Grupos

 

 

 

 

INFANTES MONÓLOGOS COLETIVOS

A SE MOLDAR EM PRODUTIVO CAOS (III)

 

 

De Marcondes Rosa

A Isolda Castelo Branco

 

Você, ao voltar ao Grupo, afastada por alguns dias, lamenta:

 

“Infelizmente poucas pessoas se interessam por esta discussão, que considero de fundamental importância, quando pensamos nas razões por que nossa Educação continua no patamar em que se encontra, mas as pessoas preferem pensar nas Políticas Públicas sem conhecer em profundidade seus destinatários, não é verdade?”

 

De minha parte, volto a seu artigo, provocado por três outros textos: a) um sobre a situação das reprovações dos alunos brasileiros, nas áreas de Ciências, Português e Matemática; b) outro do Prof. João Batista, Pesquisa e criatividade na escola, sobre experiência do Colégio Maria Ester, a abrir diálogo com a família, a produção artística e as academias, tido por você como “texto altamente sugestivo”; c) pela leitura de uma entrevista com o professor Tião Rocha, coordenador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento em Belo Horizonte.

 

 

 

Paidéia, a palavra que serve de título a esta obra, não é apenas um nome simbólico; é a única designaçJo exata do tema histórico nela estudado. Este tema é de fato, difícil de definir: como outros conceitos de grande amplitude (por exemplo os de filosofia ou cultura), resiste a deixar- se encerrar numa fórmula abstrata. O seu conteúdo e significado só se revelam plenamente quando lemos a sua história e lhes seguimos o esforço para conseguirem plasmar-se na realidade.

 

Ao empregar um termo grego para exprimir uma coisa grega, quero dar a entender que essa coisa se contempla,não  com os olhos do homem modemo, mas sim com os do homem grego.

 

Não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação; nenhuma delas, porém, coincide realmente com o que os Gregos entendiam por paidéia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global, e, para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez.

 

E no entanto a verdadeira essência da aplicaçio ao estudo e dai atividades do estudioso baseia-se na unidade originária de todos aquelei aspectos unidade vincada na palavra grega —, e não na diversidade sublinhada e consumada pelas locuções modernas.

 

Os antigos estavam convencidos de que a educação e a cultura na constituem uma arte formal ou uma teoria abstrata, distintas da estrutura histórica objetiva da vida espiritual de uma nação; para eles, tais valores concretizavam-se na literatura, que é a expressio real de toda cultura superior (...).

 

 

         Lugar dos Gregos
         na história da educação

Todo povo que atinge um certo grau de desenvolvimenti sente-se naturalmente inclinado à prática da educação. Ela é princípio por meio do qual a comunidade humana conserva transmite a sua peculiaridade física e espiritual. Com a mudança das coisas, mudam os indivíduos; o tipo permanece o mesm. Homens e animais, na sua qualidade de seres físicos, consolidam a sua espécie pela procriação natural. Só o Homem, porém, consegue conservar e propagar a sua forma de existência social e espi ritual por meio das forças pelas quais a criou, quer dizer, po meio da vontade consciente e da razão. O seu desenvolviment ganha por elas um certo jogo livre de que carece o resto do seres vivos, se pusermos de parte a hipótese de transformaçõe pré-históricas das espécies e nos ativermos ao mundo da expe- riência dada.

 

Uma educação consciente pode até mudar a natureza física do Homem e suas qualidades, elevando-lhe a capacidade a un nível superior. Mas o espírito humano conduz progressivamente a descoberta de si próprio e cria, pelo conhecimento do mundo ex tenor e interior, formas melhores de existência humana. A natureza do Homem, na sua dupla estrutura corpórea e espiritual, cria condições especiais para a manutenção e transmissão da sua forma particular e exige organizações físicas e espirituais, ao conjunto das quais damos o nome de educação. Na educação, como o Homem a pratica, atua a mesma força vital, criadora e plástica, que espontaneamente impele todas as espécies vivas à conservação propagação do seu tipo. É nela, porém, que essa força atinge o mais alto grau de intensidade, através do esforço consciente do conhecimento e da vontade, dirigida para a consecução de um fim.

 

Derivam daqui algumas considerações gerais. Antes de tudo, a educação não é uma propriedade individual, mas pertence por essência à comunidade. O caráter da comunidade imprime-se em cada um dos seus membros e é no homem, ov itottuCó1), muito mais que nos animais, fonte de toda ação e de todo comportamento. Em nenhuma parte o influxo da comunidade nos seus membros tem maior força que no esforço constante de educar, em conformidade com o seu próprio sentir, cada nova geração. A estrutura de toda a sociedade assenta nas leis e normas escritas e não escritas que a unem e unem os seus membros. Toda educação é assim o resultado da consciência viva de uma norma que rege uma comunidade humana, quer se trate da família, de uma classe ou de uma profissão, quer se trate de um agregado mais vasto, como um grupo étnico ou um Estado.

 

A educação participa na vida e no crescimento da sociedade, tanto no seu destino exterior como na sua estruturação interna e desenvolvimento espiritual; e, uma vez que o desenvolvimento social depende da consciência dos valores que regem a vida humana, a história da educação está essencialmente condicionada pela transformação dos valores válidos para cada sociedade. A estabilidade das normas válidas corresponde a solidez dos fundamentos da educação. Da dissolução e destruição das normas advém a debilidade, a falta de segurança e até a impossibilidade absoluta de qualquer ação educativa. Acontece isto quando a tradição é violentamente destruída ou sofre decadência interna.

 

(Extraído da obra Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo. Martins Fontes. 1995)

 

 

PARA QUE EDUCAR?

 

Isolda Castelo Branco

O Povo - 15/12/2007

 

 

Fui instigada a escrever a partir de três artigos que me atingiram emocionalmente: um sobre a situação das reprovações dos alunos brasileiros, nas áreas de Ciências, Português e Matemática, outro do  professor Batista de Lima , que escreveu um texto altamente sugestivo, e pela leitura de uma entrevista com o professor Tião Rocha, coordenador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento em Belo Horizonte.

 

Como pensar uma Educação para os adolescentes do século XXI?  Em primeiro lugar devemos nos perguntar sobre o que sabemos sobre eles, seu perfil psicológico, como elaboram os conceitos adquiridos na Escola, seu universo simbólico, seus desejos, necessidades e interesses.

 

A revolução tecnológica trouxe consigo uma nova forma de pensar, de ver o mundo, uma nova lógica, novos parâmetros de comportamento. Os adolescentes de hoje são profundamente imediatistas; querem respostas prontas como as que conseguem quando clicam no Google. São, em sua maioria, individualistas; vivem em seu mundo virtual, fazem parte das comunidades do Orkut, onde encontram respostas para sua necessidade de socialização. Grande parte deles não têm interesse pela literatura; sua escrita resume-se ao que escrevem em seus códigos lingüísticos.

 

O grande desafio desta fase: a relação amorosa e sexual. Uns tímidos, outros superousados, procuram a atenção das adolescentes, que, por sua vez usam todas as formas de sedução para conquistá-los. Inexperientes, sem oportunidade de uma "escuta amorosa" que possa esclarecê-los, muitas vezes são surpreendidos pela ruptura de seus sonhos...

 

Se considerarmos que o problema fundamental da aprendizagem é a motivação, o que precisamos saber, em primeiro lugar, é se os alunos estão interessados em aprender o que está sendo lecionado nas escolas. Numa breve pesquisa de opinião poderíamos constatar que os conteúdos das disciplinas não estão despertando sua atenção.

 

Quais seriam as causas de tamanho desinteresse? O nível dos professores, seu salário, sua metodologia de ensino? A violência nas escolas? Outras razões podem estar afetando a falta de interesse dos adolescentes pela aprendizagem.

 

No período da formação de sua subjetividade, o adolescente necessita de diálogo com pais e professores para compreender suas grandes transformações biológicas e psíquicas.Sabemos que os pais nem sempre estão disponíveis, e os professores estão ocupados com o "programa" que têm de cumprir.

 

Diante disso, como os adolescentes podem se sentir motivados para assistir aulas que não fazem vínculo com esta realidade psíquica e social? São esses alguns dos desafios para a Educação dos adolescentes do século XXI.

 

Como educadores, poderíamos constituir uma "rede" de troca de experiências, para discutirmos a questão educacional e enfrentarmos o grande desafio de conhecer o universo cognitivo e emocional de nossos alunos.

 

Isolda Castelo Branco - Professora da UFC

 

 

 

 

 

 

Colégio Maria Ester

 

Pesquisa e criatividade na escola

 

 

                                                                                                                        Batista de Lima

 

 

A pesquisa, no sistema educacional brasileiro, é monopólio das graduações e pós-graduações. Não há pesquisa no ensino médio nem tampouco no fundamental. O estudante entra na Universidade sem nunca ter feito uma pesquisa, principalmente a de campo. O estudante ingressa no curso superior sem conhecer as origens de onde vem. É lançado no mundo novo sem conhecer suas raízes.  Vai ter que pintar esse mundo sem nunca ter colorido seu quintal.

 

Quem quiser um exemplo simples disso, é só perguntar ao aluno quem é a personalidade que dá nome a sua rua. Fortaleza possui em torno de quatro mil ruas mas os moradores desconhecem a origem dos nomes das mesmas. Um trabalho de pesquisa de uma escola de bairro seria exatamente cada aluno providenciar uma biografia do personagem que dá nome a sua rua. Depois a escola promoveria, através de seus alunos, uma levantamento histórico do bairro, os seus limites, os pontos turísticos E as entidades culturais. A própria história de sua escola precisa ser conhecida.

 

Porque o jovem estudante não tenta elaborar a árvore genealógica de sua família? Quais são os pontos de lazer do seu bairro e de sua cidade? Depois, quais são os livros que ele possui em casa, suas leituras preferidas? A escola poderia promover um escambo nas suas dependências. Seria um dia em que os alunos trariam livros, revistas, cd(s) e dvd(s) que já utilizaram para fazer troca com outros colegas. Além da renovação de seu estoque de leitura, o garoto estaria exercitando uma socialização e um treinamento para a vida de consumo dos dias de hoje, onde quem mais pechincha mais leva vantagem.

 

Nossas escolas são fechadas aos pais. A semana inteira ela se abre aos filhos, enquanto os pais estão no trabalho. Nos finais de semana elas se fecham à comunidade. A escola pública, principalmente, é um corpo estranho na comunidade. Ela passa os sábados e os domingos fechada aos pais. Ela devia abrir suas portas nos finais de semana como ponto de lazer da comunidade. A prática de esporte, as reuniões de grupos de jovens, as feiras de livro,  as exibições de peças teatrais e de músicos da comunidade. No entanto ela se tranca.

 

Até as prisões se abrem aos domingos para as visitas dos familiares dos presos. As escolas se fecham. Os supermercados se abrem, as igrejas, os shoping center, os parques, as praças, mas as escolas se fecham como um quisto ofensivo à comunidade. Se a população do bairro utilizasse mais a escola, preservaria mais suas dependências. É importante que o povo do bairro se conscientize de que o principal bem público de que dispõe, é a escola. Seria até interessante que a maioria dos professores da escola fosse de pessoas oriundas da própria comunidade.

 

Também poder-se-ia estabelecer troca de experiências pedagógicas entre as escolas. Uma promoção que está dando certo em um colégio precisa ser aplicada em outro. Parece que certas escolas têm medo de mostrar suas experiências meritórias.

Um dos primeiros passos para a pesquisa pode ser o uso da biblioteca da escola, com sua sala de leitura. O principal laboratório de qualquer instituição de ensino é a biblioteca. E a principal atividade que se exerce para a pesquisa bibliográfica, é a leitura.

 

O ato de leitura só é completo quando culmina com a escritura. Por outro lado, a escritura só se cristaliza quando consegue seu leitor. Daí ser interessante a ousadia desse Colégio Maria Ester, editando uma antologia dos alunos, bem ali,  na Serrinha. Eles leram, escreveram e agora colocam à nossa frente os seus saberes.

 

É exemplar essa experiência do colégio em editar o que produzem seus alunos. E não é só isso, merece aplauso também a criação de uma Academia de Letras, no próprio Colégio. Sinto-me  muito honrado em ser patrono de uma das cadeiras desse sodalício colegial. Não conheço outro colégio que tenha tão rica iniciativa.

 

Precisamos de academias. Quanto mais academias, grupos de jovens, corais, grupos musicais e grupos teatrais possuirmos, menos necessitaremos de construir prisões. O jovem precisa se ocupar de atividades sadias. Nada mais sadio, pois, do que uma academia e, por cima, com sua antologia literária. Não precisa aqui destrinçarmos o valor conteudístico de cada texto. Eles já começaram alcançando uma função social das mais elevadas: comunicar-se com o grande público. Eu imagino a alegria de um pai ao ver pela primeira vez um texto impresso da autoria de seu filho. E essa publicação privilegia a qualidade. Por isso os escolhidos destacam-se no universo de mais de dois mil alunos que o colégio possui. Essa é uma das mais belas formas de educar e ao mesmo tempo transformar a comunidade do seu entorno.

 

Quantos belos textos são escritos, muitas vezes, pelos nossos alunos do ensino médio e até do ensino fundamental. Mas o público não toma conhecimento. Quando toma, é exatamente dos textos ruins. Até no vestibular quando se comentam as redações, são comentários sensacionalistas sobre os tropeços dos alunos. O Maria Ester está fazendo um trabalho contrário. Está mostrando o bom que é produzido.

 

É assim que se deve fazer.

                                                                                                             jbatista@unifor.br

 

 

 

VISÃO TRANSCENDENTE

O ABRAÇO ENTRE FÉ E RAZÃO (III)

 

 

NÃO CONFIO EM POLÍTICOS

(A PROPÓSITO DA BOLSA-FAMÍLIA)

De Antonio Orzari a Marcondes Rosa

 

 

Não sei se por formação ou qualquer outro distúrbio, tudo o que vem do Planalto Central me cheira a algo semelhante a megalomanias e interesses tão-somente eleitoreiros. Não confio em políticos. De qualquer estirpe. Inclusive a petezada. Será que estou ficando velho?  Desculpe o fel.

 

 

EM JOGO, OS VALORES “BEM” E “MAL”

De Marcondes Rosa a Antonio Orzari

 

Este, infelizmente, parece ser o sentimento geral de todos nós, em relação a nossos políticos. Mas, como diz a programação do TSE, nós é que os escolhemos.  Portanto, "olhos neles". Mais forte que isso, qualificar a nossa democracia, de sorte a evitar que, chegando lá, o pessoal, invocando até Maquiavel, começa a achar que tudo que os políticos fizerem é para o bem do povo.  Até o mal, que, afinal, há de ser feito de uma vez, ao invés do bem, que deve, como o vinho, ser saboreado aos poucos.

 

Para mim, porém, o que termina estando em jogo é a definição afinal dos valores "bem" e "mal". E creio que a nós outros, o que está em jogo são os "valores".  Afinal, o que hoje, em moral política, passa a ser "bem" ou "mal"?  Conheço muitos que definem "bem" como o "meu" e mal", o “dos outros”.

 Estou lançando, aos digamos de "inteligência transcendente" - teólogos, professores de ética, de axiologia, política etc., que discutamos, em nossa sociedade, a questão dos valores. Creio que as religiões podem nos dar algumas pistas.  Outro dia, vi nossa justiça, num dos estados aqui perto, colocar judicialmente abaixo um out door de uma seita religiosa que simplesmente havia colocado uma frase do Gênesis, onde afirmava que Deus havia feito homem e mulher ... "e viu que isso era bom".  Inconstitucional. Fere a liberdade dos gays...  De lascar, não é?  

 

Acho que, de Moisés (com as taboas da lei) a Zé Dirceu (com sua ética dos mensalões) - passando pelo contrato social de Rousseau e os métodos mais cruéis de Sun Tsu, não dá para seguir adiante sem, nos termos do Gênesis, a gente parar ante as coisas e se definir: o que é bom e o que é mau.  

Claro que essas coisas têm uma diacronia.  Vão tomando feições diferentes ao longo do tempo.  O próprio Cristo veio para mudar muita coisa.  E todos sabemos disso. Mas, nessa caminhada, algo (a essência) perdura.

Essa, a questão que estou pedindo que os teólogos, axiologistas  e assemelhados estudem...

 

VISÃO NACIONAL PARA

CONSCIÊNCIA CRISTÃ (VINACC)

De Ricardo Marques a Marcondes Rosa

 

 

Em sua resposta ao Orzari o senhor se refere ao episódio dos outdoors cristãos em Campina Grande como estes tendo sido postos por uma "seita religiosa". Na verdade, não há nenhuma seita envolvida nisso. Foi, isto sim, iniciativa de um movimento nacional seriíssimo de intelectuais cristãos evangélicos de diversas denominações, intitulado "Visão Nacional para a Consciência Cristã - VINACC", que reúne teólogos, pastores, psicólogos, educadores, antropólogos, cientistas diversos, filósofos, escritores, enfim, uma considerável variedade de pensadores cristãos deste país.

 

 Diante de tal diversidade, obviamente nem todos desse movimento pensam igual em tudo, porém as distinções são apenas periféricas, uma vez que todos comungam harmonicamente quanto à base da Verdade e da fé em Cristo numa perspectiva bíblica, e não necessariamente religiosa ou denominacional. Estas centenas de pensadores mantêm-se em salutar união no objetivo de discutir e promover uma tomada de consciência cristã por parte da população, baseado justamente nessa essência da Verdade em que cremos.

 

A Vinacc promove, anualmente, no período de Carnaval, um evento de âmbito nacional, o Encontro Nacional para a Consciência Cristã, que reúne mais de 10.000 pessoas em palestras, seminários, mesas-redondas e simpósios sobre temas específicos. Há alguns anos que sou um dos palestrantes costumeiramente convidados desse impressionante evento. A participação do público nas atividades é totalmente gratuita, sendo o Encontro aberto a qualquer pessoa. Quem quiser e puder conhecer será muito bem-vindo.

 

 

EM TEMPOS PENTESCOSTAIS

OS VALORES A NOS NORTEAR

De Marcondes Rosa a Ricardo Marques

 

 

Grato, Ricardo, pelas informações.  Vi, sobre o episódio, ligeiramente na imprensa e não tinha ciência de sua amplitude.  Dessa forma, o "movimento nacional seriíssimo de intelectuais cristãos evangélicos de diversas denominações, intitulado Visão Nacional para a Consciência Cristã - VINAACC", já, "neste país" - e, neste caso, Planeta - onde os valores se põem e depõem ao gosto de qualquer um - já nos é uma esperança.

 

Aos poucos, os remédios a me sufocar a memória vão agindo. Mas não consigo (alguém me ajuda?) me lembrar do romance que parte da notícia de que Cristo não havia historicamente não existido, deixando-nos a todos em literal "lei do Gérson" - aquele da propaganda (coitado de nosso Gérson, que não tinha nada com isso ...), expressa no "levar vantagem em tudo", a despeito de qualquer ética ou de lei.

 

Terminei de ler, sobre o assunto, o opúsculo que você me enviou no Natal.  Gostei.  Confirmei que: a) não sou ateu! b) Não estou, nem mesmo na ficção de que Cristo não teria existido; c) foi para o mundo, sim, "mais que um carpinteiro" (título da obra); d) mais que todos os profetas, se disse e era "filho de Deus", uma das misteriosas "pessoas da Santíssima Trindade" (não discuto).  E, em qualquer das hipóteses, "o ser humano, desde lá até hoje", de maior (em todas as suas modalidades até hoje descobertas) de maior inteligência, entre os das diversas ciências... Do meu ângulo, sobretudo, na linguagem: escolheu a narrativa, contar histórias, e por meio delas (as parábolas) penetrar os maiores mistérios.

 

Pensei (e já agora o começo) em lhe agradecer.  Na verdade, estou preocupado com os valores.  Mas sinto que, a mim, faltam-me os fundamentos teológicos (nunca estudei teologia), filosóficos (axiológicos) - briga na então Faculdade Católica de Filosofia (não vou dizer entre quem, gente que já foi até Ministro, "neste País", entre outros colegas ora ilustres...) Mas, certa feita, o professor de lógica, explicando o noção de "causa" deu o exemplo de uma casca de banana pisada como "causa" da queda de alguém... Pois bem! Discordância entre alunos, quase todos alguns já formados em outros cursos (eu mesmo já cursava direito): não seria uma "causa" mas "condição".  Depois de um mês nessa literal "pisada", fiz um recurso, submeti-me a uma prova e pedi transferência de curso para letras.  E, aí, no campo das letras, interessei-me por coisas como narrativa, colhendo até dos "faits divers", em Roland Barthes, como autênticas "psicanálise e metafísica do mundo" - rsrs. Muito mais negócio, achei.  Por isso, creio que Cristo tinha essa inteligência mais alta, que, hoje, só consigo decifrar, mas não estaria, não tenho alcance, entre os seus formuladores maiores (refiro-me aos teólogos e filósofos)...

 

 

Taí, pois, uma idéia: envolver esse grupo da " Visão Nacional ..." na análise e busca desses valores.  O que hoje vejo são jovens conscientes de que homem ou mulher são opções.  Jovens, não só. Lembro-me, nos anos 70, num debate de televisão, rodeado de feministas, caí na "besteira" de soltar uma frase (já não sei de quem) "mulher se nasce". As feministas ´(e eram amigas minhas) caíram de pau em cima de mim: "Não Marcondes! - e lá vieram com Françoise Sagan e outros nomes e me condenar o analfabetismo (hoje "iletramento"...) em matéria de sexo: "hoje é opção!" Calei-me e, por isso, já fui até confundido, por causa de meu pré-nome, retirado de sobrenome paulista, e do sobrenome "rosa" com uma ... "gendrada", Não, não é brincadeira: fui até considerado do grupo, anos atrás, das ... "gendradas" (rsrs)

 

Mas hoje vejo que, entre os jovens, valores (os morais, sobretudo), são, em nossas diacronias, mutáveis a toda hora. E eles não têm o menor preconceito. Macho ou fêmea é questão, mutável, de opção.  Honesto ou não, viche! Isso é coisa passada, do tempo em que os fios do bigode eram o melhor aval...

 

Voltando ao livrinho, é ele, em linguagem bem coloquial, altamente convincente. Voltarei a ele.  Para mim, veio apenas confirmar o que se encontrava dormido, desleixado até. Mas nunca fui ateu.  Para mim, o primeiro capítulo do Gênese, não se substitui pelo "No princípio, era o caos".  Antes dele, a organizá-lo em dias (ciclos) ... "et spiritus Dei ferabatur super aquas".  Deus criaria, nos simbólicos 6 "dias", os vários estágios do mundo.  Estágios narcísios, reflexos dele próprio, que o fariam exclamar: "E viu que era bom". Os valores, viriam desse jogo: " ... e viu que era bom".  Viu que não era bom (Adão sozinho).  Até plantar, no meio do Eden, a tal "árvore do bem e do mal".  Daí, viriam os valores, a desembocar, mais tarde, nas táboas da lei, com Moisés.  E assim, desde então, os profetas e Cristo afinal, com a nova lei, per omnia secula seculorum.

 

Valores, sim, que, na diacronia da vida, esta em ciclos históricos, os conserva, adaptando-os aos ciclos, em contratos sociais (a lei natural, a positiva a cada época... etc). Mas valores são fundamentais para que a vida não se corrompa no suposto direito de um em detrimento do outro. E isso, tem razão Bento XVI, não se limitando nem à trilogia da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade), à interpretação desses valores nos limites de Marx, com a simples distribuição de renda e dos direitos. Ou mesmo com um saber acrítico e neutro de nossa ciência. Mas, ao invés, num contínuo repensar da vida, aqui e além, da trilogia "fé, esperança e cáritas" (para não confundir a caridade com um distorcido franciscanismo da ... "esmola".

 

Mas já estou, sim, Ricardo, ido longe.  Estou apenas conclamando a todos (a você principalmente) a juntar os "pedaços" de nossa inteligência, hoje já rejuntada nas denominadas "inteligências múltiplas" que, infelizmente, não foram adotadas ainda nem em nossas universidades, em nossos vestibulares, em nossa educação.  O marketing de nossas escolas, na televisão, a apregoar nossos "geniozinhos?" que o diga.  Tanto brilho e, depois, na vida, onde estão tais inteligências em nossos "out doors" de agora?

 

Desculpem-me, os do Grupo, a minha insistência, nessa questão dos valores.  Hoje, todos nós, bradamos pela ética em nossa política. E, para mim, quem melhor expressou essa ética, entre nós, foi, sem dúvida, Brizola, a nos tachar de nossos então os dois maiores partidos do País a advogar tal questão: o PT (que ele chamou de UDN de tamancos) e o PSDB (a UDN de salto altos).  Tem razão, sobretudo, porque essa UDN persiste, entre nós, até hoje.  Pior que isso, nossos saltos, baixos ou supostamente altos, aí espargidos não só na vida política como em todos os setores de nossa sociedade, num salutar dualismo entre a condenação do anomismo e da ausência de valores e, ao mesmo tempo, do grito de nós (enquanto eleitores) a exigir, na vida política, o que, em casa e na sociedade, não temos: ética, e a sustentá-la, valores". 

 

O episódio do out door deposto, como atentatório ao direito de livre expressão, por nossos tribunais, revela a mesma questão a ser discutida por nossos juristas e tribunais.  Felizmente, a axiologia jurídica hoje está interessada no assunto. O Professor Agamenon Bezerra da Silva (o primeiro PHD na área da ciência política entre nós), em encontro comigo, na Agência do Banco do Brasil da Reitoria, disse-me que, na pós-graduação em ciência política, um grupo, em torno de nosso luminar maior, Paulo Bonavides (meu ex-professor, a quem o STF o reverencia - isso com recentes aplausos internacionais - estaria a advogar tal questão.  E, caia você, nesse mesmo dia, recebi adesões de muitos outros ditos "a/teus" do mundo acadêmico, no Ceará: "Toque a idéia que estamos com você" E, aqui e ali, a lista de "cabeças, mãos e corações", a buscar, no "theos", os nossos mosaicos mandamentos, sob a visão dos históricos "pactos sociais de Rousseau", dosados com os conselhos de Maquiavel ao Príncipe, até os conselhos mais drásticos ou a qualquer preço dos Sun Tsus e Zés Dirceus...

 

Sei que, para alguns do Grupo, estou sendo inoportuno, louco e coisas assim.  De um ex-colega seminarista em Campinas, onde professores do porte de Padre Comblin, em mim, deixou marcas, escreveu-me pedindo concisão.  Tem razão (cá estou eu, feito Getúlio, a dar razão aos contrários ... rsrs!) Melhor que a prolixidade e o apego à fungibilidade dos papos tipo "msgs" é o necessário grito.  Do contrário, é contar os dias que faltam e clamar por um apocalipse com o iminente fim dos tempos.

 

E como temos de entender "apocalipse" como "revelação" e "aviso", cumpramos, pois, com nossa missão, "assim na terra como no céu". Amém! E fica aí o apelo. Todos, com suas inteligências múltiplas, em nova cena pentecostal, a indagar, nos dias de agora, valores a nos nortear, em nossa história e vida na Terra (o chão nosso de cada dia, em nossa "urbs et orbis"...

 

 

ENTRE VALORES E INCONSEQÜÊNCIAS

De Ricardo Marques para o Grupo Ethos-Paidéia

 

 

Encontro-me com um amigo de muitos anos. Homem íntegro, cientista, formador de opinião.

 

Comentando com ele sobre a crise de valores e a ausência de referenciais, cito-lhe as saudáveis discussões de nosso Ethos-Paidéia, e que tenho visto um fio de esperança quando o discurso libertino, não raro travestido de “cabeça-feita” e “pós-moderno”, por vezes cede e nos surpreendemos, todos, a refletir sobre nossos conceitos e preconceitos. Meu amigo, porém, opina que não sabe se tem jeito...

 

Motivos? Vários. Menciona um em particular: quase não temos mais exemplos para as crianças e os jovens. As personalidades brasileiras de imagem pública e que exercem alguma liderança decepcionam, parecendo, cada vez mais, imaturos adolescentes, cheios de vontade e inconseqüências, a se refestelarem em atitudes hedonistas; sentindo-se intocáveis, regem-se pelo “apetite”, fazem o que têm vontade, sem dar a mínima ao modelo de conduta e coerência que deveriam ser.

 

Exemplifica com Ciro Gomes, outrora alvo do voto convicto de nós dois, quando de suas campanhas para prefeito, governador e presidente. À época, a independer de questões partidárias, Ciro parecia representar um espírito jovem de intrépida luta pela transparência e coerência no ato político. Entretanto, no dizer de meu amigo, mudado o cenário político do país, nosso conterrâneo teria “se vendido”. Não quis discutir o fato, pois o assunto de meu interesse, ali, era outro, e queria retornar à essência da crise de valores.

 

Meu amigo insistiu, relatando um fato recente.

 

Estava em um restaurante com a esposa e os filhos, quando testemunhou alguns adolescentes em uma mesa próxima, o garçom a lhes servir vodca. O dito amigo não se contém, levanta-se e, dotado de responsabilidade cidadã, dirige-se ao gerente para avisar-lhe do crime cometido pelo estabelecimento. Afinal, além de causar danos por vezes permanentes, especialmente entre jovens, a bebida alcoólica tem sua venda proibida a menores de idade, havendo lei federal severa a punir os infratores.

 

O gerente não se dá por rogado: “lei?”, pergunta ele. E dispara: “e desde quando lei serve para alguma coisa nesse país? As próprias autoridades do governo, que deveriam dar o exemplo, são as que mais desrespeitam as leis”.

 

E continua o gerente: “olhe, meu amigo, eu não fumo, todo mundo sabe da desgraça que é o cigarro, e que já foi provado que o fumante passivo adoece gravemente por ter de respirar a fumaça dos fumantes ativos; e todo mundo sabe, também, da lei federal que proíbe o cigarro em ambientes públicos, especialmente recintos fechados, como aqui. Mas, se as autoridades públicas não respeitam a lei que elas mesmas fazem, por que esse restaurante teria que respeitá-las também?”

 

E aponta para uma mesa pertinho dali. Nela, Ciro Gomes, a soprar baforadas de cigarro para todos os lados. Sem nenhum constrangimento, parecia não ter qualquer interesse na lei, e muito menos no mal que fazia a dezenas de crianças, jovens e adultos que compartilhavam com ele aquele ar, agora imundo.

 

Meu amigo, até então eleitor de Ciro, sugere ao gerente que faça o que é certo fazer, sem se mirar nos outros, e retorna à mesa onde estava sua família. Pega esposa e filhos, cancela o pedido do almoço e abandona o recinto para nunca mais voltar – mas não sem antes ter que atravessar, com seus filhos e esposa, uma nuvem de fétida fumaça de mais de 4000 substâncias cancerígenas e altamente tóxicas.

 

Saldo: alguns clientes perdidos. Alguns votos perdidos. Uma decepção a mais.

 



 

 



 


 

 

 

 

      

 

 

DO FALSO NEGRUME

À LOIRA DESPOSADA DO SOL

DE PAULA NEY

      

 

        POBRE CARNAVAL

         DE NILZE COSTA E SILVA

(brincante do Maracatu Nação Solar)

Aos do Grupo Ethos-paidéia

 

“Eu não brinquei, você também não brincou”. Há dois anos resolvi não mais viajar no período de carnaval para assistir aos maracatus e blocos carnavalescos da nossa cidade, tendo em vista estar agora sob os auspícios de uma administração popular. Queria também reviver os carnavais do meu tempo de menina, na Av. D. Manuel. Resolvi até atender aos apelos dos amigos e desfilar num dos maracatus. E lá estava eu na ala das negras do Maracatu Nação Solar. Fico encantada com o esforço amoroso de carnavalescos como Pingo de Fortaleza, Calé Alencar, Decartes Gadelha e outros para tornar esse nosso período momino mais atrativo ao povo fortalezense. Com poucos recursos materiais, realizam bingos, feijoadas, vendas de lanches e bebidas para melhorar o nível das fantasias. E, diga-se de passagem, conseguem contratar estilistas, coreógrafos e cenógrafos que deixam os brincantes lindos em seus trajes carnavalescos.

 

Mas chegou o carnaval e eles não desfilaram. Choraram na avenida, ante a tragédia ocorrida por conta do desmoronamento das arquibancadas, onde as pessoas que adoram o carnaval de rua postavam-se, na esperança de torcer pelos seus preferidos. Muitos feridos, entre eles meu marido e meu neto de 13 anos que pela primeira vez tentava assistir ao nosso carnaval de rua. Ele não gostou. Felizmente minha família saiu com ferimentos leves, mas uma observação do meu neto me deixou pensativa: “Mas vó, se nem a prefeita ficou...”

 

A prefeita de Fortaleza não ficou para abrir o carnaval de rua, foi ver o brilho das escolas de samba do Rio de Janeiro. Eram comentários que rolavam na Av. Domingos Olímpio. Gastou o dinheiro na folia do revellion e deixou os pobres brincantes à deriva, diziam outros.

 

Eu não sei o que pensar, mas uma coisa é certa. Não fico mais em Fortaleza para assistir a um carnaval tão pobrezinho e sem segurança.

 

 

        

        

         DO FALSO NEGRUME

         À “FORTALEZA BELA”,

         LOIRA DESPOSADA DO SOL

         De Marcondes Rosa a Nilze C. e Silva

 

       “Eu não brinquei, você também não brincou”, diz você. Também eu.  Em Fortaleza, há muito que carnaval nos tem sido fuga. Não ao “carne vale” (adeus, carne) mas, nos termos cearenses, ressuscitando, dos clássicos, o verbo “estruir”.  Nas praias ao nosso redor, todos a literalmente nos “ovacionar”, isto é, a atirar ovos em quem passa, além de toda a sorte de coisas que poderiam alimentar os pobres... e, no entanto, “estruídas”.

 

       A cidade mesmo, um deserto. No centro, o tradicional e insistente desfile dos blocos e escolas de samba.  Lá, apesar do esforço de uns poucos heróis, a tentativa de não deixar morrer a cultura popular.  Entre elas, o maracatu cearense, de ritmo diferente e marcante.

 

       Coisa nossa, sem dúvida. Mas, nele, uma coisa sempre me intrigou.  Sua característica singular, a do maracatu cearense (diz-nos um especialista) é o ... “falso negrume”! Isso porque negros retintos são raros no Ceará, talvez por isso, a libertação dos escravos aqui tenha sido mais cedo.  Não sei bem por quê.  Mas é estranho que justo o falso seja característica a identificar o culturalmente real...

 

       Lamento os ferimentos aos envolvidos na tragédia, particularmente os seus (marido e neto).  E, de alguma forma, é de se ver intuito e estratégia de marketing de nossa prefeita, envolver-se totalmente no evento do reveillon e nem aparecer em evento de tradição, merecendo a PMF à frente até dele, no carnaval.  Maledicências, sim, são índices, no mínimo das desconfianças.

 

       Diz um ex-colega pró-reitor (ele de administração e eu de extensão) da gestão de Albuquerque, na UFC, que sou culpado por apoiar “correntes que não merecem” do PT (o partido dele). Descobri isso, desde quando, em Brasília, no Congresso, encontrei-me com Genoíno, que conheço desde os tempos da nascente UECe. Encontramo-nos, num dos halls do Congresso, com Genoíno.  Alegre, lá vou apresentar o colega ao nobre deputado.  Este, ao invés, nem olha para o deputado, segue em frente.  Quando lhe digo que o pró-reitor era PT, Genoíno me explica que não leve isso em consideração: “Deve ser de corrente que me odeia”.  Lá na frente, reencontro com o colega, que me explica secamente seu gesto: “Não dou a mão a traidor”, explicando-me ele, ações de Genoino no Araguaia.

 

       Nas últimas eleições municipais, reencontro-me com dito colega.  Ele, como sempre, a reclamar de minha visão sobre a “loira”, ele a me lembrar da líder estudantil violenta. Questiono-lhe se, ao nosso tempo, ela, dedo em riste como fazia ao se opor ao reitor antes de Albuquerque.  E se, algum dia, deixou de me respeitar.  O ex-colega pró-reitor fala de minha “proteção a ela” (financiamento de filme por ela produzido, primeiro lugar em concurso pela Casa Amarela da UFC em convênio com a Prefeitura etc. etc.).  Ele, mais manso, concorda: “Tá certo! Ela sempre respeitou você...”

 

       No Conselho de Educação, ela liderou luta contra os “indignos” anexos da Prefeitura de Fortaleza, quando, no CEC, pedi a todos uma luta a partir de cena simbólica, registrada pelas televisões: todos, de mãos dadas, a lutar por escolas dignas na municipalidade de Fortaleza. Ela foi das líderes de tal e amplo movimento.  E quando fui violentamente atingido por nacionais insinuações da Veja no que toca a ganho de causa jurídica em razão de ser considerado “subversivo”, foi ela a primeira pessoa a me defender.  Eu a ser atacado nacional e internacionalmente.  Ela foi a primeira a botar a mão no fogo por mim: “Esse aí, eu conheço. Ponho por ele a mão no fogo!”

 

       Numa coisa, porém, seu neto pode ter razão, minha cara Nilze.  E essa razão pode estar por trás do que, nos tempos de universidade, certa feita me disse amigo técnico em marketing, sobre drama a perseguir Luizianne: “Ela tem de se decidir entre sua ação de luta à esquerda, de um lado, e sua vocação do pop star, de outro”.  E, na verdade, este o seu drama.

 

       No segundo turno das eleições municipais, em Fortaleza, os técnicos de marketing, em minha visão, tentaram tirar partido desse drama de Luizianne.  De um lado, o slogan “Fortaleza bela”, câmeras centradas na loura, numa como evocação à “Loira desposada do sol” de nosso poeta Paula Ney.  Isso, com o risco da repetição do fenômeno de Maria Luiza, de administração difícil.

 

       Lembro-me dos últimos dias antes da eleição de Maria. Ela, as pesquisas a dizer o contrário, passa em minha casa, para apanhar Andréia, a filha.  Conversamos sobre a possibilidade de eleição e, a propósito, pergunto-lhe sobre sua disposição (olho, frente à minha casa, o calçamento a desmanchar-se e o lixo por apanhar) para questões prosaicas de nosso dia a dia. Maria, rindo-se, me diz de sua pouca aptidão para este problema.

 

       Dias depois, o inesperado. Maria, eleita.  Em reunião com o grupo, o pensamento dominante: se eles fossem porventura eficientes seria a constatação de que, fora do socialismo, haveria, sim, salvação. Daí, a proposta de muitos: demonstrar ineficiência, até que Américo Barreira, o vice, protestou...

 

       O narcíseo das câmeras nela sentadas e o coletivo inconsciente da “loira desposada do sol” uniram-se e a opção que o técnico em marketing via contraditórios, em Luizianne, se deram as mãos.

 

       O Narciso de outrora embeveceu-se com sua própria imagem.  Daí, não avistar seu entorno. Mas Jeová também, conta-nos Moisés, no Gênesis, diz que, no princípio, a terra era inane e vazia.  E o espírito de Deus pairava sobre as águas.  Aí, o fiat lux.  E a luz foi feita. Jeová, a partir daí, vendo sua obra espelho do criador, narcíseo, foi gostando e, cada vez mais, em iteração, gostando, a ponto de repisar seu refrão, o qual, terminamos, imagem e semelhança dele, por herdar: “... e viu que isso era bom!

 

       Parece que a loura superou sua própria e aparente ambigüidade, apontada por meu amigo técnico em marketing, fazendo, de suscitação de forças mais profundas, a jazer em seu narcíseo ... “Fortaleza Bela”.  Não sei se, no caso do maracatu, resquício da cultura negra, onde o “falso negrume” é a característica do envolvente ritmo cearense...

 

       Fica-nos a reflexão, que poderá confirmar ou desmentir o diz-que-diz dos populares a darem pela fuga da prefeita no carnaval de rua de Fortaleza.

 

 

FORTALEZA

 

(Paula Ney)

 


Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loira desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins pousada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho,
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais...

É minha terra! a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pastor da Igreja da Comunidade Metropolitana

Espiritualidade

A IGREJA HOMOSSEXUAL NO BRASIL

Eudes Pontes

O Povo - 02/02/2008 

 

A liberdade para o livre exercício de cultos religiosos em nosso País está explicitada na Constituição Federal de 1988, em seu artigo 5º, inciso VI, que trata dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. Isso posto, reconhecemos que permite o nosso ordenamento jurídico qualquer manifestação de culto religioso, desde que não vá de encontro aos princípios constitucionais vigentes. Portanto, os homossexuais têm todo direito de exercer o seu sentimento de religiosidade.

 

No mesmo artigo 5º, inciso IV, a Constituição garante a livre manifestação do pensamento, dando-nos a oportunidade de expor o nosso pensamento, de maneira não preconceituosa, sobre o surgimento no Brasil da Igreja Comunidade Metropolitana, segundo matéria publicada em uma das edições da revista Época, em dezembro passado. Tal Comunidade exerce ofícios religiosos em São Paulo e Rio de Janeiro, sendo constituída e pastoreada por homossexuais, autodenominando-se igreja evangélica.

 

Os cristãos que crêem na Bíblia Sagrada como única regra de fé e prática não podem concordar com o posicionamento dessa Comunidade, pois o seu fundamento doutrinário, ao admitir a união homossexual, entra em colisão com os textos e os princípios sagrados das Escrituras.

 

Deus, de forma muito clara, no versículo 22 do capítulo 18 de Levítico, diz ao povo de Israel: "Com homem não te deitarás, como se fosse mulher: É abominação". No mesmo Livro, no capítulo 20, o Senhor assim se expressa: "Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram cousa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles".

 

Diante de Deus, o Todo Poderoso, criador dos céus e da terra, o qual não muda, homossexualidade é aos seus olhos abominação, ainda hoje. Do ponto de vista de Deus, a prática homossexual se configura uma distorção ao seu projeto para com a raça humana, uma vez que, conforme lemos em Gênesis, capítulo1, versículo 27, Ele criou o homem à sua imagem e semelhança, homem e mulher os criou. Deus não criou um ser híbrido, que ora tem natureza de mulher ora natureza de homem.

 

O apóstolo Paulo, escrevendo aos Romanos no capítulo 1, versículos 25, 26 e 27, tratando da depravação dos homens, diz que os homens mudaram a verdade de Deus em mentira e, por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as suas mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas, por outro contrário à natureza; semelhantemente, os homens, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo em si mesmos a merecida punição do seu erro.

 

Ser cristão significa compromisso de crer e praticar os ensinamentos de Deus na pessoa de Cristo, não comporta nenhuma prática que vá de encontro a tais ensinamentos, como é o caso da prática homossexual, conforme demonstramos biblicamente.

 

Aos homossexuais, como a todos os homens, cabe arrepender-se das suas práticas pecaminosas, pois segundo a Palavra de Deus em Atos 3, versículo 19, é necessário que haja arrependimento e conversão para que os mesmos sejam perdoados, tenham a garantia de vida eterna por Jesus e, conseqüentemente, sejam cristãos autênticos.

 

O Senhor Jesus, de forma muito clara, afirma em João 6, versículo 47, quem crê em mim tem a vida eterna. Sabemos que crer implica obedecer e obedecer implica renunciar. Tanto é que Jesus, em Marcos 8, versículo 34, diz: Se alguém quer vir após mim a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.

 

A Comunidade Metropolitana, através de seus líderes, não tem apresentado aos seus membros, a essência do Evangelho, que consiste em arrependimento de pecados e negação a nossas próprias tendências pecaminosas.

Os líderes da Comunidade Metropolitana, ao defenderem e praticarem a homossexualidade, estão em pecado diante de Deus, pois defendem prática abominável, que redundará na separação definitiva e eterna deles do próprio Deus. Em Romanos 6, versículo 23, diz que o salário do pecado é a morte mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus nosso Senhor.

 

Eudes Pontes é engenheiro, bacharel em Direito e evangélico da Igreja Presbiteriana

 

 

QUANDO HAVEREMOS

DE APRENDER A PERDOAR?

Comentário de Adail Sobral

 

 

 

Esdras, governador imperial, decretou num dado momento que as esposas e filhos estrangeiros dos judeus deveriam ser repudiados. Por quê? A principal razão era que os retornados do exílio na Babilônia precisavam das terras. Para propor esse decreto, a que os editores sacerdotais do Pentateuco se opuseram, ele distorceu as palavras de  Moisés.

 

Em várias passagens da Bíblia, Deus diz que o povo de Israel deve destruir povos inimigos, inclusive matando mulheres e crianças ou tornando-os escravos etc. Será que os cristãos de hoje devem "devolver" suas esposas "estrangeiras"? Israel deve destruir o Líbano, a Síria etc.? Bem, um cínico perguntará: que pecado cometeram criancinhas que desenvolvem câncer? Ou, classicamente, porque Deus permite que inocentes sofram? Bem, isso apenas para mostrar a historicidade da Bíblia, sujeita, como tudo o mais, a influências de época.

 

O articulista não está atacando ninguém; é bem articulado (sem trocadilho), mas esqueceu outras partes da Bíblia que falam do perdão etc. Um mais cínico ainda vai perguntar: por que Deus deixa que existam homossexuais etc.? Quando haveremos de aprender a perdoar?


Fonte da foto:

 

http://www.caiofabio.com/novo/caiofabio/news.asp?

 

 

GRADES E DISCIPLINAS

     A NOS PAUTAR OS TRILHOS

     DA EDUCAÇÃO

 

  

CULTURA DA VIDA X CULTURA DA MORTE

De Solange Rosa a Marcondes Rosa

 

Percebo que você ao resgatar eventos e textos desta natureza está provocando não só o debate, mas a cobrança de tais iniciativas. Eu como uma pessoa envolvida com as questões curriculares nacionais (formação: mestrado em currículo- PUC/SP), também sinto interesse em saber o que gerou na prática sobre tais propostas. 

 

Vejo esta questão da responsabilidade social, assim como a gestão social, algo que começa a partir da educação básica, incluída na formação cidadã tanto a sensibilidade para o que é comum, como o uso e a aplicação disto na vida. Uma simples matéria/disciplina incluída na "grade" (esta é uma concepção aprisionante) não forma e nem muda posturas.

 

      A questão dos valores deve perpassar em todas as instâncias da formação cidadã aliada à ética. Quando me refiro aos valores, falo numa perspectiva universal, daquilo que vem em benefício da humanidade - tornar o homem mais humano - um ser solidário, não indiferente ao que se passa ao seu redor.

 

 O que vemos hoje é mais uma "cultura da morte" que uma "cultura de vida" (Campanha da Fraternidade-2008). O combate ao individualismo/egoísmos começa desce cedo quando a criança evidencia em seu desenvolvimento a característica do egocentrismo.  

 

Assim entendo que tais questões evidenciam um processo formativo, mais que uma simples disciplina incluída na "grade curricular".

 

   PEDAÇOS REJUNTADOS NO TODO

De Marcondes Rosa a Marcondes Rosa

 

  Como havia afirmado, janeiro levou-me ao duplo olhar de Jano: o recuar o passado para ali colher o futuro.  E, no histórico esforço de unirmos “cabeça, mãos e tato” (o mundo das inteligências múltiplas, o dos gestores estatais e sociais e o da sensibilidade política), estamos buscando as iniciativas que nos apontam para essa busca (a do futuro gestando-se em nossa experiência passada).

 

 Fui, pois, com esse objetivo, buscar, das instituições nossas ditas privadas de educação superior, o gesto da criação da “Câmara de Educação Superior” na órbita de seu sindicato.  E, gesto além, o do clima de responsabilidade social a ter por horizonte o status de “indústrias sem chaminés” para nossas IES.

 

 Na verdade, tal percepção remonta-nos ao clima dos rumos de nossa preocupação, nos anos 80, quando discutíamos “Para onde vai a universidade brasileira?” e as Edições UFC publicava “Os usos da universidade”, de Clark Kerr, que, às instituições de educação superior, dava o status de “indústrias do conhecimento”.  Por coincidência, a tal organização, que se denominaria “Câmara de Educação Superior”, nasceria em reunião presidida pelo então Vice-Governador do Estado, Beni Veras, com o Banco Mundial, representado ali por Antonio Gomes Pereira, justo o organizador do evento e da obra “Para onde vai a universidade brasileira?”. Depois, com Jorge Parente, daria status, com o assentar-se na FIEC das instituições de educação superior, aí incluídas as ditas privadas. Passo, sem dúvida, inicial, a ir abarcando, num crescendo, as instituições responsáveis pela educação em geral e não somente a profissional, já que é toda a educação que há de cuidar da formação das feições integradas do profissional, cidadão e pessoa...

 

 Um passo, que julgamos importante, quando, um dia, Demócrito e Vânia Dummar procuraram-me (eu estava em reunião do Fórum dos Conselhos Estaduais de Educação), com a sugestão da recém-criada “Câmara de Educação Superior” e os primeiros passos para a questão da “responsabilidade social”. Falei-lhes que “primeiro passo”, sim, havia gostado.  Mas, para quem, universitário dos anos 60, pró-reitor de extensão a levar nossa ação pelo interior e até a Amazônia, a feição da “disciplina” era pouco, muito pouco.  Promessas, porém, de passos gradativos na idéia, terminei por concordar.

 

 Na verdade, avanços a concepção de currículo começavam a combater a verdadeira praga do behaviorismo a nos fatiar em comportamentos estanques.  E, embora nossos educadores houvessem descoberto a pólvora dos "currículos piramidais" e dos "temas transversais", ainda levariam muito tempo por juntar os pedaços aos currículos, fazendo-os correr na direção dos valores.   

 

Gomes Pereira haverá de lembrar-se de reunião financiada pelo Departamento de Assuntos Universitários (DAU), em Teresina, quando os macacos, de um departamento, fugiram e, no auditório, destroçaram um álbum seriado com a taxionomia de Bloom...  Bati palmas (falaria sobre ciclo básico e currículo piramidal logo após).  Os intuitivos macacos me poupariam as críticas ao behaviorismo, demonstrando a inteligência que eu esperava de nossos educadores de então...

 

Felizmente essa visão em pedaços, de objetivos operacionais e quejandos, se esvai.  Hoje, tempos de globalização, de esfericidades, a conduzir as crianças (e educandos em geral) sob a ótica do pensamento complexo, está mais fácil falar-se em “transversalidade” e, a nos orientar, os valores de nossa educação. E sintomático que, justo em Teresina, tenha sido o Instituto Dom Barreto a acordar a Nação e a derrubar o enganoso marketing de nossas escolas...

Óbvio que uma revolução, em nossa educação, há de se fazer a partir das crianças, da educação infantil.  Por coincidência, esse hoje, em nosso País, é a fase onde verificamos maiores progressos – disse eu, quando da concessão da Medalha Otávio Lobo, pela Assembléia Legislativa, ao Vereador Guilherme Sampaio (PT), batalhador da educação infantil.

 Ocorre, porém, que, em nosso País, as grandes mudanças se operam pelo alto, no caso, a educação superior, que, pela formação de nova cultura, é o caminho mais curto para novos diapasões em nossa caminhada. Ela impõe conceitos e (pré) conceitos a partir da semântica.  É o caso pelo qual chama você a atenção, Solange, ao colocar a expressão “grade curricular” entre aspas. 

 

Isso lembrou-me Guiomar Namo de Mello que nos contou que, ao se trair com tal expressão, na Argentina, ouviu alguém concluir: “Grade curricular? E, no Brasil vocês prendem os alunos?”  Ele teve de explicar que a expressão cristalizara-se.  Mas lhe deu pistas para sua concepção a tolher a liberdade dos alunos...  Nessa linha, veremos em termos como “disciplina” e muitos outros, em nossa educação, a nos tolher a criatividade!

 

 

 

Eunice Durhan

 

INDÚSTRIA SEM CHAMINÉS

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 1º de maio de 2002

 

 

Início de 1996! Em fórum onde discutíamos o papel das universidades com vistas ao desenvolvimento sustentável no Ceará, com importantes atores sociais, uma questão se lançou: frágeis as nossas universidades, não seria a hora de as fundir numa só, mais sólida? Eunice Durhan, olhos no êxito da Califórnia, foi categórica: “Uma só, não. Um plural sistema compartilhado, sim!”

 

Desde então, esse tem sido nosso horizonte. As mãos, duas ferramentas básicas: a da “colaboração entre os sistemas de ensino” (o dos Estados e o da União, sobretudo a da ampla “negociação social”. Por metas: a) a disciplinada universalização do acesso à educação superior; b) a equilibrada distribuição territorial desse acesso (regiões, capital e interior); c) a adequação dos cursos às estratégicas necessidades do desenvolvimento. Na caminhada, difíceis embora já sensíveis têm sido os passos, a nos colher mais arranhões que adesões.

 

Nela, recente surpresa: a de as instituições ditas “isoladas” unirem-se em “Câmara de Educação Superior”, dentro de seu sindicato, sepultando prosaicas divergências na água grande das convergências. A visita delas ao Conselho de Educação foi unânime convergência. Lá, ratificaram pacto sobre horizontes e caminhos propostos, o estatal e o privado em imperioso abraço da “iniciativa social”.

 

No grupo, alguém me depõe como a traduzir motivação na raiz do gesto das “isoladas”. Empresário, ele antes “empregava peões” e, então, sentia-se sob afagos e incentivos (fiscais até) de sociedade e governo. Agora, ao investir na “alta educação” e ao criar emprego para “doutores e mestres”, gerando e multiplicando o capital intelectual e humano, ressentia-se ele dos afagos e incentivos de outrora.

 

Fiquem-nos a reflexão e a queixa do desamparo para com as “indústrias sem chaminés”. As públicas e as privadas, sociais ambas!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece), exercendo a presidência do Conselho de Educação do Ceará





 

 

 



 

Grupo de Ação da FIEC
lança o
Formação Cidadã

 

Outubro de 2005



Wânia Dummar: "O momento é celebrar a perseverança"

O projeto do Grupo de Ação de Responsabilidade Social inclui o tema Gestão Social como disciplina obrigatória nas grades curriculares de cursos de onze instituições de ensino superior cearenses

Os alunos de onze instituições de ensino superior do Ceará vão ter, ainda este ano, mais uma disciplina incluída no currículo obrigatório de seus cursos. A iniciativa de propor a inclusão da disciplina Gestão Social nas grades curriculares é do Grupo de Ação de Responsabilidade Social da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), criado pelo presidente Jorge Parente Frota Júnior e coordenado pela empresária e jornalista Wânia Dummar.


A reformulação da grade curricular dessas instituições é o objetivo do projeto Formação Cidadã. A concretização dessa idéia veio por meio da instalação da Câmara de Ensino Superior do Ceará, um projeto cujo objetivo é formar cidadãos não só em nível profissional, como também com responsabilidade social.[


A solenidade de implantação da Câmara de Ensino Superior foi realizada este mês no auditório Waldir Diogo, na Casa da Indústria, com as presenças do presidente da FIEC, Jorge Parente Frota Júnior; do governador do Estado, Beni Veras; do professor Marcondes Rosa, presidente do Conselho Estadual de Educação; do reitor Roberto Cláudio Frota Bezerra, presidente do Conselho de Reitores do Ceará; da coordenadora do Grupo de Ação de Responsabilidade Social, Wânia Dummar, além de outras autoridades e de representantes das instituições envolvidas.


Na abertura da solenidade, Jorge Parente citou o educador Darcy Ribeiro para enfatizar a importância do projeto. “Através da ação ou da inação de seus sábios e eruditos, as sociedades podem vir a melhorar ou piorar”, disse. Destacou ainda a satisfação de estar realizando uma ação de responsabilidade social ao instalar a Câmara de Ensino Superior. Jorge Parente também ressaltou a interação da FIEC com o meio acadêmico.


A coordenadora do Grupo de Responsabilidade Social da FIEC, a empresária e jornalista Wânia Dummar, afirmou, em seu discurso na solenidade, que ‘’esta é uma noite de celebrações! Celebração da perseverança, tendo como resultado a vitória de um bem intangível chamado capital social, traduzido na soma de esforço e decisões de todos, reunidos neste recinto, como sociedade, legitimando, também, a criação de novos paradigmas capazes de propiciar um espaço inovador de experiências no meio acadêmico cearense’’. Ela destacou também que o capital social celebra três pontos desse conceito: o clima de confiança, a confiança no poder associativo e o nível de consciência cívica de seus membros, mas sobretudo o surgimento da Câmara Superior de Ensino.


O professor Marcondes Rosa afirmou que o projeto Formação Cidadã e a criação da Câmara de Ensino Superior do Ceará “consistem num emblema não só para o Ceará, como para o país”. Rosa destacou a presença em peso do Conselho Estadual de Educação na solenidade, como medida da importância do evento. Ele saudou o governador Beni Veras como incentivador desse projeto, e também o presidente da FIEC, Jorge Parente, por sua visão ‘’que vai além das chaminés das indústrias’’.


O governador Beni Veras finalizou a solenidade afirmando que é uma demanda de toda a população cearense que o Estado busque a justiça social. “Um dos mais legítimos anseios de todos os cearenses é que o Ceará se torne um Estado cada vez mais justo. No entanto, não poderemos construir o Estado com que sonhamos sem o compromisso de todos: governo, iniciativa privada e organizações da sociedade civil, com o desenvolvimento humano.”

Quem participa:


• Faculdade 7 de Setembro - Diretor: Ednilo Soarez
• Faculdade Christus - Diretor: José Carvalho
• Faculdade Evolutivo - Diretor: George Feijão
• Faculdade Gama Filho - Diretor: José Liberato
• Faculdade Unice - Diretor: Fábio Tartuce
• Faculdade Integrada do Ceará (FIC) - Diretor: Cláudio Pimentel
• Faculdade Farias Brito - Diretor: Tales Sá Cavalcante
• Faculdade de Desenvolvimento Humano - Diretor: Antero Coelho Neto
• Faculdade do Nordeste (Fanor) - Diretor: Fernando Gomes
• Instituto de Ensino Superior do Ceará (IESC) - Lourenço Filho - Diretor: Antônio Filgueiras
• Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará (Cefet) - Diretor: Mauro Oliveira

Fonte:

http://www.fiec.org.br/publicacoes/jornalfiec/edicoes/0902/default.asp?URL=8


 

 

Cotas: o justo e o injusto

Lia Luft

 

 

"A idéia das cotas reforça conceitos nefastos:

o de que negros são menos capazes

e precisam de um empurrão

 e o de que a escola pública

 é péssima e não tem salvação"

 

 

O medo do diferente causa conflitos por toda parte, em circunstâncias as mais variadas. Alguns são embates espantosos, outros são mal-entendidos sutis, mas em tudo existe sofrimento, maldade explícita ou silenciosa perfídia, mágoa, frustração e injustiça.

 

Cresci numa cidadezinha onde as pessoas (as famílias, sobretudo) se dividiam entre católicos e protestantes. Muita dor nasceu disso. Casamentos foram proibidos, convívios prejudicados, vidas podadas. Hoje, essa diferença nem entra em cogitação quando se formam pares amorosos ou círculos de amigos. Mas, como o mundo anda em círculos ou elipses, neste momento, neste nosso país, muito se fala em uma questão que estimula tristemente a diferença racial e social: as cotas de ingresso em universidades para estudantes negros e/ou saídos de escolas públicas. O tema libera muita verborragia populista e burra, produz frustração e hostilidade. Instiga o preconceito racial e social. Todas as "bondades" dirigidas aos integrantes de alguma minoria, seja de gênero, raça ou condição social, realçam o fato de que eles estão em desvantagem, precisam desse destaque especial porque, devido a algum fator que pode ser de raça, gênero, escolaridade ou outros, não estão no desejado patamar de autonomia e valorização. Que pena.

 

Nas universidades inicia-se a batalha pelas cotas. Alunos que se saíram bem no vestibular – só quem já teve filhos e netos nessa situação conhece o sacrifício, a disciplina, o estudo e os gastos implicados nisso – são rejeitados em troca de quem se saiu menos bem mas é de origem africana ou vem de escola pública. E os outros? Os pobres brancos, os remediados de origem portuguesa, italiana, polonesa, alemã, ou o que for, cujos pais lutaram duramente para lhes dar casa, saúde, educação?

 

A idéia das cotas reforça dois conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes, e por isso precisam desse empurrão, e o de que a escola pública é péssima e não tem salvação. É uma idéia esquisita, mal pensada e mal executada. Teremos agora famílias brancas e pobres para as quais perderá o sentido lutar para que seus filhos tenham boa escolaridade e consigam entrar numa universidade, porque o lugar deles será concedido a outro. Mais uma vez, relega-se o estudo a qualquer coisa de menor importância.

 

Lembro-me da fase, há talvez vinte anos ou mais, em que filhos de agricultores que quisessem entrar nas faculdades de agronomia (e veterinária?) ali chegavam através de cotas, pela chamada "lei do boi". Constatou-se, porém, que verdadeiros filhos de agricultores eram em número reduzido. Os beneficiados eram em geral filhos de pais ricos, donos de algum sítio próximo, que com esse recurso acabaram ocupando o lugar de alunos que mereciam, pelo esforço, aplicação, estudo e nota, aquela oportunidade. Muita injustiça assim se cometeu, até que os pais, entrando na Justiça, conseguiram por liminares que seus filhos recebessem o lugar que lhes era devido por direito. Finalmente a lei do boi foi para o brejo.

 

Nem todos os envolvidos nessa nova lei discriminatória e injusta são responsáveis por esse desmando. Os alunos beneficiados têm todo o direito de reivindicar uma possibilidade que se lhes oferece. Mas o triste é serem massa de manobra para um populismo interesseiro, vítimas de desinformação e de uma visão estreita, que os deixa em má posição. Não entram na universidade por mérito pessoal e pelo apoio da família, mas pelo que o governo, melancolicamente, considera deficiência: a raça ou a escola de onde vieram – esta, aliás, oferecida pelo próprio governo.

 

Lamento essa trapalhada que prejudica a todos: os que são oficialmente considerados menos capacitados, e por isso recebem o pirulito do favorecimento, e os que ficam chupando o dedo da frustração, não importando os anos de estudo, a batalha dos pais e seu mérito pessoal. Meus pêsames, mais uma vez, à educação brasileira.

 

 

De Circe Vidigal

Para o Ethos-Paidéia

 

 

“A idéia das cotas reforça conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes e precisam de um empurrão e o de que a escola pública é péssima e não tem salvação"

 

 

Eu nem fui além desse trecho da leitura. Por aqui mesmo dá para comentar o que eu entendo por cotas e porque as defendo.

 

Não acho que os negros sejam menos capazes, de nenhum modo, mas que precisam de um empurrão, lá isso precisam, pelas condições econômicas, sociais e culturalmente precárias em que a maior parte vive.Também acho  SIM que a escola pública "está" péssima ( no meu tempo era excelente ) mas não penso que " não tenha salvação". Isto posto, a frase acima é extremamente preconceituosa, tendenciosa e demonstra um desconhecimento mais profundo do problema.  Visa apenas negar as cotas àqueles que dela necessitam para abrir seus caminhos na vida. Para variar, aqueles que mais têm condições, não abrem mão de um mínimo em favor dos mais depossuídos; não levam em conta a injustiça da desigualdade social em que vivemos; não entendem que se não podemos mudar este triste mundo, podemos mudar nosso modo egoísta de pensar.

 

Não pertenço a uma família rica, mas temos o suficiente para - com enorme sacrifício - ter dado às crianças desta casa ( dois netos, dos treze que tenho)  uma educação de primeira qualidade aqui no Rio de Janeiro. Eu e minha filha, juntas, achamos sempre que uma boa educação valia qualquer sacrifício. Hoje, uma dessas "crianças" nos deu o orgulho de passar para o Vestibular em Medicina justamente para a UERJ - a Universidade das cotas desse estado, onde a entrada normal é muito mais difícil do que para a UFRJ, pois esta não oferece cotas. O número de vagas que a UERJ oferece para quem não entra por cotas é ínfimo, daí a grande dificuldade: não que uma Universidade seja melhor que a outra.

 

Dessa maneira, considero-me isenta para comentar, pois, quando ainda não sabíamos o resultado, em nenhum momento lamentou-se " o fator cotas" e minha neta estava disposta a fazer quantos vestibulares fossem necessários ( quantos anos ) para estudar Medicina, sua paixão e a Faculdade mais difícil de se entrar - pelo menos aqui no RJ.

 

Finalmente, quando me refiro a cotas, não penso só nos negros mas em todos aqueles que não tiveram a mesma oportunidade de escolaridade, sejam eles quem forem: alunos de escolas públicas, índios, deficientes etc... Para estes acredito que as cotas sejam uma grande oportunidade, se as universidades lhes derem o apoio extra que necessitam  ( e a UERJ está fazendo isso)  pois vão necessitar e muito ! E isso não os desqualifica, pois estarão tendo assim um mínimo da oportunidade que não tiveram ao longo da vida.

 

PS: Pareceu-me a carta de autoria da escritora Lia Luft (o nome está muito apagadinho) e encaminhada pelo professor Luis Carlos Campelo Cruz, da UFC.

 

 

MANUTENÇÃO DO PRIVILÉGIO DE CLASSES

De Sebastião ao Grupo Ethos-Paidéia

 

 

Apóio tudo o que você disse. Esse tipo de argumento é típico dessa classezinha média despolitizada que não almeja um estado de direito e de justiça social, mas apenas de privilégios individuais. Não conseguem enxergar além do umbigo e ficam girando em torno dessa retoricazinha besta.

 

A política de cotas sociais e raciais em universidades públicas talvez seja o projeto mais importante da história de construção de nossa democracia. Todos os argumentos de oposição que tenho ouvido por ai têm sido preconceituosos e visam apenas a manutenção de privilégio de classe.

 

 

ENDEUSAMENTO DA UNIVERSIDADE

O ÚNICO SENÃO

De Adail Sobral em adendo   

 

 

Meu único "senão" é o endeusamento da universidade. Há inúmeros portadores de diploma universitário em funções "inferiores". Não creio que todos precisem de universidade ou se adaptem a ela. Com cotas ou sem, vejo poucos se sentindo à vontade na academia.

Acredito em oportunidades iguais, mas em todos os níveis. Claro que, se alguns se sentem vocacionados, podemos usar com sucesso o modelo amplo da UNICAMP.

 

 

 

----- Original Message -----

 

 

O BEIJO

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

11/01/2008

 

Somos o país do “viva e deixe viver” e já se foi o tempo em que alguém se preocupava com a vida íntima dos outros. Nesse sentido, não deixa de ser significativa a mudança de termos para designar relações humanas. Por exemplo, não se diz mais amante, mas namorada ou namorado. Num passado não muito distante, mas que ficou no século passado, namoro era um tipo de conhecimento prévio de um casal, que não passava de passeio de mãos dadas ou, no máximo, de um beijo roubado no escurinho do cinema. Agora “fica-se” ou mora-se junto para melhor conhecimento das potencialidades físicas e outras mais do namorado ou da namorada.

 

Não vou discutir essas mudanças em termos morais ou se foram boas ou ruins. Não é esse meu propósito. O tema é complexo, envolve mudanças sociais e deveria trazer argumentações de ordem psicológica, como o impacto sobre a vida dos jovens com respeito à transitoriedade dos relacionamentos amorosos. Tão pouco discorrerei aqui sobre as alterações da instituição familiar à luz dos divórcios ou das ligações fora do casamento tradicional. Um artigo que contemplasse esses temas ficaria melhor numa revista especializada e teria outra dimensão.

 

Em todo caso, a introdução serve apenas para comentar se ainda existem certos limites em nossa sociedade com relação à moral, ou se ingressamos de vez na era da amoralidade, ilustrada de forma exemplar pelo lixo televisivo, Big Brother Brasil, que retorna para gáudio dos telespectadores.

 

Quero, então, me reportar a um determinado beijo na boca que anda rolando pela Internet, esse fabuloso meio de comunicação. E não me digam que a Internet é excludente. Cada vez mais pessoas têm acesso a essa telepatia moderna, seja nas escolas, seja nas Lan houses, seja nos domicílios. E ao em vez de excluir, a Internet inclui os que não tem acesso á grande mídia, e que podem assim expressar livremente seu pensamento. Por isso, esse espetacular meio de comunicação é temido e excluído em regimes totalitários como nos da China e de Cuba onde é proibido pensar.

 

Mas, voltemos ao beijo. Nada contra essa manifestação que se supõe amorosa. O amor é o que há de mais fundamental na vida humana. Entretanto, quando se vê a senadora Ideli Salvati agarrando o rosto do senador José Sarney e pespegando um beijo na boca do aliado, ocorre perguntar se, apesar da liberalização dos costumes, tal ato está de acordo com o ambiente do Congresso.

 

 Resta também saber, se a esposa do Senador Sarney foi tão benevolente com a cena quanto a mulher do senador Renan Calheiros, que foi de uma compreensão de “Amélia” com relação a “namorada” do seu importante marido que, aliás, se safou incólume de todas as acusações e ainda deu risada, pois somos uma sociedade muito engraçada que tudo perdoa.

 

De todo modo, a imagem que circula pela Internet valendo, como se diz, mil palavras simboliza uma coisa: a entrega do PT ao PMDB. Algo que seria impossível de ser imaginado em passado recente. Mas a ética do PT ficou também no século passado. E se a palavra do presidente só vale (e olhe lá) para o ano em que é pronunciada, como ficou claro na explanação do ministro Guido Mantega com relação ao aumento de impostos, imagine-se de um século para outro. Vale tudo, vende-se tudo para se alcançar e manter o poder.

 

O beijo deve ter sido também a senha para a negociação de cargos postos no balcão do Planalto à disposição do PMDB que, inclusive, indicou o senador e ex-pianista, Edson Lobão, para o ministério de Minas e Energia, Isto apesar da ameaça de apagão elétrico e da falta de gás, que foi negaceado pelo companheiro Evo Morales. Parece, pois, que o PMDB deseja muito mais que um beijo.

 

E enquanto se sucedem beijos e afagos, líderes governistas querem ressuscitar a famigerada CPMF e a Igreja e o MST pedem mais impostos para penalizar os ricos. Nenhum povo aceitou de forma subalterna a exorbitância tributária dos governantes que sempre levaram a melhor parte das arrecadações. Mas isso foi em outros séculos e parece que o brasileiro “moderno” adora ser o contribuinte otário que sustenta o luxo das cortes.

 

Num outro extremo nada amoroso, José Dirceu, o “chefe da quadrilha dos mensaleiros” e que ficou com apelido de Duas Caras desnudou o partido e jogou setas para todos os lados na entrevista dada à revista Piauí. Entre outras coisas, o deputado cassado ressuscitou o caso da sede do PT em Porto Alegre que, segundo ele teria sido construída com dinheiro de caixa 2 providenciado pelo pobre Delúbio (antes foi dito que era com dinheiro de bicheiros) e atacou até o filho do presidente, o Lulinha, “aquele que não se importa com a verdade”. Claro que foram mágoas com a Telebrás e a Telecom, o que poderia explicar a vendeta. Dirceu, um exemplo marcante de marxismo de mercado, nega que falou o que falou e foi para Recife fazer implante de cabelo. Será que vai voltar com outra cara?   

 

Ao final desse singelo artigo fica uma sugestão: incluir os senadores Ideli Salvati e José Sarney no BBB. Fariam, sem dúvida, o maior sucesso. Sinal dos tempos.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br


 

Isolda Castelo Branco

 

             A EXPERIÊNCIA DA FAVELA VIDIGAL

 

                                                     

Isolda Castelo Branco

 

 

Estive pensando que temos muita facilidade e divulgamos permanentemente a triste situação em que se encontra a Educação no nosso país e em nosso Estado.

 

         Dados estatísticos mostram o nosso atraso, a incompetência em proporcionarmos uma melhor Educação para nossos alunos. Atribuímos a responsabilidade ao Estado, aos professores, às formas de gestão, e aos alunos, que dizem, não têm motivação para a aprendizagem.

 

         Há alguns dias, assistindo um programa de TV, sobre uma experiência, na favela do Vidigal, pensei que poderíamos, no nosso Grupo, não só fazer as denúncias e análises necessárias, sobre a nossa situação educacional, como divulgar as experiências exitosas (que são muitas) que conhecemos, e que podem ser socializadas por meio do nosso Blog, como noticias e informações.

 

         Vou tentar resumir o que vi no programa Balaio Brasil (TV SESC/SENAC) que considerei de grande importância, sobretudo, neste momento em que só se vê as favelas como um lugar perigoso, de marginais, gangues de adolescentes e de extrema violência.

 

         Um artista, Guti Fraga, morando na favela, e, reconhecendo o talento de muitos jovens, ali residentes, resolveu organizar um “grupo de teatro”, partindo do zero, ou seja, sem recurso nenhum, só com sua competência, experiência e boa vontade de alguns jovens, com quem manteve contato.

 

         Profundamente entusiasmado, e confiante de que o teatro, seria a grande contribuição, que poderia dar para a melhoria da favela, conseguiu um espaço na Escola Almirante Tamandaré, e aí começou a fazer sua experiência.

 

         Não custou a entusiasmar os jovens, que iniciaram o trabalho, organizando um “show das sete”, onde todos tinham oportunidade de revelar seus talentos: cantando, tocando, dançando capoeira, representando pequenas peças de teatro.

 

         Com grande esforço, Guti conseguiu que os comerciantes ajudassem na construção do teatro, que foi denominado Casarão, onde os adolescentes montaram peças, como Macunaíma e outras baseadas em Machado de Assis, que foram premiadas (Premio Shell).

 

         Conhecedores desta experiência, muitos artistas, (alguns internacionais), cenógrafos, se ofereceram, como voluntários, para capacitar os jovens na arte de fazer cinema. Organizaram oficinas com cenografia, expressão corporal, um documentário sobre a vida na favela, depois de terem visto vários filmes clássicos e discutido entre eles.

 

         O testemunho e o entusiasmo dos jovens revelou o grande interesse por estas novas linguagens: vídeo-clip, cinema, e, sobretudo teatro. O grupo denominado “Nós do Morro” conseguiu reunir um grande número de adolescentes, que estavam sem sentido para suas vidas, e que depois de algum tempo, dominando alguns instrumentos, ou sendo atores e multiplicadores, ressignificaram suas vidas.

 

         Guti, com muita firmeza afirmou que se quisermos fazer algo pelas pessoas das favelas temos que conhecer com maior profundidade seus problemas, seus códigos, usar o teatro como meio de informação e transformação, usar os novos instrumentos tecnológicos, pois, para ele, o teatro possibilita um outro Olhar e traz Esperança. Porém, o que considera de maior importância é o estudo e a competência que são capazes de assegurar a continuidade do trabalho.

 

         Diante deste programa fiquei pensando que a “nova Escola”, que tanto desejamos para nossos alunos, do século XXI, tem que ter um outro currículo, onde todos estes aspectos sejam incluídos, pois estas são as novas “lentes” com as quais  estão vendo o mundo atual.

 

 

 

 

 

 

 

 

ESTAMOS BEM ARRANJADOS

 

Maria Lucia Victor Barbosa

17/02/2008

 

                  

Como sabem pessoas bem informadas, o governo terá ampla maioria na CPI a ser instalada sobre cartões corporativos. Governistas, mensaleiros, aproveitadores ou coisa que o valha serão 14 dos 24 integrantes da tal comissão. Eles ficarão também com os cargos de relator e de presidente. Resumindo, o galinheiro foi entregue a raposas espertíssimas e malandras, capazes de provar, por exemplo, que Renan Calheiros é santo. 

 

  As Comissões Parlamentares de Inquérito, teoricamente importantes, mas inúteis na prática, têm atemorizado os petistas antes seus adeptos fervorosos. Não podendo evitá-las os PTbulls do Congresso manobram para ficar com o controle dos cargos estratégicos. Conforme dados do Senado e da Câmara, das 24 comissões instaladas desde 2003, 77% dos cargos ficaram com parlamentares petistas ou aliados.

 

   É de se perguntar onde estavam os partidos de oposição. Afinal, estes têm o importante papel de garantir a democracia, que sem eles se extingue na vontade onipotente da situação. Por que, então,  teria a oposição durante tanto tempo consentido na farsa das CPIs? Curvaram-se o PSDB e o PFL (hoje Dem) por má fé, comodismo, medo ou simplesmente por solidária afinidade com o PT? Afinidade parece ser o caso do PSDB, partido que, ressalvadas honrosas exceções, tem se mostrado conivente com o governo petista. 

 

    A inexistência de verdadeiros partidos de oposição e a ausência de lideranças combativas e eficientes estão entre as causas da impunidade deste governo que segue comodamente escorado na blindagem impressionante de Lula da Silva, um cidadão acima de qualquer suspeita que nada vê, nada ouve, nada sabe. E sem partidos programáticos, disciplinados e ideológicos que fizessem frente aos escândalos e falcatruas, tudo rapidamente se dilui numa sociedade intoxicada pela propaganda que encoberta, convence e manipula.

 

    No caso da CPI dos cartões corporativos, essas fontes de abusos, desperdícios e mau uso do dinheiro público, ou seja, dos impostos escorchantes que pagamos, foi inicialmente proposto por um deputado (pasmem) do PSDB, que FHC e Lula da Silva não fossem investigados. Manobra esta indecente e destituída de inteligência, pois deu a entender que o ex-presidente FHC teria também que ocultar deslizes com os cartões por ele criados. Agora a oposição quer evitar a CPI mista (Câmara e Senado) para concentrá-la no Senado onde petistas e mensaleiros amigos estão em posição de equilíbrio e não de predomínio como na Câmara.

 

    Se isso não acontecer melhor estancar a farsa, desistir de vez de encenar mais uma ópera bufa. Chega de perder tempo, de enganar a platéia no picadeiro do circo Brasil, de pagarmos deputados e senadores polpudos salários e imensos privilégios para nada. Do jeito que está ajeitado para o governo do PT, essa CPI se tornará mais um motivo para envergonhar brasileiros de brio e dotados de discernimento.

 

    Diante de fatos tão vergonhosos, conclui-se que nossos representantes, tanto no Legislativo quanto no Executivo, chegaram ao nível mais baixo de nossa história politica. Estamos no tempo em que aproveitadores travestidos de representantes do povo se vangloriam de suas negociatas, e que vergonha na cara se tornou artigo raro ou inexistente. O Congresso Nacional se apequenou e rasteja diante do Executivo. É o serviçal por excelência do presidente da República, a voz do dono, sua marionete preferida. Tudo é comprado. Tudo é corrompido descaradamente. Nunca nesse país a política foi mercadoria tão indecorosa. Degrada-se a República no esbanjamento das cortes, na amoralidade dos Poderes constituídos, incluindo o Judiciário. 

 

    Distribuídos fartamente os cartões corporativos, louvados pelo próprio Lula que disse ter sido esse mecanismo de controle a única coisa boa que FHC fizera, tornaram-se, nas mãos de centenas de funcionários e de ministros de ministérios inúteis. a moeda que jorra sem limites dos caixas dos bancos. Vai-se à forra. Ética, responsabilidade, respeito, compostura são valores fora de moda na era PT.

 

    Deslumbrada a maioria aplaude, elege e reelege quadrilheiros e seus chefões. É fácil ludibriar um povo cuja mentalidade do atraso foi forjada durante séculos. Tivemos uma "embriogenia defeituosa" e achamos natural não termos partidos políticos como definidos por Benjamim Constant: " partido é uma reunião de homens que professam a mesma doutrina".  Bastam para nós esses clubes de interesses onde poucos se destacam por honradez ou coerência.

 

     No momento não temos instituições capazes de proteger o País de si mesmo. O povo segue invertebrado, hipnotizado, assistindo BBB e espelhando-se no espetáculo televisivo degradante das intrigas torpes, da ignorância, do sexo animal, do mau-caratismo. Na política vigora como nunca a lei de Gerson: "levar vantagem em tudo, certo?” O resto que se dane. Estamos bem arranjados.

                

                 Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

                 mlucia@sercomtel.com.br   

 

 

Isolda Castelo Branco

 

 

Educação e tecnologia

 

 

Isolda Castelo Branco

O Povo - 16/02/2008

 

 

 

Ouço sempre com muito interesse a "rádio debate" da Rádio Universitária. Hoje, (dia 29), fui surpreendida com uma rica interlocução sobre Educação Ciência e Tecnologia, entre o professor Tarcisio Pequeno (Presidente da Funcap), e o deputado federal Ariosto Holanda.

 

Professores, extremamente interessados na problemática científica e tecnológica, do Ceará, procuraram demonstrar o interesse do governo por tal questão, as iniciativas já existentes e as alternativas para muitos dos problemas, relacionados à essa temática.

 

Professor Tarcisio Pequeno citou a criação do Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação como o espaço criado e dirigido pelo atual governador, constituído por representantes das Secretarias Estratégicas, Reitores das Universidades, Cientistas e Empresários, como sendo o lócus privilegiado para a disseminação e debate de idéias inovadoras e criativas sobre o assunto.

 

O deputado federal, Ariosto Holanda, fazendo menção sobre a Conferência, recentemente realizada, sobre a "Educação do século XXI que deu certo", fez referência ao lugar ocupado pelo Brasil, na área da Educação, no ranking internacional (conforme já é do nosso conhecimento), lamentando esta situação e falando sobre a dívida educacional que temos para com o nosso povo.

 

Afirmou também que nosso país, em termos de Ciência e Tecnologia, vive de "espasmos", não há estabelecimento de prioridade, nem planejamento adequado sobre esse assunto; a lógica dominante de desenvolvimento não são as pessoas, e sim o mercado.

 

Ambos, preocupados com a situação do ensino das disciplinas Matemática, Física, Química e Biologia, responsáveis pelo maior desenvolvimento da Ciência e Tecnologia, fizeram alguns questionamentos e apresentaram sugestões no sentido de atrair jovens talentosos para estes campos do conhecimento. Conhecedores, de que 60% dos alunos foram aprovados, no vestibular atual, nas áreas de Direito, Pedagogia, Administração e Contabilidade, questionaram as razões dessas escolhas. Possivelmente os baixos custos, o nível de escolaridade e as menores exigências, em matéria de estudo, justificaram tal situação.

 

Na realização da Conferência mencionada, os CVTS constituem hoje referência nacional. Diante disso, os professores elencaram várias alternativas, que uma vez aplicadas, poderão ter sucesso semelhante.

 

Sugeriram a elaboração de um "Mapa da Educação Profissionalizante", integrado pela cidade de Fortaleza e cidades do interior, que têm interesses diversificados e experiências exitosas realizadas na área da informática.

 

Demonstraram a importância que teriam as rádios comunitárias, interioranas, se pudessem transmitir programas como Rádio Debate e outros, para realizar uma mudança de mentalidade, colocando-se o Deputado acima citado à disposição para fazer uma intermediação junto ao Ministro das Comunicações, caso fosse feito um Projeto deste tipo.

 

A criação de Centros de Ensino, à distância, e o uso de multimídias, no ponto de vista deles possibilitariam a disseminação de idéias e experiências relevantes na área da Educação Ciência e Tecnologia.

 

Diante da realidade educacional, constatada, no nosso Estado, a prioridade do governo deveria ser dada às áreas consideradas deficientes, (Matemática, Física, Química e Biologia) oferecendo bolsas, aos universitários, que servissem como motivação para a escolha profissional dessas áreas, assim como muito incentivo e motivação no ensino da disciplina de Ciências no Ensino Médio.

Os dados estatísticos, reveladores da imensa desigualdade social, originada da alta concentração de renda, atestam a exclusão social da nossa juventude; diante disso, os professores insistiram na realização de Políticas Integradas que possibilitem uma melhor qualificação profissional, da juventude das camadas desfavorecidas, e seu acesso a uma plena cidadania.

 

Isolda Castelo Branco - Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC)

 

 

Educação na Finlândia (Foto: Revista Veja)

 

            SOBRE “A MELHOR ESCOLA DO MUNDO”

 DA REVISTA VEJA

 

Ricardo Marques

           

            Gostei bastante da reportagem sobre “A melhor escola do mundo” – reportagbem da Revista Veja, veiculada pelo Prof. Marcondes Rosa aqui no Grupo Ethos-paidéia. E, sobre ela, poderíamos refletir dentro do seguinte escopo:

 

***

           

No Brasil as condições educacionais são bem diferentes, e para pior, claro. Entre as razões, temos de considerar:

 

1. Falta consciência e vontade política para mudar – os políticos brasileiros, de qualquer partido, se interessam apenas pela construção de seu patrimônio pessoal, enquanto estão no poder;

 

2. Quando aparece alguma vontade política, a máquina burocrática, burra, estagnada e inoperante, une-se a interesses de certos grupos e emperra o processo;

 

3. Quando se consegue que o processo dê alguns passos, os técnicos e consultores envolvidos, em geral tecnocratas e acadêmicos destoantes da realidade prática e cheios de vaidade, vícios e teses surreais, conseguem criar “elefantes brancos” que só consomem verbas, sem resultados realistas;

 

4. Na Finlândia a educação existe para educar, de forma integral, o ser humano, enquanto no Brasil existe apenas para tirar boas notas, passar de ano e concentrada quase exclusivamente na aberração chamada “vestibular”;

 

5. No Brasil, o título de mestrado é buscado pela maioria apenas com o propósito de incrementar o contracheque, havendo pouco ou nenhum compromisso por parte do professor com a ampliação de seus horizontes e uma perspectiva concreta de mudar radicalmente sua forma de trabalhar a educação;

 

6. Por aqui, na instituição pública de ensino (escolar e superior), se o professor for incompetente ou negligente em seu exercício profissional, nada acontece – dois absurdos, típicos de Brasil, o beneficiam: uma tal “isonomia” e uma excrescência chamada de “estabilidade”;

 

7. Na Finlândia é dada autonomia a professores treinados para conduzirem seus programas e resultados, mas no Brasil poucos professores querem autonomia (ou saberiam lidar com ela), pois a mesma exporia os incompetentes que se escoram na inoperância da máquina estatal, preferindo, por isso, o conforto de se limitarem a fazer chamada, preencher caderneta, dar aulas (sic) e entregar notas à secretaria;

 

8. No Brasil, ao contrário da Finlândia, os recursos arrecadados com impostos abusivos não se revertem em benefícios à população, sendo, em sua maioria, escoados para o bolso dos políticos e de uma infinidade de parasitas que vivem da máquina pública;

 

9. No Brasil aquilo que se inicia num governo não recebe continuidade no governo seguinte, pois o que interessa aos que se alternam no poder jamais é o bem estar do povo, mas tão somente as estratégias de produção de votos e os interesses particulares e escusos de quem pôs o governante no poder.

 

 

***

 

Claro, há honrosas exceções em todos esses exemplos. Mas também há muito mais razões que nos fazem diferentes da Finlândia nesse aspecto, e quem sabe você não consegue ampliar aqui essa lista suja?

 

 

 

 

MARIA HELENA DE CASTRO DISSE TUDO?

 


O Ministro da Educação do Governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato, saiu rasgando elogios no seu blog à entrevista da secretária da Educação Maria Helena G. de Castro na VEJA. De fato, muito do que a secretária disse é correto, ao menos à primeira vista. Todavia, a adoção de frases de impacto não estaria propiciando o silêncio a respeito do que, uma vez revelado, poderia de fato dar o perfil da secretária?



Não há como concordar de Maria Helena quando ela diz que aumento salarial deveria ser por competência. Todavia, quando ela diz que dará bônus para as escolas que tiverem melhor desempenho e, então, quando anuncia os critérios para avaliar o desempenho, tenho lá minhas dúvidas que ela estará incentivando os melhores professores e funcionários. Ela se baseou em uma idéia utilizada em Nova York, e nisso, penso eu, está seu erro.



Ao olhar para a escola os americanos enxergam um todo homogêneo, e eles têm razão nisso, pois o comunitarismo americano faz cada escola realmente caminhar sem muitas discrepâncias em seu corpo docente. Não é o que ocorre no Brasil. Temos professores muito bons isolados em escolas que nunca conseguirão o bônus de Maria Helena. Sendo assim, a meritocracia dela vai gerar revolta, desânimo e, pior, vai afastar os melhores professores da carreira. Quem estiver em escolas de lugares deficientes, e for bom professor, vai repensar se vale a pena trabalhar naquele lugar. Temo que em poucos anos ela exclua de vez a maioria dos bons professores do ensino paulista. Ou os faça desesperadamente não "cair" em escolas sem chance de bônus.

 

Seria mais interessante, mais justo e realmente eficiente se ela premiasse diretamente o professor por exames periódicos individuais sobre sua própria competência e, é claro, pelas habilidades aprendidas pelos alunos em assuntos específicos, atinentes ao que aquele determinado professor ensinou ou deveria ter ensinado. Aliás, o professor aprovado em concurso, caso o concurso realmente seja levado a sério, já poderia ser beneficiado salarialmente. Bastava, daí em diante, colocar para ele outros concursos e outros desafios na carreira, para premiá-lo. Isso sim lhe daria incentivo.



Outra concordância que tenho como Maria Helena é quanto à sua vontade de fechar toda faculdade de pedagogia no Brasil. E eu também começaria pela Faculdade de Educação da USP e, em seguida, pela Unicamp. Mas temo que os motivos pelos quais ela diz isso não sejam alvissareiros. Eis o motivo que ela dá: "No dia-a-dia, os alunos de pedagogia se perdem em longas discussões sobre as grandes questões do universo e os maiores pensadores da humanidade, mas ignoram o básico sobre didática."



Ora, parece que Maria Helena tem uma visão distorcida dos cursos de pedagogia. Ou, talvez, ela nunca tenha visto um de perto há anos. Caso esses cursos colocassem as alunas para realmente discutirem "os maiores pensadores da humanidade" nós teríamos um professor ruim? Não, não creio. Quando se estuda de verdade um grande pensador, que foi também um educador, é imediato captar dele o estilo de ensino e toda sua filosofia da educação, e mais ainda sua didática. Paulo Freire é bom exemplo aqui: quando adentramos no seu método de alfabetização e o fazemos em conjunto com suas aspirações transformistas agregamos não só saber filosófico, mas saber técnico para alfabetizar. O bom curso de pedagogia não é aquele que forma o didata analfabeto em filosofia da educação, mas o que forma o professor como o filósofo da educação que realmente sabe levar adiante os processos de ensino-aprendizagem.

Creio que Maria Helena, neste caso, quis entortar a vara para um lado e, agora, já está repetindo algo que é obscurantista. Tirar as garotas da pedagogia dos estudos dos clássicos (Rousseau, Herbart, Piaget etc.) para centrar a atenção delas na didática seria uma novidade no curso de pedagogia? Creio que não. A maioria das pessoas inteligentes que conheço nas faculdades de educação possui críticas a tais lugares exatamente no sentido oposto ao de Maria Helena: falta às alunas mais disciplinas em que elas possam se envolver de corpo e alma com os grandes pensadores. Maria Helena fez ciências sociais. Será que ela gostaria de ter aprendido mais estatística do que se desdobrado em todo o pensamento de Durkheim? Duvido. Mais do que ninguém ela deve saber que aprenderia estatística bem mais fácil se pudesse, antes de tudo, aprender Durkheim e seus métodos. Aprendendo corretamente Durkheim, a estatística vem no conjunto. O mesmo se dá em educação: aprendendo corretamente o pensamento global Dewey, sua forma de trabalho com crianças vem no conjunto.



Meu medo aqui, no caso, é que Maria Helena esteja tão dominada por esse tipo de visão do positivismo do século XIX (quando Durkheim, inicialmente, quis dar combate à pedagogia e, por tabela, à filosofia, por elas serem utópicas), que seja isso que a motivou a tomar a atitude de reduzir o número de horas de Humanidades no Ensino Médio paulista. Talvez Maria Helena esteja querendo extirpar a filosofia e a sociologia do Ensino Médio exatamente para poder realizar no que tem em mãos o que gostaria de realizar nas faculdades de educação, que não tem em mãos. Neste caso, a secretária está equivocada e precisará rever suas posições. É um engano pensar que as Humanidades estão voltadas para a transformação e que, ao assim agirem, retiram as alunas do curso de pedagogia da sua função de tomar conhecimento das inovações científicas que melhorariam o desempenho de seus futuros alunos. Incompatibilizar anseios utópicos e visão científica do real é algo que realmente Durkheim pensou ser necessário, mas ele desisistiu disso na prática - viu que estava errado.



Maria Helena apenas repete o que Durkheim, de modo razoável e não tresloucado, fez ao querer extirpar a pedagogia do campo de formação de professores, mantendo somente as chamadas "ciências da educação". Durkheim também não queria que os educadores perdessem tempo com a utopia que, segundo ele, vinha da pedagogia e que, no limite, era uma inoculação no campo educacional propiciada pela filosofia. Todavia, no decorrer de sua evolução, o próprio Durkheim começou a perceber que caso ele tirasse isso da teoria educacional, ele teria de substituir a filosofia por outro tipo de saber equivalente, e foi então que ele apelou para a sociologia da educação. Maria Helena parece ter ficado apenas com a parte menos sofisticada dessa idéia. Ela poderia avançar mais e perceber que sua crítica já se mostrou, no passado francês, sujeita à revisão. Não estou pedindo que abandone seu Durkheim de cabeceira, apenas estou solicitando que escolha as melhores partes de seu herói.



Agora, um ponto desconcertante no discurso de Maria Helena é o do endosso das frases soltas da extrema direita. Uma delas é sobre a condenação ao aumento salarial dos professores. Só a extrema direita (e a extrema esquerda, mas por outras razões) diz que o aumento salarial dos professores não melhora a educação. A direita não extremada não afirmaria isso. E os democratas, jamais. O princípio do liberalismo democrático, em sua associação com o regime de mercado, mostra bem que as melhores cabeças vão para os lugares mais bem remunerados. Só fascistas e comunistas tentaram dizer algo diferente disso. O princípio de mercado, neste caso, funciona perfeitamente na educação.



Aliás, diferentemente do que ela diz, os dados estatísticos do mundo todo implicam exatamente no contrário. Mesmo em sistemas educacionais pouco regrados, o aumento salarial dos professores se associa fácil à melhoria do desempenho dos alunos. Isso não é imediato, mas mediato - e douradouro depois. Não são só as estatísticas que dizem isso, é claro, também o bom senso. Não é um mito. É uma verdade. A idéia de que a remuneração alta atraia para a profissão, a curto prazo, as melhores cabeças da sociedade, é uma verdade que não precisa ser investigada mais. A médio prazo, isso melhora sim o desempenho dos estudantes. Fascistas e comunistas, que odeiam o mercado, é que encontram outras motivações para o trabalho. Sendo assim, essa idéia de que pagar melhor o professor não ajuda, soa como conversa de quem tem pouco apreço por idéias liberais.


Paulo Ghiraldelli Jr., o filósofo da cidade de São Paulo


 

Pedagogo, o condutor da criança

 

Marketing enganoso

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 18/02/2008 00:36



À nossa educação, aplicam-se os versos do poeta Mário de Andrade: "Progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso é uma fatalidade". De resto, estamos entre os 40 piores países do mundo. A razão? Esquecemos missão e valores do "conduzir a criança", desde a grega "paidéia" e o romano "edúcere", onde em close up, os condutores.

Porto, sim, definido: o mundo do trabalho (o profissional), a prática social (o cidadão) e o ser transcendente (a pessoa). Agentes (escola, família e sociedade) em "monólogos coletivos" (Piaget), a se atropelar na caminhada sem bússola. Uma escola sem se dar conta de que o aprender se tece pelo diálogo entre as inteligências múltiplas (da verbal à transcendente).Ilusórios, pois, os outdoors dos primeiros lugares nos vestibulares, a se reclamarem outros a nos mostrar agora os primeiros lugares de outrora e onde estudaram os ora bem-sucedidos na vida. Escolas hoje formam capital humano, a povoar indústrias não mais sob as arcaicas chaminés.

O emblema em nós ficado foi o do velho fusca, no pára-choque o "hei de vencer, mesmo sendo professor" - este, de escola em escola, a passagem de ônibus a subtrair-lhe o minguado ganha-pão. Salário, sem piso, ou falso como o marketing de nossos governos.

A mim, ocorre crônica do poeta Drummond, a falar de vestibular, justo cá no Ceará: "Meu Deus, o que fizeram com o português?" E a calhar, cena de seleção docente, eu a compor a banca: um candidato a mostrar texto como "aceitável registro" hoje, em nossa língua:

-"Cadê tua mãe?

- Tomando banha!

- Banho, não? - Banho, se fosse o pai, que é homem".


Em nosso educar, um novo pacto social se impõe. Olhos nos valores por se atingir e um longo chão a trilharmos. E, nela, dignificados em sua missão, os professores, capazes que hão de ser de nossa Paidéia!

 

 

 

 

Lya Luft

 

DISCUSSÃO SOBRE O ARTIGO

“COTAS, O JUSTO E O INJUSTO”

 

O Prof. Luiz Carlos Campelo Cruz, da área de física da Universidade Federal do Ceará, envia ao Grupo Ethos-Paidéia carta de autoria da escritora Lia Luft, que desperta as considerações a seguir:

 

 

DE CIRCE VIDIGAL

 

"A idéia das cotas reforça conceitos nefastos: o de que negros são menos capazes e precisam de um empurrão e o de que a escola pública é péssima e não tem salvação"

  

  

Eu nem fui além desse trecho da leitura. Por aqui mesmo dá para comentar o que eu entendo por cotas e porque as defendo.

  

Não acho que os negros sejam menos capazes, de nenhum modo, mas que precisam de um empurrão, lá isso precisam, pelas condições econômicas, sociais e culturalmente precárias em que a maior parte vive.Também acho  SIM que a escola pública "está" péssima ( no meu tempo era excelente ) mas não penso que " não tenha salvação". Isto posto, a frase acima é extremamente preconceituosa, tendenciosa e demonstra um desconhecimento mais profundo do problema.  Visa apenas negar as cotas àqueles que dela necessitam para abrir seus caminhos na vida. Para variar, aqueles que mais têm condições, não abrem mão de um mínimo em favor dos mais depossuídos; não levam em conta a injustiça da desigualdade social em que vivemos; não entendem que se não podemos mudar este triste mundo, podemos mudar nosso modo egoísta de pensar.

  

Não pertenço a uma família rica, mas temos o suficiente para - com enorme sacrifício - ter dado às crianças desta casa ( dois netos, dos treze que tenho)  uma educação de primeira qualidade aqui no Rio de Janeiro. Eu e minha filha, juntas, achamos sempre que uma boa educação valia qualquer sacrifício. Hoje, uma dessas "crianças" nos deu o orgulho de passar para o Vestibular em Medicina justamente para a UERJ - a Universidade das cotas desse estado, onde a entrada normal é muito mais difícil do que para a UFRJ, pois esta não oferece cotas. O número de vagas que a UERJ oferece para quem não entra por cotas é ínfimo, daí a grande dificuldade: não que uma Universidade seja melhor que a outra.

  

Dessa maneira, considero-me isenta para comentar, pois, quando ainda não sabíamos o resultado, em nenhum momento lamentou-se " o fator cotas" e minha neta estava disposta a fazer quantos vestibulares fossem necessários ( quantos anos ) para estudar Medicina, sua paixão e a Faculdade mais difícil de se entrar - pelo menos aqui no RJ.

  

 

Finalmente, quando me refiro a cotas, não penso só nos negros mas em todos aqueles que não tiveram a mesma oportunidade de escolaridade, sejam eles quem forem: alunos de escolas públicas, índios, deficientes etc... Para estes acredito que as cotas sejam uma grande oportunidade, se as universidades lhes derem o apoio extra que necessitam  ( e a UERJ está fazendo isso )  pois vão necessitar e muito ! E isso não os desqualifica, pois estarão tendo assim um mínimo da oportunidade que não tiveram ao longo da vida.

 

 

DE SEBASTIÃO magalhaesanta@uol.com.br  

A CIRCE VIDIGAL

  

Apóio tudo o que você disse. Esse tipo de argumento é típico dessa classezinha média despolitizada que não almeja um estado de direito e de justiça social, mas apenas de privilégios individuais. Não conseguem enxergar além do umbigo e ficam girando em torno dessa retoricazinha besta. A política de cotas sociais e raciais em universidades públicas talvez seja o projeto mais importante da história de construção de nossa democracia. Todos os argumentos de oposição que tenho ouvido por ai têm sido preconceitusos e visam apenas a manutenção de privilégio de classe.

 

 

DE ADAIL SOBRAL

A SEBASTIÃO

 

Meu único "senão" é o endeusamento da universidade. Há inúmeros portadores de diploma universitário em funções "inferiores". Não creio que todos precisem de universidade ou se adaptem a ela. Com cotas ou sem, vejo poucos se sentindo à vontade na academia. Acredito em oportunidades iguais, mas em todos os níveis. Claro que, se alguns se sentem vocacionados, podemos usar com sucesso o modelo amplo da UNICAMP.


DE SEBASTIÃO

A ADAIL SOBRAL

 

O "senão" é perfeito. Trata-se, entretanto, de garantir a democratização de acesso a uma das inegáveis instâncias de poder de uma sociedade inegavelmente letrada.  Isso abre caminho, quer me parecer, para outras oportunidades de igualdade, em outros níveis.   

      :

DE CIRCE VIDIGAL

A SEBASTIÃO E A ADAIL SOBRAL

 

Concordo: contigo e com Adail. Se nem todos precisam de Universidade, é necessário que ela seja acessível a todos.

 

" (...) garantir a democratização de acesso a uma das inegáveis instâncias de poder de uma sociedade inegavelmente letrada.  Isso abre caminho, quer me parecer, para outras oportunidades de igualdade, em outros níveis"

 

Realmente, é o que penso, mas não havia reparado

rsrsrs

 

 

"Se nem todos precisam de Universidade, é necessário que ela seja acessível a todos."

 

Viva mestre. Resumiu  TUDO numa frase simples e clara para todos

 

DE RICARDO MARQUES

AO GRUPO EM DISCUSSÃO

 

Me permitam, amados, um breve alerta. Pode ser?

 

Acho um grande perigo se concluir algo sobre o pensamento de alguém, assim como de comentar a respeito, sem que se leia atenciosa e detalhadamente tudo o que a pessoa escreveu, até o fim... Há muitos casos – e não necessariamente este do artigo da Lia Luft sobre a política de cotas – em que o autor aborda aspectos fundamentais e fornece evidências concretas de seus argumentos, e no entanto é rapidamente rejeitado ou desconsiderado por quem não o leu na íntegra...

 

Isso já aconteceu até entre nós, e recomendo fortemente que não opinemos quando não tivermos tempo ou disposição – como muitas vezes não tenho – para ler tudo o que se escreve e ir a fundo no assunto em pauta, com base nos conhecimentos e contrapontos disponíveis sobre o tema...

 

Perdoem-me se pareci pretensioso nesse “alerta”...

 

CONSIDERAÇÕES DE CIRCE VIDIGAL

A RICARDO MARQUES

 

Não entendi bem teu comentário. Se foi para mim, a carapuça não serviu.

 

1º - Porque, na  VERDADE, o que está dito neste parágrafo que assinalei em vermelho, é suficiente para uma extensíssima análise.Talvez até um livro.

 

2º - Acho que você me conhece o suficiente  o suficiente (será que conhece mesmo?) para saber que não sou leviana o suficiente para julgar a obra de uma escritora pelos conceitos sociológicos que emite. Uma coisa nada tem a ver com a outra.

 

Alguém por aí não gosta dela e fez a ligação, me parece. De minha parte, já li dois livros seus e muito os admirei. O que não me impede de rebater o que aí vai exposto em vermelho.

 

3º - É evidente que  DEPOIS li o restante. E não mudaria uma vírgula do que postei. Perdoe-me a sinceridade

 

 

DE RICARDO MARQUES

A CIRCE VIDIGAL

Circe, você é minha amada, sim. Vejo que estou começando a semana tendo que fazer esclarecimentos sobre algumas mensagens – por isso sempre digo que coisas escritas são perigosas, pois as interpretações podem variar conforme o tempo, né?

 

Amiga, na mensagem eu não me referi a você. Apenas coincidiu de, ao ler seu comentário sobre a mensagem da Lia Luft, me inspirei em dar o alerta, porém ressaltando (você não viu?) que provavelmente nem fosse o caso da sua resposta à mensagem dela (justamente porque penso que a conheço o suficiente para saber que não é leviana), mas que devíamos ter cuidado em opinar sem ler tudo que o outro escreveu. Falei isso exclusivamente porque já vi acontecer situações assim na Lista e daí se criar confusões interpretativas sobre o que alguém disse, sem que aquela pessoa tivesse dito o que se imaginou, daí para desatar o nó ficava bem mais difícil. Não houve pretensão nenhuma minha de me referir a você... Acredita em mim, garota?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

Deputado Paulo Renato

 

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

 

Belíssima entrevista

 

Paulo Renato

 
É de encher os olhos a entrevista da secretária estadual de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Castro, publicada nas páginas amarelas da revista Veja. De forma corajosa, ela destrói mitos e põe o dedo na ferida ao desnudar o quanto o corporativismo está a serviço da baixa qualidade do ensino básico brasileiro. E foge da mesmice, ao anunciar uma política inovadora que São Paulo começará a implantar nos próximos dias: a criação de incentivos materiais para as escolas que melhorarem o seu desempenho, a exemplo do que fizeram os países que obtiveram êxitos na sua revolução educacional. Por este caminho, diretores, professores e funcionários das escolas com bom desempenho receberão um bônus equivalente e três salários por ano.

É a ruptura com a concepção da isonomia salarial, onde, independentemente dos resultados, aumentos salariais são dados de forma linear, sem que haja um foco na aprendizagem do aluno. Como disse a Secretária, esta política, arraigadamente defendida pelos corporativistas, “contribui para a acomodação dos professores numa zona de mediocridade e passa ao largo dos diferentes resultados obtidos em sala de aula.” Ela destrói também o mito de que a ampliação dos recursos da Educação levam, automaticamente, à melhoria de sua qualidade. Quando este incremento não está associado à cobrança de resultados – portanto a uma política de reconhecimento do mérito – seus efeitos são nulos e ele realimenta o ciclo vicioso da mediocridade.

Sem ter medo de mexer em vespeiro, a Secretária de Educação de São Paulo tocou em um ponto neuvrágico: o desempenho das Faculdades de Educação – inclusive as de ponta como a USP e Unicamp- na sua missão de formar bons professores. De forma cáustica, ela mostra que prevalece um tipo de curso de pedagogia teoricista e sem vínculo com o mundo real das escolas públicas. Prioriza-se o discurso ideológico sobre o papel transformador do ensino, mas não se ensina aos futuros professores os aspectos básicos da didática e não se divulga as práticas pedagógicas que deram certo. Por este caminho, as faculdades de Educação podem estar formando bons humanistas, mas não necessariamente professores aptos para sua missão de ensinar aos alunos.

Outro tabu derrubado pela Secretária é o de que a adoção de currículos escolares unificados – prática que só três estados brasileiros adotam – tolhe os professores na liberdade de ensinar. Mas uma vez estamos diante de um discurso ideológico que não encontra respaldo nas experiências bem sucedidas de países que lograram sucesso em sua política educacional. Não me surpreende a coragem de Maria Helena para afirmar verdades cristalinas que incomodam os que querem perpetuar a mediocridade do nosso ensino.

Quando o governador José Serra teve a felicidade de escolher a atual Secretária da Educação, disse de público que ela era a pessoa mais qualificada do Brasil para o exercício da função e para que a educação pública de São Paulo voltasse a ter um papel de liderança no país. A nova política que ela adotou e a sua belíssima entrevista só confirmam as minhas avaliações. Ela sabe aonde a Educação deve chegar para que os brasileiros sejam beneficiários de um ensino público com parâmetros do primeiro mundo.

11 comentários:

Anônimo disse...

AS escolas públicas, instaladas nas periferias ou bolsões de pobreza, deveriam receber melhor atenção por parte das Secretarias do Estado da Educação e Saúde, pois além das instalações - precárias, não se observa instrumentos lúdicos de ensino e muito menos médicos, dentistas, psicólogos, para atender aquela população, bem diferente da população de Higienópolis.Será possível?

 
Mario disse...

Caro Paulo Renato e educadores,

Concordo com a Secretária, pois acho importante valorizar aqueles que, por inciciativa própria apresentam melhores resultados em suas escolas. Há muito o país carece de iniciativas como estas, que mobilizassem gestores e professores a romperem com o paradigma da mediocridade.
Muito cá entre nós, nada como pegar as pessoas pelo bolso, não sejamos hipócritas, quem não quer ganhar um pouquinho a mais, e neste caso, um montão a mais. Parabéns a Secretária.
Porem, o que mais me agrada é chacoalhada que o senhor dá nas Universidades e em seus cursos teóricos de Pedagogia, este sim me parece o maior desafio, enquanto estivermos preocupados em vomitar nomes de autores e suas teorias em vez de verificar se da fato suas idéias e princípios são aplicáveis, vamos continuar a ocupar os últimos lugares no ranking da educação básica, isto sim é uma vergonha.
As vezes fico pensando que poderíamos santificar nosso Paulo Freire e fazer de seus ensinamentos, nosso livro sagrado.
Queridos, fico na esperança de ver um Brasil melhor, não pelos indicadores econômicos, mas pelos indicadores educacionais.
Grande Abraço,
Mário Augusto Costa Valle

 
carmo disse...

Foi com imenso prazer que lí a entrevista da Secretária Maria Helena,onde ela deixa claro não só a coregem que tem de dizer o que precisava ser dito,como também a sua inteligência e lucidez para apresentar solução eficaz para um problema que vem se arrastando e causando danos. Espero sinceramente que ela possa dar continuidade ao processo sem nenhum contratempo para que possamos ver os resultados, com toda certeza positivos, que virão como consequência da competência e disposição da Secretária em fazer o que precisa ser feito.
Maria do Carmo Penteado de Camargo

 
Anônimo disse...

Como justificar que em São Paulo um professor possar faltar 29 dias ao ano sem ter que apresentar justificativa? É justo que quem se beneficia deste expediente receba o mesmo salário do professor que não falta ao trabalho e se empenha para dar uma educação de qualidade?
Claro que não, pois não se pode tratar desiguais de forma igual.
Professores da rede´pública ganham mal, como também outras categorias do funcionalismo público. Mas baixos salários não justificam o desleixo profissional ou greves absurdas como a dos policiais civis de Alagoas.
Este é o mérito do artigo de Maria Helena. Ela bota o dedo na ferida ao mostrar o quanto o corporativismo é um elemento do atraso a serviço da Educação de baixa qualidade.

Maria Celina Araújo

 
Anônimo disse...

Maria Helena mostrou ser uma mulher corajosa e não poupou nem mesmo as sacrossantas faculdades de educação. Seu questionamento é pertinente, pois a baixa qualificação dos professores é decorrente dos cursos nos quais eles foram formados. A cobrança deve ser ampla, geral e irrestrita e dela não podem escapar nem mesmo as faculdades de Educação da USP e da Unicamp. Se elas deixam a desejar, imaginem as que não tem o mesmo nível.

WANDER GOMES

 
Wilson P disse...

Nosso querido Deputado e ex ministro Paulo Renato fez escola!!!!

 
Paulo Ghiraldelli Jr disse...

Professor Paulo Renato

O que a professora Maria Helena falou não é novidade. Dito só agora, no século XXI, é um pouco tarde. Faz tempo que a Faculdade de Educação da USP não condiz com o "padrão USP", mesmo que esse padrão já não seja elogiável.

Outros ataques dela, aqui e ali, podem ser tomados como correto. Não vejo como ter bons professores se não houver carreira baseada no mérito INTELECTUAL. Mas, nesse caso, quem não sabe disso?
Agora, apesar do senhor ter sido contra a volta da filosofia e da sociologia no Ensino Médio, quando era Ministro da Educação, eu gostaria muito de contar com o senhor no sentido de lembrar a Secretária de Educação que essas disciplinas, na grade curricular, não irão atrapalhar, irão ajudar. São disciplinas essenciais para a melhoria da condição de profissionalização do estudante de Ensino Médio. E há professores concursados para tal. O PSDB havia dado um passo importante, em São Paulo, ao sair na frente com essa medida. E digo mais: São Paulo pode muito bem, como estado rico, manter essas aulas e até ampliá-las. Mais do que eu, o senhor sabe que a diminuição das horas de humanidades da grade curricular do Ensino Médio serão uma grande perda para os jovens. Não posso contar com sua ajuda para tal, para advogar a proteção dessas disciplinas na grade curricular?

Desde já agradeço a oportunidade de diálogo.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo.

 
Hélio B disse...

Estou impressionado com o alto nível dos comentários e não sei se tenho a mesma competência. Por isto faço uma indagação aos especialistas e ao ex-ministro: o atual pacto federativo da Educação é justo? Os estados e municípios são responsabilizados por aquilo que deveria ser a prioridade: o ensino básico, enquanto a União cuida, principalmente, do Ensino Superior. Não é uma distorção o fato de as verbas federais serem destinadas principalmente para as Universidades?
Tenho sérias dúvidas se o atual sistema do ensino superior público é justo socialmente, ou se não deveríamos ter algo mais próximo do que o Chile e outros países aplicam; um sistema de bolsa voltadas para os estudantes pobres. O fato é que no Brasil financiamos o ensino superior de filhos da classe média, portanto de uma elite. Em contrapartida, faltam recursos para o ensino fundamental e para o ensino médio.

 
Vanessa Crecci disse...

A Secretária ressalta "Em pleno século XXI, há pessoas que persistem em uma visão sindicalista ultrapassada e corporativista, segundo a qual todos os professores merecem ganhar o mesmo salário no fim do mês" e assim, crítica a isonomia salarial, pois então, como uma prova da secretaria de educação pode ser o maior medidor desse desempenho de professores??? Se estamos em um século que considera as diferenças, as políticas não deveriam pautar-se nesses medidores iguais para contextos diferentes de uma rede de ensino imensa. Certamente, a Sra. Maria Helena Guimarães não desconhece está questão, mas, atentar a todo contexto estrutural desta rede custará muito mais caro do que premiar resultados isoladamente.

Vanessa Crecci disse...

Em relação aos cursos de Pedagogia, sou crítica ao currículo do meu curso, mas, o radicalismo desta senhora me dá medo, e também considero fundamental a visão que adquirimos do contexto para compreendermos nossa prática, mesmo faltando esta última no currículo, modificar é uma coisa, acabar já é radical de mais.
Vanessa Crecci, graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas.

Professor Rodrigo B. Caires disse...

 

Caríssimo Paulo Renato:

Concordo plenamente com suas palavras e com as mudanças que estão ocorrendo. Infelizmente nossos professores precisam melhorar muito e dar bons exemplos
Professor Rodrigo Barbosa Caires

 
 

 

 

Surfista na Ilha do Mel

 

 

1. UMA AVENTURA NA NOITE

 

Circe Vidigal

 

 

A mãe costumava dar crédito aos pedidos de seus meninos para uma aventura. Ela mesma ficava empolgada a maior parte das vezes e, se pudesse, os acompanhava.

 

Aquele lourinho, surfista quase desde o berço, era um pouco diferente dos irmãos. Aventureiro, destemido, mas um bom menino, meigo, estudioso e cumpridor de seus deveres e obrigações. Quando passou para o ginásio fez um bonito: 1º lugar para o Colégio Militar; entrada garantida no Ginásio Estadual, no Colégio Pedro II e no Colégio São Bento. 

 

A mãe achava que ficaria melhor no São Bento ou no Pedro II, onde teria boa qualidade de ensino sem as durezas da lida com os milicos. Mas ele encasquetou que queria o CM onde o irmão já estava e não houve argumento que o convencesse do contrário. Por essa época guardava as fardas do pai, que falecera num acidente de serviço e dizia que seriam suas, pois iria para a Marinha de Guerra.

 

Tudo ia correndo muito bem quando, lá pelo mês de setembro – já passado por média e com comportamento 10 (dez) exemplar no boletim, sofreu uma grande humilhação dentro do próprio colégio, por parte de um ignorante capitão, que ouvira o “ galo cantar, mas não sabia bem onde “ Resolvera incrementar a boa apresentação do uniforme e, para isso,  trouxe a figura do Sujismundo, muito popular na época. Já começou mal, pois ao invés de motivar pelo lado positivo, fez exatamente o contrário. O melhor não seria premiado ou exaltado, mas o pior seria exposto ao ridículo, formando na frente da companhia como o Sujismundo da semana.

 

O menino era muito caprichoso com seu uniforme, lustrava suas botinas todos os dias, passava Kaol nas fivelas e nos dourados, enfim, estava sempre nos trinques, ele e seu irmão mais velho. A mãe nem tomava conhecimento, tanto filho para cuidar, trabalhando fora, mas estava sempre de olho em coisas mais significativas.

 

Certo dia o moleque chega em casa, vermelho como um pimentão, chama a mãe num canto e lhe diz:  “ Não volto mais para aquele colégio; lá só tem otário; prestam atenção em você por fora sem considerar se é bom estudante e tem bom comportamento” Acontecera por puro acaso.  Em determinados dias da semana, quando tinham um tempo vago no início das aulas, jogavam uma pelada – o que era permitido. Quando acabavam, as botinas estavam todas empoeiradas, mas ele  tinha uma flanelinha, limpava direitinho e ficava tudo ok.

 

Lá vai um dia esqueceu e não deu outra. Na hora da revista, foi tirado de formatura e teve que desfilar na frente da companhia como o Sujismundo da semana. Aquilo foi demais para os seus brios, seu orgulho foi gravemente atingido e sua revolta era natural. Tentei conversar, mostrar-lhe a tolice de sair do colégio por conta de um oficial ignorante; ali ele tinha ensino gratuito e da melhor qualidade; uniformes e livros de graça, como o irmão, pois eram órfãos de militar . Pareceu-me convencido, mas continuou emburrado. Um mês depois fui chamada ao colégio por um oficial, pai de um colega seu. Ele fazia parte do Comando e da Administração.

 

Muito simpático, elogiou muito o garoto, mas precisava de uma informação minha: “ – ele tem faltado muito, traz sempre a justificativa assinada pela senhora, mas eu estou achando que...”  eu já compreendera. O oficial deu-me sua palavra que o assunto ficaria entre nós, pois só desejava ajudar. Peguei os recibos e fui separando:  essa assinatura é minha, essa também, essa não, essa também não e fiz a seleção. O moleque havia falsificado minha assinatura várias vezes para justificar suas faltas.

 

As vezes ele me pedia e, devido ao acontecimento, eu deixava que ficasse em casa e assinava depois a justificativa. O trauma fora muito grande e várias vezes vomitava na hora  de sair, quando então eu mesma lhe dizia que não fosse. Mas o caso era mais grave do que eu pensara. Ele então insistiu em sair do colégio. Só lhe pedi que finalizasse aquele ano, pois já estava passado por média. O assunto rendeu uma ladainha, o Comandante mandou chamar-me, conversou muito comigo e disse que aquele menino era importante para o colégio: um bom aluno, disciplinado, ativo e inteligente :

 

– Não podemos perder seu filho. A senhora me permite uma conversa em particular com ele? Sem dúvida que eu permitiria.

 

O Comandante não poderia ter atuado de melhor forma, foi perfeito e conseguiu que ele ficasse até o final do ano letivo, dando-lhe a liberdade de chegar a ele – comandante – e dizer: isso e aquilo não são coisas legais aqui no colégio, mas também o compromisso de quando achasse algo de bom, também viesse comunicar.

 

O estrago feito fora profundo e acho mesmo que marcou-o para o resto da vida. Não houve nada que o convencesse a permanecer; apenas terminou aquele ano. Tive que matriculá-lo num colégio particular, e, sendo de boa qualidade, caríssimo, mas, que fazer? Não tinha alternativa se quisesse meus meninos bem qualificados para enfrentar a vida. Era só o que eu poderia lhes deixar como herança.

 

Deu-se muito bem no outro colégio mas percebi que alguma coisa havia mudado nele e fiquei atenta.

 

Certo dia pegou todas as fardas do pai e me disse:

 

“ – Mãe, dê isso para a Escola Naval; lá alguém pode precisar” Eram roupas caríssimas, naquela época bancadas pela própria família, no caso, seus avós paternos. Não sossegou enquanto não dei um destino às fardas do pai.

 

Ele sempre gostara do mar, acordava de madrugada para poder dar um mergulho e ver o sol nascer dentro d’água, antes de ir para o colégio. Com o acontecido sua relação com o mar mudou, chegando a assustar-me, a ponto de entregá-lo nas mãos de uma psicóloga. Seu pai morrera num trágico acidente e seu corpo ficou sepultado no mar, como sempre me dissera ser de sua vontade:

 

“ Se Deus lhe desse algum mérito, jamais ficaria sob sete palmos de terra – queria morrer no mar !”  Era uma pessoa tão especial, tão maravilhosa, que Deus lhe fez a vontade. Mas o menino começou a buscar seu pai, no fundo do mar, arriscando cada vez mais sua própria vida. Felizmente, com a ajuda da psicóloga, que percebeu logo o problema, e eu, com o coração nas mãos, ia seguindo meu menino sem que percebesse, cercando-o de preces e procurando atendê-lo em todos os seus desejos razoáveis.

 

Foi assim que um dia me perguntou: “Mãe, você não quer ir comigo conhecer uma Ilha lá no Paraná?”

 

Uma ilha no Paraná... o que seria aquilo, pelo amor de Deus! Mas aceitei e lá nos fomos de ônibus até Paranaguá, de onde então se fazia a travessia para a Ilha do Mel.

 

Chegamos à noitinha, já tarde, em tempo de pegar o último barco para a ilha. Fazia muito frio e garoava, mas eu havia ido preparada, com uma meia calça de nylon, calça de veludo e botas, fora a parte de cima. O barco era simples e tosco, uma canoa barriguda, sem cobertura,  com um motorzinho de popa; e estava lotado : homens , mulheres, crianças, bicicletas, parecia mais um ônibus baiano do interior.  Não havia lhe perguntado nada, mas imaginei que teríamos um lugar onde ficar. Duas horas de travessia, eu sentada no fundo do barco, com minha touca de lã afundada até o nariz e a gola rolé da blusa levantada ate a boca. 

 

A água deslocada pelo barco volta e meia me atingia, mas, o inusitado da situação não me assustou, pelo contrário, entrei no espírito da aventura. Mas eu não sabia o que me esperava. Ao chegarmos ao nosso destino, a maré estava baixa e o barco parou muito longe da margem, num banco de areia. As pessoas começaram a sair, dentro dágua, carregando seus pertences. Algumas pequeninas canoas se aproximavam para pegar aqueles que não queriam ou não podiam se molhar e lá me fui numa delas. Mas, mesmo essas, não chegavam à praia.

 

Havia que se por os pés na água. Não estivesse eu tão vestida como uma carioca com medo do frio tudo seria mais fácil, mas se eu molhasse as botas, molharia as meias e aquele era o único calçado e a única meia que trouxera. Vim praticamente com a roupa do corpo, trazendo apenas um robe acolchoado para dormir. E aí, como sair do barco?

 

Os  “locais” começaram a brincar com meu filho : “ – E aí, tem que carregar a mãe no colo, todos rindo da situação. Mas eu estava bem humorada e disse: “ – tu me agüenta, filho? Claro, mãe, “vamo lá” E fomos; cheguei sã, salva e seca na areia da praia. Aquele era o ponto principal da Ilha – chamava-se Brasília – e constava de uma birosca grande, onde as meninas da ilha ( vindas de Curitiba para férias ) ficavam à espera do barco, para ver se aparecia alguma figura que valesse a pena.

 

 E lá estavam elas, que ficaram no maior alvoroço ao ver o meu filho.  E eu perguntei, com toda aquela escuridão ao redor.: “ – Filho, onde vamos ficar?” “ – Sei não , mãe, mas deixa que eu resolvo. Larguei-o lá no meio das meninas e fui beber uma caipirinha, pra esquentar os miolos. Elas falavam muito e percebi que estavam tentando achar uma solução para me acomodar. Havia uma cabana abandonada, de um amigo delas, que poderiam nos ceder. Ótimo ! Maravilhoso !

 

E lá fomos nós todos em comitiva, alguns quilômetros na escuridão ( mas alguém tinha uma lanterna ) percebendo apenas a trilha de areia branca no chão e a vegetação de mata dos lados. Pensei logo em cobra, mas as meninas me tranqüilizaram. A cabana estava com a porta entreaberta, emperrada, foi um custo para entrarmos. E lá ficamos nós e as meninas se foram. Com algumas velas, vimos o precário mobiliário, uma sala sem nenhuma cadeira e um quarto com uma cama de casal. Nessa altura estávamos exaustos. Tirei as botas, vesti o roupão por cima de tudo e me deitei. O mesmo fez o menino e dormimos quase instantaneamente, sobre aquele colchão de palha, furado, sem um lençol.

 

Algum tempo depois acordei com o corpo queimando, como se tivesse fogo. Era uma formiguinha minúscula que habitava o colchão e gostou da nossa companhia. Foi terrível ter que tirar toda a roupa naquele frio, sacudir, bater o colchão, esfregar o corpo com alguma roupa para desgrudar as bichinhas. Mas conseguimos e voltamos a dormir, agora em paz. Mas o pior estava ainda por vir. Meus hábitos matinais têm hora certa.

 

Com o dia já claro, percebi que não havia banheiro na casa. “ – E agora, meu filho, como faço? Ora, mãe, vá lá fora, faz no mato! No maaaato ! Nunca! Jamais ! A aventura estava ótima até aí, mas isso não, definitivamente !Não vou conseguir. O mais apertado era o xixi e, por felicidade, vi um buracão no assoalho da sala ; não tive dúvidas: arriei as calças, mirei no buraco e foi ali mesmo, aquela sensação enorme de felicidade conforme o xixi ia saindo. Que alívio! Nem deu tempo de pensar no resto, pois as meninas, de consciência culpada, batiam na porta me chamando para a casa delas.

 

Na hora certa, Deus sempre acode. Assim, os dois dias que passamos lá, fiquei acomodada confortavelmente e pudemos conhecer razoavelmente aquele Paraíso Perdido bem na entrada da Barra de Paranaguá . Foram dias alegres, mas poucos. Prometemos voltar, mas aí, já em melhores condições, pois as meninas agradavam o que podiam a mãe daquele lindo carioquinha louro e que surfava tão bem.

 

E assim começou uma linda história de amor entre nós (no final, a família toda) e aquela ilha. E com algumas das meninas também.

 

 

José do Vale

 

TRES VERDADES

QUE SE TORNAM MENTIRA

ESTA SEMANA

 

 

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

 

 

CRESCIMENTO ECONÔMICO = PROSPERIDADE DAS PESSOAS

 

O mito foi derrubado pela equação com sinais trocados. Cuba, um país acossado por um império expansivo e geopoliticamente agressivo, sob a batuta de um mesmo político, colada a argumentos e posturas congeladas em palavras de ordem desde décadas passadas, derrubou a equação. o crescimento econômico foi pífio e, no entanto, a qualidade social, medida por organismo externos e independentes, esteve muito acima do que a equação supunha, ou seja, a deterioração social e política.

 

Não se encontram países pobres com indicadores sociais de países ricos. O que tem havido em Cuba, dada a natureza quantitativa das ciências econômicas, é que houve uma redistribuição de renda dos mais ricos para os mais pobres. Ou seja, esse é o verdadeiro efeito do socialismo implantado naquele país. Muitos imaginam que o baixo crescimento da economia do país seja efeito do modelo estatizante sem a qual, talvez, a redistribuição não fosse possível.

 

Mesmo assim a questão está em aberto. O regime de Fidel esteve cercado das mais diversas sabotagens políticas, militares e sob isolamento continental de sua economia. Não se pode afirmar que o crescimento econômico não ocorreria simplesmente se não houvesse o modelo estatal da economia. Na excepcionalidade em que viveu o país, o mais provável é que seus resultados econômicos sobrevenham do cerco dos EUA. O menos provável é que seja da tão falada ditadura que por teria sobrevivido.

 

LIBERDADE DE IMPRENSA = LIBERDADES INDIVIDUAIS

 

Quando todos os leitores de classe média estão com ódio da Igreja Universal do Reino de Deus por ter acossado a liberdade de imprensa, foi mesmo que a equação foi para o espaço. A liberdade de imprensa (ou melhor, dizendo "da imprensa") pode se tornar em um grande malefício para as liberdades individuais. Primeiro por que a imprensa não é um conceito subjetivo como o de liberdade, ele é concreto, tem capital e este capital tem dono. A imprensa tem marca e valor de mercado. Isso diz respeito a si mesma, à tal de imprensa, a importância do indivíduo para ela é igual a nada. Ninguém entra no cômputo do seu valor de vender e doutrinar em benefício de quem lhe paga

 

Repórter, jornalista, colunista, trabalham como um plantador de feijão e milho, cavando a mesma cova e enterrando, do mesmo modo, os legumes que igualmente serão apanhados e vendidos a preço vil. Portanto a liberdade "de" imprensa pode ser a dos jornalistas conscientes, mas a "da" imprensa é dos seus donos. E hoje leia em qualquer grande jornal brasileiro, especialmente a Folha de São Paulo e O Globo matéria sob o assunto e veja  que as matérias apenas emitem o ponto de vista "da" imprensa. Em nenhum momento a Igreja Universal como a outra parte é ouvida ou sua opinião expressada. Então não há a guarda da liberdade individual, a liberdade "da" imprensa. Considere que a liberdade individual em relação à imprensa é a de ser informado. Quando lhe é sonegada tal informação a liberdade "de" imprensa foi vilipendiada.

 

OS IDEÁRIOS PARTIDÁRIOS SÃO QUIMERAS FRENTE AO AÇO PROTETOR DOS IDEOLÓGOS NEOLIBERAIS

 

A manchete de O Globo de hoje é: BRASIL REÚNE RECURSOS PARA PAGAR TODA A DÍVIDA EXTERNA. Eu sei, tu sabes, ele sabe, nós sabemos, a dívida externa era uma praga desde que os Ingleses dominavam o nosso comércio portuário, nossas necessidades de capitais para investir em ferrovias e em outras modernidades. Isso é o que sabemos de quase toda a nossa história desde o século XIX. Então a manchete é uma novidade de pelo menos dois séculos. É algo muito inédito no país.

 

Em seguida vem o texto da matéria: sem a adoção de nenhuma das propostas histórica do PT para o problema (moratória, auditoria ou plebiscito), a dívida externa deixou oficialmente de ser um peso para a economia brasileira. Então você pode até raciocinar, principalmente se for um militante do PT, que uma vez no governo o resultado foi o mesmo, o partido queria é o fim da dívida externa e isso ocorreu por outras vias, mas ocorreu num governo do seu partido.

 

Ledo engano, os neoliberais têm resposta para tudo: A ação ortodoxa do Banco Central nos últimos anos, acumulando reservas enquanto a economia mundial se expandia, fez com que o país tenha hoje mais recursos em moeda estrangeira do que dívidas a pagar, tanto no setor público quanto na área privada. Entenderam o raciocínio: não foi o fato de o governo não ter feito estradas, não ter investido, até redistribuiu renda de forma inédita, não foi nada disso foi o acúmulo do gênio Meirelles. Então viram a jogada? A crítica para quem economizou recursos e não gastou em coisas essenciais e os elogios para o guarda livros.

 

Acontece que na mesma semana o governo Lula continua sendo muito bem avaliado pelos brasileiros. Poderá cair por efeito dos cartões corporativos, acho pouco provável, mas como todo governo em sistema de rotatividade tem um destino provável: deixar de ser governo e ficar na história por tal fato.   

 

DE RICARDO MARQUES

O COMENTÁRIO

 

Li as três crônicas de José do Vale. Muito interessantes.

Teria algumas ressalvas quanto à leitura que ele faz de “qualidade de vida” e “distribuição de renda” em Cuba. Pelos cubanos que conheci e com quem conversei ao longo dos anos, dentre eles professores da Universidade de Havana que de vez em quando vêm visitar universidades brasileiras, há muitos detalhes do dia a dia deles bem menos românticos do que faz parecer a crônica...

Por outro lado, embora eu não nutra qualquer simpatia pela autodenominada Igreja Universal, o que José do Vale escreve sobre a liberdade “da” imprensa é coerente e certo. Aqui no Brasil essas coisas se confundem muito, por isso temos caminhado para rumos que nos destoam, em minha opinião para pior, de boa parte do mundo desenvolvido e em desenvolvimento, nessa área...

 

Ilha do Mel

 

2. A CHEGADA DE MARLY

 

Circe Vidigal

 

 

Algum tempo depois dessa chegada original e aventurosa, já estava bem adaptada àquela vida, com pouco conforto e muita paz . Ali tudo era simples. Com o tempo, adquiri o hábito de sentar-me nos degraus da Brasília, para ver o movimento dos barcos, quem chegava, quem saía, igualzinho às meninas.

 

Tomava uma cervejinha, comia um pastel, olhava o mar, o céu e escutava o silêncio, quando, de repente, ouvi uma tremenda gritaria, vinda de um barco chegando. Por Deus! Que poluição sonora! Alguém chegava para quebrar aquela harmoniosa paz que reinava em minha cabeça e em meu coração. Um homenzarrão moreno e gordo, uma mulher loiríssima e linda, mais um montão de crianças de todas as idades. Parecia uma mudança definitiva, tantas trouxas, malas, isopores enormes e toda aquela algazarra.

 

Fiz questão de não parecer amigável, fiquei quietinha no meu degrau, curtindo meu descontentamento com tal transtorno. E lá se foram eles, com as tralhas numa carroça puxada por um burrico – único veículo disponível na ilha, que fazia carreto do desembarque até o destino da pessoa. Quando o burrico estava doente, Perigoso, filho da Vó Maria, puxava ele mesmo a carroça. Eram alguns quilômetros até o meu lugar, por exemplo. Esperava que aqueles turistas ficassem bem longe. Já me sentia “ dona do pedaço” , como se ali tivesse nascido.

 

Bem mais tarde, voltando para casa pela praia, vi ao longe a loiríssima estendida sobre uma canga, pegando sol. Ao me ver passar, chamou alegremente: “ Oi,  vem cá, não queres tomar um vinho comigo?” Assim, do nada. Uma pessoa totalmente desconhecida. Mas seu sorriso era tão lindo e parecia tão feliz em ter encontrado alguém para conversar que me desarmou.  Sentei-me ao seu lado e ela gritou para dentro de casa: “Me tragam aqui um garrafão de vinho branco ! Gelaaaado! “

 

Logo apareceu um menino moreno trazendo o vinho e duas taças. E as duas anoiteceram bebendo vinho e conversando, que era assunto para muitos anos. Cheguei em casa ligeiramente borracha e feliz.  Formavam  uma família alegre e barulhenta. Ainda naquele primeiro dia, soube que aquele homem era o ex-marido de Marly e  nas férias se juntavam sempre e iam para a Ilha com a filharada.

 

Férias conjugais para ambos, que já viviam com outros companheiros. Achei incrível, inusitado, inovador; e uma bela idéia para satisfazer os filhos, que corriam para todos os lados como a demonstrar sua felicidade pela família novamente reunida. Tornamo-nos grandes amigas e ela me confidenciava sem o menor constrangimento, detalhes íntimos  de sua vida. Uma bela pessoa, amiga, solidária e com um espírito completamente livre.

 

Nunca me esquecerei de Marly dançando tango com o  “marido” em frente à casa onde sempre ficavam, à luz de uma lua cheia. Muito clara, loiríssima, com um vestido longo, vermelho cor de sangue ... e saltos altos, na areia da praia. Parecia uma diaba de filme. Fiquei sentada no chão, olhando embevecida. Havia uma faísca entre aqueles dois, ainda e acho que sempre continuou existindo.

 

Às vezes brigavam e era um escarcéu e sempre por ciúmes dele. Ela fascinava os homens, conhecia seu poder, mas era tão natural que eu não via nada de mais naquilo. Ela era assim, cativante, feminina e extremamente sensual. Por anos a fio, nos encontrávamos nas férias; os meninos cresciam e ela construiu uma casa só para eles, bem ao lado da minha, de frente para a Praia de Fora, perto do Farol.

 

Mas aquele acordo de férias acabou. O ex-marido arranjou outra mulher muito ciumenta, que cortou-lhe as asas. Aí os casais vinham separados, cada qual com seu par atual, mais as crianças, agora já adolescentes. O novo marido de Marly era, simplesmente, o sobrinho do ex-marido, vinte anos mais novo que ela, um rapagão, que também morria de ciúmes. Ela era não apenas sedutora, mas excelente dona de casa e cozinheira de mão cheia. Tudo o que fazia era delicioso e começou a servir comida em sua varanda, com aquela alegria esfuziante de sempre.

 

Os meninos casaram e se foram, como todos os meninos fazem e ela transformou a casa numa pousada, passando a viver lá. Construiu um pequeno anexo para quando eles aparecessem e, durante a semana ficava por lá, sozinha. O jovem marido foi mandado de volta para Curitiba, que incomodava muito, bebia demais. Mas às vezes aparecia e era um misto de alegria e aborrecimentos.

 

Os casos de Marly são de fazer corar qualquer um. Certa vez hospedou um jovem casal em lua de mel. Tinha uma boa suíte para isso. Quando estava fechando as portas francesas da sala, sentiu que alguém a pegava por trás, beijando-lhe o pescoço. Espantada, percebeu o hóspede em lua de mel que a abraçava apaixonadamente. Reagiu. “Está maluco? Onde está sua esposa?”  “Dormiu e eu passei a chave na porta por fora” E lá se foram os dois para a escuridão da praia, à beira mar. Uma loucura! Voltaram molhados do mar e cheios de areia.  Confesso que morri de inveja quando me contou. Uma noite de amor, assim, se embolando na areia e no mar... era de tirar o fôlego! A moral para ela era absolutamente relativa, mas era tão simples e sincera que não havia como repreendê-la.

 

Ficou-me na memória e no coração, como uma das pessoas mais lindas e melhores que conheci. Seu enorme coração a todos acolhia e talvez fosse por aí, por este viés, que aceitava os homens que a vida lhe punha na frente. Perdemo-nos de vista há uns vinte anos. Ainda nos falamos por telefone, quando resolveu voltar para Curitiba. Nem sei se ainda é viva. Em meus devaneios, na certeza de jamais poder voltar àquele lugar onde fui tão feliz com meus meninos, penso em Marly.

 

Nada seria igual como antes sem ela ali ao lado. Eu, tão alegre e esfuziante, ficava apagadinha, embevecida com seu desembaraço e sua alegria. Foi ela quem me ligou, às três horas da madrugada, de um orelhão comunitário que havia na ilha, para me dizer, desesperada e aos prantos, que minha casinha estava pegando fogo. Era tudo em madeira e consumiu-se toda. Nunca mais voltei lá, principalmente por saber que o jovem responsável pelo incêndio havia morrido lá dentro. Bebia muito e na volta para sua casa, costumava arrombar uma de minhas janelas para dormir. Não mexia em nada, apenas suas pernas cansavam a meio caminho e ele escolheu minha casinha como ponto de descanso. Dessa última vez só o descobriram alguns dias depois, quando começou a cheirar mal e um vizinho, com um macaco hidráulico levantou a caixa d’água. Lá estava o pobre menino, esmagado.

 

 

 

(Elpídio, do grego, o que tem esperança)

 

 

A VINGANÇA DAS UTOPIAS

Paulo Elpídio de Menezes Neto

O Povo - 23/02/2008 

 

 

A felicidade é um ideal da imaginação e não da razão (Emmnuel Kant)

 

 

Ernesto Sabato em suas reflexões sobre a resistência do homem às próprias circunstâncias, enxergava neste ator atormentado pela angústia da incerteza, "um pobre ser con ojos que miran ansiosamente", "una criatura que sólo sobrevive por la esperanza". A necessidade de acreditar em explicações reveladoras que lhe trouxessem paz e segurança levaria esse bicho da terra tão pequeno, na visão camoniana, a realizar invejáveis construções intelectuais.

 

A esperança, espécie de bacia das almas de anseios recolhidos, fez dessa humílima criatura de Deus, um ser resignado, pronto para aceitar os pequenos acenos que a vida ou os semelhantes lançam em sua direção. E segura-se a esse salva-vidas provisório, mesmo quando mergulhado em revolta, preso às taboas das ideologias - e confia nas promessas da esperança e por ela se deixa dominar, aprisionado por esse humano paradoxo.

 

Com o fim das ideologias, anunciado no último quartel do século, novas utopias foram ganhando forma. Afinal, sem elas o homem não vive, tampouco, à falta delas, é capaz de sobreviver. Muitas dessas quimeras foram requentadas no esquecimento de frustrações antigas, de velhas fórmulas gastas e desfiguradas em desilusões acumuladas. Mas aí estão de regresso, servidas por velhas ideologias envergonhadas, mobilizando adesões, motivando e sensibilizando os céticos, na contracorrente de todos os vaticínios. Como em outras vezes, a esperança toma a forma de falácia apregoada por redentoristas, advento anunciado de perdidas ilusões. Tudo obrado, naturalmente, com as fantasias do engodo. Os ideais visíveis, anunciados com os enfeites das intenções profanas dos salvadores da pátria.

 

Na Europa velha de guerra, os surtos de autonomia regional, de nacionalismo minimalista, substituem, provisoriamente, as campanhas de expansão territorial recolhidas às entranhas da história. Na América Latina é o que se pode ver no horizonte das nossas desesperanças. O retorno de um populismo gasto que se julgava extinto recompõe, em nova quadra o espectro da miséria legada às populações incultas e maltratadas deste desolado continente. As ditaduras militares, produto das oligarquias a que sempre serviram, e a que devemos as nossas tristezas e a vergonha do nosso atraso, cederam lugar, hora e vez a formas autocráticas de governo que vão, aos poucos, em suaves poções assistencialistas, minando as bases republicanas do Estado, ainda que falem em seu nome. Submetem os sistemas constitucionais e as garantias de direito individuais sob condições objetivas de sujeição, ao que se passou a chamar, para usar um eufemismo em moda, de "governabilidade".

 

Não escaparam os Estados Unidos, divididos e cansados de guerra, no exercício da gendarmaria do mundo, da tentação que as utopias despertam em seu povo. Não lhes falta razão, aliás, para converter as inclinações que o protestantismo incutiu na alma americana - poder e glória, sucesso e riqueza - em sopros de sonhos, fantasias e quimeras acalentadas. Pois esta é a receita do sucesso de Barack Obama, o cavaleiro da triste figura das minorias étnicas que fala aos seus concidadãos, dizendo coisas sedutoras, assim: "somos os que estavam esperando", "nós somos a mudança que procuramos", "sim, nós podemos".

 

Referindo-se à sua adversária, lembra que ela repete "as mesmas coisas antigas". Obama seduz as gentes com a inspiração, com as esperanças compartilhadas com "mudar, sim, nós podemos". Hillary perde terreno, provavelmente não recuperará o espaço perdido, afinal não estão em jogo para os americanos, nessas primárias reveladoras, os resultados anunciados de um projeto de governo, a receita para conter a economia em depressão. Essa seria uma mensagem pouco convincente, nebulosa e inexpressiva.

 

O que está em jogo, afinal, não é o que fazer, porém o que as pessoas sonham, a reconquista das esperanças perdidas e a certeza de que é possível mudar. O quê e para quê servirá essa mudança, isso é outra questão que se há de ver depois. Cada coisa a seu tempo.

 

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto é cientista político

 

 

 

 

 

Deportados cubanos

 

“SÓ SE SALVARÃO OS QUE SABEM NADAR”

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

25/02/2008

 

No Manual del Perfecto Idiota Latinoanericano, de Plínio Apuleyo Mendoza, Carlos Alberto Montaner e Alvaro Vargas Llosa, o capítulo sobre Cuba começa com a seguinte citação: “Só se salvarão os que sabem nadar”.  Explicam os autores, sendo que Montaner é cubano, que a frase memorável pertence a um cantor de nome Cataneo e foi pronunciada na manhã de 8 de janeiro de 1959 quando Fidel Castro entrava em Havana. Acrescentam que desde então Cataneo ficou conhecido como o profeta.

 

Fidel e seus guerrilheiros provocaram entusiasmo e simpatia. E a população cubana apoiou, através de suas organizações, o líder que prometia trazer para o país progresso e justiça ao derrotar o ditador Fulgêncio Batista, golpista que depusera em 10 de março de 1952 o presidente Carlos Prío Socarrás. Também a América Latina sucumbiu ao carisma daquele salvador da pátria que prometia restituir a Cuba as liberdades que a ditadura de Batista confiscara ao povo. 

 

Entretanto, como é comum acontecer nas revoluções, Fidel Castro traiu os anseios dos cubanos e se tornou um dos mais sanguinários ditadores latino-americanos. Antes, paladino da liberdade subtraída por Batista, no poder reprimiu com mão de ferro os que não concordavam com ele.

 

Conforme dados citados por Reinado Azevedo em artigo na Veja de 27/02/2008: “Fidel mandou matar em julgamentos sumários 9.479 pessoas”. “Estima-se que os mortos do regime cheguem a 17.000”. E conforme a profecia de Cataneo, dois milhões de cubanos fugiram para os Estados Unidos, sendo que não foram poucos os que morreram tentando a travessia para a liberdade. Mostra Azevedo, que isso corresponderia a “27 milhões de brasileiros no exílio”. 

 

Este é o herói, o estadista, o humanista, o democrata exaltado por Lula da Silva, Oscar Niemeyer, Chico Buarque, Frei Betto e tantos outros como José Dirceu que chora diante do comandante e adquiriu sua segunda cara em Cuba. Dirceu, outrora guerrilheiro marxista sem-tiro é agora capitalista inserido na globalização e gerentão dos negócios do chefe. 

 

Dois anos depois de apear Batista Fidel fez aliança com a União Soviética e o regime comunista foi estabelecido formalmente em Cuba em abril de 1961. Contudo, apesar de Cuba passar a ser sustentada pela potência comunista, Fidel só conseguiu produzir miséria. Os alimentos foram racionados (e continuam), o salário do trabalhador cubano foi aviltado (e assim permanece), todas as liberdades, incluindo a religiosa, foram anuladas.

 

A pobreza dos cubanos é culpa dos Estados Unidos por conta do embargo, dirá esquerda, inclusive, a petista, que hoje pratica marxismo de mercado e esbanja luxo e consumo através dos cartões corporativos.

 

 A culpa norte-americana é uma das mentiras inventada por Fidel e disseminada largamente. Mas o que de fato existiu foi uma proibição de comércio de empresas dos Estados Unidos com Cuba, como represália aos confiscos do governo cubano a propriedades norte-americanas. Isso, contudo, nunca impediu que produtos dos Estados Unidos chegassem à Ilha vindos do Canadá, Venezuela ou Panamá.

 

Com o colapso do império soviético Cuba passou por maus pedaços. Foram, então, encorajados investimentos estrangeiros. Para tanto o comunista Fidel promoveu uma abertura ao capital estrangeiro de forma quase indecente. Ofereceu mão-de-obra barata, ausência de conflitos trabalhistas, livre remessa de lucros de sócios estrangeiros para o exterior, inexistência de imposto de renda durante o tempo estabelecido em cada contrato, nenhum encargo social para as empresas.

 

Todas essas vantagens excepcionais atraíram a Cuba especialmente espanhola (maiores investidores em turismo), canadense (mineração), italiana (telecomunicações) enquanto se processavam as associações com norte-americanos (indústria farmacêutica, etc.) apesar da choradeira de Fidel referente ao embargo.

 

Entretanto, apesar da “abertura econômica” o povo cubano vive numa pobreza franciscana e afastado dos “negócios entre amigos” processados pelo governo. Contrastando com a miséria de sua gente, Fidel Castro foi classificado pele revista Forbes como o sétimo homem mais rico do mundo. Quanto aos nativos é proibido freqüentar os melhores lugares da Ilha, todos reservados aos estrangeiros a poder do turismo e dos seus efeitos colaterais, a prostituição.

 

Deve-se ainda dizer, que Hugo Chávez substituiu a União Soviética no sustento da Ilha caribenha, e que o Brasil também tem dado generosamente seu quinhão ao democrático companheiro Fidel Castro.

 

Com a renúncia de Fidel, depois de quase um século de opressão, cogita-se sobre quem será seu sucessor e se haverão profundas mudanças em Cuba.

 

Provavelmente as mudanças serão lentas até que a múmia caquética do déspota cubano se una no além a de outros monstros que  infernizaram seus povos. Com relação ao seu sucessor, na América Latina, sem dúvida, é Hugo Chávez com seu socialismo do século XXI.

 

Cabe, então, lembrar, inclusive ao presidente Lula da Silva, o pensamento de Winston Churchill: “O socialismo é a filosofia do fracasso, a crença na ignorância, a pregação da inveja”. “Seu defeito inerente é a distribuição igualitária da miséria”.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br  

 

 

 

Ilha do Mel

 

3 - AS PRIMEIRAS VIAGENS

 

Circe Vidigal

 

 

 

            Não lembro com muita precisão nossas primeiras idas à Ilha após aquela aventura na noite, pisando na areia carregada nos braços do filho. Algo ficou acertado com uma das meninas de Curitiba que nos daria dormida e banho. No resto a gente se virava, pois havia alguns pequenos lugares onde comer.

 

         Os cariocas eram uma novidade para os nativos e mesmo para os veranistas de Curitiba e Paranaguá, mas todos eram delicados e gentis e assim nos sentíamos bem vindos. Pareciam mesmo um tanto orgulhosos com a presença daquela senhora do Rio de Janeiro que se encantara com sua ilha, por conta de seu filho surfista. E isso era apenas uma meia verdade, pois ela também caíra fulminada de paixão por aquele lugar maravilhoso. E assim fomos fazendo amizades, assimilando o modo lento e descansado do viver daquela gente. O menino queria porque queria um terreno na ilha, mas eu sequer desconfiava como se conseguiria isso e nem mesmo cheguei a indagar, pois me parecia coisa impossível.

 

         Entretanto, certo dia ele quis me apresentar um senhor, que era o representante do órgão oficial responsável  pela ilha. Fomos ao encontro do Doutor Telange que me tratou com extrema deferência, fazendo elogios ao menino, pois já o conhecia. O danadinho se encarregara de lhe dar “a minha ficha completa” : viúva de um Oficial da Marinha de Guerra, amiga do Capitão dos Portos de Paranaguá, cunhada de Almirante...Era como se eu fosse uma grande autoridade merecedora de todas as facilidades e foi logo me dizendo: “ O menino me falou de seu interesse em um terreno aqui na ilha ... “ Quase engasguei do susto ! “ Ora, doutor, coisas de menino, não leve a sério !”  “ Mas, minha senhora, ele até já me mostrou onde gostaria que fosse esse terreno, podemos ir até lá agora” .

 

         Sem saber o que fazer, acompanhei-os até a Praia de Fora, então um imenso matagal. Só havia uma pequenina passagem por um caminho perto da subida do Farol e por lá seguimos. Eu ainda não conhecia o lugar e fiquei deslumbrada ! Entre dois morros que avançavam um pouco mar adentro, um mar verde clarinho, transparente, desciam pequeninas ondas, umas atrás das outras, sem muita violência ( pelo menos naquele dia ) dando a impressão de que se poderia ir longe, ao fundo, atravessando aquelas ondinhas.

 

         Chegando bem no meio da praia, um pouco depois da metade, ele se virou para o lado da terra e disse: “Acho aqui o lugar ideal!” Os olhos do menino brilhavam e eu, embasbacada, sem querer acreditar no que estava acontecendo lhe perguntei: “Sim, e como se faz isso?“ Era tudo muito simples, segundo ele, sem nenhum problema. Mandaria, em papel timbrado, uma planta do local , eu não me preocupasse. Ainda atordoada, agradeci tanta gentileza, voltamos conversando, até a casa onde estava.

 

         No dia seguinte o papel estava em minhas mãos. Papel milimetrado, apropriado às circunstâncias,  com uma rosa dos ventos e flechas indicando os pontos cardinais e a marcação : 50m de frente X 40m de fundos. Dois mil metros quadrados! Nem num sonho mirabolante seria capaz de imaginar aquilo. E agora. Fazer o quê? “ É muito simples, mãe, agora a gente vai cercar o terreno e depois limpar” Eu ainda não acreditava, receosa que nada fosse legal. Mas acabei sabendo que ele tinha mesmo autoridade para fazer o que fez e foi assim, assustada, amedrontada, que fiquei sendo a dona daquele pedaço.

 

         Muitos anos se passaram até conseguirmos construir ali uma pequenina casa. Eu teimava em só fazê-lo com a autorização do SPU. Fui várias vezes a Curitiba e sempre tinha a mesma resposta. Primeiro a senhora constrói, ou planta lá qualquer coisa, depois vem aqui e nos pede a legalização. Era o órgão oficial  nos ensinando como a lei deveria ser burlada.

 

         Não me conformava com aquilo. Tinha um grande amigo na marinha, que na ocasião servia na Presidência da República. Expliquei-lhe o caso e ele me encaminhou para um amigo, chefão no SPU do Rio, o órgão máximo no assunto. Pedi uma audiência e fui recebida por um homem maneiroso que foi logo me dizendo: “ Mas ora vejam só, não consigo dar conta dos problemas que tenho no Rio de Janeiro e me vêm com problemas do Paraná ! Amigão esse que lhe mandou aqui.” Fiquei desconcertada, sem saber o que dizer, pedi desculpas por estar atrapalhando e comecei a me despedir. “Não a estou mandando embora, só estou sem tempo para resolver isso agora”

 

         Eu estava na flor dos meus quarenta anos, esbelta, loura, queimada de sol, com uns grandes olhos verdes arregalados de espanto por tal recepção. “A senhora pode me procurar em meu escritório particular, no meio da semana?”  Claro que eu podia. Peguei seu cartão, anotei dia e hora e, ingenuamente, fui procurá-lo como o combinado. Era num edifício comercial na Avenida Rio Branco - como poderia desconfiar de algo irregular? Toquei a campainha e o próprio atendeu, todo sorridente. Fechou a porta e mandou que eu sentasse numa poltroninha que havia numa pequena sala.

 

         De onde estava pude ver “lá dentro” através de um grande espelho, uma cama de casal. Era uma garçonière. Quando ele voltou levantei-me e, muito séria, lhe disse. “Acho que houve algum engano; muito obrigada pela gentileza, mas estou de saída. Ele havia trancado a porta e não quis me deixar sair. Por um momento senti-me acuada, mas retomei o sangue frio e lhe disse:” Se não abrir esta porta agora eu vou começar a gritar tão alto que vão ouvir até em Brasília, pra você ver o que é bom pra tosse”

 

         Por pouco não ia sendo currada por um alto funcionário do governo, que achava que as coisas se resolviam dessa forma. Saí com as pernas bambas, o coração aos pulos! Nunca havia passado por uma situação semelhante. Nunca disse nada ao meu amigo e hoje me arrependo. Pessoas como essa não merecem ser poupadas. Só então entendi como são vulneráveis as jovens viúvas, principalmente quando são bonitinhas. Não posso generalizar, mas nesse dia conheci uma espécie de homem canalha, como tantos que aprendi a detectar a partir desse episódio. Até então havia passado incólume por tais experiências, por muita sorte ou proteção divina.

 

         A partir daí aprendi a lidar com os possíveis pretendentes à canalhice, sem bater de frente, bancando a ingênua e fazendo de conta que não havia entendido, resvalando o papo para a família, desconcertando o canalha da ocasião; e de fato nem foram tantos, pois apesar da minha exuberância, acredito que transpirava maternidade e, com isso, inspirava respeito. Ganhei mesmo a admiração e a amizade de alguns deles, que se transformaram de lobos em cordeiros ao perceberem que aquele assunto comigo não colava.  Não que eu fosse assexuada, mas meu corpo só se empolgava através de meu coração e isso me aconteceu muito poucas vezes em toda a minha vida, mas então foi pra valer, bonito de viver, mesmo que me fizesse sofrer ao terminar.

 

         As marcas que ficaram foram recordações de momentos felizes. E os homens que passaram por minha vida estão gravados em meu coração, como se grava um nome querido numa medalha ou numa aliança em ouro puro.

 

 

Maria Helena Guimarães de Castro

 

A GRANDE ESTRELA

DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA

 

Gilberto Dimenstein


           
Goste-se ou não do PSDB, do governador José Serra ou até de São Paulo, é impossível deixar de reconhecer que Maria Helena Guimarães é, na atualidade, a maior estrela da educação brasileira --é o que fica nítido na entrevista que concedeu à Folha, que acaba de ser publicada. Se essa estrela vai acertar ou fracassar, ainda teremos de esperar.

        Até pouco tempo, ela era mais conhecida de especialistas por ter organizado os bancos de dados do Ministério da Educação e implementado sistemas de avaliação do ensino. Mas seus passos mais ousados aparecem agora, como detalhou em entrevista à Folha, ao tomar algumas posições polêmicas à frente da secretaria estadual da educação paulista.


        Ela abriu várias frentes de atritos e se expôs ao desgaste: 1) enfrenta os sindicatos, ao decidir premiar os professores a partir da produtividade dos alunos e atacar o absenteísmo; 2) critica as faculdades de educação, mesmo as mais conceituadas, por não formar bons professores para a rede pública e mexe com a suscetibilidade acadêmica; 3) desafia diretores e professores, ao criar um currículo básico, em cima do qual são estabelecidas metas de aprendizagem. 4) Não poupa nem mesmo a administração educacional do seu próprio partido, o PSDB. 5) defende a idéia de que escola não é só sala de aula, exigindo que façam articulações com a comunidade, abrindo-se à gestão compartilhada.


        Os holofotes se voltam para Maria Helena Guimarães não apenas pela polêmica em torno de suas propostas, mas da força da rede pública da educação paulista --são 5.530 mil escolas, com 200 mil docentes e mais de cinco milhões de alunos.



        O que der certo em São Paulo, dará em qualquer lugar do Brasil. O problema é que dar certo exige tempo, dinheiro, paciência e apoio político.


        Por enquanto, há pouco a comemorar: a qualidade do ensino de São Paulo pode até ser boa em comparação a outras regiões brasileiras, mas é péssima.

 

Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às segundas-feiras.

 

Fonte: Folha on line

 

 

 

 

Estrada da Graciosa

 

4 - UM FUSCA NA BR-116

 

 

Circe Vidigal

 

 

 

            A Ilha havia se tornado a nossa paixão. Nem a estrada, tão longa e perigosa, nos tirava o desejo de voltar. O pequenino Fusca fez, pelo menos, umas cinco viagens. Primeiro, Rio-Curitiba-Paranaguá, muitas vezes descendo pela Graciosa, mais ou menos uns 60 km antes da chegada a Curitiba, a coisa mais linda de se apreciar, adornada por “marias sem vergonha” e uma vegetação luxuriante.

 

        Fora construída pelos jesuítas, descendo a Serra do Mar. Ouvi contar que aquele caminho já fora, na América pré-colombiana, usado por índios do lado de lá dos Andes, que assim teriam conhecido o Oceano Atlântico. Pelo meio do caminho, algumas paradas com banheiros, daqueles antigos, onde a gente punha os pés num lugar apropriado mas não havia onde sentar.

 

        Era tudo ao rés do chão, mas nesta simplicidade, de porcelana inglesa.  Quando se começou a atravessar para a Ilha pelo  Pontal do Sul,  íamos de Curitiba para lá, onde alguns barqueiros faziam a travessia. Só mesmo aquele valente Fusca ou um 4 X 4 seria capaz de chegar quase na beira da praia, atravessando terríveis areais e muita lama. Depois que todos embarcavam, estacionava o possante distante da linha de maré mais alta, seguro e longe do perigo do mar, nas sombras de um lindo cajueiro e corria a reunir-me a todos no barco.

 

        Ali a travessia durava apenas meia hora, pois era bem na entrada da Barra da Baía de  Paranaguá. Pela cidade a travessia durava duas horas e era bem mais tranqüila. No Pontal ás vezes o mar metia medo, tão forte e revolto em certas ocasiões, naqueles barquinhos precários, sem cobertura, ao relento.

 

        No início era assim mesmo, à la Indiana Jones, até que a Iracema, dona de vários barcos, resolveu construir uma Parada decente, com lanchonete , estacionamento e banheiro, num local bem arborizado- e uma frota de embarcações razoáveis. Por essa época já nem íamos mais de carro, pois havia ônibus direto de Curitiba para o Pontal.  Saía mais barato e seguro vir do Rio de ônibus, mas não era a mesma coisa. Só mesmo depois que a casinha ficou pronta é que passamos a usar menos o carro.

 

        Nosso fusquinha merecia um prêmio, até mesmo algum título que esquecemos de lhe dar, pois em todas estas viagens, sequer furou um pneu. Ia carregado de gente, lotação esgotada, com muita comida, nossos pertences e, algumas vezes, o Ringo de carona, empoleirado no buraco de atrás, sobre os mantimentos. Sua cara feroz de boxer mestiço com pastor causava medo a muitos mas escondia um cachorro alegre e brincalhão, que as crianças podiam montar e cutucar as orelhas; mas sabia ser valente quando necessário.

 

        Certa vez vínhamos caminhando pela Praia das Conchas em direção ao Farol, com Ringo nos acompanhando, num trote tranqüilo de quem faz parte do grupo e das conversas. Uma das personalidades mais conhecidas da Ilha era o Tenente – nunca perguntei o por quê do apelido – jovem nativo, bonitão, metido a conquistador, mas excelente pessoa. Um pouco abusado, passou por nós e só para dizer alguma gracinha, ficou volteando o grupo com a bicicleta, fazendo pouco do cachorro : “ Esse Ringo não é de nada ! “ “ Olhe, Tenente, que mando ele te  pegar ! “ Que pegar o quê, ele não é de nada “ repetia.

 

        Aquilo foi me irritando até que, sem mesmo saber se o animal iria obedecer – pois nunca fizera aquilo – falei em tom de comando: “Pega ele, Ringo! Pega! “ Nisso o Tenente já estava longe com a bicicleta e o cachorro mais parecia uma lebre correndo atrás. Foi uma das coisas mais engraçadas e sem maiores conseqüências que vivi lá na Ilha. Lá pelas tantas, quando o Tenente viu que o cão ia alcançá-lo, entrou mar a dentro com  bicicleta e tudo e ficou até onde deu, com o cão latindo perto. Dali ele não saía se eu não chamasse o animal. Rindo muito, às gargalhadas, disse ao Tenente: “ Bem feito pra deixar de ser abusado e fazer pouco do cachorro” . Agora você ficou sabendo quem não é de nada, né, seu mané? “ E ficou tudo por isso mesmo, só restando o novo respeito do Tenente pelo Ringo.

 

        Quando passava por perto, passava cauteloso e eu lhe dizia: Passe sem medo que ele só ataca por minha ordem. Pura mentira inventada – ou descoberta, quem sabe, pois nunca mais fiz isso outra vez com ninguém. A verdade é que o cão passou a inspirar respeito, mas os nativos lhe queriam bem e só reclamavam quando ele corria atrás das galinhas. Achava que podia brincar com elas, nunca pegou nenhuma para matar ou mesmo machucar.

 

        A motorista do fusca, irresponsável mãe daqueles  adolescentes, numa de suas viagens, já quase chegando em Curitiba, parou numa lanchonete para todos irem ao banheiro e comer alguma coisa. Só que a lanchonete era do outro da mão por onde iam. Seu filho surfista marcara com ela às 18h no Pontal, para ajudar na travessia, pois vinham trazendo muita coisa. E ele estava de namoradinha nova que queria apresentar à mãe e aos irmãos.

 

        A mãe era boa de cronometragem de estrada e deveria chegar no horário. Qual não é sua surpresa quando se passou mais de uma hora e não chegaram na entrada de Curitiba. Como teria se enganado? Os meninos já haviam sinalizado que estávamos passando por lugares muito parecidos aos já tínhamos passado, mas ela sequer levou isso em conta. De repente viu uma placa: Entrada para Santos a 500m – isso era São Paulo! Parou num borracheiro japonês e lhe perguntou:
” Senhor, por favor, quanto tempo falta para Curitiba? “  “ Sei lá, senhora, Curitiba é tão longe!” “Qual é o próximo lugar depois daqui?” “ A senhora está quase chegando a São Paulo! “

 

 

        Se fosse cardíaca teria morrido fulminada naquele momento. Só então se deu conta de como estava cansada e do que havia feito. Seu maravilhoso senso de direção a trouxera de volta, e agora? Parou, respirou fundo, deixou a raiva passar e deu meia volta. Estava muito cansada, mas o pior é que não chegaria a tempo de encontrar o filho e este já devia estar preocupado, mas tocou em frente.

 

        Naquela época estavam duplicando a pista e havia um trecho em obras, com trânsito lento, que ela já passara de dia, mas agora o pegava à noite e debaixo de um enorme temporal. Os limpadores de pára brisa não davam conta de tanta água, mais os trovões e você sabendo que ali ao lado da estrada havia um perigoso despenhadeiro. Haja atenção! Na frente e atrás, caminhões de carga gigantescos e aquele minúsculo fusquinha no meio, cheio de vidas preciosas. Em marcha lenta, avistei uma espécie de lanchonete/hotel para caminhoneiros, saí da fila e me dirigi para lá.

 

        Não sabia se aceitariam entrar com o cachorro, por isso recomendei a um que ficasse com ele no carro enquanto tratava com o dono do bar. “ O senhor tem quarto com banheiro?” “ Tem sim senhora” “ É só até amanhã de manhã, por causa da chuva. Quanto é que já deixo pago” Quanto ele me pedisse eu pagaria, nem importava o lugar, era um teto a salvo! Pedi umas coca-colas, água mineral, paguei tudo e fui no carro pegar o cachorro. Nem olhei para o homem; fui subindo a escada com seu pratinha de água na mão.

 

        No quarto havia duas camas de casal onde dava para nos acomodarmos razoavelmente, por tão pouco tempo. Uma das meninas, muito cansada, resolveu tomar um banho – todos queríamos um banho – e pegou o primeiro lugar. Já estava toda ensaboada quando a água acabou. Acabou? Fui lá embaixo saber. “ Ah, senhora! Acabou mesmo. Só tinha um restinho na caixa! “

 

        Bem, filha, vamos tirar este sabão com água mineral. Mas a água não deu e ela acabou toda melada de coca-cola. Eu comecei a rir que não parava mais; ria tanto e tão alto que lá de baixo deveriam estar ouvindo e de repente parei de rir e comecei a chorar. Era puro nervoso, mas nada irremediável. Caí na cama e dormi como uma pedra , só acordando com o clarear do dia.

 

        Seguimos viagem em paz, descansados e tranqüilos. Já no meio da travessia vejo um barco que vem no sentido contrário e lá estava o meu menino com a sua nova amada, uma linda morena dos olhos verdes e longos cabelos. Parecia cena de filme. Os dois, de pé, acenando para nós. Deram meia volta no barco e seguimos juntos até a praia, onde me sentei, exausta e deixei a molecada trabalhando pois havia muito o que fazer até chegar em casa.

 

        O casalzinho ia completar dezoito anos. A menina havia fugido de casa, em São José dos Pinhais e ele a encontrara morando sozinha numa cabana de pescador na Praia Grande e foi amor à primeira vista. Amor tumultuado, turbulento, junta-separa-junta de novo e no meio disso, aos dezenove anos foram pais de um lindo menino, meu neto mais velho, xodó de toda a família.

 

        Fui uma avó muito jovem e apaixonada e fiz todo o possível para ajudar essa pequena família Sua linda mãe, extremamente amorosa, era completamente desmiolada. Teve dois padrastos excelentes, que o amaram muito e isto foi uma grande sorte. Por razões diferentes, infelizmente, eles saíram de seu roteiro de vida. O menino foi se criando alegre, lindo, sujo e perebento. A avó, quando perto, procurava minimizar esses detalhes, limpando, lavando, comprando roupinhas, mas sentia que o mais importante ele estava recebendo: amor e carinho. E foi isso que o salvou e o tornou um ser adorável, amado por todos, a despeito da vida tumultuada que teve.

 

        Acredito que, ao nascer, um anjo se pôs de plantão ao seu lado e jamais o abandonou.