Grupos

 

Neste quarto a solidão fala

 

Nilze Costa e Silva

 

Neste quarto a solidão fala do morto, dos gritos, das unhas arranhando o espelho da cama, deixando marcas que verniz nenhum irá cobrir jamais. Neste quarto os cabelos dos meus braços se eriçam, quando sinto a sombra do velho avô morto, fazendo mímicas sepulcrais, dançando a balada grotesca dos mamulengos fantasmas. Mãos felpudas e coruscantes, pelo medo que me dão, acariciam meus cabelos e nos quatro cantos do quarto o silêncio responde com acenos apenas imaginados. O vento esfria e sibila na noite. A sombra circula, alvoroçada, geme e treme. Sinto não haver lugar para me mover, os gritos gravaram-se nas paredes e circulam pelo quarto todo em ondas sonoras que ocupam todo o espaço

.

Na cama, o declive da forma do corpo do moribundo, que não se mexia nunca, apenas gritava em estertores contundentes. E eram gritos que atravessavam paredes e portas fechadas, alastrando-se noite adentro. Escondo o meu medo para não perturbar o fantasma inquieto. Parece não ter encontrado a paz que os gritos suplicavam quando tentava imprimir um resto de vida no ar, respondendo às dores do corpo que alfinetavam-lhe o cérebro.

 

Neste quarto o morto deixou suas marcas e clama que não partiu. A colcha amassada, o declive da cama com a marca do corpo pergaminhado, o cheiro da urina que a água não conseguiu lavar, deixam-me a impressão de que alguma coisa perdura, além da desintegração do corpo. As folhas espanando a janela nada mais são do que as asas dos mortos adejando lá fora, fazendo festa ao outro, em visita à antiga morada.

 

Que se fechem as portas deste quarto, que se deixe tudo como está, não toquem em nada, os mortos voltam, os mortos voltam saudosos e tristes. O quarto de um morto, ainda mais quando o moribundo deixou impressa no ar suas dores, gravou, no corpo pergaminhado a ferro e a fogo, as dobras amarelecidas do colchão que o sustinha. O quarto de um morto é um templo, onde, nas noites de saudades, ele venha recordar.




 

 

 

 

 

Os tempos de JK!

 

O Povo – 16.11.2002

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor

 

 

Em Brasília, na ânsia pelo “imaginário do povo”, lanço, ao motorista do táxi, anzol envolto nos comentários sobre semáforos e engarrafamentos cres­centes no trânsito. O motorista morde a isca e desata um rosário de males re­centes: “Bom mesmo, só nos tempos de JK”.  A professora, atrás, pede-lhe que ligue o ar condicionado: “Não tem. Ar aqui, dona, só quente”. Noutro tom, ela indaga a época do frio: “Nem sei. Frio que é bom, por aqui, só vi mesmo nos tempos de Juscelino”.

 

 Puxo-lhe da história. Menino, ele chegara a Brasília com os pais, em 56: “Nem sabia o que era nem quem era presidente da república. Mas gostava de Juscelino, com seu sorriso, apertando as mãos dos candangos, no meio das obras”.  A cidade, para ele, era JK: “Depois dele, ela perdeu a alma, só recobrada no dia da morte dele. De lá pra cá, ela se encheu de cor­ruptos, e tudo mudou pra pior.” “Seu” Francisco nos conta. Ali chegara dos sertões da Bahia, pelas estradas de chão batido, nos lombos de um burro, sem saber nem mesmo quanto tempo levara.  Dificuldades e fome? Nem pensar!  Olhos perdidos no tempo, ele nos fala dos bichos e das onças abatidos pelo pai na viagem, e do eldorado que, para os seus, era Brasília: “Tempo bom, de esperança e vergonha. Em Brasília e neste País!”

 

            Acordo-o do flaskback romântico: “O CNE está à esquerda!...” A profes­sora, incomodada, não se contém: “Mas será que nada mudou pra melhor?” Ele balança negativamente a cabeça: “Educação: mais de 40 dias, os meninos sem aula, os professores em greve, em Brasília e ... Nessa reunião, talvez vocês possam fazer alguma coisa!”. 

 

            No encontro, ao discutir educação pro­fissional, a imagem e os refrões do motorista me espinham.  Aí, ponho em relevo a baixa e crítica escolaridade (em descompasso com o trabalho e a vida) de nossa “população economica... (e politicamente!) ativa”. A “PEA”, na peia! E, na solitária Praça dos Três Poderes, fico a pensar, cidadão, como de­volvermos a esperança e o sorriso dos tempos de JK às legiões de Franciscos, crescentemente excluindo-se da vida.  “Em Brasília e neste País!”

 

(Marcondes Rosa de Sousa é professor da UFC e da UECe, ora exercendo a função de presidente do Conselho de Educação do Ceará)

 

 

 

Universidade

Federal do Ceará

 

Temas do Nordeste

 

3

 

 

 

O Nordeste:

Reflexões

Sobre uma Política

Alternativa

de Desenvolvimento

 

 

 

 

Celso Furtado

 

 

 

 

Edições Universidade Federal do Ceará

Fortaleza Ceará 1984

 

 

 

 Edições Universidade Federal do Ceará

 

Editora

Pró-Reitoria de Extensão

Pró-Reitor

Prof. Marcondes Rosa de Sousa

 

Normalização

Helena Fátima Mota Dias

 

Capa

Prof. Geraldo Jesuíno

 

Revisão

 

Escolástico Pereira Limão

Leonora Vale

Roberto Cunha Lima

 

Composição / Impressão

Imprensa Universitária - U.F.C.

 

1984

 

Fortaleza-CE

 

Impresso no Brasil

Printed ln Brazil

 

 

 ·        Importante o debate sobre a Região

 

Considero da maior importância que as Universidades do Nordeste mobilizem os meios de que dispõem para encontrar solução aos graves problemas que afligem a região. Tenho seguido com interesse o debate, aberto, neste e em outros centros universitários, sobre os aspectos estruturais e conjunturais da crise atual e sobre as perspectivas, pouco encorajadoras, que se apresentam à região num futuro previsível. 

 

Já não se trata, como era corrente no passado, de conciliábulos a que tinham acesso apenas alguns iniciados. Hoje a problemática da crise é tema de discussão nas praças públicas, e não apenas nas grandes cidades. Contudo, são as Universidades que dispõem de meios para dar profundidade e continuidade ao confronto de idéias e operacionalidade aos resultados obtidos. E também para levar ao conhecimento da opinião pública informações valiosas que, com freqüência, os centros de poder mantêm fora de toda visibilidade.

 

·       Avanço dos estudos sobre o Nordeste

 

Sobre alguns pontos do amplo debate em curso parece haver convergência de opiniões. Por exemplo: Creio que estamos todos de acordo em que se avançou consideravelmente no conhecimento da região, de suas possibilidades e limitações. No campo da pedologia, como no da hidrologia, dispomos de um número apreciável de monografias de elevado valor técnico, que são a base dos avanços significativos alcançados na ecologia regional. As estruturas agrárias foram mapeadas com precisão, o que nos permite ter uma idéia relativamente acurada da morfologia das explorações rurais e do tecido de relações sociais subjacentes ao sistema de produção e apropriação da renda agrícola. 

 

Também dispomos de uma visão mais fiável do ciclo hídrico em que se inserem as estiagens intermitentes. Um melhor conhecimento dos recursos de água de superfície e subterrânea e das características físicas e químicas dos solos nos dá uma idéia dos limites e das peculiaridades das áreas de irrigação economicamente viável. Grandes também foram os avanços no conhecimento da forma como se distribui a renda e da configuração da demanda daí resultante. 

 

Em síntese, à diferença do que ocorria há um quarto de século, quando preparamos o trabalho técnico que conduziu à criação da SUDENE, hoje dispomos de um razoável conhecimento da base física e das estruturas econômicas e sociais do nosso Nordeste.

 

·       Crescimento e desenvolvimento

 

Um segundo ponto sobre o qual também me parece existir um certo consenso, pelo menos .entre os estudiosos com mais autoridade no trato desses problemas, diz respeito à não correspondência entre crescimento econômico e desenvolvimento na evolução recente da região. É mesmo corrente que se afirme ser o Nordeste dos anos 60 e 70 um caso exemplar daquilo que hoje se chama mau desenvolvimento. Com efeito, poucas regiões do Terceiro Mundo terão alcançado, num período continuado de dois decênios, uma taxa de crescimento tão elevada, ou terão conhecido um processo de industrialização tão intenso. A participação do investimento no produto interno alcançou níveis poucas vezes igualados no mundo subdesenvolvido, traduzindo um considerável esforço de acumulação. 

 

Ora, se é verdade que houve melhora considerável da infra-estrutura física, particularmente nos setores de transportes e energia, não é menos evidente que os salários reais da grande massa da população em nada refletiu esse crescimento econômico, e que a grande maioria da população rural pouco ou nada dele se beneficiou. É verdade que a classe média, antes raquítica na região, passou a ocupar um espaço importante. Em compensação, a taxa de subemprego invisível (pessoas ganhando até um salário mínimo na ocupação principal) se mantinha em 80 por cento em 1979. A emergência de uma classe média afluente, em meio à pobreza absoluta da maioria da população, é a evidência maior do malogro da política de desenvolvimento seguida na região.

 

·       O desgoverno a prevalecer no País

 

O terceiro ponto em tomo do qual também convergem opiniões, ainda que nem sempre de forma explícita, refere-se ao fato de que a crise em que submergiu todo o País tem múltiplas e complexas causas, mas quiçá nenhuma seja de tanto peso como a situação de desgoverno que prevalece entre nós há algum: anos. Sobre este ponto não me estenderei, mas considero da maior importância que o tenhamos em conta, pois, enquanto o País permanecer prostrado e exangue, a margem de manobra para atuar no Nordeste será necessariamente reduzida. 

 

A recessão que se abate atualmente sobre o Brasil, por obra de seus próprios governantes, tem como alavanca mestra um corte brutal nos investimentos públicos, donde resulta que as regiões mais dependentes de aplicações de recursos do governo federal são particularmente sacrificadas. Se continua a prevalecer o ponto de vista dos recessionistas - daqueles que colocam os interesses dos bancos nossos credores acima de quaisquer outras considerações na formulação de nossa política econômica - teremos de nos preparar, no Nordeste, para um prolongado período de retrocesso econômico, o que conduzirá ao desmantelamento de boa parte do que se construiu no último quarto de século. Não me cabe fazer nenhuma previsão sobre as formas que assumirá esse retrocesso econômico e suas projeções no plano social e político. Limito-me a expressar a opinião de que nós nordestinos devemos nos unir para combater essa política com todos os meios a nosso alcance.

 

Condenar uma região em que dois terços da população vivem ao nível da pobreza absoluta a anos de retrocessos, a destruir os instrumentos de trabalho nos setores mais modernos de sua economia, a paralisar obras essenciais para que o Brasil cumpra metas de ajustamento da balança de pagamentos impostas por banqueiros que se beneficiam de elevações exorbitantes das taxas de juros escapa a qualquer racionalidade e constitui um crime contra o povo. 

 

O Nordeste é, tradicionalmente, uma região com amplo excedente em suas relações comerciais com o exterior. Ainda em 1979 esse excedente correspondeu a 44 por cento das exportações internacionais da região. E também se auto-abastece no que respeita a fontes primárias de energia. Portanto, a política de reajustamento da balança de pagamentos não deveria ser definida sem ter na devida conta os interesses vitais da população nordestina. Um dos objetivos da criação da SUDENE foi exatamente dotar a região de um instrumento que lhe permitisse participar eficazmente dos centros formuladores da política econômica e financeira do País. Essa a razão por que o seu superintendente era membro de pleno direito, em meu tempo, daquilo que hoje se chama o Conselho Monetário Nacional.

 

·       Primeiro passo para repensar o Nordeste

 

O primeiro passo para repensar o Nordeste, hoje, é repensar o Brasil tendo em conta a situação angustiante em que se encontra esta região. Compreendo que os banqueiros defendam seus interesses, se bem que a ninguém escapa a imoralidade que existe em extorquir juros quatro vezes mais altos do que aqueles que prevaleciam nos contratos originais. O que não compreendo é que nós mesmos não defendamos com o mesmo empenho o direito que tem o povo de sobreviver. Essa perplexidade existe hoje em todo o mundo, quando nas televisões se exibem cenas que expõem o desespero de milhões de nossos conterrâneos privados do essencial para sobreviver. 

 

Se conseguimos, no plano nacional, satisfazer essa condição básica, que é a reconquista do direito de ter uma política de desenvolvimento, terá chegado a hora da verdade para todos nós. Que significa, para o Nordeste, desenvolvimento nas circunstâncias atuais? 

A experiência dos últimos vinte anos nos ensinou amplamente que, se não se atacam de frente os problemas fundamentais, o esforço de acumulação tende a reproduzir agravado o mau desenvolvimento. E quais são os problemas fundamentais? 

 

Há um quarto de século, no trabalho que deu origem à SUDENE, escrevíamos: "o colapso de uma produção de alimentos organizada como agricultura de subsistência assume, necessariamente, dimensões de calamidade social... O impacto da seca concentra-se no segmento mais frágil do sistema: a agricultura de subsistência, daí que suas repercussões sociais sejam tão profundas". E acrescentávamos: :'Tanto as medidas de curto como as de longo prazo têm contribuído para fixar na região um excedente demográfico crescente, sem modificar em nada os dados fundamentais do problema". A recomendação que se derivava dessa percepção da realidade era clara: cabia dar prioridade à transformação da economia da zona semi-árida para torná-la mais resistente ao impacto das secas. Portanto, a solução não estava em injetar recursos, subsidiar investimentos, pois estes podiam repetir os erros do passado: contribuir para incrementar a densidade demográfica sem contudo aumentar a resistência das atividades produtivas à seca, particularmente no que respeita à produção de alimentos destinados à população local. 

 

Dispor de recursos para investir está longe, portanto, de ser condição suficiente para preparar um melhor futuro à massa da população nordestina. Nossa responsabilidade agora é velar para que não se repitam os mesmos erros, ou melhor, para que não se volte a adotar falsas políticas de desenvolvimento, cujos benefícios se concentram nas mãos de pequenos grupos.

 

·       Agricultura, problema fundamental

 

No diagnóstico de há um quarto de século dizíamos claramente que era necessário abrir os olhos para a evidência de que o problema fundamental do Nordeste estava em sua agricultura. Convinha não esquecer que a região é pobre em solos agricultáveis, comparativamente ao Centro-Sul do País. No documento referido chamava-se a atenção para o fato de que a quantidade de terra cultivada por trabalhador era, no Centro-Sul, quase o dobro da que se observava no Nordeste. Em segundo lugar estava o fato de que, historicamente, os melhores solos não produziam para dar de comer à população regional, dedicados que estavam à produção de excedentes de exportação. Por último era necessário ter em conta que a organização socio-econômica da região semi-árida fazia incidir sobre a população mais pobre o mais duro impacto das secas periódicas. A conclusão já então parecia irrefutável: a menos que o Nordeste reconstrua todo o seu setor agrícola, capacitando-o para assegurar uma oferta elástica de alimentos, os caminhos de acesso ao desenvolvimento continuarão bloqueados. As classes médias sempre encontram uma saída abastecendo-se fora da região. Os sacrificados são os que dependem da agricultura de subsistência para alimentar-se e as massas urbanas de baixo nível de renda. A crescente dependência da importação de alimentos significaria que os preços deste teriam de elevar-se, relativamente ao Centro-Sul, com óbvias conseqüências negativas para o desenvolvimento das atividades industriais. 

 

Esta visão da realidade explica que três das quatro diretrizes básicas da política que sugerimos em 1959 se hajam referido à necessidade de empreender a reconstrução do conjunto do setor agrícola. A estratégica proposta consistia em atacar o problema em três frentes: a zona úmida, a zona semi-árida e a fronteira agrícola na periferia subamazônica. Pareceu-nos ser esse o caminho mais curto e mais seguro para dotar a região de uma estrutura agrária capaz de viabilizar o seu desenvolvimento. 

 

Se nos damos conta de que o desenvolvimento não é apenas um processo de acumulação e de aumento de produtividade mais econômica, mas principalmente uma via de acesso a formas sociais mais aptas para estimular a criatividade humana e para responder às aspirações de uma coletividade, comprovamos com facilidade que um de seus aspectos fundamentais reside na conformação que assume o setor agrário.

 

As estruturas agrárias dos países que lideram o processo de desenvolvimento econômico e social não são o fruto de uma evolução necessária, ou seja, não são simples resposta ou adaptação ao avanço da acumulação e das técnicas incorporadas aos instrumentos de produção. Essas estruturas são o fruto de uma opção política orientada para a formação de uma classe de agricultores aptos a assumir um papel dinâmico no processo de desenvolvimento.

 

·       Diferenças fundamentais entre a empresa agrícola e a industrial

 

A empresa agrícola apresenta diferenças fundamentais com respeito à industrial. Não somente porque em relação a ela não se aplica o conceito de economias de escala de produção, germe do processo de concentração do poder econômico. Mas, principalmente, porque sua forma de inserção ecológica estabelece limites à divisão social do trabalho, tanto no tempo como no espaço. Essa a razão pela qual a empresa agrícola predominante, nos países de agricultura mais avançada, continua a ser a familiar. Mais precisamente: tendeu a ser a familiar. Com efeito, na Europa ocidental, o predomínio da unidade familiar autônoma de exploração agrícola é fenômeno da segunda metade do século passado e principalmente do atual. Os Estados Unidos, com seu sistema de homestead para ocupação da fronteira, foram pioneiros na matéria. No Japão a evolução deu-se por outro caminho com a liberação das explorações familiares, após a II Guerra Mundial, das múltiplas servidões que sobre elas pesavam. 

 

É corrente que se pense que uma reforma agrária pode constituir um avanço no plano social, mas envolve um elevado custo econômico. Essa é uma visão equivocada. O verdadeiro objetivo da reforma agrária é liberar os agricultores para que eles se transformem em atores dinâmicos no plano econômico. Daí que as reformas agrárias que desembocaram na coletivização das terras hajam fracassado do ponto de vista econômico. 

 

As estruturas agrárias tradicionais engendram a passividade, razão pela qual subutilizam o potencial produtivo no mundo rural. Por outro lado, a grande empresa agrícola moderna pressupõe um alto nível de capitalização e só apresenta óbvias vantagens no plano operacional em setores circunscritos da atividade agrícola. 

 

Um maior dinamismo dos produtores agrícolas traduz-se em uma oferta de alimentos mais elástica, o que beneficia o conjunto da população; e estimula o mercado de produtos não-agrícolas ao elevar o nível de vida da população rural. 

 

No caso brasileiro, e mais particularmente no nordestino, a estrutura agrária é o principal fator causante da extremada concentração da renda no conjunto da economia. Não tanto porque a renda seja mais concentrada no setor agrícola do que no conjunto das atividades produtivas. Mas pelo fato de que, não havendo no campo nenhuma possibilidade de melhoria das condições de vida para a massa trabalhadora, a população rural tende a se deslocar para as zonas urbanas, congestionando nestas a oferta de mão-de-obra não especializada. A sobreurbanização que se observa no Nordeste é uma das conseqüências negativas de sua atual estrutura agrária. 

 

Hoje temos uma percepção mais clara e também mais dramática dessa realidade. Já antes da enorme calamidade que há cinco anos flagela a região, mais de 90 por cento da crescente população urbana nordestina sofria de carência alimentar. Cerca de metade dessa população padecia de graves deficiências calóricas, ou seja, uma insuficiência alimentar de 400 ou mais calorias por dia. Não vou reproduzir o quadro social calamitoso que apresenta a região, em brutal contraste com o nível de renda médio já alcançado. Quero apenas dar ênfase ao fato de que esse quadro existia antes da grande seca que se iniciou em 1979 e se mantinha sem maiores alterações após 20 anos de um forte crescimento econômico, que dificilmente poderá ser igualado em futuro previsível. 

 

Não tenho dúvida de que essa engrenagem perversa voltará a produzir os mesmos resultados no futuro se, retomado o crescimento, não formos capazes de dotar a região de uma estrutura agrária capaz de assegurar uma melhora efetiva nas condições de vida da população rural, ou seja, orientada para a produção de alimentos de consumo geral. Quando falo de estrutura agrária, refiro-me não apenas ao sistema de produção, mas também ao de comercialização e financiamento dessa produção. 

 

O sistema atual, em que o produtor de alimentos de consumo geral - os pequenos proprietários, arrendatários e posseiros - é esmagado por uma pirâmide compacta de intermediários comerciais e financeiros, somente poderá ser modificado se esse produtor chegar a ser suficientemente forte para organizar-se em cooperativas, ter acesso direto ao crédito oficial e gerar poder de mercado. Nenhum avanço real será realizado se não se logra elevar o nível de vida dos produtores pequenos e médios, pois somente eles têm aptidão pata criar uma agricultura ecologicamente adaptada à região semi-árida e abrangedora de mão-de-obra. 

 

Essa nova estrutura agrária deverá ser o instrumento de uma política econômica que tenha como principal objetivo dar elasticidade à oferta de alimentos de consumo popular. Nas condições estruturais que atualmente prevalecem, os recursos do crédito oficial tendem a favorecer a produção de excedentes utilizados fora da região, ou são absorvidos pela intermediação e canalizados para fora da agricultura. É necessário que se compreenda que as conseqüências anti-sociais da política de crédito subsidiado são um reflexo direto da estrutura agrária, que surgiu historicamente vinculada a mercados externos. No quadro dessa estrutura, a pobreza dos que trabalham a terra transforma-se em fonte de renda dos grandes proprietários e dos intermediários. O objetivo terá que ser dotar a região de uma estrutura agrária que favoreça a elevação da renda real da massa dos agricultores e estimule estes a investir e a absorver avanços técnicos. Se não se satisfazem esses requisitos estruturais, torna-se impraticável uma verdadeira política de desenvolvimento, ou melhor, as políticas de fomento agrícola tendem rapidamente a degenerar em políticas de criação de excedentes em benefício de grupos privilegiados.

 

·       Resistência da região aos efeitos da secas

 

Nada é mais importante para o desenvolvimento do Nordeste do que o aumento da resistência da região aos efeitos das secas. Nunca será demais afirmar que estas são parte da realidade nordestina, como as neves perenes são parte do mundo dos esquimós. Ninguém duvida que o impacto das secas seria menos negativo se a economia nordestina fosse mais bem adaptada à realidade ecológica regional, particularmente se a estrutura agrária não tornasse tão vulnerável a produção de alimentos populares. Se o rápido crescimento dos anos 60 e 70 aumentou a vulnerabilidade da região, é porque o verdadeiro problema não está em aumentar a produção e sim na impropriedade das estruturas. Nada nos impede, no futuro, de aumentar consideravelmente a resistência às secas, reduzindo os efeitos calamitosos destas no plano social, a partir de taxas mais modestas de crescimento econômico. Este é, quiçá, o maior desafio que temos pela frente. 

 

Uma estrutura agrária apta para proporcionar uma oferta elástica de alimentos populares é condição necessária do desenvolvimento, mas não assegura por si mesma o desenvolvimento. Este pressupõe a existência disso que os economistas costumam chamar de "motor", ou seja, um centro dinâmico capaz de impulsionar o conjunto do sistema. Na economia tradicional do Nordeste, esse papel dinâmico, ainda que exercido em escala modesta, coube à demanda externa (era a época da economia primário-exportadora). No período mais recente ele coube aos investimentos infra-estruturais financiados, via de regra,a fundo perdido, pelo governo federal e aos investimentos industriais, às mais das vezes subsidiados. Tanto no caso da economia primário-exportadora como no da industrialização recente a impulsão dinâmica produziu um crescimento que pouca ou nenhuma conexão teve com a demanda interna regional, razão pela qual as transformações sociais foram praticamente inexistentes, frustrando-se o verdadeiro desenvolvimento. 

 

Mas não podemos deixar de reconhecer que esta impulsão dinâmica é essencial, vale dizer, que não existe desenvolvimento sem acumulação e avanço técnico, se bem que a recíproca não seja verdadeira. Uma adequada estrutura agrária é pré-requisito para o desenvolvimento, mas o impulso dinâmico deste terá que vir da complexificação do sistema produtivo em seu conjunto e isto, numa vasta região como o Nordeste, somente se torna possível mediante industrialização.

 

·       Integração entre agricultura e indústria

 

A indústria, em sentido lato, é o setor produtivo em que cresce mais rapidamente a produtividade, portanto, é ela que lidera a elevação dos salários e produz o excedente que alimenta a acumulação e gera novos empregos, ainda que estes se situem em outros setores produtivos. O terciário moderno também apresenta as mesmas características, mas ele supõe o prévio desenvolvimento do setor industrial. A própria agricultura, em sua fase mais avançada, integra-se com a indústria, posto que o essencial de seus custos tende a assumir a forma de insumos produzidos pelas indústrias. 

 

O problema crucial, num caso tão complexo como o do Nordeste, está em definir o tipo de industrialização capaz de gerar um verdadeiro desenvolvimento, pois sabemos de experiência que a tendência natural é para favorecer indústrias sem qualquer vínculo direto com o mercado regional. 

 

Importa, de antemão, que nos entendamos sobre nossos objetivos estratégicos, os quais terão necessariamente que ser de natureza social. Se o desenvolvimento requer a elevação do nível devida da massa da população, ele somente será alcançado se o salário médio acompanhar o crescimento da produtividade social média e se o diferencial de salários tender a reduzir-se. 

 

Uma política dinâmica de desconcentração da renda exige que seja mantido um elevado esforço de investimento e que este seja efetivamente criador de novos empregos. São estas idéias elementares que não é demais relembrar. O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, funda-se na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização. Quando o projeto social dá prioridade a efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. Ela é fruto da realização de um projeto, expressão de uma vontade política. 

 

Se é nosso propósito 1utar pelo desenvolvimento do Nordeste, uma das primeiras ilusões que teremos de abandonar é a idéia de equiparar o nível da renda do nordestino ao do habitante do Centro-Sul. Se esta última região reduz sua taxa histórica de crescimento econômico, isso repercutirá negativamente no Nordeste. A diferença de níveis de renda que hoje existe entre as duas populações constitui o legado do longo período de desenvolvimento primário-exportador, para o qual o Nordeste era menos dotado do que o Centro-Sul, e dificilmente poderá ser eliminada, pelo menos enquanto esta última região não superar o considerável atraso que a separa das economias desenvolvidas. Cabe acrescentar que não está aí o problema. Nas estatísticas internacionais o Brasil figura com um nível de desenvolvimento social visivelmente abaixo do que lhe corresponde na classificação segundo a renda por habitante. 

 

Nada impede que, para uma mesma taxa de crescimento econômico, ou mesmo para uma taxa inferior nesta região, o Nordeste obtenha resultados mais significativos no plano social do que o Centro-Sul.

 

·       Mercado regional

 

Para que o processo de industrialização seja não apenas um "motor" de crescimento, mas também instrumento de homogeneização social, é necessário que essa industrialização se vincule amplamente ao mercado regional. Isso não significa que não possam existir indústrias primariamente ligadas ao mercado externo à região, mas, sim, que, no seu conjunto, as atividades industriais reflitam as condições sócio-econômicas do Nordeste. Em outras palavras, é necessário que esta região se dote de um subsistema industrial capaz de autogerar o seu próprio crescimento apoiando-se na expansão da demanda interna. 

 

Posto que o Nordeste possui uma renda por habitante que corresponde a cerca de um terço da região Centro-Sul, é natural que a demanda regional tenha uma composição distinta e, a fortiori, que a estrutura do setor industrial reflita essa distinção. Mas, na medida em que as indústrias nordestinas tenderam a ser simples prolongamento das indústrias do Centro-Sul, a estrutura da oferta nesta última região passou a condicionar a demanda no mercado nordestino. A preponderância dos padrões de consumo da região mais rica teria que traduzir-se, na mais pobre, em maior concentração de renda e agravação das disparidades sociais. 

 

A menos que modifiquemos essa situação, estaremos condenados a refletir ampliadas as deformações por demais notórias da sociedade do Centro-Sul do País. Longe de contribuir para reduzir as desigualdades sociais, a industrialização continuará a reforçar a tendência estrutural do sistema para concentrar a renda e excluir a grande maioria da população dos benefícios da acumulação realizada com subsídios oficiais. Portanto, não basta modificar a estrutura agrária; também é indispensável redirecionar o processo de industrialização. 

 

Todo esforço deve ser envidado para obter uma maior integração da indústria regional e vinculá-la progressivamente ao mercado local. Isto exige que se estabeleça um regime de reserva de mercado para as indústrias que se localizem na região e adotem opções tecnológicas compatíveis com uma ampla criação de emprego. Indústrias com outra orientação tecnológica também poderão localizar-se na região, mas não há razão para que se beneficiem de estímulos oficiais. O sistema de subsídios deverá ser posto a serviço do desenvolvimento do mercado local e da homogeneização social. 

 

Do ponto de vista nacional, trata-se de aplicar uma política de industrialização que tenha em conta a dimensão continental e as peculiaridades regionais do Brasil. A unificação do mercado nacional, obtida nos anos 30, foi exigência de um certo estágio da industrialização do país. Seus efeitos negativos nas áreas com um tecido industrial mais frágil puderam, por algum tempo, ser amortecidos graças aos elevados custos dos transportes inter-regionais. A partir dos anos 50 os transportes passaram a ser amplamente subsidiados mediante a construção de estradas a fundo perdido e a uma política de baixos preços de combustíveis. O quadro presente é distinto, pois o estágio atual da industrialização brasileira está exigindo a desconcentração territorial com vistas a economizar gastos em transportes e também de descongestionar os grandes centros industriais do Centro-Sul, onde são notórias as deseconomias criadas pelo excesso de aglomeração. É no quadro de uma política industrial orientada para a solução desses novos problemas que devemos reivindicar para o Nordeste uma maior autonomia de decisão. 

 

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Esquerda matuta

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 13.11.2002

 

No Teatro Carlos Gomes, em Vitória, havia eu deixado reflexões sobre permanências e mutações, na comemoração dos 40 anos do Conselho de Educação do Espírito Santo. Mas, de lá, trazia indagações muitas sobre a "vitória apertada" nas eleições para o governo do Ceará. E, sem dúvida, insuficiente era a desculpa azul- amarela da "onda vermelha".

 

Em São Paulo, mal me entretinha com a busca de tais razões; eis que, no avião, dou com a presença de José Airton Cirilo (o candidato) e de Luiz Odorico de Andrade, os dois do PT cearense. No cardápio do papo, amenidades, passado e presente políticos, arranhões, bálsamo, cicatrizações...

 

E, afinal, as razões da derrota-quase-vitória: "É que integramos o PT matuto", explica-me Odorico, que me fala da opção que José Airton e ele fizeram, ao terminar a universidade. Em vez das luzes e da retórica flamejante dos palanques e tribunas na capital, abraçaram o árido trabalho junto à população no interior. Aprenderam a auscultar e escutar o povo: seus pulsos, sentimentos e dores, com ele sentando-se nos bancos das praças públicas ou em seus lares, na intimidade dos tamboretes. Um paciente trabalho, com o sabor do "lamber a rapadura".

 

Nesta eleição (é crença de Odorico), José Airton foi signo dessa "esquerda matuta", em empatia com o povo, matuto este na origem. "Matuto", sem a preconceituosa conotação do "ingênuo e despreparado". Mas, ao contrário, a traduzir a ecológica "visão de teia" e a biodiversidade no mundo natural, social e político.

 

Exausto, reclino a poltrona. E evoco pretéritas cenas. dos tempos..de.pró-reitor da UFC, onde vejo os dois personagens a atuar nos programas de extensão comunitária, em evidente atitude de responsabilidade social. Em sã consciência, teria eu que disso dar fé e testemunho.

 

Fim da viagem. Afáveis tchaus. Em mim, professor de antanho e emplumado tucano, fica-me calada a lição de que, nestes tempos digitais (de tato e sentido), o novo na vida política sopra-se a partir do "mato", que tem olhos a brotar do húmus (raiz da humildade), grávidos da consciência do chão.

 

Marcondes Rosa de 5ousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará

 

De meus arquivos, dou com o artigo abaixo, de 16 outubro de 2002, por ocasião da concessão a mim, a propósito do Dia do Professor, do Troféu “Coruja de Ouro”, a mim ofertado pela Associação dos Professores do Ensino Superior do Ceará (Apesc). Na solenidade, reencontro com amigos. O clima, pré-eleitoral. E, óbvio, o ambiente, no embate Lula e José Serra, nada favorável a Serra.

 

           

 

 

 

 

Brinde ao plural

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 16.10.2002

 

           

            Dura frase, a de um colega, marcou-me o Dia do Professor, um ano atrás: "Hoje, ganhei, de meus alunos, uma gravata: meu desejo é enforcar-me com ela". Este ano, a atmosfera foi de festa; abraços, estórias, e a história se pondo a limpo.

 

            Em um jantar, vi-me a prestar e a receber homenagens. E, num grupo, eis que re-evocamos caminhada conjunta desde os anos 60. Uma colega fala-nos de lutas e êxitos, e do trágico sobre sua vida. No rosto, porém, o sorriso. No peito, discreto broche: "PT". E a confidência/convite: um vinho já guardado para a vitória de Lula. De nós, acercam-se Rosa (a da Fonseca) e Maria Luísa (a Fontenele). Sorrisos e abraços, em meio ao convite para os "60 anos da Maria".

 

            A esta, cobro-lhe livro, "ela narradora/personagem", os fatos políticos sob o ângulo de seu sentimento e visão. E ela: "Já tenho o título!" Falo-lhes de outro, sonho meu, a reconstituir-nos a paisagem política, desde os turvos anos 70 aos democráticos, a partir dos "aniversários" de nossos filhos, plagiando a amiga Violeta Arraes, ao referir-se à esquerda no exílio: "Conheço-lhes as grandezas e as vilezas todas". O grupo patrulha-me a opção por Serra e o PSDB. Falo-Ihes desses como personagens da mesma história e das vezes muitas que, de uma banda do rio e de outra, fui operário na construção de pontes. Por fim, confesso-lhes o lado "adolescente contido no peito", quem-sabe expresso pelo tributo que pago a Leo (o filho caçula, roqueiro no Rio) e a Rosa da Fonseca (na ponta-esquerda).

 

            Troféu "Coruja Apesc" às mãos, falo à televisão das marcas que deixei nos alunos e das que, da vida, trago no peito dilacerado. Todas a me ensinar a lição das dissonâncias a construir acordes.

 

            Final da festa, e os votos de que o vinho guardado seja erguido, em qualquer hipótese, a um Brasil de convivência sem ódio e plural.

 

            Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará.

 

            Observação: Maria Luíza Fontenele, ex-prefeita de Fortaleza (a primeira, mulher) e seu grupo (radical) pregou, nas últimas eleições a abstenção. Somos colegas, amigos. A filha dela, Andrea, até hoje me trata por tio. Nos anos turvos, uma das acusações a mim era pertencer ao “grupo da Maria Luíza”, isto é, do Movimento Feminino pela Anistia. Ela, Gouvan (do Partido Comunista) e eu, fomos reputados surrealisticamente os três mais perigosos dos subversivos àquela época...

 

 

 

 

 

Plumas e chão

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor

 

O Povo, 30.10.2002

 

 

 

         Foram-se as eleições. Com elas, as emoções. Tudo, como num jogo: em campos opostos, com dribles e gols, os adversários a empolgar as torcidas. No gramado, atores foram os sentimentos, as idéias e os valores em jogo, mais que os times. Sedutor, o conflito. O das cores, entre o vermelho e o azul-amarelo, em forte apelo. O da emoção a digladiar com a razão. O do saber das ruas e vida, a contrapor-se ao da academia. O do senso social em luta contra a frieza do intelecto. A esperança por um lugar ao sol em dilema com o medo do escuro e dos turvos céus. O solitário eu, onisciência arrogante, opondo-se à força construtiva do "nós".

 

         Flores nem tudo foram. O eleitoral jogo não ficou imune aos golpes rasteiros, alimentados pelos evidentes e surdos ressentimentos, rancores e infidelidades (partidárias e pessoais).

 

         Mas isso não empanou as jogadas bonitas, que comoveram torcidas, comprometendo-as em solidário "contrato social". Do jogo, ficaram-nos sínteses a irmanar os contrários: 1) o vermelho da emoção pano-de-fundo do projeto e caminhada verde-amarelos; 2) a emoção a emprestar tato e sentido à razão; 3) o saber colhido na vida a ter lugar na academia e na escola, passarelas abertas, em contrapartida, dessas para a vida e o mundo; 4) A constatação de que a competência estiola-se na solidão,mas cresce na ampla "negociação social”;; 5) o medo do escuro dissipa-se com a esperança, que, por sua vez, há de ter os pés ficados no chão.

 

         Assentada a poeira dos ânimos, restam-nos a reflexão, os horizontes e a caminhada, sob o clima de pacto e negociação. Que a todos (aí incluindo-nos os tucanos, cheios de plumas - os fiéis e os infiéis) fiquem-nos o sentimento e a consciência do chão do gramado.

 

         O chão do "húmus", raiz do termo "humildade", ora oportuno!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UF() e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará

 

DE COMO VIREI PONTE...

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Estou postando o artigo "Esquerda matuta", encaminhado à discussão sobre minha "satanizada" filiação ao PSDB e discussão sobre minhas atitudes, prometendo que citado artigo passará a fazer parte do Blog do Ethos-Paidéia, com o espírito de encaminhar nossas discussões para um real binômio: do "ethos", a salutar convivência e  responsabilidade social; e da "paidéia", escolar e sócio-cultural, o que inclui a política.

 

A intenção com o artigo foi mostrar que, no "ofício do escrever" e no exercício dos cargos públicos, sempre estive acima das facções partidárias, ocupando a olhar mais alto de "ente - ou agente - de  estado" (não simplesmente de governo).

 

Tal crônica, escrevi-a após palestra que dei em Vitória, onde me vi, lado a lado, com duas facções do PSDB (o então governador e o vice, à época em briga a me ladearem), ambos me cobrando explicações sobre a quase derrota" do partido no Ceará, com Lúcio Alcântara", que adepto, tanto lá quanto cá, da clandestina (hoje ostensiva) chapa "Lu-Lu") para José Airton Cirilo, então sob o slogan "É Lula lá e Zé Airton cá”, hoje patrocinado por Lula (os dois "lá, em Brasília". Em conexão no aeroporto de Congonhas, dei com Benedita e as disputas entre elementos do PT, recém-saídos de reunião.

 

(...)  Por último, dizer que choque de partidos e de interesses são, em uma eleição legítimos, dentro (é obvio) da ética. Governabilidade, no entanto, exige composições. Sobretudo, quando elas se pautam pelos interesses mais altos da sociedade e da Nação.

 

No Ceará, muitas vezes, com tal objetivo, fui ponte de diálogo. Odorico e José Airton foram personagens da vida estudantil passados por mim. Em Icapuí (primeira prefeitura do PT), muito intercedi pelo grupo que ali administrou. E cheguei a receber medalha de reconhecimento a esse trabalho.

 

O artigo, prometi escrevê-lo, ao chegar ao aeroporto. Fui, no entanto, patrulhado pelo "PT urbano", sob o argumento de que eu estava defendendo o "PT à direita"...

 

Hoje, é com alegria que, nos jornais vejo que Odorico é peça fundamental na equipe de transição entre os dois governos (o de Lúcio Alcântara e de Cid Gomes) e possível futuro secretário de saúde do Estado. Nas fofocas de jornalistas, Ciro Gomes (um dos deputados mais

votados da Nação, irmão de Cid) é apontado como futuro ministro da Saúde.

 

Pessoalmente, nunca pedi cargos, títulos ou posições a políticos. Nunca procurei filiação a partidos. No caso do PSDB ela veio de cima para baixo. Pregaram-me uma peça. Beni Veras, então ministro de Itamar Franco, retira seu nome do alto escalão do PSDB, em atenção aos  intelectuais que, por sua postura acima das picuinhas, quase sempre são tachados de "traidores". Fui, depois disso, é que, de cima para baixo, fui inscrever-me, no diretório municipal e estadual do Partido...

 

Na universidade, todas as correntes de esquerda, para minha surpresa se solidarizaram comigo: "Agora, você tem um partido. É um dos nossos. Temos agora com quem conversar" ... Que lógica! (rsrs).

 

Aí, virei "ponte" (rsrs)... Ao ler texto de discurso por mim elaborado para Tasso (como ghost writer), Fernando Henrique que buscava Tasso para o recém-criado partido, saiu-se com essa: "Mas isso é que é a "social democracia brasileira", não a que trouxemos da Europa. O governo de Tasso, inspirado em amplo pacto, o "Projeto das Mudanças", era tocado "por musica", na expressão dos seus,  sem muita verbalização. O que fiz? Nada mais do que partir, fenomenologicamente, do agir dele extraindo, ao revés, o ideário. Alguém do Palácio me pedira. Beni Veras me entregara um convite para a comemoração dos "70 anos do CIC" - o Centro Industrial do Ceará, sob o titulo "Dos ideais do CIC a uma prática de Governo". Agradeci-lhe a honra do convite e disse que iria à palestra, no Auditório da FIEC. Beni, lacônico: "Não! é para você escrever a palestra". Deu-me algumas entrevistas que falavam das ações do que fazia o Governo. E, a partir daí fui convertendo a "prática de governo" nos ideais nela embutida...

 

No dia da palestra, para minha estranheza, ouvi dois elogios: o primeiro de importante secretário de estado: "Puxa! Parecia um filme. Tudo encadeado. Dava até para a gente entender o significado de nossa ação...". E a segunda, de Fernando Henrique Cardoso, que  assediava Tasso para que esse ingressasse  no recém criado PSDB: "Mas é isso é que é  a  social democracia brasileira - a que parte do chão, do fazer. E não a teórica que trouxemos da Europa”.

 

Mal sabia Fernando Henrique os problemas que me trazia, na província e por aí afora. Quando ele foi presidente, um assessor barraria todas as minhas eventuais contribuições e artigos. E chegou a me dizer: “ideólogo aqui é Hélio Jaguaribe”. E, certa feita, em Fortaleza, fui proibido de ingressar em reunião nacional do PSDB. Hélio Jaguaribe, disse-me um assessor bastava (rsrs). Ironia é que artigo que fiz sobre a seleção brasileira chegando a Brasília, despacho do então presidente da república ao aí seu assessor mandava-o remeter para o Centro de Documentação Histórica da Presidência da República. O mesmo faria, tempos depois o presidente Lula, que (para falar a verdade, nunca estive com ele, ao me acusar recepção de artigo sobre os conselhos de educação como “órgãos de estado”.

 

 

RELATO MERECE CONTINUIDADE

 

Josênio Parente

 

Marcondes, parabéns pelo relato. Gosto de seus artigos e nem precisa de comentários. Mas o relato, apenas iniciado, merece continuidade.

 

 

EM BUSCA DA CONVIVÊNCIA PLURAL

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

         Grato pelos “parabéns”. Uma explicação. Com o intróito ao resgate do artigo “Esquerda Matuta”, não tive propósitos outros que não o do registro, em nossa geração, da convivência plural. Afinal, temos todos a mesma origem. Nisso,lembro-me de Violeta, ao aceitar o cargo de Secretária da Cultura de Tasso, ela amiga de Celso Furtado, irmã de Miguel Arraes, amiga de Valdir Pires, além de Chico Buarque e artistas de Cazuza a Paulo Abel do Nascimento.

 

         Ela achava que Secretário deveria ser eu. Veio de Paris, convidada. E eu, num rosário de argumentos lhe mostrei o que ela representava. Com ela, aprendi a coisa. Um dia, foi cercada por jornalistas de importante revista nacional. Eles havia seguido seus passos nos Campos Elíseos (sua residência em Paris), em São Paulo (na casa da filha) em Recife (Miguel então governador) e no Rio (no apartamento do filho). Depois, me chamou a mim e a Luiz Carlos (o Barretão, seu amigo). E me disse seu drama: “A Revista tem a vida de cada um da esquerda emigrada, que Gervaiseau e eu ajudamos. A ficha completa. Quer apenas que eu confirme. O diabo é que conheço, de cada um, todas as grandezas e vilezas. E a propósito criticou o cineasta que se comprara os direitos autorais para um filme sobre a vida de um desses heróis: “Que que isso, companheiro”, hoje destacado parlamentar em nosso Congresso Nacional..

 

         Sua mensagem me levou à pesquisa de minha con./vivência com as diversas correntes nossas. Ouço mil histórias: das sanguessugas aos mensalões e do jogo sujo em época eleitoral. Não condeno nenhum deles. Histórias de traições, de vendas, ante torturas ou dinheiro. Não condeno porque não sei se eu, felizmente um “cassado branco”, com penas monetárias (da não promoção, do corte de salário, da vida controlada pelo SNI, das palestras gravadas), não sei, frouxo que sou, como reagiria ante a tortura física.

 

         Encontrei, sobre nossos projetos políticos, alguns artigos e documentos. Irei lançá-los, com um único objetivo. De apontar caminhos para um entendimento e projeto nacionais. Nunca fui (e nem sei fazê-lo) de patrulhamento. Ético, sim, mas nunca fui do “rearmamento moral” nem da velha UDN, conceitos caricaturados hoje, dizia Brizola, pela “UDN de salto alto” (o PSDB) e a “UDN de tamancos” (o PT).

 

         Já estou preparando algumas matérias para o Blog. No meio de tanto papo, fico nordestinamente “lambendo a rapadura”, esperando novos cenários. E rezando para que Deus se lembre de que ... “é brasileiro”!

 

 

PENSAR NAS NOVAS GERAÇÕES

 FAZ-SE PRECISO

 

Josênio Parente

 

 

            E é esse registro de convivência plural dessa geração, como você tão bem fala, que garante importância ao relato. Foi uma geração participativa e construtiva. Já disse ao Prof. Diatahy que ele deveria fazer um DVD sobre sua participação, com uma câmara e um microfone. O prof. Paulo Elpídio e tantos outros que, se fosse citá-los eu iria fazer injustiça.

 

            Mas quem pudesse deixar relatado de suas experiências pessoais já facilitaria não apenas para os historiadores, mas para uma geração ainda viva e ativa. Se construíram o nosso presente, as novas gerações precisam saber e suas experiências para dar continuidade e até melhorá-las.

 

            A importância das idéias é evidente, mas dos relatos só as futuras gerações agradecerão.

 

***

 

            Parabéns pelo Ethos-Paidéia. A diversidade ideológica é salutar e honra a democracia.

 

 

 

UM BANCO DE IDÉIAS

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto

 

 

Não descuido da importância do que se vem chamando de "discussão plural". E até me inclinaria a que se aprofundasse essa técnica (ou método?).

 

Lembro-me que lá pelos anos setenta, o sociólogo Jean Duvignaud, interessado pelas manifestações da consciência coletiva, traçou alguns arquétipos do que viria a ser o que ele nomeou de "Banque des rêves", Banco de Sonhos, ao qual se recolheriam, metodicamente, sonhos colecionados e cuidadosamente classificados por tema e grau de abrangência social, política, etc.

 

O que propõe Josênio (meu aluno que, por virtudes pessoais e acadêmicas, pelas quais infelizmente não sou responsável, tem reconhecida folha de serviços no campo da ciência política) é interessante. Os empresários praticam regularmente esses exercícios de coleta de depoimentos sobre experiências pessoais no plano da empresa.

 

Entre os antropólogos que se dedicaram aos estudos de comunidade, em outros tempos, as "histórias de vida" consistiam em um registro relevante da vida e das relações interpessoais em uma comunidade. No Ceará, alguns professores do Departamento de Ciências Sociais e do Instituto de Antropologia da UFC, ofereceram contribuição muito importante. Citaria, dentre outros, João Pompeu, Francisco e José Alencar, Luiz Fernando Raposo Fontenelle, Luiz Gonzaga Mendes Chaves, Teresinha Alencar, Hélio Barros...

 

Poderíamos, apanhando no ar a iniciativa de Duvignaud, criar um "Banco de Experiências" que poderia estar ligado à UFC (ocorre-me o NUDOC) e/ou outras universidades. O Banco poderia ampliar as suas pretensões, criando "carteiras": Carteira de Idéias, Carteira de Experiências, Carteira de Testemunhos, Carteira de Registro de Ocorrências Históricas... Quem sabe uma Carteira da Memória da Tutela Militar de 64...

 

A questão está cifrada, como em todos os empreendimentos bem sucedidos, na gerência. Esse Banco precisa de um bom gerente e de algum capital inicial.

 

Em uma palavra, tudo o que se quer é que possam ser salvas para conhecimento e avaliação das novas gerações e estudo do passado recente e do passado passado registros históricos e de peso intelectual sobre o que se passou no Ceará, com a partricipação dos cearenses ou à margem do seu interesse, nas últimas décadas.

 

Como os estados e os seus órgãos (universidades, centros de pesquisa) dispensam pouca atenção ao passado, demonstram um vago interesse pelo futuro e uma certa indiferença pelo presente, haveria que convocar cidadãos prestantes para essa missão cidadã.

 

Eia, pois, mãos à obra.

 

 

PATERNIDADE DA IDÉIA
 
Josênio Parente
 
Com a sua contribuição, o professor Paulo Elpídio não apenas mostrou todo 
seu potencial intelectual, que naquela época eu já admirava, mas fez outro
desa­fio. Agora é também o NUDOC (Núcleo de Documentação), do curso 
de História da UFC, quem deve receber esse desafio. O Banco de 
Experiência é realmente uma tarefa natural desse setor e ele já tem realizado,
com financiamento do BNB, entrevistas com políticos, muitos deles já 
passaram para a memória.
 
Excelente e agora a paternidade dessa idéia é do Paulo Elpídio e que deve ter 
resposta positiva na História da UFC e que outras faculdades podem 
incorpo­rar. Mas podemos fazer um vínculo com o Blog do Ethos-paideia. 
 
É dar um formato para que pequenas experiências possam também ser 
con­templadas e até sair em publicações específicas. Acho que pode ser 
um banco de dados mais superficial, mas ainda assim de grande utilidade 
para o aperfeiçoa­mento das experiências futuras.
 
Obrigado, Paulo Elpídio, pelas virtudes pessoais, mas que reafirmo que a 
minha passagem pelos bancos da UFC nos momentos de sua maior 
produtividade foi importante na minha formação.
 
 

DE ACORDO, DESDE QUE...

 

Prof. Antero Coelho Neto

 

A respeito da idéia do Banco de Idéias, aqui discutida pelos professores

Josênio Parente e Paulo Elpídio de Menezes Neto, chega-nos o

“de acordo” do professor Antero Coelho Neto, nas seguintes condições:

 

1. Que se escreve sobre o assunto ou tema, e não o estilo, tendências

ou características pessoais do companheiro da rede;

 

2. Que cada pessoa possa escrever o que pensa sobre o assunto, em até

3 vezes;

 

3. Depois disso, fica encerrao e, no final, o material passa a fazer parte de

nosso Resumo mensal (Banco de Idéias);

 

4. Meses depois, o tema poder ser repetido, caso haja interesse;

 

5. O coordenador escolherá o assunto entre as sugestões que podem ser

oferecidas pelos participantes. Creio que deveríamos tratar de assuntos

variados da atualidade;

 

6. Cada participante deve ser registrado e conhecido pelos outros;

 

7. Diferentes grupos, oferecendo novas e velhas idéias podem funcionar ao

mesmo tempo.

 

Um grande abraço.

Sem nenhuma discussão.

Antero Coelho

 

(Acrescida esta parte, à discussão no Blog do Ethos-Paidéia)

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

 

 

Greve dos professores
Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 08/11/2006 02:41


Arrasta-se, sem horizonte, greve de professores, nas universidades estaduais. E, na imprensa, a comparação: se ônibus ou bancos param, prejuízos se notam. Que importância afinal têm nossas universidades públicas? A indagação poderia ir mais longe: a função da escola em geral, em nossa vida social. Em nosso imaginário, dois refrões, antitéticos, confundem-se: a) A escola nos prepara para a vida; 2) Mas, "isso não se aprende na escola..."

Em sua origem, o vocábulo "escola" é "ócio" a nos preparar para o trabalho e o "negócio" (o "não-ócio"). Nossa escola pouco nos tem levado ao "negócio" e, muito menos, à "negociação".No mundo do trabalho e na vida social, é a vida, em sua dinâmica, que se torna "escola". E, nesse contexto, professor é profissão sem importâncias maiores. Ele já perdeu a imponência das "cátedras" e "cadeiras", hoje a se confundir com as próprias "carteiras" discentes. Para os alunos, escola são meros cartórios a emitir diplomas sem fundo.

Exagero? Veja-se o que ocorreu nas últimas eleições. Cristovam Buarque insistiu no bordão "educação" e terminou a campanha, cheio de dívidas. Pediu socorro a empresários que nem o receberam. Um deles, irônico, aconselhou-o: "Procure as universidades!..." Ele colocou à venda salas que abrigam seus livros, que teve de doar, para desocupar espaço...

Observo troféus, medalhas, produção intelectual.Após a maior comenda educacional do Estado, aluna me joga em rosto, na classe: "aprendi com o senhor, como não ser professor!" Do Rio, renomado professor foi despedido por ordem dos "clientes". Cargos de confiança, em nossa política, independem de titulação escolar. Delfim Neto, diz, com ironia, que já ocupou a pasta da agricultura, pouco da área entendendo: "pensava que melancia brotava em árvore"...

Professor, afinal, para quê?

MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente. E-mail: marcondes1943@yahoo.com.br

 

           

 

 

 

 

FREUDIANA CUMPLICIDADE!

 

Marcondes Rosa de Sousa

.

 

Jornal Tribuna do Ceará, Fortaleza, 6/9/2000

 

Sobre o bureau, dura nota de pesados adjetivos, onde meu nome se cita com evidentes intenções provocativas. Absorvo-me no entretexto da nota e mal escuto alguém que me dá conta de telefonema de uma tal "agência de inteligência" indagando-me sobre a matéria. Tudo se transporta, por instantes, aos pesados anos 70. E aí me ocorre a publicação do livro Fundamentos científicos da comunicação, que, sob a coordenação de Adísia Sá e em parceria com Eduardo Diatahy de Menezes, entre outros, publicamos pela Editora Vozes, de Petrópolis. À época, estranhas sombras, de repente, tomavam-me kafkianamente como "perigoso". E, só muito tempo depois, dei-me conta de que o "perigo' não estava nos "fundamentos lingüísticos da comunicação" (de que me ocupei). Mas de estranhas metonímias, já que o "Sistema" julgava a editora do clero e a meus colegas... "cor de rosa".

 

Num retrospecto hoje feito, vejo tudo, à época, muito estreito. A comunicação, nas universidades, restringia-se ao jornalismo sob feição radicalmente gutenberguiana. Um jornalismo quase sempre limitado ao espaço da régua e compasso. Compasso que, na vida sindical, por muito tempo, oscilou entre o ponto e contraponto do jornalismo e do radialismo, como se antagônicos. De minha parte, jamais contive a linguagem nos estreitos limites lingüísticos. Nem a comunicação, retive-a nas Tordesilhas de seus naipes. Envolvi-me, na Universidade, com a criação de uma rádio universitária. E, no Estado, com uma TV educativa e cultural. E naveguei junto com os que aqui abriram espaços para o cinema e o audiovisual. Agora, volto aos "multimeios" com vistas à educação a distância. E, em meio à questão dos cursos sequenciais, de repente me vejo mediando conflitos na área da formação, ora aparando arestas ora "lavando as mãos", elogiando, por fim, uma "rádio na internet", um sistema de "videoconferência" e a estrutura de informática de uma universidade aqui se instalando.

 

Ainda vejo, como outrora, os cursos universitários em descompasso com a "aldeia global" e a vida. E, no caso, os sequenciais (se complementares) como acerto do passo. Por isso, arrependimentos e pactos, de lado a lado, se remendam. Provocação, pois, aceita. Não sigo, porém, o lema do "se queres a paz, prepara a guerra". A paz, para mim segue o trajeto da sedução.

 

Retorno no flashback aos anos 70. De um "mar cor de rosa" nada envolto na penumbra do escuso. Mas, cá pra nós, em freudiana cumplicidade com Heráclito e o novo!

 

(Transcrito do livro Educação: insistências e mutações - Coletânea de artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1985 a 2001). Edições UVA , 2002)

 

 

           

 

 

A EMBLEMÁTICA TENSÃO

ENTRE MARTE E VÊNUS

 

 

            A seleção dos artigos que compõem o livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1995 a 2001) esteve a cargo da professora Iranita Sá e de Francisco Carlos de Oliveira (Kikko).

 

            Na orelha da obra, a professora Iranita Sá, então conselheira do Conselho de Educação do Ceará, observadora e de forma generosa, tenta descrever o autor dos artigos pelos seus chavões e bordões.  Ali, com efeito, assim ela se expressa:

 

***

 

            Por onde se pode começar a falar sobre um grande homem? Deve-se iniciar falando de sua vida? Ou é melhor citar as suas obras? Destacar suas idéias ou enfatizar seu estilo?

 

            Sem dúvida, Marcondes Rosa de Sousa é um homem cuja vida profissional está dedicada ao ensino, às causas da educação e aos temas atuais. Sua obra está marcada por suas idéias, sempre além do seu tempo, em inconfundível estilo.

 

            Do Ceará para o Brasil, há vários anos, acompanhamos uma verdadeira história da educação, escrita no dia-a-dia dos fatos, não presente nos livros didáticos, encontrada em inúmeros artigos, incontáveis palestras, livros, resoluções, pareceres escritos e outros documentos, produzidos ou pronunciados por este incansável homem das palavras.

 

            Para ser mais precisa, nada melhor do que tentar traduzir um pouco mais esta personalidade marcante, a partir de suas próprias metáforas, tão bem conhecidas dos qu3e lhe são mais próximos. Naturalmente, deve-se mescla-las de alguns momentos de sua história de vida.

 

            É do Seminário, principalmente, sua formação religiosa, cujas lições esse “cardeal” tão bem assimilou. Ao invocar as “línguas de fogo”, espera ele a vida de “tempos pentecostais” que abrirão o novo. Convencido de seu papel de “João Batista”, procura orientar-se para as coisas do espírito, pois tem uma missão a cumprir, que não pode ser desviada pelo “baixo clero”. Amparado pelo Altíssimo, encontra forças à sua sombra para enfrentar as adversidades.

 

            Advogado, inscrito da OAB/Ce sob o no. 1821, é o homem que acredita que o “contrato social de Rousseau” vem antes da elaboração da lei. Não fica circunscrito ao cartorial ou apenas ao “legal” e avesso às tentativas de reedição do “tratado de Tordesilhas”. O fato, a lei, o texto, suas linhas e entrelinhas, tudo isso é elaborada construção, hoje voltada para os “prosaicos” temas educacionais, a serviço da educação, no Conselho de Educação do Ceará.

 

            O professor empenhado no ensino da língua portuguesa, preocupado com as difíceis,mas imprescindíveis “transposições das linguagens”.  O teórico dos processos de “comunicação” que infere as reflexões lingüísticas a partir dos referenciais concretos de seus alunos e seguidores. O professor que brinca com as metáforas, não apenas por dominar o processo de sua utilização e significação mas – e principalmente – para se fazer entender por todas as “tribos”, em seus variados “dialetos”, contextos e situações.

 

            A política também está no seu cotidiano. Astuto, perspicaz, ousado e estratégico, busca compor o “mosaico” com os diferentes “naipes” para possíveis “pactos”.  O movimento das “peças do jogo de xadrez” não sai de sua mira. Atento ao “espírito de Foedus”, acredita em “projetos sociais” capazes de melhorar a situação do povo e orientar programas de governo, pois “tudo é uma questão de dosagem”.

 

            Semiólogo, leitor incansável da realidade e dos fatos, está sempre atento à necessidade de “re-significar” e “reeditar” as grandes idéias. Na verdade, este decifrador de símbolos e de sinais sabe como ninguém fazer as mais instigantes “leituras semiológicas”, decifra os enigmas do “plano simbólico” de modo idiossincrático, para expressar e emoldurar o pensamento.

 

            Radialista, na verdade o homem dos “meios de comunicação”. Fundador da Rádio Universitária da UFC e Presidente da Televisão Educativa do Ceará, é um observador atento do trabalho jornalístico, radiofônico e televisivo. Analisa as imagens tanto em “plano americano” como em “close up”. Tudo contextualizado no “timing” da mensagem e do meio. Nas passarelas da vida, esteve também ligado ao cinema.

 

            As artes, a sensibilidade estética e sua paixão pela música são evidentes nesse que se sente “orquestrador”, o maestro em busca de harmonia dos “acordes dissonantes” para compor a “grande sinfonia”. Na “pluralidade” dos sons, vai construído o seu hino: “My way”.

 

            Estamos falando, é claro, desse “intelectual vaidoso”, que olha ávida com um “olhar de sedução” e percorre sempre os caminhos por vias “sinuosas”,fazendo o contorno das “curvas”. Acredita que a monotonia das “retas” não evidencia a “pluralidade” e a dialética da vida. “Parmênides e mudança”, Parmênides e Heráclito, convivência possível. Para além das “questões freudianas”, o “olhar” dos “tempos pós-modernos” para a “emblemática tensão entre “Marte e Vênus”: vários “atores”, um homem plural.  (Iranita Sá)

 

 

 

 

EM PAZ!

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, 19.07 /2000

 

A vida vale pelas marcas que nela deixamos e que dela levamos. Das coisas e fatos, e das pessoas também. Em minha vida, uma pessoa deixou-me marcas indeléveis. Algumas delas - confesso - gravadas em meio a arranhões dolorosos...

 

Um dia, convido-a para uma conversa a sós. Mostro-lhe, aberto, um livro de Jung. Grifada, a frase: "Quando Saulo iniciou seus ataques a Cristo, na verdade aí já o amava". Em meio a leve sorriso, tento traduzir-lhe: "É que devemos nos amar, talo ódio que parece existir entre nós". Meio sem jeito, ela sorri. E, cúmplice, responde: "Eh! Parece que temos muita coisa em comum". Por longo tempo, falamos de nossas sofrências. Admitimo-nos espelhos um para o outro. E, descontraídos, falamos o "sujo do mal-lavado". Daí por diante, foi o pacto silente e discreto do mútuo respeito, alicerçado na compreensão entre ambos.

 

A crônica doença terminou por abater-se, aguda e letal, sobre ela. O governador Tasso Jereissati, mesmo assim, quis que, num reconhecimento a seu papel na educação cearense, fosse-lhe renovado o mandato de mais 6 anos como conselheira de educação do Estado. Ato de nomeação publicado, o livro de posse não teve entrada na UTI do hospital, sob a cautelosa suspeita de carona a bactérias e vírus. Algum tempo depois, debilitada no corpo, mas agigantada em espírito, foi ela até a CEC. E num sinal de haver entendido o simbolismo da recebê-la, ali tomou passe. Desde então, o quanto pôde, tudo fez para alongar os fiapos de vida, dedicando-os à educação., com atos com o crescente sabor de "canto de cisne". No CEC, entendemos-lhe os solfejos das notas e lhe registramos o esforço sob a feição jurídica da "presença virtual".

 

A notícia da morte, mesma esperada, abalou-nos. De mim, não a quis (nem o aguentaria!) vê-la envolta sob a atmosfera do adeus. Melhor lhe assentaria que continuasse presente na educação cearense. Mesmo porque a morte, para quem deixou marcas, é apenas a início do eterno. Por isso, o tributo como "Conselheira Honorária da Educação Cearense" (é a proposta) à Profa. Maria Eudes Veras, que lhe haverá de prestar a Conselho de Educação do Ceará. Assim poderá ela, a um só tempo, permanecer conosco, em espírito e ensinamento, enquanto, lá no alto, gozar do merecido descanso.

 

Em paz! Assim na terra como no céu!

 

(Do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de Artigos publicados em Jornais de Fortaleza)

 

 

 

GOL E SORRISO

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 10.07.2002

 

Inquieta-me o out door em frente ao aeroporto de Fortaleza: "Nosso orgulho é ter,na escola, 98% de nossas crianças". Já em seu saguão, repórteres me atiram, afiado, o interrogativo "qual" (o da raiz da "qual/dade") a cobrar-me: que escola, que professores, que projeto educacional, enfim...

 

Ao embarcar, encontro ex-alunos dos anos 70, quando, no Ciclo Básico, deles fui coordenador e professor. Eles, hoje cardiologistas, querem saber se eu "via sentido naquilo"...

 

À noite, em Brasília, num grupo, planejávamos encontro dos Conselhos de Educação em São Luís. Ali, o "sentido" era o consenso: chegar a um cidadão, profissional e pessoa inseridos na vida socioeconômica e no coletivo projeto histórico e transcendente do homem.

 

Pela manhã, a Esquadrilha da Fumaça nos leva às ruas, em tributo à pentacampeã Seleção Brasileira. E, na Esplanada dos Ministérios, lá nos vemos perdidos nos trajes "passeio completo", em meio ao sorridente verde-amarelo do povo.

 

Fim de tarde. Atrasados, eis-nos afinal em audiência pública, no CNE, onde abstratos parâmetros e uma fria liturgia tentam mobilizar a Nação para nossa educação básica.

 

Em nome do grupo, falo de nossas angústias: a do out door,a das flechadas do "qual?' e a do ... sentido. Uma conselheira nacional tenta sedar-me a angústia: "A felicidade é viagem e não destino". E, didática, ensina me que "meu" out door pode até é ser destino. O mais – qualidade e sentido – teria que encarar-se “viagem”...

 

De mim, fico com os aviões a grafar, nos céus, "é penta!' e, no chão, o sorriso da feliz multidão. Um "penta", fruto de goals ("objetivos", em inglês)! De destinos. Não de meras viagens, belas que fossem.

 

No embarque, de volta, dou com o sorriso de JK, em galeria de fotos, a cavalgar, com o povo, o desenvolvimento. No avião, já cansado, qual o povo, reclino a poltrona, a prelibar, não a viagem, mas o destino: o firme chão!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência  Conselho de Educação do Ceará

 

(O presente artigo, que passa a integrar o Blog do Grupo Ethos Paidéia, faz hoje parte do Centro de Documentação Histórica da Presidência da República, por despacho do então presidente Fernando Henrique Cardoso).

 

 

 

 

 

ANÔNIMOS HERÓIS

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 21.08.2002

 

 

            Certa feita, recebia eu autoridade estrangeira, com o propósito de agradecer-me discreto apoio a evento internacional de educação virtual, no Ceará. A visita, pedi que fosse ao Governador, um secretário lá estando por mim. Ao sair do Palácio, o estrangeiro fez questão de vir até mim, quando o recebi ladeado por conselheiros do CEC, que falaram por mim. Ao sair, a sós comigo, pediu-me o estrangeiro: "Posso lhe deixar uma impressão?" Assenti. E ele: "O senhor é um homem inteligente, moderno e sensível". E eu, meio sem jeito: "Posso saber de onde o senhor intuiu tudo isso?”  Ele então, a sorrir: "Inteligente, pela forma humilde e sagaz como atribuiu suas ações ao governador, secretários e conselheiros. Moderno, pelo seu notebook sobre a mesa em ação, o mais moderno, igual ao meu. Sensível, por seus quadros, de sensibilidade estética e social, todos de anônimos heróis de sua terra".

 

            Tocou-me mais forte o "sensível". Olhei os pessoais quadros a meu redor, todos de artistas da terra. Heróis, neles, lavradores, jangadeiros, vaqueiros, lavadeiras, aves caseiras, fundos de quintal... Do estrangeiro, ouvi: "No Brasil, não vi atitudes assim". A ele agradeci: "Eh! Quem sabe, na parede, um apelo a nossas escolas".

 

             Nisso, lembrei-me de quando, algum tempo atrás, em discussão, sobre os "desafios educacionais", mantida por nós, na Internet, recebi queixa da professora Lourdes Macena, do Cefet: "Como ensinar educação artística, em nossa periferia urbana, quando tudo ali (a escola e seu entorno) é tão feio?” Agora, é a professora Helsenir Lucena, assessora do CEC, que me conta a história de um técnico que, ao fazer a manutenção de aparelhos em meu gabinete, foi pego de surpresa, emocionado ante um quadro de Afonso Lopes: "É que essa casa de taipa é igual à de minha infância, que, ainda hoje, preservamos no interior do Piauí".

 

            Nossa escola, se mudou, foi por buscar, agora, valores e competências em vez de meras informações, tendo por alicerce de tudo, a sensibilidade estética e a solidariedade entre os homens, emblemas nos quadros a me cercar!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (U'C) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência do Conselho de Educaçáo do Ceará (CEC)

 

 

CENA SURREALISTA

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 19.05/1999

 

Brasília, Planalto Central. De repente, Montesquieu, morto em 1755, pousa sobre a Praça dos Três Poderes. O pensador francês fica embevecido com o tributo arquitetônico a ele prestado por Niemeyer, em razão do modelo de organização do Estado moderno, assentado sobre a tríplice pilastra do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, em harmoniosa independência. Logo, no entanto, ele se decepciona, ao descobrir que, no caso brasileiro, tais poderes não são assim tão harmônicos, tantas as farpas atiradas uns sobre os outros. Nem tão independentes, já que reféns entre si.

 

O autor de "O espírito das leis", aí então se indigna, ao dar-se conta de que nossos debilitados poderes desviam-se de suas funções de origem. O Judiciário, ao invés de julgar, acua-se sentado no banco dos réus. O Executivo, de andar trôpego em sua ação, imposta-se de legislador, ao emitir extemporâneas "medidas provisórias". O Legislativo, alheio às reformas e leis, arroga-se o direito de árbitro maior da vida nacional.

 

Este, o cenário a escandalizar Montesquieu. Do Oiapoque ao Chuí, a Nação mergulha numa onda de CPls em cascata. Na TV, "ratinhos", aqui e agora, convertem-se no fantástico show da vida nacional. Em nosso organismo financeiro, o Banco Central, qual coração entre surtos e sustos, abala-se, ante a sensação de haver perdido o élan do projeto. Sob a pele dos cordeiros a pastar à esquerda, a velha UDN ressurge, a seduzir os ingênuos, com o moralismo de epiderme. E os partidos, partindo-se em pedaços. põem-se a serviço do pessoal marketing de novos aventureiros.

 

Num misto de Gênesis e Apocalipse, alguém evoca um versículo da Bíblia: "...e Deus viu que isso era bom!" Outro, relembrando Darcy Ribeiro, lembra que "é preciso passar a limpo o Brasil". E os mais realistas, já sem saco, queixam-se de que outra coisa não temos feito, desde o impeachment de Collor.

 

Cadernos, lápis e borracha à mão, crianças em sala de aula tentam passar a limpo o mapa de nosso País. Alguém lhes bate à porta. É Rousseau, de volta do século XVIII. Às crianças, pede pressa, avisando-lhes que a hora do recreio acabou. Diz-lhes que passar a limpo o País é tarefa de adultos que, na iminência de 500 anos de vida nacional, terão que assinar novo "contrato social", voltando ao trabalho e construindo o Brasil!

 

(Extraído da obra Educação: insistências e mutações - Coletânea de artigos pulicados nos jornais de Fortaleza (1995 a 2001)

 

Acessível no Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

 

 

Auditório da UFES

 

 

PAPO PASSATEMPO NA ESTRADA

 

Marcondes Rosa de Sousa

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 9/2/2000

 

Ouvir, ouço muito. E muitos! E dessa forma é que, aos poucos, vou colhendo, a meu redor, o imaginário das gentes. Quando fora daqui, ouço mais, a captar impressões sobre o ambiente, a ação e os personagens do Ceará.

 

Nessa situação, vi-me faz pouco. Em trajeto comigo, do Aeroporto de Salvador até Feira de Santana, um professor universitário do Rio Grande do Sul. Os dois, num carro, em cento e poucos quilômetros até a Universidade local.

 

Papo vai, papo vem, assuntos de toda ordem: universidade, educação, política nacional e, afinal, o jargão esperado: os atores icônicos da política cearense - Tasso e Ciro. Cercando-os, os valores já clichês da ruptura, do zelo com a coisa pública, do novo.

 

O professor é argentino, mas tem vinte anos de profundo conhecedor das coisas de nosso país. Conversa solta, basta-me, quando em vez, a instigação do mote e do contraponto: "O PSDB e as elites brasileiras equivocaram-se. Tanto temeram um iletrado (Lula) que acabaram agarrando-se à solução de um acadêmico (FHC). Melhor opção teria sido Tasso". Este, na ótica de meu interlocutor teria tato, tino e capacidade de decisão. Uma desvantagem apenas: "De fato, ele não é lá muito chegado às coisas do intelecto. Mas isso pode ser resolvido com a'intelligentsia' do País. Desta vez, tem tudo para chegar até lá!"

 

No contraponto, provoco-o: "Talvez não seja esse o projeto pessoal de Tasso!" Ele sorri e, história na mão, mostra-me o fracassado projeto de Eduardo Gomes, Juarez Távora, Magalhães Pinto, Brizola, Lula... "E o Jânio, deu no que deu" - ultima ele.

 

Falo-lhe dos caminhos de Ciro. Novo riso. De Ciro, o professor gaúcho exalta as qualidades e os ímpetos. Mas lhe pondera a idade, a frágil estrutura partidária, preferindo atribuir-lhe a função de um João Batista e abrir veredas de messiânicas amizades...

 

Finalmente, como a querer-me mensageiro, cita Tancredo Neves: "A oportunidade é um cavalo que passa selado. Diga ao homem que esse cavalo está próximo. Pular ou não é questão de decisão!" Em Feira, ocupo-me com o papel da universidade e perco de vista o argentino e sua análise.

 

Papos no alongar-se na estrada ou vaticínios?

 

(Extraído da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1995 a 2001)

 

 

 

 

 

Cenas missa após infarto

Dom Aldo, Adaísa (minha mãe) eu

 

A DOM ALDO PAGOTTO

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 03.04.2002

 

         Pela árvore, conhecemos os frutos. E, por via destes, a árvore. Assim parece ser com os homens e suas ações.

 

         Por suas ações, dom Aldo Pagotto deixou-me a impressão de árvore a gerar o solidário. Vi-o, padre, a buscar alamedas entre escola e igreja, com vistas à formação de crianças e jovens embasada na espiritualidade, na ética e na solidariedade.

 

         Um dia, sob grave infarto, recebi-o sem que me dispensasse unção extrema ou me cobrasse confissão e passaporte ao paraíso. O solidário afago tão só: “Foi daqui deste leito e hospital que Dom Aloísio despediu-se de mim. Daqui, ele se levantou e voltou para a vida e missão. Posso lhe dar uma bênção?”

 

         Com emoção, assenti. Retomado à missão e à vida, hoje sou testemunha do quanto ele, bispo, fez-se pedra angular da solidariedade e do respeito mútuo entre os credos, na construção de um projeto transcendente entre os homens.

 

         Agora, vejo-o, na imprensa, envolto em discussão sobre violência sexual entre crianças e fracos de toda ordem - vista como se "coação", solidariedade que teria ele manifesto um frade e às meninas.

 

         Em mim, o sentimento é o da contenção evangélica da "primeira pedra" a atirar. Não como venda a ocultar cenas que se sufocam nas alcovas, consultórios, escolas, igrejas... Mas como prudência, nestes tempos, em que a comunicação se faz instantânea e ubíqua, para que não reeditemos inquisitoriais cenas a perpetrar injustiças. À Justiça, sim, a tarefa de repor a verdade. A seus atores, porém, os limites da cena ao judiciário. À imprensa, a "leitura" da "psicanálise e metafísica" em nosso cotidiano, sem que a essa tarefa se superponham as freudianas querelas menores dos guetos.

 

         Aqui, pois, o testemunho - nele contida a retribuição ao gesto solidário de dom Aldo a mim, então "paciente na UTI". Que Deus o faça paciente. E lhe recobre a verdade, a vida e a paz!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), ora exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará

 

 

 

O RETRATO QUE DÓI

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo, Fortaleza, 26/09/1998

 

 

Nos jornais cearenses, uma matéria nos chama a atenção, sobretudo por quem a assina: Gerardo Melo Mourão, um mito nacional. Em verdade, em criança, já lhe ouvia os feitos, nos sertões das Ipueiras, decantados em prosa (pelos adultos) e verso (por violeiros). Na escola, o desenho que me fazia a professora primária, Dona Ester, sua mãe, agigantava-me sua figura.

 

Cearense "longe da terra", Gerardo revisita agora o Ceará, que, no relato de "velhos companheiros de infância, hoje octogenários", lhe dói muito. É que lhe descreveram o mesmo Ceará dos "bacamartes dos mourões", do tacão dos coronéis ou da vontade dos príncipes, supostos carros-chefes da história. Tivesse menos pressa, maior acuidade e melhor ouvisse o povo, perceberia que, a partir dos anos 80, o Ceará rompeu com seu passado, abandonou seu crônico solipsismo e começou a se articular sob a feição coletiva de povo. Nisso, refez o aparelho estatal e o colocou a serviço de um pactuado projeto: sair do secular cativeiro egípcio em busca de uma prometida terra onde, no mínimo, hão de correr dignidade e justiça social. Descobriria que os fantasmas do passado agora cedem lugar a valores como honradez, zelo com a coisa pública, compromisso com o coletivo. E que personalidades como Tasso Jereissati, longe dos adamastores que nos infelicitaram a vida, são, muito ao contrário, a expressão de novos tempos e caminhada.

 

Em sua crônica, o escritor decerto que foi traído pela amizade. É que ela, de repente, desce de plano, assumindo o tom de manifesto eleitoral em favor de candidatos amigos seus. Um documento que, na semiologia jornalística, carrega notórios indícios de "matéria paga". Compreensível até que se queira tributar honras a personagens que, durante a "longa noite do arbítrio", brandiram sua flamejante retórica contra as "baionetas da intolerância". Mas a história avança em vários capítulos, e os cargos públicos não são condecorações do após-guerra nem o senado é, por exemplo, uma trivial galeria de ex-combatentes. O que está em jogo agora é que a representação da sociedade e do Estado se faça guardando fidedignidade com o projeto coletivo tocado por todos nós. Que se devote tributo a quem fez a história, mas que se escalem os atores que hão de tocar essa história para a frente!

 

Para mim, entristece-me o fato de um mito meu desde a infância apequenar-se. Mas tenho a certeza de que, Dona Ester, se viva estivesse, chamaria o aluno e filho, e faria como, certa feita, comigo fez. Pedir-Ihe-ia a mão estirada e, palmatória em punho, por sobre ela lhe despejaria uma dúzia de "bolos", com a lição: Amizade alguma tem mais peso do que a honradez ferida de outrem. Sobretudo quando esse "outrem" é ícone do sentimento coletivo de um povo: dos cearenses!

 

(Transcrito da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a 2001).

 

Observação: Dias após o artigo, o professor Antônio Mourão Cavalcante, do clã dos “Mourões”, telefona-me. Gerardo teria dado boas risadas com a inteligência da crônica, admitindo a mágoa contida de laureado no Pais e no mundo e reconhecimento algum pelas instituições do Ceará. Os “bolos de Dona Ester”, nossa professora comum, ele os adorou.  Tempos depois, num lançamento de livro, ele me brindaria com afetivo autógrafo, de um aluno para outro de nossa professora comum. E em Brasília, um dia, em reunião dos conselhos de educação, elegeria Dona Ester símbolo das professoras a nos marcar a todos.

 

Hoje, nossas instituições e entidades governamentais, independentemente da esquerda e da direita tecem merecidas loas a Gerardo Mello Mourão.

 

 

TASSO, O CAJU E AS PEDRAS

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo, Fortaleza, 23/8/2000

 

"Não se atiram pedras em caju azedo", A frase, ouvi-a a propósito das pedras lançadas a Tasso Jereissati, seu governo e o projeto dos cearenses enfim. Pedras, contra o que há de mais sagrado numa pessoa: a honra e o coração. Pedras, a respeitar apenas os "olhos azuis". No mais, o ultraje contra o afeto do povo ao "Galeguin", apresentado ao País sob as grotescas vestes de um "coroné" de nosso passado rural.

 

Frias matérias se reeditaram. Dados de arquivos já mortos se exumaram. Meias-verdades se requentaram no fogo eleitoral, caricaturando a caminhada dos cearenses como miragem produzida por um marketing enganoso. Pedras, carregadas por sinistra direita, a erguer nostálgico castelo onde se teria vivido um passado melhor que agora!...

 

Honra pessoal, zelo pela coisa pública, os excluídos incluindo-se na vida - três colunas a sustentar um projeto do qual Tasso figura como expressão. Daí, a palavra-de-ordem: destruir esse "ícone". De início, vieram artigos e livros até, tentando seduzir a "intelligentsia" nacional a abraçar a idéia de que o projeto em prol das mudanças, no Ceará, nada mais seria que máscara a suposto projeto de enriquecimento e poder de um grupo econômico. Entre intelectuais, no entanto, poucos foram os que deram crédito a injúrias tão infantis. Agora, o mesmo refrão (tão oco quanto antes) assume tons populares.

 

Pena é Tasso ferir-se no peito, como se um cordeiro do coletivo. Dói-lhe, por certo. E a dor da gente, solitária, "não sai no jornal", diz a canção. Resta-lhe (a ele e a nós) o conforto de que "há males que vêm para o bem". E, no caso, é "bem" debater o quanto já andamos.

 

Aqui, decerto não plantamos o Éden. Mas, se ainda não extraímos o verde do seco, começamos a riscar nosso chão das transposições e caminhos das águas. O saber já é direito a incluir, na vida, os deserdados da sorte. E muitos já podem, com saúde, indústria e trabalho, encarar estradas longas e desafios, inúmeros ainda.

 

É "bem" o desvelar da escusa origem das pedras, que sabemos em "mãos sujas" converterem-se em bumerangues. "Bem", o apontar para o doce oculto no apedrejado caju. É "bem" o caminhar dos cearenses - do cativeiro egípcio à prometida terra - alçando-se, por ironia, a trama da grande novela nacional.

 

E, nesta, o intrigante apelo do enigma: qual entre os dois - Ciro ou Tasso -, personagens-símbolo em tal caminhada, é afinal "João Batista" ou "Messias"?

 

É seguir o caminho das pedras!

 

EDUCAÇÃO DE MENINOS

Assunta Cabral

O Povo - 18/11/2006 01:45

A sociedade brasileira acompanhou com tristeza e apreensão o seqüestro do ônibus 499 no Rio de Janeiro ocorrido recentemente. Mais um ato de violência, originado pela relação de poder e de posse de um homem sobre uma mulher. O alvo principal do desequilibrado seqüestrador e ex-marido, a Enfermeira Cristina Ribeiro, narrou ter sofrido durante 10 anos, atos de violência doméstica e que o ex-marido não aceitava a separação, perseguindo-a todos os dias.

O comportamento do ex-marido de Cristina é característico de um perfil masculino construído culturalmente em nossa sociedade em que, poder, supremacia, posse e egoísmo formam a base de caráter desse homem que se transformou em macho dominante, tornando-se vulnerabilizado e desequilibrado para enfrentar situações de adversidades e dificuldades que lhe escapem do controle.

A desconstrução desse perfil masculino é premente e necessária para possibilitar relações de fraternidade e respeito entre homens e mulheres e a Escola tem papel fundamental nesse processo. Através de uma Educação que se preocupe com a formação de nossos meninos, voltada para ensinamentos éticos, não sexistas, que orientem para a igualdade, para o respeito às diferenças e à diversidade.

É na infância que se formam as primeiras impressões e representações sociais sobre a vida e as relações humanas, portanto um período fundamental para formação da identidade social.

A educação infantil é a base de sustentação do desenvolvimento futuro de uma nação. É preciso investir nessa direção, re-significando conteúdos, para fazer fluir um Brasil com homens éticos, solidários, afetivos e emocionalmente fortes.

ASSUNTA MARIA FIEL CABRAL é professora; mestra em Educação; conselheira do Conselho Cearense dos Direitos da Mulher.

 

 

A DOR NO JORNAL

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 22/11/2006 01:04


      Entre as "Frases da Semana", lá estava, naquele domingo, em O POVO, uma de artigo meu, Greve dos Professores: "Observo troféus, medalhas, produção intelectual. Após a maior comenda educacional do Estado, aluna me joga em rosto, na classe: aprendi com o senhor, como não ser professor!".

      Nem pude vê-la. Dor física inesperada levou-me à UTI. Em minha rua, programada palestra sobre carros de som virara demonstração, estuprando-nos ouvidos e direito dos cidadãos. Madrugada, evoquei a lei do silêncio. Jovens, já inebriados por coquetéis de arrogâncias e fortes doses etílicas (no mínimo), me levam ao deboche. Proclamam que a rua é do povo, sem atentar para o tributo pago pelos que ali moram (IPTU, iluminação pública, segurança dita pública e privada).

      No hospital, de paciente impaciente, senti-me gente. Profissionais ali haviam passado, de alguma forma, por mim. Julguei até alucinação, mas, na UTI, enfermeira me pôs ao ouvido seu celular, onde voz amiga me falava, da Europa, de proteção pelas "forças do alto". Isso, em meio à permuta de fotos de cá e de lá. Ao voltar para casa, um médico me fala de amigo importante a me proteger: Deus! Brinco: "ele me deixou em recuperação, para que eu corrija meus erros". Vou a uma igreja. O evangelho do dia fala de fim dos tempos. O frade traduz: aviso para o repensar de nossas relações com Deus, a natureza e o próximo.

      A UTI me devolvera solidariedade e sorriso. Professores (sobretudo aposentados) me convidam para que, com eles, repense tais relações. Em casa, volto a CD de Celso Furtado, nos Encontros Culturais da UFC (UFC/ O POVO, 1983), quando abraçamos aqui o verbo 'mudar'.

      Razões à canção. "A dor da gente não sai no jornal". Salvo se coletiva. Este, no fundo, o legado profético do "desenvolvimento sustentável", em nós marcado por Celso!"


Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente.

 

 

Amiga (o)s do Grupo Ethos Ethos-Paidéia,

 

Gostaria de, com vocês, compartilhar de reflexão que (confesso-lhes) me foi amadurecendo a partir das discussões nossas, muitas delas com pouca porosidade aos contrapontos perceptivos dos outros.

 

 E gostaria de, para tanto, lançar as pedras dessa construção crescente, a partir da reflexão dos próprios atores deste Grupo. E isso, sem necessariamente obediência rígida à cronologia de sua emissão ou postagem.

 

1. PORÇÕES EM CONTRAPONTO

FORMANDO HARMONIA

 

Amigo Mestre - confessa-nos Circe Vidigal:

 

Que lindas mensagens acabo de ler. Se pudesse estabelecer como regra esta bela harmonia aqui na lista, viveríamos no Paraíso. Acho que também me encaixo nessa "porção Marte",  mixada com uma "porção Vênus" - aliás, acho que a maior parte das mulheres é assim.

 

Também estou recém saída do hospital, onde passei 10 dias. Cheguei pela manhã; mas não acredito que tenha sido nada tão grave como o mestre teve, pois, pelo menos, o ânimo permaneceu e nenhum fiapo de depressão surgiu. Os médicos e enfermeiros me perguntavam: Você é acompanhante? (rs...rs...rs...)  A única coisa de ruim foi saber de tanta droga que me enfiavam pelas veias a dentro (antibióticos violentíssimos, hidro-cortisonas – (que nunca havia tomado)e "otras cositas más"

 

Volto para uma nova vida, onde terei que recomeçar aprender até a respirar diferente, mas, em breve, já estarei novamente numa piscina e, se Deus me permitir, assumindo mais um desafio, na minha idade: começar a aprender a mergulhar, se minha capacidade pulmonar o permitir. É meu sonho de consumo para antes de ir para o andar de cima.

 

Tenho mais de 400 mensagens para selecionar e a sua é a primeira que respondo. Sorrindo, internamente, louvo seu suave jeito matreiro e meigo de aparar arestas e promover concórdias.

 

Ahhhhh  Se todos no mundo fossem iguais a você...

 

 

***

 

 

O que havia motivado a reflexão de Circe havia sido a leitura da mensagem sob o título “Faces e contra-faces ante o espelho”, por mim endereçada ao Grupo, a propósito de outras já ensaiadas por Nilze, Assunta, que, como muitos, não conseguiram chegar a tempo ao apartamento onde eu estaria, no Hospital São Mateus, que teriam, sob a ótica das enfermeiras, orientações políticas diferentes, aí incluído o grupo da Crítica Radical, integrado pela ex-prefeita de Fortaleza Maria Luíza Fontenele, a ex-vereadora de Fortaleza Rosa da Fonseca, Jorge Paiva (guru exportado de guerrilhas, entre outros.

 

Nilze a Assunta e muitos outros confessaram que chegaram atrasados mais ficaram felizes por minha saída era interpretada como restabelecimento.

 

Foi quando ao Grupo escrevi:

 

2. COLHENDO LIÇÕES DE

MINHA HISTÓRIA DE VIDA

 

“(...) E aí comecei a rir. É que a turma da Crítica Radical (Maria Luíza Fontenele, a ex-prefeita de Fortaleza), Rosa da Fonseca, Jorge Paiva e outros estavam combinando uma ida lá no hospital. Ao sair da UTI e já no apartamento, as enfermeiras a cuidar dos soros, furos, marca-passos e aparelhos de monitoramento eletrônico, com vagar me faziam pousar no novo leito. Nesse ínterim, toca o meu celular, que Cláudio (o filho) havia colocado na cabeceira. Instintivamente, peguei do aparelho e respondi. Do outro lado, Maria Luíza: “Cláudio?”. E eu: “Não, Maria, sou eu”. Ela pensou que era trote. Queria combinar ida lá. E eu fiquei a pensar a confusão que iria dar na cabeça dos médicos e enfermeiras...

 

Lembrava-me, então, de quando chegara ao hospital, onde despertei preocupação. Equipe médica me cercou numa sala especial de emergência. De lá, às pressas, fui para a UTI. Meu estado preocupava os médicos, e, à família, as informações eram visivelmente lacônicas e confusas. Tenso, sem forças, vômitos, dores fortes... Resolvi reeditar situações já experimentadas, ao ouvir um dos médicos ao se reportar ao “paciente”. Lá fui eu a divagar pelos campos semântico-etimológico, do grego ao português, com as transições semânticas e a concluir: “Não sou, mas tenho de ser ... paciente”.

 

Notei que, passados os primeiros sufocos, as enfermeiras estavam preocupadas comigo. Os papos: a) “então, satisfeito com a eleição do nosso Lula?” b) “menina, ele é Alckmin!” c) “Que nada, garanto que ele votou na Heloisa Helena, não foi?” D) ” O homem é professor. Aposto que ele votou no Cristovam...” Vamos mudar de assunto. O homem é sério e, com certeza, não se mete com essa coisa suja que é a nossa política...”

 

Para mudar de assunto, lancei uma pergunta: ”Aqui, neste hospital, fazem alguma seleção estética das enfermeiras?” Elas se entreolharam e uma delas foi direto: “O senhor nos acha feias?”. E eu: “Não, ao contrário...” Uma das enfermeiras, sem me olhar, ocupando-se do que fazia: “Hum! Coisa de quem muito amou, ama e ainda é amado!...” E arrematou: “Os homens são todos iguais!...”  E lá veio, com outra: “Nós vamos ter de fazer novo eletrocardiograma e retirar o marca-passo em sua perna direita”. E sorrindo, avisou-me: “Como o senhor é muito peludo, vamos ter de fazer uma depilação.  O senhor sabe como se faz”. Piscou para a outra, sorriu: “Não se preocupe. Nas partes genitais, a gente põe uma cerinha e (não vai doer) a gente arranca”. Fechei os olhos. Elas riram do trote e concluíram: “Ta vendo? Os homens vão todos iguais. Não sabem lidar com a dor”.  Um rapaz que ali estava a varrer, aproximou-se de meu leito e fez seus comentários: “O senhor tem sorte. A administração está mudando. Um mês antes o senhor só encontraria aqui uns ‘bofes’. Bonitas ou feias, elas todas pensam que nós os homens somos todos iguais: uns ‘frouxos’ diante da dor. Não percebem que nascemos para o prazer e elas para sofrer.

 

Sorri, sem querer entrar na discussão. Só fiquei pensando o que se passou na cabeça dos funcionários do hospital, quem seria eu, pelas pessoas preocupadas por mim.

 

***

 

Desculpem estar eu aqui, feito Santo Agostinho, em confissões que, com certeza, não chegam perto da grandeza de tão excelsa figura, com o objetivo de, sem desobediência às prescrições médicas, colher lições dos “erros”, em minha história de vida...

 

***

 

A professora Assunta Cabral foi das que, com Nilze Costa e Silva não mais me encontraram no hospital. E dela, recebi, ao chegar em casa, a mensagem:

 

Estimado prof. Marcondes,

 

É uma grande alegria saber de sua melhora e retorno ao lar. Hoje eu e a Nilze fomos visitá-lo e soubemos que já havia saído do hospital. Que luzes, cores e amores o envolvam neste processo de recuperação.

 

3. O FATO QUE ME INTRIGOU

 

Em casa, já saído do hospital, ouço o telefone tocar. A empregada atende e alguém pergunta se estou em casa. Ela diz que vai ver se posso atender. Pergunto de quem se trata. A pessoa diz tratar-se de “amiga dele”.  O nome? “Ele reconhecerá quando ouvir minha voz”.

 

Tomo do telefone. A idéia que me passa é de uma dessas mensagens gravadas, com fundo musical. Uma voz bem postada, contralto, interpretação artística e sentido do texto. Quem é? A resposta: “No final, o senhor reconhecerá...”

 

Não, não era gravada. Linda e emocionante mensagem. Ao final,

 

 Do outro lado, a voz calma e bem posta me pede paciência, garantindo que, ao final, eu terminaria por reconhecer a autoria e interpretação da mensagem. Em seu texto, a amiga me assegurava que eu tinha um “grande e forte amigo”. E, gradualmente, o ia caracterizando, para afinal declinar-lhe o nome: Jesus! Já com lágrima nos olhos, emociono-me. Aí, a pergunta: “Reconheceu a amiga?” Pela religiosidade, a ternura, a compreensão (não a vi a não ser em seus artigos no jornal O Povo, em que escrevo, e no Ethos-Paidéia), arrisquei: “Assunta?” E, do outro lado: “É a Sandra! A Sandra Paulino!”.

 

Jamais imaginaria. Bem que desconfiava de que Sandra, por trás de sua porção “marte”, de inveterada “guerreira”, guardava sua porção “vênus”, sedutora e sensível.

 

Ao abrir o computador, dou com a mensagem abaixo, que Sandra Paulino me havia escrito:

 

Senhor, Eu não sou nada sem Tua Graça, vaso de barro em Tuas mãos quero ser, não tenho glória, quebra minha vida e refaz como barro moldado em Tuas mãos, quero ser Tua Imagem e fazer Tua vontade, domina o meu coração, sou Teu escravo e meu Dono é Você, como Vaso de barro vem encher-me de Graça, Te consagro minha vida como servo, só pra Te adorar. (Marcos Coimbra - Prayer for Taylor)

 

Meu Jesus,

 

 Meu choque hoje foi muito grande, ao abrir uma das msgs, nem sei bem por quê foi ela a primeira...

 

Vejo nesse homem a quem sequer conheço, um bálsamo em horas difíceis, não só pra mim mas para muitos que com ele convivem ou por ele passaram nalgum momento.

 

 

 

Na nossa convivência à distância, aprendi a ver semelhança com outro professor, que tem o dom de acalmar, de usar a palavra certa e muitas vezes de ficar simplesmente em silêncio, não de cumplicidade, mas de compreensão.

 

Estes, teus amados que cumprem o mandamento de serem mansos e pacíficos, sabemos, herdarão a Terra.

 

Então, Senhor, se nada posso fazer por ele, a não ser Te pedir, eu Te peço: acrescenta longevidade a ele e cerca-o com Teus Anjos, acampados ao redor, para que ele Te possa conhecer e conhecer do Teu Poder, que é Uno e Soberano.

 

Que as Tuas promessas, que não envelheceram, se cumpram na vida de Marcondes; que Tua mão que não está encurtada, se estenda sobre seu ser e o renove e restaure para que ele tenha Vida e Vida em abundância, conforme a Tua Palavra (Sandra Paulino).

 

 

***

 

Em mensagem privada, ela me diz:

 

 “Marcondes, partilho com você, com imenso carinho, flagrantes de minha Igreja, quando coloquei seu nome no Altar no dia em que soube do incidente já ultrapassado... (...)”

 

E, em outro, é ela própria que conclui:

 

“Sobre a porção venusiana compartilhada, gostei do advérbio que promete um melhor conhecimento a apagar possíveis arranhões que não provoquei, mas que desferi. Cartaz com “Abbá”? Sei não, eu ainda sou muito radical, mas Ele me ama, disso tenho certeza, ama a todos nós.”

 

 

 

4. CONCLUSÃO E APELO FINAL

 

 E, de minha parte, dou razão a Jung, ao afirmar: “ "Quando Saulo perseguia Cristo, na verdade já o amava"...

 

 E com Circe, diria:

 

 Se pudesse estabelecer como regra esta bela harmonia aqui na lista, viveríamos no Paraíso. Acho que também me encaixo nessa "porção Marte", mixada com uma "porção Vênus" - aliás, acho que a maior parte das mulheres é assim.

 

***

 

      Meus olhos recaem, sobre o livro Bakhtin – conceitos-chave. Escolho alguns capítulos em releitura. Principalmente, os de Adail Sobral. Ao final, meus olhos recaem, à página 222, sobre a formação e interesse dos autores. Adail, acadêmica e/ou profissionalmente, ostenta-se o mais eclético – mais que dialético, “plural, diria eu: lingüística aplicada, áreas de filosofia, estudos teológicos, direito internacional, lógica e temas da atualidade. Em mim, um sentimento de sadia inveja e aprendiz.

 

      Volto a um passar de olhos sobre as discussões do Ethos-paidéia. Temática última, a ostentação - como estratégia de contenção das infrações no tenso trânsito da Dinamarca - dos seios femininos desnudos e sungas masculinos provocantes. Ilações, extraídas no Grupo, os preconceitos recíprocos entre as visões feminina e masculina, apontados pelas feministas e por Adail...

 

      De coleção sobre faço cair-me às mãos volumes de Carl Jung sobre psicologia e religião. E a frase do amor incontido de Saulo a Cristo desde quando, movido pelo ódio, o perseguia, me volta em crescendo.

 

      Confissões de Circe sobre a dualidade em todos nós entre as porções em mixagem de homem e mulher.  Em termos de Jung, entre o animus (o masculino sufocado no inconsciente das mulheres) e a anima (o inconsciente feminino, reprimido em nós homens.

 

 

***

 

      Lembrei-me de Gilberto Gil e o apelo a todos nós, mulheres e homem, contido em sua canção.

 

      Que, em nossas discussões, se pautem pelo “coletivo”, o “pluralia tantum”, os contrapontos, um lado quase sempre sufocado em cada um de nós.

 

      Só assim navegaremos em “água grande” e seremos capazes, de como na canção de Gil, mudar, como um deus, o curso da história.

 

 

SUPERHOMEM - A CANÇÃO

 

Gilberto Gil

1979

 

Um dia

Vivi a ilusão de que ser homem bastaria

Que o mundo masculino tudo me daria

Do que eu quisesse ter

 

Que nada

Minha porção mulher, que até então se resguardara

É a porção melhor que trago em mim agora

É que me faz viver

 

Quem dera

Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera

Ser o verão o apogeu da primavera

E só por ela ser

 

Quem sabe

O Superhomem venha nos restituir a glória

Mudando como um deus o curso da história

Por causa da mulher

 

FUNÇÃO DO ERRO NA ESCOLA

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 9/5/1996

 

       

        Existe um personagem, em nossa escola, agora sendo posto em questão: o erro. E isso, neste momento em que se pactuam, por todo o País, os Parâmetros Curriculares Nacionais. O erro, no passado, associou-se a palmatória e castigo. Hoje, ele é, ainda, sinalização do fracasso. E a compreensão que persiste é que, nos trabalhos escolares, uma boa aprendizagem se mede pela ausência de erros.

 

        Tem sido assim. Mas agora a coisa começa a mudar. É que a investigação científica descobriu que existem vários tipos de erro: - o erro que, de fato, quer dizer lapso, engano e ignorância, mas também o erro que faz parte do próprio processo de aprender.

 

        É que o ato de aprender não é mais visto como uma coisa estanque, que se realiza por adição. Aprender hoje é uma construção permanente. Faz-se de aproximações sucessivas, onde o conhecimento se constrói por estágios do "por enquanto", pelos caminhos do ensaio e do erro. Errar, pois, pode ser uma vereda do aprender e não necessariamente um fracasso.

 

        Uma vez, certa mãe pediu-me ajuda: "Que faço? O Gustavo está escrevendo 'Jaime' com xis". Expliquei-lhe que isso não era um escândalo. Os dois sons (che e o je) tinham a mesma natureza. A única diferença é que o primeiro era surdo e o outro fazia vibrar as cordas vocais. Gustavo havia chegado aí. Faltava-lhe (é certo) apenas ir mais adiante. Chamei-o e mostrei-lhe a diferença. Ele, enfim, aprendeu.

 

        Esse, o papel do professor: intervir com vistas à aprendizagem do aluno. E isso é o que se espera, na escola brasileira, que aconteça. Uma escola que, ao tomar o erro como a medida de tudo, nada mais está fazendo do que infundir o sentimento de fracasso em nossos alunos. E (o que é mais grave) dela excluindo uma massa de pessoas, tidas por fracassadas, quando, pelas vias do erro, podem elas, em verdade, nada mais estar fazendo do que, justamente, aprender!

 

        (Do livro Educação: insistências e mutações –Coletânea de Artigos Publicadosem Jornais de Fortaleza (1995 a2001). Fortaleza, Edições UVA, 2002. p. 59-60

 

 

        Observação:

 

        Recentemente, estive na comemoração dos 70 anos do pai de Gustavo, meu amigo Clóvis Coelho Catunda Filho, Lá encontrei o casal e Gustavo, que, hoje, é destacado professor do Curso de Medicina da UFC e diz que, comigo, aprendeu, que, fazendo vibrar ou não as cordas vocais, tem os dois sons...

 

        Gustavo hoje é pesquisador na universidade, com trabalhos reconhecidos internacionalmente.  Pelo visto, aprendeu que é, no jogo entre tentativas e erros, que o saber caminha.

 

 

 

 

O EFEITO ORLOFF

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 25/10/1995

 

Fausto Nilo me diz não ter sido com ele que essa história se passou. Mas foi dele que a ouvi, e assim a passo para diante. Um certo urbanista, convidado para um trabalho de desfavelamento, teve dificuldades mil, na execução de seu plano. Didático, resolveu educar a população: "Uma rua tem de ter tal largura, senão como é que vão passar o carro do lixo, o dos bombeiros, a ambulância?" Aí, sempre alguém a reclamar: "E o camburão da polícia também!" Com respostas assim, o arquiteto foi compreendendo que uma favela tem sua lógica, sua fisionomia urbana, sua estética. Assim, foi-lhe possível desenhá-Ia como a expressão dos sentimentos dos que nela habitavam.

 

A história de Fausto Nilo valeu-me, como metodologia, para uma verdadeira "leitura do mundo". Professor, aprendi que os erros de linguagem, por mais absurdos que pareçam, têm sempre uma lógica a justificá-los. Gestor público, enriqueci-me ao tentar compreender, como se fossem favelas de Fausto Nilo, os interesses e visões plurais em nossas instituições. Tempos atrás (confesso), onde quer que chegasse, guiava-me sob o lema do "toda herança é uma errança". Com a história de Fausto Nilo, aprendi a compreender meus antecessores, como pessoas eventualmente sensíveis, capazes de intuir, a partir dos "erros", uma lógica nem sempre acorde com seus próprios padrões, talvez messiânicos.

 

Com isso, cresci. E abrande meu emotivo "udenismo", vendo as coisas, a partir disso, andarem. A evocação dessa história me vem a propósito de notícias que me chegam de uma dada instituição, cuja administração há pouco integrei. Lá (conta-se), os recém-chegados, eufóricos tal como eu antigamente, pintam o seu entorno como um monte de erros, atribuídos a nós, por corrigir.

 

 Creio que é hora da história de Fausto Nilo. E de, a ela, casar o "efeito Orloff", aquele que nos assegura que "nós, os criticados de agora" podemos ser "vocês, os que nos criticam"". amanhã!

 

Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a 2001. Fortaleza, Edições UVA, 2002. pp. 18/19)

 

 

Amigos,

 

No momento, diferentes forças, no Ceará, dão-se as mãos para defender a economia do Estado, abalada com a decisão da Petrobrás em renegociar a construção iniciada da Siderúrgica em terras alencarinas, ora ameaçada por países sul americanos.

 

Lembrei-me de artigo sobre “histórica reunião”, em Fortaleza, pelo Presidente da Transpetro e a constatação à época de que aqui perdíamos em solidões. E a proposta lançada então por ele era rejuntar nossas hegemonias em cacos.

 

Profético.  Agora, com atraso, o clima parece ser esse. Que o “maremoto” nos seja um aviso. Afinal, há males que vêm para o bem.

 

 É nossa esperança e o sinal que todos tentam me dar pelo telefone, afastado de qualquer conflito a me reduzir a caco ... o coração!

 

O clima é “light” asseguram-me amigos.

 

 

 

HISTÓRICA REUNIÃO

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo – 02.02-2005

 

 

Na Fiec, auditório repleto: empresários, acadêmicos, lideranças várias. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, expõe reversão, pelo governo federal, da política dos transportes: a Embraer, o orgulho de agora. De resto, ferrovias ficadas do império, rodovias com saudades de JK e indústria naval em declínio desde os 80, hoje paralisada. Plano factível e transparente, hoje a envolver sete estados, anseio de 95 por cento de nossa exportação.

 

Apelo final que, nordestinos, acertemos o passo com o agora: as águas transpostas do São Francisco, mais que para nos matar a sede, sejam caminho integrado à Transnordestina a às vias marítimas e fluviais a desaguar no porto da inclusão social. E a constatação: nunca tantos os cearenses com influência no cenário nacional. Mas sem forças, perdidos em solidões. Daí, o proposto concerto (com c e com s) de cantos e contracantos em plural harmonia.

 

Nos debates, empresários se dispõem a solidarizar hegemonias em cacos. Acadêmicos abrem-se chamando todos a discutir o mar, em reunião da SBPC, em Fortaleza. Temores: "Interesses eleitoreiros poderão dispersar-nos".

 

Abraços finais. Sérgio segreda-me já positivos encontros com lideranças políticas. O presidente do Centro Industrial do Ceará (CIC) garante-nos a entidade fórum aberto para as grandes questões comuns. Empresário agrícola: "Profético, o Conselheiro - o sertão vai virar mar, e o mar virar sertão!" E, na saída, alguém observa: "É bom algo assim acontecer. Do contrário, esta morna calma aparente será atropelada por inesperados maremotos. Não foi disso sinal, o segundo turno das eleições em Fortaleza, com Luizianne e Moroni?"

 

MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente

 

Veja no Blog do Grupo Ethos-Paidéia