Grupos

 

Celso Furtado 1984

 

DO BARRO DO CHÃO

 

Marcondes Rosa de Souza

O Povo - 20/08/2007 01:27


“Cansei”. Esses, os “braços cruzados” de crítica a se alastrar pelo país a nossos políticos, no piquenique de seus pessoais interesses, sob a sombra dos pés de murici. Partidos, a se repensar. E, com tal intuito, convite para a abertura de vias novas à “social-democracia brasileira”.


Volto a 1984, a ouvir, retornado ao País, Celso Furtado, a nos falar de sustentável desenvolvimento para o Nordeste e o País, a unir toda uma geração num “projeto de mudanças”, passos da social democracia brasileira, aqui a nascer “do barro do chão”.


Novo século e milênio! Lembro-me do embaixador Jadiel de Oliveira, na Fiec, a nos falar do “socialismo do Séc. XXI”, a brotar no oriente, onde, pragmáticos, os direitos sociais precediam os políticos. Modelo para o Brasil, possível se a partir do Ceará, “onde o sol libertário sempre nasce mais cedo”...


O Brasil vive agora o fugaz pregão das bolsas – a do mercado e a do bolsa-família, desatento à história e amanhã seus. Em nossa democracia, julgamos, críticos, nossa política, o bode-expiatório de nosso fracasso histórico. Tempo de mudar tal quadro. Ver a democracia como o multicultural diálogo de uma sociedade em seus direitos, sob a feição do verbo pelos intelectuais, a ação pelos gestores e o tato pelos políticos.


Oásis, o sugestivo nome do hotel onde transporemos a aridez de nosso deserto político, neste 27 de agosto. A calhar, se, de volta, trouxermos o otimismo de Celso Furtado, em sua cinebiografia “O longo amanhecer”, por entre os ciclos políticos e a dialética de riquezas e limitações, rumo ao sustentável desenvolvimento, a se embasar no trabalho.


E a humildade que, a nós, então “nova geração”, nos deixava ele em 1984: “que ela aprenda, com nossos erros, a restabelecer a fé no futuro deste País, que, aparentemente, se desgastou muito”.



Marcondes Rosa de Souza - professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará

 

 

 

ERA UMA VEZ ...

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 03/09/2007 01:15


O engenheiro João Virgílio Sales, leitor de O POVO, me dá o mote: "Era uma vez... E Ali-Babá?" Dizem os que defendem os 40: "Decisão política e não jurídica, a do STF".Geraldo Duarte:"O Brasil acordou menos triste". Uma professora: "Tudo porque, no STF, a presidente é mulher, e um negro, o relator".Do exterior:"Aqui o que rola é que não somos um país sério".

 

De volta, o "passar a limpo" de Darci Ribeiro. E, nessa linha, os ciclos (econômicos e políticos), de Celso Fur­tado, esgotáveis - 15 anos em média, a classe política despreparada para enfrentá-los. Dito em 1984, aqui, onde o sol libertário nasce mais cedo. De lá para cá, a democracia não mais se contém "império da maioria". É bossa nova a compor "dissonantes acordes" de respeito às minorias: intelectuais a lhes dar verbo; gestores (públicos e sociais) a torná-los ação; o tato político a captá-los. Isso, por ironia, justo quando o "capital humano", entre nós, é desperdiçado pelo "cansamos", a solidão, a fossa. Só na UFC, 254 docentes, em depressão. Mulheres (diz-me a ex-prefeita de Fortaleza, Maria Luíza Fontenele), em maior número. Isso, na terra de Iracema, "a porção feminina da alma nacional".

 

Menos arrogantes, os partidos também se passam a limpo, buscando o olhar social até em atrito com o dito "discurso necessário" de antes. A educação, nau sem rumo a morrer na praia, descobre que, sem o porto da cida­dania e do trabalho, é estelionato social. E professor, se "empregado de aluno" ou "jumento de verdureiro", é condutor sem remo. Miragem, o pregão das bolsas (a do mercado e as do tipo família), sem o horizonte do desenvolvi­mento (agrícola, industrial e dos serviços), a viciar o cidadão.

 

Passar a limpo o País com outro "era uma vez". O da cigarra e a formiga, trabalho e arte em dueto, a nos recobrar a ufania perdida!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

SENADO, O ESPELHO

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 17/09/2007 00:47

 

Lápis e borracha à mão, vinha eu propondo limpar o País, na busca de novo "era uma vez". Mas os últimos episódios no Senado abalaram-me o otimismo.

 

Na TV e na mídia, busco entender o surreal ali visto. As pistas, aos poucos, soldando-se.Artur Virgílio, de um lado, liberando o voto de companheiro alagoano, mas, de outro, lendo a reunião como "terapia de grupo". O jornalista Noblat, pintando Renan, ao ameaçar os colegas, com o "eu sou vocês amanhã". E isso me trouxe, de volta, à febre dos grupos terápicos nos anos 70, a nos mergulhar em infantis "fossas" até sua gradual limpeza em maduro mundo. O Senado viveria tal "fossa" por todos nós. E Cristovam Buarque, ao pedir o registro da reunião, talvez a visse espelho de toda a nação.

 

Os jornais falam de nossa aposta no oscilante jogo das efêmeras bolsas, no mercado e na vida social. Em lua de mel com o agora, tripudiamos sobre o passado com o "nunca neste País" e cegos quanto a sustentabilidades no amanhã. Nos jornais, o alerta: "Apesar de seu indiscutível propósito social, o Bolsa-Família não conseguiu atingir seu objetivo primordial: a redução da pobreza. Estudo elaborado por professores da pós-graduação em economia da Universidade Federal (Caen/UFC) aponta que o carro-chefe do governo Lula, assim como os demais programas de transferência de renda existentes no País, não têm efeitos significativos no combate à pobreza. Pior: poderiam, no futuro, criar um circulo vicioso".

 

Não é só nossa Câmara Alta que está em jogo, num intentado golpe contra a bicameralidade do Congresso Nacional. Não só os políticos, mas toda a vida nacional, hoje à procura de novo amanhã, onde os sociais direitos precedam os políticos e a escola nos leve ao trabalho e à participação social. Pois, aos sãos, a esmola e a mera aposta só viciam o cidadão!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

Espelho, espelho meu ...

 

DEFEITO ERA SER BOM

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 01/10/2007 05:32

 

Na rua onde moro, observo papos de pessoas saídas de velório na igreja do Menino Deus, no bairro Luciano Cavalcante, de jovem brutalmente ali assassinado. De manhã, o assassino esfaqueara a senhora, tentando arrancar-lhe a bolsa, afugentado por guardas da Câmara Municipal. À noite, na mesma rua, tentara do vizinho, estorquir dinheiro para drogas, tomara-lhe a moto, esfaqueando-lhe cabeça e costas, deixando-o a ali agonizar. Patrulha policial, ao passar, negara-se ao socorro: “Problema de vocês. Fomos escalados para outra ocorrência”. Na delegacia do bairro, policial se escusa: “Não vou sujar as botas, entrando no mangue, atrás de drogado!”

 

No papo, dizia-se do assassino: “Matava cachorro e gatos, guardando-lhes a carne na geladeira para comer”. E do pedreiro, pai da vítima, o lacônico depoimento: “Só tinha um defeito. Era bom. Por isso, morreu como morreu”. Nos papos, o desencanto com nossos valores: honestidade, trabalho, ética. E sentidos queixumes sobre alienação de nosso marketing, onde segurança e estética urbana pautam-se pelos figurinos da visão narcísea de nossos políticos.

 

Entre intelectuais, dou testemunho da alienação depressiva e crescente com o chegarmos ao fundo do poço, nessa questão. O fim dos tempos! Tento ver apocalipse à luz da bíblica acepção de revelação, aviso e renovação de ciclo. Mas alguns já vêem, a nos rondar, o Anticristo, com data marcada para o “juízo final”.

 

Da área política, ouço vozes em prol do resgate da ética. Animo-me. Daí, evocar aqui a queixa de que “a dor da gente não sai no jornal”. E isso com a de um pai: “Era bom e, por isso, morreu” Nela, o recado de nossos eleitores sobre a visão equivocada do marketing de nossos políticos: a do chão falso e manco a nos embasar o direito à vida. No País, no Ceará e nesta Fortaleza a iludir-se de ... bela!

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

 

ÍCONES CULTURAIS

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 15/10/2007 

 

Ipueiras. Distrito de São Gonçalo da Serra dos Cocos. O País dos Mourões, na voz de Gerardo, “nosso Dante” disse Drumonnd de Andrade, e a celebrar 250 anos de sua Matriz. Palco das “fratricidas brigas”, expressas em ruínas. Isso, a par de tentativas como as de reforma agrária por Dom Fragoso.

 

Ali perto, experiências ensaiadas de agricultura familiar. Até, nascente indústria de polpa de frutas. Olhar, aí, para a frente, a flecha do arco da paz a quebrar-se. Como o Cristo da Caatinga, que, embora arranhado por incômodas torres a seu redor, mira, em reta, a Bica do Ipu, sob a pauta dos sonhos de Nagib, prosaico mourão a sonhar com a “grande metrópole entre as duas cidades”. No imaginário das pessoas, pingas, fartos em toda a região, a se somarem a estações ferroviárias, igrejas e a Casa da Otacilândia, com suas 120 portas, a desenhar o progresso. Tudo isso, num tempo em que o patrimônio histórico e cultural pode tomar, como o fez, o próprio samba como um dos monumentos de nossa cultura. Escola é preciso. Mas, aí, a lição que confessou ter aprendido Ariosto Holanda, de D. Aureliano Mattos: “sem arte e sem ofício, não somos filhos de Deus ou cidadãos”. Centecs e CVTs se impõem.

 

Observo o grau de saber de populares a ler “ícones” a lhes pautar o amanhã. E, em Fortaleza, tento levar tais traduções do sentimento coletivo ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que se dispõe ao estudo de tais sentimentos, onde o cultural traduz sentimento do povo e aponta soluções concretas para seu desenvolvimento. E a mim, acode a sensibilidade para o concreto que invadiu ao industrial Edson Queiroz quando lançamos a Rádio Universitária e divulgávamos as “águas”: “Vocês me chamaram a atenção para algo mais importante. Não queimam e todos precisam”. Nasceu-nos indústria da água mineral!

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

 

É PRECISO TOCAR!

O Povo, Fortaleza, 27/12/2000

 

Em Limoeiro do Norte, sob toldo armado ao ar livre, 800 pessoas assistem à colação de grau das primeiras turmas do Centec.

Astros raros num céu acadêmico dão fulgor à cena da ensolarada manhã: Governador, Vice, secetários de Estado, prefeitos da região. No rosto de todos — professores e graduandos sob medievais vestes talares —, transpiram emoção e calor.

Afinal, anuncia-se o credenciamento, pelo Conselho de Educação do Ceará, do “Instituto Centro de Estudos Tecnológicos”, desconcentrado em 3 unidades (Limoeiro, Juazeiro e Sobral), com cursos vários reconhecidos para a formação de tecnólogos, e auxiliado por 36 braços de extensão, para a educação profissional (básica e técnica) de uma população descolarizada para o trabalho, em todo o Estado (os CVTs). Autêntica “universidade tecnológica”, plantada no interior, hoje modelo para o País, fruto da paciência e da lição de Bilac: “trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua”!

Toque maior do evento, o engasgo-quase-choro do Secretário Ariosto Holanda, ao evocar a admiração de criança por Dom Aureliano, bispo em Limoeiro, com quem aprendera a lição: — sem uma arte e um ofício, não somos filhos de Deus ou cidadãos. Ariosto confessou-nos sua caminhada “Joãozinho Trinta”, a convencer a todos de que  “pobre gosta de escola boa, com laboratórios e professores iguais aos dos ricos”.

Na emoção de Ariosto, o lado “sentido’ (na polissemia do termo) do Governo de Tasso, a nós chegado na versão de liturgia e marketing esquecidos do tato, por vezes. Na era digital, tocar é preciso. Obras, sim, nos engrandecem. Mas é com gente (e para as gentes) que o desenvolvimento se toca.

Testemunha silente, guardo de toda essa saga, feitos e gestos de humildade e grandeza. E, no íntimo, carrego o refrão de Y-Juca-Pirama: “Meninos, eu vi”!

(Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de Artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1985 a 2001). Sobral, Edições UVA, 2002)

 

 

 

 

 

 

 

POLÍTICAS SOCIAIS NO CEARÁ

 

Tasso Jereissati

 

O Povo - 08/09/2007

 

Nos nossos governos à frente do Estado do Ceará, conseguimos grandes avanços. Organismos nacionais e internacionais constataram, nos últimos vinte anos, que o nosso Estado melhorou em seus indicadores sociais: reduzimos os índices de mortalidade infantil, através do Programa Agentes de Saúde; diminuímos a taxa de analfabetismo; colocamos 97% das crianças de 7 a 14 anos dentro da escola; criamos uma rede de proteção social à infância e ao adolescente, como os Programas Criança Fora da Rua Dentro da Escola, ABCs, Escola Viva, dentre outros. Foi um gigantesco esforço implementado junto com a sociedade cearense, ao lado também de outras ações no campo econômico, na infra-estrutura e na administração da máquina pública.


Quando iniciamos o Governo em 87, a taxa de mortalidade infantil registrava óbito superior a 100 crianças de cada mil nascidas, antes de completarem um ano de idade. Como não tínhamos recursos, pois encontramos o Estado totalmente desestruturado, recorremos a medidas de baixo custo que pudessem envolver a sociedade. Assim, criamos o Programa Agentes de Saúde, que anos depois foi reconhecido pela ONU como uma experiência a ser seguida para o êxito das políticas sociais. Essa ação resultou na criação do Programa Saúde da Família, idéia hoje implementada em todo o País. A mortalidade infantil caiu e prosseguimos com outras medidas, a exemplo da municipalização da saúde, descentralizando o setor para atender melhor as populações nas bases, nos seus municípios.

 

No campo da educação, universalizamos o acesso à escola com programas como "Todos pela Educação de Qualidade para Todos" - reconhecido pelo Banco Mundial como grande fator de melhoria do índice de desenvolvimento humano no Ceará. Outros programas como Luz no Campo, Liceus de Artes e Centecs (profissionalizantes), Mãos Dadas (de apoio ao adolescente em conflito com a lei), Vilas Olímpicas (esportes para as comunidades), Programa Estadual de Artesanato (emprego e renda), ao lado das grandes obras de infra-estrutura (Castanhão, Aeroporto, Porto do Pecém, Rodovias, Linhões de Energia), mais a industrialização, turismo e a moralidade administrativa foram decisivos na consolidação dos novos caminhos que o Ceará resolveu trilhar rumo ao desenvolvimento, com o apoio e participação do seu povo.

 

Mas temos ainda um longo caminho a percorrer, e o PSDB nacional , que compartilhou conosco de todos esses esforços, se reúne em Fortaleza para discutir no Seminário "Desenvolvimento Social: Educação, Saúde e Assistência Social", as novas contribuições que poderá dar ao país. É preciso superar as grandes carências que resistem, em face da ausência de políticas públicas responsáveis e exeqüíveis buscando reduzir as desigualdades regionais, em vez de estimular o assistencialismo. O Brasil precisa ser visto como um todo e o Nordeste não pode continuar à margem dos investimentos sociais que reduzam a pobreza, implantem a justiça e promovam a melhoria da qualidade de vida das populações.

 

Tasso Jereissati governou o estado do Ceará nos períodos 1987 a 1990, 1995 a 1998 e 1999 a 2002; é Senador da República.

 

 

A SOCIAL-DEMOCRACIA E AS POLÍTICAS SOCIAIS

 

Paulo Renato Souza

 

Criamos o Bolsa-Escola, o Peti e outros programas. Ao mesmo tempo, fizemos a revolução silenciosa na Educação, que - graças ao Fundef - universalizou o ensino fundamental

O Povo - 08/09/2007 00:05

 

A rede de proteção social hoje existente no Brasil foi criada pelos governos que antecederam ao atual, em especial no de Fernando Henrique Cardoso. Nenhum dos atuais programas, incluindo o Bolsa Família, foi criado mos últimos 4 anos. Lula ampliou alguns deles e mudou seus nomes, eliminando, porém, as contrapartidas concebidas originalmente para propiciar a cidadania para seus beneficiários.

 

Não divergimos de Lula quanto à existência de uma forte rede de proteção social, mas sim quanto ao enfoque dado pelo seu governo, que tem dois defeitos: de um lado, perpetua a pobreza, ao não apontar portas de saídas que promovam a inclusão. De outro, não é acompanhado por políticas estruturais em áreas estratégicas - como a Educação e a Saúde. Sem estas, o que deveria ser emergencial torna-se permanente.

 

Quando governou o país, o PSDB soube combinar os programas emergenciais com as políticas estruturais. Criamos o "Bolsa-Escola", o Peti e outros programas. Ao mesmo tempo, fizemos a revolução silenciosa na Educação, que - graças ao Fundef - universalizou o ensino fundamental. Expandimos significativamente as matrículas nos diversos níveis de ensino e criamos o sistema de avaliação do ensino - Saeb, Provão e Enem. Na área da Saúde, os avanços também foram significativos com a consolidação do sistema SUS, com os genéricos e programas dignos de elogios pela ONU.

 

Já o governo Lula voltou-se quase que exclusivamente para os programas emergenciais. Como produto disto, assistimos a recuos importantes na Educação, ao abandono de programas estratégicos, a falta de foco e de prioridades claras. Na Saúde, não houve avanços e está aí a crise que se manifesta em quase todos os estados nordestinos, indicando que o SUS está em estado pré-falimentar.

 

O PSDB se dispõe a resolver esta dicotomia para que o país tenha uma política social integrada, capaz de superar a miséria e a marginalização de milhões de brasileiros.

 

Paulo Renato Souza é deputado federal (PSDB/SP). ex-Ministro da Educação

 

 

 

QUALIDADE DE VIDA

 

Carlile Lavor

 

"Mas, doutor, uma esmola/

Para um homem que é são/

Ou lhe mata de vergonha/

Ou vicia o cidadão"

 

Zé Dantas, médico pernambucano.

O Povo -  08/09/2007 00:05

 

O ano de 1987 veio com mais uma seca para o Ceará. O novo governo Tasso seguiu a receita cantada por Luiz Gonzaga. Ofereceu trabalho para os sertanejos sobreviverem a mais uma calamidade. Cada uma das secretarias do Estado selecionou formas emergenciais de trabalho que ocupassem a mão de obra e beneficiassem a população mais pobre. A Saúde empregou 6 mil mulheres para conversarem com as vizinhas sobre alguns temas como: acompanhamento pré-natal na unidade de saúde, assistência ao parto, aleitamento materno, higiene com o recém-nascido, vacinação, seu desenvolvimento e aplicação do soro oral para evitar a desidratação.

 

Terminada a seca, verificou-se que aquelas mulheres haviam prestado uma grande colaboração à saúde. Ao contrário do que ocorria nas outras secas, "menos sinos tocavam anunciando que um anjinho ia para o céu". O trabalho se reinicia, logo em 1988, com o Programa Agentes de Saúde, como havia se pensado na ampla discussão de preparação do projeto para o novo governo. Em 1991 o Ministério da Saúde adotou o programa para todos os Estados nordestinos, disseminando-o posteriormente para todo o Brasil, que conta atualmente com 240 mil agentes comunitários de saúde.

 

Em 1993, o Unicef premia o povo e o governo do Ceará pelo progresso na saúde das crianças. Um agente de saúde vai à sede da ONU, em Nova York, na comitiva cearense que recebe o prêmio Maurice Pate. O Dr. James Grant, diretor executivo da instituição enfatiza em seu discurso: "Se toda a América Latina seguisse o exemplo do Ceará e reduzisse a mortalidade infantil em um terço durante a década de 90 - alcançando em prazo de 10 anos o que o Ceará logrou em apenas 3 - as vidas de 1.250.000 crianças seriam salvas".

 

O Unicef avaliara, através de seus pesquisadores, a situação de saúde das mães e das crianças cearenses entre 1987 e 1990, pois o Estado não contava com dados que representassem fielmente a nossa realidade. No final de 1993, os 183 municípios do interior do Estado contavam com 7.500 agentes de saúde, e o Ceará passou a conhecer mensalmente as crianças que nasciam e morriam. Identificou-se a alta mortalidade nos primeiros meses de chuvas todos os anos, quando as águas dos rios e açudes estavam mais contaminadas. Fortaleceu-se o programa de construção de barragens, de adutoras e de tratamento da água para o consumo humano. O contato diário dos agentes com as famílias, comunidades e com os serviços de saúde, poderá trazer mais benefícios para a qualidade de vida dos brasileiros.

 

Carlile Lavor - Secretário de Saúde do Ceará nos anos de 1987 e 1988

 

 

Marca-símbolo do

Ethos-Paidéia

 

 

"EX ISSO OU AQUILO”

 

 

O Povo, 29.10.07

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

 

Três cenas a exalar esperanças. Duas, dias atrás. Hoje à noite, a final.

 

De início, café-da-manhã, orquestrado por Clóvis Catunda, entre professores e pensionistas aposentados da UFC (hoje uns 800). Pauta, a angústia de todos por se mostrarem úteis, pelo abraço produtivo, na sociedade, entre “cabeças” (os intelectuais), “mãos” (os gestores) e o “tato” (os políticos).  Isso, em meio ao clima geral de um “cansei” de ser apenas um “ex isso ou aquilo”.

 

Dias depois, sessão solene da Assembléia Legislativa, a comemorar os 39 anos da Universidade Vale do Acaraú.  O mundo acadêmico, social e político, ali a louvar a interiorização universitária pelo Ceará, outras regiões do País e da África, feita pela UVA, em muito com a colaboração de aposentados, quando ali ressaltamos o empenho de cabeças, tato e mãos de todos nós em tal jornada.

 

Hoje à noite, na sede da Fiec, a terceira cena esperada. Quando ali se empossa, no Projeto Rondon/Ce, o deputado José Teodoro Soares, acolitado por acreditados atores. Num Rondon que, desde os 60’, vem integrando regiões, saberes do mundo acadêmico, mas que, doravante, quer ir além, no esforço social mais amplo da integração de “cabeças”, “mãos” e “tato”, hoje a se atropelarem no infantil balbucio dos anacolutos.  A Federação das Indústrias, mais que símbolo, já reconhece a indústria para além das chaminés, aí tendo assento as do conhecimento.  E o gesto de hoje passa a ter pragmático apelo: o de que, entre nosso mundo intelectual, o da gestão (pública e privada) e o do político, celebre-se pacto duradouro e histórico, em torno da “responsabilidade social”, a se pensar lei, no País, além da fiscal.

 

Possível, sim, a partir do Ceará, terra onde o sol libertário sempre nasceu mais cedo.  Que professores de outras esferas (pública e privada) juntem-se nesta corrente!

 

 

 

"AQUI TUDO SE MEXE!"

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo, 01.10.2003

 

Noite! No Curso de Letras da UECe, na Av. Luciano Carneiro, reencontro colegas. E, ali, todos me cobram impressões sobre o retorno à sala de aula: "Afinal, 18 anos depois de afastado para cargos públicos" - é a conta de um deles. Sem jeito, apenas sorrio.

 

Reiniciante, falo de arte e literatura aos alunos. E, a propósito da interação entre as artes, conto-lhes de nossos esforços, na UFC dos anos 80, por aproximar cinema e literatura, em seminário para o qual os dois mundos aqui acorreram, a pretexto de seminário a tomar por base a experiência do filme "Tigipió", de Pedro Jorge de Castro, sobre romance homônimo, de Herman Lima. A proposta era abrir caminhos para que o cinema nacional ­então marcado por andar trôpego, herança da fotografia e do documentário - aprendesse com o ritmo da narrativa literária. Era de ver-se a euforia dos cineastas com a luminosidade do Ceará, descoberta por Orson Welles, em filme inacabado. E com o mover-se, latente em nossa literatura: "Aqui, tudo se mexe. Até na descrição das caatingas, como se sob o enfoque dinâmico de câmeras!"

 

Em casa, repasso em flashback minha sala de aula e seu entorno. Ecoa-me, aí, a queixa da Profa. Lourdes Macena: "Como falar em arte e de belo, em nossa escola, se ali e em seu redor é tudo tão feio?". Nas paredes, repouso o olhar sobre meus quadros. "Tudo coisa de pobre" - martela-me, aos ouvidos, Bernadete, a empregada doméstica. E, no entanto, nossa pobreza neles se transfigura em belo, sob a intuição dos artistas. Curioso! Neles, tudo parece mexer-se: os mares bravios, o vento a açoitar os coqueiros, o povo em seu trabalho.

 

Olho a vida em meu entorno. Aqui, é verdade, tudo se mexe. Marca nossa! Também na sala de aula, universo que, malgrado pobre, há ser grande. É só questão de olhar e de tato!

 

 

 Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará