CARTA AO PROF. CLÓVIS CATUNDA
Meu Caro
Professor Clóvis Catunda,
Presidente da Associação dos Docentes Aposentados e Pensionistas da Universidade Federal do Ceará (ADAUFC)
De início, queria lhe agradecer a visita que, recentemente, você me fez no hospital, quando mais um acidente cardiovascular me prostrou. Nessa ocasião, você me comunicou estar à frente da ADAUFC. Deu-me inquietadoras cifras de colegas professores universitários, hoje aposentados, atingidos por essa onda de agora, a nos obrigar a todos ao ritual de iniciação no que hoje costuma denomina “geração just in time”.
Tudo, a passar-se como se apenas o “dernier cri” fosse a verdade. Que o passado será sempre “roupa velha que não nos serve mais”, como nos versos da canção de Belchior. E que somos todos como os modernos aparelhos: basta a aposição de um chip. Aí, nos atualizamos e nos sintonizamos com a ciência, a tecnologia, a cultura, o saber enfim.
Nesse papo, você jovem aos setenta, dava-me conta de ora presidir a recém-criada Associação dos Docentes Aposentados e Pensionistas da Universidade Federal do Ceará (ADAUFC). E a mim, parceiro de tantos projetos juntos, na UFC e além dela, convidava para continuar um trabalho em conjunto para dar sentido à produção e a transmissão da ciência, da tecnologia e da cultura. Mas tudo isso, sob o signo de Bertold Brecht: se o saber não está a serviço da felicidade humana, afinal a que serve?
Logo que retorno à minha casa, recebo do Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, crônica sob título “Um projeto longamente apascentado”, sobre os 25 anos da Rádio Universitária. Nela, a revelação de importantes dados sobre a história da Emissora, revelados pelo então reitor que, com Eduardo Portella, quando este “estava ministro” e, logo após, com seu sucessor, que, olhos na “abertura”, viu, no projeto, um caminho para o relacionamento pautado no diálogo entre as universidades, a sociedade, as regiões e a nação. Tanto assim, que, era a nossa idéia que a emissora entrasse no ar, no dia do radialista, em caráter experimental, e fosse oficialmente inaugurada no dia do professor.
Nessa crônica, sensibilizou-me o generoso afago a mim (o coração em pedaços e a onda “just in time” a me afogar em depressivo surto). Mas, por outro lado, preocupou-me a minimização que ora cronista emprestou a seu próprio e reconhecido trabalho em prol do meu, ele, um reitor à época apaixonado pelo projeto, fundador, com todo ardor e direito, da emissora. Minimização também, em relação a você, Clóvis, a Rodger Rogério e a tantos outros, em gentil proveito de quem, na verdade, foi mero Pero Vaz de Caminha, de nosso up grade rumo ao novo mundo - a rabiscar, sob a forma de um “pro/jeto”, uma vontade que, na verdade, não era meu mas coletivo. Referida crônica, lá está hoje transcrita no já inaugurado “sítio” (site) da ADAUFC.
Da Rádio Universitária (FM), recebo convite para a sua... “reinauguração”, o que interpretei, em sua história, como a busca, em seu curso histórico de um momento novo. Ao lá chegar, encontrei a placa alusiva à sua inicial inauguração. Uma placa lá posta por outros. Não por mim, que quando membro de seu Conselho Diretor ou mesmo (por dois períodos intercalados) quando fui pró-reitor de extensão da área de relacionamento entre o saber universitário e o social.
Gente nova, muitos, a maioria mesmo. Caras conhecidas e alegres, outros. Aguardo alguns instantes, à mesa de operação a olhar para o studio. Equipamentos (fitas de rolo e raridades assim) do tempo da inauguração e mesa digital. Pergunto se o acervo em vinil e em fitas pode ser digitalizado. O operador me mostrou o moderno processo de edição eletrônica, ali feita na hora. Indaguei sobre entrevistas, depoimentos e seminário no Castelo Branco com Celso Furtado, Jorge Amado e sua histórica defesa da umbanda como frutos de sua culturas, e a empolgada frase arrancada por Benito Melo (se não me engano) “ai do ateu que não acredita em Deus!”, confissões de Moreira Campos ... Aí, fui vibrando.
Nisso, entra Paulo Mamede. “O plano, Marcondes, é este: Por à disposição de toda essa história no site”. No estúdio, Daniel Fonseca, tinha 15 minutos para a entrevista. Tentei, em rápidas pinceladas, desenhar, nestes 25 anos, a interpretação dos momentos em que o País e a Universidade, no seu jogo de construtivo diálogo com a nossa sociedade, estariam vivendo.
Não ouvi a entrevista. Esquivando-me à emoção por prescrição médica, pelo ali estar, terminei dando graças a Deus (e não na televisão). Foi que me dei conta, os olhos já úmidos, p outro lado (o catártico) da emoção: o da construção e do afago ao coração. E vi que não me fazia mal. Muito ao contrário...
A entrevista alongou-se, estourando o tempo. Não a ouvi, no ar. Saberia, na noite seguinte, quando da “reinauguração”, que muitos haviam gostado. Em traços rápidos, os últimos ... momentos da vida nacional, a relação entre a universidade e a sociedade, nesse contexto. Por fim, o papel da radiodifusão (sonora, por imagens e digital) como canais mais sólidos e abrangentes entre o saber e a inclusão social, que, hoje, quando, “crescimento econômico se metamorsoseia em sustentável desenvolvimento” (Celso Furtado), isto é, dá cor concreta e mais direta à expressão “felicidade humana”, fim último da ciência, de Brecht.
Eis, didático, em poucos traços, os momentos de constante “reinauturação” e de aggionamento da relação buscada entre a universidade e nossa sociedade, em todo o País e, particularmente, no Ceará:
TEMPOS DE JK
Superação do tradicional “café com leite” (São Paulo e Minas). Cinqüenta anos em cinco. Brasília. Ao invés da Confederação do Equador, o desenvolvimento regional. Celso Furtado e os traços fundamentais da SUDENE.
Nesse contexto, Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Criação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Trabalho conjunto entre os órgãos de desenvolvimento: CETREDE, DNOCS entre outros. Antônio Martins Filho, o criador da UFC, institui práticas de “planejamento participativo”, com vistas a um “projeto universitário” cujo horizonte se traduzia em “realizar o universal pelo regional”, que tinha por estratégia os “seminários anuais de professores”.
REFORMA UNIVERSITÁRIA
DE CIMA PARA BAIXO
Tempos contraditórios, os da Reforma Universitária, ao tempo dos governos militares. Com ela, forçava-se a vida universitária não mais fazer-se, como nos tempos do Cardeal Newman, uma “comunidade de professores e alunos” a buscar um desinteressado saber. Nem tampouco, por outro lado, a substituição de tal quadro, por uma casa de pesquisadores e aprendizes, como o idealizado por Humbold. Nem uma extensão como mero estágio de campo para treinamento de alunos. Mas, ao invés disso, um equilibrado tripé de um ensino/pesquisa/extensão, a cultuar, irmanados, os três aspectos, num sólido jogo de aprendizagem recíproca entre a instituição universitária e a multiculturalidade de nossa sociedade. Tudo, em dupla-mão.
Progresso, sem dúvida, os parâmetros da Reforma Universitária. O clima reinante no País, no entanto, era de “solidão e silêncio”. A reforma se impunha de cima para baixo. Qualquer abertura maior (sobretudo na área social) era tida como “subversão”.
Lembro-me que, com Clóvis Catunda - ele na área de ciências básicas e eu de Humanidades – coordenávamos do chamado Ciclo Básico. Na área de Comunicação em Língua Portuguesa, inventamos metodologia que intitulamos “Oficina do Pensar”, que, à época, o MEC elegeu um das mais ousadas metodologias para o ensino.
Mas, um dia, um braço do SNI na UFC, me chamou. E a questão era o título. Queriam tais órgãos explicações sobre o termo ... “pensar”. E, sobretudo, “pensar para quê”. Respondi com Roland Barthes: ”Pensar, para nós, é um verbo intransitivo”- querendo eu dizer que não nos interessava o objeto do pensar... Mas, estruturalista que eu então era, queria enfatizar o processo de pensamento resulltante da percepção sensorial e das conotações afetivas.
Eles não entenderam nada. E o resultado é que passei a ser vigiado por uns 20 anos, constando, na ficha “Modelo 14” dos chamados “órgãos de segurança”, como um dos “12 mais perigosos do País”... E sem poder promovido, não apenas por tempo de serviço mas também por concurso, já que o órgão não me liberava...
TEMPOS DA ABERTURA
“LENTA E GRADUAL”
Com a abertura “lenta e gradual”, sinalizada por Geisel, débeis - mas crescentes - brisas começaram a soprar. Um dia, Paulo Elpídio de Menezes Neto é escolhido reitor. Coordenador do 1º Ciclo de Humanidades, vou a um encontro em Minas e, no avião, leio no jornal que eu havia sido escolhido por ele como “assessor de planejamento”.
Não entendi bem p’ra quê. Aos poucos, lá fui eu, cuidar de coleções, que ele me estimulava à UFC a coordenar: a) Pensamento Universitário (as de maior densidade); “Documentos Universitários”; “Temas do Nordeste”, a partir de algumas teses separatistas, versão ufanista da “Confederação do Equador” (iniciada por Paulo Lustosa), que, em seu Volume 03, ganha versão histórica com Celso Furtado. E todo um repensar da cultura e pensamento da Universidade sobre o Ceará, a Região Nordestina e o Brasil.
Daí nasceria o Plano Estratégico da Instituição, com a amplitude maior, em seu diálogo com governos e os diversos estamentos sociais, que nos tempos anteriores, se limitavam aos “professores” e órgãos de desenvolvimento.
Fruto dessa percepção ampla, nasceriam e se firmariam a Rádio Universitária (FM), os grandes seminários, uma pesquisa orientada para o Estado e a Região, o cinema e o audiovisual e muitos outros projetos.
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OS TEMPOS PLURAIS
DE NOSSO AGORA E FUTURO
Estive na “reinauração da Rádio”. E lá, confesso que me faz bem o reencontro com o “in illo tempore”. Senti-me um pouco sem jeito pela magnificação que havia feito de minha tarefa o fundador da Emissora, o reitor Paulo Elpídio, com as loas que soem atribuir-se às “antecipadas flores ao caixão” (como me dizia um médico sobre meu pavor a comendas e homenagens). Clóvis e Rodger, que hoje estão na ativa, sei que entendem o gesto dos que ali e alhures me dirigiam turibulações históricas.
Doeu-me, porém, a falta de menor referência a Paulo Elpídio. De minha parte, nada disse. Só pensei sair “de fininho” e ir-me embora. Felizmente, eu conversava com eclética mesa, onde funcionários antigos ali reapareciam, amigos eleitos e reeleitos para importantes postos no Estado e na União. Da boca deles, felizmente, olvidar o nome de Paulo foi, no mínimo, um gesto de descortesia...
Dia seguinte, fiz tudo para ir à festa de Natal da Adaufc, na reitoria, talvez a de prédio mais belo, em nosso País, num tributo disso pela Coelce, que a iluminou.
Lá, reencontrei muita gente. O “sítio” (site) se lançou. De todos, ouvi a necessidade de os aposentados da UFC algo fazerem para levar à frente o projeto iniciado décadas atrás. Agora, sim, a “reinauguração” é o olhar de nosso retorno sob a atualizada feição do agora. Diferente, é óbvio: a rádio, a universidade, os tempos de agora.
Não dá é para a gente pensar que um chip com o dernier cri é o bastante. Ou a petulância de pensar que o passado é roupa velha que ao nos serve mais. E que os que nos antecederam serão sempre os responsáveis pelos quatrocentos anos de desacertos ... “deste País”!
JUNTANDO OS CACOS DE SOLIDÃO
Minha esperança é que haja, a solidarizar ações, um esforço de todos nós. Foi aí que me lembrei de insight meu sobre ação solidária, a passar por cima dos minifundiários e tradicionais até de público e privado.
Pensava, quando presidente do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, levar os estados para conhecer as universidades comunitárias. Não foi possível. No MEC, então, havia rejeição. Terminei por receber convite para levar lá o então Vice-governador, Beni Veras, prefeitos, deputados e autoridades de todos os partidos.
Lá chegando, tudo eram festas e reflexões. O então governador, que gostava de Beni, brincou conosco afirmando que aquela era reunião insólita. Primeiro, porque eles, culturalmente, em Santa Catarina, eram tão diferentes que a única saída foi eles, de diferentes culturas e procedência, se juntarem. Segundo, aquela reunião ali era algo insólito: um estado “cabra da peste” e macho, visitando um estado feminino. E por aí, pela via do humor, foram dias de muita reflexão, ultimada afinal, com reunião no Conselho Estadual de Educação.
Reitores de todas as regiões do Estado. Afinal, Beni me passa a palavra. Um reitor afinal, faz alusão, aos diferentes encontros- com o Governador, com as universidades, com o Poder Legislativo – e a pergunta: “Então, professor Marcondes, um modelo para o Ceará ou para o Brasil?” A pergunta era uma alusão a pergunta agressiva que me fizera o repórter de uma televisão. Ele contou quantas pessoas ali e perguntou: “O que é isso? Mais de vinte pessoas visitando todo o Estado. Turismo oficial?”.
Sorri e expliquei quem éramos nós e o que estávamos vendo ali. Talvez ele não soubesse o que era curiosidade, não só nossa mas de todo o Brasil. E me alonguei. O repórter, calado, deixou-me falar. Ao terminar, a presidente do Conselho disse: “Estás vendo, guri. Desta vez tu te estrepaste, com tuas posturas desaforadas”. Ele, sem jeito, me pediu desculpas. E, no Jornal Nacional, não fez corte algum da entrevista.
Na reunião final, um conselheiro me faz a pergunta, de novo. Eu respondo: “Para o Brasil sim. Para o Ceará, temo que não”. E ele: “E por quê?” Digo-me que, no Ceará, tudo, a meu ver, é fruto da solidão do vaqueiro: “O vaqueiro, a rês à frente; entre os dois, a caatinga, Deus e a solidão. Não nos move a solidariedade que o “estado feminino” de que nos falou o governador.
O conselheiro, um antropólogo, confessou de mim discordar. Dizia estar eu entrando em contradição. Há pouco, homenageara, com flores, a primeira presidente da história de Santa Catarina, um “estado feminino”, visitado pelo estado masculino, o dos solitários e machos vaqueiros. Via eu a aparência masculina de meu estado, mas se esquecia de algo fundamental. “Por baixo da solidão do vaqueiro” – afirmava-me “o senhor não se dá conta de que nela se abriga “porção feminina da alma nacional: Ou o senhor se esquece onde nasceu ... Iracema?”. E o senhor se
Risos gerais. Engoli seco a lição!
MORAL DA HISTÓRIA
As associações docentes poderão explorar essa “porção feminina”, rejuntando nossos cacos de solidão. São vários os sindicatos, mesmo entre as universidade públicas. Várias as facções políticas. É possível a união de todas essas porções. E humildade, de húmus latino, vem de chão. Arrogância e onisciência não nos poderão levar a lugar algum.
Posso dar uma ajuda nessa direção. Faz pouco, uma colega da universidade e da Rádio, a propósito dos elogios de Paulo Elpídio, dizia que, no passado, era eu por demais vaidoso e hoje estava no extremo oposto. Concordei com ela.
Até a 5ª. edição do Fest Rio, aqui no Ceará, eu fumaça “Hollywood o sucesso”. Sempre fiz dele uso para afugentar, em meu gabinete da UFC, o coronel responsável pelo órgão de segurança. Quando ele vinha, ordem geral: “todo mundo fumando”. Afugentado pelo cheiro da nicotina, ele nos deixava em paz. Em meu primeiro infarto, o médico, em minha ficha, apôs o carimbo “tabagista”. Guardei por anos, o maço de cigarro que, com dores, levei para o hospital.
Hoje, não me acho o sucesso. Agora, vivo a era do chamado de “pensamento complexo”, onde os contrapontos são percepções que se somam. Só peço às pessoas que se lembrem da fábula onde os cegos descreviam um elefante a toca-los, cada qual o descrevendo de acordo com suas percepções tácteis.
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O SEMINÁRIO GERAL
Coleção Documentos Universitários (Vol 3)
Seminário Geral –
Uma tentativa de Administração Solidária
(Reflexões geradas no Seminário Geral do UFC, realizado no segundo semestre de 1979)
Apresentação pelo Editor da Coleção
Ao imitir-se no cargo de Reitor da UFC, o Professor Paulo Elpídio de Menezes Neto, dirigindo-se à Comunidade Universitária, conclamava-a a um esforço conjunto no sentido de construir um “projeto universitário”, “com a vocação definida de realizar o universal pelo regional”, tarefa que, segundo ele, pressupunha a retomada das práticas do “planejamento participativo”, outrora exercitadas na instituição. E anunciava, como “passo primeiro (...) nesse sentido”, a instalação do “III SEMINÁRIO ANUAL DE PROFESSORES”.
Meses após, sob um novo rótulo e dimensões mais amplas, instalava-se o SEMINÁRIO GERAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARA, com o intuito básico de provocar uma gradativa solidarização na administração universitária, por força do envolvimento crescente de professores, alunos e funcionários no processo decisório da UFC.
Em meio a expectativas diversas no seio da Comunidade Acadêmica, iniciou-se o Seminário Geral. Com efeito, esperavam alguns que ele se constituísse numa espécie de vara-de-condão, que, em tudo tocando, tudo transmutasse. Emprestavam-lhe esses o caráter mítico e de sabor nostálgico de reedição do espírito reinante na Universidade, nos anos 60. Alimentavam, ingenuamente até, a crença de que o pretendido processo de discussão se desencadearia naturalmente, sem que houvesse a necessidade de um intenso trabalho de preparação, sensibilização e organização, impulsionado tão somente pela força intrínseca da “comunidade universitária” (à época, uma ficção’ pura, já que formada da justaposição de três ditos ‘corpos”, que não chegavam a configurar-se em “corpus”. . .)
Temiam outros que a atmosfera de apatia reinante na Universidade terminasse por impedir o êxito da estratégia. Afinal, saíamos (era o argumento) de um longo tempo, em que, na instituição, haviam germinado as sementes plantadas de solidão e silêncio. Trabalho e pensamento universitários estiolavam-se, reclusos entre as paredes das salas de aula, dos laboratórios e dos gabinetes. A ausência do diálogo era cerca invisível, separando a todos. Querer demais, portanto, seria supor que bastaria o Reitor garantir “O Seminário é pra valer” e, imediatamente, todos seriam capazes de se impostar uma improvisada e madura postura de entrosada e clarividente “junta médica”, a traçar seguros diagnósticos. Dos males da instituição, prescrevendo-lhe eficaz e pronta medicação.
Havia ainda temores de outra ordem. É que os professores haviam sido condicionados ao rotineiro trabalho como obreiros da Universidade do Poder. Em tal situação, um encontro com tais características poderia despertar-lhes a explosão de sentimentos implodidos., sob a forma de uma gigantesca “catarse coletiva”. Assim, a “grande mesa-redonda”, proposta objetivando a um conjunto planejamento universitário, talvez terminasse em um emotivo e. infrutífero “monólogo coletivo”, não atingindo, dessa forma, o esperado nível de um sereno e produtivo diálogo da Comunidade Universitária.
Não obstante esse quadro, a Universidade, no curso do segundo semestre de 1979, viveu, em seus departamentos e centros, envolvendo seus professores, alunos e funcionários, a experiência do Seminário Geral.
Durante e logo após o Seminário, o pensamento dominante, principalmente entre os professores, era o de que o Seminário havia fracassado em seus objetivos. O “fracasso do Seminário”, de afirmação, tornou-se um clichê. E começou a ser repetido por todos, conquanto inquestinado e inexplicado.
Mais que a constatação de um fato, a frase foi soando como o sintoma de uma sensação geral que invadia a Comunidade Acadêmica. Que sensação era essa e que motivos a explicariam?
Várias razões podem ser arroladas como explicativas de tal sensação. Uma delas reside, sem dúvida, na expectativa irrealista criada por muitos quanto ao Seminário. Em realidade, o “passo primeiro” dentro de um processo de planejamento participativo não teria a suficiente força para devolver à Instituição os espaços de liberdade acadêmica e, muito menos., a inexistência de angústia financeira dos nostálgicos anos 60. Não poderia, por outro lado, em um curto espaço de tempo, romper com a apatia geral nem concluir pela arquitetação de um plano que, a um só tempo, diagnosticasse e remediasse os crônicos males da Instituição.
Muitos tomaram o Seminário como um canal novo que se abria para a informação da Administração Superior sobre os problemas que os afligiam em seu trabalho acadêmico. Na esperança de ter tais problemas sanados é que esses participaram do Encontro. Em muitos casos, porém, a solução não veio, logo após o Seminário. Daí a decepção pessoal e o descrédito em relação à estratégia.
Não foram poucos os que esperavam que o tom democratizante do Seminário terminasse por minar as bases da administração universitária, tomando-a menos fechada, mais flexível e menos centralizante. Na verdade, nossa administração é um sólido edifício, cujas estruturas (da base departamental aos estamentos superiores) guardam ainda resquícios coronelistas, sedimentaados no curso de sua formação histórica, de difícil remoção. Dessa forma, estrutura administrativa e Seminário Geral aparentavam a muitos professores como dois espaços em contraste: o formal, centralizante, e o informal – permitido campo para a exercitação do jogo democrático não-oficial.
Se, porém, encararmos o Seminário Geral como um primeiro passo para a retomada de um planejamento participativo e a essa experiência atribuirmos expectativas mais modestas e realistas, certamente teremos de lhe admitir saldos mais positivos. Com efeito, conseguiu ele semear as bases para um trabalho solidário na UFC. Despertou, com certeza, os membros da Comunidade Universitária para uma visão não fragmentária sobre os problemas da Instituição. Antes dele, cada um enxergava sob uma ótica, senão individual, pelo menos setorializada. Com ele, o “meu problema” foi, aos poucos, cedendo ao “problema de todos”.
A partir de quando se instalou o Seminário Geral, têm surgido, na UFC, grupos de reflexão para estudo dos problemas da Instituição. Os colegiados, tradicionalmente órgãos de comportamento predominantemente cartorial, já ensaiam, alguns, conduta que transcende ao mero “aprovar processos”, debatendo as questões de maior substância. E, sem que lhe possamos atribuir uma relação direta de causalidade, o fato é que, desde então, criou-se, na Universidade, um clima propício ao associonismo, expresso no crescente fortalecimento das associações docentes, estudantis e dos servidores. Do acervo de contribuições e sugestões resultante da tempestade-de-idéias que representou o Seminário Geral, conseguiu a Administração Superior a base para o seu PLANO ESTRATÉGICO, em uma tentativa de “leitura” do perfil dos problemas da Instituição e dos rumos, na ótica da Comunidade Universitária, a serem percorridos na construção do “projeto universitário” a que se referiu o Reitor.
Talvez sem a intensidade esperada, por outro lado, tem a Comunidade Universitária sido chamada a se pronunciar sobre questões vitais à Instituição. Por meio do “sistema de consultas”, os departamentos têm participado do processo de discussão sobre a reforma do 1º. Ciclo, a melhoria do sistema de bibliotecas, a alteração da legislação interna que regula o regime do trabalho docente, entre outros questionamentos.
O Seminário Geral, portanto, não representou um “fracasso”. No mínimo, foi um processo de reeducação da Comunidade Universitária.
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Com a publicação deste número, dedicado ao Seminário Geral da UFC, a Coleção Documentos Universitários, mais do que simplesmente registrar a experiência, pretende estimular o debate sobre ela, com o intuito de encontrar melhores formas para um eficiente processo de planejamento participativo.
Prof. Marcondes Rosa de Sousa
Editor da Coleção Documentos Universitários
Dados sobre o Seminário Geral
2.1 – Instituição