos agora pais) por estarmos “colo­cando alunos e netos a perder”... E, daí, faço projeções e recuos sobre a es­cola: a minha, a de meus filhos, de Pedrinho e da imensa maioria dos brasileiros. Com certeza, não a mesma: um universo a se diversificar por época e pelas categorias sociais...

 

***

 

    Nisso, acode-me cena de quando Presidente do Conselho de Educa­ção do Ceará. Um dia, re­cebo convite da pediatra Ana Maria Cavalcante, fundadora da Escola de Saúde Pública do Ceará e então a dirigir o Hospital Albert Sabin, em Forta­leza. 

 

Ela fez questão de me mostrar, em funciona­mento, os diversos seto­res do hospital. Em cada um, via eu sua preocupação, além da saúde, com a educação. Após todas as dependências do órgão, um convite final, já olhando através da vi­draça, o interior da UTI: “Sei que, para um safe­nado, a UTI não é o melhor lugar”. Ela ia me des­crevendo a cena vista por trás dos vidros: “Ali, a fonoaudióloga estimula as bochechas daquela cri­ancinha recém-nascida. Com isso, o bebê termi­nará por ativar a capacidade para su­gar o leite da mãe, e assim alimentar-se”.  E eu, ante o cúmplice olhar dela, vou insinuando: “... e, depois, articular sons, fa­lar, ler, escrever, pensar, desconstruindo e re­construindo o mundo e a vida!...”

 

  Ao concluirmos a visita ao hospital, Ana Ma­ria, entre surpresa e satis­feita, lança-me a inda­gação que guardara para o final: “Diga-me, isso aqui é um hospital ou uma escola?” Sem pestane­jar, lhe respondo: “Os dois, em integração”. E ela: “Então, como credenciar essa ‘escola’ no Conse­lho de Educação do Ceará?”

 

Em cumplicidade, apenas sorrio, lem­brando-me do Art. 1º da Lei de Diretrizes e Bases, onde a educação se define como amplo processo em que são parceiros os atores diversos de nossa sociedade: família, escola, mo­vimentos sociais, igrejas, meios de comunicação, agentes culturais, dentre outros.  Mais abaixo, que a educação esco­lar não poderá estar desvinculada da “prática so­cial” e do “mundo do trabalho”.  Assim, do esti­mular as bo­chechas de uma criança ao amplo pro­cesso de “ler” e “dizer” o mundo e a vida, é que haveremos de construir, nos termos da LDB, a nossa paidéia a ter, como porto final, a convivên­cia humana, o ethos.

 

 

 

 

 

 

 

 

<$BlogPosts_Titulo$>

<$BlogPosts_Data$>

<$BlogPosts_Texto$>

\clip_image001.gif" o:href="http://www.grupos.com.br/images/template/logos/gruposinternet.gif">Grupos.com.br 2005 - Todos os direitos reservados

 

McLuhan equivocou-se. Não percebeu que um novo meio, em chegando, provoca é o redimensionamento e o enriquecimento até dos anteriores. Assim aconteceu com a escrita. E aí está a Web, dando dimensão nunca vista ao alfabeto: "do manuscrito ao hipertexto". E, nesse contexto, aí sob nova feição está o livro.

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (V)

 

 

 

 

15. “O livro já era?”

 

            O que, em conclusão, dizer do “Manifesto contra a leitura”, cujo teor não conhecemos a não ser pela notícia do Prof. Vagner Muniz?

           

            De princípio, confessar a impressão que pri­meiro nos assaltou: a de se tratar de apressada re­ação de retardatária herdeira de Marshall McLu­han.

           

            Nessa direção, a propósito, invade-me a lem­brança da ir­reverente reação de Ariano Suassuna quando alguém lhe avisou que “o livro já era”: “O livro já era? Quem disse isso?” Ao que lhe informa­ram: “McLuhan...” E Suassuna: “Onde ele disse isso? Na televisão?” “Não, ele es­creveu um ... livro”. “Ah! - suspirou irônico o nosso educador...

 

            Irreverências à parte, McLuhan nos chamou a atenção para a força dos meios de comunicação como extensões do próprio homem a nos moldar, em cada tipo de sociedade, os parâmetros da per­cepção. Teve lá seus exa­geros, confundindo “meio” e “mensagem” (o meio com tanto vigor que, em suma, contagiava, com seu efeito, a pró­pria mensagem, com ela se confundindo). Nesta li­nha, McLuhan vaticinava que a chegada de um novo meio sepultaria o anterior. Assim, o livro, expressão da “Galáxia de Gutenberg”, estaria, nestes tempos di­gitais de nossa “aldeia global”, com os dias conta­dos... 

 

            McLuhan equivocou-se. Não percebeu que um novo meio, em chegando, provoca é o re­dimen­sionamento e o enriquecimento até dos ante­riores. Assim aconteceu com a escrita. E aí está a Web, dando dimensão nunca vista ao alfabeto: “do ma­nuscrito ao hipertexto”.  E, nesse contexto, aí sob nova feição está o livro.

 

16. Dentro de mim,

buscando a oposi­ção...

 

            Não é, porém, essa a questão levantada pela autora do “Manifesto contra a leitura” – percebe­mos logo. Rejeitá-la de pronto? Não nos pareceu o melhor caminho. É que aprendi com o motorista que me ensinou a dirigir: “não se mete marcha sem pisar na embreagem”. E, seguindo Heráclito, vali-me de seu “a oposição traz benefícios”. Aí, tentei esvaziar-me de minhas certezas e dos meus pre­conceitos, crente de que poderia encontrá-los sob a ótica alheia, que poderá até nos ensinar que “a or­dem mais bela é um monte de detritos amon­toados ao acaso”, também de Heráclito.

 

            Dando tratos à bola, tentei buscar sob que perspectivas a leitura se­ria capaz de ... “emburre­cer”.  E tomei, por via, nessa busca, mais uma vez, os ensinamentos de Heráclito: “Procurei dentro de mim mesmo”...

 

            17. Clichês, a compor chaves-de-ouro

            e empobrecer meus sonetos

 

            Foi aí que me ocorreu cena de quando fazia disciplinas pedagógicas necessárias à licenciatura, Faculdade de Educação da UFC. Após haver en­tregue um trabalho escolar, certa professora me chamou, dizendo haver gostado do que eu havia escrito. Uma observação apenas: havia eu esque­cido de apor as referências às citações que dos ou­tros fizera.

 

            Estranhei a afirmação e pedi à professora que me desse exemplos. Ela destacou, de plano, a primeira frase: “De onde você retirou esta afirma­ção?”. Expliquei-lhe que havia sido eu próprio quem tinha dito. Aí ela me replicou: “Não! Tudo quanto dize­mos, alguém já disse. Você tem que fa­zer a cita­ção...”

 

            Não me ocorria ter “roubado” a afirmação de quem quer que fosse. Também a professora não sabia me dizer de onde eu a havia furtado. Ela apenas não acreditava que eu fosse capaz de emitir tal pensamento. Mesmo assim, não me opus à pro­fessora, que cercou minhas frases de aspas, a re­clamarem as comprovadoras notas de rodapé. Em mim, ficou a sensação de que ler assim seria algo aborrecedor (não me ocorria ainda o “emburrece­dor”). Pior, a dimensão do ler apenas como um ato de repetição.

 

            Anos mais tarde, eu já a coordenar o 1º Ci­clo de Humanidades na UFC, vejo a mesma pro­fessora a ministrar ali disciplina Introdução à Educação, a esta altura sob minha coordenação. Eram tempos em que o behaviorismo pregava a imitação como valor mais alto. Tempos em que os programas das disciplinas, comportamentalistas, restringiam seus objetivos a uns poucos verbos (à época, uma duas dezenas) a falar a prescrever pro­cessos mentais lineares e concretos. Tudo mais ou menos assim: “ao final desta unidade, os alunos se­rão capazes de...”

 

            Lembro-me, por essa época, de um profes­sor ligado ao Conselho Britâ­nico, que, em fina iro­nia, ao nos visitar, definia o “aluno ideal” para os docentes be­ha­vioristas, então reinantes (que eu chamava de “o pessoal do repeat after me”): “aquele que traz, para a sala de aula, um caderno, uma caneta e ... uma cabeça vazia”. E de ocasião outra, na Universidade Federal do Piauí, em en­contro nacional onde dis­cutíamos a educação supe­rior, um fato que me causou satisfação e surpresa.  No departamento de biologia, ao lado do auditório onde se realizava nosso encontro, eis que macacos, enjaulados, re­voltaram-se, quebraram as grades e, adentrando no auditório, rasgaram os albuns seria­dos eivados da taxionomia comportamentalista de Bloom… Não me contive: saudei-os pelo ... “gesto de inteligência”!

 

***

 

            Mas voltemos à professora. Em se apresen­tando aos alunos, na pri­meira aula, ela pediu que, a partir daquele dia e por toda uma semana, cada aluno trouxesse para a aula uma moeda, de qual­quer valor. Ao fazer a cha­mada dos alunos, nas próximas aulas, fazia o aluno vir até a mesa do pro­fessor e, num cofrezinho (desses infantis), de­positar uma moeda, cujo valor ela anotava à parte.  E assim foi pelo suspense de uma semana, com co­mentários muitos entre os alunos.

 

            Chegou o dia “D”. A professora inicia a cha­mada. E, ao recitar cada nome, pede ao aluno que venha até a mesa do professor. Consulta suas anotações e, embaladas em um saquinho, devolve as moedas para o dis­cente. Afinal, a moral da his­tória: “Aqui, neste curso, cada aluno terá de volta aquilo que trouxe!”

 

            Também eu acompanhava a estratégia, curi­oso. E, confesso, tudo isso me trouxe de volta aos tempos de meu “Caderno das Cinco Linhas”, quando Pe. Paulo Daher, o professor de português, chamou-me a atenção para o descompasso, em meus sonetos, entre o “corpo” e a sua suposta chave-de-ouro: esta, quase sempre, um clichê, um lugar-comum, um chavão, desses de estragar retro­ativamente as estrofes anteriores. Isso, muitos anos depois, com apelo positivo ou negativo, me faria criar a figura do “signifi­cante regressivo”, em mi­nhas aulas de estilística...

 

            A moral da história decepcionou-me. Na ver­dade, acompanhava a ex­periência, olhos volta­dos e à espera do apelo à construção coletiva ao fi­nal... Caí do cavalo. Que curso afinal seria esse onde cada um lucraria apenas aquilo que para ali trouxera? Qual a contribuição do grupo, do cole­tivo? Como o individual in­tegrava-se ao coletivo? Que lição os alunos poderiam colher para a convi­vência em seu grupo, sua comunidade, sua cidade, região, país, fazendo-os personagens por fim do projeto humano? Qual, nesse contexto e afinal, se­ria contribuição e a ação pedagógica dos professo­res?

 

 

 

 

<$BlogPosts_Titulo$>

<$BlogPosts_Data$>

<$BlogPosts_Texto$>

\clip_image001.gif" o:href="http://www.grupos.com.br/images/template/logos/gruposinternet.gif">Grupos.com.br 2005 - Todos os direitos reservados

 

A leitura emburrece? (VI) Marcondes Rosa de Sousa

18:54 @ 08/10/2006

 

Na escola, muitas vezes o "ler" tem a conotação de mera "compreensão" fechada do que nos propõem os autores. Não o diálogo, a contestação e "oposição a gerar benefícios". Quando a leitura se situa nesse plano, ela não é prazerosa. Nessas condições, pode nos aborrecer, beirando o território do "emburrecer".

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (VI)

 

 

18. Ares prenhes do solidário

 

            Aprender, para mim, não é ato que possa brotar da solidão. Instrumento do aprender, a lei­tura. Esperava que a professora chamasse a aten­ção para o compartilhamento e o diálogo, valores mais vivas inerentes ao aprender. Na verdade, são esses os valores de que, em minha pedagogia, hoje falo. Vejam o espírito que, recentemente, evoquei no artigo “Orfandade” (O Povo, de 08.12.04:

 

            “Em aula, falo da solidariedade a lastrear linguagem, letras e comunicação. Assim, a escola, os currículos e a própria aprendiza­gem. E a universidade, por fim, que, se em solidão, não dirá a que veio. Aí, falo de Celso Furtado e dos ares plenos do solidário.”

 

            Na verdade, são os ares plenos – e prenhes – do solidário que dão sen­tido à leitura. Se assim não for, ela (se não nos “emburrece”) no mínimo, nos aborrece… Linguagem, a leitura é um diálogo en­tre autor e leitor. E, como tal, ela só se justifica no dialético jogo da troca e do compartilhamento.

 

            Na escola, muitas vezes o “ler” tem a conota­ção de mera “compreen­são” fechada do que nos propõem os autores. Não o diálogo, a contes­ta­ção e “oposição a gerar benefícios”. Quando a lei­tura se situa nesse plano, ela não é prazerosa. Nes­sas condições, pode nos aborrecer, beirando o ter­ritório do “emburrecer”.

 

            É nessa área que podem ser justificadas as conotações pejorativas que, em nossa semântica, estão latentes em expressões como “cultura li­vresca”, “cultura inú­til” ou  “rato de biblioteca”, entre outras. Por ironia, até louvadas como melio­rativas em nossa es­cola e por nossas famílias. Re­cordo-me de cena entre meu primeiro filho e o vi­zinho, este cultuado pelos pais como um desses ge­niozinhos de escola. Os dois brincavam, distra­indo-se com uma dessas re­vistinhas a falar de ani­mais pré-históricos. A certa altura, Eduardo, o vizi­nho, indaga: “Cláudio, tu sabias que, na era meso­zóica, já existiam tuba­rões?” E Cláudio: “Arre égua, Eduardo, o que di­abo é era mesozóica?” E Eduardo: “Também não sei. Só sei que, na era me­sozóica, já existiam tu­ba­rões”.

 

            Quando presidente do Conselho de Educa­ção do Ceará, bati-me muito contra essa “cultura livresca” divorciada dos demais aspectos da vida. Em particular, contra o marketing de algumas es­colas particulares a ter por lema o refrão “ou o pó­dio ou a sepultura”, todos nos pódios das olimpía­das, dos primeiros lugares no vestibular. Isso, até chegar à universidade. Depois na vida, o anoni­mato. E, na pele, o amarelo da fuga ao sol, ao es­porte, ao lazer, os oculosinhos apertados, a solidão dos livros…

           

            Um dia tive de, junto ao Palácio do Go­verno cearense, participar de re­cepção que o go­vernador faria aos primeiros colocados em olimpí­adas in­ternacionais de ciência.  No gabinete do go­vernador, vi o então secretário de educação (mais adepto do “demos” que do “aristós”) não lá muito entusias­mado com o caráter simbólico da recep­ção. Junto ao governador, lembrei, na postura dos premiados, alguns traços com força e apelo de “ícone” para jovens ou­tros de nossa rede escolar.

           

            Ao falar em nome das escolas, um dos direto­res, querendo dizer que ali estariam possi­velmente os “futuros dirigentes do Estado”, assim se ex­pressou: “Governador, aqui estão os futuros Tassos Jereissatis de nosso Es­tado”. Bem humo­rado, o então governador, ao final, emendou: “Olhem! Eu só queria avisar a vocês que sempre fui fraco em matemática”. E todos, se não capta­ram o re­cado de Tasso, riram-se… Talvez Tasso Jereissati quisesse dizer que a fria matemática não bastava a um governante. Mais do que ela, tato e sensibili­dade desempenhavam papel importante… Em outras pala­vras, a es­cola não é lócus de apren­dizagem fria. Assim, veículo de aprendizagem, também a leitura: não há de ser congelada, mas viva e candente!...

 

19. Rever-se o sentido da escola

e, nela, o da leitura

 

            A escola, sim, mereceria rever-se, revendo seu sentido e, dentro desse, repondo suas concep­ções sobre o processo da leitura. Não como mera e estática fonte da informação, insípida, inodora e desafetivizada compre­ensão de meros e abstratos conceitos. Mas, ao contrário, o prazeroso e provo­cante diálogo, em tom de autêntica con/versa, no dialético jogo de visões entre autor e leitor. Rever-se em sua global estrutura: desde a educação in­fantil – quando a per­cepção do mundo se inicia pelas sinestesias (a permuta das diversas sensa­ções) até os estágios superiores dos diferentes ní­veis do desvelar da vida e do mundo pela “leitura lingüistica e semiológica”.

 

 

 

 

<$BlogPosts_Titulo$>

<$BlogPosts_Data$>

<$BlogPosts_Texto$>

\clip_image001.gif" o:href="http://www.grupos.com.br/images/template/logos/gruposinternet.gif">Grupos.com.br 2005 - Todos os direitos reservados

A leitura emburrece? (VII) - Marcondes Rosa de Sousa

20:31 @ 08/10/2006

Ler por ler, sem procurar, de alguma forma, fazer seu conteúdo tocar-nos de alguma forma, a pouco nos levará.

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (VII)

 

 

20. Lições arrancadas

de uma história de vida

 

No curso de minha história de vida (pessoal e docente), colhi algumas lições. E creio ser oportuno, ao tempo em que conclamo o concurso de quantos também as tiveram, aqui cotejá-las. No que toca a mim, algumas delas me foram tropeços, hoje lidos ensinamentos. Questão apenas do jeito e enfoque com que os olhamos...

 

           

            20.1 –Por si sós, estruturas

não fazem sentido

 

 A primeira dessas lições, a significação como fim último da própria atividade de ler.

 

 Embora, apaixonado pelo estruturalismo lá pelos anos ‘70, estruturas formais per se, desprovi­das de sentido, jamais me despertaram a atenção. Com Saussure, aprendemos: as estruturas só se tornam lingüísticas, se permeadas de significação. E, tradução pedagógica desse semiológico princípio, o que com J. Bruner ficou-nos: “não existe aprendizagem se o que aprendemos não nos fazem sentido”.

 

  Para mim, isso se tornou particularmente concreto numa dada situação. Professor jovem, não tinha lá muita condescendência e paciên­cia com alunos cujos textos me cheiravam ao caótico ou à falta de coesão e coerência. Nos trabalhos escolares de meus alunos, era hábito meu, em meus primeiros anos de professor, apor-lhes ostensivas anotações em vermelho, sob a notação dos reclamados “sambas-do-crioulo-doido” (alusão ao samba de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sérgio Porto).

 

Uma vez, reprovei uma aluna que, entre as pérolas de coesão e coerência que me escre­via, ostentou-me coisa assim: “Os autores do Renasci­mento são três: Ca­mões e a Divina Comédia”.      

 

Mas de outra, com aluno de perfil análogo, mostrei o trabalho ao Prof. Edgar Linhares, pro­fessor meu do qual me tornara colega. Edgar pe­diu-me que permitisse que ele entrevistasse tal aluno. Chamou-o e, preliminarmente, solicitou que, por escrito, respondesse a algumas questões sobre sua vida. Qual não foi sua surpresa (depois minha) quando percebemos que, ao falar de temá­tica ligada a si próprio, o aluno encontrara aí sim “coe­rência, coesão e sentido”. Ficou-me a lição...

 

            Anos depois, recebia eu, então presidente da TVE do Ceará, a visita de uma personalidade de instituição educacional alemã. E lá fui eu a falar do Sistema de Teleducação do Ceará. E, nisso, termi­namos em algumas tele-salas, em plena periferia de Fortaleza.  O alemão gostou do método, do en­volvimento do aluno.  Um ponto, porém, chocou-o. Numa das tele-salas visitadas, a aula de história falava da luta entre Atenas e Esparta. Após a apre­sentação de um vídeo, o apresentador fazia o que chamava de “questionamento”. Na verdade, um “questionário”, por meio do qual procurava extrair, das lutas entre as duas cidades, Atenas e Esparta, a depreensão de valores, ensinamentos para o projeto da humanidade, a partir da convivência entre as pessoas. Isso, porém, de forma mal estruturada e realizada, pouco a tocar no mundo existencial ou vivencial dos alunos, num claro divórcio entre a intenção e o gesto pedagógicos...

 

            Sim, concordava eu. A história é a mestra da vida. Mas a provocação dos alunos para que entendessem como aquelas lutas tinham a ver com eles (como pessoas, como grupo, como integrantes da humanidade) apeque­nava-se, não chegando a dizer onde queria chegar. Daí, a conclusão: por que motivo luta assim havia sido escolhida como está­gio na história da hu­manidade?.

 

            O alemão chamou-me a atenção para o descompasso entre o que via nos pés das crianças em chine­los e roupinhas suadas de um lado, a chocar-se com a visível alienação dos professores, que não sabiam como colo­car a luta entre as duas helênicas cidades a ditar lições àquela gente… Havia fi­cado, portanto, a indagação: que significado poderia ter aquele fato histórico na vida daquelas crianças? Como se sentiriam tais crianças partícipes, elas próprias, da história hu­mana?

 

            Ler por ler, sem procurar, de alguma forma, fazer seu conteúdo tocar-nos de alguma forma, a pouco nos levará. A leitura haverá de tocar-nos. Mesmo e sobretudo, se ela se pautar sob o “Espere o inesperado”, de Heráclito.

 

 

 

 

 

A leitura emburrece? (VIII) - Marcondes Rosa de Sousa

12:49 @ 09/10/2006

 

 

O livro, pois, literário ou científico, é, na expressão de Umberto Eco, uma "obra aberta", a conter a provocação do autor e as reações dos leitores. Nessa "obra aberta", duas atitudes dão-se as mãos: o "exercício da fidelidade" e, ao mesmo tempo, a "liberdade de interpretação":

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (VIII)

 

 

20.2   - Toda leitura se faz em

diálogo entre autor e leitor

 

A segunda lição: o caráter de diálogo entre autor e leitor a permear o processo de ler.

 

Dissemos atrás que linguagem e língua operam-se no jogo da construção entre o social e o individual, autor e leitor alternando-se em tais funções. Ler, pois, não é ato frio e passivo. Mas, ao contrário, compartilhamento entre dois mundos: o do escritor e o do leitor.

 

O livro, pois, literário ou científico, é, na expressão de Umberto Eco, uma “obra aberta”, a conter a provocação do autor e as reações dos leitores. Nessa “obra aberta”, duas atitudes dão-se as mãos: o “exercício da fidelidade” e, ao mesmo tempo, a “liberdade de interpretação”:

 

“A leitura das obras literárias nos obriga a um exercício de fidelidade e de respeito na liberdade de interpretação. Há uma perigosa heresia crítica, típica de nossos dias, para a qual, de uma obra literária, pode-se fazer o que se queira, nelas lendo aquilo que nossos mais incontrolados impulsos nos sugerirem. Não é verdade. As obras literárias nos convidam à liberdade de interpretação, pois propõem um discurso com muitos planos de leitura e nos colocam diante das ambigüidades e da linguagem e da vida. Mas para poder seguir neste jogo, no qual cada geração lê as obras de modo diverso, é preciso ser movido por um profundo respeito para com aquela que eu, alhures, chamei de interpretação do texto.

 

De um lado, parece que o mundo é um livro ‘fechado’ que consente uma só leitura, pois se há uma lei que governa a gravitação planetária, ou ela é correta ou é incorreta; em relação a isso o universo de um livro nos surge como um mundo aberto. Mas tentemos nos aproximar com bom senso de uma narrativa e confrontemos as proposições que podemos enunciar a seu respeito com aquelas que articulamos em relação ao mundo. Do mundo, dizemos que as leis da gravitação universal são aquelas enunciadas por Newton ou que é verdade que Napoleão foi morto em Santa Helena, em 5 de maio de 1821. Contudo, se temos a mente aberta, estaremos sempre dispostos a rever nossas convicções, no dia em que a ciência enunciar uma formulação diversa das grandes leis cósmicas ou um historiador encontrar documentos inéditos provando que Napoleão morreu em um navio bonapartista enquanto tentava a fuga. Mas, ao contrário, no mundo dos livros, proposições como Sherlock Holmes era solteiro, Chapeuzinho Vermelho foi devorada pelo lobo, mas depois foi libertada pelo caçador, Anna Karenina matou-se, permanecerão verdadeiras eternamente e nunca poderão ser refutadas por ninguém” (Umberto Eco. Sobre a literatura. Rio de Janeiro-São Paulo, Editora Record, 2003. pp. 12-13).

 

Obra alguma, pois, é fechada. E, em tal dimensão, nenhuma leitura é processo a congelar o real, retirando-lhe o caráter dinâmico, como acredita o citado “Manifesto contra a leitura”.

 

 

 

 

 

A leitura emburrece (IX) - Marcondes Rosa de Sousa

18:30 @ 09/10/2006

 

 

 

(...) A Semiologia se de­sen­volveria menos que a ciência dos fatos lingüísticos. E o que ocor­reu é que a Semiologia terminou por se decalcar na es­teira da Lin­güística. Assim, deu-se justo o contrário: as leis da Lingüística é que terminaram por se aplicar, transpostas, à Semiologia.  

 

A  LEITURA EMBURRECE? (IX)

 

 

20. 3 –  A LEITURA LINGÜÍSTICA,

MATRIZ DA SEMIOLÓGICA

 

Terceira lição: a leitura lingüística é matriz de processo mais amplo: a leitura semiológica.

 

Ferdinand de Saussure, um século atrás, prognosticara:

 

 

“Pode-se, então, conceber uma ciência que es­tude a vida dos signos no seio da vida social; ela consti­tuiria uma parte da Psicologia social e, por conse­guinte, da Psicologia geral; chamá-la-emos de Semiolo­gia (do grego semeion, “signo”). Ela nos ensinará em que consistem os signos, que leis os regem. Como tal ciência não existe ainda, não se pode dizer o que será; ela tem, porém, direito à existência; seu lugar está de­terminado de antemão. A Lingüística não é senão uma parte dessa ciência geral; as leis que a Semio­logia des­cobrir serão aplicáveis à Lingüística e esta se achará dessarte vinculada a um domínio bem definido no conjunto dos fatos humanos” (Ferdinand de Saussure. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Editora Cultrix,

 

Por ironia, inverteu-se a previsão. A Semiologia se de­sen­volveria menos que a ciência dos fatos lingüísticos. E o que ocor­reu é que a Semiologia terminou por se decalcar na es­teira da Lin­güística. Assim, deu-se justo o contrário: as leis da Lingüística é que terminaram por se aplicar, transpostas, à Semiologia.  

 

Com isso, abriram-se caminhos para a interação entre as diversas linguagens, a ter por matriz as leis da Lingüística.  Assim, as competências lingüísticas – ler e escrever (as do có­digo escrito), falar e escrever (as do código oral) terminariam por se tornar, em última análise, importantes instrumentos da “inteligência verbal”, transpondo-se para o desenvolvimento de todo o processo do de­cifrar e (re) construir o mundo e a vida.

 

É oportuno, por outro lado, que, na escola, se incen­tive o intercâmbio entre os diversos tipos de leitura a partir da “leitura lingüística”: a do cinema e áudio-visual, da televisão, das artes e comuni­cação em geral – todas enfim a ter por matriz a lingüística.

A leitura emburrece? (X) - Marcondes Rosa de Sousa

18:57 @ 09/10/2006

 

Hoje podemos dizer, repetindo o que profetizara Fer­nando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”.  No fundo, o so­cial tentando por ele algo dizer – a forma mais usual e fre­qüente de sua expressão.

 

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (X)

 

20.4 – O ABRAÇO ENTRE

O LOGOS E O MYTHOS

 

Quarta lição, a que terminei por ir extraindo, de mi­nha in­fância à formação acadêmica, onde o “real e o fantás­tico”, em inte­rativo e produtivo jogo, se foram dando as mãos, reproduzindo duas formas de perceber nosso mundo e a en­saiar diálogo desde a Antiguidade: o logos e o mythos.

 

Em verdade, elas brotaram opostas. Mas toda oposi­ção, no fundo, guarda ânsias de identificação. E assim tem sido a busca crescente de aproximação entre essas duas for­mas de interpretação da vida e do mundo.  O lexema mythos surge já em Homero, si­nônimo de epos, com o sentido de “palavra’ e “discurso”, opondo-se a logos, já no Séc. V antes de Cristo. E, nos textos de Platão, lo­gos é “história verifica” enquanto mythos é “história imaginada”.

 

No Séc. V antes de Cristo, os sofistas maiores exerga­vam, nos mitos, a possibilidade de significado mais profundo. Estóicos e epicuristas neles divisavam alegorias. Seriam esses últimos o que os modernos denominam de “alegoristas”, em oposição aos “tautego­ristas”, para os quais o mito é “tautoló­gico” nada mais acrescen­tando do que de plano contém.  Uma terceira interpretação – a de Evémero, no ano 300 antes de Cristo, que teve grande êxito – atri­buía aos mitos a função de evocar “reminiscências históricas”.

 

Hoje, a teoria alegorista, mais madura, converte-se em simbolista.  O que distingue as duas visões (a alegorista de an­tes e a simbolista de agora) é que os simbolistas vêem os mitos como símbolos, mais naturais que as artificiais alegorias.  Em outras pala­vras, A alegoria, mais do que descobrir, impõe um sentido. O símbolo, porém, descobre, desvenda, sugere ... um sentido.

 

O mito torna-se, a partir do Séc. XVIII, objeto da in­vesti­gação científica.  E, a partir das últimas décadas do Séc. XIX, cresce como objeto da investigação científica. Desperta interesse pela antropologia cultural, a sociologia, a psicanálise de Freud – que aproveita mitos gregos para etiquetar a inter­pretação de com­portamentos humanos –, a psicologia analítica de Jung – com as te­orias dos arquétipos e do insconsciente coletivo -, a antropologia estrutural de Lévy Strauss, a semio­logia enfim.

 

Hoje podemos dizer, repetindo o que profetizara Fer­nando Pessoa, “o mito é o nada que é tudo”.  No fundo, o so­cial tentando por ele algo dizer – a forma mais usual e fre­qüente de sua expressão. 

 

Pode, enfim, definir-se:

 

(...) é a projeção reativa no espaço social da lin­gua­gem e de outras formas sensíveis de visões fantásti­cas, de desejos, de terrores, de explicações do universo e da vida, a um primeiro nível, direto e imediato, de um modo de apreensão do real e da religação com o mesmo real sem a mediação rigorosamente consciente da filosofia, da ciência ou da teologia.

 

A arte,  o imaginário popular e  a cultura em geral po­voam-se do mitológico. A ciência e a filosofia, ao invés, do lo­gos. Mas o abraço entre os dois, vimos, faz-se crescente. No fundo, partem, os dois, do inesperado, da criatividade e da in­tuição. A diferença é que o logos comprova-se após à luz da razão, acrescendo-se à in­tuição – o conhecimento de primeiro grau (comum tanto à ciência quanto às outras formas de co­nhecer) os processos de indução e dedução.

 

Nas famílias e até nas escolas, grassa um certo precon­ceito ainda em relação aos mythoi (os mitos). E isso está pre­sente em al­gumas atitudes. Em sua história-de-vida, uma aluna confessou sua dificuldade com a leitura. Tinha de se trancar no banheiro para ler.  Mesmo assim, ouvindo, em refrão, os gritos da mãe: “Menina, larga esse livro. Pára de ler. Vai estu­dar!”  É que a leitura, aí, a mãe a via como um “prazer”, en­quanto que no estudo, um “dever”.

 

Outra aluna, em depoimento na classe, depôs compor­ta­mento estranho. O professor de português sentenciou a seus alu­nos adolescentes: “Aqui, paramos com a leitura. Daqui para frente, vamos estudar”. Para esse “professor”, a leitura é aventura, brincadeira e prazer.

 

É essa conotação que, na escola, termina por fazer da lei­tura algo a aborrecer. Mata-se o prazer que ela porventura des­perte. E só será “estudo” se ela for a cadaverização do próprio ato de ler, com as solicitações de análises sobre os momentos da histó­ria, as características dos personagens e coisas assim.

 

Tudo isso, o velho preconceito, retornado aos tempos anti­gos, quando o logos (a ciência e a filosofia) construía-se à luz da fria “história real”, e os mitos, sob a feição da “história inventada”, a “história imaginada”, a “ficção” em sua dimen­são de quase ... “mentira”.

 

Na verdade, os caminhos do saber nos demonstram: os mi­tos prenunciam a ciência. Nuns e noutra, imaginação é atitude funda­mental. E cada vez mais a visão global dos mitos avança pela pos­tura moderna de “pensamento complexo” que bus­cam as ciências.

 

E mais: hoje é cada vez maior e em reação, na escola, o valer-se da ati­tude prazerosa como motivação do aprender. A leitura, praze­rosa via­gem em busca do conhecer, traz consigo tal atitude. Enquanto pra­zerosa, não aborrece e, muito menos, embur­rece!

 

A leitura emburrece? (XI) - Marcondes Rosa de Sousa

19:40 @ 09/10/2006

 

 

 

Foi toda a minha história-de-vida a me deixar tal lição: na infância, onde escrito e oral brincaram juntos; no processo escolar, onde os dois códigos se ajudaram mútuos; na vida en­fim, onde os dois trabalharam em estreita colaboração.

 

A LEITURA EMBURRECE? (XI)

 

 

20.5 – ESTRUTURA MELÓDICA

DOS TEXTOS ESCRITOS

 

Quinta lição – esta mais específica da leitura estrita­mente lingüística: colher os benefícios da oralidade, aten­tando-se para a estrutura musical e melódica dos textos escri­tos.

 

Foi toda a minha história-de-vida a me deixar tal lição: na infância, onde escrito e oral brincaram juntos; no processo escolar, onde os dois códigos se ajudaram mútuos; na vida en­fim, onde os dois trabalharam em estreita colaboração.

 

Não se trata – deixemos claro – de aqui reproduzir­mos os equívocos históricos: nem os exageros da lingüística moderna, em seus primórdios, ao abraçar, eufórica, a lingua­gem oral, num con­traponto à filologia, a ponto de considerar o escrito como mera transposição da oralidade; nem, por ou­tro lado, ir para o outro ex­tremo de considerar o escrito como realidade autônoma, abstraída de sua base musical e meló­dica.

 

Os signos lingüísticos têm, como significantes, não os sons físicos, mas a “imagem acústica” – vale dizer, a imagem psicológica dos sons. Vocábulos, fases e o texto enfim, estru­turam-se melodi­camente.  Claro que, no processo de leitura, não há necessidade, como velhas beatas a fazerem suas ora­ções, num bater de lábios ou de reprodução física dos sons.  Mesmo na chamada “leitura si­lenciosa”, os sons lingüísticos se armam em uma melodia.

 

Reproduzidos, os sons sugerem cacofonia, ritmia ou arrit­mia, expressividades muitas.  A entoação, ao ascender, descer ou em retto tono, expressará interrogação, afirmação ou exclamação.  Mais lento ou mais apressado, o ritmo é como uma câmara cine­matográfica: a deter-se fotográfica so­bre os objetos ou a veloz ex­pressar ação...

 

O quanto hoje sentimos a falta, em nossas escolas, da cha­mada “leitura expressiva”.  O quanto, por outro lado, po­dem co­lher de potencial expressivo dos textos, quando a lei­tura se opera a partir do acompanhamento de um texto gra­vado lido por um ator, por exemplo. Os pesquisadores dão conta de que a leitura que as­sim se faz torna-se o mais efici­ente método para a aquisição do có­digo escrito.

 

Na Rádio Universitária (FM), vinculada à UFC escrevi “para ser dito”. Foram crônicas diárias, todas as manhãs dos dias ditos úteis, por longos nove anos. Eu observava os locutores e atores mais experientes: Almir Pedreira (já falecido), Ri­cardo Guilherme, Marta Aurélia, entre outros. Eles treinavam a leitura, a partir de marcações com sinais e barras com vistas à expressividade. O mesmo observei ao superintender a TV Educativa, onde o mesmo vi, com anotações dos roteiros, o treinamento de apresentadores e atores.

 

Hoje, fico a observar os apresentadores dos noticiosos de nossa televisão. Uma só e artificial entoação para todas as frases. Textos a se embalar numa melodia que não é nem das ruas, nem de qualquer de nossas regiões. Um dialeto, em entonação, cons­truído talvez a marteladas, a nada expressar a quem ouve. Salvo, nos comentários, onde o coloquial conse­gue maior empatia.

 

Nossas escolas, muitas depósitos onde se amontoam os alunos e os professores se revezam em busca de mais aulas para o ganho do pão, parece não dispor de condições para al­guns mo­mentos dedicados à leitura expressiva.

 

Creio, porém, que está na hora de uma paz entre os códi­gos da língua: o escrito e o oral, braços dados. E, na busca dessa paz intentada, a “leitura expressiva” tem importante pa­pel.  

 

A leitura emburrece? (XII) Marcondes Rosa de Sousa

21:33 @ 09/10/2006

 

 

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (XII)

 

20.6 – A LEITURA É FUNDAMENTAL

PARA O PROCESSO DE A AQUISIÇÃO

DO CÓDIGO ESCRITO

 

Sexta lição: a leitura é fundamental para o processo de aquisição do código escrito. É a conclusão a que chegam as moder­nas pesquisas junto a alunos, em todo o mundo.

 

Vejamos um resumo de tal afirmação:

 

A.    Leitura por prazer:

atividade mais eficiente

           

A compreensão pela leitura, a leitura por prazer, é com cer­teza, a atividade mais eficiente para a aquisição do có­digo. Além disso, parece ser impres­cindível: to­dos os bons escrito­res são ou têm sido, durante um largo período de sua vida, bons leito­res.

 

B.    Prática da escrita:

menos eficiente

que a leitura

 

Os experimentos não nos trazem da­dos claros sobre o va­lor das práticas de es­crita, embora demonstrem que essas são muito me­nos eficientes que a lei­tura.

 

C.    Correção do professor:

efetiva quando o aluno

pode incorporar à redação

 

A correção do professor nem sem­pre é útil. Só é efe­tiva quando se realiza du­rante o processo de composi­ção do texto e, portanto, quando aluno pode in­corpo­rar na reda­ção do texto.

 

D.   Instrução gramatical: insuficiente.

Menos resultados que a leitura

 

A instrução gramatical não é útil o su­fici­ente para ad­quirir o có­digo. Obtêm-se re­sultados muito melhores por meio da lei­tura.

 

E.    Ortografia: duas estratégias

1. visualização por sílabas;

2. busca de regularidades em outras palavras.

 

Podem-se utilizar, para adquirir a or­to­gra­fia, essas duas es­traté­gias: visualizar a pa­lavra e segmentá-la em síla­bas, e bus­car re­gularidades em outras palavras

 

(Daniel Cassany. Descri­bir el escribir: como se aprende a escribir. Barcelona, Madri, México.  Paidós, 1989, pp. 57-58).

 

A leitura emburrece? (XIII)- Marcondes Rosa de Sousa

21:47 @ 09/10/2006

Caos

 

A LEITURA EMBURRECE? (XIII)

 

(...) A leitura, nas escolas sobretudo, vem gradualmente perdendo as cono­tação da aventura, da criatividade e do prazer, que têm ur­gente de serem restabeleci­das.  E a de um estudar tomado sob as matizes e atmosfera do “chato”.

 

 

21. REVER, NA ESCOLA,

O PAPEL DA LEITURA

 

Não, não tivemos acesso – nem o Prof. Vagner e nem eu – ao aqui citado “Manifesto contra a leitura”.  Não lhe sa­bemos os motivos e as intenções. Mas qualquer que tenha sido o intuito de seus signatários, ele terá, de qualquer modo, servido de alerta a to­dos quantos nos preocupamos com a es­cola e a educação. No fundo, ele pode ser encarado como uma crítica sobre o lugar e o papel que a leitura vem tendo en­tre nós.

 

A reflexão nos leva na direção de que, a rodear a lei­tura, pairam densas nuvens a envolvê-la na teia da conjugação do verbo ‘aborrecer”. A leitura, nas escolas sobretudo, vem gradualmente perdendo as cono­tação da aventura, da criatividade e do prazer, que têm ur­gente de serem restabeleci­das.  E a de um estudar tomado sob as matizes e atmosfera do “chato”.

 

Ela é, tem de muito frisado isso o nosso Umberto Eco, um processo aberto. O livro - científico, de ficção ou filosó­fico – sempre será uma “obra aberta”. Nunca fechada, já que intera­tivo diálogo entre o escritor e seus leitores.  Nesse rumo, a lei­tura é processo a fazer intercomunicates as diversas lingua­gens, hoje sob o signo se­miológico “do manuscrito ao hiper­texto”, sinal destes tempos digi­tais, onde nos ronda “um mis­terioso caos” a nos anunciar a nova ordem do “pensamento sistêmico e complexo”.

 

Qualquer que tenha sido a intenção do mencionado “Ma­nifesto contra a leitura”, terá ele, sem dúvida, despertado em nós o revermos o lugar, o papel e a função da leitura, em nossa socie­dade, sobretudo em nossa escola, onde ela se arrasta, rala e minguante, tratada, por vezes, como algo a aborrecer os alunos.

 

A leitura emburrece? (XIV) - Vagner Muniz

11:55 @ 10/10/2006

A LEITURA EMBURRECE? (XIV)

 

 

Vagner Muniz

 

Vida “just in case”

 e transformação da língua

 

 

Muito já conversamos sobre a transformação da língua. Inclusive isso foi motivo de calorosos debates (“a linguagem neo-telegráfica dos jovens” era o nome de um dos tópicos polêmicos). E eu não teria tocado novamente no assunto se não estivesse hoje vendo o assunto por outro ângulo.

 

Que a língua se transforma, todos sabemos, mas minha questão agora é outra. Não é o caso de criticar o uso de práticas lingüísticas particulares, em comunidades restritas ou não. Também não é o caso de adequação à situação comunicativa. Não é o caso de criticar a escola, já que não propomos algo efetivo. Não é o caso de buscar justificativas para toda e qualquer mudança lingüística a partir do próprio sistema lingüístico (hoje tenho plena convicção da interação sistêmica: mudanças ocorridas num sistema, como a língua, decorrem de uma série de interferências de sistemas de diferentes naturezas). Não é, tampouco, o caso de tentar impor a via lingüística única.

 

É simplesmente o caso de tentar entender o motivo de alguns indivíduos não conseguirem decifrar seus próprios escritos. O que significariam “aspx td bein”, “maxi qUiza”, “nujm gto”? Os colegas do autor não sabem dizer; o próprio autor não sabe dizer. E há vários casos desses. A lingüística sozinha (ou outra disciplina sozinha) não explicará.

 

A filosofia do “viver o presente” foi deturpada ao ponto de que em muitos casos a ação visa esgotar-se em si mesma, não projetando o futuro, não respeitando o passado. Já ouvi: “Que bom seria se tivéssemos um super-computador portátil que tivesse em sua memória todas as informações! Não precisaríamos mais estudar, bastaria que acessássemos um arquivo!”.

 

A idéia de um conhecimento “contido” num indivíduo é ruim, mas a de um conhecimento desvinculado dos indivíduos, um conhecimento “acessável”, é pior. A “desmaterialização”, a “virtualização” são temas do momento, e demorei para entender que não são apenas modismos. Os que nos criamos em outra filosofia consideramos o conceito de “duração”, que se vê hoje transformado.

 

E aqui vai o meu manifesto por um pensamento sistêmico, por um pensamento complexo. Não conseguiremos entender as transformações da língua procurando justificativas exclusivamente no sistema lingüístico.

 

 

 

 

 

A leitura emburrece? (XV) - Marcondes Rosa de Sousa

12:45 @ 10/10/2006

 

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (XV)

 

Adesão ao Pensamento Sistêmico e Complexo

 

Creia-me, meu caro Wagner Muniz. Compartilho de suas angústias. E me alinho a suas propostas por um “pensamento sistêmico e complexo”.

 

A ordem mais bela

 

A esse tipo de pensamento, venho chegando pelas mais inesperadas vias. Até pelos insuspeitos atalhos propostos por um pragmático consultor de empresas, nada acadêmico. No caso, Roger von Oech, presidente da Creative Thing (organização sediada na Califórnia), festejado por organizações do porte da Coca-Cola, da GE, da Disney, da Microsoft, da NASA, entre outras. Empresas (é bom que se diga) que recompõem seus passos com a lógica do agora, voltando a Heráclito, na Antiguidade, para entender este complexo e literalmente con/fuso (no sentido etimológico do termo) mundo de agora. Nesse jogo, recobram-se verdadeiras “jóias” que ficaram, por séculos, não ouvidas, tais como: “Uma maravilhosa harmonia é criada quando juntamos o aparente desconexo” ou “A ordem mais bela é um monte de detritos amontoados ao acaso”.

 

Desde Saussure, o pai da lingüística moderna, o mundo começa a abandonar os lineares e mecanicistas parâmetros para ingressar na visão complexa do todo: – a gestáltica, sistêmica, ecológica, de rede e teia enfim -  onde o epigrama de Heráclito “a oposição nos traz benefícios” ganha sentido. Ela nos leva os olhos para o contracanto, em sua função de emprestar ao canto harmonia, enchendo a solitária melodia com os efeitos das dissonâncias em acordes. E com isso, compondo, em sinfonia, o variegado universo de todos, que, assim, terminam por ter acesso à grande ceia da inclusão social. Interesses (nossos e dos outros) então passam a ter sentido, evocando-nos a atenção. Tudo na pauta de outro eloqüente insight de Heráclito: “Para o burro, o lixo vale mais que o ouro”.

 

Espantamo-nos, decerto. Mas é do espanto (ensina-nos Aristóteles) que nasce a ciência. E ele, o espanto, é o mais rápido e eficaz meio para  a superação de nossos sedimentados pré/conceitos, tornando-nos de novo crianças, com o poder de que nos fala outro epigrama de Heráclito:  “Quem vive a vida como uma criança jogando, movendo peças de um lado para o outro, tem o poder dos reis”.

 

Essa, nossa constatação e poder, que, como crianças, brincamos com as peças de um jogo em aparência desinteressado. Nessa trilha, teremos olhos para ver as didáticas contradições, na pauta de outros insights heraclitianos:  A água do mar é pura e impura – pura para os peixes, potável e vital; para os humanos, impotável e corrosiva. O médico inflige a dor para curar o sofrimento. O caminho por onde se sobe é o mesmo por onde se desce. Num círculo, o ponto de chegada é também um ponto de partida. Onde não há luz do sol, podemos ver as estrelas. É mudando que as coisas permanecem as mesmas”. 

 

Na verdade, tem razão Heráclito, “tudo flui”. E é sobre essa trilha que “o cosmo fala por meio de padrões” e a nenhum de nós é dado nos banharmos, duas vezes, num mesmo rio, porque aí já nem nós e nem as águas seremos os mesmos...  .

 

No princípio, o caos

 

Von Oech, ao comentar o insight “Espere o inesperado ou você não o encontrará”, que intitula seu livro, aconselha-nos prestar atenção às pequenas coisas que poderão nos levar a esse “inesperado”. E, como exemplo disso, refere-se ao conhecido “Efeito Borboleta”, quando, em 1960, o meteorologista Edward Lorenz, se indagava: “Será que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas?” E  Von Oech conclui:

 

O cientista da computação Douglas Hofstadter – num comentário que lembra Heráclito – coloca a questão de uma forma ligeiramente diferente: “Parece que um tipo misterioso de caos está à espreita atrás de uma ordem aparente – mas, nas profundezas do caos, espreita um misterioso tipo de ordem”. Talvez esta seja uma das verdades mais profundas que há por trás de “esperar o inesperado”.

 

Sim! Atrás de uma ordem aparente, em nossos dias, espreita-nos um tipo misterioso de caos. E, nas profundezas desse caos, subjaz, nascente, um novo tipo de ordem. E essa constatação vem abalando toda a nossa “gramática”: não só a de nossa língua como a translingüística (semiológica e psico-social). 

 

Há um visível crescendo em nossa visão. “No princípio” – ao criar Deus o mundo, no Velho Testamento – “era o nome”, dado às coisas criadas, diz o Gênesis. Ao abrir o Novo Testamento, diz São João que “no princípio, era o verbo”. Aí, na tensão entre “thema e rhema” (o sujeito e o predicado), na articulação do Velho e do Novo Testamentos, compúnhamos nossa sintaxe.

 

Mas, um dia, tudo isso virou Babel. Foi quando, com a cena pentecostal, chegaram-nos as “línguas de fogo” da emoção: todos, cada um na variedade de seus dialetos, entendendo-se e se irmanando pelas vias mais sustentáveis do afeto. Aí, nossa frase bíblica bem que poderia alterar-se: “no princípio, a interjeição”! Mas agora, nestes tempos digitais, espreita-nos “um misterioso tipo de caos” a nos indicar nova ordem nascente. E, aí, voltamos à mitologia e arte antigas, quando ... “no princípio, era o caos”.

 

A esse tempo, o caos via-se sob duplo aspecto: um negativo (vacuidade, trevas, indeterminação, desordem); outro positivo (totalidade absoluta indiferenciada). E, na passagem para um estádio de explicação cosmológica, já se acentua o aspecto positivo. Aí, caos passa a ser entendido como princípio universal indeterminado de que tudo é feito.

 

Hoje, parece que tudo se inverte. Um novo apocalipse, em tom de recomeço, tem o caos como núncio de um novo gênesis. O todo social se esfacela. As hegemonias se fragmentam. Em tribos e gangues, os jovens protegem-se. A democracia, ao invés de o monótono império da maioria, torna-se o território e o respeito às diferenças. E, como se crianças, tornamo-nos todos a ensaiar balbucios num como piagetiano “monólogo coletivo”. Mas não estaria, nesse quadro, um curioso e latente apontar para um misterioso tipo de ordem? Não estaria aí esboçada uma nova lógica a nascer. A busca, sob nova forma, de uma “sintaxe perdida”.  Desta feita, a lógica do caos, em sua dimensão positiva, elegendo-nos, como figuras, a “enumeração caótica”, a tautologia, o anacoluto...

 

O abraço entre

o mythos e o logos

 

Nesse clima, ganha crédito o mito -  esse “nada que é tudo”, na expressão de Fernando Pessoa. E o diálogo entre o logos e o mythos torna-se intenso. Aí, a antiga “história imaginada” dos mitos converte-se “história transfigurada” e forma intuitiva e globalizante de se chegar à essência das coisas. Com isso, ganha a percepção artística, a que enxerga o desvio procurando, pela ótica da ambigüidade das coisas, chegar ao diferente, ao esférico e ao plural. Assim, caminhamos, num avanço da categoria “número” em nossa gramática: o todo singular a evoluir para o dialético dual, a resvalar, sintético, na convivência do esférico, multiforme, complexo e plural. E, nesse quadro, têm lugar de destaque figuras como a metáfora (fusão de imagens e valores postos em comparação), a metonímia (o objeto visto em relação com suas contigüidades) e a sinédoque (a tensão entre as partes e o todo).

 

Mais que um adorno, são essas figuras formas globalizantes e esféricas de ver as coisas sob todos os ângulos. Veja o que, das metáforas, nos diz Von Oech:

 

“Adoro metáforas! Suas imagens iluminam a minha mente. Quando tenho de escolher entre a análise em profundidade e uma luminosa metáfora de uma situação, geralmente opto por essa última. Na verdade, algumas das minhas melhores idéias começaram como metáforas. A imagem que logo de início me ocorreu para os epigramas de Heráclito foi “jóias de insight”, por serem para mim pequenos e valiosos. Tal como as pedras preciosas, eles têm muitas facetas, algumas mais expostas à luz que outras.”

 

Os parâmetros

da nova sintaxe

 

Assim, meu caro Vagner, vejo-me hoje a mim e ao mundo: esfacelado em cacos, olhando a vida, nostálgico, “em busca de uma sintaxe perdida”, desde os anos ‘70. Como educador e professor, inquietam-me os defasados currículos estanques, fatiados em disciplinas, desconexos ingredientes à espera da receita de Dorival Caymmi: “procure uma nega que saiba mexer”.  Em sala de aula, preocupam-me alunos cada vez mais a produzir textos, verdadeiros sambas-do-crioulo-doido, de Stanislaw Ponte Preta. Cidadão, contemplo a esquizofrenia entre a urbs (o nosso chão), a cívitas (o nosso pacto social) e a pólis (nosso projeto político)...

 

Mas, felizmente, eis que, sobre mim, abate-se o inesperado, que me fazem “ler” o mundo sob outro ângulo. Acode o “misterioso caos” a nos dar o recado: a) a feição caótica do pós-moderno em nossa urbs, onde presente, passado e futuro, em suas múltiplas formas, convivem em harmonia; b) a cívitas, embasada num contrato social plural, os interesses diversos acordados; c) a pólis, num projeto político plural.

        

               No plano político, esse inesperado termina por nos acordar. E um movimento começa a surgir, abrindo-nos os olhos para a necessidade do “pensamento sistêmico e complexo”, a compor diferenças.  Entre nós, ele se esboça a re/unir lideranças intelectuais, políticas e dos gestores, que  começam a con/versar. Na con/ versa, a proposta de rejuntar, sob nova lógica e direção, as “hegemonias em cacos”, repensando tudo sob a “misteriosa ordem do caos”, revendo a vida sob novos padrões “sintáticos”.

        

               A idéia ganha força e adeptos.  E parece ser proposição comum a todos que reunamos, de início, cabeças, mãos e corações com vistas ao novo pacto.  Para tanto, é buscá-los no diálogo entre “ícones” dos quatro cantos do mundo, do País e da região. A estratégia terá desdobramentos outros. E a intenção é, progressivamente, rompermos com a lógica dos tratados-de-Tordesilhas, em busca de novas utopias.

        

               Por enquanto, sou uma espécie de Pero Vaz de Caminha “ad hoc” nessa jornada. O caos, Vagner, poderá nos chocar. É que somos, no fundo, adeptos de Parmênides. Acreditamos na permanente das coisas. Mas Parmênides e Heráclito não se destroem um ao outro. Na verdade, “tudo flui”, “ninguém toma banho duas vezes nas mesmas águas”. Mas é mudando que permanecemos os mesmos. Aí, Heráclito e Parmênides se abraçam. É que a busca da essência das coisas tem como caminho a mudança.

 

               Abracemo-la, pois, enxergando coerência nos sambas-do-crioulo-doido, em suas múltiplas manifestações.

 

               Post scriptum:

 

   Desde jovem, o lingüístico, se me interessou, foi como ferramenta para o “ler” e o (re)construir a vida e o mundo. E gramática, sempre a tive textual e translingüística, num processo de “ematização” (neologismo por mim fabricado, nos anos ’70) de sorte a permitir-me ir do “fonema” transpolando-se aos “mitemas”, de Lévy Strauss”.

 

A leitura emburrece? (XVI) - Adail Sobral & Marcondes Rosa de Sousa

14:30 @ 10/10/2006

A LEITURA EMBURRECE? (XVI)

 

 

Questões sobre o prazer da leitura

 

1. A cadaverização do ato de ler

 

 

"É essa conotação que, na escola, termina por fazer da lei­tura algo a aborrecer. Mata-se o prazer que ela porventura des­perte. E só será “estudo” se ela for a cadaverização do próprio ato de ler, com as solicitações de análises sobre os momentos da histó­ria, as características dos personagens e coisas assim." (Marcondes Rosa de Sousa)

 

 

QED! E como pode ensinar o prazer da leitura quem não o conhece, ou deixou que as normas o apagassem?  (Adail Sobral)

 

2. Fechem os livros,

hora de estudar!...

 

 

Este, o ponto crucial de nossa escola. A história do ovo e da galinha. Na escola, são os próprios professores que não conhecem o prazer da leitura. Muitos, de fato, encheram-se regras que terminaram por lhes matar o prazer. É preciso uma reengenharia espiritual em nossas escolas e salas de aula. Vi isso no depoimento de meus próprios alunos. Não só as mães: “menina deixa este livro de mão e vai estudar”, mas os próprios professores como se dissessem: “a hora do recreio acabou. Fechem os livros e vamos agora ... estudar”!  E, agora, José ... melhor dizendo, Adail? (Marcondes Rosa de Sousa).

 

3. Ler é melhor que estudar

 

 

Logo, não basta se horrorizar com os efeitos, mas combater as causas. Leio todos os dias, e os mais variados assuntos. Se tiver alunos, eles me verão sempre com algo para ler na mão: de bulas a tratados, ficção, jornais. Uma nossa colega lê contos da Playboy com seus alunos do noturno; e despertou neles o interesse por outras leituras; outro usa rap para dar aulas de inglês; outra ainda planeja as leituras com os próprios alunos; um quarto usa as abreviaturas do chat como motivador etc. O que importa é, assim, ir ao encontro do aluno, ser exemplo, ser modelo, e não ficar dizendo que a língua está desaparecendo. Por até estar: assim como o dicionário, a escola se faz túmulo da língua. Há um artigo de título "Ler é melhor que estudar..."

 

 

A leitura emburrece? (XVII) Adail Sobral a Marcondes Rosa de Sousa

14:36 @ 10/10/2006

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (XVII)

 

Bakhtin & Vigotsky

 

 

Pois bem. Concordo plenamente  com as várias colocações suas. E creio que o prazer na escola não está ligado a palhaçada. É preciso, a meu ver, unir Bakhtin a Vygotsky.

 

Explico brevemente:

 

Desenvolvimento e aprendizagem não têm uma relação direta, embora tenham relação. É preciso afastar a influência nefasta da pedagogia teleológica.

 

Ensinar é desafiar o aluno a ir além do que alguma teoria maléfica disse que, na idade dele, ele tem condições de ir. Se, de 10 itens, o professor 'ensinar" um só de modo que o aluno descubra como se constrói o conhecimento, o resto o aluno aprende sozinho. O professor tem de ser dialógico: partir da pergunta do aluno, não das respostas que julga ter. Porque talvez pergunta e resposta não correspondam. Parte-se do rap para chegar a Machado de Assis, em vez de enfiar Machado a alunos de tenra idade, que aí só vão querer rap! Alguém dirá: você não ensina e por isso julga fácil. Não julgo fácil e digo que, quando ensinei (da pré-escola à graduação), fiz isso que prego. E fui repreendido mais de uma vez pelas direções, até que cansei e fui ser tradutor e teórico. Mas vou voltar!

 

Li Heidegger aos 17 anos, porque um meu professor, a partir dos 12, vendo meu interesse (ele viu!), me "ensinou" a ouvir música clássica alemã e me falou desse pensador ao tratar justo de música (Wagner). Não entendi nada em termos intelectuais na época, mas a marca do anseio de descobrir a realidade das coisas, que Heidegger deixou em mim, ainda não acabou, tantas décadas mais tarde. Sou uma criança que pensa, porque, quando criança, me permitiram pensar e sentir, etc. e ao mesmo tempo ser criança. Não tive filhos, mas "criei" os dos outros, que vão muito bem hoje. Só que, para isso, briguei com alguns amigos (menos com algumas amigas, porque as mulheres... Bem, as mulheres sabem das coisas.)

 

Está provado que, desafiado, o aluno caminha; enclausurado numa dada expectativa, ele fenece e, com ele, a escola. Vygostsky desenvolveu uma linguagem específica para multimutilados de guerra (há um filme sobre isso) se comunicarem e eles aprenderam e superaram suas deficiências. A escola precisa ser comunidade, não um ambiente estranho em que se estuda mas não se lê, em que se disciplina o corpo e se mata a mente e os sentidos.

 

O conto erótico é a vara zen que produz a iluminação, mas depois é preciso meditar durante anos para entender que houve iluminação!

 

Por paradoxal que pareça, o que falta à escola é ****ordem***! Logos! A escola hoje trabalha com o mythos do discurso "correto" e com a métis do respeito absoluto às diferenças. Falta-lhe a ordem do discurso, do logos, a ordem do pensamento, o prazer da descoberta, conduzir o aluno a se autoconduzir, ensinar a pescar e não dar um peixe, não a repressão, que isso existe de várias maneiras na escola e só serve para piorar mais. O prazer tem de vir do fato de o aluno descobrir o prazer de ir dos conceitos espontâneos aos sistemáticos da ordem do discurso escolar sem sofrer mais do que as exigências da disciplina intelectual. Ler não pode ser transformado em exercício, mas em prazer da descoberta do mundo. A escola tem primeiro que ensinar os professores: médico, cura a ti mesmo, disse o sábio há tantos séculos!

 

O aluno constitui o professor e vice-versa. Mas o professor teve, enfiadas na cabeça, umas viseiras que não fazem ver o valor do aluno como incitação a ser um professor melhor. Traduzo há mais de 20 anos, e cada livro que chega é para mim um desconhecido. Quando acabo uma tradução, volto às primeiras páginas e as reformulo, assim como altero outras partes, porque só no fim posso dizer que entendi. Como o professor pode achar que já sabe, se sua obrigação é a eterna descoberta, um espírito que deve ser "comunicado", tornado comum aos "dois", porque conteúdos são transmitidos bem melhor pelos livros, pelas máquinas.

 

Por uma educação libertadora, à maneira de Epicuro, não das esquerdas teleológicas falidas, nem das direitas neoconservadoras do adestramento do aluno!

 

A leitura emburrece (XVIII) - Vagner Muniz, Adail Sobral e Marcondes Rosa de Sousa

17:17 @ 10/10/2006

 

 

A LEITURA EMBURRECE? (XVIII)

 

 

 

A. O olhar do sábio e o do tolo

(Vagner Muniz)

 

 

"O dedo apontado para a lua.

O tolo olha o dedo,

o sábio olha a lua" (provérbio chinês)

 

 

Estou de acordo com o Prof. Marcondes quando diz "não estou seguro de que o caminho seja a indiscriminada (e a qualquer preço) busca do prazer em nossa escola".

 

Além do que, creio que o enfoque do prazer indiscriminado foi um dos responsáveis pelo surgimento da "vida just in time". Na escola muito do prazer se perdeu, é fato, e deve ser resgatado, mas o prazer a todo custo não raro faz surgir o tolo do provérbio chinês.

 

Um manifesto pela complexidade!

 

 

B. Visão complexa e multidisciplinar

(Adail Sobral)

 

Subscrevo tudo e o mais que houver, meu caro Marcondes, meu caro Vagner! Escrevo tese em que ou dos “artigos definidos” ao capitalismo imperialista”, unindo três diferentes teorias, de vária incidência, num só estudo, e com pretensões a desenvolver uma metodologia.

 

Por que vocês não escrevem um artigo juntos? Sou um dos organizadores de um livro multidisciplinar em andamento, que poderá acolhe-lo, mormento estando a linguagem, a semiose, a educação, presentes nele.

 

C. Desafio instigante!

(Marcondes Rosa de Sousa)

 

 

Honra-nos decerto, a Vagner e a mim, sua subscrição ao que pensamos. Sobretudo por você confessar-se “complexo” a ponto de ir dos “artigos definidos” ao “capitalismo imperialista”...

 

Sua sugestão, a do “artigo juntos”, não deixa de ser um instigante desafio. Não sei o que pensa Vagner, sempre com uma preocupação à frente. De minha parte, estou tentando juntar meus pedaços, um pouco saudoso da lógica do antes. Sou um Heráclito em busca, sempre, das essenciais permanências de nosso Parmênides. Por outro lado, sou ainda de conservar discos de vinil. O descartável me enerva.

 

Outro dia, encontrei-me com Fausto Nilo, arquiteto e compositor cearense. Um nordestino que não gosta da expressão. Ele, do Conselho Editorial do Jornal “O Povo”, reclamava contra o preconceito que o vocábulo “nordestino” traz em si. Aí, passou a usar a expressão: “vocês sudestinos”, para a reclamação do Sudeste. Pois bem, Fausto Nilo, como eu, é dos que guardam discos em vinil. Os filhos estão noutra. Para que guardar e, hoje, tudo se baixa, em download, se baixa da Internet, mercado onde tudo se encontra. Guardar, para quê? Só para ocupar lugar?

 

Sem querer, parece que estou entrando nessa. Meus artigos de jornal, por vezes os procuro na Internet. E, com surpresa, nem imagino onde eles vão parar.

 

***

 (...) nossa esperança é que a discussão sobre o processo de ler, que, entre nós – na escola e na sociedade – se faz urgente, possa incorporar depoimentos múltiplos, capazes de um profundo repensar da crítica situação onde, mergulhados, estamos nós.

 

Que o debate prossiga!

 

 

 

 

 

 

 

anterior | próxima

 

 

<$BlogPosts_Titulo$>

<$BlogPosts_Data$>

<$BlogPosts_Texto$>

\clip_image001.gif" o:href="http://www.grupos.com.br/images/template/logos/gruposinternet.gif">Grupos.com.br 2005 - Todos os direitos reservados

 

A leitura emburrece? (XIX - Debate aberto

19:38 @ 13/10/2006

A LEITURA EMBURRECE? (XIX)

 

1. Manifesto a se propor ao Congresso

Adail Sobral

 

 

Quem assina embaixo sou eu: temos todos razão. E mais ainda o Marcondes, ao unir aos vários segmentos, e pontos de vista. Estabelecidos os termos da discus­são (a *escola*, a *família* e a *sociedade)*, e a eles me referi na mensagem origi­nária, ainda que sem desdobrá-los, creio que podemos prosseguir e propor algo concreto. Quem sabe não vamos elaborar um Manifesto a ser amplamente divul­gado e, talvez, servir de proposição ao Congresso?

 

 

2. Burrice da escola?

Vagner Muniz

 

Também acho que se deva lutar coletivamente, mas talvez eu seja ingênuo: alunos, pais e professores unidos contra as mantenedoras? Acho pouco provável. Por muito menos dispensaram vários professores. O que mais se ouve é "tenho família, compromissos, não vou arriscar". E não estou dizendo que não devemos lutar – lutei e luto a vida toda. É uma luta desigual: levamos muito tempo articu­lando planos, buscando apoio de colegas enquanto "do outro lado", com apenas uma ação, mandam-se vários para a rua. "O povo, unido, jamais será vencido"... saudades!

 

O que você denomina "escola" poderia ter qualquer nome: shopping, dance­teria, clube etc. Quem está administrando, administraria a partir dos mesmos prin­cípios. E é por isso que me irritei quando vi o tipo de suas críticas à escola: o que é a escola? Essa escola que você diz que emburrece, mudados alguns parâmetros, se­ria a mesma a edificar, caso ainda existisse. Estou exagerando, é claro, mas hoje sou um "prestador de serviços educacionais"; trabalho num lugar que ontem era uma escola. Conheço uma "instituição de ensino" que tem pizzaria, loja de roupas, "bar­zinho", salão de massagens. Vão colocar um salão de jogos. Viva a integração, mas os alunos não assistem mais às aulas. O professor pode pensar o que for, não faz mais diferença. "Então paguemos menos e ganhemos mais". (Por que é tão fácil abrir e manter uma escola?). Em meio a isso tudo, o professor não tem direito nem a vaga na garagem!

 

E mais uma vez: claro que devemos lutar, buscar outras estratégias, mas essa luta agora é mais no sentido de manter um emprego que no de buscar outras es­tratégias didáticas.

 

Sim, a USP tem 90 alunos em suas salas de graduação. Coincidência ou não, também houve debandada de professores. O que ainda minimiza as coisas por lá é que há seleção de candidatos.

 

Você diz que quando fala "escola" não está falando necessariamente "profes­sores". Então o que significa esta sua frase: "o público mudou, mas a escola age como se não tivesse mudado!". A "escola" aproveitou uma onda mercantilista que ela mesma ajudou a criar. Essa escola sabe perfeitamente, pois, que o público mu­dou e age de modo a tomar partido (financeiro) disso. Sua frase só tem sentido se "escola" for entendida como "professores". Então vem aquela de você dizer que o professor não desce do pedestal: "Digo que os professores resistem a pensar a educação de outra maneira que não a aprendida antes da mudança". Pensar a educação? Quem está resistindo? Pensar a educação é o que mais fazemos! É esse o ponto em que digo que o dia-a-dia da profissão mudaria o rumo de suas críticas. Professor como "transmissor de conhecimentos"? E quem sério leva isso a sério? E para a mercantilização da escola, isso não faz diferença. Que dirigente dessas instituições está atento a isso?

 

                                                                                                        3. “Escola” não se lê “professo­res”

Adail Sobral

 

Também acho que isso é parte do motivo. Mas parece que damos pesos dife­rentes a essa parte. Os professores que estão desistindo, pelo menos os que co­nheço, foram justamente os que tentaram diversas alternativas. Não são esses, pois, os que percebem que a vida mudou ou que se julgam "idealistas abnegados di­ante de condições adversas".

 

É exatamente este o problema: tentaram isoladamente, em vez de coletiva­mente. E por isso perderam, julgando-se pessoalmente fracassados. Falo da "es­cola", não de professores isolados, por esse motivo. Porque é preciso lutar para mudar a própria concepção de escola, profissionalizar-se (sem os comercialismos) para propor uma melhor prática coletiva. Quando digo "escola", falo da instituição, não dos professore, mas claro que estes têm de estar no centro da coisa toda. Ima­gine se os alunos se unissem aos professores contra as "mantenedoras"! E com o apoio dos pais. Por isso os professores como um todo têm de alterar a prática.

 

"Uma faculdade abre dezenas de unidades, capta milhares de alunos. Apare­cem em seguida os cursos a distância ("virtuais"). O que fazer então com todo o investimento, com todos aqueles prédios? Reduzem as mensalidades, encurtam os cursos, dispensam os professores com titulação e contratam os recém formados, reduzem o quadro geral de professores e triplicam o número de alunos por turma. Os alunos acotovelam-se nas salas; alguns não encontram lugar para sentar, ficam em pé ou saem para os corredores. Gente que não acaba mais; barulho que cresce; calor que toma conta. E já falei do "processo de seleção", não? Outro dia pedi aos alunos que entregassem os trabalhos numa medida de 19 X 28 cm. Foi pedido da coordenação, que queria expor alguns trabalhos. Um aluno perguntou: "como as­sim?". E eu: "não entendi sua pergunta". "Como assim, 19 X 28 cm?". "Seu traba­lho deve ser entregue numa folha com essas medidas". "19 X 28 cm?". "Sim". "Como assim?". Se fosse uma piada, teria sido boa, mas não era. Um outro aluno não sabia o significado de "paralela".

 

Sei disso. Mas a culpa não é do aluno, assim como não é do professor, mas da mercantilização do ensino. A pressão tem de ser sobre o governo, que promove (eu disse pro-mo-ve) essa mercantillização para ir bem nas estatísticas. E o próprio aluno tem de tomar consciência disso. E o professor pode vir a ser u m exemplo e um líder e, assim, mobilizá-los (as heterotopias e os microníveis do poder de que fala Foucault), bem como às famílias. A USP tem classes com 90 alunos na gradua­ção.

 

"Até recentemente eu sabia o nome de todos os alunos, sabia o tipo de abor­dagem de cada um, sabia detalhes de sua vida pessoal. Hoje? Mal consigo saber quem é e quem não é meu aluno. E essa mudança aconteceu há menos de um ano. Há pouco eu realizava exercícios que exploravam a complexidade, o conhecimento em rede, a auto-organização, com bons resultados. Hoje quase não consigo falar. A sala não tem microfones, e eu não tenho voz. Preciso arrumar outras estratégias, é claro, mas não sou nenhum gênio e a mudança foi rápida demais. Então, em meio a isso, se o professor pensa X ou Y não está fazendo muita diferença."

 

Foi o que eu disse: o público mudou, mas a escola age como se não tivesse mudado! E não falei de "pensa" apenas. Mentalidade para mim não é algo indivi­dual, nem cognitivo, apenas, mas uma concepção social dos papéis das instituições, que é, no caso, inculcada no professor. E você disse tudo: " Preciso arrumar outras estratégias". Exatamente o que tenho falado.

 

"E não acredito que há uma vontade, do governo ou de outro, de acabar com o ensino (não estou dizendo que acredito que alguém, do governo ou outro, esteja preocupado com o ensino). Acredito é que o interesse econômico eclipsou qual­quer outro interesse."

 

Quando falo de governo, não me refiro a alguém, mas à burocracia governa­mental impessoal que segue os ditames do "interesse econômico". Note que a es­cola é altamente criticável, mas o ponto em que discordei de você foi o focar os professores como se fossem ciosos da condição deles. Há os que o são, mas que diferença isso está fazendo agora?

 

Falei, insisto, de "escola". Você leu "professores". Digo que os professores resistem a pensar a educação de outra maneira que não a aprendida antes da m mudança. O fato é: a situação mudou, e quem quer ser profissional nela tem de mudar correspondentemente. E o primeiro passo me parece ser duvidar das repre­sentações que se faz de um professor, que não deve ser de transmissor, mas agente de mudanças. Co-le-ti-va-men-te, insisto!

 

"Você diz "A escola continua a falar para um público de elite de anos atrás, salvo exceções por vezes heróicas". Se a escola continua a falar assim, está falando por outras bocas. As dos que conheço estão mudas.

 

“Agora, eu é quem fico mudo! Se as bocas estão mudas, a coisa é bem pior do que eu pensava!!! Agora sua prática matou minha teoria: eu pensava que a escola ainda falava. Mas, como diria Vigotski, vamos ensinar a ela a linguagem de sinais! ...

                                                                                               

4. Pluralismo e tato de Getúlio

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

E cá estamos nós a compor dissonâncias em produtiva harmonia. E isso nos traz à baila, conhecida história do Presidente Getúlio Vargas. Um dia, recebeu em seu gabinete as razões de um senador do velho PSD (o de outrora), a insurgir-se contra um projeto. Getúlio o ouve, em silêncio. E afinal apenas conclui: “Tem razão”. E o senador sai satisfeito.

             

Logo a seguir, entra outro senador. Desta vez, da UDN, a apresentar razões suas antitéticas às do líder do PSD. Atento, Getúlio balança a cabeça, faz anota¬ções. E afinal, conclui: “O senhor tem razão”. O udenista sai tranqüilo do gabinete presidencial.

 

Nisso, um assessor, que, de longe ouvia toda a conversa, chega-se até Getúlio, estranhando o comportamento do presidente, a acolher razões antitéticas: “Presidente, uma coisa não pode ser ela e seu contrário. Elas se excluem. Como somar contrários?” Getúlio esboça sorrisos e conclui: “Eh! Você também tem razão!... Moral da história: dependendo do ângulo de visão, cada um tinha lá suas razões.

 

Assim, senti-me. Ao ver a escola, dou razão a Adail. Mas não confundo “escola” com “professores”. Vagner, ao olhar para os personagens que deveriam ser os actantes maiores da escola, têm razão e razões. Eu mesmo, em artigo recente tenho falado dos “grosseiros dribles” que se perpetram em nossas escolas, simulacros, algumas, de “serviços especiais”, em território lá longe de onde deveria passar a educação.

 

Não dá para confundirmos: “Adail tem razão” é igual a “os professores têm culpa”. Iremos, como na anedota do Getúlio, chegar à conclusão de que têm razão Adail, têm razão Vagner ao defender os professores. E teremos razões muitas nós outros (famílias, órgãos de supervisão, entes sociais enfim) encontrando razões lá onde ... “o buraco é mais embaixo”.

 

 Melhor enfoque é nos voltarmos todos para a procura desse “buraco”, lá onde ele é mais fundo e gerativo da situação em que hoje se encontra nossa escola. Sobretudo, no diálogo construtor entre os três entes do processo educacional: a escola, a família e a sociedade.

 

 

5. O baixo padrão de leitura
Edgar Linhares 
 

(...) Mas não nos esqueçamos de que o estado atual do mundo transformou a leitura na principal arma do homem para enfrentar a vida. Sem ela, é praticamente impossível sobreviver com dignidade. Todas as nações do mundo estão com este problema.

 

Não tenhamos medo de  ensinar a leitura. Se fosse eu ministro da educação, colocaria a leitura como a única prova eliminatória dos vestibulares. É claro que criaria infinitos programas para facilitar o seu aprendizado que, diga-se de passa­gem, é muito longo. Você sabia que uma criança, na 2a. série, deveria ler 3 milhões de palavras por ano, para satisfazer suas necessidades de vocabulário ativo no fu­turo? Uma universidade americana perdia 70% dos alunos seus, em desistências. Pesquisa revelou que o motivo era baixo padrão de leitura. Isto acontece também na nossa UFC. Mas ninguém tem coragem de enfrentar o boi pelo chifre. Não de­sistamos.

 

5.Como está, a escola emburrece

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

Fui o primeiro a “assinar embaixo” de suas palavras. A escola, sim, tal como está, entre nós, emburrece – não tenho o menor receio de dizer, assumindo até, como pessoa ligada a ela (professor, administrador, conselheiro e pensador). Mas insisto: as causas são mais gerais: políticas e sociais, sobretudo.

 

O ângulo levantado pelo Vagner é, sim, verdadeiro e assustador. Não sou contrário a que a iniciativa privada (melhor diria social) preste serviços educacio­nais. Sou, porém, contra o mercantilismo na educação. Depois, desde Aristóteles até hoje – por mais que os meios de comunicação tenham proliferado – a escola é o que são seus professores. Os meios aí são caminhos, que diria com McLuhan – extensões do próprio homem, no caso o professor.

 

Há, por outro lado, reconheço, em minha postura, algo afetivo. Tenho sido receptáculo de muitas queixas de nossos professores: gente com alta titulação que se sujeita às mais humilhantes simulações. Deixam de ser protegidos pela CLT. Têm de criar caricatas “firmas” ou “cooperativas” para receber algumas aulas, pelas quais eles próprios têm de descontar a tributação e esperar um mês para além de um mês até que, em cheques e em parte, o dinheiro lhes caia no banco. Tudo isso, sem qualquer comprovação por recibo.

 

Nas universidades públicas, de muito, reprovação virou sinônimo de perse­guição. Ontem, um professor, na sala dos professores desabafava: “O aluno aqui em Letras, não lê. Reclama do professor, se ele o repreende ou reprova. Passa o tempo todo sem vir à aula, a gente tem de passar. Depois, ao sair, nos olha e ainda reclama: “Que faculdade vagabunda”.

 

Não, Adail. Não se abstenha da discussão. O que você tem nela posto é rele­vante. Apenas, gostaria de levantar questões que aí estão, afetando a noção que as pessoas têm de escola.

 

Já fui muito procurado por gente interessado neste “novo negócio”. Um dia, um senhor me procurou. Tinha uma pequena lanchonete na Av. Beira Mar em Fortaleza. Mas os negócios iam muito ruins. Daí, ouviu ele que o grande negócio agora é montar “uma faculdade”. E a ele tinham dito que o primeiro passo era se informar no Conselho de Educação. E o homem indicado era eu, na época o pre­sidente.

 

De outra feita, um amigo, que “comprara” uma instituição me procura: “Como você sabe, sou bom em cal e cimento”. Preciso de orientação. Inteligente, este foi além. Cercou-se de pessoas que puderam levar seu projeto adiante.

 

Em tudo isso, fico a pensar mais alto. Não sei se é de instituições assim, como as que se plantaram, que superaremos os problemas de nosso País, neste milênio.

 

Sempre me afastei do corporativismo, condenando-o até. Isso, porém, não me leva a fechar os olhos para a dor das pessoas, no caso, os professores. Algo de errado com certeza há de estar, um professor ser surpreendido chorando. Alguém, no dia em que, pela Assembléia Legislativa do Ceará, receber a comenda mais alta do estado como “educador do ano”, escutar de uma aluna: “Com o senhor, aprendi uma coisa: como não ser professor”...  Ontem, a turma (quase toda) recla­mava de um trabalho que eu passara sobre os “140 anos de Iracema”. E uma con­fidência: o minúsculo artigo que escrevi foi, no fundo, para mostrar a eles algumas temáticas imanentes no romance. E a prova disso que levei as cópias do jornal para a sala de aula – o que tenho de fazer com meus pessoais recursos...

 

Um adolescente hoje achar Iracema “um saco” faz-me até rir e concordar com ele. Uma jovem, na Universidade e justo no Curso de Letras, dizer e achar o mesmo, aí a história é outra. Só me lembro de um dia da reação de um professor meu. Num curso de literatura italiana, disse ao professor ter achado sonoramente “duro” um verso de Dante. Ele se danou a rir. É que imaginava um professor eu­ropeu ouvir de um simples aluno de Letras uma frase assim.

 

Pois é, hoje, qualquer um pode achar Camões, Dante, Alencar e João Cabral de Melo Neto uns tremendos “chatos”, por vezes a dizer “besteiras”. E nós outros temos de nos calar. E a concordar com tais ... “pós-modernices”! De lascar, re­volto-me. Desculpem-me, pois, o tom afetivo. Até Cristo, um dia, manso e hu­milde de coração, não agüentou os vendilhões do templo. E, em nossa educação, eles plantaram morada. E, como lógica, tomaram a moeda dos que os pagam.

 

Com isso, Adail, não o estou acusando de insensível a tudo isso. Meu desa­bafo foi em solidariedade à reação de Vagner. Aquela frase, eu já a ouvi muito no relato dos professores. Alguns deles, tiveram de deixar a instituição ... e até a área educacional.

 

 

 

 

 

 

 

Diversidade e multiculturalidade (Assunta Cabral)

22:07 @ 16/10/2006

DIVERSIDADE E MULTICULTURALIDADE:

 ALGUMAS REFLEXÕES

 

 

                                                             Assunta Maria Fiel Cabral[1]

 

Os aprendizados de costumes e valores sobre a vida humana têm sua gênese nas formações culturais existentes. Infelizmente, na história da humanidade essas formações culturais estabeleceram padrões de comportamento e atitudes a partir de valores de classes, circunscritos ao poder, à produção, à dominação e à opressão. Pessoas ou grupos de pessoas que ousam ou que ficam circunstancialmente diferentes desses padrões sofrem perseguições, preconceitos e discriminações. Essa forma de construção cultural precisa ser desconstruída apressadamente para que não se retarde mais a evolução de um mundo mais justo, fraterno e plural.

A diversidade é o conceito que expressa o vasto campo de conhecimentos e culturas existentes, abrindo caminhos para o pensar amplo e plural, pois vem demonstrar e qualificar a imensa e divina criação que é a vida. É só olhar, sentir e ouvir as múltiplas formas, sons e cores existentes entre os seres humanos, entre os animais, entre as flores, os rios, os mares, florestas...  e por aí podemos ir seguindo e desvendando coisas.

Nessa direção, é importante destacar a concepção de multiculturalidade como um conceito que se apóia na diversidade para demonstrar e referenciar a existência e a importância de múltiplas culturas. A multiculturalidade abarca os preceitos de democracia, reconhecendo e respeitando as diferentes culturas existentes na sociedade, porém, se colocando contra processos culturais balizados por injustiças, opressão e desigualdades.

A multiculturalidade é uma temática contemporânea que impulsiona a alteridade, estimula a criatividade alicerçando a educação no seu sentido plural, ou seja, a educação que liberta de preconceitos e estereótipos, orientando o ser humano para tolerância e compreensão  das diferenças.

A educação sob o prisma da multiculturalidade transforma mentes, re-significa posturas e conceitos, levando o ser humano a assumir uma nova atitude de respeito, consideração e valorização das pessoas e da natureza. Seria esta a atitude multicultural, uma nova posição diante da diversidade da vida em sociedade.

 

EXERCÍCIO

1)   “A diversidade é um fundamento da multiculturalidade” Analise essa premissa, apresentando exemplos.

2)   Por que a multiculturalidade estimula e potencializa a alteridade?

3)   De que forma a educação multicultural pode ser construída na sociedade?

4)   O que é a atitude multicultural e como pode influenciar a construção de um mundo melhor?

 

 



[1] Professora da Disciplina Cultura, Humanidade e Desenvolvimento na Faculdade Ratio; Mestra em Educação; Conselheira do Conselho Cearense dos Direitos da Mulher.

No início, o nosso verbo ... (registro histórico)

12:51 @ 17/10/2006

NO INÍCIO, O NOSSO VERBO...

 

“Linguagens novas não calam linguagens  antigas: a escrita - inclusive a escrita impressa -  tem muito de oralidade, assim  como a linguagem informatizada tem muito de escrita (...) Marisa Lajolo)

 

Antes do Grupo Ethos-Paidéia, iniciávamos com a Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, vinculada ao Conselho de Educação do Ceará.

 

Aqui, um pouco da memória dos seus primórdios, quando, por volta do Natal quase ao chegar aos anos 2000.

 

Vejam as discussões. Todos, atores envolvidos na cena educacional, de todo o País.

 

 

LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais

Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (http://www.cec.ce.gov.br)

Texto – Flagrantes da discussão (1a. Parte)

 

Ultrapassamos as 200 mensagens, de outubro a esta data.  Aqui, alguns flagrantes da discussão, que esperamos se reacenda,  tão logo ponhamos os pés no ano 2.000! Não temos a pretensão dos talvez esperados “melhores momentos”.  A escolha é aleatória e afetiva.  Daquilo que talvez, em nós, tenha ficado como preocupação maior, em nossos “desafios educacionais”:

 

___________________________________________

 

ANALFATETOS DEIXANDO DE SER ANALFABYTES

“Imagine-se em que patamar ficarão os padrões de nossa sociedade, se esse cenário ideal se transpuser do papel para a realidade! Nossas escolas, por exemplo, muitas delas mal ultrapassando a histórica fase da "oralidade primária", ainda nem mesmo entradas na fase da escrita, de Gutenberg e do livro – de repente penetrando os umbrais da informática! Analfabetos deixando também de ser "analfabytes"!...” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC/UECe, em Texto-provocação)

 

PRODUTORES DO ATRASO

 

“As escolas e os professores são as instituições e os pro­fis­sionais da tradição: sempre chegam depois (..).  Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...” (Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, CEC/UFC)

 

SAUDADES DO TEMPO DO CARTEIRO E DE SUA CORNETA

“... as pessoas que desejam estar em sincronia com a vida acompanharão a velocidade do progresso... Tenho, porém, saudades do correio da era da chamada com a corneta. Lembro-me do conto do Barão de Muenchhausen ...” Roberto Mueller, UFV/MG)

 

 

POLIFONIA DE LINGUAGENS

 

“Linguagens novas não calam linguagens  antigas: a escrita - inclusive a escrita impressa -  tem muito de oralidade, assim  como a linguagem informatizada tem muito de escrita.  As linguagens coexistem, influenciam-se mutuamente, renascem umas nas outras. Jamais morrem. E o que se precisa é de educadores que entendam esta polifonia de linguagens, tornando o ambiente escolar um ambiente poliglota,  onde todas as formas de linguagem sejam fortalecidas para que os alunos sejam sujeitos competentes em todas elas”. (Marisa Lajolo, USP/UNICAMP)

 

 

IGUALDADE DE OPORTUNIDADES E DE MEIOS

 

“Não se dá ingresso à universidade apenas pelo ato de deixar-se matricular o aluno. É preciso que esse aluno esteja convenientemente preparado e possua os conhecimentos e pré-requisitos necessários. Em outras palavras, só é possível dar ingresso, verdadeiro ingresso, a um aluno na universidade fornecendo-lhe a oportunidade e os meios a preparar-se para tal” (Tarcísio Pequeno, UFC/SBPC).

 

 

ESCOLA: MAIS QUE UM MERO LOCAL DE ENCONTRO

 

“Investir em educação não é só fazer com que nossos jovens e adolescentes freqüentem as escolas.  Devemos dar-lhes condições de aprendizagem. (...)  A escola não pode ser considerada pelo aluno apenas como um lugar de encontro, pois ele não acredita que não precisa aprender porque será promovido automaticamente.” (Michel Silas Guilherme, professor de física da Rede Estadual/São José dos Campos/SP),

 

 

COM MENOS CONDIÇÕES, CONSEGUÍAMOS! ...

 

Quando era menino, em Parnaíba, no Piauí, a Prefeitura criava e mantinha grupos escolares, bem montados fisicamente. Tudo, à época, era difícil. Mas elas, na minha casa, utilizando os parcos meios, tomavam cartolina e papelões, lápis de cor, aquarela e tubinho de tinta. E, com isso, criavam visuais, aos montões, para ensinar. Utilizavam os recursos visuais para transmitir.  A Prefeitura ajudava. Naquele tempo tudo era importado. Aulas eram dadas com cavaletes, nos quais colocavam quadros importados, mostrando os acidentes geográficos:  montanhas, istmos, ilhas, etc. Importavam-se quadros da Europa, para as professorinhas normalistas (lembra-me Nelson Gonçalves: “vestidas de azul e branco, trazendo no rosto franco, um sorriso encantador;/ Minha linda normalista...”). Gostaria de, para reflexão, com o meu depoimento, deixar um sentimento e a minha conclusão.  Penso que, se naquele tempo, com menos condições, conseguíamos tudo aquilo, não há nada que justifique o que está ocorrendo agora.  Perdoem-me!  Mas, plagiando o Boris Casoy, “é uma vergonha!”  Não há mesmo nada que justifique.” (José Carlos Ribeiro, do Banco do Nordeste do Brasil (aposentado)

 

EM BUSCA DE UM NOVO “CONTRATO SOCIAL”

 

“Pelo telefone, chega-me a insatisfação dos cursos de pedagogia.  Dos regulares, não dos emergenciais e dos ... “cristãos”.  Dos que, fora da rede, querem que lhes reservemos, de agora, o mercado futuro. Insinuações de protestos, no Dia do Professor.  “Uma boa!”, contenho-me, ao lembrar queixa de dirigente sindical: “os companheiros da educação pensam diferente do resto dos trabalhadores, os prejudicados maiores.  Questão interna a resolver”.  “Uma boa”, a  busca de um novo “contrato social”, a discutir-se nos nichos corporativos, na sociedade e na Internet!...” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC/UECe)

 

       CURSOS SEQÜENCIAIS: CONTENÇÃO DOS DESPERDÍCIOS

 

“Reconhecemos (...) o desperdício de muitos alunos que se matriculam em cursos superiores (...) e, apos alguns anos de estudos, abandonam as aulas, sem se graduar. Na Open University da Inglaterra, por exemplo, ao ingressar num mestrado, o estudante vai recebendo certificados à medida em que conclui certo numero de módulos ou seqüência de créditos ao longo de um período. Assim, se ele precisar se ausentar ou mesmo abandonar para seguir outro rumo, não terá desperdiçado (formalmente) seu tempo tomando estudos que nao levaram a uma certificação.  (...) essa prática é meio parecida com o modelo "self-service" aplicado à educação, no qual você escolhe o que quer fazer e vai se aprofundando à medida em que sentir necessidade de continuar” (Elian Machado, UFC).

 

PICARETAS DA EDUCAÇÃO

  

“Todos os picaretas da Educação - presencial ou a distância - deveriam ser denunciados ao Procon e expostos nos jornais, para que paguem publicamente pelo pecado de zombarem de um direito fundamental do ser humano. (...) as autoridades devem estar atentas ao fato de que sua resistência à educação a distância de qualidade só vai fazer proliferarem os picaretas que exploram o desejo de nosso povo de se escolarizar.” (Carmen Moreira de Castro Neves, MEC/SEED).

 

 

MERGULHANDO EM ÁGUAS COMOVENTES

 

        “Vi jovens e adultos, gente paupérrima, na batalha para ganhar uma profissão técnica, um salário que possa lhes dar bem mais que calangos nas refeições. Tudo de graça, com professores doutores e mestres, e laboratórios e equipamentos de primeira. E o que é melhor: ensino desburocratizado e estimulante, ligado à vida e às necessidades cotidianas das pessoas. Tive o prazer de visitar o CENTEC de Limoeiro do Norte e o CVT de Beberibe (...) . Ambos oferecem cursos profissionalizantes, básicos e técnicos de nível médio e superior. Conversei com muitos estudantes e senti  mais que firmeza. Senti esperança, matéria-prima escassa aqui pelo Sul maravilha. As pessoas modestas que buscam um futuro melhor, como profissionais ou pequenos empresários, lá encontram inúmeras alternativas de preparação.  Os pobres professores das escolas públicas ganham conhecimentos práticos para ensinar com mais base. Os estudantes fazem experiências diretas com os mais diversos aparelhos no campo da física, da química e da biologia.  Se for ao Ceará, não fique só na praia. Vá lá no interior mergulhar numa nova realidade comovente.” (José Monserrat, editor do “Jornal da Ciência”, da SBPC).


 
PACIÊNCIA E HUMILDADE NO APRENDIZADO DO APRENDER

 

“Estamos em um histórico momento de superação de nossas “ignorâncias”, aqui entendidas como a carência de conhecimentos em relação a vários contextos: o escolar (o analfabetismo), o científico e tecnológico, o sentimental (as emoções).  Podemos, pois, ter a paciência e a humildade para realizar o que preconizamos: aprender a aprender em educação a distância.” (Iranita Maria de Almeida Sá, do CEC e das Faculdades Christus).

 

 

A ESCOLA, UMA BABUNÇA!

 

“Ainda hoje, conversando com um jovem de aproximadamente 15 anos, cliente da escola pública ouvi-o dizer: "deixei de estudar porque a escola é uma bagunça". Como podemos melhorar esta situação? Penso que foi o poeta Thiago de Mello quem escreveu: "Quem sabe onde quer chegar encontra o caminho certo e o jeito de caminhar. " Será que nós realmente sabemos onde queremos chegar?” (Ivoni Sá, CEC/UFC).

 

 

VAREJO TENSO E REPETIVO

  

“É um quotidiano, o da NAU, onde as emoções mesclam-se com o apressa­mento das questões levantadas, pelo falar mais alto da dor e dos interesses individuais, despregam-se do quadro mais amplo do coletivo. Para quem o observa de fora, é um autêntico “mercado persa”, onde múlti­plos e confusos fatos sinalizam uma prática educacional em descompasso com as teorias incorporadas nos “projetos pedagógicos”, nos regimentos e peças do ma­rketing de nossas escola (...)  É um varejo tenso e, por vezes, repetitivo.  Conforta-nos, no entanto, a espe­rança de que, pouco a pouco, a autonomia da comunidade escolar se vá fortale­cendo e, com isso, esse tipo de problemas se vá apagando.  Esperança de que, com a participação das instâncias envolvidas no projeto escolar, sejam resolvidos os pequenos e os grandes desafios de nossa educação.  E que o Conselho de Educação deixe de ser a instância primeira a ser buscada” (Aurila Maia Freire, CEC).

 

ESTUDO DE CASOS REPENSANDO A ESCOLA

 

“Fica, Aurila, a sugestão de imitar a contribuição inteligente e humana do Rubem Alves, editando os estudos de caso que pululam aos milhares na sua mesa de trabalho. Pode ser que tais escritos circulem pelos cursos de formação de professores e comecem a propiciar um repensar do papel da escola, tal como ela é vista pelos estudantes das licenciaturas.”(Edgar Linhares Lima, CEC/UFC/UECe).

 

 

FÁBRICA DE AUTORITARISMOS E  RESSENTIMENTOS

 

“Li emocionado (...) depoimento belo e doloroso da Aurila Maia Freire, esse retrato sem retoques (e bem escrito!) sobre as mesquinharias do quotidiano de nosso sistema escolar público e privado, essa fábrica de autoritarismos e de ressentimentos. Um sistema cuja débil estrutura resulta do adensamento dessas misérias conjunturais. Tenho a tentação de sugerir que esse texto deva ser impresso aos milhares e distribuído, do alto, sobre todo o território do Estado e além fronteiras.” (Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, CEC/UFC).

 

 

A BRAVURA DO PROFESSOR, EM MEIO AO VELHO E AO NOVO

 

O panorama da escola apresenta-se também desmunido de bases adequadas para sua prática. As velhas teorias não servem mais e as novas só se forjarão com um atelier nacional de reflexão pedagógica, que não existe. Ao contrário, desapareceram os grupos que faziam isso há alguns anos.  Por essas e outras, o professor é um bravo. Mesmo neste clima de penúria, ele aí está. Muitos deles ainda  comprometidos com seu trabalho, na expectativa de que chegue de verdade a hora da escola, aquela em que a educação seja assegurada por estadistas, com estatura hu­mana e cultura (Esther Grossi, Deputada Federal (PT/RS).



UM AUTO-RESPEITO MAIOR!

 

 

“É  triste verificarmos a situação da escola quanto ao desinteresse geral de alunos, docentes e, em alguns casos, até dos administradores. Vemos, em nossa prática diária, professores sugerindo, na escola pública, que os alunos saiam mais cedo, para que não tenham mais aula.  Todos nós da educação deveríamos, acima de tudo, nos respeitar. Cito agora uma frase que parece até meio antiga, porém cabe bem: “Devemos zelar o nosso nome”. Não se vê, como acontece com os professores, um médico com uma camisa com a frase: ‘Hei de vencer mesmo sendo ... médico’ ...” (Maria da Conceição Pontes, professora do Sistema FIEC)

 

 

O PROFESSOR, DE LENTE A FALANTE

 

“Nós estamos matando a Universidade com excesso de aula.O aluno de hoje acaba pensando que Universidade é aula. E como não é! Há certas pessoas que adoram ficar sendo ouvidas por longos momentos. Esse é o retrato principal do professor, antigamente lente, hoje, digamos falante. Pois bem. O ensino a distância, neste sentido, é toda atividade de aprendizagem que se dá à distância do sujeito que lê ou fala como orientador. E tem, no que lê e fala, toda a sua tarefa e toda a responsabilidade do aluno a aprender o que ele disse ou falou.” (Edgar Linhares Lima, CEC/UECe/UFC)

 

 

VESTIBULAR, O INCÔMODO

 

O vestibular sempre me incomodou. Já em 1963, então aluno da Escola de Engenharia, quando convidado a opinar sobre o tema, não tive competência para fazê-lo. Trinta e seis anos depois,  depois, também não. Mas ele é problema meio, enquanto o ensino básico, como lhe diz próprio nome, é a própria base (Xisto Medeiros, empresário/Ce)

 

POR TRÁS DOS PAPÉIS, A AÇÃO 

 

“Nesses papéis, escrevemos recados mil para as escolas. O que, para uma escolinha pudica na zona rural cearense, significam esses recados? Nenhum, talvez, se  não se modifica a ação da professora que lá está. O papel, entretanto, se faz necessário. Ele pode ser o veículo para fazer com que as regras se permeiem de emoções. Para que a pedagogia se reinvente no dia a dia. E o conhecimento termine, na sala de aula, virando uma brincadeira: um palhaço tirando a máscara e, no palco da escola, fazendo a festa da aprendizagem.

 

Aí, o aprender converte-se:

 

§                                                   na arte de viver e no ofício do sobreviver;

§                                                   na magia do sorriso e no custo da alegria;

§                                                   na busca da felicidade e na rendição do eu.” (Sonha Malaquias, do CEC).

 

 

 MEXENDO COM EMOÇÕES

 

        Taí, gostei! Às vezes,  imaginamos os burocratas tão frios quanto os papéis que tudo comportam. Às vezes, porém, surgem Sonho(a)s, que nos reanimam porque conseguem mexer com nossos sentimentos e nossas emoções. Então, compreendemos que os papéis não podem ser invertidos, ou seja, sem o papel do Ser Humano, de nada valem os papéis.” (José Valdeci Lima, CEFET/Fortaleza/Ce)

 

 

DO BERÇO À TUMBA

 

“Já em 1972, por ocasião do Relatório da UNESCO, elaborado por Edgar Faure e intitulado APRENDE À ÊTRE, aquele órgão, como que se antecipando à idéia da globalização econômica, defendia a educação como um processo continuado voltado para a formação do homem cidadão de um mundo em mudança. Ali reconhece o autor que "a educação vai do berço à tumba" e que todos os tempos e lugares são lugares e tempos de educação. Assim não se pode pensar a educação em pedaços.” (Ivoni Sá, CEC/UFC).

 

UNIVERSIDADE: FANTASIA INATINGÍVEL PARA MUITOS

 

“Angustiou-me o fato de os estudantes das escolas públicas admitirem que suas chances de passar no vestibular são bem menores do que as dos estudantes de escolas particulares, considerando, além das precariedades da escola pública, o fato de eles trabalharem para colaborar com a renda familiar e estarem cansados para estudar quando retornam da escola, à noite. Cursos como Medicina se tornam fantasia inatingível e, percepção minha, um sentimento de derrota acompanha o estudante ao fazer essa afirmação. Como construir um futuro se nossos jovens estão desestimulados e sem condições de competir, principalmente porque a grande maioria está concentrada nessa faixa de poder aquisitivo mais baixo?” (Maria Oirta  Vasconcelos)

 

PAÍSES COMO O BRASIL CONTRA A PAREDE 

 

“O mundo globalizado e a era da informação, as grandes marcas do fim do século, apertam países como o Brasil contra a parede. O fortalecimento da cultura brasileira, a educação maciça do povo e a inserção do país na era informação devem ser os eixos centrais da resistência da língua portuguesa no século 21. Como bem lembrou a escritora Nelida Pinon ao celebrar os 500 anos da língua portuguesa no Brasil:  "a convicção de que estaremos todos nós sujeitos ao mais penoso exílio se perdemos a memória da língua, se permitirmos que nos roubem a linguagem, os mitos e nossa inextinguível capacidade  de recriá-los” (Virgílio Fernandes Almeida, da UFMB)

 

SEM TRABALHO, APRENDE-SE A PEDIR OU A ROUBAR 

 

“A meu ver, criança ou adolescente que não aprende a trabalhar de criança, aprende a pedir ou a roubar. As crianças de minha geração sempre fizeram pequenos trabalhos para os pais, ou mesmo para vizinhos e nunca ninguém morreu. Claro que sou absolutamente contra o trabalho de crianças em pedreiras, minas, fábricas, mas acho que o incentivo às Escolas Profissionais, com boa campanha pela mídia, seja uma boa solução.” Maria Helena Flexor (UFBa)

 

 

A ARTE TEM UM PAPEL NA ESCOLA

 

“Há dias, vi, na TV, uma escola onde os professores apelaram para a música e a poesia para despertar os sentimentos das crianças, que passaram a expressá-los sob forma de poesias. Aquela estratégia levou a uma ação mais compartilhada, tranqüila e eficaz do aluno. Destacou-se também que o rendimento dos alunos na área das ciências exatas, onde o aproveitamento foi mais elevado, devido ao despertar do gosto por aprender, pensar, criar.” (Ivoni Sá)

 

 

FRAGILIDADE DA FORMAÇÃO DOCENTE ENTRE AS ARTES 

 

“Lembro-me dos comentários da Profa. Lourdes Macena (texto 15), e faço a ligação com este, da Profa. Ivoni Sá (Texto 123), para referir-me à fragilidade com que se encontram os cursos de formação de professores de arte. Observo, com tristeza, que são poucos jovens que têm a intenção de seguir o magistério no nosso curso de Licenciatura em Música, da UECE — o único do Estado. Os problemas sociais se avolumam rapidamente, e faltam-nos não somente instrumentos de ação, mas alguns especialistas.” (Elba  Braga Ramalho, UECe)

 

0 comentários | publicado por Marcondes

No inicio, o nosso verbo ... (Parte II) - Registro histórico

16:56 @ 17/10/2006

No início, o nosso verbo ... (Parte II)

 

 

500 ANOS: É HORA DE MUDAR O HINO NACIONAL

 

“O momento histórico que viveremos no ano 2.000 poderá não ser apenas um instante de comemoração, mas o início de uma mudança de atitude e de mentalidade de nosso povo. Todavia, se pretendermos confirmar esse objetivo, teremos que mudar o Hino Nacional Brasileiro. E por que razões? Porque, embora devamos respeitá-lo como símbolo de nossa nacionalidade, não podemos deixar de julgá-lo e concluir que ele não representa bem a índole e os anseios de nosso povo. Se levarmos em conta a música, ela nos causa vergonha. Além de uma de suas frases musicais lembrar muito o Hino Nacional da França, ela constitui um acintoso plágio de uma sonata de Paganini, composta cerca de doze anos antes, conforme atesta o museólogo cearense Cristiano Câmara. E, se levarmos em consideração a letra, o Hino Nacional Brasileiro não resiste à crítica estilística mais superficial.” (José Lemos Monteiro, UFC/UECe/UNIFOR).

 

 

MUDAR O HINO OU MUDAR A NAÇÃO

 

“Sem desconsiderar a incompetência, preguiça e má-fé de muitos políticos e admi­nistradores, falta-nos, como povo, uma noção mais enraizada de bem-comum. Tenho visto pessoas jogarem latinhas de refrigerante pela janela de carros (luxuosos, por sinal), como se as ruas fossem "dos outros" e não "nossa". É preciso protestar contra os corrup­tos, claro. Mas não se pode jogar lixo na rua com a esperança de que ele desapareça magicamente e depois criticar a prefeitura por uma eventual epidemia de leptospirose... Não se pode desperdiçar e, ao mesmo tempo, reclamar de desperdícios... As pes­soas e, conseqüentemente, o país é que precisam mudar. O hino poderá`ser mudado de­pois.” (Luís Camargo)

 

NO GÊNESIS, DE NOVO!

 

“(...) lá estamos nós no Gênesis, de novo, instados a revê-lo, inesperadamente despertos de um profundo sono adâmico. Ao centro do Éden, eis que, agora, nos deparamo-nos com a árvore do bem e do mal – o saber. E, seduzidos pela serpente e por Eva, tomamos às mãos o até então proibido fruto, com a certeza de que, com esse gesto, abrimos os olhos, ficando mais perto da onisciência divina.  “Educação, educação, educação” – as três prioridades do mundo – gritamos em coro com Tony Blair, com o espanto de um “eureka” dos novos tempos! Uma educação, no entanto, não mais sob a conotação excludente do mundo de Adão, sob o viés da qual enxergávamos: 1) a ela mesma como um  “fruto proibido”; 2) todo processo criativo como um “parirás os filhos com dor”; 3) o trabalho como o  castigo do “comerás o pão com o suor do teu rosto”; 4) a sinuosidade e a sedução como  a  maldição do rastejar ao chão imposta à serpente.” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC/UECe)

 

 

NA EUFORIA CONTIDA DO DIALETO DOS JOVENS

 

“Elba se queixa da formação deficiente do professor de arte.  Ivoni releva o papel da arte no processo de reeducação e correção de rotas, entre crianças e adolescentes.  Lourdes termina por nos chamar a atenção para o lugar recriador, que teria a arte, numa escola que nada mais consegue do que refletir a violência e a feiúra de seu entorno. E os artistas reclamam de que a escola, alheia a seu itinerário e intento, não é o lugar ideal para a aprendizagem da arte. Há um ponto, mais geral, que deve, entre nós, ser repensado: o lugar da arte na escola básica (ensino fundamental e médio), onde a arte há de ser vista como um componente fundamental à formação de todo cidadão, responsável que é ela pelo desenvolvimento, no educando, da sensibilidade, da intuição, do senso estético, enfim de uma ferramenta emotiva para a decifragem e, ao mesmo tempo, para a construção do mundo.  Nossa escola, infelizmente, ainda está longe disso (...)  Disso tudo, fica-nos a lição.  Procedentes que sejamos de diferentes “culturas”, detentores por isso de diferentes olhares, é hora de orquestrar tudo isso no sentido de que, na escola, na universidade e na sociedade, a arte e a educação se aproximem, fazendo os habitantes do mundo mais afetivos, intuitivos, sensíveis, construtores do belo, enfim.  Dessa forma, tenho certeza de que meu filho e seus colegas nos aplaudirão a nós todos, na euforia concisa de seu dialeto: “Beleza!” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC?UECe)

 

POSTURA PEDAGÓGICA INCONSISTE 

 

“Enquanto professores e escolas, apesar do discurso, mantêm-se com uma postura pedagógica inconsistente, os alunos tornam-se meros reprodutores de um mundo de informações cada vez mais difícil de dominar, e sem aplicação à realidade dele e da sociedade em que está inserido. Pior: pais e alunos estão habituando-se a esse merchandising. A tal ponto que começam a acreditar que é esse tipo de “ensino” massificado, reducionista, robotizado, mercantilista, acrítico, “decoreba” (como se costuma dizer por aqui), que é o ideal, pois faz passar no vestibular.” (Ricardo Marques, Colégio Kerigma, Fortaleza/Ce).

 

 

  SE EU ME CHAMASSE RAIMUNDO...

“A sugestão do Prof. Lemos Monteiro, de se aproveitar o ensejo dos 500 anos de Brasil para mudar o Hino Nacional Brasileiro, remeteu-me diretamente a Drumond: "Mundo, vasto mundo/Se eu me chamasse Raimundo/Seria uma rima, não seria uma solução". Quero crer, portanto, que a solução vale mais do que a rima. E parte importante da solução reside justamente na educação, que, por sinal, é, a um só tempo, rima e solução.” (Cláudio Ferreira Lima, técnico em planejamento/Ce)

 

NÃO ME VENHA COM O VELHO ARGUMENTO DA QUALIDADE!

 

“Quando aderi ao "Movimento estudantil", em 63/64, lutava-se por uma Reforma Universitária que democratizasse o acesso à Universidade. Hoje, esta mesma instituição, sob pretextos variados, atua no sentido de manter-se como um templo de elite, onde poucos eleitos podem pisar. E não se venha com o velho argumento de que isto se faz em defesa da qualidade, porque esta não é assim tão maravilhosa e, principalmente, porque, com audácia, imaginação e boa vontade, é possível aumentar bastante a quantidade sem ferir a qualidade, e talvez, até elevando-a.” (Francisco Salles, IPLANCE/Ce)

 

 

EXCELENTE NOTÍCIA!

 

“Excelente notícia, essa do SETEMA (Seminário Teológico do Maranhão) ter se retirado de sua “aventura” a distância.  Parabéns por ter vencido esta queda de braço.  Precisamos continuar atentos para que a credibilidade dos cursos a distância não seja ameaçada por iniciativas desse calibre.” (Mauro Pequeno, UFC/SECITECE)

 

POTENCIALIDADE AINDA NÃO EXPLORADA

 

“(...) temos outro processo, complementar ao primeiro: a requalifica­ção da rede de ensino.  E, nisso, há um importante papel a ser desempenhado por nossas instituições de ensino superior.  Elas têm, quanto a esse aspecto, uma potencialidade que não foi ainda de todo explorada” (Eunice Ribeiro Durham, da USP e CNE).

 

 

O RETORNO DO AUTODIDATA E DO MASCATE

 

“Mas são os meios de comunicação que estão, afinal, mudando os nossos conceitos de escola.  A educação a distância redimensiona a noção de “auto-aprendizagem”, cultivada outrora pelos autodidatas.  E, em função dela, o ensino se ajusta às condições específicas de quem queira aprender, acessível sob novas dimensões de espaço, de tempo e de interatividade, entre o ensino (a partir professor) e a aprendizagem (a partir do aluno). 

 

Essa, aliás, a marca revolucionária dos novos tempos. A Inter­net traz de volta, o mascate a bater à nossa porta, sem que precise­mos sair de casa para ir às compras.  E, no contexto com outros meios a distância, recobra-nos a figura da auto-aprendizagem. Nesse contexto,  a escola é, cada vez mais, um “self service”, sem a necessidade de pratos feitos e garçons, já que os rígidos cardápios começam a ceder lugar à escolha personalizada pelos alunos, segundo seus gostos e padrões dietéticos, enfim.  Com o mascate e o self service, a escola começa a chegar até o aluno, respeitando-lhe o itinerário. Não apenas o dos trabalhadores e ar­tistas. Mas dos interessados todos no aprender.” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC/UECe)

 

COM O OBJETIVO EXPLÍCITO DE ACORDAR DEUS

 

“O início mítico (o do Ceará) é o do amor entre um português branco e uma índia tabajara, gerando um filho destinado à migração e ecos românticos posteriores de pura poesia. Depois, tanto a republicana e separatista Confederação do Equador, como a vanguardista Abolição da Escravatura e a luta original e telúrica contra as secas e as pestes, foram sempre acompa­nhadas pelo esforço de qualificar, popularmente, a cultura iluminista ibérico-moçárabe e de digerir, ao modo antropofágico, as influências francesas, inglesas e norte-americanas. Invetamos a Padaria Espiritual, vaiamos o sol em plena Praça do Ferreira, apelidamos de Babaquara a tiramos provincianos, transformamos vaqueiros e jangadeiros em novos mi­tos e provocamos muito barulho pela ruas com o objetivo explícito de acordar Deus.” (José Jackson Coelho Sampaio, da UECe).

 

VALORIZANDO A EXPERIÊNCIA EXTRA-ESCOLAR

 

“Trabalhador rural, largava a lida ao por do sol e empenhava-se numa longa caminhada para chegar à escola e assistir à 1ª aula. Quando chegava, a aula já estava na metade. Dependendo da compreensão do professor, tinha ou não a fre­qüência. Na escola, ele era líder de classe e  muito atento às aulas. No final do ano, logrou aprovação, por média,  em todas as disciplinas, exceto em Educação Física, que ficara reprovado por faltas (...) Por que reprovar um aluno em Educação Física nestas condições? Para que prática melhor do que o trabalho braçal da roça e as longas caminhadas, driblando relevos e se defendendo de tantos perigos?  Até que ponto as aulas de Educação Fí­sica exerceram influência em sua vida de camponês e em que modificariam a sua postura em suas  atividades agrícolas? (...) Diante dessa realidade e, na condição de técnica do Conselho de Educação do Ceará, não hesitei em orientar a escola a considerar o esforço físico diário do aluno como prática de Educação Física ...” (Helsenir Lucena, técnica do CEC)

 

‘ALUNO INADIMPLENTE’, FIGURA INÉDITA

 

“A figura inédita do 'aluno inadimplente' não se coloca em termos de legalidade e constitucionalidade, mas como problema da barbárie e da humilhação degradante de criancas e adolescentes por quem o Estado não sente a menor responsabilidade, uma vez que não lhes dá a escola pública gratuita a que tem direito e permite a indignidade de sua expulsão da escola privada, exclusão que tem como causa direta a política econômica que arrocha salários, produz desemprego e estabiliza a moeda instabilizando a vida, estimulando, entre outras façanhas, a manutenção do trabalho infantil.” (Marilena Chauí, USP)

 

 

FUST LEVA O AVANÇO ATÉ AS ESCOLAS

“Na sociedade do conhecimento a educação das populações é a vantagem competi­tiva mais importante para o desenvol­vimento. Nesse contexto o Fust (Fundo para a Universalização dos Serviços de Telecomunicações) passa a ter um papel rele­vante, principalmente no apoio a programas de educação a distância e na garantia de acesso à Internet dos computa­dores instalados em escolas públicas e privadas.” (Antonio Cruz Vasques, CEC/SECITECe/ANATEL).

SERVIÇO EDUCACIONAL E CONTRATO COMERCIAL

“Não merecem o nome de escolas as instituições que não souberem diferençar suas relações com alunos e pais de um simples contrato comercial” (Ministro Paulo Renato)

 

 

SOLIDÃO, AMBIENTE NADA PROPÍCIO AO APRENDER

 

“Qual a receita do êxito? - o “Provão” nos suscita a indagação. Decerto que os tradicionais indicadores são uma pista (qualificação docente, adequada proposta curricular, condições de apoio à aprendizagem). Sozinhos, porém, são como vocábulos, que, desconexos e sem alma, não fazem a frase.  Hão de ter “sintaxe” e sentido,`articulando-se em dada direção, onde “sentido” seja também o palpitar da paixão, do aprender juntos e do “espírito de turma”.  Amealhar créditos, na solitária via-sacra das salas de aula e laboratórios não é aprender, que este é solidário ato, não exitoso na solidão!” (Marcondes Rosa de Sousa, CEC/UFC/UECe)

 

 

 INTELIGÊNCIA QUE É PRECISO MANTER

 

“Como a vida, a lista é uma comunidade viva, de interesses mútuos e excludentes, e de personalidades que se firmam. Com todos os conflitos e virtudes que existem, demos vida a ela, e agora nos sentimos na responsabilidade de criá-la e de fazê-la amadurecer ajustando-se à nova vida. Matá-la, seria como se morresse um pedaço de nós, um filho (mesmo que adotado), fazendo falta após o seu desaparecimento, uma lacuna a preencher. Uma inteligência, embora coletiva, que veio ao mundo e que agora é preciso manter.” (Elian Machado, UFC).

 

UM LUGAR PARA TODOS

 

“Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, pois, na hospedaria, não havia lugar para eles”.

 

Que, pelos caminhos da educação, encontremos lugar para todos.  E que, assim, ao entrar no ano 2.000, possamos gozar, na terra, da paz “dos homens por ele amados”.  Nossos votos.  (Marcondes Rosa de Sousa, Presidente do CEC).

 

O LUGAR NO “NÃO LUGAR” DA UTOPIA

 

“Obrigado pelos votos de Natal e Ano 2000, apresentados de maneira tão original e bonita. Que você, sua família, seus amigos e o Conselho encontrem, cada vez mais, seu lugar.  Muitas vezes, o lugar é um não-lugar, a utopia. Encontremos nossa utopia juntos.” (André e Regina Haguette, UFC)

 

 

 

 

 

Educação, a revolução social dos novos tempos (Marcondes Rosa de Sousa)

18:39 @ 20/10/2006

Educação, a revolução social

dos novos tempos

 

 

“Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quan­tos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equa­dor.  Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e ma­dura”.

 

 

(Discurso proferido por Marcondes Rosa de Sousa, Presidente do Conselho de Educação do Ceará, na solenidade em que recebeu o título de “Cidadão de Quixeramobim”, a ele outorgado pela Câmara Municipal desse Município, em 5 de dezembro de 2002)

 

 

     É com um misto de responsabilidade e emoção que recebo este título de “Cidadão de Quixeramo­bim”.  Para mim, uma honra e um privilégio.  Con­fesso, porém, que, além do privilégio e da honra, pe­sam-me a consciência e o sentimento de humildade, ao nele enxergar menos um tributo à minha história-de-vida e ao que fiz por esta terra, e mais um sinal da soli­dariedade a um projeto comum que se desenha e cons­trói.

 

***

Cidadão de Quixeramobim!  O viés do professor de linguagem leva-me a refletir sobre os dois termos dessa expressão, a me calar fundo: ‘cidadão’ e ‘Quixeramo­bim’.  Cidadão, afinal, o que vem a ser? Quixeramo­bim, por outro lado, o que representa como persona­gem em nossa história em comum?

 

      ‘Cidadão’, sabemos, é desde a origem, o ‘habi­tante da cidade’.  E , de ‘cidade’, legaram-nos o latim e o grego, três entrelaçadas acepções: a da urbs, a da cívitas e a da pólis. 

 

A urbs, de onde se gestou o urbano, desenha-se pelo conjunto dos logradouros e ruas, das edificações e monumentos, do patrimônio arquitetônico-ambiental, enfim. A cívitas é a dimensão da teia das relações soci­ais, representada pelos atores vários nela em cena.  A pólis, de onde nos veio a política, é o projeto coletivo e dos sonhos, gestado na sucessão do ontem, do hoje e do amanhã de nossa transcendência histórica.

 

A urbs é o palco e cenário.  A cívitas, o jogo da cena pública entre os atores plurais. A pólis, o enredo do projeto sócio-político, por fim.

 

Assim havemos de “ler” e entender Quixeramo­bim.  Uma urbs a sinalizar o jogo dos atores sociais que encenam e constróem um projeto coletivo. 

 

Aí estão suas ruas, suas igrejas, seus logradouros e monumentos revolucionários, o memorial dedicado ao Conselheiro – um filho seu – a eloqüentemente falarem todos de uma história, desde a “Vila de Campo Maior” de outrora até a Quixeramobim destes digitais tempos de agora, a abrigar uma instituição universitária nascente e a construir-se a partir da força do solidário.

 

 Na urbs, a marca reiterada de um arqué­tipo a identificar um povo a tocar para frente esta cívi­tas: vale dizer, o arquétipo do ímpeto libertário a mou­rejar nos personagens aqui vividos, contumazes partíci­pes nos históricos surtos revolucionários da Nação e do Ceará: a Independência do Brasil, a Confederação do Equador, a Proclamação da República, a Revolta de Pinto Madeira, a Concentração em Muxuré, a Sedição de Juazeiro, para ficarmos com os principais.  Ímpeto libertário que tem, em um de seus filhos, talvez o ícone mais expressivo desse caráter latente em sua gente.  Re­firo-me a Antônio Conselheiro, protagonista da “Guerra dos Canudos”, saga imortalizada em “Os Ser­tões”, de Euclides da Cunha.

 

Assumir a cidadania de Quixeramobim é, pois, partilhar dessa história, desse sentimento arquetípico, desse projeto enfim.  E, em mim, palpita a emoção desse compartilhamento ao tempo em que me pesa (repito) a responsabilidade de, em solidariedade, aju­dar a levar avante esse projeto.

 

    O cidadão, se, por um lado, é um ente singular (assim o impõem o determinismo ou a opção), é ele, antiteticamente, um ser plural, já que, por natureza, nasce social.  Assim, mesmo que, como um singular indivíduo, esteja eu recebendo o título de “Cidadão de Quixeramobim”, somo-me (bem o sei) a um coletivo.  E à soma e ao coletivo não estou chegando sozinho, despido do social e da pluralidade que comigo carrego.  Comigo, pois, trago as metoní­mias muitas que, pelos caminhos da vida, tenho agregado – vale dizer, os valores e atores em harmônica dissonância de mi­nha convivência e ação. Por isso, é de justiça que re­parta com esses atores, a honra e a responsabilidade da cidadania a mim conferida.

 

Na verdade, “homem algum é uma ilha”, já se disse. E “eu sou eu e mi­nhas circunstâncias” – repetiu-se. “Eu sou eu e minhas convivências”, repiso no mesmo tom.  Com as minhas circunstâncias e convivências – em maior ênfase os que comigo habitam os latifundiários espaços da “pessoa jurídica” do Presi­dente do Conselho de Educação do Ceará, aqui repre­sentados por conselheiros e técnicos – é de justiça que faça deles parceiros no dividir a honra e o ônus do título que ora recebo.  Parceria que gostaria que se estendesse a todos aqueles que co­migo habitam o afetivo terreno da afeição: a família, os conterrâneos, os amigos, que, de uma forma ou de outra, solidarizam-se no mesmo projeto.

 

A iniciação à cidadania, como num batismo, marca-se em geral sob um signo: da água, do fogo ou algo semelhante.  No caso, o batismo que é esta ceri­mônia parece carregar-se de dois expressivos símbolos a expressar o sentimento libertário desta terra: a Con­federação do Equador e o caráter de Antônio Conse­lheiro.

 

Registra-nos o Prof. Marum Simão, em seu livro Quixeramobim: recompondo a história, o que dizia Júlio César da Fonseca, sobre o espírito a nortear a Confederação do Equador, movimento revolucio­nário de 1824:

 

“A Confederação do Equador foi um sonho, um desses sonhos eternos de reforma e transformações, foi um poder criador, olhando o futuro da Pátria, sem as ambições e os preconceitos dos caçadores de glórias vãs, dos imitadores estéreis sem ânsia do bem, que se superpõe aos interesses, e só se preocupam com o seu eu”

 

Sobre Canudos, onde Antônio Conselheiro fez-se o protagonista, o Prof. Marum Simão cita o Prof. André Haguette, ao apresentar livro do Prof. João Ar­ruda:

 

“Canudos não é um ato meramente acadêmico de reconstrução histórica; é também um compromisso com a revolta moral e social, diante da miséria e da opressão...”

 

De forte simbologia talvez tenha sido a coincidência de a reunião do Conselho de Educação do Ceará para a aprovação da experiência de implantação, no Sertão Central Cearense, de uma instituição comunitária de educação superior, haver-se realizado justo no prédio histórico da Câmara de Vereadores, o mesmo cenário-sede da adesão de Quixeramobim à Confederação do Equador, no passado.  Quem sabe ainda não traria também essa mesma carga simbólica o ter este ato revolucionário, como atores, conselheiros outros (no caso, os do Conselho de Educação do Ceará), a adotar como trilha e emblema os gestos de outrora assumidos por Antônio, o Conselheiro.

 

Na verdade, nestes tempos modernos, os do sa­ber, onde a escola é o reator da economia a da vida, a superação da opressão e da miséria faz-se pela via da educação. Isso, disseram e estão a dizer os que trazem consigo o espírito da Confederação do Equador, no passado e no presente.  De certa forma, a Instituição Universitária que nasce sob o espírito comunitário é a versão moderna da Confederação do Equador, a pri­meira do gênero logo abaixo do Equador, nas Regiões Norte e Nordeste, a portar consigo o mesmo o espí­rito de reação e superação da “miséria e da opressão”, a pautar a ação do Conselheiro Antônio de nossa histó­ria.

 

Este título, a mim, cidadão a simbolizar a marca do esforço plural, tem a força de um amplo “contrato social”, sonho tormado concreto, a transcender o terri­tório de Quixeramobim e a espraiar-se (é o sonho) aos ex­tensos latifúndios ao sul do Equador... Sinal desse desi­derato é o olhar atento de gestores de municípios vá­rios de nosso Estado sobre a experiência de instituição universitária comunitária em curso, no Sertão Central Cearense.

 

 

 

Invade-me invade-me a emoção de compartilhar da cidada­nia de um Quixeramobim, musa a inspirar versos de Jader de Carvalho, a crônica poética de Manuel Ban­deira, a saga de “Os sertões”, onde Antônio Conse­lheiro se fez personagem maior, as referências várias nas letras da Música Popular Brasileira.  De integrar extenso rol de filhos ilustres de tão abençoada terra, a fazer his­tória por este Ceará e Brasil. De compor a galeria dos que foram agraciados com a honra de cidadãos de tão libertária terra. 

 

Assiste-me o orgulho de me constituir concidadão com quan­tos levam hoje avante românticas sagas como a Confederação do Equa­dor.  Com quantos outros de quem tomaria como ícones os que compõem esta Câmara de Vereadores e o Prefeito Cirilo Pimenta – sinais estes do Coletivo quixeramobinense, a versão moderna dos confederados de outrora e jeito atualizado de Antônio Conselheiro, ao tentar superar a “revolta social e moral”, com as armas do acesso à educação e ao trabalho, pondo em prática, de forma pacífica, revolução social dos novos tempos, mais solidária e ma­dura.

 

De mim, resta-me a gratidão pela oportunidade de, em solidariedade, tornar-me ator na História.

###