Grupos

A TAREFA DAS TRADUTORAS E TRADUTORES

Texto para comemorar, tendenciosamente, o  “Dia do Tradutor”)

 

Adail Sobral

30/9/2008

  

                As tradutoras e tradutores têm como essência de sua tarefa tornar o diferente compreensível. Logo, os seres humanos reconhecem que há diferenças, como não poderiam deixar de fazê-lo, mas precisam transpô-las de alguma forma, porque, como se sabe, os seres humanos são animais discursivos, animais que buscam, pela(s) linguagens postas em discurso, compreender o outro, entender a diferença que é o outro, porque só fazendo isso cada ser humano é capaz de entender a si mesmo: o sentido nasce da diferença. 

                Num mundo globalizado como o nosso, mundo babélico por excelência,então, essa tarefa se torna ainda mais complexa, pois se a um contato maior com o todo do mundo se associa a busca mais intensa das segurançadas partes respectivas do mundo na qual cada grupo humano – e mesmo cada pessoa – está, a compreensão da diferença para a qual a tarefa de traduzir contribui tem de levar ainda mais em conta o outro lado, ou face, do Jano aí presente, que é o público do discurso traduzido, ao lado de uma importante fonte do discurso traduzido, que são os discursos em outra língua, isto é, as formas típicas de numa dada língua, se dizer certas coisas em determinados contextos. Assim, o que se chama de "original" — e prefiro chamar de "texto a ser traduzido" — é na verdade uma das fontes, pois, a depender dessas formas típicas (ou gêneros), a mesma palavra pode apresentar as mais distintas ressonâncias de sentido.

                 Desse modo, o ato de tradução é um contato que envolve tanto o acordo  como o confronto, uma "negociação" específica entre dois diferentes,ou duas diferenças. Há um diferente do qual se traduz e para esse diferente, a língua para a qual se traduz também é um diferente. O diferente a ser traduzido, apesar da globalização, ainda é local: um falante de uma dada língua dirige-se a seus pares. O diferente para o qual traduzimos requer que um falante de uma dada língua dirija-se a seus pares e não aos pares do autor que ele traduz.

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(Adail Sobral é doutor em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Mestre em Letras pela FFLCH-USP e especializado em Lingüística pelo IEL - UNICAMP. Graduado em Letras - Inglês pela UFBA. Tradutor do inglês, do francês e do espanhol das editoras Loyola, SBS, Vozes, Idéias & Letras, Martins Fontes, entre outras, nas áreas de filosofia, lógica, pós-modernismo, teoria psicanalítica, bioética, temas da atualidade etc.)

 

 

 

Sérgio Machado

Bons ventos, Brasil

 

Queridos companheiros,

 

O dia 5 de setembro de 2008 vai ficar para sempre marcado na história da Transpetro e de todos os que integram essa valorosa força de trabalho. 0 presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz o primeiro corte do aço no Estaleiro Atlântico Sul, em Pernambuco. Começa a construção do primeiro dos 49 navios que integram o Promef - Programa de Modernização  e Expansão da Frota da Transpetro. Este evento representa muito mais do que uma grande conquista para o quadro funcional da Companhia. É uma nova era que se descortina para a indústria naval brasileira. Para que um dia tão glorioso pudesse acontecer, cada um de nós, da Transpetro, participou com o seu quinhão. Todos devemos nos orgulhar.

 

Se não fosse, no entanto, a decisão firme do Presidente Lula, que apoiou 0 programa desde o primeiro momento, nada teríamos a comemorar hoje. 0 Promef é a vitoria não só da excelência, mas também da perseverança e da ousadia. Um magnífico trabalho de conjunto. Diversos setores do Governo, entidades empresariais e sindicais, universidades e centros de pesquisas se uniram aos nossos técnicos. Todos são protagonistas na elaboração de um programa criterioso e consistente. Hoje, o Promef já não pertence mais à Transpetro, ao Sistema Petrobras ou ao Governo. É um programa do povo brasileiro.

 

Não foi fácil chegar ate aqui. Os pessimistas de sempre lançaram falsas objeções. Nos tempos da criação da Petrobrás  também foi assim. Diziam que de nada adiantaria procurar mais petróleo, porque ele não seria encontrado.

Muitos anos mais tarde, tentaram barrar Promef, alegando que seria melhor continuar comprando navios lá fora, pois não conseguiríamos atingir os níveis desejados de competitividade. O sucesso já alcançado pelo programa, com o significativo aumento recente do volume geral de encomendas para os nossos estaleiros, comprova o quanto estávamos certos, e como é nociva a ação daqueles que só sabem andar para trás.

 

Em uma empresa de logística, como a Transpetro, é preciso se antecipar ao futuro para não ser por ele surpreendido. Com o Promef, o futuro chegou para a nossa indústria naval, depois de décadas de crises e abandono. Embora essa seja a nossa maior conquista, está longe de ser a única. Nos últimos anos conseguimos muitas outras vitórias, elevamos os nossos padrões de eficiência e segurança, e concretizamos projetos vitoriosos em todas as áreas. O reconhecimento da sociedade veio na forma de importantes prêmios, mas nem por isso esmorecemos. Cada novo desafio nos motiva ainda mais. Esse é o nosso espírito e por isso chegamos a esse estágio de excelência.

 

Parabéns a todos e um forte abraço.

Sérgio Machado

 

(Transcrito do Jornal Transpetro – Ano 5, no. 84, setembro 2008, p. 2)

 

Veja a mensagem acima no Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/Manage.html?action=add

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (I)

13:24 @ 09/10/2008

     

 

Aqui, em série sob o título “FestRio em Fortaleza”, realizado em novembro de 1989, divulgamos uma série de entrevistas e reportagens, colhidas pela professora, radialista e cineasta Ilvis Ponciano hoje participante do Grupo Ethos-Paidéia, matária resgatada de fitas ora convertidas, conquanto ainda em estado bruto e sem edição, em dois DVDs, com vistas, à época, para o acervo da então cognominada Secretaria de Cultura, Turismo e Desportos do Estado do Ceará, tendo, por Secretária,  Violeta Arraes Gervaiseau, recentemente falecida, a quem eu assessorava, na qualidade de Diretor do recém-criado Departamento de Cinema e Audiovisuais.

 

        De minha parte, coordenador deste Grupo e de seu Blog, fui partícipe assim dessa história, que, no plano cultural brasileiro, tentou  - e ainda hoje tenta - amainar, no País, os “dois brasis” divididos que, há muito, persistem  em nossa vida, entre o Centro-sul e as outras regiões.

 

        De início, gostaria de extrair do vídeo, uma das entrevistas de Luiz Carlos Barreto, a nos expor as razões da transferência do FestRio para Fortaleza.  Cerca de 600 outros depoimentos (entre cineastas – nacionais e estrangeiros – autoridades, populares) constam do registro da professora Ilvis Ponciano.  É toda uma história, a desaguar nesse “evento”, que, de forma alguma encarou-se “é ... vento”. Nem a mim e nem a muitos outros, que nele nos envolvemos como testemunhas históricas e actantes...

 

            Os depoimentos aqui nessa série não têm a pretensão nostalgia de mera volta ao passado.  Mas, muito ao contrário, a instigação de nos indagar, a nós outros e aos que aos que cuidam do nosso desenvolvimento cultural, o quanto andamos e para onde andamos.  E, nesse trajeto, onde hoje estamos.

              

                Olhos à frente,

                Marcondes Rosa de Sousa

               Coordenador Ethos-paidéia

               

 

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O FEST RIO EM FORTALEZA (VI Edição)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA LUIZ CARLOS BARRETO

(25/11/1989)

 

 

1.     Razões do deslocamento do Festival do Rio para Fortaleza

 

a)    Atração para o projeto de produção audiovisual

                Este ano, o FestRio (Festival Internacional de Cinema do Rio) deslocou-se para Fortaleza, por uma atração natural e cultural desta cidade.  Aqui, no Ceará e, em particular, Fortaleza, ponto importante foi levado em consideração.  É que os governos (o da cidade e do estado), isto é, tanto o prefeito como o governador, têm, ambos e em harmonia, um projeto de aqui implantar um centro de produção e pós-produção  audiovisual, aberto a toda a Região Nordestina, aberta ao Centro-Sul e à própria produção estrangeira.  Esse projeto está a caminho e, com ele, se quer instalar um pólo para a produção, o que, significa que, aqui, é o lugar onde está havendo interessa pela indústria do audiovisual.  Por essa razão, o FestRio transferiu-se para aqui...

                Esta, a razão principal e primeira.  É natural que a nós, do FestRio, vir instalá-lo aqui, onde está havendo um grande movimento e interesse pelo setor audiovisual.  E é natural e até obrigação do Festival que isso aconteça.  Com isso, dá-se o respaldo à idéia do pólo, com vistas a uma cobertura e atração internacional, para aqui trazendo grande número de jornalistas e produtores  do País e internacionais, que tomarão conhecimento desse projeto.

 

b)   Descentralização cultural no País

                Outra razão importante, a descentralização cultural no País.  Não é possível que o Brasil se restrinja, em sua produção cultural, ao eixo Rio/São Paulo.  Essa é uma deformação que temos a obrigação, dos brasileiros, de desmanchar.

 

c)     A vocação turística de Fortaleza e do Ceará

                Por último, as conveniências ditadas pelo turismo, vocação do Ceará e, em particular, de Fortaleza.  O Rio, sede do FestRio, transformou-se numa cidade muito perigosa, onde não mais existe o mínimo de segurança.  Nem mesmo a quem lá vive e muito menos para os turistas e visitantes.  E isso foi também coisa que os organizadores do FestRio tivemos que pesar.

                Mas a razão fundamental  estão foram as duas primeiras, que consideramos fundamentais...

               

          PONTOS ADICIONAIS POSTOS

          PELA ENTREVISTADORA

          A LUIZ CARLOS  BARRETO          

 

                              

1.     Caráter do FestRio: futuro itinerante?

               

                Não! Itinerante ... não vamos ser nunca. O FestRio não pode ficar itinerante...  Pode até, vez por outra, realizar-se em outra cidade, por uma razão especial.  Digamos que, um dia, Curitiba, por exemplo, completa 300 anos de existência.  Por essa razão, podemos deslocar o Festival para lá.  Isso, sim, é coisa compreensível.  Mas ficar, todo ano, mudando-lhe, ao FestRio, a sede, não tem o menor sentido.

 

2.     Expectativa sobre a sede em Fortaleza

               

                Fortaleza tem tudo para ser a sede do FestRio.   Nós vamos, evidentemente, observar o evento em seu transcurso.  Até agora, ele transcorre muito bem, com muita aceitação por parte dos estrangeiros.  Muito bom, é voz geral.  A organização do evento melhorou porque podemos concentrá-lo mais numa cidade do porte de Fortaleza.  Em tudo, a gente pode ficar mais concentrado, resguardados do burburinho de uma grande cidade.  Então, , é possível que a gente fixe, de vez, o Festival aqui. Mas isso vai depender da performance tanto a  nossa parte como a da cidade.  Mas penso que temos tudo para que o FestRio se fixe de vez aqui...

 

Veja na Web:

 

http://www.millarch.org/artigo/festrio-foi-para-fortaleza-mas-ganhou-maior-dimensao

 

http://www.millarch.org/artigo/violeta-arraes-mulher-que-levou-o-festrio-para-o-ceara

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(Na foto, ao fundo, Luiziane Lins, cineasta à época

e hoje reeleita prefeita de Fortaleza)

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (II)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

Marcondes Rosa de Sousa

 

Entrevista prestada, por ocasião da abertura do VI Fest-Rio, no Cine São Luiz, em Fortaleza, por Marcondes Rosa de Sousa, à época diretor do Departamento de Cinema a Audiovisual e integrante da coordenação do evento, a Ilvis Ponciano, para documentário-registro junto à Secretaria de Cultura, Turismo e Desportos do Ceará, em 25/11/1989.

 

 

 

·        Qual a importância do FestRio para o Ceará              

         Importância, sob vários ângulos.  Desde o turístico ao moral, já que ele pode nos tirar do clima de “fossa”, em que nos encontramos, ao sediarmos esse encontro de porte internacional aqui em Fortaleza.  Importância cultural, tendo o Ceará a oportunidade de possibilitar a convivência com  produção cinematográfica do mundo inteiro.  Fortaleza, afinal, está sendo a capital do cinema e do áudio-visual – brasileira e mundial. E essa é, para nós, a ocasião para o encontro com os possíveis parceiros para aqui implantarmos, no Ceará, o ambicionado pólo de cinema e audiovisual.  Essa, sem dúvida, é a importância maior.

 

·        O Pólo e a descentralização da produção cultural no País

         Na raiz desse movimento, está, por certo, a luta pela descentralização da produção cultural brasileira.  Na verdade, não acredito que, de um momento para o outro – já que isso tem raízes de natureza econômica – possamos, magicamente, nos transformar em um pólo em pé de igualdade com o centro-sul do País.  Mas a luta continua.  É uma luta que, no momento, é constitucional até.  Já conseguimos apor, no texto de nossa Constituição, a exigência de que pelo menos 30% da produção cinematográfica opere-se “regionalizada”.  É mais uma pedra na luta na construção de nosso projeto por implantar aqui um pólo de cinema e audiovisuais, aqui. E acredito que, um dia, o Nordeste sediará esse pólo ficando em pé de igualdade com o Centro-Sul do País.

         De nossa parte, estamos tentando.  Aqui está um prospecto, que estamos distribuindo, em inglês, francês e português, com vistas a agregar parcerias nacionais e internacionais.  Serão os parceiros que nos ajudarão a construir o intencionado Pólo de Cinema e Audiovisual, no Ceará.

·        Potencialidades e expectativas

         O Ceará é hospitaleiro.  O Ceará é sol (e o cinema se faz com luminosidade). O Ceará são sertões. O Ceará são serras... O Ceará, é sobretudo a inventividade de nosso povo. Acreditamos que essa inventividade e essa hospitalidade serão “industrializadas”, o audiovisual como “indústria cultural”, para que possamos levantar a bandeira contra a miséria, que ainda,  infelizmente, reina em nossa terra!

 

 

 

 

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (III)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

O Governador Tasso Ribeiro Jereissati 

 

        Objetivo da recepção do FestRio e seu impacto na economia, cultura e educação dos cearenses

 

        É com satisfação que estamos recebendo e sediando, aqui, em Fortaleza, a sexta edição do Fest/Rio.  E isso, para nós, faz parte de um grande projeto, já por nós apresentado à FINEP e proposto aos órgãos de financiamento e que vem sendo articulado pela Secretária Violeta Arraes.  O objetivo é instalar, aqui no Ceará, um grande pólo de produção de cinema e audiovisual.  Trata-se de um “pólo industrial”, que, no futuro, possa se utilizar de toda a potencialidade do Estado e de nossa gente, com sua veia artística, de nossa decantada luminosidade.  Tudo isso para que o Ceará possa se transformar, em futuro muito breve, num pólo de desenvolvimento industrial e, ao mesmo tempo, cultural.

 

        O que pretendemos é que, com essa iniciativa, vale dizer, com esse projeto já em fase de elaboração, possamos implantar aqui um pólo industrial capaz de desenvolver e realizar a produção tanto de cinema e vídeo como de televisão, som etc.  E que, paralelo a isso, que esse projeto econômico se caracterize, em decorrência, como um forte pólo cultural, capaz de desenvolver, sob o ponto de vista de nosso capital humano, a educação e cultura de nossa gente.

 

O FEST RIO EM FORTALEZA – 1989 (IV)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA CIRO GOMES

PREFEITO DE FORTALEZA

(25/11/1989) 

 

 

1.   Reforço para o turismo e a geração de emprego e renda

       

        Sob o ponto de vista da cidade de Fortaleza, estamos profundamente animados com as conseqüências que o FestRio poderá trazer no reforçamento da imagem internacional desta capital.  Ele, sem dúvida, vai nos fortalecer a demanda turística.  E isso significa uma vertente fundamental para a geração de emprego e da renda.

 

2.   Condições para o apoio

       

        De início, cheguei até a pensar que um evento do porte do FestRio não podia acontecer numa cidade como Fortaleza.  Depois, convenci-me de que temos o fundamental para isso.  Temos vocação, sim,  para o cinema e o audiovisual.  Temos os talentos locais, já identificados.  No que toca às curtas metragens, temos avançado com produções interessantes, reconhecidas hoje nos circuitos mais sofisticados.  Temos as condições físicas.  Sobretudo, a decantada luminosidade, que, dizem os que entendem, são em  condições excepcionais.  E o talento artístico dos cearenses aí está projetado em várias personalidades: de Florinda Bulcão a Renato Aragão = para ficarmos com uma rima rica...  Temos, bem claramente indicada, a nossa vocação – para continuarmos na rima...

       

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (V)

11:20 @ 11/10/2008

FestRio em Fortaleza - 1989 (V)

 

O FEST RIO EM FORTALEZA – 1989 (V)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA FIRMINO HOLANDA

 (25/11/1989)

 

         É evidente que um evento do porte do FestRio, de nível internacional, gera expectativa maior, em nossa população.   Mas o que mais me preocupa, o que mais desperta meu interesse nele é o aspecto cultural.  Aqui, sinto que as pessoas mais jovens têm uma ansiedade em conhecer tanto o velho cinema quanto o que está se fazendo no mundo.  E o FestRio tem uma característica muito própria: a de dar relevância à produção terceiro-mundista do bloco socialista, coisa que raramente chega por aqui.

 

 FEST RIO EM FORTALEZA – 1989 (VI)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

Pedro Martis Freire

CRÍTICO CINEMATOGRÁFICO

(25/11/1989)

 

 

Sempre fui favorável ao FestRio.  Ele representa descentralização cultural.  Tenho participado dele e sei da importância que ele tem. Penso que, em Fortaleza, ele vai contribuir, em muito, para mudar a mentalidade de nosso povo.  Estamos, ainda vivendo nostalgias.  A sala especial cuja programação está sob nossa coordenação encontra-se entregue às moscas.  Os intelectuais e as pessoas daqui exigem bons filmes.  Mas nenhum deles vai ao cinema...  Por isso, nossa esperança é que o FestRio mude a mentalidade de nosso povo, em sua cultura cinematográfica!

FestRio em Fortaleza - 1989 (VII)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

Florinda Bulcão

 

                Ilvis Ponciano, no descontraído clima do hotel, entrevista Florinda Bulcão.  Ouve-lhe a opinião sobre a transferência do  FestRio para Fortaleza, as potencialidades cinematográficas do Ceará, os planos da atriz, na Europa e no Brasil.

            Dessa longa entrevista pinçamos os tópicos:

·         Sobre o FestRio em Fortaleza

            Este o primeiro FestRio de que participo.  E, naturalmente, sendo em Fortaleza, estou mor-ren-do de alegria!  Isso por que estou achando que, em organização e sendo ele um evento realizado aqui e com este nível, seguramente é uma coisa positiva.  É lindo ver tanta gente se mexendo, comendo (vira-se para o ir-e-vir das personalidades no restaurante), bebendo, pensando, olhando, indo para as praias, para as canoas, pra cá e ora pra lá ... 

            Eu acho que o Ceará é, antes de tudo, um lugar turístico!  E se a gente conseguisse, jogar por aí, afora essa paisagem e esse patrimônio turístico, mostrando as pessoas aqui vindo, além de fazer cinema, para outras coisas ...  Primeiro, elas têm que conhecer o Ceará como um lugar turístico...

·         Sobre o pólo de cinema e audiovisual

            Bom! Nós temos aqui (olhando em torno) ... Renato Aragão, Chico Anísio ... o “senhor aqui” (Luiz Carlos Barreto passando atrás dela)... “o senhor aqui” (virando-se para ele), o organizador deste festival ... eu, que estou lá por fora ... 

            Então, acho que o Ceará tem um enorme potencial.  E esse potencial, ealmente existe.  E devo dizer, além do mais, que esse potencial é incrível: um sol maravilhoso... E sabemos todos que o cinema é fundamentalmente feito com ... luz!

 

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (VIII)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA NIRTON VENÂNCIO

 

·       Impressões sobre o FestRio e opiniões  sobre sua  transferência para Fortaleza.

         Minha opinião é simples.  Antes de tudo, é preciso encarar o FestRio não como um simples e fugaz “é ...vento”, em Fortaleza.  Impõe-se, ao invés, que ele consiga conquistar a participação da comunidade artística de  Fortaleza.  Essa é a condição necessária para que ele deixe de ser um mero “evento” e tenha papel mais sólido e permanente.

 

·       Opinião sobre as perspectivas do pólo de cinema e audiovisual em Fortaleza

         Para que se torne viável a implantação, em Fortaleza, de qualquer pólo no campo artístico-cultural, ela só terá frutos e alcançar significação se contar com a participação da comunidade artístico-cultural de Fortaleza e do Ceará como um todo.  Se, ao invés, tiver apenas a participação dos que para aqui vêm de fora, mesmo que para aqui venham plantar suas produções artísticas, desprovidas, porém, das características da terra e de nosso trabalho, não irá muito longe.  O pólo terá de ter um caráter comprometedor por parte da classe artística da terra.

·       Qual a participação da comunidade artística da terra com o projeto do pólo de cinema e audiovisual proposto?

         Até agora, ainda não existe!  A classe e comunidade artísticas ainda estão, em termos de participação, muito tímidas.  E, até certo ponto, com um complexo de inferioridade em relação ao sul. Penso que temos de acabar com esse complexo.  É enfrentar, decidir discutir e não ficar apenas no debate pelo debate.

·       Seu filme “O quotidiano perdido no tempo”, que está sendo exibido em Fortaleza,  está sendo mostrado em que situação? Quais os seus planos?

         Ele está participando de exibição paralela com outros curta-metragens: junto com os de Jefferson, Rozemberg Cariri e Pedro Jorge de Castro (...)

         Sobre Nirton Venâncio:

http://www.arteculturanews.com/ultimodiadesol.htm

http://www.millarch.org/artigo/os-premiados-do-vi-festriofortaleza

 

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (IX)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA ARNALDO JABOR

 

·       Opinião sobre a transferência do FestRio para Fortaleza

 

         Acho excelente.  O FestRio tem que ser em Fortaleza porque o Rio virou cidade de assaltantes e criminosos.  Ontem mesmo, li nos jornais: “Pivetes assaltam prêmio Nobel”.  Então, não tem solução...

 

         Aqui é uma cidade linda, que eu ainda não conhecia.  É uma cidade muito parecida com Cannes.  Tem até um desenho bem parecido com o de lá para o Festival.  Tem os hotéis è beira mar... A única coisa a criticar é que o cinema-sede do Festival fica um pouco distante.  Mas o doutor Tasso devia aproveitar um terreno que fica ali nas imediações do Hotel Esplanada, que me disseram até que é da família dele, e construir ali um centro cultural e um grande cinema com salas e tudo o mais. 

 

         Poderia ali ser um grande palácio como é em Cannes.  E transferir para Fortaleza o Festival, dele fazendo o maior da América Latina.  Aí, teríamos Cannes, Veneza, Berlim e ... Fortaleza!

 

         Isso é possível, sim!  E é facílimo.  Deve ser ali... Constrói-se uma bela sala de 1.000 lugares.  Acho que tem que se fazer isso...

 

·       Sobre as críticas do FestRio em Fortaleza pela imprensa do Sul.

 

         Isso são esses jornalistas idiotas, que ficam fazendo essas críticas, sem necessidade.  Eles não têm o que falar.  Então, ficam procurando defeitos ...

 

         É claro que fazer um festival de cinema, no Brasil, é uma coisa complicada.  Todo festival tem defeito.  Mas este aqui está sendo muito bom.  Foi o primeiro FestRio que vi transcorrer muito bom.  Tem um que não foi bom.  Agora, este, para mim, está sendo ótimo.  E tinha que ser em Fortaleza!

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (X)

13:03 @ 12/10/2008

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (X)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA ZEZÉ MOTA

 

·       O que está achando do FestRio em Fortaleza?

 

         Eu lhe confesso que, assim que li a notícia nos jornais, à primeira vista ... fiquei furiosa: “Mas como? O FestRio é ... Fest ... RIO!  Tem que ficar é no Rio!”  Depois, me flagrei em contradição. Ontem, ao arrumar as malas para vir aqui para Fortaleza, descobri-me ... feliz da vida por estar vindo para Fortaleza...

 

·       “Feliz da vida por estar vindo ou porque o FestRio estava se realizando aqui?

 

         Não! Estava feliz da vida porque “eu” é que estabva vindo para Fortaleza (rsrs).  Mas, confesso, que tudo está sendo muito gostoso.  O FestRio aqui, falando sério, não tenho nada contra.

 

         (A entrevista prossegue, Zezé Mota falando sobre dois filmes por ela estrelados, em amostra no FestRio)

 

 

 

 

 

 

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (XI)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

Editor da Revista Class News Video

 

·         Impressões sobre o Fest Rio em Fortaleza

 

            Eu estou achando ótimo.  Muita gente diz:  “Ih! Fortaleza é pequena! ...”   Por mim, estou achando ótimo o FestRio aqui sediado.  A cidade, na verdade, está vivendo em função do festival...  Ele se espalhou por todos os hotéis, pelas salas onde se realizam as exibições... E tudo aqui gira em torno dele. Existe um clima muito gostoso e muito legal...

 

·         Sobre as críticas da imprensa do sul

 

            Existem, sim, alguns colegas da imprensa que estão dizendo que não.  Mas essa gente é mesmo mal-humorada, não é? Fazer o quê?

 

            Nisso tudo, a gente sente, por trás, um pouco de ciúme.  Mas isso é coisa natural.  E aí ficam eles a fazer comparações entre o FestRio lá e aqui em Fortaleza.  Mas, de minha parte, Fortaleza tem. Sim. condições de sediar o FestRio.

 

            Por mim, sou favorável à idéia do festival itinerante.  Se a gente, a cada ano (nada contra o FestRio em Fortaleza ... Muito ao contrário) –  mudar a sede do FestRio, vamos ter condições de levando-o   a todas as capitais brasileiras, levar esta festa que Fortaleza vive hoje a elas todas.

 

·         Itinerância: banho de cultura para o País inteiro

 

            Para o bem da verdade, não foi a questão da itinerância que motivou a vinda do FestRio para Fortaleza, alguns dizem.  Mas é mentira! E, para o bem da verdade, o problema é que o governador do Rio não quis fornecer verbas para a sua realização...  E os organizadores do FestRio conseguiram essas verbas aqui no Ceará.  Se ele se deslocar para outros estados , é possível que esses terminem oferecendo  mais condições que o Rio ou São Paulo.  As pessoas, em cidades menores valorizam festivais desse porte até mais que os grandes centros, onde os grandes festivais, por vezes, são vistos como mais um evento.

 

            Eu sou a favor da itinerância.  Todo o Brasil merece esse  banho de cultura e lazer trazido por festivais como o FestRio.

 

·         Conflitos entre as linguagens do área audiovisual

 

            Falavam que o teatro, com a vinda do cinema, ia morrer.  Não morreu.  Que o super 8 mataria o cinema convencional.  O cinema não morreu.  E que este, com a  TV, ia morrer.  Isso não aconteceu.

 

            São, todas elas, linguagens diferentes.  No início, confundem-se um pouco.  Depois, cada uma delas trilha seu próprio caminho, havendo espaços e funções para todas elas...

 

·         Impressões sobre Fortaleza

 

            Vich! Sem dúvida nenhuma! Eu to até pegando o jeitinho de falar de vocês, que é uma delícia! (tentando imitar o sotaque cearense).

 

            (Celso, editor da Revista Class News Vídeo, em São Paulo)

 

 



 

 

 

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (XII)

ILVIS PONCIANO ENTREVISTA

OSMAR PRADO (Ator)

 

 

·        Visão sobre centralização x descentralização cultural no País

      

       Nessa questão da centralização versus  descentralização cultural, no País, é a televisão, sem dúvida e pelo caráter de rede, entre nós, que mais tende para a massificação e a centralização no eixo Rio-São Paulo, mais fortemente no Rio.

 

       À medida em que descentralizarmos, voltaremos a restaurar os valores e culturas regionais.  Nessa linha, é interessante que Fortaleza receba o FestRio e patrocine outros eventos, em que as  regiões e os estados interajam. 

 

       Em termos de televisão, eu gostaria que as produções regionais também voltassem.  Dessa forma, poderíamos ter nova integração dos valores e das culturas regionais, coisa que os meios de comunicação se encarregaram de bloquear.   

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (XIII)

 

FESTRIO,  IMPRENSA E A CULTURA

D’ OS DOIS BRASIS

(MESA REDONDA) 

           

·         Crítica à cultura da “Confederação do Equador”

             Luis Carlos Barreto (Coord. Do FestRio)

                           

 

        Não quero, aqui, fazer uma guerra de imprensa, de Confederação do Equador, contra o resto do País. Meu propósito é, sim, reagir um pouco contra essa atitude colonizadora da imprensa do centro-sul, e fazer uma crítica dessa postura contra o resto do País.  Com isso, queria, simplesmente, colocar as coisas em seus devidos lugares.

 

        Li algumas coisas, por exemplo, como essa, no Jornal do Brasil, de dizer que Fortaleza é uma cidade maravilhosa, que os estrangeiros estão encantados com suas praias, sua infra-estrutura hoteleira, a beleza de suas paisagens... Mas que estão muito assustados com a quantidade enorme de aleijados e mendigos espalhados pelas calçadas como se o Rio de Janeiro não tivesse milhares de mendigos e, pior, de assaltantes, que matam e assaltam as pessoas, o que aqui não existe.  No festival do ano passado, no Rio, presenciamos assaltos na porta de um cinema.  Inclusive, a uma portuguesa, que lhe quebraram a perna.

 

        Então, é preciso que reajamos a coisas assim, não nos deixando levar por esse tipo de jornalismo.  Fui jornalista. E sou por um jornalismo pós-moderno.  Um jornalismo que faça, sim, críticas, e que, nele, que haja farpas até... Mas não o jornalismo “beira de piscina”, para o qual o importante não é o evento cultural, mas a fofoca... Essa é a concepção velha de festival.

 

        Aqui, neste FestRio, tem-se discutido coisa muito mais séria como no seminário que houve sobre a formação de mão-de-obra técnica para o cinema; como a questão social e o cinema, quando cientistas sociais e historiadores aqui estiveram presentes.  Mas não se entrevistam essas pessoas.  Fica-se fazendo reportagenzinha dos anos 50, de beira-de-piscina! ...

 

        Gostaria que a imprensa cearense não tomasse esse caminho.  Pode até fazer críticas apontando o que está ou não está errado, despertar para esse ou aquele aspecto.  É preciso que a gente faça um pouco de defesa de nossa terra porque o que está sendo feito é um achincalhamento monstro, só porque não se pode desconcentrar as manifestação culturais, no País, que têm de estar no eixo Rio e São Paulo...

 

         Um atrevimento, Fortaleza sediar um festival internacional! ... Isso é tomado como uma ousadia!...

 

        Por mim, encerrei este assunto!

 

 

 

·         FestRio, farol do desenvolvimento artístico-cultural cearense.

 

Marcondes Rosa de Sousa

Diretor do Dep. de Audiovisual da Secult/Ce

 

        Para nós, no Ceará, o FestRio é um farol a nos assinalar o caminho e o itinerário em nosso desenvolvimento artístico-cultural.  Assim, tanto o FestRio como qualquer outro evento.  Ele não poderá deixar de ter esse sentido que reflita esse algo mais permanente.  Terá que ser fórum propício para a construção de projeto futuro e mais duradouro.

 

        Acredito que o FestRio está cumprindo com esse objetivo, embora alguns segmentos de nossa imprensa não esteja enxergando isso.  Hoje, por exemplo, ultimamos seminário nacional e internacional que discutiu a formação do profissional no campo audiovisual – formação para o Brasil e específico para o Nordeste brasileiro.  Diretrizes foram apontadas. Mas, infelizmente, nenhuma artista, à beira da piscina, se desnudou. Talvez por isso, a imprensa nada disso noticiou...

 

        Mas esse vai ser o trabalho nosso permanente.  E é sobre ele que nos deteremos, havendo um pool de profissionais e pessoas outras dispostas a vir aqui e trabalhar, deixando alguma coisa concreta para que esse projeto se direcione a esse povo que aí está.

 

        Gostaria, então, de – embora talvez em outro tom - solidarizar-me com o protesto tão bem expresso por Luiz Carlos Barreto.  E dizer que essa atitude da imprensa criticada por ele reflete a “leitura” de nosso quotidiano, de nossa cultura (inconsciente até),  veiculados por nossos jornais, dando razão, no que a nós cearenses no toca e, que, infelizmente, em sintonia os verso da música cantada por Chico Buarque: “A dor da gente não sai no jornal”...

 

 

 

 

·         Unidade na diversidade, a perseguida cultura

Violeta Arraes Gervaiseau

              Secretária de Cultura, Turismo e Desportos do Ceará

 

 

        Eu gostaria de falar porque, contrariamente até ao que talvez muitos estejam sentindo pouco a vontade, eu diria que até me regozijo que esteja acontecendo exatamente este tipo de diálogo.

 

        Eu conheço todos os personagens em questão e me parece estranhamente salutar, para o FestRio - salutar para a cultura brasileira, salutar para nossas cabeças -  esse tipo de enfrentamento, que não deve ser afetivizado.

 

        O ímpeto com que fala Luiz Carlos pode até, inclusive, parecer “má educação”.  Mas é, de fato, o peso de uma longa vivência, de uma longa batalha muitas vezes estranhamente incompreendida.

 

        Você sabe disso, Luiz Carlos, e com este ímpeto, você divide, muitas vezes, as incompreensões que as pessoas têm relação a determinados acontecimentos.  Já comentei com os a mim mais chegados que, para mim, foi extraordinário ter se deslocado para aqui, o FestRio.  Entre outras razões, para poder compreender melhor a virtude excepcional de Ney e de Luiz Carlos, seus coordenadores, em insistirem eles na realização de um festival ao nível de classe A, no Brasil. Isso, com tanta incompreensão, com tanta falta de apoio, ou com o ... dado, arrancado, puxado dos poderes públicos, que dão, mas ... com que dificuldade, com que atraso!...

 

        Todos nós também temos essa tensão tremenda, de um acontecimento levado por “alucinados”, entre os quais estão em questão os que também aceitaram vir para uma aventura como é uma aventura tudo o que se faz em termos de cultura neste País.

 

        Então, acho que as nossas paixões são legítimas, muito legítimas – de todos nós! Acho, porém, que nós não devíamos levá-las – nenhum de vocês e nós – em termos pessoais.  Todos nós temos os nossos limites, os nossos defeitos, e precisamos aprender a ser críticos realmente. Isso, o que acho mais importante. 

 

        A imprensa, acho a coisa das mais importantes – e eu já disse isso mais de uma vez – Devo à imprensa não ter sido torturada e presa, da maneira que muitos foram, porque tive a chance, no momento em que fui cercada, de estar com os três representantes das maiores agências internacionais.  E foi graças à imprensa que eu, em grande parte, fui protegida.

 

        Já tive a incompreensão de alguns da imprensa porque tive um certo grau de duelo e de franqueza, que devemos ter.  Vocês da imprensa podem nos criticar e nós podemos criticar vocês.  Eu não estava aqui quando Luiz Carlos falou.  Mas posso imaginar porque também li os jornais.

 

        De minha parte, gostaria que a imprensa fosse crítica, sim. Mas verdadeira, autêntica! ...  Por exemplo, dizer que, na abertura do Festival, os discursos foram longos ... é simplesmente engraçado, porque não houve nenhum discurso longo.  Pode-se dizer que as crianças do Crato  se apresentaram  sob um padrão “brega”.  Tudo bem! Não é obrigado que  todo mundo se enquadre dentro do “padrão Xuxa”!  Existe o “padrão Xuxa” e o ... “padrão Crato”, que faz parte do Ceará.  E, portanto, têm, os dois, o direito de assim se apresentar.  Tudo bem! Pode até ser considerado “brega”.  Mas é o que temos.  Deve, por isso, ser simplesmente respeitado.

 

        É fundamental que a gente se enfrente do jeito que somos. Mas que as críticas a isso não seja levadas em tom pessoal. É isso o que atropela a nossa cultura, a brasileira. Nós precisamos de um país com uma cultura forte. E nós temos essa cultura.  Mas nós nos perdemos exatamente por problemas muito pessoais.  Muito pessoal ... Pessoal demais!

 

        Claro que, entre nós, devemo-nos explicações.  Mas isso não em dimensão mesquinha.  De haver vândalos, entre nós.  Não, não há vândalos.  O que existe é uma cultura brasileira diversificada, múltipla.  E nós devemos aprendê-la a, dessa forma, respeitá-la.  Se não gostáramos dessa diversificação, devemos respeitá-la assim.

 

        De minha parte, peço muito à nossa imprensa, que tenha essa função extraordinária de poder divisar essa pluralidade deste nosso País, enxergando nossa unidade, em função dos seus valores plurais, que são maiores (palmas).

 

 

 

 

 

Razão a Rosa e Maria?

15:13 @ 23/10/2008

Razão a Rosa e Maria?

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 13/10/2008 

 

         Eleições! Aquariano, olhos no amanhã, frustro-me.  A cidade de Fortaleza, que esperávamos em novo século, o XXI, e em novo milênio, disso ainda não se deu conta.


         Inquieto, acordo cedo. E, ao final da manhã, lá estou, no Colégio Christus, em minha secção eleitoral. Para surpresa minha, sozinho.Perante a urna, candidatos e números. Vereador, retrato de desconhecido... Da terceira tentativa, o educador escolhido, a sorrir. Para prefeito, três, dentre amigos, em aleatória escolha...


         De volta a casa, refugio-me nos jornais. De colega, artigo me evoca o clássico "Triste Bahia", para deter-se, num "quão dessemelhante" a hoje se aplicar à "loura desposada do sol", de Paula Ney... Mais tarde, apurações em curso.Súbito, o telefone a tocar. Na linha, uma das "vendedoras de sonhos" a me dar conta, pelo País, de grande número de votos em branco e nulos, resposta ao "fora a política"...


         Fujo para a Web.Nos grupos de discussão, clima de "fossa" de muitos, em um "cansei". Votos de alguns em catadores de lixo, em nome da ética. Da escritora Nilze Costa e Silva, e-mail, a enxergar comum entre nós dois, de partidos diferentes, o 'desligar televisão, rádio e o pegar de um livro qualquer'. No final, em tom de surpresa: "Será que Rosa da Fonseca, amiga de priscas eras, teria razão?"


         Volto à TV. Noticiosos falam de mercados e bolsas de valores em queda. Fatigado de tudo, tento refugiar-me nos livros. Da estante, irônico, me acena provocativo, livro a mim recomendado por Rosa e Maria Luíza, "Para além do capital", que, em suas 1102 páginas, desenha-nos novo mundo, a superar mercado e crise a nos baterem à porta.

         Pela manhã, os vigilantes olhos cansados, sou despertado pela manchete, em primeira página, de O POVO: "Ex-porteiro da Câmara de Fortaleza é eleito vereador". Fique-nos a reflexão!

 

         Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECE



                                            Keynes

 

Piso: sal, sol, amanhã!

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 27 Out 2008


Chão, dizem os dicionários, é o lugar onde pisamos. Na expressão "piso salarial', é o sal básico a nos garantir o caminhar e a vida. Apesar disso, 'piso salarial' é sintagma que, aos professores das instituições de educação superior do estado, tolda-se de conotações afetivas infelizmente não positivas para as relações entre o mundo acadêmico, o governo e a sociedade.

"Piso salarial" foi conquista do mundo acadêmico no estado, quando Gonzaga Motta, ele professor da UFC e governador, o implantou após reclamado. Tasso Jereissati, logo a seguir, quando o estado vivia drama com suas apertadas finanças, impetra, em juízo, a suspensão do benefício. Sentença final do Supremo Tribunal Federal, 22 anos depois, dá ganho de causa aos docentes. O governo estadual, em recursos na fase da execução de sentença, tenta bloqueios a ela, buscando esperadas negociações...


Professor titular da UECe, dou testemunho. Tasso, governador, imaginava que as finanças do estado, à época curtas, tornariam tal piso "impagável". Daí, não aceitar, dos que ocupávamos "cargo de confiança", que sequer mediássemos a questão. E assim, se passaram... 22 anos sem negociações!


Agora, escuto de colegas docentes aposentados, queixas em crescendo a evocar Keynes: "O governo joga a questão para quando todos estivermos mortos". Ao governador, em evento no hall da FIEC, tento passar o clima de arranhões entre os docentes. E ele, após confessar tentativas suas de abertura e diálogo, replica-me: "Quem, no caso, tem razões para estar arranhado sou eu!..."


A hora é de esfriarmos a cabeça, sanar arranhões e mirar ambicionado amanhã. Para isso, con/versarmos - governo, mundo acadêmico, sociedade. E, nessa con/versa, vermos o 'piso salarial' a compor-se do sal e do chão a nos condimentar o ansiado amanhã!



Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECE

marcondesrosa@gmail.com.br

 

 

 

Do sertão para o mundo

Luiz Carlos Barreto, um cearense

Todo homem, um dia, à terra natal tem que retornar, cumprindo o seu círculo de realização terrena. Luiz Carlos Barreto também, depois de realizar dezenas de filmes, voltaria ao Ceará e na sua terra deixaria uma marca transformadora

Rosemberg Cariry

Especial para O POVO

25 Out 2008


        Na Fidelíssima Cidade de Januária, a atual Sobral, às margens do Acaraú, sob os crepúsculos impressionantes da Serra da Meruoca e o doce sussurro do vento Aracati, soprando nos verdes carnaubais, nasceu Luiz Carlos Barreto, o menino encantado pela luz equatorial que se faria cidadão do mundo e viria a ser um dos maiores fotógrafos do Brasil e um dos maiores produtores de cinema da América Latina.


         Todo homem, um dia, à terra Natal tem que retornar, cumprindo o seu círculo de realização terrena. Luiz Carlos Barreto também, depois de realizar dezenas de filmes, voltaria ao Ceará e na sua terra deixaria uma marca transformadora. Este retorno dá-se pouco a pouco, a partir do Seminário de Cinema e Literatura (1984) e posteriormente nos I e II Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro (1985/87), organizados por Pedro Jorge de Castro, Jefferson de Albuquerque Jr. e o prof. Marcondes Rosa.

 

        Em 1988, com a posse de Violeta Arraes como secretária de cultura, no Governo Tasso Jereissati, o audiovisual no Ceará toma um novo impulso. Em 1989, com a presença do prefeito Ciro Gomes e do Governador Tasso Jereissati, acontece o simpósio As Novas Tecnologias e os meios de Comunicação de Massa, organizado por Violeta Arraes e pelo pró-reitor de extensão da UFC, Prof. Marcondes Rosa, como estratégia de dar visibilidade ao projeto do Complexo Industrial de Produções Cinematográficas e Audiovisuais do Nordeste.

 

        Participam desse simpósio dezenas de cineastas, jornalistas e comunicólogos do Brasil e do exterior. O grupo executivo de implantação do Complexo Industrial de Produções Cinematográficas e Audiovisuais do Nordeste era formado por Violeta Arraes, Marcondes Rosa, Zelito Vianna, Henri Gervaiseau, Hermano Penna e Luiz Carlos Barreto, um dos grandes articuladores deste encontro. Foi uma época de grande tensão entre os que chegavam pensando o cinema com um projeto industrial de grande investimento e os cineastas locais que ainda defendiam o Super 8, mal chegando ao cinema de curta metragem em 16mm. Essas tensões, no entanto, romperiam com alguns conservadorismos provincianos e produziriam bons frutos, na década seguinte. Muitas vezes, do atrito nasce a luz.

        Enquanto não saía do papel o projeto do Complexo Industrial, bastante caro e ousado para a época, como forma de fortalecer a imagem do Ceará na mídia nacional, resolveu-se que Fortaleza sediaria um festival internacional. Luiz Carlos Barreto propôs, e o FestRio veio para Fortaleza e aconteceria, em todo o seu glamour, com o nome de FestRio in Fortaleza (1989).

 

        Dentro do FestRio, coordenado por Jean-Claude Bernardet, com a presença de cineastas cearenses e professores do curso de Comunicação da UFC, foi realizado um debate sobre a viabilidade de uma Escola Superior de Cinema no Ceará, visto que o projeto do Complexo Industrial de Produções Cinematográficas e Audiovisuais do Nordeste era baseado no tripé formação-produção-difusão. Grandes nomes do cinema nacional e internacional circularam pela cidade. O debate foi intenso e transformador.

 

        Por conta das mudanças políticas e das brigas internas e provincianas, o projeto do Complexo Industrial de Produções Cinematográficas e Audiovisuais do Nordeste terminou não saindo do papel. As sementes plantadas na década de 80, por Luiz Carlos Barreto, Violeta Arraes, Hermano Penna e Marcondes Rosa, entre outros, com tantos acontecimentos e tensões, gerariam alguns frutos, em outras bases e perspectivas, no final da década de 90, após o impeachment do Presidente Collor de Mello, no bojo do chamado Renascimento do Cinema Brasileiro.

 

        A proposição da nova Lei do Audiovisual que possibilitaria este Renascimento foi feita por Luiz Carlos Barreto. O grande boom do cinema cearense aconteceria na década de 90. É como se as duas décadas anteriores tivessem sido de preparação e de semeadura para a grande colheita.

 

        Em 1993, o Ceará, com ajuda do governador Ciro Gomes, rodaria um dos cinco filmes de longa-metragem produzidos em todo o País (A Saga do Guerreiro Alumioso, dirigido por mim). O filme ganharia prêmios no Festival de Brasília e marcaria o retorno do cinema brasileiro aos festivais internacionais. Em seguida, José Araújo rodaria o aclamado e premiado Sertão das Memórias. Os dois filmes tiveram o apoio de Luiz Carlos Barreto. O novo secretário de Cultura do Estado do Ceará, Paulo Linhares (1994-1996), assessorado por Wolney Oliveira e Marcus Moura (recém-chegados da Escola de Santo Antonio de Los BaÀos, em Cuba), contando com a decisiva experiência de Orlando Senna e Maurice Capovilla, possibilitou a criação do Instituto Dragão do Mar de Artes e Cultura, que retomaria a idéia do tripé formação-produção-difusão e daria uma contribuição importante no desenvolvimento do audiovisual do Ceará e de todo o Nordeste.

 

        É possível que os filmes do sudeste que escolheram o Ceará como cenário e que foram produzidos, nesta época, não tenham trazido grandes transformações na discussão estética, nem era esta a proposta destes filmes que se voltavam para o mercado nacional e internacional. No entanto, a participação de atores e técnicos do Ceará na realização desses filmes, bem como o debate que se seguiu, de prós e contras, a respeito dos filmes que receberam ajuda da Secult (Fábio Barreto, Limonge, Norma Benguel, Walter Lima Jr. e Renato Aragão, entre outros), sob o patrocínio do Instituto Dragão do Mar, terminou sendo importante. A partir daí, com a organização dos realizadores locais, foram criadas políticas públicas, e, graças a esses incentivos, surgiu uma nova geração de jovens realizadores que começou a produzir seus primeiros filmes de curta e de longa duração.

 

        É impossível separar, no atual estágio do cinema cearense, as realizações do presente das lutas que foram travadas nas décadas de 80 e 90. As presenças de Luiz Carlos Barreto, Violeta Arraes, Hermano Penna e, depois, de Orlando Senna, Maurice Capovilla e Wolney Oliveira, com o entusiasmo de Paulo Linhares (contando com o apoio e a larga visão de Ciro Gomes e Tasso Jereissati), naquele momento histórico, muito significou na varredoura do ranço provinciano, onde nos encontrávamos atolados. Depois da passagem de Luiz Carlos Barreto e de Violeta Arraes pelo Ceará, já não éramos os mesmos. O Ceará abriu-se para as novas idéias, para os novos paradigmas, para as novas possibilidades e começou a produzir um cinema que hoje tem circulação nacional e internacional.

 

        A contribuição de Luiz Carlos Barreto não se resume aos filmes que ele aqui produziu, vai bem além. Uma época se lê, historicamente, em suas contradições e em suas lutas ideológicas, culturais e estéticas. Aquela foi uma época muito rica no debate e na possibilidade de construção. Em meio a tudo isso, na "revolução" que provocou no Ceará, o Luiz Carlos Barreto sempre se conduziu com um cavalheiro, como um homem do sertão, sincero e resoluto. Essa é uma das suas características, a amizade e a cordialidade. Grande contador de causos e boa prosa, Barretão ilustra, como ninguém, a visão de Sérgio Buarque de Holanda do homem brasileiro como um homem cordial.

Rosemberg Cariry é poeta e cineasta cearense. Dirigiu O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto (1986), A Saga do Guerreiro Alumioso (1993), Corisco e Dadá (1995) e Lua Cambará, nas escadarias do palácio (2002).

 

FestRio em Fortaleza - 1989 (XIV)

Ilvis Ponciano entrevista Zelito Viana

 

·        Impressões sobre o FestRio deslocado para Fortaleza

        Para mim, está sendo uma experiência agradável.  Não só porque sou daqui, de Fortaleza.  Mas porque, numa cidade do porte de Fortaleza, a possibilidade de encontrar as pessoas é até muito maior que numa cidade como o Rio. Aqui, os eventos podem ser concentrados.  Eu, por exemplo, em festivais por aí afora, não sabia como encontrar muitos que, agora, aqui em Fortaleza, descobri apenas avistados por mim em Cannes e outros festivais, só agora tendo oportunidade de saber quem eram e o que faziam... Aqui, descobri vários deles. Com eles, fiz negócios. Muito bom!... 

 

·         Como encara o que a imprensa do centro-sul está divulgando sobre o FestRio em Fortaleza.

        Um absurdo! Mas isso não é só em relação ao FestRio em Fortaleza...  A imprensa, em nosso País, tem um problema sério.  Ela procura ver, em maior grau, o que é ruim, noticiando, com maior ênfase, o que não funciona.  Ora, qualquer coisa, se nela procurarmos defeito, com certeza encontraremos.  E, no caso de nossa imprensa, tomou-se isso por natureza.  Espalhou-se que jornalismo é isso.  Daí, as pessoas ficarem, em tudo, malhando e procurando defeitos.

        Isso sempre ocorreu com o FesrRio.  Mas não apenas com o FestRio.  Mas com todos os acontecimentos no Brasil.  E quando o tema é cultura, aí é pior... Quando é cinema, pior ainda.  Quando a coisa ocorre em Fortaleza, no Nordeste ... aí é o diabo! A coisa passa a ser perseguida por todos os lados.  Infelizmente, é assim.  E temos que conviver com isso até que as pessoas se civilizem e descubram que o importante para o País.  Vale dizer, o seu cinema, a sua cultura descentralizada, que isso é um desejo de todos nós.  Isso, o que está já em nossa Constituição.  Coisas como o FestRio em Fortaleza é o primeiro passo para que a descentralização e coisas assim aconteçam.