Grupos

 

O LIVRO E A FOTO

 

         Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 22/3/2000

 

Divido-me entre a grossa biografia e a expressiva foto em um jornal. A uni-los, a mesma figura: o Papa João Paulo II. A biografia enaltece os feitos do estadista, personagem por trás da derrubada dos muros da intolerância ideológica e da guerra fria, e a peregrinação do apóstolo da renascença moderna, a expandir "a fé o império" de Cristo, pelos quatro cantos do mundo. Na foto, o personagem humano, alquebrado, aos pés de Cristo prostrado, pedindo perdão pelos erros históricos de sua Igreja, nos 2.000 anos de sua existência.

 

Vacilo entre a foto e o livro. E deixo, por fim, a volumosa epopéia tocar-me pela grandeza do símbolo. É que os símbolos costumam até falar mais alto que os feitos. E, seguramente, entre o livro e a foto é esse o sentimento que em mim parece brotar.

 

Paradoxal. Na vida de João Paulo II, é o chão que o parece avultá-lo como figura histórica e humana. Não a tiara, o cetro e o trono. Não apenas o chão onde quedaram os muros da intolerância entre os povos, que ele ajudou a ruir. Mas o literal chão, a que ele teve de ir, num sinal claro e cristão da humildade (vocábulo que nasce de "humus", chão em latim). E, ainda, pelos inumeráveis chãos que ele beijou em sua longa peregrinação pelo mundo e pela vez que um atentado atirou ao chão.

 

Quem sabe João Paulo II terá sido o primeiro Bispo de Roma a pedir à Urbs que o corrigisse em caso de erro no italiano. E será, com toda a certeza, o primeiro do "Orbs" a, prostrado, pedir perdão pelos erros em 2.000 anos de sua Igreja.

 

Na verdade, um novo tom nas relações entre os homens. A contrição e a revisão da história elevadas a paradigmas de convivência entre as pessoas, instituições, nações, igrejas, civilização cristã. A sugestão do perdão, ante as absurdas cruzadas contra os irmãos, as inquisitoriais chamas atiçadas aos discordantes de nós, as pedras lançadas contra os que pensam e agem diferente de nós!

 

Aos pés do Cristo atado à cruz, lá está o Papa João Paulo II, abatido e cansado, de joelhos ao chão, clamando pelo perdão dos equívocos históricos da Igreja Católica. Não só dela. De todos nós. O jornal, em sugestiva manchete, proclama: "Foto da semana".

 

Na verdade, o símbolo tem vida mais longa que sete dias. Foto talvez do século. Do milênio até, pelo apelo que possa exercer na história dos povos!

 

(Exraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1985 a 20010.  Fortaleza, Edições UVA, 2002.  pp.185-187).

 

Transcrito para o Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

 

 

 

VEJO-ME PELOS

OLHOS DOS OUTROS

 

Adail Sobral

 

Ah, Marcondes,

 

É uma felicidade grande ter-te de volta em plena forma! Tua grandeza é algo completamente ímpar: quando penso (e sempre penso) no dialogismo, vem-me tu à mente como plena encarnação de suas implicações. E esta tua mensagem mostra isso: um diálogo com arestas temporariamente conciliadas a partir de uma situação pessoal tua (e coletiva nossa, bien sûr!).

 

Eclético eu? Disperso talvez, e iconoclasta: como conciliar o amor à natureza (casa cheia de bichos em plena 9 de Julho - SP!), ao pensar (perguntam-me se me incomodo em trabalhar fora de " minha área".

 

Respondo sem titubear "não tenho uma área; tenho uma perspectiva a partir da qual pensar - sempre mutante) e à tecnologia (sempre criticamente, mas, sem a parte "internética" dela, meu mundo seria mais lacunar.

 

Quantos amigos fiz aqui, alguns que depois vi em carne e osso, e outros tantos cuja imagem crio para mim!,  sem "viver" a complexidade do mundo e duvidar das explicações parciais e das teorias totais?

 

O Vagner, que, vez por outra "vem" aqui, um dia perguntou: não há nada no Círculo de Bakkhtin de que você discorde? Na época, eu disse que ainda não descobrira. Vagner, agradeço: agora discordo de algumas coisas, e usei outras teorias para "resolver" o problema.

 

Não tenho grande memória cognitiva, mas me deixo "marcar" pelo outro. Por isso a ethos-paidéia, uma rede dialógica marcondiana, é meu lugar natural.

 

Parabéns amigo, e amigos todos, concordantes, discordantes, expectantes, distantes. Cada reação tem o valor de ser a reação do outro, não do ego!

 

Uma coisa é certa: há duas idéias que li na tenra juventude: Heidegger - questionar e pôr em questão é a única tarefa do pensamento; Nietzsche: nada é eterno, tudo veio a ser, e uma que permeia o pensamento de Bakhtin: vejo-me pelos olhos do outro.

CÃO E GATO NA EDUCAÇÃO

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 4/12/1998

 

"Educação a distância" é temática que lembra "Seu" Cosme, velho funcionário (há pouco falecido) do Conselho de Educação do Ceará, onde, certo dia, realizava-se encontro sobre o assunto e para onde convergia gente de todo o País. Ante o inusitado ir-e-vir das pessoas, "Seu" Cosme, atento a tudo, indaga a uma professora: "Que mal lhe pergunte, o que esse povo todo veio fazer aqui?" O velho funcionário quer saber o que, de fato, vem a ser "educação a distância". Após alongadas explicações que não entende, ele balança a cabeça, sentenciando: "Se, de perto, a educação já não presta, imagine feita de longe!..."

 

 No imaginário de nosso povo, de fato, essa é a imagem. Sob o proverbial signo do "quem não tem cão, caça com gato", a educação a distância é vista como o gato, isto é, o desacreditado suplente da educação presencial (esta, inoperante cão). Na contramão desse clima, o Conselho de Educação do Ceará está lançando o opúsculo "Educação a distância: processo contínuo de inclusão social", onde a autora do texto, professora Iranita Sá, nos mostra que, no Planeta e no País, o avanço tecnológico já nos permite, nesta modalidade de ensino, novas oportunidades de interatividade, acompanhamento e controle. E que, nesse quadro, a educação a distância tem hoje uma função: a) supletiva (para os que ficaram à margem da escolarização convencional); b) continuada (para os cidadãos em geral na vida social): c) complementar (numa nova dimensão do tempo e do espaço na própria escola)

 

O novo tom vem a calhar. No País, em cuja história a educação se marca da exclusão, descobrimos que é tempo de dela fazermos ferramenta de inclusão social. No Ceará, damo-nos conta de que o momento é oportuno para que avaliemos nossas experiências históricas de educação pelo rádio, a televisão e o jornal, sob o imperativo crivo da nova lógica e dos padrões da atualidade.

 

Tudo isso para que, da inclusão social, façamos uma "Roma", para onde nos levem os caminhos todos: das estradas carroçáveis às infovias, do "orelhão" ao satélite. Coisa que, talvez no fundo, fosse a reclamação de "Seu" Cosme: os cuidados "bem de pertinho" para que a qualidade na educação se torne um direito de todos!

 

Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1995 a 2001). Fortaleza, Edições UVA, 2002. pp. 111-112,

 

Transcrito para o Blog do Grupo Ethos-Paideia:

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/

 

 

 

LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais”

Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (http://www.cec.ce.gov.br)

Texto –  Aprendendo com os “self services”

 

 

      Escreve o Professor Marcondes Rosa de Sousa, marcondes@secrel.com.br, Presidente do Conselho de Educação do Ceará:

 

 

APRENDENDO COM OS “SELF SERVICES”

 

  

A Profa. Elba Braga Ramalho (Texto 125) fez-me voltar às mensagens de Lourdes Macena (Texto 15) e de Ivoni Sá, a mais recente (Texto 123).  E as três terminaram por me levar a um oportuno flashback de minha longa convivência com a conflituosa relação entre a educação e a arte: na sociedade, na universidade e na escola.

 

A primeira evocação que me ocorreu foi a do pai, ante a notícia que, um dia, me trouxe, de chofre, o filho caçula, recém-ingresso no curso de engenharia civil, que ele decidira abandonar, para tentar o de música.  Desilusão que, por muito, alimentei, até o dia em que, num encontro nacional dos conselhos de educação, escutei, de um renomado educador, meu amigo, a crítica do “casa de ferreiro, espeto de pau”: “Como é possível você, em teoria, falar tão bem do papel da arte no milênio entrante e na quarta revolução industrial, e, com os filhos, ser tão arcaico assim?”

 

Só aí, dei-me conta de que o preconceito contido na fábula “A cigarra e a formiga” estava latente também em mim.  E a partir daí, passei a enxergá-lo, em meu ambiente familiar, nas rusgas do quotidiano entre meus filhos: “Se é ela que abre um livro de odontologia, está estudando e não pode ser incomodada.  Se sou eu que pego do baixo, aí estou me divertindo e perturbando os outros”. Ou então: “Se eles saem e ficam a noite inteira, na Praia de Iracema, é justo. Afinal, estudaram e trabalharam demais, têm direito a espairecer. Se passo a noite ensaiando ou tocando num show, tendo de dormir até mais tarde, sou vagabundo!”

 

De certa forma, em versão mais sofisticada, foi este o mesmo preconceito que senti na universidade, onde a arte vi ocupar lugar sempre secundário: debaixo do pé menor, na tríade acadêmica do “ensino, pesquisa e extensão”, sempre nos órgãos periféricos, à margem da vida acadêmico-escolar, que se realiza, em primeiro plano, nos departamentos, faculdades e centros.  Na estrutura organizacional e do poder acadêmico, testemunhei equivocadas epistemologias, onde a arquitetura alojava-se sob o teto da tecnologia (de status visto maior) ou até na área jurídica...  E, professor de letras, escutei sempre a admoestação de que a “arte literária” haveria que ser estudada, como objeto, sob o enfoque da ciência. No escala de valores da vida acadêmica, não havia lugar (e pontuação) para o exercício do ritual da criação artística.

 

A mensagem de Elba Ramalho (a professora) à mão, mostro-a ao filho estudante de música, ante os colegas de faculdade, uns, e da banda, outros.  Atento, ele a lê, demoradamente e em silêncio.  Ao final, balbucia, em seu dialeto lacônico: “É isso aí ...”  Pouco entendendo, o instigo: “Isso aí o quê?”.  O colega de classe, mais falante, completa: “Eh! Falta! ...” “O quê?”, num crescendo de voz, insisto.  E ele: “Tudo, ela disse: especialistas, equipamentos, tudo! A gente acha isso também!”.

 

No grupo, há quem balance a cabeça a repisar outro refrão conhecido: “Coisa que não é de se aprender na escola”.  Quando muito, repetiriam, com o Prof. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, que é assunto a ser aprendido nas “verdadeiras agências sociais de ensino”, aqui expressas a propósito do ensino de línguas estrangeiras (Texto 17).

 

Esse, o sentimento que colhi, entre os artistas, em minhas andanças pela gestão cultural: pró-reitor de extensão, dirigente da TVE e do Departamento de Audiovisual da SECULT, por mim criado: “escolarizou o processo artístico, matou-o”. O mesmo que começo a observar também nas relações entre os mundos da escola e do trabalho. 

 

Dias atrás, em encontro nacional realizado em Foz do Iguaçu, ouvimos queixas nessa direção da representação da CUT.  Falando sobre educação profissional, os trabalhadores diziam sentir-se melhor a dialogar com o Ministério do Trabalho do que com o de Educação, chegando mesmo a afirmar que existem linguagens diferentes entre “os companheiros da área de educação e os demais companheiros trabalhadores”.  Mas a observação que mais me preocupou foram as queixas de que o mundo educacional encara as coisas muito sob perspectiva ideal do ensino e pouco da aprendizagem: conteúdos, currículos, horas-aula, padrões de avaliação.  Um caminho que se pautaria solitariamente sob a perspectiva ditada pelos educadores e pouco levando em consideração ... “o itinerário do trabalhador”.

 

Creio que, também na arte, a queixa principal do artista é ...o não olhar as coisas sob o itinerário do artista.  E, aí, talvez melhor lição possam-nos dar os restaurantes “self service”, que já aprenderam que os cardápios fechados não são o melhor apelo.  Desiguais, em interesses, ritmos, capacidades e condições, as pessoas preferem o “auto-serviço”, o ritmo, a escolha e o peso próprios...  Onisciente, a escola, até agora, continua emitindo cardápios fechados, quando não pratos feitos para um público cada vez mais a preferir os “self services”...  No caso da arte, sem se valer da liberdade de estrutura curricular e de ritmo de aprendizagem que a LDB faculta aos criativos.

 

Elba se queixa da formação deficiente do professor de arte.  Ivoni releva o papel da arte no processo de reeducação e correção de rotas, entre crianças e adolescentes.  Lourdes termina por nos chamar a atenção para o lugar recriador, que teria a arte, numa escola que nada mais consegue do que refletir a violência e a feiúra de seu entorno. E os artistas reclamam de que a escola, alheia a seu itinerário e intento, não é o lugar ideal para a aprendizagem da arte.

 

Há um ponto, mais geral, que deve, entre nós, ser repensado: o lugar da arte na escola básica (ensino fundamental e médio), onde ela há de ser vista como um componente fundamental à formação de todo cidadão, responsável que é ela pelo desenvolvimento, no educando, da sensibilidade, da intuição, do senso estético, enfim de uma ferramenta emotiva para a decifragem e, ao mesmo tempo, para a construção do mundo.

 

Nossa escola, infelizmente, ainda está longe disso, presa que se encontra, em sua história, às distorções que a ela se incorporaram, desde a tradição do antigo “canto orfeônico” e dos despropositados “trabalhos manuais” até as desarticuladas experiências ora postas em prática.

 

Disso tudo, fica-nos a lição.  Procedentes que sejamos de diferentes “culturas”, detentores por isso de diferentes olhares, é hora de orquestrar tudo isso no sentido de que, na escola, na universidade e na sociedade, a arte e a educação se aproximem, fazendo os habitantes do mundo mais afetivos, intuitivos, sensíveis, construtores do belo, enfim.

 

Dessa forma, tenho certeza de que meu filho e seus colegas nos aplaudirão a nós todos, na euforia concisa de seu dialeto: “Beleza!

 

 

 

 

BICICLETAS, TRANSPORTE ESCOLAR!

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 4/6/1999

 

É nos municípios mais pobres que mora a corrupção! Esta é a crença arraigada em nossa cultura. Um estereótipo, que, felizmente, começa a se dissipar. E uma prova disso presenciei, dias atrás, numa cidadezinha pobre do Interior nordestino. Foi em Monsenhor Gil, a 80 kms de Teresina, no Piauí, numa solenidade simples, em que a Câmara de Vereadores fazia a entrega de títulos de cidadãos da terra a um promotor e a uma educadora, ali chegados de fora.

 

Não era para menos. Em pouco tempo, Monsenhor Gil havia se tomado destaque, aos olhos do Piauí e do País, por seu criativo esforço de dar escola fundamental para todos. Havia feito a melhor campanha "Lugar de criança é na escola". Por isso, a justa homenagem a seu jovem promotor, Écio Otto Ramos, que a puxou. Figurava, além disso, entre os quatro Municípios, no Estado, que, de maneira mais adequada, gastava os recursos do Fundef - reconhece a Associação de Prefeitos do Piauí. E, na avaliação dos técnicos do MEC, não só está entre os quatro com as mais bem sucedidas experiências educacionais, como pertence ao grupo dos seis onde os sistemas municipais de ensino têm a melhor organização, no Estado.

 

Por fatos assim, a homenagem à professora Calíope Chagas Barreto, responsável mais atuante pela coordenação das atividades educacionais no Município. A mim, espantou-me a visão moderna do prefeito Paulo Roberto de Oliveira Santos, que me assegurou estarem cobertos 100% da escolarização, na área rural, coisa que, de acordo com o Presidente da Aprece, José lrineu de Carvalho, ainda é o grande desafio no Ceará. Paulo Roberto, com simplicidade, me explica: "Nesses locais, não vai transporte algum. Só bicicleta. Compramos bicicletas, que ficam em nome da Prefeitura, e as distribuímos uma para cada dupla de alunos. Aí controlamos a freqüência. Se faltam à escola, perdem as bicicletas". Mas isso, num exagerado pudor e, curiosamente, com verbas fora do Fundef.

 

Da solenidade, ficou-me a impressão positiva do estereótipo dissipado, no caso da administração do Município. Salvo, em um ponto: a forte persistência da "cultura da introversão". O que vi foi, sobretudo, todos apenas agradecendo a ação dos "forasteiros". Pouco, das pessoas da terra descobrindo-se criativas e emblemas do novo, para todos nós. Por isso, a advertência ao Prefeito e a seus auxiliares. Um pouco de marketing é fundamental e faz bem! A Monsenhor Gil, ao Piauí e ao Brasil!

 

(Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados e jornais de Fortaleza (1995 a 2001), Fortaleza, Edições Uva, 2003. p. 127)

 

Reproduzido no Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia.

 

 

PODE O TALENTO MORAR NO NORDESTE?

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 16/6/1997

 

      Cientistas nordestinos abespinharam-se com o ministro Bresser Pereira, da Ciência e Tecnologia. É que o Ministro, ao confessar-se seguidor do bíblico "a quem mais tem, mais será dado", teria escorregado nas palavras, denunciando preconceito para com o Nordeste. Voz isolada ou ensaio de um amplo coral?

 

      Vejamos. Dias atrás, em reunião nacional, um membro do "Paulistério" deixou-se trair, em um lapso frasal: "o Fundef vai bem, apesar da existência de prefeitos corruptos, no Ceará". Semanas atrás, a Revista Veja, sob esse mesmo viés, armou reportagem apontando professores universitários de Alagoas e do Ceará como os mais altos salários do escalão federal, admissíveis, em sua ótica, aos executivos das indústrias paulistas. Repercutindo a matéria, a Agência Reuters enviou notícia aos veículos internacionais, atribuindo o fato "aos Estados mais pobres do Nordeste" brasileiro, sobretudo os "notoriamente mais corruptos de Alagoas e Ceará" - difamação que, em cadeia e via Internet, tentou-se, sem êxito junto aos formadores de opinião, no País.

 

      As principais livrarias da Nação ostentam, entre os "best sellers", o último livro de Sebastião Nery, onde o Ceará, em 9 páginas, é grotescamente descrito, não como um Estado, mas como uma corrupta "holding empresarial", a serviço de um restrito grupo econômico, em projeto nada político e social. Enquanto isso, num show em São Paulo, a cantora Rita Lee, contestando a atriz Regina Casé, reafirma, em tom de manifesto: "São Paulo é que carrega, nas costas, o Brasil!"

 

      Em meus sonhos, por certo, não está a Confederação do Equador. Mas, da mente, não consigo apagar a cena que me ficou da adolescência: sala de aula de uma escola em Campinas/SP, eu o único cearense presente. Entre orgulhoso e encabulado, escuto do professor: "Em minha vida, sempre afirmei que, ao melhor aluno, "nove"; ao melhor professor, "nove e meio"; "dez", apenas para Deus. Agora, obrigo-me a uma exceção. Dei meu primeiro "dez" a um aluno. É que São Paulo exporta café e o Ceará exporta talento".

 

      Adulto, descobri que, aos olhos do Centro-sul, o talento não pode morar no Nordeste. Só tem crédito se exportado. "Seria isso a predestinação de uma raça'?" - já indagava Alencar. Ou, em tom pragmático, o diapasão proposto para as próximas eleições presidenciais?

 

      (Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza. Fortaleza, Edições UVA, 2003. p. 89)

 

      Transcrito para o Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia

 

 

Reunião do CEC - Diatahy à direita

 

IRACEMA, IDEAL ALENCARINO

OU A PAISAGEM HUMANA DE NOSSAS RUAS?

 

A “Carta a Babi Fonteles”, abaixo apresentada”, extraída da Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, repõe a história de como, no Ceará, tocamos a questão das escolas diferenciadas indígenas.  Nessa história, duas visões, que antitéticas, terminaram, ao final se encontrando.

 

Com sua reprodução, aqui e agora, gostaria de prestar tributo aos que tiveram papel decisivo em harmonizar dois aspectos em aparente contraste: a reclamada “alma” indígena (aspecto que projeto tocado por professores com senso antropológico da UFC) aqui representado por Babi Fonteles (dessa linha antropológica e músico) e, de outro, por então abrigados pela Secretaria de Educação do Ceará e por forte pressão junto ao Conselho de Educação, por mim então presidido.

 

De minha parte, dois momentos me marcariam.  O primeiro (recordo-me), quando pro-reitor de extensão da UFC.  Época, após o Seminário Cinema e Literatura e a preparação I do Festival de Fortaleza do Cinema Nacional.

 

Os cineastas do País propunham o troféu “Iracema”. Um famoso artista plástico do Ceará desenhou e mandou fundir um protótipo, que levei para o Festival de Brasília. Os cineastas não gostaram da proposta de Iracema. Fiquei com a incumbência de descartar o projeto do artista plástico. 

 

Chamei o professor Geraldo Jesuíno e pedi a ele que rascunhasse o que iria se transformar no troféu sob a ótica dos cineastas.  Jesuíno, prancheta a mão, ouvia-me: “Eles chamaram a Iracema de nosso artista plástico de ‘bunda sextavada’, um tipinho desses sem sal de nossas empregadas domésticas.  Pois bem! O troféu deverá ser uma iracema de cochas grossas e longas, com as quais os laureados possam encher a mão. Olhar altivo, que quando erguida, sob os refletores no majestoso Cine São Luiz, possa receber o aplauso de todos...”

 

Jesuíno sorria. Rabiscava algo. Voltava a olhar para mim, como que espera dessa Iracema transfigurada. Ponto final. Jesuíno vira a prancheta para mim: “É esta, a Iracema que os cineastas e você querem?”

 

***

 

Hoje, a Iracema erguida no Cine São Luiz não sei mais nem onde ficou.  Na reunião do Conselho onde me fizeram dançar o “torém”, as iracemas eram a do nosso artista plástico.  Nenhuma tinha feições, corpo e “olhar altivo” da Iracema que eu esquecera como troféu.

 

Dessa reunião, a imprensa recusara-se a dar cobertura.  Os cochichos iam no na direção de que os índios que ali estavam eram meras fantasias criadas pela Funai e pelos “antropólogos” da UFC... Eu estaria sendo iludido. A imprensa não entraria nessa.

 

Os conselheiros ali, calados. Haviam quase todos me deixado sozinho. No Ceará, só na mítica, toponímia de Alencar, que nos via, “além muito além daquela serra”, existiriam “iracemas” de carne e osso.  O que todos achavam é que teria havido um processo de “cabloquização”. E os antropólogos estavam recuperando a ficção de reais índios no Ceará.

 

Diatahy, na reunião no CEC, ensaiou defender tal posição.  Iniciou, porém, falando do massacre dos índios e de sua cultura. Num crescendo, foi levando sua argumentação para o não restar nação alguma a não ser miscigenada, feita de “caboclos”. Entusiasmou-me ao falar das legiões de dizimados, numa dívida histórica de todos nós em relação aos nossos índios... Palmas muitas, entre os índios.

 

A esta hora, fui chamado lá fora para, solitário, dar entrevistas na TV. Voltando, não entendi os aplausos dos indígenas a Diatahy.  Só sei que, do registro em CD, resolvi editar do encontro o CD intitulado “Desembaraçando caminhos”.  E o trecho que não ouvi do Diatahy literalmente correria mundo, em defesa de uma escola diferenciada para nossos índios.

 

A Carta a Babi, que extraímos da Lista de Discussão “Desafios Educacionais” conta essa história. Tempos depois, em reunião com o Banco Mundial, cobrei pactos que havíamos firmados de preservação da cultura indígena, aí incluída sua arquitetura, nas escolas diferenciadas. E tive a satisfação de ter o Ministério Público de nosso lado. E, na última reunião que, governador presente e representação do Banco Mundial, ouvir dessa última: “Pode ficar sossegado, professor Marcondes. Não será, desta vez, cobrança sua ou do Ministério Público. Mas exigência das cláusulas contratuais pelo Banco Central”.

 

Ao deixar o Conselho de Educação do Ceara, um dia seria eu agraciado com a Medalha “Otávio Lobo”. Aos proponentes, declarei que tinha o certo receio (mórbido até) do “flores antecipados ao caixão”. E que só aceitaria a comenda se for ela o sinal de pacto a sinalizar o futuro.

 

Não convidei ninguém. Quem melhor definiu foi o deputado Moésio Loiola que registrou esse pacto ali expressivo: “O professor Marcondes é de meu partido, o PSDB. Quem lhe propõe a comenda são deputados de oposição. Quem o saúda é Artur Bruno (do PT). Aqui, vejo o ex-reitor Albuquerque, tido outrora por interventor, abraçado pelos que o receberam com ovos, na Concha Acústica. E o mais significativo, duas presenças explosivas, Rosa da Fonseca e Maria Luíza Fontenele, aqui estão sorridentes, a abraçá-lo e a nós todos. Em pouco, ali estavam em plenário as crianças e professores indígenas.

 

***

 

CARTA A BABI FONTELES

 

 

Meu Caro

Prof. Babi Fonteles,

 

Li a carta em que, a propósito de matéria publicada no Jornal “O Povo”, de Fortaleza (Ce), edição de 15.11.01, faz você uma avaliação sobre reunião ocorrida no Conselho de Educação do Ceará, que contou com a participação de lideranças indígenas e instituições várias, sobre a formação de professores para as escolas de nossos índios.

 

Em sua avaliação, você destaca: a) “o ponto alto”; b) “o ponto de estrangulamento”.

 

O “ponto alto”, você o define como “a demonstração de que o assunto em pauta ganha, finalmente, mais importância, visibilidade e parceiros a cada dia”.  E, a propósito dessa constatação, você tece então generosas loas à ação do Conselho de Educação do Ceará e a seu presidente – o que, decerto, nos sensibiliza, ao Colegiado e a mim, que o coordeno.

 

O “ponto de estrangulamento”, você o atribui à “postura da Seduc” (a Secretaria de Educação Básica do Estado do Ceará), destacando quatro aspectos nessa conduta: a) o “esvaziamento” da representação desse órgão na reunião; b) a defesa intransigente, por parte da Seduc, na condução da questão; c) a imposição do projeto pela Seduc e a não aceitação, nessas condições, do projeto pelas lideranças indígenas; d) a fragilidade do argumento da Secretaria de que lhe faltariam recursos para apoio ao projeto de capacitação docente indígena que se desenvolve no âmbito da UFC com participação das lideranças dos índios.

 

O TOM, A PREOCUPAÇÃO

 

Com relação ao “ponto alto”, a mim surpreenderam: a) a presença das instituições convidadas, na reunião; b) o interesse dos meios de comunicação a cobrir a reunião e o posterior espaço dado às reportagens, entrevistas e editorial até, nas rádios, nas televisões e nos jornais, num curioso contraste com o que ocorria com o espaço concedido em nossa tradição e passado recentes.

 

No que se refere ao “ponto de estrangulamento”, não tenho visão tão pessimista quanto você, Babi.  Vejo, na questão da educação indígena, no Ceará, avanços sensíveis.  Não me preocuparam, em verdade, as críticas, que refletem a ótica de quem as fez, com todo o direito.  Mas, sim, o tom e a atmosfera afetiva que as envolveram.  E pessoa que sou, por formação, sensível à força e ao apelo das palavras, confesso que me surpreenderam as expressões destiladas ao longo e, sobretudo, na cauda de seu texto: “esvaziou (...) a representação”, “descaso com o CEC”, “mentira deslavada”, “instituições que mereciam, no mínimo, respeito”, “cozinhando em banho-maria”, “malversação dos recursos públicos”, “desperdícios”, “lerdeza”, “truculência”, entre outras – atribuídas, todas, à dita “postura da Seduc”.

 

PRECONCEITOS A

HABITAR OS PORÕES

 

Ora, Babi, num balanço entre os dois pontos (o “alto” e o de “estrangulamento”), nem tanto ao mar, nem tanto à terra.  Sejamos humildes, vale dizer, ponhamos os pés no chão (no ‘humus’) da verdade. Nem tanto a generosidade dos elogios ao Conselho de Educação do Ceará, nem tanto a hiperbólica acidez das críticas dirigidas à Seduc.

 

A bem da verdade, na subconsciência dos membros do CEC (conselheiros e técnicos), descobri, bem cedo, que dormitavam os mesmos preconceitos a habitar os porões de nossa sociedade, com relação aos nossos índios.  Num passado não tão remoto, a temática da educação indígena, em nosso CEC, era frágil barco a vagar por entre atmosfera distante e sempre mediatizada, vista sob o viés do documental e, sempre, pela intermediação de pessoas a “falar pelos índios”: quer pelas organizações não-governamentais (como era o caso de Maria Amélia), quer a auscultar o parecer de pesquisadores da Universidade, já que os conselheiros e técnicos sempre se consideravam “distantes” ou “incompetentes” para analisar a questão.

 

Mesmo em tempos mais recentes, como os pós-LDB por exemplo, quando a educação indígena passou a ocupar capítulo importante, demoramos muito até que pudéssemos ter um contacto direto com as comunidades indígenas.  Foi preciso que o Prof. Júlio Wiggers, do Conselho Estadual de Educação de Santa Catarina e representante dos CEEs junto às instâncias nacionais de discussão da educação indígena me advertisse sobre a nossa distância e atraso em relação à educação indígena e, por último, das difíceis relações que se iam configurando entre os índios e as autoridades educacionais em nosso Estado.

 

MINHA INTRODUÇÃO NO TORÉM

 

Dei ouvidos a Júlio.  Na verdade, ele tem sido companheiro meu pelas esquinas de nossa história educacional.  De início, como pró-reitores de extensão (ele na UFSC e eu na UFC). Anos depois, como conselheiros de educação (ele no CEE/SC e eu no CEC).  Em matéria de educação indígena, tornei-me dele aluno.  Afinal, ele havia vivido anos na aldeia entre os índios.  Ouvindo-os (não falando por eles), Júlio tornou-se grande conhecedor dos problemas indígenas de nosso País.

 

Tivemos a sorte de contar com a presença de Júlio, por uns 15 dias, no Ceará.  E ele esteve, acompanhado de técnicas de nosso Conselho, entre lideranças indígenas.  Abriu-nos caminho e, desde então, nossas técnicas, têm alargado essa convivência, sendo crescentes as picadas de nosso entendimento comum. E foram essas relações refazendo-se que nos possibilitaram o primeiro encontro das lideranças indígenas conosco, no auditório do Conselho de Educação do Ceará, para a discussão inicial de uma política de educação indígena que lhes assegurasse uma “escola diferenciada”.

 

Nesse encontro, fui simbolicamente introduzido no círculo litúrgico do “torém” indígena.  E, nessa ocasião, prometi mobilizar o Conselho no sentido de ampliar esse círculo a toda a sociedade, na busca do desembaraçar dos caminhos.

 

 

SUGESTÃO E FORMATAÇÃO DA IDÉIA

 

Nesse dia, Babi, o conheci.  Dias depois, você me entregaria as gravações sonoras do encontro, as vozes e cânticos dos índios compilando-se em um CD.  Ouvi-o várias vezes.  E ao ouvi-lo, comecei a segmentá-lo em faixas, submetendo-o a sucessivas edições eletrônicas.  Escaneei foto de uma escola sob uma árvore, montada sobre um chão de terra nem mesmo batida, que figurou como capa do disco.  E daí resultou o CD sob o título “Escola indígena, não indigna”.  Na verdade, um disco que, em essência, já o recebi de você, pronto em sugestão, formatação e idéia...

 

Meu tempero pessoal e adicional, nessa idéia, foi apenas de transpor a instância do mero registro, dando ao CD a missão de “abre-te-Sésamo”, a levar mais longe as vozes e cânticos dos índios, a desembaraçar caminhos, sem o viés da tradução de nós a por eles falar.

 

           

VARRENDO AS CINZAS

SOB O TAPETE      

 

E por que a ênfase nesse papel? Confesso-lhe.  O primeiro encontro que, no CEC, tivemos com os índios tomou-nos de assalto até a mim próprio. Naquela manhã, senti-me “estranho no ninho”, só a custo entendendo a liturgia em volta de mim... É que, habitante do “Siará Grande”, a “terra da Índia Iracema”, afeito ao imaginário dos índios “mitos”, mas não reais, tive um choque ao vê-los ali, iguais em rostos, vozes e trajes ao cotidiano de nosso povão, encontradiços em qualquer logradouro, praça ou rua...

 

Naquela manhã, pressenti o arredio e a desconfiança da imprensa, furtando-se à cobertura por nós pedida.  E a meus ouvidos, Cassandras muitas sopraram em vaticínios: “Vá com calma.  Quem sabe se não são nossos caboclos, em armação, vestindo-se de índios”?.  “Índios, são. Mas estão manipulados, por interesses muitos políticos”.

 

No próprio Conselho, depois, sentiria eu ecos dos preconceitos vários, latentes em nossa sociedade.  E, na Praça dos Três Poderes, em nossa “Pólis” (o econômico, o político e o intelectual), com ação sobre o quarto (a Imprensa), colhi embaraços de toda ordem a compor freudiana “cinza-sob-o-tapete” nas ante-salas e jardins do Olimpo, do Império e de Academo.

 

Os murmúrios davam conta de que índios haviam todos sido dizimados, de sorte que nos sobravam deles apenas os rastos em nossa história, toponímia, onomástica e galeria mítica, além da miscigenada “caboclização” de nossa paisagem humana.  Nessa caudal, preconceitos encontravam o veículo sofisticado das teses contrárias ao conceito de “identidade cultural”, como se o “idem” (‘o mesmo’ em latim) não pudesse ser a marca agora de um povo de outrora.  Antropólogos, ditos “românticos”, acusavam-se de estarem agora recuperando culturas passadas, ensinando a caboclos de agora tornarem-se “índios de volta”.  E etnolingüistas alienados, aí estarem a ressuscitar línguas já mortas, na insana tarefa de fazer curumins de agora soletrar vocábulos e frases de outrora...

 

Era preciso vencer essa “cultura” de caminhos embaraçados.  Daí, a idéia de me valer do lúdico até.  Sentei-me ao computador e, brincando, enviei o fruto dessa brincadeira (os CDS, produzidos domesticamente e às minhas próprias expensas) às principais autoridades-atrizes, envolvidas com a questão. E, para minha surpresa, comecei a receber retorno, com a manifestação de esperanças no sentido de que os caminhos se iriam ... desembaraçando.

 

Foram muitas as mensagens desse teor.  Por razões de reserva e de ética, citaria apenas algumas delas, para mim “simbólicas”, entre os quais gostaria de incluir o discreto cartão de Dona Renata Jereissati, Primeira Dama do Estado, numa sugestão da ajuda por ela dada no processo de desembaraçar caminhos, e o telegrama pessoal que, in verbis, recebi do Governador Tasso Jereissati:

 

            “Agradeço sua atenção e gentileza pelo envio do CD com mensagens das populações indígenas reivindicando ‘escolas diferenciadas’ para suas comunidades. A matéria, sem dúvida da maior significação, será colocada a análise da Seduc. Aproveito a oportunidade para reafirmar-lhe o meu apreço e consideração.

 

Tasso Ribeiro Jereissati

Governador do Estado do Ceará

 

 

Com esse intuito, o de desembaraçar os caminhos pelo apagar dos preconceitos, escrevi dois artigos na Imprensa do Ceará.  E cópias desses artigos, por fax e pela Internet, voaram por aí afora, sendo temática de discussão nesta Lista, que o Conselho de Educação mantém com participação de influentes pessoas no País e Planeta.

 

A ALMA DEIXADA DE FORA

 

Em toda essa estratégia, há um dado que gostaria que soubesse e que, no fundo, tem muito a ver com você. 

 

Após o primeiro encontro, fui ter com professores e alunos do Projeto de Formação de Professores Indígenas coordenado pela Secretaria de Educação Básica (Seduc), acompanhado de alguns técnicos do CEC. Lá, conversamos com os professores universitários que o orientam, com os técnicos em currículo e coordenadores da Secretaria. 

 

Confesso-lhes que gostei da ideologia do projeto: nascendo, no contrafluxo do itinerário dos jesuítas de outrora, partindo do chão, tomando feição curricular, estando o concreto a preceder o abstrato, e prometendo eu cumprir, no CEC, com o preceito do “ex facto oritur jus” (É do fato que nasce o direito), isto é, desenhando a norma post factum, como um teto a se apor sobre alicerces e paredes fincadas ao chão, numa superação da tradição curricular de nossos conselhos de educação, no País.

 

Vi toda essa ideologia literalmente brotando do chão, apondo-se nas paredes, numa derrubada fenomenológica (sob meus íntimos aplausos) do raciocínio hipotético-dedutivo dos jesuítas, a nos acompanhar desde 500 anos atrás.

 

Uma cena, no entanto, me impressionou.  A um grupo de professores-alunos, comecei a indagar sobre a pesquisa de sua “identidade”.  E a uma alencarina “Iracema”, de “cabelos mais negros que a asa da graúna”, que se confessava da etnia “tabajara”, perguntei o que a identificava como “tabajara”.

 

Ela não me respondeu.  Disse apenas que, como “tabajara”, tinha medo de alma.  Que, quando dormia em casa, não tinha pesadelos.  Ao contrário, quando dormia fora de casa, sonhava sempre com almas a atormentá-la.  E concluiu: “acho que o que me faz índia é que tenho medo de alma”.  E apontando para seus braços concluiu: “Veja! Foi só vocês chegarem aqui, estou toda encaroçada, com medo”.

 

A cena intrigou-me.  Mais tarde (conta-me técnica do Conselho sentada ao lado da tabajara), ela se confessou “encaroçada” quando falou o Secretário Antenor Naspolini.  Ela teria dito: “Esse homem tem a fala de estrangeiro e me mete medo”.  Algum tempo depois, um professor-índio pediu a palavra para manifestar o sentimento do grupo.  E disse que eles achavam o curso ótimo.  Uma coisa apenas os estava incomodando: “É que nossa alma -, isto é o sentimento de nosso povo e de nossas lideranças - está lá fora.  Nossa alma ficou de fora deste hotel e deste projeto”.

 

Fui visitar as escolas indígenas, na tentativa de lhes captar a alma.  E foi isso que, em Almofala, no encontro que lá tivemos, percebi: a alma estava na participação da comunidade, nos seus arrastados cânticos a lembrar o cantochão talvez herdado dos jesuítas, em sua liturgia.  E foi isso, Babi, que o Projeto da UFC conseguiu incorporar.

 

Acreditei em seu feeling artístico e no papel da arte na educação indígena.  Nessa linha, falei com o Secretário de Cultura, Newton Almeida, que prometeu abrir uma linha de financiamento para os discos indígenas.  Desde então, ele me cobra a presença lá sua, Babi, ou de alguém para levar à frente o projeto.

 

De algum modo, foi isso o que tentei por trás de produção (doméstica e lúdica) dos dois CDs.

 

 

DESATIVANDO CONFRONTOS

 

Parece que, nestes tempos de agora, o mundo do mythos nos toca mais fundo que o do logos. E talvez seja esse, senão o fundamento, pelo menos o maior poder de sedução do Projeto de vocês (o da UFC) sobre o outro (o da Secretaria), que bem construído sob a perspectiva do logos que seja, talvez tenha deixado de fora o mythos e a alma indígena, atormentando em pesadelo os “tabajaras” a dormir fora de casa...  Nada melhor, portanto, o intercâmbio entre os dois, num como juntar de corpo e alma ou do equilíbrio entre o mythos e o logos...

 

Na última reunião com as comunidades indígenas, que gerou o CD “Desembaraçando caminhos” e que foi pela sua carta avaliada, senti, Babi, a carência de sua participação. Na verdade, era sentimento meu que, com sua participação, os depoimentos ali teriam mais alma.  Depois, disseram-me haver o grupo coordenador da exposição disposto assim, como uma estratégia acordada, com o objetivo de desativar confrontos e de sanar eventuais escoriações do passado.

 

Ao preparar os CDs para levar para reunião do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, em Florianópolis (SC), sua carta, que recebi por via eletrônica, me fez cair do cavalo.  E isso porque, no fundo, postava-se ela na direção inversa da missão abraçada por mim.  Mais precisamente, senti-a pedra-no-sapato a me tornar manca a caminhada rumo à desobstrução dos caminhos.

 

DESMANCHANDO

AS ÁGUAS PEQUENAS

 

            Explico-lhe.  É que, desde a infância, acostumei-me à visão, nos leitos secos dos rios do semi-árido, das poças minguantes e cacimbas ali cavadas e  cercadas pelo interesse privado.  Com as chuvas, porém, vi sempre as cheias trazerem a água grande, a desmanchar, superpondo-as, poças, cacimbas, as águas pequenas enfim.

 

            E essa tem sido minha estratégia: sepultar as águas menores, afogando-as sob o peso da ... água grande.  Daí, o navegar pelos meios de comunicação em busca da opinião pública e a crença no poder das instâncias mais altas a servirem de diapasão às instâncias menores.  Em termos mais prosaicos: as águas caídas do alto e do Coletivo Maior desfazem as cercas do minifúndio, apagando, com as cheias, as poças e águas pequenas.

 

            AS TRÊS TRISTEZAS

           

            Sob essa perspectiva, sua carta, Babi, deixou-me algumas tristezas. 

 

A primeira delas foi saber que, ao encarar a “postura da Seduc”, você, mesmo com sua sensibilidade artística, não foi capaz de apurar ouvido e olhar para frente.  Tal como a mulher de Lot, não levou em conta o canto das cheias a desmanchar as retrógradas águas menores.  A “água grande”, infelizmente, você não a viu iminente e progressiva.  Um sinal disso pode ser intuído por trás do amável cartão que me enviou o Secretário Antenor Naspolini, onde, entre gaivotas, grava-se o texto:

 

Prezado Marcondes,

 

Registro, com satisfação, o recebimento do CD “Desembaraçando Caminhos”, precioso marco institucional da inserção da educação indígena, para agradecer a gentileza e felicitá-lo pelo interessante trabalho.

 

Cordialmente,

Antenor Naspolini

Secretário de Educação Básica

 

A segunda dessas tristezas foi o fato de haver eu sido, de alguma forma, forçado a trazer a flux ação que desenvolvia no plano subterrâneo, atendendo a conselho evangélico de que não saiba a mão esquerda as boas ações da direita.  Aqui, de fato, constrange-me ter de revelar ações confidenciais minhas e de outrem.

 

A tristeza terceira é a constatação da quase inexorabilidade do “efeito Orloff”, do “eu sou você amanhã”.  No caso, o de a afeição e tutela nossa em relação aos índios converter-se num apego e zelo comuns dos pais aos filhos, tolhendo-lhes por fim a emancipação e o crescimento.  Tudo como se a felicidade deles estivesse ligada à dependência a nós....

 

 

GIGANTESCA E SECULAR

DÍVIDA SOCIAL

 

Com efeito, no itinerário da luta emancipatória dos índios, tenho visto esse comportamento reproduzir-se, e alguns amaldiçoarem até o engrossar dos círculos dos que dançam o “torém”, como se bons para os indígenas fossem os tempos em que eles dependiam de fulano ou sicrano, sejam tais pessoas jurídicas ou físicas.

 

Louvores, sem dúvida, aos que deram seu sangue e contribuição a tal luta.  Méritos aos que, na história, algo fizeram por eles, os índios.  Nada, porém, dos suspiros nostálgicos pelo retorno dos tempos áureos da dependência a quem quer que sejamos.

 

Nem o CEC nem seus integrantes entraram no círculo do torém para reproduzir o comportamento dos pais apegados aos filhos.  Decerto que é bom que, em nossa convivência, dos índios conosco, deixemos uns nos outros as nossas marcas recíprocas.  Eles, porém, têm o direito à vida e à educação, que os emancipe como cidadãos. 

 

E isso, sem royalties pagos a nós.  Na verdade, nós é que, ao invés, temos com eles uma gigantesca e secular dívida social.

    

Cordialmente,

Marcondes Rosa de Sousa

           

 

 

 

 

 

 

 

TRIBUTO AO HUMOR, AO SORRISO E À ARTE

Do Prof. Afrânio Aragão Craveiro, afranio@padetec.ufc.br, dirigente do PADETEC (Parque do Desenvolvimento Tecnológico, ligado à Universidade Federal do Ceará, recebo - a propósito da crônica “A um certo secretário Hélio Guedes”, escrito pelo Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-reitor da UFC e hoje na administração superior da Universidade Cândido Mendes (RJ) – os comentários abaixo:

Prezado Marcondes,

O Paulo Elpídio, brilhante como sempre, retrata nesta peça fielmente o que é a figura do nosso companheiro Hélio Barros. Destituído do dom vernacular, a Paulo Elpídio peculiar, resta-me usar a tecnologia e repassar esta fiel descrição do nosso competente Secretário para os amigos comuns.”

COMENTARIOS

Modéstia do Professor Afrânio

O gancho de meu comentário é a humildade de Afrânio expresso no tópico “destituído do dom vernacular” e ao “resta-me usar a tecnologia”...

Afrânio cientista e com insights como cidadão e pessoa

Convivi, com Afrânio, dele colega pró-reitor, ele de Pesquisa e Pós-graduação e eu de Extensão, na UFC. Para mim, Afrânio sempre se revelou, além da estatura física, grande em tudo: cientista, humorista, devoto da aversão à burocracia sem sentido, na vida pública (a acadêmica sobretudo), além do amigo, prolífero em insighs não só sobre a o trabalho universitário como da filosofia do vier, como cidadão e pessoa.

Seu lado humorístico

Sobrinho de Renato Aragão – contam-nos os cineastas cearenses - tempos houve em que ajudava este a escrever roteiros humorísticos, a partir dos Estados Unidos, onde à época vivia. Na UFC, viu-o a reclamar, com amizade e humor, de colega nosso, diligente pró-reitor de administração, que, seguindo a cultura até então não questionada na vida pública de nosso país, tudo terminava por emperrar os trâmites da liberação de recursos. Isso, nas repartições públicas, fossem elas da administração direta, autarquias ou fundações, como era o caso de nossas universidades públicas e das fundações em que elas ou se constituíam ou por elas criadas.

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-graduação, não tinha ele a paciência de esperar pelos trâmites dos processos. Cientista de renome, tinha acesso até à presidência da república. Atuava sempre com a consciência de que pesquisas não podiam esperar a validação de seu curso pelo aval dos carimbos...

***

“Ou eu ou eles”...

Um dia, estávamos em um jantar em homenagem ao reitor, o Prof. José Anchieta Esmeraldo Barreto.  Este, já tinha tomado alguns uísques. Na brincadeira, alguém do grupo lhe trouxe ali questão de difícil resposta: se a ele reitor, tivesse de entre sua equipe de pró-reitores, tivesse de ficar com um só, quem escolheria...

Anchieta, sem pestanejar, ele próprio contra a burocracia (o quanto pôde, delegara a seus o máximo que podia de atribuições do reitor) responde de pronto: “Ficaria com o de administração, que, por mim, cuida dos trâmites burocráticos”

Uma semana depois, crise.  De Brasília, o reitor Anchieta nos pede reunião, ao chegar, para resolver o problema.  É que o pró-reitor de administração, de saco cheio conosco (Afrânio e eu), havia imposto: “Ou eu ou eles!...”

Menos que Afrânio, pensava eu que a extensão universitária, com ações em todo o Estado do Ceará e campus avançado no Xapuri (no Acre) não podia ficar sujeita aos limitantes trâmites burocráticos. Ofídios, por exemplo, que se alimentação de ratos, dificilmente ficariam à espreita dos rituais das convencionais licitações. E lá no Acre,  na divisa com a Bolívia, com Chico Mendes e seus seringueiros, era um absurdo os rituais burocráticos para pagarmos o traslado de nossos estudantes, em balsas conduzidas por analfabetos.

À época, Paulo Lustosa (também professor da UFC) era ministro da desburocratização.  Telefonei-lhe. Ele me pediu fizesse um relatório. E, felizmente, algumas medidas foram se colocando em prática, menos absurdas...

                                   ***     

 

Um dia, Afrânio me envia inteligente cordel crítico, sob título (se não me engano) de “Adminstração em tom maior”. Pesquisadores e da Universidade adoraram.  

Fui além da UFC.  Pelo País, a título de “cortesia” das “Edições UFC”, terminamos por espalhar o humor de Afrânio por setores de nosso relacionamento (pesquisa, pós-graduação, cultura, extensão). Professor de estilística, nos anos 80, tinha a convicção de que o “chiste” e o “humor” tinham, no fundo a capacidade apelativa da arte.

Adepto então da estilística espanhola, tinha a certeza de que o “chiste” e o “humor” participam da mesma estrutura da arte e sua capacidade apelativa, no fundo tem a força da artística.

Afrânio, num segundo momento, envia-me o esboço de um jogo infantil, de dados, onde as peças, num vai e vem de avanços e recuo(do tipo “Banco Imobiliário”, que tornaria famoso). Só que, no caso, era, no fundo, uma sátira contra os atropelos de nossa burocracia.

Gostei. Chamei programadores visuais, que, na Imprensa Universitária deram tratamento bem acabado. Nos setores do MEC (Sesu, Capes, CNPq entre outros) todo mundo gostou. No Ministério da Desburocratização, foi peça fundamental.

Destituído do “dom vernacular?”

Tinha eu, na Rádio Universitária (FM), todos os dias, lá pelas 07:00 da manhã, uma crônica, que intitulávamos “Comentário”. A idéia era resgatar a oralidade. E, a cada dia, pegava eu um “flagrante” para comentar.

A idéia veio-nos de um amigo no Jornal do Brasil. Clóvis Catunda e eu fomos nos inspirar na então Rádio Jornal do Brasil.  O Diretor nos recebe maravilhosamente, apostando na idéia de uma universidade fazer a rádio de nossa ideação.

Manhã inteira conosco. Afinal, ele me nos diz: “Vão em frente! Vocês vão fazer a melhor rádio educativa do País”. Aí, não agüentei. O sangue nordestino me assomou: “Acho melhor você guardar sua ironia.  Você nos disse que a JB opera em som quadrifônio. Dispõe de 12 colaboradores, entre os quais Chico Buarque e Carlos Dummond de Andrade. E que “fulano” (omito o nome), ali figura “por concessão da Condessa”. E vem dizer que vamos fazer a melhor rádio educativa do País. Por favor, não viemos aqui para ser gozados”.

Ele então: “Perdoe-me. Você não está enxergando a riqueza de que dispõe.  Quantos professores vocês têm?” Baixei a crista: “Cerca de 1.000”.  Em que áreas do conhecimento? Fui compreendendo... “Quantos nos altos postos? Quantos em programas de pós-graduação e intercâmbio no Pais e no mundo?”

Pedi mil desculpas.  Mas, na prática, o que me sobrou é que fui ficando só.  Não só apenas, quando fui um dos candidatos a reitor. As normas me afastaram da crônica e do Jornal Universitário.  Mas, na história da Rádio Universitária (FM) restam cerca de uma oito mil crônicas, cujos roteiros, se tiver saco, um dia, terão registro mais firme que o “risco n’água”, como me ensinou Guilherme Neto, cronista dos Diários Associados e da TV Ceará (da Rede Tupi)...

Bonito, depois de postas as vírgulas

Voltemos a Afrânio. Um dia Afrânio aceitou meu desafio. Dispôs-se a escrever algo para a Seção “Comentário”. Mandou-me.  No dia seguinte, no gabinete do reitor, em sutil crítica às revisões que eu fazia do escrito de alguns colegas “sem pé nem cabeça”, ele, com humor: “Fica realmente bonito, quando o Marcondes bota as vírgulas. E na voz do “Almir Pedreira” (o locutor hoje morto) aí é que a gente escreve com sentimento!”

“Não pode entrar de chinelo”

Afrânio gostava de usar sandálias, no trabalho acadêmico. Um dia, reunião importante, no Gabinete do Reitor. Ele chega atrasado. Ao entrar, o mestre de cerimônia o barrou: “desculpe, professor. Não pode entrar de chinelo”. Ele tirou as sandálias e entrou, para espanto de todos, descalço...

Duas faces da “boa noite”

De outra feita, havia me mostrado, nos laboratórios pesquisas com os óleos essenciais.  Na saída, em meio às plantas medicinais, a popular “boa noite”.  Aí, parou e filosofou: “Para você ver. Lá no Japão e no mundo desenvolvido, ela abriga a riqueza entre os óleos essenciais; nos jardins do pobre, um barato ornamento de seus jardins.

Moral da história

Toda essa história, para levar a Afrânio meus agradecimentos pessoais. Em sua grandeza e amizade, ele me recobrou algo perdido.  O sorriso e o humor. Instantes só,fui até a homenagem a Hélio Barros.  Não podia ficar. Em todos, notei preocupação comigo.  Todos me julgavam no leito.  No olhar de muitos vi solidariedade e sorriso.

Afrânio Aragão Craveiro, Expedito Parente, Ariosto, Paulo Lustosa, Paulo Elpídio, Antero Coelho Neto, entre muitos, aí estão com seu trabalho e humor, dando sentido à vida.

 

O VESTIBULAR ESTÁ MORTO!

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 13/10/1999

 

            A democracia nos fez descobrir, primeiro, a igualdade e, só depois, os desiguais. Que, ante a lei, havemos todos de ter oportunidades iguais. Na prática, a teoria é outra, deu-se ela conta. Os mais fortes (e mais espertos) costumam transformar o "direito de todos" no "privilégio de alguns". E, assim, a desigualdade, ao invés de "direito", termina sendo "exclusão". E, mais grave que isso, sob o império dos fortes, o direito dos desiguais torna-se coisa distante, a atender por nomes estranhos ao cotidiano dos simples mortais: "isonomia", "equidade", "equanimidade" e vocábulos que tais...

 

            Quem sabe, por isso, Darcy Ribeiro e o Congresso Nacional, com certeiro "golpe semântico" mataram o "exame vestibular", como porta e escala únicas, para entrada em nossa educação superior, substituindo-o por diferentes "formas de acesso". Com isso, o recado: temos de preservar o direito dos desiguais, de toda sorte e origem: os vários tipos de "inteligência"; as diferentes "porções da competência humana"; os habitantes, enfim, das desigualdades geográficas, econômicas e sociais, como deseja a Unesco.

 

            Autistas, porém, no mundo acadêmico, não demos ouvidos à lei. E o "vestibular", mais que nunca, continua fincado como "cultura" e poder. Poder acadêmico, econômico, social e político! Fora, no entanto, a sociedade, impaciente, esboça sinais de eloqüente insatisfação.

 

            Um "exame terminal" (o Enem), sob outros parâmetros, ganha crédito e prestígio. Nos "porões da educação", os desprivilegiados buscam atalhos, nem sempre legítimos, de chegada à universidade, enquanto instituições públicas de educação superior se despovoam em nome da "competência" e da "qualidade", sem ter aprendido, com a Revolução Industrial (esta, quase na quarta edição), a conciliar "qualidade" com "larga escala". O Legislativo e o Judiciário, furadeiras e britadeiras às mãos, a ensaiar sucessivas aberturas de fendas, nos muros de Academo, por onde se esgueirem os excluídos...

 

            Em vão! Patrulheiros de enviesadas "igualdade" e "competência", gritamos: "Não é por aí!" Se não "por aí", fico temeroso, a pensar no dia em que seremos surpreendidos, tal como com a proibição do fumo nos vôos domésticos, com inesperado aviso: "Por decisão judicial, comunicamos a todos que... o vestibular está morto!"

 

            (Extraído da obra Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995 a 2001). Fortaleza, Edições UVA, 2002. pp. 143-146)

 

           

Amiga(o)s,

 

Com o objetivo de alimentar a discussão que intitulamos “Ciência e tecnologia, a que servem?”, tiramos do baú, artigo que escrevemos para  o Jornal “O Povo”, no ano 2000, publicado no livro “Insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza (1995). Fortaleza, UVA, 2002, pp.223-225, e que constará do Blog do Grupo Ethos-Paidéia, para discussão mais ampla.

 

Com tal gesto, gostaríamos de homenagear o Departamento de Física do Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará, pela consciência histórica de trabalhar em prol do Desenvolvimento da Região Nordestina, do País e hoje do Planeta.

 

DAS NUVENS AO SUBSOLO

 

Marcondes Rosa de Sousa

                                                                                                 

O  Povo, Fortaleza, 6/912000

 

O fato é inédito. E rompe com os estereótipos de nosso “imaginário", reacendendo em nós o orgulho de cearenses. A ele, pois, o pódio e o spotlight do olhar social.

 

É que, em avalia­ção recente da pós-graduação brasileira, o Curso de Física (Mestrado e Doutorado) da Universidade Federal do Ceará (UFC) saltou para a primeira fila do ranking nacional dos 35 cursos da área, dividida entre o Nordeste (UFC e UFPE) e o Sudeste (UFMG e USP /São Carlos). Aos quatro, a Capes/MEC atribuiu os mais elevados conceitos: "adequado" à proposta científico-pe­dagógica; e "muito bom" aos demais itens: a) qualidade do corpo docente; b) atividade de pesquisa; c) desempenho discente; d) formação ministrada no curso; e) nível das teses e dissertações; f) produção intelectual.

 

Os elogios de agora aduzem outros ângulos à nossa educa­ção, mostrando que os extremos se tocam... Não recaem, como antes, sobre o ensino fundamental, os dados quantitativos da universalização do ensino e o lado pragmático do trabalho cien­tífico, já clichês entre nós. Em vez disso, eles se referem às esferas mais altas da educação superior, de efeito multiplicador e condi­ção para a própria educação básica. Põem o foco sobre a qualida­de, pilastra e sentido (sempre esquecidos) da sustentabilidade do direito à educação. E mostram, do trabalho científico, a face pouco visível aos míopes, a base indispensável para a ciência aplicada e a tecnologia.

 

O coordenador do laureado curso, Josué Mendes Filho, credita o êxito a "uma política gerencial planejada de alto nível", ao "esforço dos professores, alunos e funcionários" e ao "suporte do Governo Estadual pela ação da Funcap/Secitece".

 

Do bolo dos parabéns, fatias muitas a distribuírem, por certo. Aos educa­dores, sugestivas pistas para o lugar da UFC no Sistema Compar­tilhado de Educação Superior, no Estado. E aos que, na planície, tecem o popular "imaginário" (onde os valores mais altos costu­mam-se ocultar no bojo do "etéreo" e do "poético"), fique-Ihes a esperança/ certeza de que nossa física paute-se pelas vias do caja­do de São José. Que, aboiando as nuvens do alto e mergulhando os lençóis das águas subterrâneas, possa ela irrigar o prosaico ro­çado de nossas vidas, fazendo rebrotar-lhe o verde.

 

Porque, lembra-nos Brecht, "se a ciência e a tecnologia não estão a serviço da felicidade humana, afinal a que servem"?

 

 

RÁDIO UNIVERSITÁRIA

Marcondes Rosa de Sousa

O povo - 20/12/2006 03:03


     Quarto de século atrás. Paulo Elpídio, em seminário geral da UFC, retoma planejamento participativo de Martins Filho, na busca de vínculos mais sólidos entre o mundo acadêmico e o povo. Aí, nasce Rádio Universitária.

     Fraco sinal, ducha de água fria joga-nos o Dentel. Baixo astral, a nos invadir, os Peros Vaz de Caminhas da idéia. Clóvis Catunda e Rodger Rogério propõem filme científico a nos distrair. O filme era a história de sofisticada ponte a ruir por causas inesperadas. Laudo dos cientistas: derrubara-a o simples soprar de brisa, na mesma freqüência dela. Liberal de Castro adentra-nos a sala, revoltado com críticas à UFC, no caso de reforma da Praça do Ferreira: "Ouvimos a sociedade. Os intelectuais queriam busto do Boticário Ferreira; o povão, uma fonte". "Eureka", bradei, "a água pode ser essa brisa". Aí, ocorre-me: "Iracema saiu do banho, o aljôfar da água ainda a roreja..."

     Na Rádio, a água jogada em poemas, letras de música, em tudo. Ao final, o bordão: "Rádio Universitária, valorizando e repensando o Nordeste". Celso Furtado, o trouxemos, para nos falar do Nordeste, um quarto de século atrás e a nos apontar secas, limitações e potencialidades nossas. Empresário de olhar avançado nos diz que, mais importante que o gás, descobrira a água; criara, não formado, até "fábrica de doutores" (uma universidade); e batizara o principal jornal do Grupo como um "Diário do Nordeste".

     Neste quarto de século último, o Ceará, o riscamos de caminhos das águas, à espera do Velho Chico, transposto a nos redimir. "Reinaugurações"  (escreve-nos o criador da Rádio, o então reitor Paulo Elpídio) são necessárias, sob a conotação do "repensar". Mas sem a arrogância dos que acreditam "passar a limpo" o País, de Cabral até hoje. Esperamos que o húmus da humildade paute os nossos caminhos.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente. E-mail: marcondes1943@yahoo.com.br

PARA PAPAI

 

Oração proferida pelo filho José, (pela famí­lia),

na missa de 7° dia, na capela Filius Dei (Colégio Christus),

celebrada pelo padre Fred Solon.

 

 

 

Tudo começou em 1936, faz setenta anos e tanto, que o diga o nove de outubro, recém findo! Como me contou a Dianinha Magalhães, no telefo­nema do dia 19, por volta das 10 horas da manhã, um dia depois da sua partida, que foi triste para nós, mas não foi uma "triste partida", porque o senhor nem par­tiu triste, nem partiu sem rumo definido: O senhor apenas voltou para o seio da mãe terra, que é parte do todo, que é Deus, clemente e misericordioso.

 

Mas, papai, o senhor queixava-se, de uns vinte anos para cá, que os seus amigos o tinham deixado sozinho, esquecendo que a média de vida, entre nós, ainda está longe de chegar perto de um século.

 

Quando escutei o que o senhor dizia, em sua doída queixa, lembrei-me do senhor Matoso, lá de Russas, morto em acidente de carro, do doutor Meneses Pimentel, seu mentor político, do seu compadre José Mala, pai da outra Neusi­nha, sua afilhada, do Monsenhor Quinderé e suas tiradas sutis e nem sempre reverentes, do doutor Josa Magalhães e sua dulcérrima Dona Aurinha, do Doutor Hélio Góis Ferreira, o santo antecessor do saudoso Waldo Pessoa, no Instituto dos Cegos, do Botelinho, marido da tia Clarisse e do Doutor Mara­nhão, do Pereira de Miranda, aquele grande e limpo homem que, por mérito, virou nome de açude, e do Vandregíselo (o pai do Geraldo Vandré), por quem o senhor pôs em risco sua carreira militar, na Paraíba.

 

Do padrinho Clóvis Mendes (o que "semeou livros, livros à mão cheia, e fez o povo pensar...). Do seu dileto compadre professor Mozart Solon (sempre com sua Lupa a pender do pescoço), dentre tantos amigos, que não foram poucos os que o senhor fez cá neste planetinha.

 

Depois, depois foram os velhos amigos, também velhos, como o Ma­nuel (conhecido como general Cordeiro Neto), o outro Adauto, lá do nosso Cariri, (conhecido como general Adauto Esmeraldo), o Portela, conhecido como ge­neral Jaime Portela), os dois últimos, parte da turma da "república de João Pessoa", na qual também morou o general Ernesto Geisel, quando serviram no 15 RI.

 

E nem falei do seu Plínio Câmara, do compadre Miguel Costa, nem dos caríssimos César Cals, do Fernando Melo e do Américo Barreira, os dois últi­mos, meus gurus e nossos muito amados companheiros. E nem vou falar da nossa meiga, leve, doce e pura Tainá, porque, invertendo a natural ordem da cronologia, foi, faz vinte anos, como disse a Neusinha à beira do seu leito final, a mãe terra, "brincar de esconde-esconde com as estrelas", nem do tio mestre Hélio Guedes, da mansão dos inocentes, seu cunhado­-filho-irmão caçula, por­que desses dois não se pode falar, pode-se apenas lem­brar com doída, mas alegre saudade, se é que saudade doída pode ser ale­gre...mas Deus, em sua bondade infinita, tudo pode, até mesmo fazer com que as lágrimas de dor transformem-se em elixir da felicidade.

 

Do Véi Severo (seu irmão por escolha recíproca), da Babá (a linda Seve­rina da Conceição Messias, lá da praia de Pitimbu). Do vovô João do Nasci­mento e da vovó Marocas, do vovô Álvaro Wayne da vovó Maria José, estes últimos, seus segundos pais. Dos irmãos Richomer, Adauto e Otoniel, bem como das irmãs Aretusa, Stella e Antusa, esta última, tão jovem, nos seus 80 anos. Dos seus cunhados Edmundo, Eithel e Elpídio Padilha.

 

Desculpe-me, papai, como sempre, serpenteando por esta estrada da vida, cuja "légua é tirana", mas que para ser percorrida, tinha esquecido de continuar contando sobre minha conversa com a Diana do doutor Josa e da dona Aurinha Magalhães. Ela me relembrou, papai, episódios engraçados do seu curto namoro com a mamãe, lá em João Pessoa, já lá se vão setenta anos e muitos meses:

 

Quando o senhor e sua querida e jovem Neuza, escapulindo da obriga­ção de namorar falando alto, no sofá da casa do vovô José Ignácio, que as­sim exi­gia que fosse, ladeados por ele e pela vovó Maria (a baronesa da lagoa), pu­nham-se a namorar na calçada da casa do doutor Josa, enquanto dona Auri­nha, em sua máquina de costura movida a pedal, compunha o po­ema que as fantasias de egípcia, com que ela, Diana e mamãe, iriam foliar no carnaval dos "clubs" Astréia e Cabo Branco, dançando, com suas som­brinhas, dançando e cantando "se essa rua fosse minha, eu mandava ladri­lhar, com pedrinhas de brilhante, para o meu amor passar..." e outras lin­das canções, quando o car­naval era movido a canções...

 

Logo vocês casaram, pegaram o hidro-avião, decolaram das águas do porto de Cabedelo e pousaram na Barra do Ceará, como os dois "cisnes bran­cos de alvacentas plumas..." do soneto de Júlio Salusse, que perto de uma hora da manhã de domingo passado, quando o senhor fazia a travessia rumo ao paraíso Celestial, sem o saber conscientemente, eu dizia para a Fátima e para meus colegas-irmãos da turma de 1966, da faculdade de di­reito da UFC, no Hotel Marinas, do Gil, do seu compadre Capitão Bezerra, comemorando os nossos quarenta anos de formatura.

 

E foi assim que tudo começou para o João, o Helinho, para mim, a Neusi­nha, a Celinha, o Chico "Pilinha" e o Marcelo (o nosso querido Celinho, o afi­lhado do Luiz Gonzaga). Posso dizer, também, que para os nossos que­ridos primos, seus quase filhos, Diomedes e Ivan Barros de Siqueira Cam­pos.

Agora, dos seus vinte e quatro irmãos, resta apenas a nossa querida tia Helena, sempre saudosa do querido tio Chico Lisboa, lá em João Pessoa, com Marilda, Lourival e Lucéle, filhos e netas, lembrando do senhor com saudade, mas com aquele sorriso maroto nos lábios.

 

***

 

         E ...,   o     que      restaria           dizer-lhe,          papai       -    pa­pai Fazendeiro, tomador de leite mugido e dançador de xote, militar brioso, que amou, bem serviu e honrou o exército brasileiro, o professor de fran­cês, na EPF Colégio Militar em que estudara, na década de vinte, no século passado, que, acima de todos, venerava Corneille, o político passional, nada objetivo, porque sempre agiu em termos do dever ser, pensando que era o ser, o admi­nistrador público de raro talento, honesto, simplesmente ho­nesto, e, o que mais, papai?

 

Apenas o filho, irmão e pai amoroso e bom. O amigo leal, sempre soli­dá­rio nas horas do aperto. O homem destemido e valente ante os podero­sos, tanto quanto meigo, gentil e humilde diante dos mais humildes. O ser humano integral, que buscou ser e foi, única, e tão-somente gente, por si­nal, gente muito boa.

 

E porque amou a Deus sobre todas as coisas; porque seguiu os seus san­tos mandamentos, porque foi um justo, renasceu com a morte, está no céu contemplando a face de deus, juntamente com todos que o antecede­ram, ve­lando e esperando por todos nós.

 

Por tudo, papai, muito obrigado, muito obrigado mesmo. E saiba que nós o amamos, e muito. E saiba também que, juntos na saudade, estare­mos sem­pre bem pertinho da sua querida Neuza, mulher bela, serena e firme, que nem as "mulheres de Atenas", que, para a nossa felicidade e alegria, haverá de ficar conosco por muitos e muitos anos, lembrando e fa­lando do senhor, com sau­dade e com alegria!!!

 

***

Ah!, papai, ia esquecendo de dizer que, para compensar o fato de não podermos comemorar os seus 100 anos de vida cá na terra, no dia 09 de agosto que vem, com a graça de deus, amanhã, dia 23 de dezembro, este seu filho José e o seu neto José Góes de Campos Barros Neto, somadas as idades, estarão completando 100 anos de vida, lembrando do senhor com gratidão, saudade e alegria.

 

         Amém!!!

 

         Fortaleza, 22 de dezembro de 2006.

         a) José Guedes de Campos Barros

 

SONETO DE NATAL

Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

 

***

 

 

         Sinto-me esse homem, do Velho Machado.  E me lembro, dos tempos iniciais da Rádio Universitária (FM), quando lançamos, certa feita, uma mensagem de Natal, que dizia: “Neste Natal, lembre-se do aniversariante”.

 

         Hoje, vejo lojas voltarem aos presépios. E até cadeias de supermercados e shoppings centers, olhares ávidos sobre os 13ºs salários nossos, arquivarem estranhos papais-noéis, reeditando os presépios de outrora.

 

***

 

 

            Na estante, acena-me o livro Terapeutas do Deserto – De Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Dürkheim – de Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff, editado pela Editora Vozes. Do Prólogo da obra, extraiamos o que nos conta Pierre Weil, Reitor da Unipaz:

 

“(...) Eu tinha acabado de conhecer Jean-Yves Leloup. Resolvi convidá-lo para uma conversa com Monique e surgiu daí uma situação muito curiosa. Jean- Yves dizia-se também muito can­sado. Dirigia nesta época o Centro Internacional de la Sainte Baulme, no sul da França, o qual tinha todas as características de uma universidade holística.

 

A Sainte Baulme está edificada sobre uma gruta e reza a tradição que Maria Madalena ao chegar à França, após a morte do Cristo, aí se refugiou. Jean-Yves fez uma escola, e,de uma certa maneira,exercia o seu sacerdócio recuperando pessoas marginalizadas por vícios diversos e "ovelhas" perdidas, como eu mesmo presenciei. Era um trabalho muito bonito, procuran­do dar à tradição cristã o seu sentido original. Um trabalho semelhante ao que Leonardo Boff vem realizando, há muitos anos, no Brasil.

Reunimo-nos em Paris e Jean-Yves falou assim: "Já que estamos todos cansados, façamos uma coisa maior. Criemos a Universidade Holística Internacional". Fizemos os estatutos, registramos na Prefeitura de Paris e, ainda na Sainte Baulme, realizamos um primeiro seminário intitulado: "A aliança" . Foi realmente um grande encontro, um evento histórico que cul­minou com a colocação do nome Aliança em um monumento da Av. de La Grande Armée em Paris. Nessa ocasião, redigimos também o programa do Curso de Formação Holística de Base. Isto ocorreu há mais de dez anos.

Depois vim para o Brasil e vocês conhecem o resto da estória. O Governador José Aparecido de Oliveira, sonhando com uma instituição como essa, convidou-me para iniciá-la e dirigi-la e, dessa maneira, nasceu a Universidade Holística Internacional em Brasília.

 

Entre os frutos desta universidade, tivemos este seminário, cujos conferencistas, Jean- Yves Leloup e Leonardo Boff, sou­beram nos brindar com o melhor de Fílon e seus Terapeutas, Graf Dürckheim e Francisco de Assis.”

 

 

FRANCISCO, O HOMEM ECOLÓGICO,

O IRMÃO UNIVERSAL (LEONARDO BOFF)

 

“(...) Tracei os grandes tópicos da vida de Francisco que serão depois aprofundados. Falaremos, nessa oportunidade, da santa humanidade de Jesus, da recuperação do presépio, da Eucaris­tia e de tudo o que recorda a passagem de Cristo por este mundo e que Francisco fez questão de lembrar. Ele recupera toda uma tradição que afastou Jesus da sua humanidade, fazen­do-o Deus, Senhor, Imperador. Traz de volta Jesus como servo, sofredor, como o irmão de cada pessoa humana. Os textos referem que ele dizia: ‘Que beleza termos um Deus que é irmão nosso! Que lindo, que extraordinário que ele nasça, que ele chore, choramingue, que ele mame o leite no peito de sua mãe!’

 

Francisco não pensa nos dogmas abstratos de Calcedônia ou de Nicéia, na natureza divina, nascendo junto com a natu­reza humana. Não. Ele pensa na criancinha que chora, que mama, e ele diz: ‘ Vamos arranjar uns paninhos, porque ele está tremendo de frio’. E assim representa o presépio, cria o presépio tal qual o conhecemos hoje em dia. O presépio é uma invenção de São Francisco, para dar carne à sua identificação. A Via-Sacra também é uma invenção de São Francisco e nela vemos, até hoje, as estações da Paixão do Cristo, novamente em seu processo de identificação.

 

Além disso, ele se identifica com a natureza e seus elemen­tos como irmãos e irmãs. Ele é irmão da cigarra, da abelha, da lesma, do irmão lobo de Gubbio e até da Irmã Morte. Essa identificação é uma grande trajetória. E por que ela é importante para nós nos dias de hoje? Porque São Francisco não é mais dos franciscanos, não é mais da Igreja, não é mais do Ocidente. Ele é um arquétipo da humanidade. Como todo arquétipo, ele sempre renasce, sempre vive, ganha novas figu­rações. Transformou-se no arquétipo do homem cordial que raça todos os seres e com eles se identifica.

 

Na biografia de São Francisco feita por São Boaventura tem uma frase que diz: ‘Francisco era tão inocente que nele renasceu o homo matinalis, o homem matinal da primeira manhã da criação’. O homem ecológico, o irmão universal que confraterniza com tudo, que religa todas as coisas, religa as mais distantes às mais próximas. Francisco casa os céus com os abismos, as estrelas com as formigas e faz uma síntese, das mais fascinantes e das mais generosas da humanidade, a partir de dentro. Une a ecologia interior com a ecologia exterior.

No Oriente, japoneses, coreanos, indianos, veneram São Francisco mais do que ao Cristo. Tudo o que é escrito sobre ele traduzido - esse meu livro sobre São Francisco tem mais de dez edições no Japão. Porque São Francisco é mais Zen...

 

O papa, em 29 de novembro de 1987, de um modo muito inteligente, proclamou-o Patrono da Ecologia. Eu acho que ele é mais do que Patrono da Ecologia. Ele é um dos arquétipos da humanidade reconciliada. Através dele podemos ter esperança­ o de nos resgatar, de nos reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus dentro de nós que rompe para fora como utopia e como realização histórica. Por isso, ele é alguém que fala à subjetividade profunda dos seres humanos, de todos aqueles que estão buscando. Por isso, ele é atual e nós é que somos velhos (...)”

 

***

 

"Pois assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um            só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros. Tendo porém dons diferentes, segundo a graça que         nos foi dada, quem tem o dom do serviço, o exerça servindo; quem o do ensino, ensinando;  quem o da exortação, exortando. Que o vosso   amor seja sem hipocrisia, detestando o mal e apegados ao bem; com amor fraterno, tendo carinho  uns para com os outros, cada um considerando   o outro como mais digno de estima." (Paulo. Apóstolo, Rm. 2, 4-10, citado por Jean Ives LeLoup)

 

O SER HUMANO É UM ENTRELAÇAMENTO,

UM NÓ DE RELAÇÕES (LEONARDO BOFF)

 

A mais rica definição do ser humano que encontrei até hoje é a definição de um grande escritor francês, chamado Antoine de Saint-Exupery, em seu romance La Citadelle - A cidadela. Ele diz: L'être humain est un noeud des relations - "O ser humano é um nó de relações" .

 

O ser humano é um nó de relações, voltado em todas as direções - para cima, para o sonho; para o alto, para Deus; para dentro de si, para o seu coração; para os lados, para os seus irmãos e irmãs; para baixo, para a terra, para a natureza. Relações em todas as direções. E o ser humano só se realiza, se ele agiliza, se ele articula as relações. Se corta as relações, ele empobrece. Então, eu diria que esta antropologia é pan-re­lacional, é uma antropologia ecológica.

 

O que é a ecologia? Pierre Weil falou disso recentemente. A ecologia é a relação e não existe nada fora da relação. Porque tudo tem a ver com tudo, em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Não existem as coisas, existem as pontes que fundam as coisas. Não existem os objetos, existem as subjeti­vidades que têm história, que estão abertas umas às outras, as relações que envolvem todo mundo. Então esta antropologia é ecológica, pan-relacional, amarra as realidades.

 

No âmbito dessa antropologia se move São Francisco. Não é preciso ser só um nó de relações, mas é preciso ser um nó de relações cordiais. A cordialidade é fundamental para São Fran­cisco, em quem tudo é amarrado no coração. Por isso, é carisma, é comoção, é vibração, é entusiasmo, é abraço, é confraterni­zação com todo o mundo em uma antropologia de relação, pan-relacional, de cordialidade para com todos os seres.

 

Uma antropologia que sabe sentir o coração das coisas. Os textos dizem que Francisco sentia o coração íntimo das coisas. Isso tem um sentido bíblico e um sentido profundamente oriental. As coisas têm coração, porque têm identidade. Então, poder sentir o coração do outro, afinar-se, entrar nesta sintonia com ele, é viver a fraternidade universal. É tomar-se árvore, pedra, oceano, estrela. Não é a estrela estar lá e você estar aqui. É você virar estrela, tomar-se sol, transformar-se em lua. É você ter a união mística (como dizem os antropólogos que estudam esse fenômeno), a fusão mística com essa realidade. Uma experiência de não-dualidade, de identificação. Não gos­to da palavra identidade. Gosto de identificação - aquele processo que vai criando a identidade, na medida em que se  identifica com o outro. Essa foi a caminhada de Francisco.

 

O filósofo francês Jacques Maritain e outros viram que, em termos sociais, São Francisco dá origem a uma democracia universal. Dá origem a uma democracia sócio-cósmica e não só a uma democracia onde as pessoas humanas são todas iguais, todos irmãos e irmãs, sem hierarquias, como é o ideal da demo­cracia. Na Igreja oficial, hierárquica nunca houve democracia. Nas ordens mendicantes, tudo é democrático, todos são eleitos, do provincial ao guardião. Tudo é decidido em reuniões que nunca acabam, onde os cabelos são arrancados e os capuzes voam. Mas estão aí, como diz São Francisco, in plano esse, todos no mesmo plano, em seu ideal de fraternidade.

 

Ele proibia que qualquer frade fosse vigário, bispo e muito menos cardeal. Nada disso. Queria que eles continuassem lá embaixo, como irmãos. ln plano subsistere, subsistindo no plano, no chão, onde todos devem estar. Portanto, é uma democracia social, os seres humanos todos como irmãos e irmãs, igualitários.

 

Uma democracia cósmica, incluindo nela outros cidadãos: as plantas, os animais, as rochas, as águas, o sol, a lua, as estrelas. Imaginem o que seria da cidade onde moramos se não houvessem as plantas? Se não existissem os passarinhos, as nuvens e uma atmosfera pura para respirarmos? Não seria uma cidade humana. Estes novos cidadãos participam do nosso convívio, devem ser respeitados, têm direito a viver. São Francisco já intuíra as legislações para a defesa dos animais e das plantas.

 

A democracia cósmica não é uma democracia biocentrada, centrada apenas na vida, porque na natureza existe a morte. A natureza é o equilíbrio vida-morte. Por isso, Francisco inclui em sua democracia todas as formas de vida e também os leprosos, os doentes, nada excluindo, nem mesmo a morte.

 

***

 

EM CONCLUSÃO

 

“Mudaria o Natal ou mudei eu?” Mudamos nós, o mundo, que se tornou ecológico, numa autêntica “democracia ecológica”, centrada na vida em abraço com a morte. Tempos, pois, de se aposentarem os “papais noéis”, porque, como diria o apóstolo Paulo, assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros.”

 

Feliz Natal!

 

 

 

 

 

 

 

Um projeto longamente apascentado

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto

 

 

              Chega a Rádio Universitária aos vinte e cinco anos de vida útil e prestante à Cultura e à Educação, fechando um ciclo memorável de brilhantes inovações na radiofonia do Ceará.

 

  Não foram poucas as vicissitudes enfrentadas por esse projeto ambicioso, concebido e alimentado por uma cumplicidade teimosa, compartilhada pelo então Reitor da UFC com um empreendedor nato, o professor Marcondes Rosa.

 

Coube-me, no exercício da Reitoria, metabolizar as idéias que se atropelavam nas nossas inconfessadas pretensões, dando-lhes forma e estratégia, caminho que se mostraria árduo, dadas as resistências que se levantaram contra a iniciativa que abraçáramos. Burocráticas, na sua maioria. Crepitavam outras na fogueira das vaidades provincianas. Foram todas abordadas (e abortadas) a seu tempo, com fleugma e persistência, que outras armas não dispúnhamos a não ser a vitalidade das ações propostas.

 

A cerimônia que agora se realiza para a inauguração do Núcleo de Divulgação em Radiodifusãio dos Programas de Extensão da UFC e a “reinauguiração” da Rádio Universitária, evoca um passivo-ativo de iniciativas bem sucedidas e as dificuldades materiais com as quais se defrontou a emissora, em alguns momentos do seu percurso.

 

Não creio que se pretenda “reinaugurar” a Rádio Universitária; afinal, não se reinaugura o que não deixou de existir. Provavelmente, a intenção se manifesta no propósito, oportuno e recomendável, de garantir a revitalização  dos objetivos da Rádio Universitária,  de uma revisão up to date da sua programação, dando-lhe densidade cultural, no plano da música erudita, sem, contudo, frustrar os canais de divulgação da criatividade da cultura popular.

 

Da última vez que lá estive, convidado para a realização de um depoimento sobre a Universidade Federal do Ceará, no ano do seu Cinqüentenário, emocionei-me como se  reencontrasse filha querida, da qual me apartara pelas imposições da vida. Entristeci-me com o estado material das suas dependências e instalações. Comoveu-me o amor e a dedicação dos que lá trabalhavam, a única certeza que traria da visita, a de que a Rádio Universitária tinha um destino a cumprir.

 

É minha intenção poupar-me e aos que me lerem da repetição das dificuldades confessadas ao visitante da ocasião, decorrentes da carência de material, de equipamentos e insumos técnicos, situação que levara, em momentos, a um processo de autofagia, como a foi o caso da utilização de fitas gravadas de músicas de uma Coleção da Deutsch Gramaphon para o sercviço corrente de novas gravações...

 

              Marcondes Rosa foi o grafiteiro do projeto, o desenhista e o articulador de idéias que fariam da Rádio Universitária um projeto inovador, dentre tantos outros assemelhados. Coube-me, testemunha ocular de todas as tramas e observador participante, enfrentar os obstáculos materiais e imateriais que foram surgindo para surpresa nossa. E, às vezes, para o nosso desânimo que, felzmente, nunca nos fez recuar nas pretensões confessadas.

 

A formalização do processo em âmbito ministerial (Ministério das Comunicações, Ministério da Educação, Radiobrás, etc.) impunha o aceite do Governador do Estado e a formalização do pedido de concessão às instâncias federais com o seu “placet”. Assim foi feito.

 

              Madruguei, certo dia, na residência oficial, como sugerira o Governador Virgílio Távora. Fui conduzido pelo seu amigo e Chefe de Gabinte Moacir de Aguiar aos seus aposentos íntimos. Sentado sobre a cama, de cuecas, calçando as meias, Virgílio recebeu-me com um sorriso zombeteiro, prevenindo-me:

 

“-- Olha doutorzinho, vou assinar o ofício ao Ministro, como lhe prometi. Abri mão do pedido que fizéramos para a concessão deste canal para a Secretaria de Cultura. Agora, veja lá, não vá essa radiozinha falar mal de mim e do meu governo”.  

 

Funcionou, inicialmente, a Rádio Universitária em amplo espaço, extraído, no prédio da Reitoria, de atividades burocráticas que me pareciam secundárias. Construímos, ali, um auditório a que denominamos Anísio Teixeira, ao lado da sala de controles, dos arquivos e dos estúdios. E por lá ficou, até que outro destino lhe foi dado, menos nobre, onde ainda se encontra.

 

Merece elogios a atenção que o Reitor René Barreira dispensa aos programas culturais da sua, nossa, Universidade. Que valha essa oportunidade exemplar para que, em um rico processo de “refundação” da Rádio Universitária, conceda-se-lhe o indispensável à sua sobrevida, novos equipamentos, instalações adequadas e acolhedoras, treinamento do pessoal e aquisição de novos talentos. Mas que, também, se faça dessa ocasião, a vez de uma ampla revisão dos objetivos da Rádio, conferindo-lhe novas perspectivas, ampliando os seus horizontes para que bem possa servir a cultura “amplo espectro”, sem adjetivações limitadoras, do tipo clássico que opõe cultura erudita a cultura popular.

 

Tínhamos razão, Marcondes, o projeto tinha tudo para dar certo. E deu.

Com o objetivo de alimentar discussão sobre a tensão igualdade/diferenças, nos padrões de nossa democracia e, nesse quadro, o caráter “múltiplo de nossa inteligência”, recobramos, de 10.01.20, artigo que publicamos no Jornal “O Povo”:

 

 

 

O PLURAL SINGULAR

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

 

O Povo – 10.01.2001

 

A democracia, em sua história, trouxe-nos dois valores fundamentais à vida humana.  Primeiro, a igualdade entre os homens.  Só depois, o direito à diferença, legado às minorias, aos criativos, a cada um de nós enfim.  Um direito plural, este último, que a todos (organizações e pessoas) nos faz singular, retirando-nos da vala comum, sob o signo da sentença fatal “distinga-se ou extinga-se”.

 

Nesse clima, é a própria ciência moderna que vem nos mostrar que a inteligência, ao invés de única, é múltipla e assume segundo Howard Gardner formas várias: 1) lógico-matemática; 2) lingüístico-verbal; 3) espacial; 4) musical; 5) corporal-cinestésica; 6) interpessoal; 7) intrapessoal; 8) naturalística.  Gardner avisa-nos que a religiosidade está prestes a configurar-se como o nono tipo.

 

As inteligências múltiplas estão derrubando preconceitos, com impactos profundos em nossa vida e educação.  Elas vêm explicar a aparente contradição: como eventuais mal-sucedidos em sua escolaridade têm êxito na vida, e vice-versa. Elas ditam novos parâmetros, debaixo dos quais, por exemplo, o templo do saber há de ter várias portas, vias e liturgias.  Figuras, pois, como o já caduco vestibular, os “provões” e encontradiças formas de avaliação, em todos os níveis, hão de ser encaradas com um certo grau de relatividade e até reserva.  Terão muito por andar até que atinjam territórios de fidedignidade maior.

 

Na avaliação dos atos humanos, a pouco chegará a escala única, centrada em conteúdos, não em processos e competências. Nos tempos plurais de agora, soa até enganoso o marketing escolar focado nos “primeiros lugares” dos vestibulares.  Cobram-se, ao lado, out doors outros com o lugar onde, na vida, estejam hoje os exitosos de outrora. E é cada vez mais firme o sentimento: na convivência humana, pouco valerá o convencional “gênio” se lhe faltam ética ou caráter!

 

(Marcondes Rosa de Sousa é professor das Universidades Federal e Estadual do Ceará, exercendo a Presidência do Conselho de Educação do Ceará)

 

Do livro Educação: insistênciase mutações- Coletânea de artigos publicados em Jornais de Fortaleza (1995 a 2001). Fortaleza, Edições UVA, 2003. p. 237.

 

 

TEMA QUE ME FASCINA

 

Jean Kleber Mattos

 

 

            Formidável, Marcondes. 

 

         Sua crônica de 2001, que eu não conhecia, abordando um tema que me fascina em 2006. O colégio dos meus filhos, por exemplo, tem como meta preparar os jovens para entrar na UnB. Quem passa, tem o retrato colocado em "out door". Quem passa para uma faculdade particular, já não tem o mesmo tratamento.

 

         Um colega meu de faculdade, professor de irrigação, comentou recentemente comigo: “esses meninos, ‘gênios’, passam num vestibular fortemente seletivo. As provas, cheias de "peguinhas" eu seria incapaz de responder. Vou além. Às vezes não consigo entender o enunciado de alguns quesitos.  Pois bem, uma vez aqui dentro da universidade, o desempenho deles é incrivelmente medíocre..."

 

         Você pegou na veia, Marcondes. Os colégios estão preocupados em treinar para passar no vestibular. Enquanto isso a verdadeira "formação" vai ficando prejudicada.

 

 

LEQUE DE ALMAS

 

Ricardo Marques

 

           

            Em resposta à mensagem do Jean Kleber comentando a excelente crônica do Prof. Marcondes, "O Plural Singular", onde o perspicaz Kleber comenta sobre a escola dos filhos dele, gostaria de tecer alguns comentários esperançosos. Me permitem?

 

            Recentemente me encontrei com um conhecido pai de ex-aluno do Cólégio Kerigma, em Fortaleza, escola da qual fui um dos fundadores e o primeiro diretor-geral. Há cerca de 3 anos, seu filho passou para Direito, na UFC. Não foi o primeiro colocado, nem apareceu em outdoors, até porque esta nunca foi a política daquela escola, pioneira em ensino crítico e educação integral. Mas o pai, alto executivo do Grupo M. Dias Branco, contou, felicíssimo, num depoimento que guardamos até hoje com muito carinho. Ei-lo:

 

            "Fui a  um evento da faculdade do meu filho, e os professores vieram me perguntar onde ele havia estudado. Perguntei por que, e eles disseram que é porque meu filho era o melhor aluno do curso. Destacaram qualidades incomuns, inexistentes principalmente nos primeiros colocados do vestibular: capacidade de pesquisa, senso crítico, organização lógica do pensamento, autonomia, cultura geral, equilíbrio emocional, proatividade etc. Disseram que ele seria um excelente profissional, em qualquer profissão que ousasse seguir, e que no curso de Direito ele se destacava, não só na participação crítica nas aulas, mas inclusive orientando colegas que tinham dificuldades porque vieram de grandes colégios da cidade que só pensam em vestibular... Respondi-lhes que ele estudara no Colégio Kerigma, e que aquela escola era de fato diferente. Diferente para melhor".

 

            Outro dia me encontrei com outra pessoa, que gerencia uma factoring. Ele teve suas três filhas estudando no Kerigma durante toda sua vida escolar. Pediu para ir a um encerramento de ano da escola, pois ele e a esposa tinham muita vontade de dizer o que o colégio havia feito pelas meninas e pela família deles. E assim foi. Numa festa de encerramento de ano letivo, lá estavam, ele e a esposa, emocionados, contando:

 

            "Muitas vezes duvidamos da eficácia do método adotado pelo Kerigma. Tínhamos arraigada em nós a velha mentalidade dos pais cearenses, de que o que importa é o filho ser preparado para passar no vestibular, e todo o resto é besteira. O Kerigma sempre nos ensinou o contrário, isto é, de que o que importa é educar; é ensinar a pensar; é construir autonomia; é estruturar o senso crítico; é produzir cultura e amor pelo saber; é trabalhar o caráter, o temperamento, os hábitos e os modos; é desenvolver a solidariedade; é criar as condições para a conquista do equilíbrio emocional; é construir conhecimento; e, também, entre outras coisas mais, é ministrar conteúdos e preparar para o vestibular...

 

            Por várias vezes pensamos em tirar nossas filhas dessa escola, achando que estivessem perdendo tempo com coisas menos importantes que não só o vestibular, e temendo que, no final, nossas meninas não passassem. Mas fomos dissuadidos pelos exemplos e pela confiança nos educadores do Kerigma. Nossas três filhas terminaram a escola, passaram tranquilamente nos vestibulares que quiseram, e hoje são referência nos cursos onde estão. Os professores não cansam de elogiar o desempenho delas, as qualidades que geralmente eles não vêem na maioria dos demais alunos, e perguntam: onde elas estudaram? E, orgulhosamente, respondemos: a vida toda no Colégio Kerigma."

 

            Colecionamos dezenas de depoimentos desse tipo, mas de outros tipos também, a exemplo de alunos escorraçados de grandes colégios tradicionais, de ensino massificado, e que nos chegaram taxados, pelo colégio e até pelos pais, de "irrecuperáveis". Adolescentes com péssima auto-estima, convencidos de que para nada prestam. Também há aqueles que, bons alunos de onde vieram, nos chegaram emocionalmente violentados e abalados, sofrendo até problemas de saúde, devido à pressão doentia que muitos destes mega-colégios fazem sobre a criança e o jovem, com relação ao desempenho em termos de notas.

 

            Colégios grandes  e tradicionais que têm belas festas e excelente infra-estrutura física. Porém, destroem a infância, arrebentam com a saúde física e emocional de quem ainda está amadurecendo, e não raro estragam os alunos para o resto de suas vidas, incapacitando-os para o que a vida deles espera, em todas as esferas. Uma vez conosco, a maioria acaba se encontrando, descobrindo seu valor e novos valores, e a transformação para melhor atinge não só o aluno, mas toda a família.

 

            Pois é, no Kerigma recebemos todo esse leque de almas. E, mesmo não sendo fácil, e mesmo falhando aqui e ali, colecionamos um sem número de histórias de sucesso, histórias que tiram lágrimas dos olhos de qualquer um que tem emoções genuínas. Pais, alunos e famílias, órfãos da esperança de uma educação de verdade, encontram no Kerigma o "porto seguro", a âncora que estabilizará o barco ante às violentas ondas que o sacudiam impiedosamente, sem rumo - as ondas de uma pseudoeducação perversa, que mata o sonho, que cansa a alma, que transforma meninos e meninas em tristes robôs...

 

            Nossas orações, há anos, têm sido para que Deus nos ajude a mudar a mentalidade dominante, e faça com que, um dia, mais pessoas despertem e valorizem uma educação de verdade. Aí sim, começaremos a ver mudanças substanciais na sociedade, para melhor.

 

            Recentemente, as universidades federais do Brasil se reuniram e propuseram o fim do vestibular, e algumas já adotaram a idéia. Estamos com a alma lavada. Em breve, o Kerigma servirá de referência naquilo que faz há quase 20 anos, e que só alguns mais esclarecidos entendiam. Agora, virão atrás de nós para aprender... E vamos receber a todos de braços abertos, pois nosso coração é de serviço e de fazer o bem, e não o de competir nem de excluir.

 

            Há esperança, minha gente.

 

           

 

 

 

 

 

     

CARTA AO PROF. CLÓVIS CATUNDA

 

     

 

     Meu Caro

     Professor Clóvis Catunda,

     Presidente da Associação dos Docentes Aposentados e   Pensionistas da Universidade Federal do Ceará   (ADAUFC)

 

     

      De início, queria lhe agradecer a visita que, recentemente, você me fez no hospital, quando mais um acidente cardiovascular me prostrou.  Nessa ocasião, você me comunicou estar à frente da ADAUFC. Deu-me inquietadoras cifras de colegas professores universitários, hoje aposentados, atingidos por essa onda de agora, a nos obrigar a todos ao ritual de iniciação no que hoje costuma  denomina “geração just in time”.

 

     Tudo, a passar-se como se apenas o “dernier cri” fosse a verdade.  Que o passado será sempre “roupa velha que não nos serve mais”, como nos versos da canção de Belchior.  E que somos todos como os modernos aparelhos: basta a aposição de um chip.  Aí, nos atualizamos e nos sintonizamos com a ciência, a tecnologia, a cultura, o saber enfim.

 

      Nesse papo, você jovem aos setenta, dava-me conta de ora presidir a recém-criada Associação dos Docentes Aposentados e Pensionistas da Universidade Federal do Ceará (ADAUFC).  E a mim, parceiro de tantos projetos juntos, na UFC e além dela, convidava para continuar um trabalho em conjunto para dar sentido à produção e a transmissão da ciência, da tecnologia e da cultura.  Mas tudo isso, sob o signo de Bertold Brecht: se o saber não está a serviço da felicidade humana, afinal a que serve?

 

      Logo que retorno à minha casa, recebo do Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, crônica sob título “Um projeto longamente apascentado”, sobre os 25 anos da Rádio Universitária.  Nela, a revelação de importantes dados sobre a história da Emissora, revelados pelo então reitor que, com Eduardo Portella, quando este “estava ministro” e, logo após, com seu sucessor, que, olhos na “abertura”, viu, no projeto, um caminho para o relacionamento pautado no diálogo entre as universidades, a sociedade, as regiões e a nação.  Tanto assim, que, era a nossa idéia que a emissora entrasse no ar, no dia do radialista, em caráter experimental, e fosse oficialmente inaugurada no dia do professor.

 

      Nessa crônica, sensibilizou-me o generoso afago a mim (o coração em pedaços e a onda “just in time” a me afogar em depressivo surto). Mas, por outro lado, preocupou-me a minimização que ora cronista emprestou a seu próprio e reconhecido trabalho em prol do meu, ele, um reitor à época apaixonado pelo projeto, fundador, com todo ardor e direito, da emissora. Minimização também, em relação a você, Clóvis, a Rodger Rogério e a tantos outros, em gentil proveito de quem, na verdade, foi mero Pero Vaz de Caminha, de nosso up grade rumo ao novo mundo - a rabiscar, sob a forma de um “pro/jeto”, uma vontade que, na verdade, não era meu mas coletivo. Referida crônica, lá está hoje transcrita no já inaugurado “sítio” (site) da ADAUFC.

 

      Da Rádio Universitária (FM), recebo convite para a sua... “reinauguração”, o que interpretei, em sua história, como a busca, em seu curso histórico de um momento novo. Ao lá chegar, encontrei a placa alusiva à sua inicial inauguração.  Uma placa lá posta por outros.  Não por mim, que quando membro de seu Conselho Diretor ou mesmo (por dois períodos intercalados) quando fui pró-reitor de extensão da área de relacionamento entre o saber universitário e o social.

 

      Gente nova, muitos, a maioria mesmo.  Caras conhecidas e alegres, outros.  Aguardo alguns instantes, à mesa de operação a olhar para o studio.  Equipamentos (fitas de rolo e raridades assim) do tempo da inauguração e mesa digital. Pergunto se o acervo em vinil e em fitas pode ser digitalizado.  O operador me mostrou o moderno processo de edição eletrônica, ali feita na hora.  Indaguei sobre entrevistas, depoimentos e seminário no Castelo Branco com Celso Furtado, Jorge Amado e sua histórica defesa da umbanda como frutos de sua culturas, e a empolgada frase arrancada por Benito Melo (se não me engano) “ai do ateu que não acredita em Deus!”, confissões de Moreira Campos ... Aí, fui vibrando.

 

      Nisso, entra Paulo Mamede. “O plano, Marcondes, é este: Por à disposição de toda essa história no site”.  No estúdio, Daniel Fonseca, tinha 15 minutos para a entrevista.   Tentei, em rápidas pinceladas, desenhar, nestes 25 anos, a interpretação dos momentos em que o País e a Universidade, no seu jogo de construtivo diálogo com a nossa sociedade, estariam vivendo.

 

      Não ouvi a entrevista.  Esquivando-me à emoção por prescrição médica, pelo ali estar, terminei dando graças a Deus (e não na televisão).  Foi que me dei conta, os olhos já úmidos, p outro lado (o catártico) da emoção: o da construção e do afago ao coração.  E vi que não me fazia mal. Muito ao contrário...

 

      A entrevista alongou-se, estourando o tempo. Não a ouvi, no ar. Saberia, na noite seguinte, quando da “reinauguração”, que muitos haviam gostado. Em traços rápidos, os últimos ... momentos da vida nacional, a relação entre a universidade e a sociedade, nesse contexto. Por fim, o papel da radiodifusão (sonora, por imagens e digital) como canais mais sólidos e abrangentes entre o saber e a inclusão social, que, hoje, quando, “crescimento econômico se metamorsoseia em sustentável desenvolvimento” (Celso Furtado), isto é, dá cor concreta e mais direta à expressão “felicidade humana”, fim último da ciência, de Brecht.

 

      Eis, didático, em poucos traços, os momentos de constante “reinauturação” e de aggionamento da relação buscada entre a universidade e nossa sociedade, em todo o País e, particularmente, no Ceará:

 

 

TEMPOS DE JK

 

       Superação do tradicional “café com leite” (São Paulo e Minas).  Cinqüenta anos em cinco. Brasília.  Ao invés da Confederação do Equador, o desenvolvimento regional.  Celso Furtado e os traços fundamentais da SUDENE.

 

      Nesse contexto, Banco do Nordeste do Brasil (BNB).  Criação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalho conjunto entre os órgãos de desenvolvimento: CETREDE, DNOCS entre outros.  Antônio Martins Filho, o criador da UFC, institui práticas de “planejamento participativo”, com vistas a um “projeto universitário” cujo horizonte se traduzia em “realizar o universal pelo regional”, que tinha por estratégia os “seminários anuais de professores”.

 

REFORMA UNIVERSITÁRIA

DE CIMA PARA BAIXO

 

       Tempos contraditórios, os da Reforma Universitária, ao tempo dos governos militares. Com ela, forçava-se a vida universitária não mais fazer-se, como nos tempos do Cardeal Newman, uma “comunidade de professores e alunos” a buscar um desinteressado saber.  Nem tampouco, por outro lado, a substituição de tal quadro, por uma casa de pesquisadores e aprendizes, como o idealizado por Humbold. Nem uma extensão como mero estágio de campo para treinamento de alunos.  Mas, ao invés disso, um equilibrado tripé de um ensino/pesquisa/extensão, a cultuar, irmanados, os três aspectos, num sólido jogo de aprendizagem recíproca entre a instituição universitária e a multiculturalidade de nossa sociedade.  Tudo, em dupla-mão.

 

      Progresso, sem dúvida, os parâmetros da Reforma Universitária.  O clima reinante no País, no entanto, era de “solidão e silêncio”.  A reforma se impunha de cima para baixo.  Qualquer abertura maior (sobretudo na área social) era tida como “subversão”. 

 

      Lembro-me que, com Clóvis Catunda - ele na área de ciências básicas e eu de Humanidades – coordenávamos do chamado Ciclo Básico.  Na área de Comunicação em Língua Portuguesa, inventamos metodologia que intitulamos “Oficina do Pensar”, que, à época, o MEC elegeu um das mais ousadas metodologias para o ensino. 

 

      Mas, um dia, um braço do SNI na UFC, me chamou.  E a questão era o título. Queriam tais órgãos explicações sobre o termo ... “pensar”.  E, sobretudo, “pensar para quê”.  Respondi com Roland Barthes: ”Pensar, para nós, é um verbo intransitivo”- querendo eu dizer que não nos interessava o objeto do pensar... Mas, estruturalista que eu então era, queria enfatizar o processo de pensamento resulltante da percepção sensorial e das conotações afetivas.

 

      Eles não entenderam nada. E o resultado é que passei a ser vigiado por uns 20 anos, constando, na ficha “Modelo 14” dos chamados “órgãos de segurança”, como um dos “12 mais perigosos do País”... E sem poder promovido, não apenas por tempo de serviço mas também por concurso, já que o órgão não me liberava...

 

TEMPOS DA ABERTURA

“LENTA E GRADUAL”

 

       Com a abertura “lenta e gradual”, sinalizada por Geisel, débeis - mas crescentes - brisas começaram a soprar.  Um dia, Paulo Elpídio de Menezes Neto é escolhido reitor.  Coordenador do 1º Ciclo de Humanidades, vou a um encontro em Minas e, no avião, leio no jornal que eu havia sido escolhido por ele como “assessor de planejamento”.

 

      Não entendi bem p’ra quê.  Aos poucos, lá fui eu, cuidar de coleções, que ele me estimulava à UFC a coordenar: a) Pensamento Universitário (as de maior densidade); “Documentos Universitários”; “Temas do Nordeste”, a partir de algumas teses separatistas, versão ufanista da “Confederação do Equador” (iniciada por Paulo Lustosa), que, em seu Volume 03, ganha versão histórica com Celso Furtado.  E todo um repensar da cultura e pensamento da Universidade sobre o Ceará, a Região Nordestina e o Brasil.

 

      Daí nasceria o Plano Estratégico da Instituição, com a amplitude maior, em seu diálogo com governos e os diversos estamentos sociais, que nos tempos anteriores, se limitavam aos “professores” e órgãos de desenvolvimento.

 

      Fruto dessa percepção ampla, nasceriam e se firmariam a Rádio Universitária (FM),  os grandes seminários, uma pesquisa orientada para o Estado e a Região, o cinema e o audiovisual e muitos outros projetos.

 

***

 

OS TEMPOS PLURAIS

DE NOSSO AGORA E FUTURO

 

       Estive na “reinauração da Rádio”.  E lá, confesso que me faz bem o reencontro com o “in illo tempore”.  Senti-me um pouco sem jeito pela magnificação que havia feito de minha tarefa o fundador da Emissora, o reitor Paulo Elpídio, com as loas que soem atribuir-se às “antecipadas flores ao caixão” (como me dizia um médico sobre meu pavor a comendas e homenagens).  Clóvis e Rodger, que hoje estão na ativa, sei que entendem o gesto dos que ali e alhures me dirigiam turibulações históricas.

 

      Doeu-me, porém, a falta de menor referência a Paulo Elpídio.  De minha parte, nada disse.  Só pensei sair “de fininho” e ir-me embora.  Felizmente, eu conversava com eclética mesa, onde funcionários antigos ali reapareciam,  amigos eleitos e reeleitos para importantes postos no Estado e na União.  Da boca deles, felizmente, olvidar o nome de Paulo foi, no mínimo, um gesto de descortesia...

 

      Dia seguinte, fiz tudo para ir à festa de Natal da Adaufc, na reitoria, talvez a de prédio mais belo, em nosso País, num tributo disso pela Coelce, que a iluminou.

 

      Lá, reencontrei muita gente.  O “sítio” (site) se lançou.  De todos, ouvi a necessidade de os aposentados da UFC algo fazerem para levar à frente o projeto iniciado décadas atrás.  Agora, sim, a “reinauguração” é o olhar de nosso retorno sob a atualizada feição do agora. Diferente, é óbvio: a rádio, a universidade, os tempos de agora.

 

      Não dá é para a gente pensar que um chip com o dernier cri é o bastante. Ou a petulância de pensar que o passado é roupa velha que ao nos serve mais. E que os que nos antecederam serão sempre os responsáveis pelos quatrocentos anos de desacertos ... “deste País”!

 

      

JUNTANDO OS CACOS DE SOLIDÃO

 

       Minha esperança é que haja, a solidarizar ações, um esforço de todos nós. Foi aí que me lembrei de insight meu sobre ação solidária, a passar por cima dos minifundiários e tradicionais até de público e privado.

 

      Pensava, quando presidente do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, levar os estados para conhecer as universidades comunitárias.  Não foi possível.  No MEC, então, havia rejeição.  Terminei por receber convite para levar lá o então Vice-governador, Beni Veras, prefeitos, deputados e autoridades de todos os partidos.

 

      Lá chegando, tudo eram festas e reflexões.  O então governador, que gostava de Beni, brincou conosco afirmando que aquela era reunião insólita.  Primeiro, porque eles, culturalmente, em Santa Catarina, eram tão diferentes que a única saída foi eles, de diferentes culturas e procedência, se juntarem.  Segundo, aquela reunião ali era algo insólito: um estado “cabra da peste” e macho, visitando um estado feminino.  E por aí, pela via do humor, foram dias de muita reflexão, ultimada afinal, com reunião no Conselho Estadual de Educação.

 

      Reitores de todas as regiões do Estado. Afinal, Beni me passa a palavra.  Um reitor afinal, faz alusão, aos diferentes encontros- com o Governador, com as universidades, com o Poder Legislativo – e a pergunta: “Então, professor Marcondes, um modelo para o Ceará ou para o Brasil?”  A pergunta era uma alusão a pergunta agressiva que me fizera o repórter de uma televisão.  Ele contou quantas pessoas ali e perguntou: “O que é isso?  Mais de vinte pessoas visitando todo o Estado.  Turismo oficial?”.

 

      Sorri e expliquei quem éramos nós e o que estávamos vendo ali.  Talvez ele não soubesse o que era curiosidade, não só nossa mas de todo o Brasil.  E me alonguei.  O repórter, calado, deixou-me falar.  Ao terminar, a presidente do Conselho disse: “Estás vendo, guri. Desta vez tu te estrepaste, com tuas posturas desaforadas”.  Ele, sem jeito, me pediu desculpas.  E, no Jornal Nacional, não fez corte algum da entrevista.

 

      Na reunião final, um conselheiro me faz a pergunta, de novo.  Eu respondo: “Para o Brasil sim. Para o Ceará, temo que não”.  E ele: “E por quê?” Digo-me que, no Ceará, tudo, a meu ver, é fruto da solidão do vaqueiro: “O vaqueiro, a rês à frente; entre os dois, a caatinga, Deus e a solidão.  Não nos move a solidariedade que o “estado feminino” de que nos falou o governador.

 

      O conselheiro, um antropólogo, confessou de mim discordar.  Dizia estar eu entrando em contradição.  Há pouco, homenageara, com flores, a primeira presidente da história de Santa Catarina, um “estado feminino”, visitado pelo estado masculino, o dos solitários e machos vaqueiros.  Via eu a aparência masculina de meu estado, mas se esquecia de algo fundamental.  “Por baixo da solidão do vaqueiro” – afirmava-me “o senhor não se dá conta de que  nela se abriga “porção feminina da alma nacional: Ou o senhor se esquece onde nasceu ... Iracema?”. E o senhor se

Risos gerais. Engoli seco a lição!

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 

       As associações docentes poderão explorar essa “porção feminina”, rejuntando nossos cacos de solidão.  São vários os sindicatos, mesmo entre as universidade públicas. Várias as facções políticas. É possível a união de todas essas porções.  E humildade, de húmus latino, vem de chão.  Arrogância e onisciência não nos poderão levar a lugar algum.

 

      Posso dar uma ajuda nessa direção.  Faz pouco, uma colega da universidade e da Rádio, a propósito dos elogios de Paulo Elpídio, dizia que, no passado, era eu por demais vaidoso e hoje estava no extremo oposto.  Concordei com ela. 

 

      Até a 5ª. edição do Fest Rio, aqui no Ceará, eu fumaça “Hollywood o sucesso”.  Sempre fiz dele uso para afugentar, em meu gabinete da UFC, o coronel responsável pelo órgão de segurança.  Quando ele vinha, ordem geral: “todo mundo fumando”. Afugentado pelo cheiro da nicotina, ele nos deixava em paz.  Em meu primeiro infarto, o médico, em minha ficha, apôs o carimbo “tabagista”.  Guardei por anos, o maço de cigarro que, com dores, levei para o hospital.

 

      Hoje, não me acho o sucesso. Agora, vivo a era do chamado de “pensamento complexo”, onde os contrapontos são percepções que se somam. Só peço às pessoas que se lembrem da fábula onde os cegos descreviam um elefante a toca-los, cada qual o descrevendo de acordo com suas percepções tácteis.

 

***

 

O SEMINÁRIO GERAL

 

Coleção Documentos Universitários (Vol 3)

Seminário Geral –

Uma tentativa de Administração Solidária

(Reflexões geradas no Seminário Geral do UFC, realizado no segundo semestre de 1979)

 

Apresentação pelo Editor da Coleção

 

      Ao imitir-se no cargo de Reitor da UFC, o Professor Paulo Elpídio de Menezes Neto, dirigindo-se à Comunidade Universitária, conclamava-a a um esforço conjunto no sentido de construir um “projeto universitário”, “com a vocação definida de realizar o universal pelo regional”, tarefa que, segundo ele, pressupunha a retomada das práticas do “planejamento participativo”, outrora exercitadas na instituição. E anunciava, como “passo primeiro (...) nesse sentido”, a instalação do “III SEMINÁRIO ANUAL DE PROFESSORES”.

 

      Meses após, sob um novo rótulo e dimensões mais amplas, instalava-se o SEMINÁRIO GERAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARA, com o intuito básico de provocar uma gradativa solidarização na administração universitária, por força do envolvimento crescente de professores, alunos e funcionários no processo decisório da UFC.

 

      Em meio a expectativas diversas no seio da Comunidade Acadêmica, iniciou-se o Seminário Geral. Com efeito, esperavam alguns que ele se constituísse numa espécie de vara-de-condão, que, em tudo tocando, tudo transmutasse. Emprestavam-lhe esses o caráter mítico e de sabor nostálgico de reedição do espírito reinante na Universidade, nos anos 60. Alimentavam, ingenuamente até, a crença de que o pretendido processo de discussão se desencadearia naturalmente, sem que houvesse a necessidade de um intenso trabalho de preparação, sensibilização e organização, impulsionado tão somente pela força intrínseca da “comunidade universitária” (à época, uma ficção’ pura, já que formada da justaposição de três ditos ‘corpos”, que não chegavam a configurar-se em “corpus”. . .)

 

      Temiam outros que a atmosfera de apatia reinante na Universidade terminasse por impedir o êxito da estratégia. Afinal, saíamos (era o argumento) de um longo tempo, em que, na instituição, haviam germinado as sementes plantadas de solidão e silêncio. Trabalho e pensamento universitários estiolavam-se, reclusos entre as paredes das salas de aula, dos laboratórios e dos gabinetes. A ausência do diálogo era cerca invisível, separando a todos. Querer demais, portanto, seria supor que bastaria o Reitor garantir “O Seminário é pra valer” e, imediatamente, todos seriam capazes de se impostar uma improvisada e madura postura de entrosada e clarividente “junta médica”, a traçar seguros diagnósticos. Dos males da instituição, prescrevendo-lhe eficaz e pronta medicação.

 

      Havia ainda temores de outra ordem. É que os professores haviam sido condicionados ao rotineiro trabalho como obreiros da Universidade do Poder. Em tal situação, um encontro com tais características poderia despertar-lhes a explosão de sentimentos implodidos., sob a forma de uma gigantesca “catarse coletiva”. Assim, a “grande mesa-redonda”, proposta objetivando a um conjunto planejamento universitário, talvez terminasse em um emotivo e. infrutífero “monólogo coletivo”, não atingindo, dessa forma, o esperado nível de um sereno e produtivo diálogo da Comunidade Universitária.

 

      Não obstante esse quadro, a Universidade, no curso do segundo semestre de 1979, viveu, em seus departamentos e centros, envolvendo seus professores, alunos e funcionários, a experiência do Seminário Geral.

 


 

      Durante e logo após o Seminário, o pensamento dominante, principalmente entre os professores, era o de que o Seminário havia fracassado em seus objetivos. O “fracasso do Seminário”, de afirmação, tornou-se um clichê. E começou a ser repetido por todos, conquanto inquestinado e inexplicado.

 

      Mais que a constatação de um fato, a frase foi soando como o sintoma de uma sensação geral que invadia a Comunidade Acadêmica. Que sensação era essa e que motivos a explicariam?

 

      Várias razões podem ser arroladas como explicativas de tal sensação. Uma delas reside, sem dúvida, na expectativa irrealista criada por muitos quanto ao Seminário. Em realidade, o “passo primeiro” dentro de um processo de planejamento participativo não teria a suficiente força para devolver à Instituição os espaços de liberdade acadêmica e, muito menos., a inexistência de angústia financeira dos nostálgicos anos 60. Não poderia, por outro lado, em um curto espaço de tempo, romper com a apatia geral nem concluir pela arquitetação de um plano que, a um só tempo, diagnosticasse e remediasse os crônicos males da Instituição.

 

      Muitos tomaram o Seminário como um canal novo que se abria para a informação da Administração Superior sobre os problemas que os afligiam em seu trabalho acadêmico. Na esperança de ter tais problemas sanados é que esses participaram do Encontro. Em muitos casos, porém, a solução não veio, logo após o Seminário. Daí a decepção pessoal e o descrédito em relação à estratégia.

 

      Não foram poucos os que esperavam que o tom democratizante do Seminário terminasse por minar as bases da administração universitária, tomando-a menos fechada, mais flexível e menos centralizante. Na verdade, nossa administração é um sólido edifício, cujas estruturas (da base departamental aos estamentos superiores) guardam ainda resquícios coronelistas, sedimentaados no curso de sua formação histórica, de difícil remoção. Dessa forma, estrutura administrativa e Seminário Geral aparentavam a muitos professores como dois espaços em contraste: o formal, centralizante, e o informal – permitido campo para a exercitação do jogo democrático não-oficial.

 

      Se, porém, encararmos o Seminário Geral como um primeiro passo para a retomada de um planejamento participativo e a essa experiência atribuirmos expectativas mais modestas e realistas, certamente teremos de lhe admitir saldos mais positivos. Com efeito, conseguiu ele semear as bases para um trabalho solidário na UFC. Despertou, com certeza, os membros da Comunidade Universitária para uma visão não fragmentária sobre os problemas da Instituição. Antes dele, cada um enxergava sob uma ótica, senão individual, pelo menos setorializada. Com ele, o “meu problema” foi, aos poucos, cedendo ao “problema de todos”.

 

      A partir de quando se instalou o Seminário Geral, têm surgido, na UFC, grupos de reflexão para estudo dos problemas da Instituição. Os colegiados, tradicionalmente órgãos de comportamento predominantemente cartorial, já ensaiam, alguns, conduta que transcende ao mero “aprovar processos”, debatendo as questões de maior substância. E, sem que lhe possamos atribuir uma relação direta de causalidade, o fato é que, desde então, criou-se, na Universidade, um clima propício ao associonismo, expresso no crescente fortalecimento das associações docentes, estudantis e dos servidores. Do acervo de contribuições e sugestões resultante da tempestade-de-idéias que representou o Seminário Geral, conseguiu a Administração Superior a base para o seu PLANO ESTRATÉGICO, em uma tentativa de “leitura” do perfil dos problemas da Instituição e dos rumos, na ótica da Comunidade Universitária, a serem percorridos na construção do “projeto universitário” a que se referiu o Reitor.

 


 

 

      Talvez sem a intensidade esperada, por outro lado, tem a Comunidade Universitária sido chamada a se pronunciar sobre questões vitais à Instituição. Por meio do “sistema de consultas”, os departamentos têm participado do processo de discussão sobre a reforma do 1º. Ciclo, a melhoria do sistema de bibliotecas, a alteração da legislação interna que regula o regime do trabalho docente, entre outros questionamentos.

 

      O Seminário Geral, portanto, não representou um “fracasso”. No mínimo, foi um processo de reeducação da Comunidade Universitária.

 

·                          * *

 

      Com a publicação deste número, dedicado ao Seminário Geral da UFC, a Coleção Documentos Universitários, mais do que simplesmente registrar a experiência, pretende estimular o debate sobre ela, com o intuito de encontrar melhores formas para um eficiente processo de planejamento participativo.

 

     

Prof. Marcondes Rosa de Sousa

Editor da Coleção Documentos Universitários

 

 

 

Dados sobre o Seminário Geral

 

      2.1 – Instituição

MENINOS,

EU VI! ...

 

Jornal Tribuna do Ceará, 02.11.1993

 

         Eram, no mínimo, seis ônibus, à nossa espera em frente ao Cambeba. Aos poucos os lotávamos. Nós, ali, éramos uma representação simb6lica dos diversos pedaços em que se compõe a alencarina cidadania: estudantes, militares, donas de casas, intelectuais, líderes sindicais e comunitários, políticos, jornalistas, funcionários púb1icos, pessoas comuns. Pacajus era o nosso destino. Havíamos sido convidados por Ciro e fazíamos parte de uma inusitada "Operação São Tomé", aquele que exigiu ver para crer. E, em Pacajus, buscávamos a prometida água, vinda do Orós e do Jaguaribe, em direção a Fortaleza, pelas vias de um canal sob suspeita.

 

         Uma hora de estrada e eis que surge o canal. Respeitosos, os ônibus o margeiam em procissão. E às janelas de nossos veículos, ele transcorre, manso, sinuoso, verdadeiro, "caminho das águas". Perseguimo-lo, então, por quilômetros, curso acima. E, meia hora depois, retomamos ao ponto em que ele despeja as águas que abastecem a nossa Metrópole.

 

         Era de ver-se a euforia de todos ali apeados, ante a presença da água, o nosso totem maior. Havia os que se compraziam com a pura contemplação silenciosa das águas. Outros, porém, iam mais longe e procuravam tocá-la. Muitos, de câmeras à mão, queriam guardá-la na imagem da fotografia e do vídeo. E, como que procurando flagrá-la sob a conotação do real, pediam-nos ora que posássemos a compor aquele cenário natural, ora que operássemos suas máquinas para que pudessem figurar como personagens daquele momento sem par.

 

         À sombra de um cajueiro, aguardava-nos um improvisado audit6rio, onde informações sobre o canal estavam programadas. O Governador chega sorridente e começa a sua fala esbanjando fluência, fazendo das palavras um brinquedo e jogando com a nossa emoção. Lírico, faz-nos experimentar da música das águas, do frescor do rio artificial correndo ali ao lado, em meio à aridez de uma seca que a todos castiga, e onde crianças alegres esquecem, por momento, as dores que se abatem sobre seus lares.

 

         Didático, recompõe o itinerário daquela obra, em seus antecedentes e construção. E, pincel atômico a mão, vai traçando um desajeitado mapeamento daquele "sonho coletivo" do povo do Ceará. Ciro mostra as águas a se derramar no Açude Pacajus e a prosseguir viagem até Fortaleza. Fala da prudência aconselhada por todos os técnicos. Teríamos água até março de 95, se não cair uma gota de água a mais até lá. Mas é preciso cautela. Por isso, o racionamento, que deverá continuar até dezembro. Por isso, a necessidade de se poupar a água que entra, dando vazão apenas à estritamente necessária ao consumo racionado de Fortaleza. Daí, o tom do Governador vai se acalorando e tomando-se épico. Ele diz da ousadia coletiva dos cearenses. Fala dos vôos mais altos em transpor águas, culminando com a convivência com o "Velho Chico" entre nós.

 

         Mas, de repente, o rosto de Ciro se ensombreia. É quando ela fala dos vilões nessa hist6ria. Dos que querem a todo o custo, salpicar de areia o sonho coletivo de todos nós. Ciro fala de seus próprios sofrimentos, de pesadelos à noite, das fofocas, do baixo nível, das ficções de sabotagem que lhe passam pela cabeça. Aí, pede desculpas e licença para também ter o direito de ser gente e confessar-se de "saco cheio".

 

         No auditório, os circunstantes, tocados, aplaudem num sinal a Ciro do reconhecimento a seu direito de ser gente. Mas aplaudem mais ainda quando o governador agradece a todos os deputados e senadores (mesmo os seus mais ferrenhos opositores políticos) que tudo fizeram para aprovar, no Congresso, as verbas federais destinadas a parte da construção do canal. As palavras finais são de franquia da obra e de sua história a toda a população.

 

         Palmas muitas. Do meu lado, escuto, baixinho, uma referência mista a César e São Tomé: "Pois é vim, vi e... acreditei". Em Fortaleza, retomo ao trabalho. E quando me perguntam pelo canal, não disponho de filmes, de vídeos ou documentos. Pouca coisa consigo dizer, a não ser o refrão do velho I-Juca-Pirama: “Meninos,eu vi”

 

Marcondes Rosa de Sousa é pró-reitor de Extensão da Universidade Federal do Ceará (UFC) e escreve às terças-feiras neste espaço.

                   

Lei do Silêncio (Discussão)

23:03 @ 25/12/2006

Lei do silêncio
Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 06/12/2006 01:55

Madrugada. Imposto-me de paciências, ante o temor de, cardíaco, voltar à UTI. E driblo o sono, prescrito por médicos, ante os decibéis da vizinhança.

Disque silêncio? Farsa! Na Web, jurista adverte-nos. Não se cumpre. Mas não coisa de agora. Antes de Cristo, na velha Roma, os césares prescreviam: carros de rodas não podiam entrar na cidade. E poeta irônico clamava, séculos depois, contra a velha Roma a lhe ferir, na cama, os ouvidos. Na vetusta Inglaterra, um século após Cristo, Elizabeth I chegou a proibir, para não incomodar os vizinhos, que os maridos, de 10 da noite ao amanhecer, batessem nas mulheres...

Somos farisaicos e cartoriais. Leis, as temos: de condomínio e do novo código civil. Mas investimos, de forma caricata, no "ócio produtivo", o turismo como negócio. Isso, à moda tailandesa, que os jovens, mais diretos, traduzem: "no dueto entre gringos e prostitutas". Veja em aeroportos, restaurantes, praias, boates, buffets em tempo integral (full time). Iracema e iracemas a se tornar, de guias, em mercadorias.

                    Sopram novos ventos. Cidadãos, não seremos incomodados a nos retirar. Novo tempo: a vida em novos padrões éticos e estéticos. E os eleitos o foram por essas aragens.

 De Cid Gomes, sei do tato e do ouvir. De Luizianne, testemunhei sempre dignidades. Ciro Gomes e João Alfredo, conheço-os alunos na UFC. De João, guardo versos que dele recebi nas eleições:"Levo na alma as dores e angústias de nosso povo sofrido. Meu coração carrega palavras vivas, prenhes de crença e esperança. Colho propostas e anseios. Semeio versos, flores, projetos. Sou rio caudaloso a receber sonhos e pelejas que deságuam no mar grande de nossa utopia maior".

Que tais águas engrossem o "mar grande da utopia maior" de todos nós. Foi a esperança que depositamos na urna eletrônica!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará(Uece). Escreve quinzenalmente. E-mail: marcondes1943@yahoo.com.br

 

Da Coluna de Leda Maria, no Dário do Nordeste, extraímos:

 

       O PROFESSOR MARCONDES...

...Rosa faz um comentário importante e nos diz: ´Disque silêncio? Farsa! Na Web, jurista adverte-nos. Não se cumpre. Mas não são coisas de agora. Antes de Cristo, na velha Roma, os césares prescreviam: carros de rodas não podiam entrar na cidade. E poeta irônico clamava, séculos depois, contra a velha Roma a lhe ferir, na cama, os ouvidos. Na vetusta Inglaterra, um século após Cristo, Elizabeth I chegou a proibir, para não incomodar os vizinhos, que os maridos, de 10 da noite ao amanhecer, batessem nas mulheres...


Somos farisaicos e cartoriais, prossegue Marcondes Rosa. “Leis, as temos: de condomínio a do novo código civil, mas investimos, de forma caricata, no ´ócio produtivo´, o turismo como negócio. Isso, à moda tailandesa, que os jovens, mais diretos, traduzem: ´no dueto entre gringos e prostitutas´. Veja em aeroportos, restaurantes, praias, boates, lojas, em tempo integral (full time). Iracema e iracemas a se tornarem, de guias, em mercadorias. Soprarão novos ventos?

 

ADESÃO DE JOÃO ALFREDO

 

      Amiga(o)s,

 

      Confesso-lhes. É com emoção que, do Deputado Federal João Alfredo (PSOL/Ce), joaoalfredo5050@yahoo.com.br>, recebo a mensagem abaixo, sobre o artigo “Lei do Silêncio”:

 

        

         Caro Professor Marcondes,

 

      Quero agradecer a referência generosa e a citação de um poema que, mais que versos, são minha profissão de fé. Pode contar com esse poeta menor e militante da luta do povo. Muito obrigado,

 

      João Alfredo

 

 

 

          Do Vereador José Maria Pontes, gabinete@fortalnet.com.br, recebo, a propósito do artigo “Lei do Silêncio”, a informação e as considerações a se­guir: 

          Caro Prof. Marcondes Rosa,

 

          Sem saber que o jornal O POVO, de ontem (06/12), estava publicando um artigo de sua autoria sobre a polui­ção sonora, utilizei a tribuna da Câmara Municipal para criticar a inexistência de órgãos públicos para cuidar do silêncio da cidade.

          Fiz uma pesquisa sobre as dezenas de doenças que podem ser causadas pelo excesso de som na cidade. Também coloquei que o Disque-Silêncio não funciona. Apresentei dezenas de cópias de matérias publicadas pelos jornais locais, abordando esse grande problema de Fortaleza, que é a poluição sonora.

           Já realizei de 5 a 6 audiências públicas sobre esse tema e nada melhorou. Apresentei também inúmeras leis (Federal, Estadual e Municipal), mostrando que o pro­blema não é a lei e sim o não cumprimento da lei, por parte de quem deveria fazer. Infelizmente o Disque-Si­lêncio é realmente uma farsa e só resta a esperança de ver o Ministério Público agir.

            Quem tem dinheiro em nosso país está acima da lei. Constrói-se dentro do mar, dentro dos mangues, au­menta-se o som em qualquer lugar e hora e não se faz nada, apesar das denúncias.

            Parabéns pelo artigo e continue denunciando.

            Um cordial abraço,

             Vereador José Maria Pontes (PT) 

 

NÃO NECESSITAMOS DE MAIS LEIS...

 

       Caro Vereador,

 

       não necessitamos de leis e mais leis, temos sobre o assunto a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98) e a parametrização na nossa Legislação do Trabalho, com uma das NR tratando do assunto.

 

       Quem se sentir prejudicado, basta ligar  para 197 ou ir a Delegacia mais próxima. O delegado de plantão deve acionar a Perícia Criminal (Polícia Técnico-científica - Instituto de Criminalística) para os exames.

 

       Os exames são realizados com o uso de um decibelímetro e o Perito Criminal tem 20 dias para apresentar seu Laudo,  o qual é incluído no Inquérito a ser encaminhado ao Judiciário. A questão é criminal.

 

       Tudo em conformidade com o Código Penal e o Código de Processo Penal.

 

       É necessário apenas que a sociedade saiba o papel de cada uma das polícias. Veja mensagem sobre o tema: O papel de cada uma das polícias.

 

       Abraços,

 

       Engº/Adm. Gerhard Erich Boehme gerhard@boehme.com.br
       (41) 8411-9500

 

O DISK SILÊNCIO NÃO FUNCIONA

         Infelizmente, o que o Vereador José Maria apontou é um fato incontestável: o Disque Silêncio não funciona.

 

         Na Grande Vitória - ES, o problema é o mesmo. Quando se faz a denúncia, o responsável pelo atendimento diz o seguinte: vou medir a intensidade da poluição sonora no local onde se encontra o denunciante, que logo se esquiva. Entretanto, já houve algum avanço.

 

         Quanto às construções em determinados locais, hoje, na Serra (município da GV), onde estou como Diretor do Departamento de Planejamento Urbano, já há restrições quanto ao uso do solo dentro dos 300,00m da linha de preamar máxima, que delimita a faixa de proteção de restinga (área de preservação ambiental permanente). 

 

         Só que já há muita coisa construída, pois a s leis ambientais mais restritivas são muito recentes. Mas é uma tentativa de se iniciar algo que sirva de exemplo para nossos descendentes.

 

         Rui Dias Soares [ruidiassoares@yahoo.com.br]

 

OS DECIBÉIS DOS IMBECÍS

Leunam Gomes(*)

         Está tornando-se moda, infelizmente.  Desde as grandes cidades até as pequeninas vilas e povoados observam-se aqueles carros de som em alto volume perturbando a população.  Os proprietários chegam às portas dos bares, e restaurantes ou pequenas bodegas e, sem pedir permissão, abrem a traseira dos carros e começam a expelir barulho.

         Não querem saber se por perto há alguém precisando repousar; se há alguém querendo estudar, se há alguma criancinha precisando dormir...Os proprietários dos carros sentem-se senhores absolutos do ambiente. Mesmo que ali ao lado haja uma igreja realizando uma celebração, os donos do mundo não respeitam.  São eles os únicos que devem ser atendidos em suas vontades de aparecer. 

         Se alguém ousa pedir para baixar o volume do som é logo ameaçado. “Os incomodados que se retirem”, dizem eles do alto de sua prepotência.

         Alguns donos de bares e restaurantes já tomam a louvável iniciativa de escrever à porta que “Não é permitido som de carro”. Por pirraça as vedetes do som estacionam do outro lado da rua e põem seus sons no mais alto volume.

         Um restaurante de Fortaleza adota a seguinte postura: simplesmente não atende aos pedidos de quem liga o seu som em alto volume.  Ouvimos a seguinte conversa do garçom de um restaurante que não aceita som de carro:

 

         -O senhor tem o direito de botar o seu som, mas o restaurante reserva-se o direito de não lhe servir enquanto o seu som estiver ligado.

 

         E agora surgem as disputas entre os que são capazes de emitir um som mais alto. Já não mais se conformam com os alto falantes convencionais dos carros e estão andando com caixas extras puxadas por reboques para chamar mais atenção. 

 

         Não há a mínima demonstração de respeito às pessoas. Parece até que a falta de educação está generalizando-se. Cortesia e delicadeza  são atitudes raras, sobretudo nos jovens. Não mais se cumprimentam as pessoas com “bom dia”,“boa tarde”.  Não mais cedem-se lugares para pessoas mais idosas. Poucos se oferecem para fazer um favor em momentos de atribulação.  As expressões: “por favor”, “com licença”, “desculpe” estão praticamente banidas do vocabulário.  A idéia que se depreende desses comportamentos é a de que ser moderno significa ser grosseiro. Gentileza é coisa ultrapassada.

 

         Esta questão da poluição sonora produzida pelos carros particulares é apenas mais uma demonstração de falta de educação e da falta de noção de bom senso. O barulho é que é importante. Falar alto é que bonito. É sinal de liberdade. Quando um grupo de adolescentes desce uma escada de um prédio, saia de perto. É como se fosse  o estouro da boiada. Quem fizer o barulho maior é que ganha. O que?  Quando estão de posse de um som de carro restam-nos dois caminhos: sair de perto ou pedir a Deus paciência.

 

         Pior ainda é a qualidade das músicas expelidas. Parece até que escolhem, de propósito, as piores músicas.  Elas demonstram exatamente o nível dos responsáveis por este tipo de poluição sonora. 

 

         A música sempre foi algo muito importante na vida de cada pessoa. A música enleva a alma. Traz paz, boas recordações. Mas a poluição sonora não é música.  É agressão, é falta de respeito. É demonstração de prepotência e fraqueza.  As pessoas de bom senso não precisam recorrer as tais expedientes para chamar atenção.

 

         Basta fazer uma pesquisa para saber quem está promovendo tal poluição. Geralmente pessoas vazias, infelizes, frustradas que se comprazem em perturbar os outros. Merecem piedade porque são desajustadas.  Tentam fugir da realidade através da ilusão que tal poluição lhes pode provocar.  Por alguns momentos entregam-se a um mundo imaginário como quem foge da realidade através  da bebida ou do uso de outros meios alienantes ou alucinógenos. 

 

         Talvez o melhor caminho para tais pessoas seria um consultório psiquiátrico porque, certamente são vítimas de histórias  que lhes confundem a alma. 

         (*) Professor

         E-mail: leunamgomes@ig.com.br                   

MINISTÉRIO PÚBLICO LEVOU A SÉRIO

 

               No Grupo Ethos-Paidéia, Ricardo Marques, emite, a respeito de crônica minha a ter por tema a “Rádio Universitária”, a seguinte e lacônica opinião:

 

      Como é que o "Velho Chico" vai nos redimir, se acabaram de cortar 82% da verba para a transposição? De qualquer jeito, eu nunca acreditei no projeto, acho que os impactos ambientais negativos serão piores que os positivos, se é que estes últimos vão existir, de fato. Os riscos são bem consideráveis, e as vantagens, quase fictícias. 

 

       De minha parte, dei com artigo meu, já amarelecido e publicado em dois de novembro de 1993, no Jornal Tribuna do Ceará, eu à época, pró-reitor de extensão da Universidade Federal do Ceará.

 

            No artigo de “O Povo” – o de agora, onde minha contribuição se espreme em exatos 1.800 caracteres (aí incluídos os caracteres em branco) - , tento pelas vias do simbólico dar meu recado. Só adianto que, na crônica de “O Povo” omiti (de propósito) a caracterização completa da frase de Alencar: “Iracema saiu do banho. O aljôfar da água ainda a roreja, como a doce mangaba que corou em manhã de chuva”.  Tive receio de despertar, por sobre nossa personagem-símbolo, Iracema, conotações e apelo de cunho gustativo, de modo a estimular, nos atuais caricatos e gulosos “guerreiros brancos” a nos visitar, o destorcido apetite de fazer desta terra campo para o pervertido turismo de “guetos e putas”, na dura definição que jovens colegas de meus filhos fizeram (e ele me fotograram digitalmente a nossa praia, a “Praia de Iracema, praia dos amores que o mar carregou”, como diz a canção.

 

            Jogo, Ricardo, com palavras.  Menos sob a feição dos conceitos e mais de seu caráter mais profundo do “imaginário de nosso povo”.  Mas, “palavras são palavras nada mais que palavras” diria personagem de Chico Anísio numa alusão talvez ao “words, words, words” repetido por tantos outros.

 

            Daí, o fecho de meu depoimento: “... não disponho de filmes, de vídeos ou documentos. Pouca coisa consigo dizer, a não ser o refrão do velho I-Juca Pirama: “Meninos, eu vi!”  Mas de que isso vale?

 

            Fico em dúvida.  O Ministério Público, no Ceará, levou a sério a questão da lei do silêncio e, agora, força-tarefa reprime também a prostituição de nossas iracemas. Não estou tão sozinho, no isolamento de nossas academias, o lugar tomado pela “geração just in time”....

 

            Ontem, passei a tarde no Fórum.  Processo, na Justiça (a reclamar desaforos e desrespeito aos cidadãos, inclusive), da palhaçada de nossa saúde, na retórica de nossos governos, como a perfeição. Quando a gente deixa por menos, é desrespeitado, como fui.  Agora, é todo mundo me dando valor.  Aí, pego corda. Na verdade, é todo mundo se achando com todo o poder. Eu só descobria um certo respeito, ante os caixas eletrônicos e nos supermercados, que, invariavelmente, tinha o espaço dos “velhinhos” tomados até por jovens: “Ela está grávida” (rsrs).

 

Marcondes Rosa de Sousa