Grupos

 

PSDB em novo ciclo

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 24 Nov 2008

Hotel Oásis, Av. Beira Mar, 3 da tarde. Lá estou, a convite de Carlos Matos Lima, Presidente da Executiva Estadual do PSDB. Auditório lotado. Num painel ao fundo, a temática do encontro: "Novos desafios do Ceará e as perspectivas para a nova década".

Muitos ali, jovens. Entre eles, herdeiras da serpente e de Eva, a dosar as discussões e nossa política com inesperados tons da intuição feminina. O auditório com múltiplos olhares a soltar oprimidas vozes em catarse. Queixas entre o "ser ou não ser", no Estado, governo ou oposição. Pentecostais línguas-de-fogo a denunciar o "rolo compressor": o governo a massacrar o partido, como nas eleições recentes.

A despeito disso, 54 prefeitos eleitos pela sigla no Ceará. Outros, embora não eleitos, conquistando boa votação. Somados aos atuais 14 deputados estaduais (um terço), o recado das urnas: o aval ao Projeto das Mudanças, expresso em significativa votação.

No auditório, clamor geral em prol de um projeto político já de 22 anos, Tasso Jereissati seu líder maior. Passo agora a conquistar, o da Associação de Prefeitos do Ceará (a APRECE). Afinal, é no município que moramos, o chão concreto de nossa federação (Franco Montoro). Importante, porém, ter presente a caducidade dos ciclos, a se esgotarem, entre nós, já dizia Celso Furtado, entre 15 e 18 anos. E, agora, é todo o planeta, as nações, a vida urbs et orbis, em novo ciclo...

Hora, pois, de revermos nosso projeto político (nacional e local), olhos voltados para o "longo amanhecer", do qual, já nos anos 80, era norte ao "Pró-mudanças", nos falava, no Auditório Castelo Branco (UFC), Celso Furtado: "Quando o projeto social dá prioridade à efetiva me­lhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvi­mento".

É a nossa esperança!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece
marcondesrosa@gmail.com

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Escola, onde erramos?

Marcondes Rosa de Sousa
08 Dez 2008

Auditório do BNB/Passaré, em Fortaleza. XIX Encontro Estadual de Política e Administração da Educação. Tema - "A escola e a educação para a cidadania". Da professora Maria Luíza Barbosa Chaves, recebo convite para debatedor sobre "Cidadania e gestão democrática na educação". No encontro, vejo-me, mais que educador, cronista de latentes "não-ditos"...

A palestra inaugural fala do jogo entre a utopia e o real, a perpassar o diálogo entre escola, família e sociedade, os três como se num desacerto e piagetiano "monólogo coletivo". Discussões que, nascidas aqui e alhures, ostentam horizontes palpáveis: os agentes da educação, cada qual "em seu quadrado", a ensaiar parcerias e nortes possíveis. Mais que isso, o brotar de parcerias, nas relações sociais, familiares e escolares, e feição nova desenhando-se numa democracia não mais império da maioria, mas as minorias em caleidoscópico e construtivo diálogo.

Hoje, na escola, no País e em nossa sociedade, quedam por terra os velhos conceitos do intra e extra ... muros.O planeta e a vida, urbs et orbis, ingressam em nosso ciclo. Sobre nós, abate-se apocalipse em sua revelação sadia (esperamos) a passar a limpo a sociedade, a família e escola. Reedita-se, cíclica, a cena pentecostal das línguas-de-fogo, das inteligências múltiplas e da feição nova de nossa democracia, onde possamos, em nossas diferenças, conviver em produtivo diálogo.

Hoje, dados internacionais ostentam-nos o porto aonde chegarmos. A despeito do "todos por uma educação de qualidade para todos", lá estamos entre os 62 piores países do mundo. Onde erramos? Esquecemo-nos do novo: das "línguas de fogo", "inteligências múltiplas", o "quadrado" e visão pessoal de cada um.

É batermos meas culpas ao peito e clamarmos por um novo e urgente amanhecer, em nossa educação!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe
marcondesrosa@terra.com.br

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Berço do Nazareno

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 22 Dez 2008


        Na TV e jornais, mercado e política em aguda crise. Nos shoppings, spot lights sobre pródigo Papai Noel. Na Praça do Ferreira, em contraponto, outro cenário: arte, cultura e criatividade de nossa gente, nas noites, em Fortaleza.

 

        Com amigos, acorro para este cenário. Luzes sobre tombado hotel. Em suas janelas, crianças e artistas, nos diversos andares, a nos envolver em antológicas canções natalinas. Muitos ali, os que compartilhávamos desse clima envolvente. No vácuo do outrora Abrigo Central, palco a teatralizar cenas sobre o natal. Crianças, seus pais e avós, irmanados nos aplausos. Os bancos, a me evocar os noturnos papos dos tempos estudantis. E o outrora soberbo Cine São Luiz a suscitar história em que nos tornamos partícipes dos festivais do cinema nacional e da realização do internacional FestRio, que para cá trouxemos, nos anos 80.

 

        De volta, o folclórico Bode Ioiô, hoje no Museu Histórico, parceiro nos papos entre intelectuais e boêmios. E a cena do Ceará Moleque, a vaiar o retardado e preguiçoso sol, aqui onde o sol sempre nasce mais cedo... Discreto, na recuperada Coluna da Hora, um presépio: Jesus menino cercado por pastores, animais, anjos, reis magos...

 

        Já de volta e em casa, martela-me a cabeça o Soneto de Natal, de Machado de Assis. E dele faço postal, enviado por e-mail aos amigos, falando de “noite amiga” (...) “berço do Nazareno”, atropelado pelo “metro adverso”, ultimado na indagação “Mudaria o Natal ou mudei eu?”

 

        Retorno à infância, em Ipueiras, onde os criativos presépios de Raul Catunda nos levavam ao “berço do Nazareno”. Nisso, chegam-me, na contramão desse clima, protestos de professor da UECe contra nossa política, “remanescente da elite trazida por dom João VI” (...) “E aí você me vem com papo de nazareno... Me poupe!”
Razões ao professor?

 


        MARCONDES ROSA DE SOUSA

        Professor da UFC e da Uece



 

 

 

Retornos do Natal

José Costa Matos
23 Dez 2008

                Ora, Papai Noel, muita coisa já vai distante. Mas menino é bicho danado para guardar lembranças. Menino e poeta. Cada coisa... A bunda de tanajura comida na rua, contra amidalites. Os desafios da viola de Véi Zuca-do-Oi-Só. A namorada que eu chamava Livrinho de Deus, porque a gente acreditava: a mão de Deus escrevia nela os seus poemas.

 

            Mas o primeiro presente de Natal que lhe pedi no mundo, Papai Noel, foi um cavalo-de-pau que não me inferiorizasse diante dos moleques de minha aldeia. Eles desciam, como vândalos, do Morro do Papoco e invadiam a Rua de Cima. Um cavalo-de-pau daqueles que só Neném Sapateiro sabia fazer, com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e outra velhacamente caída para trás...

 

            Eu era tão pequeno que não me lembro se você me deu o cavalo-de-pau das minhas rezas de menino. Por isso, estou aqui, dentro da noite do Filho de Deus, olhos arregalados na treva, rodeado de sinos cantadores, pedindo, outra vez, o cavalo-de-pau da minha infância.

 

            Naturalmente, Papai Noel, os anos que se foram me deram muitas coisas, levaram muitas coisas de mim, fincaram algumas cruzes no caminho, para marcar os lugares onde a terra teima em silenciar as lembranças dos nossos mortos. Muitas mãos deixaram adeuses inexplicáveis nas minhas mãos. Muitas vezes abri a boca para dizer uma palavra boa, mas não tive santidade nem poesia para gerar essa palavra de salvação do meu próximo.

 

            Trago, hoje, nos olhos, as paisagens de muitas almas e de muitos lugares. Escutei as angústias e as aspirações dos homens nas línguas mais estranhas. Queimei meus passos na travessia do braseiro de várias guerras. Em alguns momentos, a vida me acovardou e eu tive, como Pedro, que negar o meu Mestre diante da criada de Caifás, antes da cantada do galo. Amontoei pedras, tracei a argamassa, mas muitas das minhas construções viraram Babéis, inconclusas, na desolação da Planície de Senaar. Tive algumas experiências da profecia e salvei gentes e animais dos dilúvios que ainda iam acontecer. Meus pés estiveram nos pés de Neil Armstrong, no primeiro dia em que um de nós pisou na lua.


            Ora, Papai Noel, essas vivências todas devem deixar marcas profundas na alma da gente. É por isso que já não sou a mesma criança que desejava um cavalo-de-pau, igualzinho aos brinquedos dos moleques do Morro do Papoco. Igualzinho, agora? Como? Neném Sapateiro está no céu e não vai descer para fabricar um cavalo-de-pau com uma estrela de pregos dourados na testa, uma orelha desconfiada espetando o futuro e a outra velhacamente caída para trás... mas, se a memória não me engana, você me deve ainda o meu cavalo-de-pau. E que ele se chame Esperança. Com ele, eu sei que a amargura não terá velocidade para me alcançar nem forças para me transformar num dos seus apóstolos. Talvez até eu chegue a ser bom. Talvez até eu chegue a ser útil aos irmãos que vão amontoando motivos para maldizer a vida.


            E assim, Papai Noel, você me ajudará a viajar com mais beleza pelos caminhos do tempo do meu Deus. Eu quero que você me dê o cavalo-de-pau da minha meninice.


            José Costa Matos - Da academia Cearense de Letras e Associação Brasileira de Bibliófilos
acletras@accvia.com.br

 

 

 

Um momento no Natal...

 

Ricardo Marques

 

 

            Naqueles dias saiu um decreto da parte de César Augusto, ordenando o recenseamento de todo o mundo habitado. Este primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. Assim, subiu José da Galiléia, da cidade de Nazaré, onde morava, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, a fim de se alistar com Maria, sua mulher, que estava grávida. Estando eles ali, cumpriram-se os dias em que ela havia de dar à luz, e ela deu à luz a seu primeiro Filho, envolveu-O em panos, e O deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria (Lucas 2:1-7). Por causa do censo, a família real tem de viajar por 126 quilômetros. José caminha, enquanto Maria, no seu nono mês de gravidez, segue em cima de um burro, sentindo cada solavanco, cada sulco, cada pedra da estrada.

 

            Ao chegar, encontram a pequena vila de Belém repleta de viajantes. A hospedaria está lotada, havendo até quem se achasse um felizardo por conseguir negociar um espaço no chão. É tarde, todos dormem, não há acomodações. Mas, felizmente, o dono da hospedaria não é mesquinho. Explica que o estábulo está também lotado com os animais pertencentes aos hóspedes, mas que apesar das condições, haveria maior privacidade lá. José olha para Maria, que está tendo uma contração. "Ficaremos no estábulo", diz sem hesitar.

 

            Era ainda noite quando José abriu a porta do estábulo, que rangeu caracteristicamente. Ao fazê-lo, os animais, assustados com o intruso, reclamam num coro discordante. O mau cheiro era penetrante e úmido, pois se as horas eram insuficientes para o estalajadeiro cuidar de seus hóspedes, que dirá dos animais. A luz tremeluzente de uma pequena lamparina, a eles emprestada pelo dono da hospedaria, projeta na parede estranha dança de sombras. Um lugar inquietante para uma mulher prestes a dar à luz. Longe de casa, longe da família. Longe de todas as suas expectativas para quando nascesse seu primeiro filho. Mas Maria não reclama de nada. Já é um alívio ter descido do lombo do burro. Encosta-se à parede, sentindo os pés inchados, as costas doerem, e as contrações cada vez mais fortes e mais freqüentes. José corre os olhos pelo estábulo. Não há tempo a perder. Rápido. Uma manjedoura servirá como berço. O feno serviria de travesseiro. Cobertores? Cobertores? Ah, sua manta estaria ótima. Aqueles trapos dependurados ajudariam a enxugar o nenê.

 

            Maria se contorce numa contração mais forte e pede a José que providencie um balde de água. O nascimento não seria nada fácil, nem para a mãe nem para a criança. Todos os privilégios reais se encerravam ali, numa concepção humana e natural – não era para ser diferente do normal. Um grito de dor vindo de Maria interrompe a calma daquela noite silenciosa. José está voltando, apressado, com a água transbordando do balde de madeira. O alto da cabeça já se introduz neste mundo. Gotas de suor caem pelo rosto contorcido de dor de Maria, enquanto José, a parteira mais atípica de toda a Judéia, se posta ao lado. As contrações involuntárias não são suficientes, e Maria tem de ajudar com todas as forças, quase como se Deus estivesse se recusando a vir ao mundo sem a ajuda dela. José coloca uma manta sobre Maria que, com um último esforço e longo suspiro, termina seu trabalho de parto.

 

            Nasceu o Messias. Tem a cabeça alongada pelo caminho estreito que atravessou ao nascer. A pele ainda é clara, pois levará dias até que a pigmentação normal ocorra. Há muco nas orelhas e narinas. O líquido amniótico o envolve, deixando-o úmido e escorregadio. O Filho do Deus Supremo está preso pelo cordão umbilical a uma garota judia. O bebê está sufocado e tosse. José, instintivamente, vira-o de cabeça para baixo para que se desobstrua a garganta. Então o nenê chora. 

 

            Maria oferece o seio ao trêmulo bebê. Acomoda-o em seu peito e aquele choro tão aflito aquieta-se.  A cabecinha delicada encosta-se em terreno ainda desconhecido. Será sua primeira lição. Maria pode sentir as batidas rápidas do coraçãozinho, enquanto o bebê tateia à procura do seio para mamar. O seio de uma jovenzinha alimentando o Criador. Pode algo ser mais enigmático – ou mais profundo?

 

            José senta-se exausto, silencioso e maravilhado. O bebê termina de mamar, suspira, a Palavra divina reduzida a alguns sons ininteligíveis. Então, pela primeira vez, os olhos se fixam nos de sua mãe. A única e verdadeira Divindade, que transcende o Universo, esforçando-se para focalizar o rosto de quem lhe abrigou no ventre. A Luz do Mundo, ali, se aninhando. Os olhos de Maria enchem-se de lágrimas. Toca as delicadas mãozinhas. E mãos que um dia esculpiram o mundo enroscam-se nos dedos dela. Ela olha para José e, através de lágrimas comovidas, suas almas se encontram. José aproxima-se mais de sua amada. Cabeças juntas, admiram o pequeno Jesus, cujos olhinhos pesados começam a fechar-se. Foi um longo dia. O Rei está cansado.

 

            Dessa maneira, sem nenhum alarde especial, Deus entrou para o lago morno da humanidade. Sem nenhuma pompa ou cerimônia. É fato que anjos se prostravam em volta, contemplando a realização do maior de todos os mistérios, a eles prenunciado desde a origem dos tempos, quando o homem afastou-se do Criador. Agora, “parte” do próprio Criador assumia forma humana. Entretanto, no lugar em que se poderiam esperar exércitos saudando o Verbo que se fez gente, havia apenas moscas. Onde seriam esperados chefes de estado, havia apenas burros, algumas vacas agitadas, um aglomerado nervoso de carneiros, um camelo preso a uma corda, e um rato de celeiro que olhava curioso e furtivo. Tudo conforme havia sido previsto e escrito, séculos e séculos antes...

 

            Maria contava apenas com José para consolar-se de suas dores e para repartir suas alegrias. Havia, como se sabe, um coro de anjos anunciando a chegada do Salvador – mas somente para um grupo pequeno de pastores de ovelhas. É verdade também que uma estrela magnífica brilhou no céu para assinalar o lugar do nascimento dEle, mas apenas alguns sábios estrangeiros a entendiam e, vendo-a, a seguiram. Assim, na pequena vila de Belém... Numa noite silenciosa... O nascimento real do Filho de Deus aconteceu tão tranqüilamente... Enquanto o mundo todo dormia e sequer imaginava o que estava acontecendo...

 

            Amado Jesus, embora não houvesse lugar para Ti na hospedaria, permite que hoje eu tenha no coração um lugar amplo para oferecer-Te.  Apesar de não teres sido bem recebido por muitos do Teu próprio povo, permite que nesta hora eu possa receber-Te de braços abertos. Embora Belém tenha negligenciado a Ti no censo, concede-me, neste momento, a graça de estar por perto e saber que Tu és Deus, conforme o disseste de Tua própria boca. Sim, Tu és Deus... Tu, cujo único palácio era um estábulo e único trono um coxo de cavalos, cujas únicas vestes eram trapos.

 

            De joelhos, meu Senhor, quero confessar que, como homem pecador, estou condicionado à pompa, à vaidade, ao orgulho, ao preconceito e à ostentação, coisas que nos obscurecem na aceitação de um Deus que balbucia numa manjedoura. Perdoa-me, por favor. Ajuda-me a compreender pelo menos algumas das lições que o Teu nascimento, que comemoramos hoje, tem para ensinar – que o poder de Deus não está condicionado à força, mas à fraqueza; que a verdadeira grandeza não se alcança com posses, vaidade e egoísmo, mas com resignação, com o negar-se a si mesmo, com o amor ao próximo, percebendo-se o mundo e seu sistema com outros olhos, os olhos do espírito. E ainda nos ensinas que a mais secular das coisas pode ser considerada sagrada quando Tu estás ali presente. E, quando Tu, cheio de infinito amor, ansioso pela minha Redenção eterna, parares à porta de minha casa e bater, conceda-me uma sensibilidade especial para o som daquela batida, e assim apresse-me em atendê-la. Não permita que eu te deixe esperar no frio, ou que ainda te mande para algum estábulo. Possa meu coração ser quente e acolhedor, de tal forma que, quando Tu bateres, haja sempre à tua espera um lugar digno de Ti...