Amiga (o)s do Grupo Ethos Ethos-Paidéia,
Gostaria de, com vocês, compartilhar de reflexão que (confesso-lhes) me foi amadurecendo a partir das discussões nossas, muitas delas com pouca porosidade aos contrapontos perceptivos dos outros.
E gostaria de, para tanto, lançar as pedras dessa construção crescente, a partir da reflexão dos próprios atores deste Grupo. E isso, sem necessariamente obediência rígida à cronologia de sua emissão ou postagem.
1. PORÇÕES EM CONTRAPONTO
FORMANDO HARMONIA
Amigo Mestre - confessa-nos Circe Vidigal:
Que lindas mensagens acabo de ler. Se pudesse estabelecer como regra esta bela harmonia aqui na lista, viveríamos no Paraíso. Acho que também me encaixo nessa "porção Marte", mixada com uma "porção Vênus" - aliás, acho que a maior parte das mulheres é assim.

Também estou recém saída do hospital, onde passei 10 dias. Cheguei pela manhã; mas não acredito que tenha sido nada tão grave como o mestre teve, pois, pelo menos, o ânimo permaneceu e nenhum fiapo de depressão surgiu. Os médicos e enfermeiros me perguntavam: Você é acompanhante? (rs...rs...rs...) A única coisa de ruim foi saber de tanta droga que me enfiavam pelas veias a dentro (antibióticos violentíssimos, hidro-cortisonas – (que nunca havia tomado)e "otras cositas más"
Volto para uma nova vida, onde terei que recomeçar aprender até a respirar diferente, mas, em breve, já estarei novamente numa piscina e, se Deus me permitir, assumindo mais um desafio, na minha idade: começar a aprender a mergulhar, se minha capacidade pulmonar o permitir. É meu sonho de consumo para antes de ir para o andar de cima.
Tenho mais de 400 mensagens para selecionar e a sua é a primeira que respondo. Sorrindo, internamente, louvo seu suave jeito matreiro e meigo de aparar arestas e promover concórdias.
Ahhhhh Se todos no mundo fossem iguais a você...
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O que havia motivado a reflexão de Circe havia sido a leitura da mensagem sob o título “Faces e contra-faces ante o espelho”, por mim endereçada ao Grupo, a propósito de outras já ensaiadas por Nilze, Assunta, que, como muitos, não conseguiram chegar a tempo ao apartamento onde eu estaria, no Hospital São Mateus, que teriam, sob a ótica das enfermeiras, orientações políticas diferentes, aí incluído o grupo da Crítica Radical, integrado pela ex-prefeita de Fortaleza Maria Luíza Fontenele, a ex-vereadora de Fortaleza Rosa da Fonseca, Jorge Paiva (guru exportado de guerrilhas, entre outros.
Nilze a Assunta e muitos outros confessaram que chegaram atrasados mais ficaram felizes por minha saída era interpretada como restabelecimento.
Foi quando ao Grupo escrevi:
2. COLHENDO LIÇÕES DE
MINHA HISTÓRIA DE VIDA
“(...) E aí comecei a rir. É que a turma da Crítica Radical (Maria Luíza Fontenele, a ex-prefeita de Fortaleza), Rosa da Fonseca, Jorge Paiva e outros estavam combinando uma ida lá no hospital. Ao sair da UTI e já no apartamento, as enfermeiras a cuidar dos soros, furos, marca-passos e aparelhos de monitoramento eletrônico, com vagar me faziam pousar no novo leito. Nesse ínterim, toca o meu celular, que Cláudio (o filho) havia colocado na cabeceira. Instintivamente, peguei do aparelho e respondi. Do outro lado, Maria Luíza: “Cláudio?”. E eu: “Não, Maria, sou eu”. Ela pensou que era trote. Queria combinar ida lá. E eu fiquei a pensar a confusão que iria dar na cabeça dos médicos e enfermeiras...
Lembrava-me, então, de quando chegara ao hospital, onde despertei preocupação. Equipe médica me cercou numa sala especial de emergência. De lá, às pressas, fui para a UTI. Meu estado preocupava os médicos, e, à família, as informações eram visivelmente lacônicas e confusas. Tenso, sem forças, vômitos, dores fortes... Resolvi reeditar situações já experimentadas, ao ouvir um dos médicos ao se reportar ao “paciente”. Lá fui eu a divagar pelos campos semântico-etimológico, do grego ao português, com as transições semânticas e a concluir: “Não sou, mas tenho de ser ... paciente”.
Notei que, passados os primeiros sufocos, as enfermeiras estavam preocupadas comigo. Os papos: a) “então, satisfeito com a eleição do nosso Lula?” b) “menina, ele é Alckmin!” c) “Que nada, garanto que ele votou na Heloisa Helena, não foi?” D) ” O homem é professor. Aposto que ele votou no Cristovam...” Vamos mudar de assunto. O homem é sério e, com certeza, não se mete com essa coisa suja que é a nossa política...”
Para mudar de assunto, lancei uma pergunta: ”Aqui, neste hospital, fazem alguma seleção estética das enfermeiras?” Elas se entreolharam e uma delas foi direto: “O senhor nos acha feias?”. E eu: “Não, ao contrário...” Uma das enfermeiras, sem me olhar, ocupando-se do que fazia: “Hum! Coisa de quem muito amou, ama e ainda é amado!...” E arrematou: “Os homens são todos iguais!...” E lá veio, com outra: “Nós vamos ter de fazer novo eletrocardiograma e retirar o marca-passo em sua perna direita”. E sorrindo, avisou-me: “Como o senhor é muito peludo, vamos ter de fazer uma depilação. O senhor sabe como se faz”. Piscou para a outra, sorriu: “Não se preocupe. Nas partes genitais, a gente põe uma cerinha e (não vai doer) a gente arranca”. Fechei os olhos. Elas riram do trote e concluíram: “Ta vendo? Os homens vão todos iguais. Não sabem lidar com a dor”. Um rapaz que ali estava a varrer, aproximou-se de meu leito e fez seus comentários: “O senhor tem sorte. A administração está mudando. Um mês antes o senhor só encontraria aqui uns ‘bofes’. Bonitas ou feias, elas todas pensam que nós os homens somos todos iguais: uns ‘frouxos’ diante da dor. Não percebem que nascemos para o prazer e elas para sofrer.
Sorri, sem querer entrar na discussão. Só fiquei pensando o que se passou na cabeça dos funcionários do hospital, quem seria eu, pelas pessoas preocupadas por mim.
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Desculpem estar eu aqui, feito Santo Agostinho, em confissões que, com certeza, não chegam perto da grandeza de tão excelsa figura, com o objetivo de, sem desobediência às prescrições médicas, colher lições dos “erros”, em minha história de vida...
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A professora Assunta Cabral foi das que, com Nilze Costa e Silva não mais me encontraram no hospital. E dela, recebi, ao chegar em casa, a mensagem:

Estimado prof. Marcondes,
É uma grande alegria saber de sua melhora e retorno ao lar. Hoje eu e a Nilze fomos visitá-lo e soubemos que já havia saído do hospital. Que luzes, cores e amores o envolvam neste processo de recuperação.
3. O FATO QUE ME INTRIGOU
Em casa, já saído do hospital, ouço o telefone tocar. A empregada atende e alguém pergunta se estou em casa. Ela diz que vai ver se posso atender. Pergunto de quem se trata. A pessoa diz tratar-se de “amiga dele”. O nome? “Ele reconhecerá quando ouvir minha voz”.
Tomo do telefone. A idéia que me passa é de uma dessas mensagens gravadas, com fundo musical. Uma voz bem postada, contralto, interpretação artística e sentido do texto. Quem é? A resposta: “No final, o senhor reconhecerá...”
Não, não era gravada. Linda e emocionante mensagem. Ao final,

Do outro lado, a voz calma e bem posta me pede paciência, garantindo que, ao final, eu terminaria por reconhecer a autoria e interpretação da mensagem. Em seu texto, a amiga me assegurava que eu tinha um “grande e forte amigo”. E, gradualmente, o ia caracterizando, para afinal declinar-lhe o nome: Jesus! Já com lágrima nos olhos, emociono-me. Aí, a pergunta: “Reconheceu a amiga?” Pela religiosidade, a ternura, a compreensão (não a vi a não ser em seus artigos no jornal O Povo, em que escrevo, e no Ethos-Paidéia), arrisquei: “Assunta?” E, do outro lado: “É a Sandra! A Sandra Paulino!”.
Jamais imaginaria. Bem que desconfiava de que Sandra, por trás de sua porção “marte”, de inveterada “guerreira”, guardava sua porção “vênus”, sedutora e sensível.
Ao abrir o computador, dou com a mensagem abaixo, que Sandra Paulino me havia escrito:
Senhor, Eu não sou nada sem Tua Graça, vaso de barro em Tuas mãos quero ser, não tenho glória, quebra minha vida e refaz como barro moldado em Tuas mãos, quero ser Tua Imagem e fazer Tua vontade, domina o meu coração, sou Teu escravo e meu Dono é Você, como Vaso de barro vem encher-me de Graça, Te consagro minha vida como servo, só pra Te adorar. (Marcos Coimbra - Prayer for Taylor)
Meu Jesus,
Meu choque hoje foi muito grande, ao abrir uma das msgs, nem sei bem por quê foi ela a primeira...
Vejo nesse homem a quem sequer conheço, um bálsamo em horas difíceis, não só pra mim mas para muitos que com ele convivem ou por ele passaram nalgum momento.
Na nossa convivência à distância, aprendi a ver semelhança com outro professor, que tem o dom de acalmar, de usar a palavra certa e muitas vezes de ficar simplesmente em silêncio, não de cumplicidade, mas de compreensão.
Estes, teus amados que cumprem o mandamento de serem mansos e pacíficos, sabemos, herdarão a Terra.
Então, Senhor, se nada posso fazer por ele, a não ser Te pedir, eu Te peço: acrescenta longevidade a ele e cerca-o com Teus Anjos, acampados ao redor, para que ele Te possa conhecer e conhecer do Teu Poder, que é Uno e Soberano.
Que as Tuas promessas, que não envelheceram, se cumpram na vida de Marcondes; que Tua mão que não está encurtada, se estenda sobre seu ser e o renove e restaure para que ele tenha Vida e Vida em abundância, conforme a Tua Palavra (Sandra Paulino).
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Em mensagem privada, ela me diz:

“Marcondes, partilho com você, com imenso carinho, flagrantes de minha Igreja, quando coloquei seu nome no Altar no dia em que soube do incidente já ultrapassado... (...)”
E, em outro, é ela própria que conclui:
“Sobre a porção venusiana compartilhada, gostei do advérbio que promete um melhor conhecimento a apagar possíveis arranhões que não provoquei, mas que desferi. Cartaz com “Abbá”? Sei não, eu ainda sou muito radical, mas Ele me ama, disso tenho certeza, ama a todos nós.”
4. CONCLUSÃO E APELO FINAL
E, de minha parte, dou razão a Jung, ao afirmar: “ "Quando Saulo perseguia Cristo, na verdade já o amava"...
E com Circe, diria:
Se pudesse estabelecer como regra esta bela harmonia aqui na lista, viveríamos no Paraíso. Acho que também me encaixo nessa "porção Marte", mixada com uma "porção Vênus" - aliás, acho que a maior parte das mulheres é assim.
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Meus olhos recaem, sobre o livro Bakhtin – conceitos-chave. Escolho alguns capítulos em releitura. Principalmente, os de Adail Sobral. Ao final, meus olhos recaem, à página 222, sobre a formação e interesse dos autores. Adail, acadêmica e/ou profissionalmente, ostenta-se o mais eclético – mais que dialético, “plural, diria eu: lingüística aplicada, áreas de filosofia, estudos teológicos, direito internacional, lógica e temas da atualidade. Em mim, um sentimento de sadia inveja e aprendiz.
Volto a um passar de olhos sobre as discussões do Ethos-paidéia. Temática última, a ostentação - como estratégia de contenção das infrações no tenso trânsito da Dinamarca - dos seios femininos desnudos e sungas masculinos provocantes. Ilações, extraídas no Grupo, os preconceitos recíprocos entre as visões feminina e masculina, apontados pelas feministas e por Adail...
De coleção sobre faço cair-me às mãos volumes de Carl Jung sobre psicologia e religião. E a frase do amor incontido de Saulo a Cristo desde quando, movido pelo ódio, o perseguia, me volta em crescendo.
Confissões de Circe sobre a dualidade em todos nós entre as porções em mixagem de homem e mulher. Em termos de Jung, entre o animus (o masculino sufocado no inconsciente das mulheres) e a anima (o inconsciente feminino, reprimido em nós homens.
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Lembrei-me de Gilberto Gil e o apelo a todos nós, mulheres e homem, contido em sua canção.
Que, em nossas discussões, se pautem pelo “coletivo”, o “pluralia tantum”, os contrapontos, um lado quase sempre sufocado em cada um de nós.
Só assim navegaremos em “água grande” e seremos capazes, de como na canção de Gil, mudar, como um deus, o curso da história.
SUPERHOMEM - A CANÇÃO
Gilberto Gil
1979
Um dia
Vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada
Minha porção mulher, que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É que me faz viver
Quem dera
Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe
O Superhomem venha nos restituir a glória
Mudando como um deus o curso da história
Por causa da mulher