
FestRio em Fortaleza - 1989 (XIII)
FESTRIO, IMPRENSA E A CULTURA
D’ OS DOIS BRASIS
(MESA REDONDA)
· Crítica à cultura da “Confederação do Equador”
Luis Carlos Barreto (Coord. Do FestRio)
Não quero, aqui, fazer uma guerra de imprensa, de Confederação do Equador, contra o resto do País. Meu propósito é, sim, reagir um pouco contra essa atitude colonizadora da imprensa do centro-sul, e fazer uma crítica dessa postura contra o resto do País. Com isso, queria, simplesmente, colocar as coisas em seus devidos lugares.
Li algumas coisas, por exemplo, como essa, no Jornal do Brasil, de dizer que Fortaleza é uma cidade maravilhosa, que os estrangeiros estão encantados com suas praias, sua infra-estrutura hoteleira, a beleza de suas paisagens... Mas que estão muito assustados com a quantidade enorme de aleijados e mendigos espalhados pelas calçadas como se o Rio de Janeiro não tivesse milhares de mendigos e, pior, de assaltantes, que matam e assaltam as pessoas, o que aqui não existe. No festival do ano passado, no Rio, presenciamos assaltos na porta de um cinema. Inclusive, a uma portuguesa, que lhe quebraram a perna.
Então, é preciso que reajamos a coisas assim, não nos deixando levar por esse tipo de jornalismo. Fui jornalista. E sou por um jornalismo pós-moderno. Um jornalismo que faça, sim, críticas, e que, nele, que haja farpas até... Mas não o jornalismo “beira de piscina”, para o qual o importante não é o evento cultural, mas a fofoca... Essa é a concepção velha de festival.
Aqui, neste FestRio, tem-se discutido coisa muito mais séria como no seminário que houve sobre a formação de mão-de-obra técnica para o cinema; como a questão social e o cinema, quando cientistas sociais e historiadores aqui estiveram presentes. Mas não se entrevistam essas pessoas. Fica-se fazendo reportagenzinha dos anos 50, de beira-de-piscina! ...
Gostaria que a imprensa cearense não tomasse esse caminho. Pode até fazer críticas apontando o que está ou não está errado, despertar para esse ou aquele aspecto. É preciso que a gente faça um pouco de defesa de nossa terra porque o que está sendo feito é um achincalhamento monstro, só porque não se pode desconcentrar as manifestação culturais, no País, que têm de estar no eixo Rio e São Paulo...
Um atrevimento, Fortaleza sediar um festival internacional! ... Isso é tomado como uma ousadia!...
Por mim, encerrei este assunto!

· FestRio, farol do desenvolvimento artístico-cultural cearense.
Marcondes Rosa de Sousa
Diretor do Dep. de Audiovisual da Secult/Ce
Para nós, no Ceará, o FestRio é um farol a nos assinalar o caminho e o itinerário em nosso desenvolvimento artístico-cultural. Assim, tanto o FestRio como qualquer outro evento. Ele não poderá deixar de ter esse sentido que reflita esse algo mais permanente. Terá que ser fórum propício para a construção de projeto futuro e mais duradouro.
Acredito que o FestRio está cumprindo com esse objetivo, embora alguns segmentos de nossa imprensa não esteja enxergando isso. Hoje, por exemplo, ultimamos seminário nacional e internacional que discutiu a formação do profissional no campo audiovisual – formação para o Brasil e específico para o Nordeste brasileiro. Diretrizes foram apontadas. Mas, infelizmente, nenhuma artista, à beira da piscina, se desnudou. Talvez por isso, a imprensa nada disso noticiou...
Mas esse vai ser o trabalho nosso permanente. E é sobre ele que nos deteremos, havendo um pool de profissionais e pessoas outras dispostas a vir aqui e trabalhar, deixando alguma coisa concreta para que esse projeto se direcione a esse povo que aí está.
Gostaria, então, de – embora talvez em outro tom - solidarizar-me com o protesto tão bem expresso por Luiz Carlos Barreto. E dizer que essa atitude da imprensa criticada por ele reflete a “leitura” de nosso quotidiano, de nossa cultura (inconsciente até), veiculados por nossos jornais, dando razão, no que a nós cearenses no toca e, que, infelizmente, em sintonia os verso da música cantada por Chico Buarque: “A dor da gente não sai no jornal”...

· Unidade na diversidade, a perseguida cultura
Violeta Arraes Gervaiseau
Secretária de Cultura, Turismo e Desportos do Ceará
Eu gostaria de falar porque, contrariamente até ao que talvez muitos estejam sentindo pouco a vontade, eu diria que até me regozijo que esteja acontecendo exatamente este tipo de diálogo.
Eu conheço todos os personagens em questão e me parece estranhamente salutar, para o FestRio - salutar para a cultura brasileira, salutar para nossas cabeças - esse tipo de enfrentamento, que não deve ser afetivizado.
O ímpeto com que fala Luiz Carlos pode até, inclusive, parecer “má educação”. Mas é, de fato, o peso de uma longa vivência, de uma longa batalha muitas vezes estranhamente incompreendida.
Você sabe disso, Luiz Carlos, e com este ímpeto, você divide, muitas vezes, as incompreensões que as pessoas têm relação a determinados acontecimentos. Já comentei com os a mim mais chegados que, para mim, foi extraordinário ter se deslocado para aqui, o FestRio. Entre outras razões, para poder compreender melhor a virtude excepcional de Ney e de Luiz Carlos, seus coordenadores, em insistirem eles na realização de um festival ao nível de classe A, no Brasil. Isso, com tanta incompreensão, com tanta falta de apoio, ou com o ... dado, arrancado, puxado dos poderes públicos, que dão, mas ... com que dificuldade, com que atraso!...
Todos nós também temos essa tensão tremenda, de um acontecimento levado por “alucinados”, entre os quais estão em questão os que também aceitaram vir para uma aventura como é uma aventura tudo o que se faz em termos de cultura neste País.
Então, acho que as nossas paixões são legítimas, muito legítimas – de todos nós! Acho, porém, que nós não devíamos levá-las – nenhum de vocês e nós – em termos pessoais. Todos nós temos os nossos limites, os nossos defeitos, e precisamos aprender a ser críticos realmente. Isso, o que acho mais importante.
A imprensa, acho a coisa das mais importantes – e eu já disse isso mais de uma vez – Devo à imprensa não ter sido torturada e presa, da maneira que muitos foram, porque tive a chance, no momento em que fui cercada, de estar com os três representantes das maiores agências internacionais. E foi graças à imprensa que eu, em grande parte, fui protegida.
Já tive a incompreensão de alguns da imprensa porque tive um certo grau de duelo e de franqueza, que devemos ter. Vocês da imprensa podem nos criticar e nós podemos criticar vocês. Eu não estava aqui quando Luiz Carlos falou. Mas posso imaginar porque também li os jornais.
De minha parte, gostaria que a imprensa fosse crítica, sim. Mas verdadeira, autêntica! ... Por exemplo, dizer que, na abertura do Festival, os discursos foram longos ... é simplesmente engraçado, porque não houve nenhum discurso longo. Pode-se dizer que as crianças do Crato se apresentaram sob um padrão “brega”. Tudo bem! Não é obrigado que todo mundo se enquadre dentro do “padrão Xuxa”! Existe o “padrão Xuxa” e o ... “padrão Crato”, que faz parte do Ceará. E, portanto, têm, os dois, o direito de assim se apresentar. Tudo bem! Pode até ser considerado “brega”. Mas é o que temos. Deve, por isso, ser simplesmente respeitado.
É fundamental que a gente se enfrente do jeito que somos. Mas que as críticas a isso não seja levadas em tom pessoal. É isso o que atropela a nossa cultura, a brasileira. Nós precisamos de um país com uma cultura forte. E nós temos essa cultura. Mas nós nos perdemos exatamente por problemas muito pessoais. Muito pessoal ... Pessoal demais!
Claro que, entre nós, devemo-nos explicações. Mas isso não em dimensão mesquinha. De haver vândalos, entre nós. Não, não há vândalos. O que existe é uma cultura brasileira diversificada, múltipla. E nós devemos aprendê-la a, dessa forma, respeitá-la. Se não gostáramos dessa diversificação, devemos respeitá-la assim.
De minha parte, peço muito à nossa imprensa, que tenha essa função extraordinária de poder divisar essa pluralidade deste nosso País, enxergando nossa unidade, em função dos seus valores plurais, que são maiores (palmas).