Na mensagem sob o título “Escapou de ouvir, mas não de ler”, o Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto – ex-reitor da Universidade Federal do Ceará, ex-Secretário de Ensino Superior e de Educação Básica (MEC), ex-Diretor do FNDE, ex-Secretário de Educação do Estado do Ceará, ora na Administração Superior da Universidade Cândido Mendes (RJ) – recebo texto do discurso, “em celebração a uma vida exemplar”, “Martins Filho, uma biografia”, o fundador da Universidade Federal do Ceará, lançado em 1º. de setembro passado, na Reitoria da UFC.
Na verdade, Prof. Paulo Elpídio, quando na vida deixamos, esquecidos dos lenços e documentos, lançando-nos contra os ventos em busca do libertário, parece que perdemos um pouco de nossas referências de antes... Isso, mais forte, nos cartórios litúrgico dos cerimoniais, para quem já não somos os mesmos...
De convites houve, eles, com certeza perderam-se na procura de antigos birôs não mais habitados. De sorte que, se não pude me deliciar com a oralidade de seu ritmo fluente, carregado das emoções, carinhos e justiça em relação a Martins Filho, posso agora, com mais vagar, esquadrinhar seu texto, sentido-o a cada palavra.
Martins Filho, já cognominado de “o criador de universidades”, você o retratou com carinho e grandeza. Justo você, que lhe resgatou a obra e o signo do “universal pelo regional”. Na verdade foi com essa marca, que, nos anos 80, a UFC chamou ao diálogo a sociedade cearense (lembra-se dos encontros com todos e em todas as áreas, a Rádio Universitária, as Edições UFC ... Meu Deus, nunca mais houve tanta abertura!)...
Vai, pois, aqui o belo texto, entre atributos outros, a dizer de nosso sentido tributo. E, de carona, as desculpas pela não oportunidade do fruir de sua oralidade. E os agradecimentos pela saussureana evocação, a partir da escrita, da “imagem acústica”: a jorrar das palavras, frases e pensamentos.
Parabéns!
Marcondes Rosa de Sousa
(Seu assessor – anos 80)
********
MARTINS FILHO, UMA BIOGRAFIA
Paulo Elpídio de Menezes Neto *
A velhice, felizmente ou não, dura pouco. É muito breve para a maior parte dos humanos viventes, passageira e transeunte. O mais trágico da velhice, entretanto, está em tornarmo-nos velhos. O mundo da memória é o mundo dos velhos. Alguns, mais do que outros, dedicaram os seus anos de velhice às reminiscências da juventude, em recriar o passado, recompondo lembranças, recuperando a imagem dos figurantes com os quais cruzamos pelos caminhos da vida. Outros se entregaram nos braços do esquecimento, em transe de fuga no tempo, sem olhares para o passado e indiferentes ao futuro, se é que na plenitude da velhice se pode (ou se deva) pensar no por vir. Se existe patrimônio real a que se deva agarrar alguém que viveu bastante, esta riqueza está nos guardados acumulados no bornal onde se enfiou, vida afora, os registros do cotidiano, lampejos, flashes, instantâneos, sentimentos, angústias e as esperanças, a que nos agarramos e nos permitem continuar a viver.
Em suas reflexões sobre o tempo e a memória, Bobbio, em página magistral, lembra que “afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos”. E conclui: “somos aquilo que lembramos”.
Neste depoimento breve que fui encorajado a lançar, hoje, entre amigos e recordações, cercados pela grande família dos colaboradores de Martins Filho, de contemporâneos e dos pósteros, prontos a dar prosseguimento a esta obra bem lançada, cúmplices nas idéias e nos cometimentos, foram ressaltadas as singularidades de uma personalidade incomum, aprimorada pela longevidade, exemplo raro de jovem feito ancião, determinado, incansável desbravador de oportunidades novas. Neste
* Paulo Elpídio de Menezes Neto foi Reitor da Universidade Federal do Ceará, Secretário de Educação Superior, Secretário Nacional de Educação Básica e Diretor-Executivo do FNDE, do Ministério da Educação; foi Secretário de Educação do Ceará.
sentido, Martins Filho contrariou os arquétipos que moldam a imagem que fazemos da aventura da existência. Sua velhice foi longa e proveitosa, saudável, lúcida, carregada de vida. E útil pelas obras e intenções, na prestimosidade que jamais negou a quem dele se aproximasse. Às lembranças reunidas de um passado rico, associou as obrigações que se impôs, no presente, tempo no qual edificou, com engenho e pertinácia, as pontes projetadas para o futuro. Não se deixou aprisionar pelo passado, mas dele recortou as lembranças -- e deu-lhes vida permanente como memorialista. Com o capital acumulado das experiências passadas, trabalhou diligentemente os projetos que pretendia concretizar, no seu futuro. Perseguiu-os, realizou-os, consolidou-os com a coragem de quem sabe ocupar os espaços vazios já em idade canônica, no entardecer da existência.
“Martins Filho”, título incluído na Coleção “Terra Bárbara” da Fundação Demócrito Rocha, é o testemunho recolhido na juventude e maturidade, são pequenas inconfidências cuidadas com zelo por observador atento, engajado por inteiro, como colaborador e amigo, na obra maior do seu biografado. É possível – os críticos haverão de assinalar, com propriedade as imprecisões dessa reportagem confessadamente passional -- que tenha faltado isenção ao narrador, e imparcialidade ao julgamento dos fatos, personagens e atores – em tudo o que, de fato, modela as circunstâncias ortegueanas de Martins Filho. Não pareceu ao autor devesse afastar-se dessas incontinências verbais; ao contrário, a versão que lhes é apresentada traz a vivacidade do testemunho ocular, de quem viu, ouviu e presenciou, de quem cuidou em registrar episódios aparentemente circunstanciais, desses que o vento leva e apaga, se falta, pressurosa, a figura de quem os recolhe e guarda.
Não são registros falsos, de encomenda, desses que se reúnem para modelar uma imagem ou justificar atributos conferidos em vida; muitos deles escondiam-se por entre fatos notórios, esquecidos, banalizados. A outros, empresta-se um certo reconhecimento do que fosse real, ou do que encarnasse a verdade, dentre versões mal construídas, por vezes imprecisas.
Não me pareceu fácil compor a biografia de Martins Filho. A dificuldade provém, como percebi, da abundância de fontes e de registros disponíveis, condição que tornaria menos árduo e simples o trabalho do biógrafo, ainda que pouco aplicado; de fato, o que parece favorecer essa tarefa, cria, paradoxalmente, enredos perigosos, dos quais se se pode desembaraçar, embora com visível dificuldade. .
Do ponto de vista documental, fontes primárias importantes podem ser procuradas no acervo da Reitoria, não obstante as perdas irremediáveis sofridas pelos arquivos fotográficos e fonográficos, ao longo do tempo. A mídia foi generosa com Martins Filho, um dos seus personagens favoritos. A história da Universidade Federal do Ceará e a presença do Reitor Martins Filho, mesmo quando já deixara a Reitoria, podem ser reconstituídas com abundância de informações e pormenores nas coleções de jornais da época..
São, contudo, as suas “Memórias” o conjunto mais articulado e completo do que se escreveu sobre a Educação Superior do Ceará, da Universidade Federal do Ceará e de todas os demais empreendimentos, dos quais participou diretamente, da obra de edificação e consolidação dos seus projetos. Nessa abundância de registros reside, justamente, a dificuldade do biógrafo, que não quer deixar-se conduzir pelo improviso de achados reveladores, tampouco aceitar a incorporação de versões correntes, algumas, de tão repetidas, consagradas como incontestáveis.
De sua vida retratou Martins Filho o longo caminho, da menoridade aos anos da velhice chegada. Das nossas Universidades deixou o relato do essencial, deu-lhe a cor própria da sua interpretação, com elegância, equilíbrio e propriedade. Foi prudente, sempre que lhe pareceu ser este o comportamento esperado do memorialista, justo nos juízos expendidos sereno no julgamento.
A elaboração da biografia de um memorialista dotado das características da personalidade de Martins Filho, experiência que me foi dado viver, percorreu a linha divisória do que parece real, por ter sido referido nos textos conhecidos, e cristalizado, de alguma forma, na consciência dos seus contemporâneos, e do que se atribuiria à imaginação vadia do biógrafo à procura de revelações.. Este o trabalho e os riscos de quem se aventura por estes caminhos cheios de surpresas. Não ignorava eu as ameaças que pairam sobre o biógrafo e a sua credibilidade, movendo-se entre obstáculos e dificuldades apenas pressentidas.
O memorialista incorre, sempre, nos desafios de uma travessia temerária. O maior deles, está em evitar aprisionar o leitor nos domínios estritos da sua realidade, da versão que, intencionalmente ou não, transfere a quem o lê. A verdade é que comete, com freqüência, essa violação, sem dar-se conta de que a realidade é, em essência, a realidade de cada um. Para quem trabalha com o delicado papel da memória, a exemplo do tradutor, traidor inconsciente no seu árduo mister de mediador de significados, a sua realidade vem a ser a realidade a ser compartilhada com todos.
O biógrafo não escapa, por sua vez, a essa impiedosa armadilha. Em um certo sentido, incorre em maiores riscos, na medida em que, por impulso, intenção ou deslize, pode aprisionar o leitor e o biografado, a um só tempo, nos escaninhos da sua maneira particular de ver as coisas.
De todas essas ameaças não escapamos nós, leitores e autores; portanto não nos penitenciemos dessas humanas tentações, excessivamente humanas. Não pretendi fugir a tamanhas ameaças, ainda que essa confissão possa parecer-lhes, em sua apreciação indulgente, álibi engenhoso de aprendiz de biógrafo.
Há maneiras diversas de se ver a mesma coisa, a depender das circunstâncias e do olhar de quem perscruta. Relembro alusão de Carlos Fuentes, em seu recente “En esto creo”, ao episódio no qual, perdidos, ele e amigos, em meio a um labirinto de montanhas, no interior do México, indagam a um velho como se chamava a aldeia para onde se dirigiam.
-- “Depende, respondeu-lhes o velho. O pueblo se chama Santa Maria, em tempos de paz. Chama-se Zapata em tempos de guerra”.
Conforme o olhar que se lance sobre Martins Filho e a obra por ele legada aos cearenses, há de se descobrir aspectos novos de uma personalidade surpreendente, como não tratássemos de uma mesma pessoa. A lhaneza de trato, em circunstâncias normais, traía o temperamento impetuoso diante dos desafios a enfrentar ou em face da fragilidade das pessoas de pouco caráter, dos interesses mascarados, das conveniências cavilosas que vicejam em torno da coisa pública.
Esta biografia, organizada graças à iniciativa de Albaniza Lúcia Dummar Pontes e da Fundação Demócrito Rocha por ela dirigida, é a versão, a um só tempo, alegre e circunspecta de fatos, episódios e circunstâncias que recompõem a vida de um grande cearense. Pelas dimensões impostas, revela-se relato ligeiro, inconcluso; mais coisas ficaram por ser contadas, abreviaram-se as análises, embora devessem ter sido mais bem tratadas e com maior amplitude. Nada disso, hão de ver, comprometeu o fio da narrativa dos fatos centrais e a reconstituição dos principais atores de uma história empolgante, de vida e de obras. A Coleção “Terra Bárbara” cumpre missão educativa ambiciosa, a de divulgar, em formato acessível e no conteúdo simples, a história da vida de grandes cearenses, daqueles que têm lugar merecido entre os que deixaram o seu nome e o exemplo das suas vidas como referência para os jovens, os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos.
Comparou-se Martins Filho a um Midas, em cuja presença, sob a sua ação pronta e firme, as coisas se transformavam. Confirmou essa imagem disseminada o êxito dos seus empreendimentos aos quais se consagrou por inteiro. No âmbito da família, que a construiu grande sob a sua autoridade de patriarca amado; no mundo dos negócios, na advocacia, como jurista respeitado, animador de iniciativas culturais, intelectual e editor e, finalmente, para encerrar a sua obra e firmar a sua biografia, professor e Reitor de Universidades. Em cada obra, em cada gesto criador impregnava-o o seu entusiasmo, a serena certeza do êxito que haveria de coroar tanto trabalho e desvelo, seus e dos que o cercavam, convocados pelo “forte chefe”, alegoria camoniana que lhe agradava citar.
Um dos personagens de “Laura Diaz”, de Carlos Fuentes, disse que “gostaria de estar em um lugar, onde se sinta em perigo e, ao mesmo tempo, necessite proteção, não para deixar de sentir-se em perigo, mas para não se enganar com a ilusão de sua própria força”.
Corajoso, combativo, não faleciam, em Martins Filho as virtudes do equilíbrio e da sensatez, para bem avaliar a extensão e as conseqüências dos seus gestos e atitudes. Foi assim em todos os momentos, recolhendo-se à reflexão solitária antes das decisões que deveria enfrentar e arrostar as suas inevitáveis conseqüências.
Esta Casa, este auditório -- que bem mereceria receber o seu nome, em revisão histórica que se impõe -- testemunham os embates que enfrentou Martins Filho, confrontado com circunstâncias adversas, e assinalam momentos de exaltação e de vitória.
Das últimas vezes que aqui esteve, talvez a última, lembra-me a noite solene, quando aqui chegou, sobraçando as vestes talares de professor emérito da Faculdade de Direito, com a elegância de hábito que lhe emprestava o porte magnífico, amparado no orgulho essa condição lhe proporcionava, para receber das mãos do Presidente da Câmara dos Deputados, a Medalha do Mérito do Congresso Nacional. Em sua fala, firme, em fluente improviso, agradeceu a honrosa distinção, fez, em breves traços, a recomposição do seu itinerário e da campanha memorável que resultaria na criação da Universidade do Ceará.
O lançamento desta biografia, evento no qual se associam a Universidade Federal do Ceará e a Fundação Demócrito Rocha, fixa, em solenidade presidida pelo Reitor René Teixeira Barreira, o marco que assinala, com excepcional júbilo, o início das comemorações do Cinqüentenário da nossa Universidade e do Centenário do seu fundador e primeiro Reitor, Antônio Martins Filho.
As honras da celebração que hoje iniciamos, pelos cinqüenta anos da nossa Casa, cabem ao Reitor René Teixeira Barreira. Coube-lhe viver, como poucos, longo aprendizado, como aluno e professor, e participante de movimentos estudantis em uma quadra de escassas liberdades, trajetória que lhe ofereceu o respeito dos seus pares e a confirmação das responsabilidades que lhe foram conferidas.
Finalmente, os agradecimentos que devo dirigir ao meu amigo Roberto Cláudio Frota Bezerra, de uma distinta estirpe de professores, pelo gesto amigo em aceitar o convite para apresentar o livro que chegará, em pouco, às suas mãos. Sua presença na Reitoria da UFC, em dois mandatos sucessivos, e a condição de Presidente de nossa assembléia mais destacada na área da educação – o Conselho Nacional de Educação – assinala uma trajetória respeitável e realça a figura de um dos fundadores dessa Casa, o Professor Prisco Bezerra, seu pai, a quem rendo as homenagens que lhe serão sempre devidas.
À minha família, aqui reunida, representada por minha mulher Zuleide, pela minha filha Marta, pelos cunhados, filhos, sobrinhos e netos nascidos à sombra dessa frondosa árvore plantada por Antônio Martins Filho e Maria, presto a homenagem por esse reencontro, em celebração de uma vida exemplar.
Discurso pronunciado por ocasião do lançamento do livro “Martins Filho”, editado pela Editora Demócrito Rocha, da Fundação Demócrito Rocha, no dia 1º de setembro de 2004, na Reitoria da Universidade Federal do Ceará.