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O renascer das cinzas

16:38 @ 03/03/2006

 
 
 
 
O renascer das cinzas
Marcondes Rosa de Souza

O Povo [28 Fevereiro 19h23min 2006]

Um tríduo de fantasias. E, de repente, esta quarta, a nos mergulhar em cinzas. Sob outro enfoque animador: a nos descrever como solidários animais políticos. E o ''simbólico'', mais que o real, a nos fazer ver as coisas.

Para uns, não somos ''país sério''. Para outros, mero ''bloco dos sujos e mal lavados'', sob o estandarte da UDN: a ''de tamancos'' (o PT) e a de ''salto alto'' (o PSDB). Facções políticas, a fatiar a nação, à custa do ''mensalão'' e do ''caixa dois''...

Em nossa bandeira, irmanam-se ''ordem e progresso''. Mas é a própria ciência hoje que nos diz que a ordem, para ser produtiva, há de abrigar, em seu bojo, pitadas da ''desordem produtiva'', da criatividade, do ''caos inovador'', E a arte a nos mostrar que, nela, ''ruídos'' dizem algo. ''O som perfeito'' (assegurava-me Rodger Rogério, nos anos 80), não faz música sem um sujinho''

Os partidos políticos nos partem em facções sem diálogo. Terão, ao invés, que nos expressar como um caleidoscópio plural. Que esse seja seu jogo. Sem perder, porém, a partitura do diversificado todo, que nos faz união, regiões, estados, municípios, grupos sociais, pessoas enfim.

Lá fora, estudiosos de nossa vida política acompanham-nos, curiosos, a caminhada. E a indagação é por que não se irmanam os que têm horizontes comuns - PT e PSDB sobretudo - , na estrada rumo a uma terceira ou quarta via: a do equilíbrio entre os valores intentados pela Revolução Francesa - liberdade, igualdade e fraternidade.

No Ceará, somos partícipes de um mesmo projeto: o ''das Mudanças''. O sonho acabou? Há de acelerar-se? Dobrar à esquerda? Com que atores? São questões a se discutir. Mas isso, com grandeza, omitida a pequenez das insulsas ''notas de rodapé''.

Nesta quarta-feira, fique-nos, pois, a lição do simbólico. Sobretudo, a de nos acordar como Fênix, a renascer das cinzas!


MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente.

 
 
 
 
 
FORTALEZA EM ESTADO DE SÍTIO
 
 
Ricardo Marques
 
Recentemente enviei mensagem a esta Lista desabafando, humano que sou, minhas decepções e frustrações com o avanço terrivelmente acelerado do crime e da violência em nosso país e, mais especificamente, em Fortaleza.
 
Apesar do silêncio dos demais colegas do grupo, nosso sempre presente Prof. Marcondes, sensibilizado, repassou a mensagem para o governador, assim como para diversos políticos, ou seja, exatamente os maiores responsáveis pela situação como está. Aguardo resposta deles, ainda que sem esperança de melhorias - a mim, a História revela que qualquer retorno, quando raramente há, vem na forma de medidas inócuas, momentâneas, fúteis... Só "para inglês ver".
 
Abro minha caixa postal sedento de ler as contribuições de nossa Lista, especialmente comentários ao bate-papo que eu e o Prof. Diatahy iniciamos sobre os 500 cientistas que assinaram um abaixo-assinado questionando o darwinismo, e, é claro, à discussão iniciada sobre "Fortaleza em estado de sítio". Quase nada vi, exceto esta mensagem sobre a desgraça no Rio.
 
Aproveito, então, para atualizar nossa reflexão sobre o "estado de sítio" em que vivemos atualmente.
 
No feriado do carnaval, recolhi-me com minha família para um sítio de um amigo, próximo a Maranguape. Estávamos lá, por volta das 8h da noite, deitados em redes, na boa varanda, jogando conversa fora, quando a cozinheira nos alerta: "Se eu fosse vocês, botava tudo pra dentro e trancava as portas! Aqui tá muito perigoso, tem marginal que vem em bando lá dos matos, do fundo do sítio, e vão pegando as pessoas, botando o revólver na cabeça delas e roubam tudo! Isso acontece quase toda semana, é um perigo cês ficarem aqui!".
 
Nos entreolhamos e fizemos algumas perguntas. Logo ela disparou a contar as histórias dos vizinhos assaltados vezes seguidas, alguns agredidos e feridos. E que ali mesmo, naquele sítio, eles já entraram vários vezes, mas como na maior parte do tempo a casa fica fechada, eles não insistem muito. Mas algumas vezes invadiram até de dia, pensando que tinha gente, e trocaram tiros com o morador, que agora só anda armado. Nos quartos do sítio a mãe de nosso amigo mandou por uma campainha, que é tocada a qualquer hora da madrugada, para chamar o morador armado, quando a pessoa, de dentro de casa, ouve algum barulho suspeito.
 
A cozinheira continua, contando que a esposa do morador, com ele há 6 anos, o deixou há algumas semanas e foi embora do sítio, apavorada, depois que quatro bandidos entraram e a renderam com uma arma na cabeça, tentando forçá-la a abrir a casa. Somente depois de mais de uma hora assim é que entenderam que ela não tinha a chave, e a largaram. Mas o trauma ficou e a mulher, em choque, se mandou para nunca mais voltar.
 
Conversando com outros sitiantes, a história é sempre a mesma: a polícia NUNCA aparece, quando chamam. Ficam à mercê do perigo, e pronto. Escravos da criminalidade, vivendo em verdadeiro estado de sítio.
 
A maioria - incluindo a mãe de nosso amigo, dona do sítio em que estávamos - quase não vão mais lá. Traumatizados com o que já viveram, passam o tempo assustados, com medo de qualquer barulho ou movimento estranho. Muitos querem vender suas propriedades e ir embora. Para eles, lazer, nunca mais. Só em shopping, e olhe lá.
 
Enquanto isso, as "autoridades" se refestelam em seus palácios e carrões, cercados de seguranças armados até os dentes e com sistemas de alarmes caríssimos. Também estão sitiados, coitados, e talvez nem notem. Ou não ligam, sei lá. Devem ter suas compensações...
 
Falando nisso, onde estão nossa prefeita e nosso governador? Teriam sido abduzidos por ETs? Alguém tem notícia deles por aí?...
 
 
 

 

 
 
 
 
"A visão regionalista presente na obra seminal de Gilberto Freyre levaria o seu autor a propor a extensão dessa concepção ao modelo de uma Universidade de índole regional, constituída nos moldes de uma federação, com sede no Recife, onde se concentrariam os seus principais institutos e atividades acadêmicas, com ramificações pelos demais estados da Região, de acordo com a sua vocação específica." (Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-reitor da Universidade Federal do Ceará)

 

No dia 29 de abril passado, foi oficialmente aberto o Ano do Cinqüentenário da UFC e do Centenário do Reitor Antônio Martins Filho, em solenidade presidida pelo Governador Lúcio Alcântara, realizada na Reitoria. Na ocasião, coube ao Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto, ex-Reitor daquela Instituição, em nome da Comissão que se instalava. Eis, um registro de suas palavras:

 

O REITOR MARTINS FILHO

E A UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ

Às vésperas do seu Cinqüentenário de criação e do Centenário de nascimento do seu Fundador, Reitor Antônio Martins Filho, a Universidade Federal do Ceará celebra e comemora o êxito de um projeto universitário que se firmou e fez-se respeitar no meio acadêmico do País, graças ao trabalho perseverante e dedicado de duas gerações de cearenses.

Nascida sob a influência de acalentadas aspirações intelectuais, cuja afirmação a muitos parecia improvável, o advento da Universidade coroou uma campanha memorável que se projetou e ganhou corpo nos cinco anos que precederam a sua criação pelo governo federal.

As novas gerações, sucessoras dos fundadores, no decurso deste meio século de vida da Universidade Federal do Ceará, foram se alçando às mais destacadas funções acadêmicas na Instituição, assumindo funções de liderança e direção, em um processo de renovação no qual se projetaram novos talentos e as ambiciosas perspectivas das transformações anunciadas. Numerosos contingentes de profissionais liberais, de especialistas em variados campos do Saber -- cientistas, trabalhadores intelectuais e pesquisadores -- formaram-se nesta Universidade e dela levaram para o exercício do seu ministério de cidadãos praticantes habilidades e conhecimentos, desenvolvidos nas suas salas e laboratórios. 

 O advento de outras Universidades e de novos cursos superiores que se foram sucedendo, nas três últimas décadas, em Fortaleza e em outras cidades do Ceará é decorrência natural, extensão inevitável, da influência exercida pela UFC, que veio completá-la e ampliar o atendimento crescente de uma forte demanda por educação superior no Ceará e em estados vizinhos.

Não terá sido por outra razão, ou por circunstâncias fortuitas, alheias à dinâmica do processo instaurado com a criação da UFC, que Antônio Martins Filho desempenhou papel decisivo em cada um desses eventos significativos para a história da educação do Ceará. Fundador da Universidade Estadual do Ceará -- UECE, criou a Universidade Regional do Cariri – URCA, participou da formulação do projeto, da concepção e da fundação da Universidade de Fortaleza – UNIFOR, e das ações que propiciaram a criação da Universidade do Vale do Acaraú – UVA.       Nas comemorações que deverão assinalar meio século da Universidade Federal do Ceará, a presença de Antônio Martins Filho não será menos lembrada, quanto seria se vivo fosse o seu idealizador, arquiteto e construtor.

Nesta festa, associa-se intimamente ao êxito de um notável empreendimento educacional – o mais significativo para os cearenses, dentre quantos brotaram da sua iniciativa – o trabalho perseverante e determinado de quem transformou o ato formal de uma decisão governamental na mais sólida construção cultural e científica que o Ceará terá conhecido.

Celebram-se a grandeza da obra e a visão do seu instituidor -- e de todos aqueles que emprestaram a sua colaboração decisiva para a consecução desta realização pioneira. Por coincidência feliz, neste mês de dezembro de 2004, associam-se duas datas marcantes, nas quais se projetam e se confundem uma grande obra e o devotamento de quem a concebeu e materializou, graças à visão larga de uma liderança firme e respeitada e à mobilização dos cearenses de todas as camadas sociais, em favor de uma missão destacada.

A Universidade do Ceará foi instituída pela Lei no 2.373, de 16 de dezembro de 1954, sancionada pelo Presidente Café Filho.

Nomeado Reitor, em 18 de maio de 1955, Antônio Martins Filho instalou oficialmente a Universidade em 25 de junho de 1955, em solenidade memorável que teve como palco o Teatro José de Alencar.

O que se passou em seguida, ao longo dos cinqüenta anos que se sucederam a este evento fundador, é o itinerário que se deverá registrar, com base e fundamento nos fatos que a história recolheu e na análise que se produzirá nos meses que se seguem.

O empreendimento com o qual nos envolveremos traduz-se na tarefa de reconstituir um percurso realizado, extraindo dos fatos e das circunstâncias conhecidas e por serem reveladas, a análise que nos falta para melhor compreensão e entendimento do que significa a criação desta Universidade e as cinco décadas que nos separam dos primórdios da sua criação, compartilhadas por, pelo menos, duas gerações de mestres e alunos e pelo povo cearense.

O significado emprestado à data e o destaque da obra que nos preparamos para comemorar não podem ficar restritos ao espírito do provisório de uma efeméride passageira, a eventos transeuntes ou a formalidades do estilo, sem que se finquem, justamente, marcos intelectuais duradouros, inerentes ao projeto no qual uma Universidade demonstra, como a nossa, toda a sua vitalidade – na forma de pensar e de analisar a sua própria obra.

O advento da Universidade, no Brasil, fez-se tardiamente, em comparação às experiências que brotaram na América Latina e às tradições letradas européias, sobretudo inglesas, que se fixaram nos Estados Unidos, dois séculos antes dos primeiros cursos superiores criados no País com a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. Rememoramos episódio conhecido, no qual se evidencia a visão restritiva do colonizador, projetada em ordenamentos coercitivos praticados largamente pelo aparelho colonial sob cujo domínio permaneceu a América Portuguesa por mais de duzentos anos.

Na década de 30, sob os influxos progressistas que assaltam o País, as Universidades, formalmente constituídas, entre nós, não passavam de uma meia dúzia. A mais importante delas, por situar-se na Capital da República, dados a sua representação política e o prestígio social concentrados na sede da federação, denominou-se sugestivamente Universidade do Brasil, como se nessa instituição devessem concentrar-se toda a ciência, a cultura, a pesquisa e a formação de profissionais graduados do País. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, precursora da futura Universidade de São Paulo, quebraria esse monopólio hegemônico que, por sorte, cedeu lugar a uma progressiva descentralização dos cursos universitários brasileiros.

A visão regionalista presente na obra seminal de Gilberto Freyre levaria o seu autor a propor a extensão dessa concepção ao modelo de uma Universidade de índole regional, constituída nos moldes de uma federação, com sede no Recife, onde se concentrariam os seus principais institutos e atividades acadêmicas, com ramificações pelos demais estados da Região, de acordo com a sua vocação específica.

Essa pregação, divulgada amplamente pelo seu porta-voz,. no decorrer dos anos 50, quando se instalava a Universidade do Ceará, abriria ensejo para que se travasse memorável controvérsia na qual se empenharam Gilberto Freyre e Antônio Martins Filho. Desse contraditório, que opunha, aparentemente, interesses tópicos, centrados em uma disputa entre estados, historicamente distantes, emergiria tema recorrente, impregnado de significados culturais e políticos, sob enfoque de aliciadora inspiração filosófica. Deve-se a eles, a Martins Filho e Gilberto Freyre a abertura desse brilhante contencioso.

Não seria obra do acaso a adoção pela Universidade do Ceará ao tempo do longo reitorado de Martins Filho, da divisa O Universal pelo Regional..

A Universidade do Ceará, posteriormente transformada, na década de 60, em Universidade Federal do Ceará, é criação contemporânea à maior parte das Universidades mantidas pela União, nos diversos Estados da Federação. A expansão do projeto universitário brasileiro começa a tomar corpo a partir dos anos 50, concentrando-se nas duas décadas seguintes. No seu conjunto, as Universidades, criadas pelo governo federal, constituíram, a rigor, um projeto cujas bases seriam fincadas a partir da reunião de escolas isoladas preexistentes, particulares algumas, estaduais na sua maior parte.

Não seguiu modelo diferente a nossa Universidade do Ceará. Incorporando escolas tradicionais, criando outras em áreas de conhecimento ainda não atendidas, ampliando o seu campo de atuação em Fortaleza e em muitas regiões e localidades do interior do Estado, a Universidade Federal do Ceará chega ao final dos anos 60 como a única instituição universitária do Estado. Só então, começam a surgir outras Universidades, com a iniciativa pioneira da criação da Universidade de Fortaleza, graças à iniciativa de um respeitável empresário cearense, Edson Queiroz.

O Ceará e os cearenses terão nas celebrações desse Cinqüentenário da sua Universidade Federal do Ceará um reencontro com as idéias fundadoras, e as mais lídimas figuras da ciência, da cultura e da intelectualidade que se associaram ao movimento de sua criação – e que, com Antônio Martins Filho, serão justamente lembrados e  exaltados, nunca esquecidos da memória do seu povo.

Que me seja dado, com esses registros e evocações, rememorar circunstância exemplar – que bem ilustra a capacidade extraordinária de mobilidade no processo geracional na nossa Universidade. Reitor recém empossado, em 1979, quando se comemorou o Jubileu de Prata da UFC, pronuncio estas palavras, neste momento, por ocasião da abertura do Ano do Cinqüentenário, em solenidade presidida por um de meus alunos do Curso de Ciências Sociais – o Reitor René Teixeira Barreira.

Estes heróicos 50 anos guardam, na memória dos cearenses e na de algumas gerações de universitários, sucessoras e, ao mesmo tempo, contemporâneas, a lembrança de amargas vicissitudes, de gestos exemplares de desprendimento e grandeza, de sacrifícios e renúncias, de resistências inabaláveis às imposições do arbítrio das instâncias da força, e de muito trabalho e dedicação a ideais que perduram em todos os corações.

Quando pareciam incontornáveis e invencíveis os tentáculos da ordem instalada, caladas as derradeiras reações da cidadania amordaçada, com a consolidação de um aparelho repressor poderoso, muitas vozes juvenis continuaram a ouvir-se, dentro e fora da Universidade, em defesa de princípios eternos, que se mesclam às origens remotas da Academia. O gesto de grandeza, coragem e desprendimento de muitos jovens estudantes e de Mestres respeitáveis, que os registros de nossa vida universitária recolheram, servem, hoje, duas décadas transcorridas desde o retorno do País às franquias democráticas e ao estado de Direito, como manifestação de indulgência pelos atos daqueles que não souberam respeitar os seus compromissos e a dignidade que a Universidade impõe aos que lhe emprestam a sua colaboração.

O patrimônio científico e cultural e os bens materiais reunidos em meio século, nesta Universidade, e graças a ela e à sua respeitabilidade, são a riqueza conquistada pelo trabalho quotidiano de professores, alunos e funcionários, nas lides do magistério, no esforço concentrado da pesquisa, no ensinar e no aprender, no fazer e construir, funções que fazem da Universidade a “multiversidade” moderna, proclamada por Clark Kerr, abrangente, mobilizadora de talentos e vocações e inventividade, comprometida com a sociedade e com as aspirações do povo.

 
 
 
Prof. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes
 
"Ao nos saudar, os que concluimos os mandatos, o Cons. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes valeu-se de símbolo criado pelo professor e artista plástico cearense Hélio Rola, ao fazer de cena de um pássaro engaiolado tentando dela se libertar, para retratar a “ciência aprisionada”."

         

         

EDUCAÇÃO, PÁSSARO APRISIONADO

 

Ontem, ao cair da tarde, no Auditório do Conselho de Educação do Ceará, em sessão solene (descontraída, embora), com participação de expressiva representação dos diversos setores, níveis e modalidades de nossa educação, tomaram posse os novos conselheiros: Antônio Colaço Martins, Francisco de Assis Mendes Góes, José Reinaldo Teixeira, Viliberto Cavalcante Porto e José Nelson Arruda (suplente)

 

O conselheiro mais antigo do País, Jorgelito Cals de Oliveira, saudou os que ali se empossavam. E, em longo histórico da vida do CEC, desde os anos 60, deu testemunhos sobre os vários momentos dessa Instituição, reservando aos últimos 8 anos, que a mim tiveram como presidente, no curso de 12 anos a integrar, conselheiro, esse órgão, como os em que o  CEC projetou-se na sociedade cearense e se fez respeitar em todo o País.

 

Na solenidade, os que deixamos os cargos agora, por imperativo legal que reduz o mandato de conselheiro para quatro anos, com a possibilidade de um só mandato sucessivo, recebemos: José Teodoro Soares e Cláudio Régis de Lima Quixadá (este ausente, por motivo de força maior), uma plaqueta alusiva aos relevantes serviços prestados à educação e ao Conselho,  e eu o título de “Conselheiro Honorário do CEC”, “em reconhecimento ao (...) trabalho de educador sempre pautado na ética, na responsabilidade e na crença na pessoa humana” (...) “com base na Resolução n. 3834, aprovada em 25 de maio de 2004” - está escrito no “Diploma”, assinado por Guaraciara Barros Leal – Presidente do CEC.

 

Ao nos saudar, aos que concluíram seus mandatos, o Cons. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes valeu-se de símbolo criado pelo professor e artista plástico cearense Hélio Rola, ao fazer de cena de um pássaro engaiolado tentando dela se libertar, para retratar a “ciência aprisionada”. Mostrou, em suas tocantes palavras, como, de jeitos diferentes, cada um de nós havia batalhado para, por meio da educação, que o saber se libertasse, na direção do crescimento e do desenvolvimento da pessoa humana.

 

Nesse diapasão, falaram o Secretário de Ciências e Tecnologia (responsável pela supervisão do ensino superior e profissional), Hélio de Campos Barros, e a Secretária de Educação Básica, Sofia Lerche Vieira, ali também representando o Governador do Estado, Lúcio Alcântara.

 

Noite entrante, a Presidente Guaraciara Barros Leal brindou-nos com saboroso e amistoso coquetel.

 

 
 
Foto em cartaz de propaganda oficial turística no Ceará
 
 
Secretaria Estadual da Ouvidoria e do Meio Ambiente responde à afirmação da Praia de Iracema: Uma decadência de "gringos e prostitutas"

       

        No início do ano, publiquei, no Jornal “O Povo”, de Fortaleza (Ce), o artigo “Iracema, o postal”, que divulguei na Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, então sob minha coordenação, sob o rótulo de “Texto 2267”.

 

        Tal artigo encaminhou-se à Ouvidoria do Governo Estadual, soma@soma.ce.gov.br, que, agora, me envia resposta.

 

        Abaixo, o artigo e, a seguir, a posição do Governo, na voz de sua Ouvidoria:

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Segue resposta para sua mensagem enviada à Ouvidoria:

 

 

Mensagem:

LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais”

Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (www.cec.ce.gov.br)

Texto 2267 – “Iracema, o postal”

 

        Da edição de hoje do Jornal “O Povo”, de Fortaleza (Ce), extraímos o artigo de Marcondes Rosa de Sousa, sobre temática a falar de “relevos” em nossa “educação social”:

 

______

 

 

ARTIGO

Iracema, o postal

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor

[21 Janeiro 02h58min]

 

 

Ouço, em papo, os filhos e amigos seus, aqui em férias, alguns do exterior. Em pauta, a indignação com a Praia de Iracema: ''Uma decadência, habitada por gringos e prostitutas'', diz-me um deles. Alheio às noites, a frase me assusta. Quero ir lá! Draulio Araújo, professor da USP, deixando-me ao computador, em fotos, o registro das cenas de abandono, poupa o sogro de eventuais violências.

 

Com as fotos, invade-me um sentimento. Não a nostalgia da canção: ''praia dos amores que o mar carregou''. Nem o moralismo insano de condenar o apelo do amor, a seduzir o turismo. Mas a aversão ao insustentável ''turismo à moda tailandesa''. De repente, a ''virgem dos lábios de mel'', de Alencar, arquétipo da alma e hospitalidade dos cearenses, torna-se, ela própria, mercadoria a vender-se. E aí por toda parte, os sinais: nos saguões do aeroporto, nos halls dos hotéis, no relato dos taxistas. Iracema (o romance) bem que poderia ser cartilha de nosso turismo. Ali, o celebrar da paz, com a quebra da flecha, entre a ''virgem'' e o visitante ''guerreiro branco'', e o correr-guia de Iracema, pelas matas a partir do Ipu, por entre serras, litorais e sertões, mostrando a produção de nossa gente.

 

Reações já se esboçam a esse praticado turismo. No Ceará, ''Iracema e iracemas'' (diz-me uma aluna) já dele se envergonham. E, no Rio, hotéis já pactuam vender outro ''postal carioca'' que não o rebolar de suas mulatas: ''relevos outros, mais relevantes, de sua paisagem''.

 

Partilhei dos sonhos dos que, aqui, tentavam plantar o ''Portal do Turismo Nacional'', fazendo, do sol e da diversificada paisagem (natural e cultural), indústria a distribuir, com nossa gente, trabalho, renda e dignidade. Mas, se ''habitado por gringos e prostitutas'', será esse, um triste portal, de danosos ''efeitos colaterais''. Tal quadro há que mudar. Eleições já se avistam. O ambiente é propício!

 

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

 

__________

 

A RESPOSTA

 

Prezado Marcondes,

 

Em atenção às considerações feitas por V.Sa.a respeito da problemática da Praia de Iracema, informamos  o que o governo do Estado está implementando, com o objetivo de recuperar um dos principais espaços públicos de nossa cidade.

 

Professor Marcondes Rosa de Sousa - UFC / UECE

Artigo Iracema - Jornal O POVO. Uma decadência, habitada por gringos e prostitutas.

 

        A Secretaria do Turismo está implementando o Projeto de Requalificação da Praia de Iracema, elaborado juntamente com as associações de moradores e empresários do bairro.

 

        O Projeto tem como objetivo implementar um conjunto de ações com vistas a requalificar a Praia de Iracema, resgatando a sua condição diferenciada de espaço turístico, de lazer, de divulgação da cultura cearense e ponto de encontro para os fortalezenses e visitantes, tornando-a um atrativo turístico capaz de alavancar emprego e renda.

 

        Além disso, está estruturado em três grandes ações:

·       

·       Estruturantes, de competência da Secretaria do Turismo do Estado;

 

·       De Ordenamento e Repressão - Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social;

 

·       De Animação -  Secretaria da Cultura.

 

 

        O Projeto de Requalificação está sendo implementado, e já podemos observar os primeiros resultados:

 

·        Boites fechadas, por favorecerem a exploração sexual;

 

·        Disciplinamento das atividades comerciais, através da organização  do horário de funcionamento dos estabelecimentos;

 

·        Fiscalização e retirada de ambulantes;

 

·        Revisão e controle da concessão de alvarás de funcionamento;

 

·        Realização de blitz na área;

 

·        Coibir os abusos de comportamento de crianças e adolescentes desacompanhados, prostitutas e travestis.

 

·        Definir programação cultural para a Praia de Iracema.

 

·        E outras medidas tomadas para o bairro.

 

·        E outras medidas tomadas para consolidar a Requalificação da Praia de Iracema.

 

Atenciosamente

Secretaria da Ouvidoria Geral e do Meio Ambiente - SOMA

ARTIGO
Sintaxe da vida

Marcondes Rosa de Sousa
Professor

[26 Maio 05h28min 2004]


Na escola, aprendi: a frase é um jogo. Na gramática da vida, que ações são predicados a nos definir como sujeitos. Os dois, ''termos essenciais'', em tal jogo, onde o lugar é mero ''acessório''.

Agora, quando os cargos já os tenho deixados, me vem, em cobrança, o refrão: ''Onde está você?''. Volto aí a McLuhan, o lugar visto ''extensão de nossa pele'': birôs, gabinetes, cargos... E a Freud: o pos(t)sedere (possuir, em latim), em associação primal com o ''sentar-se'': o trono e a cadeira, sinais de poder. De pouco vale dizer que voltei à sala de aula. No imaginário comum, as antigas ''cátedras'' perderam imponência. As ''cadeiras'' viraram ''disciplinas'', no cardápio discente. E as físicas cadeiras do professor hoje se perdem em meio às carteiras de seus alunos, que vêem este como ''um mártir'', um ''pobre coitado''. Quando não, seu empregado. E um lugar, termino por encontrar. Visível, ubíquo, de presença instantânea, de franco acesso. E isso, em ''sítio (site) agradável'' e em larga avenida na Web: www.grupos.br/grupos/ethos-paideia. Um coletivo ponto de encontro. Na fachada, aponho-lhe a inscrição: Grupo Ethos-Paideia. Ethos - a convivência, a responsabilidade e a inclusão sociais - o nosso porto. A ''Paidéia'' - a formação do homem (cidadão, profissional e pessoa) - larga estrada a nos pautar a educação (escolar e social), lastreada por nossa cultura. Os eruditos termos, de origem grega (sei), poderão assustar. Mas nossa ''Paidéia'' guarda, em seus sons, a evocação do popular e nordestino ''pai-d'égua'', ''coisa grande, ou avultada, ou que causa espanto'', explica o Aurélio - Séc. XXI.

Nesse lugar, aguardam você, os interessados na discussão dessa questão. É gratuito. A gratificação é a esperança nossa de, um dia, ouvir nosso excluído povão bem alto exclamar, em versão sua de nosso ''Ethos-Paidéia'': ''Eta Paidéia ... pai-d'égua!'


Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), da Universidade Federal do Ceará (UFC) e diretor do Instituto Teotônio Vilella (CE)

 

Eta paidéia pai d'égua!

09:51 @ 09/03/2006

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: "Eta paidéia ... pai-d'égua!"
Data: Sat, 22 May 2004 15:27:33 -0300
"(...) busquei, junto ao “grupos.com.br”, para a denominação de nossa Lista de Discussão, os iniciais e solitários termos “pólis”, “paidéia” e “ethos”. A resposta era sempre a mesma: “grupo já existente”. Tentei combinações várias. Aceita, finalmente, “ethos-paideia”, forma disponível, que, de logo, assegurei definitiva." (Marcondes Rosa de Sousa, moderador da discussão)


Amiga(o)s,

 

“Ethos-paidéia”! ...

 

A denominação do “Grupo de Discussão” parece que, a alguns, assustou. Mas o apelo ao susto foi-me intenção. Só não esperava que, em alguns, fosse tanto, a ponto de lhes levar a “deletar” as primeiras mensagens... Mesmo entre pedagogos, os dois termos, juntos, provocaram surpresas: “Ethos? O que é isso? Paidéia... Ah! eu tenho, lá em casa, um livro bem grosso, com esse nome!...”. Isso, numa referência à obra de 1413 páginas, intitulada Paidéia: a Formação do Homem Grego, de Werner Jaeger, tradução de Artur M. Parreira (São Paulo, Ed. Martins Fontes, 1995).

 

De algum modo, arquitetei esse espanto. Para mim, de formação lingüística, nome é coisa importante. Por vezes, maior que a coisa. É que Deus, ao criar o mundo, teve como primeira tarefa, fazer as coisas surgirem. Depois, dar-lhes nomes. Do Gênese, colhi de Deus (eu, sua imagem e semelhança) a narcísea lição: ao criar as coisas, dar-lhes um nome pelo qual lhes chamar; depois, nominá-las; ao fim, poder desfrutar da auto-satisfação a me trazer, como “no princípio”, o refrão: “E viu que tudo isso era bom!”

 

Em minha formação lingüístico-literária, aprendi, com Roland Barthes, que “escrever é espantar”, nas pegadas do que já dissera Aristóteles sobre a ciência. E mais: a fazer a diferença entre a linguagem da ciência - que se quer “transparente”, tal como uma límpida vidraça a nos levar direto às coisas – e a da arte e literatura, que se impõe “opaca”, como vidraça respingada da chuva, a mostrar, em si mesma, desenhos adicionais a transfigurar o dito por elas (Tzvetan Todorov)...

 

Dentro do espírito que gostaria de imprimir à nossa discussão, busquei, junto ao “grupos.com.br”, para a denominação de nossa Lista de Discussão, os iniciais e solitários termos “pólis”, “paidéia” e “ethos”.  A resposta era sempre a mesma: “grupo já existente”. Tentei combinações várias. Aceita, finalmente, “ethos-paideia”, forma disponível, que, de logo, assegurei definitiva.

 

“Ethos”, palavra grega, está aí hoje repetida até por nossos empresários, nos recém-criados programas de “responsabilidade social”, a abrir - em meio ao mundo econômico, onde gradativamente desmoronam (pelo menos em teoria e retórica) as barreiras entre capital e trabalho - os olhos de todos para a sinalização de que o mundo, no que toca à geração da riqueza e na vida social, radicalmente mudou. Na verdade, o capital agora se desloca para o próprio homem.  Não mais é “dinheiro”, o tal “capital física”. Não mais a solitária “cabeça” (de caput, em latim). Mas o homem de corpo inteiro, a inteligência fazendo-se “múltipla”, até o espírito, a alma, a transcendência integrando-se em tal concepção. E mais forte que isso, o retorno à visão de homem como “animal político” (na acepção do gregário e social). Daí, o capital social.

 

Aí, o “ethos”, o porto da caminhada proposta por nós. Horizonte a não ser esquecido em nossas discussões.

 

Paidéia! Alguns estranharam o termo, o que, para mim, era esperado. É que tem ele um “parentesco fonológico” com a expressão nordestina “pai-d’égua” e seus familiares mais próximos (sobretudo ... os “filhos”), o que acarreta, para esse vocábulo, possíveis conotações pejorativas.

 

Mas choques antitéticos a virar sinonímia é processo corriqueiro em toda linguagem. O termo ‘pai-d’égua”, o Aurélio Séc. XXI, o descreve: “Diz-se de coisa grande, ou avultada, ou que causa espanto”. E, a abonar a expressão, do cearense Chico Anísio: “O modo de pagar o cuidado dos padres com os municípios era este: dar uma festa pai-d’égua” (Teje Preso).

 

Curioso! No fundo, era essa “coisa grande, ou avultada, ou que causa espanto”, a irmanar dois aparentemente contraditórios dialetos – de um lado, o erudito (a evocar conotações helênicas); de outro, o popular (a me trair pelas gírias caboclas), que eu, cearense, no fundo, intuitivamente buscava, quem sabe...

 

Paidéia, a caminhada proposta. Nascido o termo, lá na Grécia, quando era o escravo que, pela mão levava a criança à escola. Pedagogia era isso: “conduzir a criança”. Daí, o vocábulo cresceu, avultou-se. Tornou-se um processo, mais que meramente escolar: a educação, conjugada a um projeto político e cultural.  A educação escolar sim, mas a ela transpondo, tornando-se sociocultural. O binômio “cultura e educação”, jogo contínuo e perene entre a preservação e mutação dos valores, os olhos em pacto a olhar para as moradas do “ethos”, lá onde nos aguardam a projeção de nós todos como cidadãos (entes do mundo político), profissionais (artífices do mundo econômico) e pessoas (solidários seres do mundo sociocultural e patamares transcendentes do humano).

 

De mim, fui, nas etapas de minha vida, extraindo lições da própria gramática, professor que sou dessa área. Primeira lição, a do Gênesis. A de que, “no princípio, era o nome”. Depois, tornei-me, no testamento novo, discípulo de São João. Aí, “no princípio, era o verbo (a ação)”. Com a maturidade e o advento desses tempos pentecostais, onde o fogo da emoção se torna “inteligência”, aprendi que, “no princípio, lá está a interjeição” (emoção).

 

É neste contexto que, aqui, deixo apelo e desejos a permear toda a nossa discussão, em que o “ethos”, tido por fim, oriente nossa jornada, a Paidéia.

 

Que nossa “Paidéia” seja estrada enlarguescida. Mesclada com o mundo e vida, a cultura (a integral produção do homem) e a vida enfim. A educação escolar sim. Mas não uma liturgia “sem sentimento e sem alma”, liturgia de desencontrada liturgia, sem horizonte e sem nexo. Que não perca seu horizonte, destino e desaguadouro. O “ethos”, onde mora a inclusão social. E, ao sentir isso, nosso povão, mesmo desinstruído de etimologias, arrancadas da Grécia e do Lácio, possa soltar fogos a entoar refrões como esse:

 

“Eta Paidéia ... pai-d’égua!”

 

De coração,

Marcondes Rosa de Sousa

Moderador da “Ethos-Paideia”

 
 
 
O opúsculo acima, publicação do Conselho de Educação do Ceará,
é de autoria da Profa. Iranita Maria de Almeida Sá,
então conselheira do CEC.
 
 
"O ensino a distância, que foi estudado e discutido em diversos "Fóruns", principalmente o Nacional dos Conselhos de Educação, que teve em Teófilo Bacha, do Paraná,  um dos seus mais importantes defensores, parece que está perdendo o espaço conquistado prejudicando o preenchimento de uma das grandes lacunas da nossa educação que é construir o conhecimento nos pontos mais inacessíveis deste nosso País. Este tema não pode ficar à margem das discussões educacionais." (Ronaldo Pimenta, educador do Rio de Janeiro)

 

Com alegria, dou, entre os encaminhamentos à nossa discussão, com o que nos envia o Prof. Ronaldo Pimenta, rpimenta@urbi.com.br, de longa experiência em educação, nas escolas e nos Conselhos de Educação, muito tempo no Estadual do Rio de Janeiro e no Municipal de Niterói, veterano parceiro nos principais embates da educação, principalmente a que busca a inclusão da grande maioria dos excluídos pela via dos mecanismos “a distância”.

 

Pimenta nos propõe temática bem atual de nossa atual “cultura anti-ethos”, permeada de violências sob todas as formas. Na escola e na sociedade.

 

Por mim, assino em baixo das observações do amigo. E proporia que os que estão mais à frente que, em todos os “discursos e dialetos”, nos falassem da transversal temática em torno da “cultura da paz”: nas confissões religiosas, nos times de futebol, no trânsito, nas ruas, entre as facções de cunho político-ideológico, nas escolas, nos lares.

 

Na verdade, violência, meu Caro Pimenta, não é realidade apenas das periferias urbanas. E não apenas sob o choque entre policiais e bandidos. Nem tão só cenário exclusivo das favelas do Rio de Janeiro. Ela nos corrói transversalmente a vida, aprisionando-nos nas solidões da vida moderna.

 

Parabéns pela provocação.

 

Nós outros, vamos a ela.

 

O debate, pois, está em jogo. Quem se habilita?

Vejam a mensagem a seguir:

 

 

****

 

Amigo Marcondes,

 

Primeiramente, os meus cumprimentos pelo ressurgimento dos "Desafios Educacionais", agora  com roupa nova.

           

Gostaria de propor alguns temas para troca de idéias:

  

1 - Indisciplina nas escolas (particulares e públicas).

2 - O respeito recíproco -  como valor fundamental nas reações entre os integrantes das escolas e seus familiares.

3 - O preconceito quanto ao Ensino a Distância.

 

            Para aquecer o debate quero apresentar as minhas observações aqui do Rio de Janeiro:

   

1) A violência não está apenas nas ações em favelas (PM e Traficantes). Vários alunos, principalmente de escolas particulares, consideram seus professores e funcionários como seus empregados, faltando freqüentemente com o respeito que deve existir entre as pessoas, independente de sua função, credo, etnia, clube de futebol, etc. Isto é violência em alto grau.

 

2) Em conseqüência, não são poucos os casos de funcionários e professores que se afastam abrindo mão do emprego neste momento de desemprego.

 

3) A falta de respeito está presente (felizmente ainda em minoria) no contato da família com a escola, no trânsito, nas ruas, nas repartições, gerando, algumas vezes, sérios conflitos, isto também é violência. Poderíamos listar outras situações de violência, entretanto vamos nos restringir às que estão mais próximas da escola e da família.

 

4) O ensino a distância, que foi estudado e discutido em diversos "Fóruns", principalmente o Nacional dos Conselhos de Educação, que teve em Teófilo Bacha, do Paraná, um dos seus mais importantes defensores, parece que está perdendo o espaço conquistado prejudicando o preenchimento de uma das grandes lacunas da nossa educação que é construir o conhecimento nos pontos mais inacessíveis deste nosso País. Este tema não pode ficar à margem das discussões educacionais.

 

            Gostaria de verificar a visão de educadores de outras regiões sobre esses temas, independentemente de credo, ideologia, facção política, clube de futebol, etc.

 

            Obs. Considero o tema ensino religioso como um dos mais importantes da discussão, apenas acrescento outros, segundo minha visão pessoal.

 

            Um grande e afetuoso abraço

            Ronaldo Pimenta - Niterói - Rio de Janeiro 

 

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Signos do Coletivo

10:03 @ 09/03/2006

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: Signos do Coletivo.doc
Data: Fri, 21 May 2004 15:05:19 -0300
Dia 19.05.2004, em sessão solene, a Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, prestou homenagem à Universidade Vale do Acaraú (UVA), por seus 35 anos de fundação, e a seu Reitor, Prof. José Teodoro Soares, outorgou a Medalha João Otávio Lobo.O artigo "Signos do Coletivo", publicado na Imprensa do Ceará, é alusivo ao significado dessa Comenda.

SIGNOS DO COLETIVO

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor

 

    Nos livros de história literária, dei com os “cronistas do reino”, em Portugal, a discreparem em visão sobre os fatos históricos. João de Barros a encará-los como feitos solitários dos príncipes. Fernão Lopes, ao invés, como produto da “vontade das multidões”. E os príncipes, por fim, como expressão do coletivo projeto do povo. Já na história da universidade, aprendi com Clark Kerr, em seu “Os usos da universidade”, que essa instituição (“multiversidade’ em nossos dias) é obra, sim, de “gigantes”. Mas “gigantes”, aí, intérpretes a pacificar “as tribos de Israel em permanente conflito”, tanto no jogo da pluralidade interna como na tensão entre o acadêmico e o social.

 

    Tais lembranças me vêm a propósito da Medalha “João Otávio Lobo”, criada e concedida, a cada ano, pelo Poder Legislativo do Ceará, “ao educador ou instituição de maior projeção no Estado”. Na verdade, a alguém que, de alguma forma, enquadra-se no perfil de “intérprete do coletivo”, na esteira do que, em vida, pautou-se o patrono de tal comenda. De fato, João Otávio Lobo – médico, educador (na acepção escolar e na social), gestor público, político e produtor cultural – saído dos semi-áridos sertões de Santa Quitéria (Ce), dedicou-se, a vida inteira, a pensar as dores de nosso povo sofrido. Isso, como professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia, e da de Direito, da qual foi diretor (hoje a integrarem a UFC), deputado estadual e federal, gestor público e titular mais alto do Poder Executivo (interino) e do Legislativo, escritor e membro das Academias Cearenses de Letras e de Retórica.

 

    Esses, o espírito e a marca que a Assembléia Legislativa do Ceará tem, ao longo dos anos, divisado nos agraciados com a Medalha “João Otávio Lobo”: Prof. Godofredo de Castro Filho (1971), Profa. Nila Gomes Soárez (1995), Universidade de Fortaleza (1998), e a mim, Marcondes Rosa de Sousa, em quem explicitamente se enxergou “a vocação de compor, em acordes, as dissonâncias” (2003). E, agora, o Prof. José Teodoro Soares, por proposição do Dep. Artur Bruno (PT/Ce), já aprovada pelo Plenário da Casa, que, dessa forma, “homenageia todos os educadores do Estado do Ceará”.    

 

    Justa e oportuna, sem dúvida, a homenagem. O Prof. José Teodoro Soares carrega a sensibilidade e a abertura ao coletivo de que falamos. Educador e político, forjou-se na caldeira da “ação católica”. E do Projeto Rondon – vale dizer, acreditando na estrada em dupla-mão entre a universidade e a comunidade em seu entorno. Por onde passou, deu provas disso. Sobretudo, na instituição que se plantou e se fortaleceu nos vinhedos à margem do Acaraú, e que se expandiu não só pelo vale de todo esse rio, mas que terminou por desaguar em outros vales de nosso semi-árido e nos “verdes mares bravios”. E, em regime de cooperação, pelo Nordeste, a Amazônia e o Centro-oeste, hoje a nos espiar até, em Cabo Verde, do outro lado do Atlântico...

 

    Transpôs o ideal de universidade do Cardeal Newman, a comunidade de estudantes e mestres insulada por fossos, a cultuar o desinteressado saber. Ao contrário, abriu avenidas para a “troca de saberes” entre a instituição e seu entorno. Nisso, é verdade, ousou. Avançou na construção de solidários e novos caminhos, o estatal e a iniciativa social se dando as mãos, rumo a uma universidade permeada das necessidades e dores do povo. Nesse processo, o risco dos “ensaios e erros”, por certo. Das rupturas de paradigmas já segmentados. Da superação dos estratificados pudores pelos bosques de Academo.

 

    Mas atitudes assim são lícitas aos gigantes, que, como o Prof. José Teodoro Soares, ora agraciado com a Medalha “João Otávio Lobo”, recebem o aval conferido aos que se tornam signos da “coletiva vontade”, como queriam Fernão Lopes e Clark Kerr.

 

    Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Estadual do Ceará (UECe) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), membro do Conselho de Educação do Ceará, agraciado com a Medalha João Otávio Lobo (ano de 2003)

    

 

    

Fazer bonito (Marcondes Rosa)

10:27 @ 09/03/2006

 

Fazer bonito (Marcondes Rosa de Sousa)

 
 
 
 
 
A propósito da discussão do "desencontro, entre nós, da educação e da cultura", procurei o artigo abaixo "Fazer bonito". Pensei tê-lo perdido. Encontrei-o, na Web, publicado, no Jornal Folha Popular, de Palmas, em Tocantins, na data de hoje!...

 

 

''Perda de tempo'' - cheguei a pensar, lhes confesso!Jamais imaginei que história tão trivial me levaria a reflexão tão insistente sobre a formação dos ''profissionais, cidadãos e pessoas'', em nossas escolas.

Simples a tarefa, rezava o convite: compor júri, naquela final de semana (a do folclore), num concurso aberto a alunos da escola pública e particular, onde equipes deveriam construir mais arraias a serem postas no ar. Organizavam e dirigiam o evento, pessoas ligadas às áreas de ''educação'' e de ''arte e cultura''.

Ao longo da feitura das pipas pelas equipes, sentia eu a presença de ''duas culturas'' em oposição. A dos professores exigia aos alunos ''atenção'', ''silêncio'', ''seriedade'' e ''trabalho''.

A dos artistas, em contraponto, sugeria às equipes ''desconcentração'', ''cochicho entre os do grupo'', ''aprender com os outros", ''sorrisos'', ''brincadeira'', enfim. Hora da merenda. Silêncio, fila, cada um a receber seu quinhão - era a palavra-de-ordem de professora. Ao longo da fila, o sussurro dos artistas: sem atropelos, cada um, na mesa, pegando seu lanche. Final da manhã. Sob dourado sol a pino, os papagaios projetam-se rumo ao azul dos céus. Curioso, lá foram ficando, mais numerosos, os produzidos em clima lúdico e cooperativo, onde sensibilidade estética e intuição se deram as mãos.

Na hora dos prêmios, falei da moral desta história: técnica e saber vão melhor tendo por pilastras a solidariedade e o senso estético. Dias depois, em reunião nacional, falava eu dessa lição na construção das ''competências básicas'' hoje, em nossa educação. Aí, dei pela voz em eco de minha mãe, analfabeta quase. ''Serviço porco'', jamais! A ordem era ''fazer bonito''. Um ''bonito'' longe do ''fazer feio'', a irmanar o belo e o bem (o estético e o ético) na construção do trabalho e da vida, como em nosso imaginário popular.

Marcondes Rosa de Sousa - É professor

 

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: O desencontro, ente nós, de educação e cultura.
Data: Sat, 12 Jun 2004 22:02:25 -0300
“Como vocês aqui dizem o que, no Brasil, chamamos “grade curricular”?. Aí, alguém estranhou: “E, lá no Brasil, vocês prendem os alunos em grades?”

Minha Cara

Professora Mª. Manuela Reis Frade,

Nossa “lusitana de coração afro-brasileiro”,

Demais amiga(o)s,

 

 

Veja como são as coisas destes digitais “tempos globais”! Em não tinha conhecimento da nota que nos chegou do “sítio” de endereço: http://www.secult.ce.gov.br/Forum.asp.

 

Na verdade, participei desse “fórum”, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. E. numa dada mesa-redonda, coube-nos discorrer sobre a capacitação de quadros no campo da cultura e da arte. Mas o tópico alusivo ao que disse eu naquela ocasião, sobre ser lacônico demais, embaralhou-me palavras e idéias, numa confusa troca de “alhos por bugalhos”.

 

Naquela ocasião, falei das relações, em histórico desencontro, em nosso País, entre educação e cultura.  E de minhas tentativas, num campo e no outro, por restabelecer tais relações, que, em essência, se indisssociam.  E isso, desde que, por aqui, desembarcaram os jesuítas, que, em nome “Daqueles reis que foram dilatando/A Fé, o Imperio, e as terras viciosas/De África e de Ásia andaram devastando”, no dizer de Camões, em os Lusíadas, onde (parece) a expressão “e de América” não encontrou espaço na métrica do verso...

 

Os jesuítas viam o mundo de cima para baixo, num raciocínio hipotético-dedutivo. E essa marca deixaram em nossa educação.  A cultura e a arte, ao invés, brotam do chão, do real, que, fenomenogicamente, constrói modelos, num raciocínio intuitivo e indutivo.  E essas duas formas de “ler” e de “construir” a realidade nem sempre, entre nós, se têm casado.

 

No evento da Secretaria de Cultura, falei das conseqüência desse choque de visão entre os nossos educadores e gestores em relação à capacitação de artistas e de pessoas ligadas à cultura. Citei-lhes confissão da Profa. Guiomar Nammo de Melo, então do Conselho Nacional de Educação. Falava ela, aos argentinos, da educação brasileira. Lá pelas tantas, que dificuldades com o espanhol e indagou: “Como vocês aqui dizem o que, no Brasil, chamamos “grade curricular”?. Aí, alguém estranhou: “E, lá no Brasil, vocês prendem os alunos em grades?” Contei-lhes também a reação de meu filho mais novo, músico, e de seus colegas de banda, todos havendo abandonado cursos de música, sobre a necessidade de “escolarizar” e “curricularizar” os estudos de arte hoje à margem da escola, nos diferentes níveis.  Aí, a reação em uníssono: “Não faça isso. Escolarizou, esculhambou!” (Do Aurélio, Séc. XXI – Bras. chulo. Estragar.)

 

‘         No evento, falei da visão nossa em possível conciliação. O entendimento das leis e diretrizes como induções partidas do chão, da plural vontade popular. As leis enfim como “contrato social” e hipóteses-de-trabalho, realimentadas pela experiência da prática.

 

          Então presidente do Conselho de Educação do Ceará, elaborava assim as diretrizes. No caso da educação dos índios, tudo partia literalmente do chão: currículos, escolas (até a arquitetura escolar), cultural. Nada, de cima para baixo.

 

          No evento, os artistas concordaram comigo. Houve um compositor musical que citou, em abono às minhas idéias, versos de baião cantado pela cantora Gal Costa: “De onde vem o baião?/Vem do barro, debaixo do chão”.

 

          Nada, porém, de posições extremadas. Educação e cultura constituem um binômio desde a Grécia a habitar numa mesma morada: a “paidéia” (a formação do povo grego). Entre os dois, uma simbiose. A cultura é substrato da educação. A educação meio para preservá-la e dinamizá-la. Pessoalmente, sempre acreditei nesse binômio. E não é a toa que este grupo se denomina Ethos-Paidéia.  O “Ethos”, a convivência e inclusão social como fim da caminhada em abraço da cultura e da educação, a paidéia.

 

          Comungo, pois, minha prezada professora, de seu pensamento.  No que tange ao “monólogo coletivo”, foi outra interpretação enviesada de quem tentou resumir minhas palavras. Falei-lhe de diretrizes, parâmetros e leis a se moldar no contrato social (o de Rousseau). Mas o “contrato social” não poderia se resumir ao “monólogo coletivo” (o de Piaget, aplicável ao aparente diálogo infante). Referia-me eu ao atual momento da sociedade brasileira: cada um, cada grupo, a se olhar no umbigo, isto confundido-se com o social! Monólogo coletivo a invadir as áreas todas, aí incluídas as da cultura e da educação... Estágio infante de nossa sociedade. Monólogo logo a se moldar em diálogo, a fundamentar o “contrato social”.

 

Concordo, pois, com você, Ma. Emanuela. E, pelo que já vi em outra mensagem sua, aqui, de alguma forma, herdamos o “cartorialismo” a nós legado pelos que aqui nos plantaram “a Fé e o Império”.

 

Cordial abraço,

Marcondes Rosa de Sousa

 

Vôos sobre Iracema

10:57 @ 09/03/2006

'
 
 
'Partilhei dos sonhos dos que, aqui, tentavam plantar o Portal do Turismo Nacional, fazendo, do sol e da diversificada paisagem (natural e cultural), indústria a distribuir, com nossa gente, trabalho, renda e dignidade. Mas, se 'habitado por gringos e prostitutas', será esse, um triste portal, de danosos efeitos colaterais''.

ARTIGO
Vôos sobre Iracema

Marcondes Rosa de Sousa
Professor

Fonte: O Povo

[09 Junho 04h36min 2004]


Início do ano. Aqui, sob o título ''Iracema, o postal'', registramos, de filhos, genro e de seus amigos em férias, o retrato de uma Praia de Iracema ''decadência de gringos e prostitutas'', infeliz sinédoque de um distorcido ''turismo''(?), a nos envergonhar as ''iracemas''' em míope visão esquecida de nossos relevos maiores. E o pessoal lamento: ''Partilhei dos sonhos dos que, aqui, tentavam plantar o Portal do Turismo Nacional, fazendo, do sol e da diversificada paisagem (natural e cultural), indústria a distribuir, com nossa gente, trabalho, renda e dignidade. Mas, se 'habitado por gringos e prostitutas', será esse, um triste portal, de danosos efeitos colaterais''.

Tempos depois, a satisfação da Ouvidoria do Governo Estadual dando conta ao cidadão de que ''Projeto de Requalificação da Praia de Iracema'' iniciava-se, tentando resgatar tal espaço como ''atrativo turístico'' a gerar ''emprego e renda'' à nossa população. E isso pela via de ações ditas ''estruturantes'', de ''ordenamento e repressão'' e de ''animação cultural''. Agora, num sinal disso, o estampar da matéria ''Vôo suspeito de turismo sexual suspenso no Ceará'', domingo último em O POVO, a reportar-se ao italiano e masculino despejo por sobre nossas iracemas mais frágeis. Razão do ato, ''qualificar o nosso turismo e impedir ao máximo que cheguem à cidade grupos com a intenção do turismo sexual e, principalmente, da exploração sexual de menores'' - explica Fernando Albuquerque, da Secretaria de Turismo do Estado. A matéria, envio-a pela Web em cadeia: ''Um começo, para que Iracema possa voltar a postal, ícone de um novo portal, em nosso turismo! Espalhem! Por Oropa, França e Bahia!'

De muitos, o sentimento de aplauso, como o de Saulo César Silva, professor universitário em São Paulo: ''Já é um ótimo começo! Mas é preciso 'caçar' os exploradores espalhados pelo Brasil!''


Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e membro da diretoria do Instituto Teotônio Vilella - CE

 

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: Humor ou preocupação?
Data: Thu, 3 Jun 2004 00:08:28 -0300
Qm meio a tantos vales, eis o que um aluno disse do ... "Vale do Paraíba"!

Da Alemanha, Darci Weihs, darci.weihs@t-online.de, cearense (amiga de infância minha), ora a presidir o Círculo Brasileiro de Colônia, e que, nessa condição, organiza, em Colônia, o maior carnaval brasileiro na Alemanha, destaca, do Portal PONTOCRITICO, que recebo regularmente por indicação dela, pcritico@via.rs.net, de 01.06.04, o tópico abaixo, dizendo ter-se ela lembrado de mim, professor, ao tempo em que, à mensagem, dá o título de “Ensino no Brasil”:

 

SÍNTESE – Recebi esta pérola, de um leitor também muito indignado com o ensino no Brasil: Na prova final, em 2002, do Colégio Objetivo, um aluno do último ano deu a brilhante resposta para a seguinte questão: “Faça uma análise sobre a importância do Vale do Paraíba”. Vejam só: “O Vale do Paraíba é de suma importância, pois não podemos discriminar esses importantes cidadãos. Já que existem o vale-transporte e o vale do idoso, por que não existir também o Vale do Paraíba?!!! Além disso, sabemos que os paraíbas, de um modo geral, trabalham em obras ou portarias de edifícios e ganham pouco. Então, o dinheiro que entra no meio do mês – que é o vale – é muito importante para ele equilibrar sua economia familiar”. Que tal?

Revirando baús

13:32 @ 09/03/2006

 

Revirando baús
Marcondes Rosa de Sousa

Fonte: Jornal O Povo

[21 Julho 03h04min 2004]


''Doutores que mal sabem escrever!'. Pedras contra a educação atingem-nos a superior. E, de volta, velho remédio cheirando aos baús dos tempos dos militares: o ciclo básico.

Tal filme, já vi. Nele, fui ator, em suas duas versões na UFC: mais ampla, de início, a todos os cursos; restrita por áreas, depois. Razão do fracasso, ambíguo objetivo: embasar a formação acadêmica e recuperar deficiências da escola pregressa. Disso, um dia, de alunas, pista ouvi: ''Pobres professores! Falam-nos de coisas inúteis e abstratas''. Pesquisa depois nos revelaria. Paupérrima, a bagagem de leitura que traziam os alunos. E, de quebra, pouca capacidade de abstração. Um ''raciocínio concreto'', como se crianças. Hoje, em sala de aula, ecoam tais queixas: ''Não conseguimos alcançar vocês, os professores''.

 

O tom agora, em vez de pena, é de crítica à nossa insensibilidade, como se inábeis. De mim, indago-me: Estou velho? Dráulio Araújo, o genro (jovem pós-doutor e pesquisador em física médica), conforta-me. E me dá conta de que, na Universidade de São Paulo, onde ensina, o quadro é análogo - na graduação e na pós-graduação. ''A culpa'', diz ele, ''é dessa ânsia de todos buscando chegar à universidade. Se possível, a seus últimos graus, o atropelo a confundir-se com 'educação continuada'. No mundo desenvolvido não é assim. Cumprida a educação básica e a profissional, o emprego e a vida se abrem para as pessoas. Sem isso, tudo perde qualidade e sentido''.

Cláudio de Moura Castro diz isso em artigo recente na revista Veja: ''A prioridade nacional é melhorar a escola básica. O que importa é evitar erros do passado''.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), da diretoria do Instituto Teotônio Vilella-CE (escreve quinzenalmente)

 

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Para o reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca), André Herzog, a palavra da hora é reconciliação. Da Igreja com padre Cícero Romão Batista. Da Urca com a região e com as questões de Juazeiro do Norte. ''Interpretar o fenômeno histórico-religioso e social do padre, em seus diferentes contextos'', acrescenta.

SIMPÓSIO
Padre Cícero sob a ótica da academia

Em boa hora. Afinal, Juazeiro do Norte celebra duas datas fechadas: os 70 anos de morte e os 160 anos de nascimento de padre Cícero. Em meio às comemorações, o III Simpósio Internacional sobre Padre Cícero de amanhã a 22 de julho, traz um olhar científico sobre o tema. Serão quatro dias de debates, shows musicais e exposições. O reitor da Urca, André Herzog, diz que o momento é de reconciliação

Ariadne Araújo
da Redação

Fonte: O Povo

[17 Julho 03h10min 2004]


Homem, nordestino, religioso, místico, nacionalista, empreendedor, conselheiro, político, coronel. O patriarca de Juazeiro do Norte sob vários olhares. A partir de amanhã, no Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, o III Simpósio Internacional sobre Padre Cícero fará uma viagem cronológica pela vida do personagem que chegou à região no final do século XIX, simples sacerdote recém-ordenado, e na década de 30 do século XX já era um dos mais influentes homens de sua época. A idéia é, por ocasião das comemorações dos 70 anos de morte e 160 de nascimento, fazer uma celebração que reúna a academia à cultura popular.

Para o reitor da Universidade Regional do Cariri (Urca), André Herzog, a palavra da hora é reconciliação. Da Igreja com padre Cícero Romão Batista. Da Urca com a região e com as questões de Juazeiro do Norte. ''Interpretar o fenômeno histórico-religioso e social do padre, em seus diferentes contextos'', acrescenta. Segundo ele, serão dias temáticos: do cenário social e político da época, passando pelo milagre, às peregrinações, até a morte do patriarca do Juazeiro do Norte. ''Desaguando no contemporâneo e no futuro'', conclui.

Uma parceria da Diocese do Crato e Urca, o evento é uma terceira versão para uma proposta lançada em 1988, com o I Simpósio Internacional sobre Padre Cícero e os Romeiros de Juazeiro do Norte e reeditada no ano seguinte, 1989, com o nome de II Simpósio sobre Padre Cícero e a Beata Maria de Araújo - Um Contexto Histórico. Para o idealizador, o ex-reitor da Urca Teodoro Soares, o caso era discutir a diversidade cultural e a religiosidade popular sob um viés científico. ''Inéditos, porque romperam um discurso muito afeito à teologia, trazendo as ciências sociais para dar suporte à compreensão do fenômeno padre Cícero e a religiosidade popular'', explica André Herzog.

Quinze anos depois, o III Simpósio amplia o debate. Uma das estrelas do evento, o pesquisador Ralph Della Cava - título da palestra é A procura de um milagre em Joaseiro -, vai ser um dos cinco agraciados com o título de Professor Honoris Causa da Urca. Além dele, o botânico Afrânio Fernandes, o historiador Napoleão Tavares Neves, o bispo do Crato, dom
Fernando Panico
e o governador do Estado Lúcio Alcântara. A abertura do III Simpósio e a aula magna de Della Cava serão exibidas em telão, na praça da Igreja do Perpétuo Socorro (onde está enterrado padre Cícero).

No prédio do Sebrae, paralelo aos debates acadêmicos realizados do Memorial Padre Cícero, mas como parte do evento, acontecerá uma exposição com produtos produzidos na região. Artesanatos inspirados pela presença do padre Cícero em Juazeiro. Além disso, no dia que antecede as comemorações da morte do patriarca, um show de mais de 10 artistas do Cariri. Também lançamento de livros e mostras de fotografias. A exemplo dos dois outros simpósios anteriores, será produzido, ao final, um documento síntese dos debates nos quatro dias. ''Será uma grande celebração'', conclui o reitor André Herzog.


 

 

 


 

Como dizem as mocinhas de nosso telemarketing, eu vou estar passando o texto abaixo para que vocês possam estar lendo a questão do gerundismo. Depois, para que possam estar discutindo essa questão que, oportunamente, vão estar sendo discutidas por todos nós.


 

Fugindo e, ao mesmo tempo, insistindo de outra forma na temática do “estrangeirismo”, uma recordação de discussão de outrora, quando da Lista de Discussão “Desafios Educacionais”.

 

De início, o Prof. Artur Rei, do Rio, lembra-se, em agosto de 2003, de discussão sobre o “gerundismo” entre nós, a propósito de discussão, em sala de aula, com o Prof. Evanildo Bechara. E me pede procurar “Manifesto anti-gerundista” lançado nessa Lista, que, encontrado, de anos anteriores, é remetido, para discussão com os alunos do Prof. Evanildo Bechara.

 

Recordemos e voltemos à discussão.

 

_____________________

 

 

De: Marcondes Rosa de Sousa [marcondes@secrel.com.br]
Enviado em: quinta-feira, 21 de agosto de 2003 18:33
Para: Tema_Educ-L
Assunto: Texto 2057 - "Gerundismo"

 

 

Ontem, na aula do doutorado com o Prof. Bechara, falávamos sobre o dequeísmo e suas relações e influências com o espanhol, e, então, a conversa descambou para o lado da influência de outras línguas no Português, até que se chegou ao caso do gerundismo, se era uma cópia da língua inglesa ou não.

 


LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais”

Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (www.cec.ce.gov.br)

Texto 2057 – “Gerundismo”

 

 

            Do Rio, escreve-nos o Prof. Artur Rei, arturrei@uol.com.br.  Como o assunto envolve questão mais ampla, divulgo o que, à primeira vista, poderia ser uma carta particular.

 

          Na verdade, dou-me conta de que a questão do “gerundismo” foi, nesta Lista, aqui e ali, tocado.  Parece-me, porém, que o Texto 954, ao final “colado”, responde ao pedido de Artur Rei. Eis, a seguir, a mensagem de Artur e, logo após, o texto da Profª Juraci Carreon Beraldi:

 

***

 

          Caro Prof. Marcondes,

 

          Como vai O Sr.? Td tranqüilo? Espero que esteja mais folgado, agora não acumula mais o cargo no CEE.

 

          Prof., o objetivo deste e-mail é fazer-lhe um pedido. Ontem, na aula do doutorado com o Prof. Bechara, falávamos sobre o dequeísmo e suas relações e influências com o espanhol, e, então, a conversa descambou para o lado da influência de outras línguas no Português, até que se chegou ao caso do gerundismo, se era uma cópia da língua inglesa ou não.

 

          Há, hodiernamente, nos serviços de telemarketing, a cristalizada expressão vou estar entrando ou vou estar informando ou vou estar confirmando etc. e chegou-se à conclusão de que esse tipo de expressão foi uma tradução ipsis litteris dos modelos de telemarketing americano.

 

          Recordei-me, de imediato, de uma discussão sobre o caso do gerundismo em Português e de uma prof.ª da lista que escreveu um longo texto sobre o assunto. Já revirei a sua pasta atrás dele e não consigo localizá-lo. Aí vem, então, o pedido: o Sr. poderia me reenviar esse texto da lista para que eu o repasse para o Prof. Bechara e, assim, acirrar mais ainda a boa discussão sobre a temática?

 

          Desde já agradeço sua atenção.

          Um forte abraço

          Artur 

 

 

 

LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais”

Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (www.cec.ce.gov.br)

Texto 954 – “Manifesto contra o gerundismo”

 

 A Profª Juraci Carreon Beraldi, beraldi@bestway.com.br, escreve-nos:

 

 

Caro Prof. Marcondes

 

Recebi este manifesto e tomo a liberdade de enviá-lo na íntegra, para sua apreciação.

 

Se achar conveniente, fique a vontade para submetê-lo à  apreciação dos colegas da lista.

 

Forte abraço

 

Profª Juraci Carreon Beraldi

beraldi@bestway.com.br

 

 

"Manifesto anti-gerundista"

 

Para você estar passando adiante.

 

Este artigo foi feito especialmente para que você possa estar recortando e possa estar deixando discretamente sobre a mesa de alguém que não consiga estar falando sem estar espalhando essa praga terrível da comunicação moderna, o  gerundismo.

 

Você pode também estar passando por fax, estar mandando pelo correio ou estar enviando pela Internet. O importante  é estar garantindo que a pessoa em questão vá estar recebendo esta mensagem, de modo que ela possa estar lendo e,  quem sabe, consiga até mesmo estar se dando conta da maneira como tudo o que ela costuma estar falando deve estar  soando nos ouvidos de quem precisa estar escutando.

 

Sinta-se livre para estar fazendo tantas cópias quantas você vá estar achando necessárias, de modo a estar atingindo o  maior número de pessoas infectadas por esta epidemia de transmissão oral.

 

Mais do que estar repreendendo ou estar caçoando, o objetivo deste movimento é estar fazendo com que esteja caindo a ficha das pessoas que costumam estar falando desse jeito sem estar percebendo.

 

Nós temos que estar nos unindo para estar mostrando a nossos interlocutores que, sim, pode estar existindo uma maneira de estar aprendendo a estar parando de estar falando desse jeito.

 

Até porque, caso contrário, todos nós vamos estar sendo obrigados a estar emigrando para algum lugar onde não vão estar  nos obrigando a estar ouvindo frases assim o dia inteirinho.

 

Sinceramente: nossa paciência está estando a ponto de estar estourando. O próximo "Eu vou estar transferindo a sua ligação"  que eu vá estar ouvindo pode estar provocando alguma reação violenta da minha parte. Eu não vou estar me  responsabilizando pelos meus atos.

 

As pessoas precisam estar entendendo a maneira como esse vício maldito conseguiu estar entrando na linguagem do  dia-a-dia.

 

Tudo começou a estar acontecendo quando alguém precisou estar traduzindo manuais de atendimento por telemarketing.

 

Daí a estar pensando que "We'll be sending it tomorrow" possa estar tendo o mesmo significado que "Nós vamos estar mandando isso amanhã" acabou por estar sendo só um passo.

 

Pouco a pouco a coisa deixou de estar acontecendo apenas no âmbito dos atendentes de telemarketing para estar ganhando  os escritórios. Todo mundo passou a estar marcando reuniões, a estar considerando pedidos e a estar retornando ligações.

 

A gravidade da situação só começou a estar se evidenciando quando o diálogo mais coloquial demonstrou estar sendo  invadido inapelavelmente pelo gerundismo.

 

A primeira pessoa que inventou de estar falando "Eu vou tá pensando no seu caso" sem querer acabou por estar  escancarando uma porta para essa infelicidade lingüística estar se instalando nas ruas e estar entrando em nossas vidas.

 

Você certamente já deve ter estado estando a estar ouvindo coisas como "O que cê vai tá fazendo domingo?", ou "Quando  que cê vai tá viajando pra praia?", ou "Me espera, que eu vou tá te ligando assim que eu chegar em casa".

 

Deus. O que a gente pode tá fazendo pra que as pessoas tejam entendendo que esse negócio pode tá provocando no cérebro das novas gerações?

 

A única solução vai estar sendo submeter o gerundismo à mesma campanha de desmoralização à qual precisaram estar  sendo expostos seus coleguinhas contagiosos, como o "a nível de", o "enquanto", o "pra se ter uma idéia" e outros menos  votados.

 

A nível de linguagem, enquanto pessoa, o que você acha de tá insistindo em tá falando desse jeito?"

 

 

(Recebido de um funcionário da empresa Siemens)

 

 

 

 

 

 

 

 
Eduardo Diatahy B. de Menezes
 
“Não se preocupe com isso, não. As escolas e os professores são as instituições e os profissionais da tradição: sempre chegam depois (..). Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...” Prof. Eduardo Diatahu Bezerra de Menezes (UFC, UECe e do CEC)

 

A propósito da mensagem “Ideologias no ensino do português” (em 4 partes), escreve-me o Prof. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes:

 

Marcondes:

 

Li este seu texto via remessa de Circe, na lista de Literatura. Aí você faz referência a mim, segundo você, tendo afirmado que os professores somos «produtores do atraso». É possível que eu tenha dito isso. Sinceramente, porém, não recordo. Mas lembro que costumo afirmar e continuo a pensar que os professores em geral constituem os profissionais da tradição

 

Tem, em parte, razão o Professor Diatahy.  A afirmação consta do Texto 12 da Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, frase final de artigo meu na imprensa cearense. A frase de Diatahy deu-se a propósito da discussão sobre o ensino de língua estrangeira em nossas escolas, até então nada produtivo em contraste com a aprendizagem em cursos e situações fora da escola. Quando eu escrevia o artigo, chegou-me, pela madrugada a frase de Diatahy.

 

A rigor, diz ela:

 

 “Não se preocupe com isso, não.  As escolas e os professores são as instituições e os pro­fis­sionais da tradição: sempre chegam depois (..).  Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...”

 

A expressão a intitular artigo meu é retirada da expressão “produzindo o atraso”, do Prof. Eduardo Diatahy...

 

O e-mail que, à época, chegou-me de madrugada, em dezembro de 1999 (no milênio passado!) – a geração “tipo assim” aqui aporia um pequeno ícone a sorrir ou entre parênteses “rsrs” – mas não consegui encontrá-lo, diante de tantos up grades em meus computadores e, com eles, dos HDs que, em muitos se foram.

 

Abaixo, o artigo meu, então Presidente do Conselho de Educação do Ceará:

 

 

PRODUTORES DO ATRASO...

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Presidente do Conselho de Educação do Ceará

 

 

Ah! Acertar o passo de nossas escolas com o ritmo dos tempos de agora!  Coisa não fácil.  Aí, acode-nos a fórmula eufórica de Ar­quimedes: “Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu erguerei o mundo”.  Eureka! Dêem-nos um computador (a alavanca) e uma simples linha telefônica (o ponto de apoio), e aí estaremos em pleno mundo global do conhecimento!  Mas, de início, dá-los a quem?  Ao professor, de certo, nos diria a Conselheira Guiomar Nammo de Melo (do CNE), fiel seguidora dos ensinamentos da Infraero, que, nas tur­bulências dos vôos, manda-nos apor máscaras a cair da cabine, pri­meiro em nós adultos e só depois nas crianças ao lado.

 

Este, o fundamento dos programas de auxílio ao professor na aquisição dos computadores. Mas qual o efeito dessas “máscaras” so­bre o rosto de nossos docentes, até agora?  Alguns emblemáticos flagrantes, que temos colhido: Há quem esteja à espera de um curso jamais freqüentado, os equipamentos ainda empacotados. Quem os tenha entregado às crianças como solitários brinquedos. Dedicadas esposas que os tenha deixado com os maridos, para “bater” seus trabalhos.  E usos outros até bem mais adequados, que vão do desenho à produção grá­fica, além dos oportunos arquivos. Mas convenhamos: reduzir o computa­dor à sádica função de “bater ... os trabalhos” é, para quem o usa e o financia, desperdício e luxo, no mínimo. Além disso, é não perceber que a troca semântica do “bater” pelo “digitar” sinaliza uma mudança cultural, em cujo clima o computa­dor con­verte-se em di­gital “alavanca” que, apoiada pelo telefone, abre-nos as portas para a mais bem achada comunicação e educação a distância de nossos dias. Disso, pouco nos damos conta: os dirigentes educacio­nais, as escolas e os professores, alguns até ousados no plano retórico mas inábeis no operacional.

 

Por isso, às vezes, a fadiga nos chega a abater a euforia do velho Arqui­medes.  E, nesse clima, até que nos é um alívio a experiente tran­quili­dade do sociólogo Eduardo Diatahy  Bezerra de Menezes, do Con­selho de Educação do Ceará, que, com fina ironia, nos chega, pela ma­dru­gada, em silencioso “correio eletrônico”: “Não se preocupe com isso, não.  As escolas e os professores são as instituições e os pro­fis­sionais da tradição: sempre chegam depois (..).  Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...”

 

 

 

 

 

 

Proteção e Defesa da língua

17:25 @ 10/03/2006

 
 
Paulo Henrique Oliveira
 
 
PROTEÇÃO E DEFESA DA LÍNGUA
 
"Creio, apesar de tudo, que a feliz intenção do Deputado, há que ser salva, ajudada até. Assim, o mero protesto não é a recomendada via. Por que não os estudiosos da língua assessorarem o parlamentar com vistas a um projeto mais bem orientado? Um projeto de valorização da língua portuguesa - viva, dinâmica, aberta, terceiro idioma falado no Globo, “ícone” de um povo cabeça erguida, a navegar em uma nova cultura, a da “extroversão e do presente”, disposto ao diálogo nos anos 2.000." (Marcondes Rosa de Sousa)

     

  

        Por coincidência, quase aniversário. O “Texto 48” abaixo, recuperado da Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, data de 1º de julho de 2001. Para mim, foi quando tudo começou. Pelo menos, no que toca à questão da “Proteção e defesa da Língua”, por intermédio de projeto de lei em curso em nosso Parlamento Nacional.

 

        Não gostaria de fazer comentários. Apenas de propor um “olhar em retrospecto”, com vistas à releitura nossa hoje, sobre a questão.

 

        Na carta da Profa. Inês Signorini, da Unicamp, me chamariam a atenção hoje os matizes emocionais de alguns termos, que, por economia, os tingirei de amarelo (espero que, no trânsito até vocês, alguns provedores não lhes apague as marcas).  E, em minhas palavras, o tom de possível e desejável conjugação entre os contrários (o que a mim se trem atribuído como “a orquestrar acordes em dissonâncias”, em um projeto mais maduro, sensato e exeqüível.

 

        Não tiraria hoje, do que escrevi, nenhuma palavra. Ao contrário, a eles, aporia, como síntese final, a que nos fez o Prof. Adail Sobral, tentando compor “antropofagias”, provocadas por Paulo Henrique Paulo Henrique M. de Oliveira - ADV [paulohenrique@adv.oabsp.org.br], que proporia se tornasse o causídico da boa questão, eleito por nós todos, com a mediação a ter por parceiro o estudioso de nossas questões lingüísticas, Adail Sobral.  Entre nós todos, falantes de nossa língua (e em sua defesa interessados), de um lado, e os dela estudiosos.

 

        E que tudo se deságüe num projeto.  Se, de lei, que tenha o alcance maior de repercutir em nossa cultura, em nossa política, de efeito sensato e eficaz, em nossa vida social, econômica e cultural.

 

        Solidário abraço,

        Prof. Marcondes Rosa de Sousa

        Moderador do Grupo Ethos Paidéia

 

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LISTA DE DISCUSSÃO

“Desafios Educacionais

“Coordenação: Conselho de Educação do Ceará (http://www.cec.ce.gov.br)

Texto 48 – Proteção e defesa da Língua

 

 

A Profa. Maria Elias Soares, Diretora do Centro de Humanidades da UFC (melias@ufc.br) enviou-nos, encaminhada pela Profa. Inês Signorini, da UNICAMP, signor@iel.unicamp.br, mensagem a ela chegada de autoria do Prof. Marcos Bagno, mbanho@zip.net, sobre Projeto em trâmite na Câmara dos Deputados, do Dep.Aldo Rebelo, rebelo@solar.com.br,   dispondo sobre “promoção, proteção, defesa e uso da língua portuguesa”.

 

Eis a mensagem de início:

 

Caros amigos,

 

    Acabei de descobrir, no site da Câmara dos Deputados, que o deputado federal Aldo Rebelo, do PC do B, submeteu ao Congresso Nacional um projeto de lei que "dispõe da promoção, proteção, defesa e uso da língua portuguesa". Fui ler o texto do projeto (..) e, como era previsível, está repleto da velha doutrina gramatiqueira, apelando inclusive à "autoridade" de Napoleão Mendes de Almeida e da Academia Brasileira de Letras.

 

Como não sou ninguém, em termos de titulação etc.,  gostaria de pedir a vocês que tentassem organizar algum movimento contra essa baboseira, para fazer valer a voz dos lingüistas nesta questão. Em meu nome pessoal, escrevi uma carta ao deputado, enviando junto com ela um exemplar do meu livro "Preconceito lingüístico: o que é, como se faz" e apresentando as razões por que discordo do conteúdo do projeto de lei.

 

Envio-lhes também (..) o texto dessa carta para já irmos montando um dossiê. Peço sobretudo ao Prof. Ataliba de Castilho, na sua qualidade (entre tantas outras!) de presidente da ALFAL, que tente encontrar uma maneira de levarmos adiante este movimento.

 

O endereço do deputado Aldo Rebelo em Brasília é:

 

Câmara dos Deputados

Anexo IV, gabinete 924

CEP 701690-900, Brasília DF

 

Em São Paulo:

 

Rua Augusta, 2327

1o. andar, conj. 13,

CEP 01413-000.

e-mail: rebelo@solar.com.br

 

Obs.: O texto do projeto também se encontra

no site do Congresso Nacional.

 

Sei que posso contar desde já com a colaboração e o empenho de todos vocês.”

 

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Nota da Coordenação:

O texto da carta a que se refere o autor não está aqui anexado.

 

 

 

            Sobre o assunto,  Marcondes Rosa de Sousa, docente de Língua Portuguesa da UFC (aposentado) e da UECe, marcondes@secrel.com.br,  tece as seguintes considerações:

 

“Li o Projeto de Lei do Dep. Aldo Rebelo.  E louvo-lhe a intenção, não compatível  esta , entretanto, com os termos em que está vazada a proposta.

 

Concordo! É imperioso e urgente defender nossa cultura, aí incluída a língua nacional como traço e cimento fundamentais de nossa própria identidade.  Há, porém, de se reconhecer que a visão imanente ao Projeto é estática, ingênua e fechada:  a cultura e a língua como intocadas redomas ante os sopros dos ventos emanados do tempo e do espaço a seu redor...

 

Na verdade, a língua, para os que lidamos com ela e a estudamos, é ente permeável às diacronias e às mutações constantes a resultar do relacionamento entre as gentes: a dos grupos, dos diversificados “brasis”, do mundo lusófono, dos povos do Planeta, enfim. O olhar do Projeto, porém, não leva isso em consideração.  Fecha-se, cristalizado no tempo.  Insiste na suicida “cultura da introversão”, que, em nosso itinerário histórico, fez-nos, segundo Jorge Amado, “dar as costas para os irmãos latino-americanos, associando-nos a Portugal, que, por sua vez deu as costas para a Europa” e para o mundo. Em tempos de “globalização” e de Mercosul, não há que se reeditar o “Tratado de Tordesilhas”.  No fundo, a radicalidade do Projeto aponta nessa direção.

 

Guarda ele, por outro lado, um certo ar de ingenuidade, a querer com disciplinamento legal e “multas” como      as do trânsito, pautar um organismo vivo e dinâmico como é a língua.  Além disso, vale-se da nostalgia como ferramenta, trazendo de volta um certo “udenismo”, ao apostar, no esforço de valorizar nossa língua, pela ação dos velhos “Catões” da “moralidade gramatical”...

 

Creio, apesar de tudo, que a feliz intenção do Deputado, há que ser salva, ajudada até. Assim, o mero protesto não é a recomendada via.  Por que não os estudiosos da língua assessorarem o parlamentar com vistas a  um projeto mais bem orientado? Um projeto de valorização da língua portuguesa -  viva, dinâmica, aberta, terceiro idioma falado no Globo, “ícone” de um povo cabeça erguida, a navegar em uma nova cultura, a da “extroversão e do presente”, disposto ao diálogo nos anos 2.000.  Uma língua oficial reconciliada com a vida:  não um conjunto de atropelantes “normas do trânsito”, sinalizando,  com “lombadas” e o “vermelho”, os caminhos da vida, como queriam, no passado, os gramáticos.

 

Aí, pois,  minha proposta:  retirar o Projeto e o Deputado, da “UDN Gramatical”, abrindo-lhes itinerários sensatos e de maior equilíbrio, como quer a vida de hoje.  Tempos plurais em que se requer salutar convivência, respeitando-se a identidade e a dignidade: dos grupos (os coletivos menores), de nossos “brasis” (coletivos mais amplos) e dos “coletivos maiores” (a Nação, a Comunidade Lusófona, o respeito e o diálogo entre os povos!”

 

 

 

 

 

 

 

 

FOLHA DE SÃO PAULO

SÃO PAULO, 05 DE MARÇO DE 2006

 

Thiago de Mello

OS SERES ENCANTADOS DE ALDEMIR MARTINS

Na floresta amanhecida
ouço pisadas macias,
vagarosas, na varanda
afagada pela brisa
que embala a renda da rede.
São do galo altivo e rubro,
olhar adunco, esporões
agudos, contudo meigos,
que desceu lá do meu quadro
para me avisar cantando,
num timbre triste cantando
que o atelier ficou vazio
do seu mágico inventor
e no cavalete a tela
está uma brancura só.


Thiago de Mello é poeta, autor de "Amazônia - Menina dos Olhos do Mundo", "Faz Escuro Mas Eu Canto" (ambos pela Bertrand) e "Amazonas -No Coração Encantado da Floresta" (Cosacnaify), entre outros.

 

 

 

Morte aos professores - 01/06/2005

Por Wilson Souza

Por: Wilson de Oliveira Souza


Talvez a frase seja um tanto radical. Mas no momento em que todos buscam alternativas para a melhoria da educação, somente com propostas diferenciadas é possível chamar a atenção para o grave problema que se verifica, principalmente, em salas de aula. Enquanto muitos estudiosos gastam toneladas de papéis procurando medidas, conceitos e definições de como enfrentar a equação no ensino, medidas simples, porém necessárias, podem alterar o status quo numa situação de aprendizagem. A primeira medida é acabar com os professores.

Bem, ao contrário do que possa parecer, não se propõe assassinato em massa de docentes, mas sim de proporcionar, nas escolas, uma nova relação entre o educador e educando. Primeiramente que busque na raiz da palavra o significado emocional de professor. Este ser, como a própria nomenclatura expressa, é aquele que professa. E quem professa, é profeta. E, como tal, é o dono do futuro e da verdade. E é esse profissional que ainda predomina nas escolas, do pré-escolar aos cursos de pós-graduação. E tudo conspira para a perpetuação da maléfica figura do professor. Seu habitat é um espaço, geralmente quadrado - também chamado de sala de aula - onde se encontra uma disposição cênica do mobiliário como fosse um grupo de militares em formação de ordem unida. Carteiras e cadeiras estão dispostas uma atrás da outra, em fileiras, onde os alunos têm o contato com o seu colega da frente por intermédio da nuca. Algumas escolas reforçam o ambiente autoritário colocando um tablado para que o professor fique mais proeminente. Não é difícil encontrar locais que também possuem uma cerca separando alunos e professor. É o anticonvívio social. A morte da interpessoalidade.


Esse sistema de disposição do mobiliário é, ao mesmo tempo, uma forma de controle por parte do professor e reproduz aquilo que ele representa: a autoridade e poder. E ele parece se extasiar com isso, já que muitos poucos alteram a distribuição das cadeiras, mesmo sabendo que o professor pode compor sua sala como melhor aprouver. Mas o que vemos hoje é o status de poder autoritário reinando entre muitos educadores na relação com os educandos. Alguns até fazem questão de manter a classe sob silêncio sepulcral, mediante broncas e atitudes recriminatórias, visando preservar a autoridade. É até comum encontrar professor que expulsa os alunos mais inquietos da sala, com o objetivo de manter o controle sobre o resto da tropa. Isso ocorre porque quem está na situação de educador é um professor, e não um estimulador de aprendizagem. É este que deve ocupar o lugar de destaque na relação educando-educador.

Na atual situação da educação, onde ainda prevalece a figura do professor, há uma tarefa específica: ele ensina. Ao se destrinchar o significado emocional desta palavra, pode-se dividi-la em duas, a princípio: "en" e "sina". O termo "en" tem o mesmo som de "em", que, dentre os vários significados, pode-se compreender como "em estado de", da mesma forma que, ao se referir a um doente em estado de coma, podemos dizer que "o doente está em coma". Já a palavra "sina" também tem um significado nada lisonjeiro, que indica uma situação de fardo, destino. E o atual sistema educacional tem sido realmente um fardo e destino nada agradável àqueles que procuram nos bancos escolares uma forma de aumentar o conhecimento. Inúmeras pesquisas e depoimentos de docentes e estudiosos demonstram que os professores não cansam de reclamar de que os educandos não demonstram interesse na aprendizagem. E isso é até compreensível, já que esses profissionais preferem manter a autoridade e poder, conferido pelo status quo, onde a sisudez e o mau humor sobrepõem à seriedade. Não se cultiva o prazer em sala de aula. Apenas existe a mesma reprodução do sistema opressor contra o educando, já cansado da situação que ele encontra cotidianamente em sua família, trabalho e grupos sociais.


Portanto, os comportamentos inquietos - que o professor prefere definir como rebelde - nada mais é do que o grito de sufocamento que o educando vive. Ele quer aumentar seus conhecimentos, mas com prazer. Chamam-se isso de aprendizagem, que provém do verbo aprender. Aliás, a própria palavra é, por si só, autoritária. Sabe-se que o vocábulo "a" é usado com o sentido de "a priori". Se decompuser a palavra aprender, encontrar-se-á como significado emocional o "prender" antecipado. Ou seja, o educando é "preso" antes de ser seduzido pelo tema ou discurso. Não é por acaso que esse verbo tem o mesmo significado de memorizar. Portanto, a real função na relação entre educando e educador deveria ser a de apreender. Porque o significado de apreensão é mais condizente com a situação vivida pelo educando, que precisa manter em expectativa o novo conhecimento que está sendo adquirido. A apreensão é um estado de alerta que prepara o espírito para o desconhecido. Encontra a-se como sinônimo para apreender os termos assimilar, entender, captar.


Mas o professor não consegue entender e nem assimilar a diferença entre "aprender" e "apreender". Somente o estimulador de aprendizagem permite fazê-lo, porque é dotado de espírito libertador, onde a preferência é a descoberta, pelo educando, de novidades significativas para a vida atual e futura. Ele vê o educando como um ser autônomo, enquanto o professor vê o educando como um concorrente. Tanto no campo profissional, quanto pessoal. Essa situação ocorre porque o estimulador de aprendizagem tem um papel fundamental nessa relação. Ele é co-participante das descobertas. Nesse sentido, o termo "co" tem significação emocional de parceria, divisão e compartilhamento, da mesma forma que vemos em "co-habitação" (morar junto), "cooperação" (participar junto), co-autor (realizar junto), entre outros. Nesse sentido, o estimulador de aprendizagem, ao estabelecer a parceria com o educando, o faz mediante a junção do "co" com o "apreender", surgindo daí a chave para o prazer na relação educando-educador, que é a de "compreender". A situação é de grande importância, já que se deve perceber que compreender significa também abranger, incluir, captar, conter, assimilar, dentre outros termos de cunho participativo e não autoritário.

Em uma educação aonde se busca a participação, é fundamental que os atuais docentes percebam a diferença entre esses dois profissionais: professores e estimuladores de aprendizagem. Enquanto o primeiro pauta suas ações e transmissões de conhecimento nas respostas; o segundo privilegia as perguntas. Os professores oferecem respostas às dúvidas dos alunos. Os estimuladores de aprendizagem ofertam mais perguntas para os questionamentos.

 

Enquanto professores procuram acalmar a ansiedade dos educandos, mediante proposição de que para tudo há um tempo certo; os estimuladores de aprendizagem incentivam a inquietação dos integrantes da sala com ações e estímulos para a curiosidade. Para os professores as aulas são enfadonhas. Para os estimuladores de aprendizagem as aulas constituem em uma troca ímpar. Os professores sedimentam e transferem o conhecimento mediante o uso dos verbos saber, ensinar, cumprir, entregar dentre outros assemelhados. Os estimuladores de aprendizagem preferem o uso de seis verbos: perguntar, organizar, reelaborar, questionar, uniformizar/unir e expressar. São apenas seis verbos, mas são mágicos. Eles têm o poder da descoberta, pois a junção das letras iniciais forma o caminho do conhecimento, que é a pergunta. Junte-se a isso o símbolo da dúvida, conhecido como ponto de interrogação. Então temos a palavra por quê?

 

Portanto, em um momento em que muitos buscam alternativas para melhorar a educação, é preciso que os docentes se dispam do ranço autoritário que a função ainda lhe dá, fruto de anos e anos de transferência < i>. E isso só é possível mediante propostas diferentes dos atuais sistemas utilizados em salas de aula. E para isso é preciso que se invista em perguntas. Mas antes, "matem os professores".

 

Revista Gestão Universitária02/6/2005 - Número 1

 
 
 
JK, o mito que sobrevive

Marcondes Rosa de Souza

O Povo - [18 Janeiro 02h41min 2006]

JK! ''Por que o mito sobrevive?'' É a inquietação da consciência coletiva nacional, hoje em novelas, revistas e demais veículos de comunicação. Qual o segredo dos propalados ''cinqüenta anos em cinco'', quando, como nunca, o Brasil teria crescido: construção de Brasília, indústria automobilística, rodovias? E tudo, a despeito de ''um legado de dívidas e inflação''.

Em entrevista na Isto É, Sérgio Machado, condecorado no Rio como o ''novo Barão de Mauá'', atribui, à ação de sua Transpetro, um ''segundo grito de independência''. E, em justa autocrítica até aos atuais políticos, define a questão: ''A eleição começou, mas fulanizada. Ninguém fala em temas''. Em outros termos, de projeto, outrora sobra nos sorrisos-crença de JK!

No Brasil, perdemo-nos, faz algum tempo, na improdutiva discussão entre o monetarismo - a buscar moeda estável e nos solver dívidas externas - e a caricata esmola dos ''fomes-zero'', ao lado das episódicas operações tapa-buracos, em nossas estradas e vidas. No mais, o apego aos dados estatísticos, meros ''dedos'' a indicar um chão perdido dos horizontes: o sustentável desenvolvimento e a real inclusão social.

No Ceará, pautamo-nos, desde os anos 80, um projeto para acabar, entre nós, a miséria. Hoje, porém, perdemo-nos sob o diapasão no País. E isso se percebe até na sutil crítica que nos faz Cid Gomes, sob a metáfora de carro com marcha engatada, mas velocidade perdida. Nisso, omitida qualquer alusão a rumo e destino.

É hora de retomarmos bússola e projeto. E é nesse tom que me ocorre a frase de Wordsworth, ''a criança é o pai do homem''. Ela me chega por trás da provocação ''Vô, para onde nós vamos?'', toda vez que ele me adentra o carro. Ele é Pedro, primeiro ... neto meu, como se já a nos cobrar, imperial e brasileiro e em seus dois aninhos, amanhã mais promissor!


MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente.

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De: "Marcondes Rosa"
Assunto: Morno e sem vontade
Data: Wed, 15 Sep 2004 09:58:30 -0300
''Que projeto? Qual o papel que nele nos cabe? Com que cabeças, mãos e corações tocá-lo? Quem lhe dará aval?'

Morno e sem vontade

Marcondes Rosa de Sousa

Fonte: O Povo

[15 Setembro 03h34min 2004]


Esvaziamo-nos de nossas ligações partidárias. E, num grupo de amigos, postamo-nos ante a TV. Objetivo, analisar as posturas dos candidatos a prefeito de Fortaleza.


De positivo, o repúdio aos velhos modelos, a persistirem hediondos. De animador, os sinais da queixa mais funda do povo, já captada: a violência (física e simbólica), vista ainda policial, sem o alcance da ''segurança mais larga'' a nos garantir a participação na construção socioeconômica - em nosso chão (a urbs), na convivência social (a cívitas) e no projeto político (a pólis). E os candidatos, quixotescos, a cavalgarem ainda um solitário ''eu vou fazer''...


Alguém do grupo enumera os egressos do Ceará a habitar as esferas altas do poder e a avalizar as promessas. Na cauda, o veneno: ''Nunca os vi reunidos em torno de um projeto mais alto a nosso favor''. A lista: três ministros - Ciro Gomes, Eunício Oliveira e Oscar Costa (advogado geral da União); dirigentes de três estatais estratégicas: Eudoro Santana (Dnocs), Roberto Smith (BNB) e Sérgio Machado (Transpetro); César Asfor (STJ) e Ubiratan Aguiar (TCU); os três senadores e os deputados federais pelo Estado; o embaixador Paes de Andrade e o presidente do PT, José Genoino Neto; o governador Lúcio Alcântara, entre outros.


Sem projeto, tudo é morno e sem vontade, alguém conclui. E a mim se pede que, em nome das três despedaçadas porções da cidadania (a urbs, a cívitas e a pólis), a todos indague: ''Que projeto? Qual o papel que nele nos cabe? Com que cabeças, mãos e corações tocá-lo? Quem lhe dará aval?'


Sem isso, tudo será ''pão e circo''. Pior, festas e fogos. E sem pão!


MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

 
 
 
 
Contacapa do livro
 
 
O lançamento desta biografia, evento no qual se associam a Universidade Federal do Ceará e a Fundação Demócrito Rocha, fixa, em solenidade presidida pelo Reitor René Teixeira Barreira, o marco que assinala, com excepcional júbilo, o início das comemorações do Cinqüentenário da nossa Universidade e do Centenário do seu fundador e primeiro Reitor, Antônio Martins Filho.

         

          Na mensagem sob o título “Escapou de ouvir, mas não de ler”, o Prof. Paulo Elpídio de Menezes Neto – ex-reitor da Universidade Federal do Ceará, ex-Secretário de Ensino Superior e de Educação Básica (MEC), ex-Diretor do FNDE, ex-Secretário de Educação do Estado do Ceará, ora na Administração Superior da Universidade Cândido Mendes (RJ) – recebo texto do discurso, “em celebração a uma vida exemplar”, “Martins Filho, uma biografia”, o fundador da Universidade Federal do Ceará, lançado em 1º. de setembro passado, na Reitoria da UFC.

 

          Na verdade, Prof. Paulo Elpídio, quando na vida deixamos, esquecidos dos lenços e documentos, lançando-nos contra os ventos em busca do libertário, parece que perdemos um pouco de nossas referências de antes... Isso, mais forte, nos cartórios litúrgico dos cerimoniais, para quem já não somos os mesmos...

 

          De convites houve, eles, com certeza perderam-se na procura de antigos birôs não mais habitados. De sorte que, se não pude me deliciar com a oralidade de seu ritmo fluente, carregado das emoções, carinhos e justiça em relação a Martins Filho, posso agora, com mais vagar, esquadrinhar seu texto, sentido-o a cada palavra.

 

           Martins Filho, já cognominado de “o criador de universidades”, você o retratou com carinho e grandeza. Justo você, que lhe resgatou a obra e o signo do “universal pelo regional”. Na verdade foi com essa marca, que, nos anos 80, a UFC chamou ao diálogo a sociedade cearense (lembra-se dos encontros com todos e em todas as áreas, a Rádio Universitária, as Edições UFC ... Meu Deus, nunca mais houve tanta abertura!)...

 

          Vai, pois, aqui o belo texto, entre atributos outros, a dizer de nosso sentido tributo. E, de carona, as desculpas pela não oportunidade do fruir de sua oralidade. E os agradecimentos pela saussureana evocação, a partir da escrita, da “imagem acústica”: a jorrar das palavras, frases e pensamentos.

 

          Parabéns!

          Marcondes Rosa de Sousa

          (Seu assessor – anos 80)

 

********

 

MARTINS FILHO, UMA BIOGRAFIA

 

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto *

 

A velhice, felizmente ou não, dura pouco. É muito breve para a maior parte dos humanos viventes, passageira e transeunte. O mais trágico da velhice, entretanto, está em tornarmo-nos velhos. O mundo da memória é o mundo dos velhos. Alguns, mais do que outros, dedicaram os seus anos de velhice às reminiscências da juventude, em recriar o passado, recompondo lembranças, recuperando a imagem dos figurantes com os quais cruzamos pelos caminhos da vida. Outros se entregaram nos braços do esquecimento, em transe de fuga no tempo, sem olhares para o passado  e  indiferentes ao futuro, se é que na plenitude da velhice se pode (ou se deva) pensar no por vir. Se existe patrimônio real a que se deva agarrar alguém que viveu bastante, esta riqueza está nos guardados acumulados no bornal onde se enfiou, vida afora, os registros do cotidiano, lampejos, flashes, instantâneos, sentimentos, angústias e as esperanças, a que nos agarramos e nos permitem continuar a viver.

 

Em suas reflexões sobre o tempo e a memória, Bobbio, em página magistral, lembra que “afinal, somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos”. E conclui: “somos aquilo que lembramos”.

 

            Neste depoimento breve que fui encorajado a lançar, hoje, entre amigos e recordações, cercados pela grande família dos colaboradores de Martins Filho, de contemporâneos e dos pósteros, prontos a dar prosseguimento a esta obra bem lançada, cúmplices nas idéias e nos cometimentos, foram ressaltadas as singularidades de uma personalidade incomum, aprimorada pela longevidade, exemplo raro de jovem feito ancião, determinado, incansável desbravador de oportunidades novas. Neste

 

* Paulo Elpídio de Menezes Neto foi Reitor da Universidade Federal do Ceará, Secretário de Educação Superior, Secretário Nacional de Educação Básica e Diretor-Executivo do FNDE, do Ministério da Educação; foi Secretário de Educação do Ceará.

 

 sentido, Martins Filho contrariou os arquétipos que moldam a imagem que fazemos da aventura da existência. Sua velhice foi longa e proveitosa, saudável, lúcida, carregada de vida. E útil pelas obras e intenções, na prestimosidade que jamais negou a quem dele se aproximasse. Às lembranças reunidas de um passado rico, associou as obrigações que se impôs, no presente, tempo no qual edificou, com engenho e pertinácia, as pontes projetadas para o futuro. Não se deixou aprisionar pelo passado, mas dele recortou as lembranças -- e deu-lhes vida permanente como memorialista. Com o capital acumulado das experiências passadas, trabalhou diligentemente os projetos que pretendia concretizar, no seu futuro. Perseguiu-os, realizou-os, consolidou-os com a coragem de quem sabe ocupar os espaços vazios já em idade canônica, no entardecer da existência.

 

            “Martins Filho”, título incluído na Coleção “Terra Bárbara” da Fundação Demócrito Rocha, é o testemunho recolhido na juventude e  maturidade, são pequenas inconfidências cuidadas com zelo por  observador atento, engajado por inteiro, como colaborador e amigo, na obra maior do seu biografado. É possível – os críticos haverão de assinalar, com propriedade as imprecisões dessa reportagem confessadamente passional -- que tenha faltado isenção ao narrador, e imparcialidade ao julgamento dos fatos, personagens e atores – em tudo o que, de fato, modela as circunstâncias ortegueanas de Martins Filho. Não pareceu ao autor devesse afastar-se dessas incontinências verbais; ao contrário, a versão que lhes é apresentada traz a vivacidade do testemunho ocular, de quem viu, ouviu e presenciou, de quem cuidou em registrar episódios aparentemente circunstanciais, desses que o vento leva e apaga, se falta, pressurosa, a figura de quem os recolhe e guarda.

 

            Não são registros falsos, de encomenda, desses que se reúnem para modelar uma imagem ou justificar atributos conferidos em vida; muitos deles escondiam-se por entre fatos notórios, esquecidos, banalizados. A outros, empresta-se um certo reconhecimento do que fosse real, ou do que encarnasse a verdade, dentre versões mal construídas, por vezes imprecisas.

 

            Não me pareceu fácil compor a biografia de Martins Filho. A dificuldade provém, como percebi, da abundância de fontes e de registros disponíveis, condição que tornaria menos árduo e simples o trabalho do biógrafo, ainda que pouco aplicado; de fato, o que parece favorecer essa tarefa, cria, paradoxalmente, enredos perigosos, dos quais se se pode desembaraçar, embora com visível dificuldade. .

 

Do ponto de vista documental, fontes primárias importantes podem ser procuradas no acervo da Reitoria, não obstante as perdas irremediáveis sofridas pelos arquivos fotográficos e fonográficos, ao longo do tempo. A mídia foi generosa com Martins Filho, um dos seus personagens favoritos. A história da Universidade Federal do Ceará e a presença do Reitor Martins Filho, mesmo quando já deixara a Reitoria, podem ser reconstituídas com abundância de informações e pormenores nas coleções de jornais da época..

 

São, contudo, as suas “Memórias” o conjunto mais articulado e completo do que se escreveu sobre a Educação Superior do Ceará, da Universidade Federal do Ceará e de todas os demais empreendimentos, dos quais participou diretamente, da obra de edificação e consolidação dos seus projetos. Nessa abundância de registros reside, justamente, a dificuldade do biógrafo, que não quer deixar-se conduzir pelo improviso de achados reveladores, tampouco aceitar a incorporação de versões correntes, algumas, de tão repetidas, consagradas como incontestáveis.

 

De sua vida retratou Martins Filho o longo caminho, da menoridade aos anos da velhice chegada. Das nossas Universidades deixou o relato do essencial, deu-lhe a cor própria da sua interpretação, com elegância, equilíbrio e propriedade. Foi prudente, sempre que lhe pareceu ser este o comportamento esperado do memorialista, justo nos juízos expendidos sereno no julgamento.

 

A elaboração da biografia de um memorialista dotado das características da personalidade de Martins Filho, experiência que me foi dado viver, percorreu a linha divisória do que parece real, por ter sido referido nos textos conhecidos, e  cristalizado, de alguma forma, na consciência dos seus contemporâneos, e do que se atribuiria à imaginação vadia do biógrafo à procura de revelações.. Este o trabalho e os riscos de quem se aventura por estes caminhos cheios de surpresas. Não ignorava eu as ameaças que pairam sobre o biógrafo e a sua credibilidade, movendo-se entre obstáculos e dificuldades apenas pressentidas.

 

O memorialista incorre, sempre, nos desafios de uma travessia temerária. O maior deles, está em evitar aprisionar o leitor nos domínios estritos da sua realidade, da versão que, intencionalmente ou não, transfere a quem o lê. A verdade é que comete, com freqüência, essa violação, sem dar-se conta de que a realidade é, em essência, a realidade de cada um. Para quem trabalha com o delicado papel da memória, a exemplo do tradutor, traidor inconsciente no seu árduo mister de mediador de significados, a sua realidade vem a ser a realidade a ser compartilhada com todos.

 

O biógrafo não escapa, por sua vez, a essa impiedosa armadilha. Em um certo sentido, incorre em maiores riscos, na medida em que, por impulso, intenção ou deslize, pode aprisionar o leitor e o biografado, a um só tempo, nos escaninhos da sua maneira particular de ver as coisas.

 

De todas essas ameaças não escapamos nós, leitores e autores; portanto não nos penitenciemos dessas humanas tentações, excessivamente humanas. Não pretendi fugir a tamanhas ameaças, ainda que essa confissão possa parecer-lhes, em sua apreciação indulgente, álibi engenhoso de aprendiz de biógrafo.

 

Há maneiras diversas de se ver a mesma coisa, a depender das circunstâncias e do olhar de quem perscruta. Relembro alusão de Carlos Fuentes, em seu recente “En esto creo”, ao episódio no qual, perdidos, ele e amigos, em meio a um labirinto de montanhas, no interior do México, indagam a um velho como se chamava a aldeia para onde se dirigiam.

 

-- “Depende, respondeu-lhes o velho. O pueblo se chama Santa Maria, em tempos de paz. Chama-se Zapata em tempos de guerra”.

 

Conforme o olhar que se lance sobre Martins Filho e a obra por ele legada aos cearenses, há de se descobrir aspectos novos de uma personalidade surpreendente, como não tratássemos de uma mesma pessoa. A lhaneza de trato, em circunstâncias normais, traía o temperamento impetuoso diante dos desafios a enfrentar ou em face da fragilidade das pessoas de pouco caráter, dos interesses mascarados, das conveniências cavilosas que vicejam em torno da coisa pública.

 

Esta biografia, organizada graças à iniciativa de Albaniza Lúcia Dummar Pontes e da Fundação Demócrito Rocha por ela dirigida, é a versão, a um só tempo, alegre e circunspecta de fatos, episódios e circunstâncias que recompõem a vida de um grande cearense. Pelas dimensões impostas, revela-se relato ligeiro, inconcluso; mais coisas ficaram por ser contadas, abreviaram-se as análises, embora devessem ter sido mais bem tratadas e com maior amplitude. Nada disso, hão de ver, comprometeu o fio da narrativa dos fatos centrais e a reconstituição dos principais atores de uma história empolgante, de vida e de obras. A Coleção “Terra Bárbara” cumpre missão educativa ambiciosa, a de divulgar, em formato acessível e no conteúdo simples, a história da vida de grandes cearenses, daqueles que têm lugar merecido entre os que deixaram o seu nome e o exemplo das suas vidas como referência para os jovens, os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos.  

 

Comparou-se Martins Filho a um Midas, em cuja presença, sob a sua ação pronta e firme, as coisas se transformavam. Confirmou essa imagem disseminada o êxito dos seus empreendimentos aos quais se consagrou por inteiro. No âmbito da família, que a construiu grande sob a sua autoridade de patriarca amado; no mundo dos negócios, na advocacia,  como jurista respeitado, animador de iniciativas culturais, intelectual e editor e, finalmente, para encerrar a sua obra e firmar a sua biografia, professor e Reitor de Universidades. Em cada obra, em cada gesto criador impregnava-o o seu entusiasmo, a serena certeza do êxito que haveria de coroar tanto trabalho e desvelo, seus e dos que o cercavam, convocados pelo “forte chefe”, alegoria camoniana que lhe agradava citar.      

 

Um dos personagens de “Laura Diaz”, de Carlos Fuentes, disse que “gostaria de estar em um lugar, onde se sinta em perigo e, ao mesmo tempo, necessite proteção, não para deixar de sentir-se em perigo, mas para não se enganar com a ilusão de sua própria força”. 

 

Corajoso, combativo, não faleciam, em Martins Filho as virtudes do equilíbrio e da sensatez, para bem avaliar a extensão e as conseqüências dos seus gestos e atitudes. Foi assim em todos os momentos, recolhendo-se à reflexão solitária antes das decisões que deveria enfrentar e arrostar as suas inevitáveis conseqüências.

 

Esta Casa, este auditório -- que bem mereceria receber o seu nome, em revisão histórica que se impõe -- testemunham os embates que enfrentou Martins Filho, confrontado com circunstâncias adversas, e assinalam momentos de exaltação e de vitória.

 

Das últimas vezes que aqui esteve, talvez a última, lembra-me a noite solene, quando aqui chegou, sobraçando as vestes talares de professor emérito da Faculdade de Direito, com a elegância de hábito que lhe emprestava o porte magnífico, amparado no orgulho essa condição lhe proporcionava, para receber das mãos do Presidente da Câmara dos Deputados, a Medalha do Mérito do Congresso Nacional. Em sua fala, firme, em fluente improviso, agradeceu a honrosa distinção, fez, em breves traços, a recomposição do seu itinerário e da campanha memorável que resultaria na criação da Universidade do Ceará.

 

O lançamento desta biografia, evento no qual se associam a Universidade Federal do Ceará e a Fundação Demócrito Rocha, fixa, em solenidade presidida pelo Reitor René Teixeira Barreira, o marco que assinala, com excepcional júbilo, o início das comemorações do Cinqüentenário da nossa Universidade e do Centenário do seu fundador e primeiro Reitor, Antônio Martins Filho.

 

As honras da celebração que hoje iniciamos, pelos cinqüenta anos da nossa Casa, cabem ao Reitor René Teixeira Barreira. Coube-lhe viver, como poucos, longo aprendizado, como aluno e professor, e participante de movimentos estudantis em uma quadra de escassas liberdades, trajetória que lhe ofereceu o respeito dos seus pares e a confirmação das responsabilidades que lhe foram conferidas.

 

Finalmente, os agradecimentos que devo dirigir ao meu amigo Roberto Cláudio Frota Bezerra, de uma distinta estirpe de professores, pelo gesto amigo em aceitar o convite para apresentar o livro que chegará, em pouco, às suas mãos. Sua presença na Reitoria da UFC, em dois mandatos sucessivos, e a condição de Presidente de nossa assembléia mais destacada na área da educação – o Conselho Nacional de Educação – assinala uma trajetória respeitável  e  realça a figura de um dos fundadores dessa Casa, o Professor Prisco Bezerra, seu pai, a quem rendo as homenagens que lhe serão sempre devidas.

 

À minha família, aqui reunida, representada por minha mulher Zuleide, pela minha filha Marta, pelos cunhados, filhos, sobrinhos e netos nascidos à sombra dessa frondosa árvore plantada por Antônio Martins Filho e Maria, presto a homenagem por esse reencontro, em celebração de uma vida exemplar.

 

Discurso pronunciado por ocasião do lançamento do livro “Martins Filho”, editado pela Editora Demócrito Rocha, da Fundação Demócrito Rocha, no dia 1º de setembro de 2004, na Reitoria da Universidade Federal do Ceará.

 

 

De: "Marcondes Rosa"
Assunto: Conversa com Tradutores (Adail Sobral )
Data: Wed, 8 Sep 2004 14:04:22 -0300

 

Amiga(o)s,

 

A Profa. Débora Cândida Dias Soares, da área de Letras (UFC) envia-nos notícias sobre  o Encontro Nacional e o III Internacional de Tradutores foi realizado aqui em Fortaleza (30/08 a 03/09) no Ponta Mar Hotel. Com problemas em seu computador, antecipou-se, pedindo-se, se tiver de retardar sua comunicação direto para o Grupo, que o fizesse.

 

É o que faço.

 

 Marcondes,

 

Não sei se você soube, mas o IX  Encontro Nacional e o III Internacional de Tradutores foi realizado aqui em Fortaleza (30/08 a 03/09) no Ponta Mar Hotel. Mas antes do início do referido encontro fui à Bienal do Livro encontrar meu amigo Azenha ( tradutor de livros para crianças e adolescentes e do conhecido Mundo de Sofia) que faria uma palestra no espaço da Casa de Cultura Alemã. No dia seguinte, fui comprar o livro Conversa com Tradutores pois o Azenha é um dos entrevistados. E adivinhe quem é o responsável pelas "conversas"? Nosso amigo de lista Adail Sobral (com Ivone C. Benedetti). Pela centésima (sei lá quantas...) vez vejo o nome de uma pessoa da qual conhecemos o pensamento, a postura intelectual mas não sabíamos (pelo menos eu não sabia) o que se segue:

 

"Adail Sobral é especializado em Lingüística (UNICAMP), mestre em Letras (FFLCH-USP) e faz doutorado em Lingüística Aplicada no LAEL-PUC/SP, na área de estudos bakhtianos. É tradutor do inglês, do francês e do espanhol, principalmente nas áreas de filosofia, estudos teológicos, direito internacional, lógica, pós-modernismo e temas da atualidade. Traduziu obras de David Harvey, Charles Taylor, Joseph Campbell, Teresa de Jesus, Edward Edinger, Steven Connor, J. Ferrater Mora, Baudrillard, e os perfis biográficos de Santo Tomás e São Francisco escritos por G. K. Chesterton. É autor de Internet na escola (Loyola, 1999), que está na 3ª edição". (Nota de pé de página do Posfácio do supracitado livro escrito, obviamente, pelo Adail).

 

Ufa! Agora entendo porque a Dirce o trata de MESTRE. Não é só pelo mestrado, certamente.

 

Quanto ao Encontro teve seus altos e baixos. Altos por contar com pessoas como o João Azenha, Mário Laranjeira, Francis Aubert, Stella Tagnin, Lia Wyler (agora mais conhecida como tradutora de Harry Potter), professores e tradutores que eu já conhecia e Armelle Le Bars-Poupet (Paris III-Sorbonne Nouvelle) que conheci agora e a quem passei a admirar pelo trabalhos que apresentou. (Aliás ela desafiou a mim e outra professora a participar de uma pesquisa coordenada por ela. Fiquei entusiasmada e vou ver se crio coragem).

 

Não falo dos baixos. Não vale a pena.

 

Depois falo sobre o livro com calma.

 

Abraços,

Débora

 

 

 

Amor e temor: a tensão

Marcondes Rosa de Sousa

Fonte: O Povc - [27 03h34min 2004]


Posto-me, analítico, ante a televisão e os jornais, a observar, em Fortaleza, o jogo eleitoral sob a tensão entre amor e temor, de Maquiavel.

Luizianne, a cavalgar, narcisista, o ''amor a Fortaleza'': câmeras, músicas e slogans a lhe tocar o louro dos cabelos, o verde em close up dos olhos, ''luz'' e ''estrela a brilhar'', sob o apelo do ''vem com a gente'' de quem ''gente da gente'', se diz ''verdadeira'', a rebrotar sorrisos em um povo sofrido. Já Moroni, mais prosaico, sob o diapasão da dor e do drama, martela a violência a nos tolher a liberdade e nos lembra ''quem ama protege'': a ecologia, as famílias jogadas nas áreas de risco, as crianças na rua e fora da escola, os excluídos do trabalho e da vida.

Como no país e na América do Norte, aqui o marketing endurece tal jogo. E queixas surgem a beirar preconceitos, lesivos à Constituição e feito crimes por lei. Apesar disso, os debates se adensam, jamais vistos. Distantes dos tradicionais ''caciques políticos'', os candidatos, contraditórios, buscam os eleitores desses. Reclama-se dos ''apoios incondicionais'' e dos programas fechados. E ''aberto e plural'' o projeto que todos queremos esférico, perdidas aí as estacas a sinalizar esquerda e direita.

Amaina-se o desencanto com os políticos. O ''voto nulo'' perde sentido. A tendência é colhermos as lições da equilibrada dosagem entre amor e temor. Um amor não narcíseo, centrado nos outros - semi-alheio -, lastreado na guarda e proteção dos direitos básicos dos cidadãos. Vencerá quem, qual regente, mostrar tato e experiência para nos envolver a todos em um projeto para a quinta metrópole deste País.

MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente

 

 

 

 

 

Na galeria dos ícones

 

Marcondes Rosa de Sousa

De "O Povo"

 

            Paulo de Melo Jorge, seu nome. Em nossa intimidade, porém, ele nos ficou “Paulo Petrola”. Sem dúvida, um dos integrantes - à Caetano Veloso - da “Geração Tigresa”, já que tinha inquietações políticas em 1966 e depois amargaria os “frenetic dancing days” do arbítrio.

 

          Assim, por esses anos, o víamos nos bancos da Academia. E logo depois, na UFC dos anos 70, onde ele ensaiava conosco uma formação acadêmica lastreada em bases mais largas e sólidas, no ciclo básico, sob a pauta da leitura do mundo. Nos anos 80, ele aí já era fervoroso membro do Movimento Pró-Mudanças, a bater-se contra os coronéis (os do arbítrio e os do clientelismo político), e sonhava com um Ceará a se afastar da miséria e a buscar sustentáveis caminhos. Marca disso, deixou ele pautada no projeto de educação dessa geração das mudanças, cuja equipe integrou. E mais ainda como horizonte de um desenvolvimento sustentável para o estado, no projeto estratégico de nossas universidades, a partir do Fórum da Modernidade onde juntos estivemos, ele reitor da UECe e eu Presidente do Conselho de Educação do Ceará.

 

          Petrola voltaria, ao deixar a reitoria, a semear educação superior pelo interior cearense. E se postaria na educação básica do município de Fortaleza e tentar semear a tão reclamada qualidade. E foi quando isso tentava mostrar que a emoção o arrancou de nós. Aí, a ironia nos dando recado. Justo quando se apontava a educação a ganhar emoção, alma e sentido, recobrando com isso a qualidade.

 

          Petrola se foi. Mas nos deixou a lição. A emoção (a nos devolver a sensibilidade) hoje alcança o status de inteligência, a nos devolver a sensibilidade. Com ela, a alma. Com esta, o sentido. Cardíaco, pessoalmente tive de driblar emoções e não lhe fui expressar o adeus, talvez não cabível. Prefiro o testemunho de agora:  Petrola há de postar-se “ícone”, na galeria dos personagens que fazem a história de nossa educação.

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe)

Descartando a possibilidade de ser candidato a governador ou concorrer a um cargo majoritário em 2006, Sérgio Machado explicou que o Ceará vive um momento muito especial no cenário político nacional. Relatou na palestra que fez na FIEC que os políticos cearenses gozam hoje de muito prestígio e têm força partidária, tanto no Governo Lula ou mesmo na oposição ao Governo Federal. Mas fez uma ressalva: o problema é que não estamos trabalhando unidos em torno de um mesmo projeto

          

            Do Caderno “People”, do Jornal “O Povo”, sobre o sentimento que temos definido de união de todos por um coletivo projeto no Ceará, recortamos a disposição do ex-senador Sérgio Machado, ora a presidir a Transpetro:

 

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Sérgio Machado defende unidade das lideranças políticas do Ceará

SÉRGIO Machado, presidente da Transpetro

[29 Janeiro 17h02min 2005]

O presidente da Transpetro, Sérgio Machado, esteve no Ceará convocando os empresários cearenses a se unirem empresarialmente para que possam, juntamente com a indústria naval brasileira, disputar o mercado da construção de 42 novos navios. São investimentos superiores a U$ 1,9 bilhão e a perspectiva de gerar milhares de novos empregos em todo o País. Sérgio Machado também aproveitou a sua visita oficial para convocar os políticos cearenses durante sua palestra na Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC) para uma grande união estadual. O objetivo dessa grande unidade das forças políticas do Ceará é promover um salto seguro e permanente na qualidade de vida do povo cearense.

Descartando a possibilidade de ser candidato a governador ou concorrer a um cargo majoritário em 2006, Sérgio Machado explicou que o Ceará vive um momento muito especial no cenário político nacional. Relatou na palestra que fez na FIEC que os políticos cearenses gozam hoje de muito prestígio e têm força partidária, tanto no Governo Lula ou mesmo na oposição ao Governo Federal. Mas fez uma ressalva: o problema é que não estamos trabalhando unidos em torno de um mesmo projeto. No entender de Sérgio Machado, esse trabalho renderia muito mais se fosse feito de modo coordenado com base numa agenda comum, debatida e aprovada, com a participação da sociedade, do Governo e dos políticos.

Na opinião do presidente da Transpetro, Sérgio Machado, é preciso que as entidades organizadas e a sociedade cearense promovam um grande debate com todos os políticos do Estado, especialmente com os detentores de influência nacional. Somente unindo, é possível desenvolver ações coletivas em torno de um mesmo objetivo, gerando mais desenvolvimento e cidadania no Ceará. Para Sérgio Machado, os ministros Ciro Gomes e Eunício Oliveira, o presidente do BNB, Roberto Smith, e tantos outros dirigentes que ocupam posições de destaque no Governo Lula no próprio Estado ou em Brasília têm trabalhado muito a favor do Ceará. A dedicação deles merece o reconhecimento de todos.

Destacou ainda o trabalho feito pelos políticos cearenses - governador Lúcio Alcântara e o senador Tasso Jereissati - que, mesmo fazendo oposição ao presidente Lula em Brasília, conseguem defender os interesses do povo cearense junto ao Governo Federal. Promover essa união cearense em torno de um projeto único que gere empregos, que desenvolva o Estado e construa um novo tempo de crescimento, é no entendimento de Sérgio Machado, o grande desafio a ser enfrentado. Essa análise de Sérgio Machado alcançou ampla repercussão entre os empresários que lotaram o auditório da FIEC para ouvir a palestra do presidente da Transpetro. A reação positiva dos empresários aponta o caminho a ser percorrido pelos políticos cearenses, como uma nova e grande meta a ser conquistada.

Na FIEC, durante as declarações de Sérgio Machado, ninguém contestou nem a força dos políticos cearenses, tanto que o Ceará é o único Estado do Nordeste com dois ministros, além de chefiar o BNB, Dnocs, Agência de Transportes Terrestres, e a própria Transpetro, e nem a importância de uni-los num projeto coletivo a favor do Ceará. Essa unidade é fundamental, pois não basta tanta força, se não há união nas ações desenvolvidas. Para Sérgio Machado, construir uma unidade política é o desafio a ser vencido. Unir o Ceará num projeto de desenvolvimento é o sonho a ser construído, reafirmou o presidente da Transpetro.


SOMANDO
Sérgio Machado destacou ainda durante passagem pelo Ceará o grande momento vivido pelo Brasil com o Governo Lula. ''O Brasil vive um momento especial, pois já atingimos a auto-suficiência em petróleo, e, no mais tardar em três anos, estaremos exportando um milhão de barris de óleo e derivados. Estamos aumentando a nossa competitividade''. Sérgio Machado explicou também que os estados brasileiros devem ser contemplados nesse processo de construção de navios, já que o BNDES está disposto a financiar os empresários que estejam dispostos e tenham condições para construir os novos navios que irão compor a frota nacional.

 

Hegemonias em cacos

11:44 @ 11/03/2006

 
 
 
 
No Ceará de tradição libertária, há pouco nos armávamos no solidário e em utopias, a gerar rupturas no trato com a ''coisa pública''. Com o tempo, a fadiga sobre nós se abateu. O solidário fragilizou-se em solidões. As hegemonias, em frangalhos. O projeto coletivo moldou-se à literal feição dos partidos e facções

ARTIGO
Hegemonias em cacos

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [19 Janeiro 02h13min 2005]


Insólito, o grupo, a nascer de gestores, intelectuais e políticos. E ''janeiro'', olhares à frente e atrás, herdados do mitológico Jano. A frente, um Brasil, passos rumo à inclusão social. E, nesse contexto, o acerto dos nossos (Ceará e Nordeste), sob os parâmetros do local/global, e dos de agora (plural e simbólico).

Reler o passado, a projetar o futuro - o lema do grupo. No Ceará de tradição libertária, há pouco nos armávamos no solidário e em utopias, a gerar rupturas no trato com a ''coisa pública''. Com o tempo, a fadiga sobre nós se abateu. O solidário fragilizou-se em solidões. As hegemonias, em frangalhos. O projeto coletivo moldou-se à literal feição dos partidos e facções. Irônico! Nunca tantos dos nossos no cenário da vida nacional. Mas até hoje, reunião alguma entre eles a nos ter por tema o coletivo! Rever, sim, nossa história. Não tanto em tom de confiteor. Mas para arrancar, de seu chão, o imaginário do povo a compor crescente ideário. Isso sob o intenso diálogo entre o logos (a razão, a ciência) e o mythos (a imaginação, a arte, a emoção). Escopo, o todo, complexo e plural, a resultar dos conflitos, cantos e contracantos a compor sinfonias, os atores não mais que ícones do coletivo.

Tal grupo gesta-se ''supra'' e transitório. Com a vocação de resina, a recobrar élan e forças ora em cacos. E sob o tato de Virgílio, o Távora: ''agarre-se ao que une, rejeitando o que desune'', de sorte a sanar atritos e ódios entre grupos (sociais, políticos, empresariais, acadêmicos, a mídia). Este, o espírito. E a mim, a confiada tarefa de Pero Vaz de Caminha ''ad hoc' nessa jornada!


MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe), escreve quinzenalmente.

 

 

 
 
 
Evanildo Bechara
 
Competência lingüística é ser um poliglota na própria língua, ou seja, é trafegar nos diferentes níveis de maneira adequada. Porém, o mais grave é que a oralidade invadiu a escola. Nossas crianças lêem raros livros, mas precisam ler artigos extraídos de jornais e revistas, textos com alta dose de oralidade. "Estamos formando pessoas que não verão outra possibilidade para a língua portuguesa fora da oralidade! Cogita-se aumentar o número de aulas de português no currículo. Para quê? Para jogar mais oralidade? Ou reintroduzir o ensino de latim. Para quê? O latim não vai resolver o problema que enfrentamos com a nossa língua-padrão. Fico desanimado quando abro um livro didático e a primeira palavrinha dirigida às crianças é: ‘Oi!’ Evanildo Bechara)

Jornal da Ciência e-mail 2689, de 17 de Janeiro de 2005.

           

Camões não tem medo do Tio Sam:

domínio do inglês é essencial para diplomacia

 

Para Evanildo Bechara, um dos melhores gramáticos da língua, o português deve conviver com estrangeirismos e o domínio do inglês é essencial à atividade diplomática

Laura Greenhalgh escreve para ‘O Estado de SP’:

Aos 76 anos, Evanildo Bechara orgulha-se da profissão que exerce. É um filólogo. Se a explicação do termo fosse requerida em vestibulares ou no processo de seleção de diplomatas, certamente muitos candidatos se atrapalhariam. Filólogo é o estudioso da evolução das línguas.

Há décadas lidando com sintaxes, léxicos e morfologias, este mestre pernambucano assombrou-se ao saber que o inglês deixa de ser matéria eliminatória nos exames para o Instituto Rio Branco.

Não entende por que o Itamaraty vem dando menos importância à desenvoltura dos seus representantes com os idiomas estrangeiros.

Gramático respeitado em todos os países da comunidade lusófona, catedrático da UERJ e doutor honoris causa pela Universidade de Coimbra, o professor logo soltou o comentário, quase um lamento:

‘Quando se rebaixa um patamar cultural, o prejuízo atinge a todos nós.’

Autor da Moderna Gramática Brasileira (obra que está na 37.ª edição, fora as incontáveis reimpressões), Evanildo Bechara não se deixa levar por discursos protecionistas em relação ao português, língua à qual dedicou uma vida inteira de estudos.

Não lhe mete medo a invasão das expressões americanizadas, porque estruturalmente a nossa língua é mais forte, garante. E rejeita a tese de que temos um idioma em crise. ‘Em crise está a cultura em nosso país’, diz.

Nesta entrevista, o ocupante da cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras deixa claro suas posições a respeito de uma polêmica que agitou a semana: senhores diplomatas, competência lingüística nunca é demais:

Valorizar o português, excelentíssimos ministros, é ação que começa na família e prossegue na escola, nos níveis fundamental e médio.

Se não houver isso, deficiências posteriores poderão ser incontornáveis. E, mais grave do que um estrangeirismo aqui, outro ali, é a banalização cotidiana do português.

Eis a entrevista:

Como o senhor avalia a norma do Ministério das Relações Exteriores determinando que a prova de inglês não seja mais eliminatória no processo de seleção dos candidatos ao Instituto Rio Branco?

Toda vez que um patamar cultural desce, há grave prejuízo, o que nos atinge. Isso em qualquer setor, em qualquer profissão. No Ministério das Relações Exteriores, não é aceitável que se abra mão de algo que vise o bom desempenho no inglês, idioma que hoje é a língua franca da Cultura e da Ciência.

Isso já havia acontecido com o francês, não?

Exatamente. Quando o francês perdeu a hegemonia no instituto, a repercussão foi tremenda. Aquilo marcou o declínio do idioma na sociedade brasileira. O ministério tem todo o direito de estabelecer as regras do seu jogo, mas deve tomar cuidado para que elas não sejam danosas ao desempenho do diplomata. O ideal seria elevar o patamar cultural, não rebaixá-lo. Em outras palavras, mais competência lingüística.

Agora, tanto o inglês quanto o francês e o espanhol terão o mesmo peso no processo de seleção.

O critério de tratar com eqüidade as línguas estrangeiras e de dar um maior peso à língua portuguesa não é ruim.

Mas a prova de História terá mais peso do que a prova de línguas. Isso é bom?

É preciso ponderar. Uma matéria como História poderá facilitar o acesso ao Itamaraty de um candidato que não tem conhecimento ou desempenho apropriado em línguas. A História está por trás da atividade do diplomata, porém as línguas estrangeiras estão à frente. É pelo uso das línguas que se estabelecem as relações internacionais.

O que se diz no Itamaraty hoje é que a História dá mais estofo à atividade diplomática.

Sem dúvida, mas, sem competência lingüística, o estofo pode não vir à tona.

O chanceler Celso Amorim parece preocupado com a preservação da língua portuguesa. Ou, preocupado com uma certa dominação do idioma inglês. Está dando voz a um nacionalismo lingüístico?

Eu não tenho nada contra os movimentos em defesa da língua materna. Mas, não é no Itamaraty que a soberania lingüística deve prevalecer. Isso precisa vir do ensino fundamental e médio. Se a consciência da língua parte do Instituto Rio Branco, então é como iniciar a construção de um edifício pela cobertura, e não pelos alicerces.

É fato que o português está sendo invadido por expressões inglesas ou americanizadas - como background, playground, delivery, fast food, baby sitter, download... Isso o preocupa?

Não. É preciso diferenciar língua e cultura. O sistema da língua não sofre nada com a introdução de termos estrangeiros. Pelo contrário, quando esses termos entram no sistema têm de se submeter às regras de funcionamento da língua, no caso, o português. Um exemplo: nós recebemos a palavra xerox. Ao entrar na língua, ela acabou por se submeter a uma série de normas. Daí surgiram ‘xerocar’, ‘xerocopiar’, ‘xerografar’, enfim, nasceu uma constelação de palavras dentro do sistema da língua portuguesa.

Então esse processo não é ruim?

É até enriquecedor, pois incorpora palavras. Não há língua que tenha o seu léxico livre dos estrangeirismos. A língua que mais os recebe, curiosamente, é o inglês, por ser um idioma voltado para o mundo.

Hoje fala-se ‘delivery’. Mas poderíamos dizer ‘entrega a domicílio’. E há quem diga que o correto é ‘entrega em domicílio’. Será? Na dúvida, há quem fique com o ‘delivery’.

A palavra inglesa ‘delivery’ não chegou a entrar no sistema da nossa língua, pois dela não resultam outras palavras. Apenas entrou no vocabulário do dia-a-dia, no contexto dos alimentos. Agora deram de falar que ‘entrega em domicílio’ é melhor do que ‘entrega a domicílio’. Não sei de onde isso saiu, porque o verbo entregar normalmente se constrói com a preposição ‘a’. Fulano entregou a alma ‘a’ Deus. De qualquer modo, a língua se enriquece quando você tem dois modos de dizer a mesma coisa.

E por que usar ‘delivery’ se temos uma expressão própria em português? Não é mais um badulaque desnecessário?

Não sei se é badulaque, o fato é que a língua, que não tem vida independente, também admite modismos, além de refletir todas as qualidades e os defeitos do povo que a fala. Estrangeirismos aparecem, somem e podem ser substituídos por termos nossos. Foi o que aconteceu com a terminologia clássica e introdutória do futebol no Brasil, quando se falava em goalkeeper, off side, corner. Com o passar do tempo e sem nenhuma atitude controladora, os termos estrangeiros do futebol foram dando lugar a expressões feitas no Brasil, como goleiro, impedimento, escanteio. Pior que estrangeirismo é quando leio em artigos de jornal expressões como ‘tá bom’. Isso é muito mais prejudicial ao destino do português do que o estrangeirismo que vai e volta.

Mas as pessoas falam despreocupadamente ‘tá bom’...

Falar é uma coisa, escrever é outra. Em casa, você se veste como quiser, mas, quando sai, deve se arrumar, não é? Essa mesma relação se estabelece entre a língua falada e a língua escrita.

O primeiro gramático da língua portuguesa, Fernão de Oliveira, dizia no século 16 que ‘as línguas são o que os falantes fazem dela’. Se tomarmos a afirmação ao pé da letra, logo daremos como certa a expressão ‘vende-se casas’, assim, erroneamente com o verbo no singular?

Depende da cultura dos falantes. Se ela diminuir a ponto de a língua se tornar um patuá, então tudo é possível. Nós temos testemunhos do português escrito a partir do século 12 e a primeira gramática só apareceu no século 16, de modo que, muito antes de haver uma sistematização, havia só a língua falada. Por isso entendo Fernão de Oliveira. Ele queria dizer que um falante escolarizado faz com que a língua fique na sua modalidade mais elaborada.

Professor, a língua portuguesa foi transplantada para o  Brasil e aqui sofreu mudanças ao contato com o índio e o africano...

Não foram mudanças acentuadas. As maiores mudanças ocorreram no vocabulário, porém a língua manteve seu sistema interno, sua morfologia e sua sintaxe. Também a fonética não tem tanta importância quanto a morfologia e a sintaxe.

Jamais houve a miscigenação de línguas?

Isso mesmo. Basta dizer que, se tomarmos um texto em português do século 16, como a carta do Caminha ou um dos escritos do Anchieta, vamos ler o documento com surpreendente facilidade. Ao longo do tempo, o português evoluiu muito mais lentamente que o inglês ou o francês. Um francês de hoje, para ler Racine, ou um inglês, para ler Shakespeare, encontram muito mais dificuldade do que um brasileiro para ler Camões. Porque as mudanças sociais vividas na França e na Inglaterra foram mais penetrantes do ponto de vista da língua. Já o português mudou mais nos últimos 50 anos do que nos últimos dois séculos.

Certos estudiosos se manifestaram a favor de uma língua brasileira que substituísse a portuguesa do Brasil. O que acha disso?

Não existe língua brasileira. Existe um estilo brasileiro da língua portuguesa. A língua é a portuguesa, e pronto. Prova disso é que as gramáticas de maior sucesso em Portugal foram escritas por brasileiros - como as de Rocha Lima, Celso Cunha e a minha própria. Como são bem aceitos em Portugal os dicionários do Aurélio e do Houaiss.

Mas os portugueses acreditam falar melhor o idioma do que os brasileiros...

O conceito ‘falar melhor’ não existe. O melhor falar paulista é o que se ouve em SP. O melhor falar carioca é o que se pratica no Rio. É lenda dizer que o português falado no Maranhão é o melhor do Brasil. Onde se fala melhor é o lugar onde você está. Agora, quem escreve o melhor português? Isso deve ser conferido na gramática, que sempre estará acima da diversidade lingüística que todo idioma apresenta.

Antigamente, o livro de gramática era companhia inseparável do estudante...

E companhia duradoura! Não só a gramática, mas a antologia também. E os alunos passavam anos com os livros a tiracolo. Agora há um movimento no sentido de não se estudar gramática. Isso no Brasil, porque em países adiantados as gramáticas não só continuam a ser estudadas, como estão sendo ampliadas. Há coisa de oito anos, foi publicada na Itália uma gramática de três volumes, com mais de 2 mil páginas. Mais recentemente foi a vez da Espanha, com mais de 5 mil páginas. Afastar-se da gramática tem conseqüências. Hoje jornais brasileiros publicam colunas que funcionam como consultórios gramaticais, resolvendo o que há de mais elementar. É conjugação, é plural de palavras, é regência verbal, é concordância, enfim, o que se aprendia no ginásio. Os leitores querem saber se é correto dizer ‘negocia’ ou ‘negoceia’, o dengue ou a dengue, o tsunami ou a tsunami, enfim, tudo muito elementar. Impossível tratar de uma questão mais transcendental da língua porque o jornal precisa suprir a lacuna da gramática.

O tema da redação da Fuvest, este ano, foi a ‘descatracalização’ da vida, termo que nem no dicionário está. Isso é admissível?

Pois é, o pobre estudante tem de adivinhar o que a palavra significa...Vamos ver: catraca tem a ver com algo que contém a passagem. Descatracalizar deve ter o sentido de desimpedir as coisas.

O senhor é favorável à unificação ortográfica do português?

Sou totalmente a favor. Neste ponto, nossa língua está atrasada porque a unificação da ortografia já existe no francês, no inglês, no alemão, no árabe! A dificuldade é que muitos pensam que ortografia é língua, e não é. Ortografia é um sistema à parte, diz respeito só à escrita. A unificação tem vantagens para o ensino, para a política, para a economia... Por que um livro feito em Portugal tem de ser relançado no Brasil por conta das diferenças ortográficas? O Dicionário Houaiss saiu recentemente em Portugal em vários volumes. A editora de lá teve de mudar a ortografia do dicionário inteiro para oferecê-lo ao público!

E por que tanta demora para a unificação entrar em vigor?

O acordo foi fechado nos anos 80 e ratificado em 90. Por abarcar vários países, inclusive alguns na África que estiveram em guerra, a tramitação tem sido mais lenta. Agora ficou assentado que não há a necessidade de se ter a assinatura de todos os países da comunidade lusófona. Basta que três países assinem o acordo - e isso já foi feito pelo Brasil, por Portugal e pela Guiné-Bissau - para que ele entre em vigor imediatamente. Mas ainda vai demorar. Portugal acabou de lançar dois dicionários importantes, um feito lá, e o outro é o nosso Houaiss. Não teria sentido tirar a validade dessas obras. Dicionário é um produto caro.

Brasileiros têm mais dificuldade de aprender línguas anglo-germânicas?

Qualquer dificuldade de aprendizado que se note no brasileiro tem a ver com deficiências do sistema educacional. Há muito tempo as autoridades voltaram as costas para o elemento produtor de cultura na escola, que é o professor. Quando se fala em mudanças no sistema, só se pensa no aluno. Não se pensa no professor que nem três meses de férias tem mais, tempo importante não só para o seu descanso, como para a sua atualização. Hoje este talvez seja o profissional que menos estuda, não porque assim queira, mas porque tem menos tempo para fazê-lo. Para sobreviver com salários aviltantes, precisa assumir uma jornada de oito horas de aula por dia, no mínimo. Isso engloba mais ou menos 12 horas de trabalho. Quem passa por isso todos os dias chega em casa esmagado.

E a reciclagem do corpo docente?

Não existe. Os professores estão estudando em livros escritos para alunos, o que está errado. Faça uma pesquisa por conta própria: se você entrevistar dez professores de língua portuguesa, pergunte que dicionário têm em casa. De modo geral, têm minidicionários, e todo professor de português precisa de um bom dicionário da língua, um bom dicionário de etimologia, um bom dicionário de regência, um bom dicionário de cultura geral, um bom dicionário de mitologia. Em Machado Assis, no conto Um Apólogo, o autor se fixa nos dedos de uma costureira, ‘ágeis como os galgos de Diana’. Ora, o professor precisa demonstrar que esses galgos não são quaisquer cachorros e Diana não é a mulher, mas o mito. Mas ele não tem tempo, recursos e nem motivação para buscar esse saber.

Televisão, rádio, cinema, publicidade, MP3 - o senhor não acha que há um predomínio da oralidade na língua portuguesa?

Ah, estamos imersos na oralidade. A língua falada varia geograficamente, já a língua-padrão se sobreleva a tudo. Ela é o interlocutor que nos traz o passado, nos conecta ao presente e nos prepara para o futuro. Por que é mais fácil compreender uma prosa do século 16 do que uma peça de teatro, do mesmo período? Porque o teatro está impregnado de oralidade. E a prosa é língua-padrão, resiste, fica.

A saída é ler mais?

Ler, ouvir, escrever, tudo é importante. Mas, se você passar a vida ouvindo ‘eu vi ele’, certamente não conseguirá escrever ‘eu o vi’. O que é melhor, o que é pior? Há uma ocasião adequada para tudo. Competência lingüística é ser um poliglota na própria língua, ou seja, é trafegar nos diferentes níveis de maneira adequada. Porém, o mais grave é que a oralidade invadiu a escola. Nossas crianças lêem raros livros, mas precisam ler artigos extraídos de jornais e revistas, textos com alta dose de oralidade. Estamos formando pessoas que não verão outra possibilidade para a língua portuguesa fora da oralidade! Cogita-se aumentar o número de aulas de português no currículo. Para quê? Para jogar mais oralidade? Ou reintroduzir o ensino de latim. Para quê? O latim não vai resolver o problema que enfrentamos com a nossa língua-padrão. Fico desanimado quando abro um livro didático e a primeira palavrinha dirigida às crianças é: ‘Oi!’. Língua é ritual. Em casa, você não se preocupa tanto com o copo que vai à mesa. Num jantar formal, é bom que lhe sirvam o vinho em cálice adequado. Assim é com o nosso português.

(O Estado de SP, 16/1)

           

 

 

 

 

Utopia nos anos 80: Flávio Torres, Maria Luíza , Marcondes Rosa e Paulo Lustosa

 

 

Quem sabe, pela revisão do passado, cheguemos ao futuro. Maria Luíza hoje, redesenhando utopias, para além do socialismo. O mesmo se diga dos que integraram o ''Projeto das Mudanças''.


ARTIGO
Ensaiando utopias

Marcondes Rosa de Sousa

[05 Janeiro 03h50min 2005]


Eis que ímpar nos chega o 2005. No planeta, maremotos clamam por relações não traumáticas entre homens e natureza. No país, a economia já esboça sorrisos, euforias por um ''Brasil possível'' e o apetite por prorrogados mandatos. Em Fortaleza, de novo, como nos anos 80, a conjugação do verbo ''mudar'', em outros tempos e modos. Só que agora, o projeto é difuso, atores perdidos num ''monólogo coletivo'', onde o social pacto é barco apegado aos remos mas esquecido dos rumos, por entre frios cafés-da-manhã e verbos desafinados.

De novo, entre nós, uma guerreira, a prefeita Luizianne Lins, a ensaiar utopias por entre áreas de risco, escolas indignas, misérias e problemas bem chãos. Com ela, equipe em boas dosagens (acadêmica, política e gestora). Talvez até a pedir out doors menos narcíseos, focados nas mãos da regente ao invés de no louro e no verde de seus cabelos e olhos. Quem sabe, pela revisão do passado, cheguemos ao futuro. Maria Luíza hoje, redesenhando utopias, para além do socialismo. O mesmo se diga dos que integraram o ''Projeto das Mudanças''. Curioso! Um deles me confessou: ''Irônico! Mas de onde tivemos maior apoio, nos anos 80, foi de fora (do Jornal do Brasil). E justo de um coronel, Virgílio Távora''. Mas estadista, que era o governador.

Ímpar, o momento, tal como o ano. Por baixo da superfície morna, aquecimentos a nos brotar das entranhas de nosso chão, em súbitos maremotos. O “monólogo coletivo” infante armando-se em progressivo e maduro diálogo. O utópico, a desenhar-se nos moldes do chão. Esta, a lição. E, com ela, a superação do chavão: ''tenhamos um feliz ano novo''!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do

 

Fonte: Diário do Nordeste 

Fotos: José Leomar

Fotos: José Leomar

 

Joaquim Santiago e Antonio Lima (foto abaixo) em plena atividade. São os profetas da chuva, personagens típicos da cultura sertaneja, que são tema de novo livro do professor Abelardo Montenegro

 

CHUVAS
Os profetas da esperança

O professor Abelardo Fernando Montenegro é um intelectual com abrangente área de estudo, autor de livros sobre economia, literatura, política, antropologia e sociologia. De suas 38 obras publicadas, 12 têm o Ceará como tema de estudo. Aos 92 anos, de plena lucidez, o professor Abelardo está trabalhando na conclusão de mais um livro que tem estreita ligação com o Estado, especialmente com o povo do interior. A obra, ainda com título provisório, “O Ceará e o profeta de chuva”

As águas que caem do céu ainda representam a principal esperança de dias melhores para o homem do campo, para quem trabalha na roça e tem pequenas criações. Daí se entende a tamanha importância que o sertanejo dá às previsões do tempo, que servem de orientação sobre o momento certo de plantar. Neste cenário de expectativa, popularizou-se a figura do profeta das chuvas, muito ouvido e respeitado no sertão. “Até a metade do século passado, não existia o meteorologista, a Fundação Cearense de Meteoro

 

 

 

 

 

logia, então, nesta época, os profetas da chuva representavam a única fonte de informação sobre o tempo”, explica o professor.

Com o livro, ainda em construção, o autor diz que resgata uma dívida que o Ceará contraiu com esta figura esquecida, “mas ainda importante”, da sociedade sertaneja. “O profeta da chuva é um homem que prevê, profetizava o tempo futuro. É ele quem diz se o ano vindouro vai ser de chuva ou de seca”, explica. “O Antônio Lima, um amigo de Quixeramobim, costumava dizer: ‘Há duas coisas importantes em nossa vida: a mãe da gente e a chuva’. Estou inteiramente de acordo com ele. Nada mais vital, principalmente para a sociedade sertaneja, para os agricultores e pecuaristas, do que a chuva que garante a lavoura e a criação de todos eles”.

Para Montenegro, nem as criações dos centros de meteorologia tiraram a importância dos profetas da chuva. “A novidade apenas resultou em mais informações sobre o tempo. Mas qual é a fonte mais segura?”, pergunta o professor

 

Valéria Almeida

Valéria Almeida

 

Abelardo Montenegro: “ Os profetas da chuva são tipos sociais com características próprias, que podem ser considerados representantes legítimos da sociedade sertaneja”

 

, para responder em seguida: “São as duas, que têm seus acertos e erros.. Há uma rivalidade entre o meteorologista e o profeta, entre a intuição e a ciência, mas o desfecho disso só os anos dirão”. A meteorologia, conforme o professor, não atingiu o grau de eficiência de 100% na previsão do tempo futuro. “O máximo que a ciência consegue é prevê um período curto, de no máximo dez dias. Então, esta ciência ainda está caminhando. Enquanto isso, devemos respeitar os profetas da chuva, com seus erros e acertos”.

Em seu trabalho de pesquisa, o professor passeia por outros Estados do Nordeste para conhecer a atuação dos profetas da chuva em outras regiões. “Além do Ceará, quero abranger, neste livro, os profetas do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Ainda estou recolhendo muitos dados. É um trabalho difícil, mas estou preparado para ele”, sentencia. Segundo o professor, o profeta da chuva já foi um dos personagens mais populares do sertão nordestino. “Assim como eram os jagunços e os beatos. Uns são personagens místicos, outros violentos e outros prevêem o futuro. São tipos sociais com características próprias, que podem ser considerados representantes legítimos da sociedade sertaneja”.

Para a professora e psicanalista Karla Martins, da Unifor, uma estudiosa da alma sertaneja, as previsões destes profetas servem de estratégia de sobrevivência psíquica e ajudam a lidar com o imaginário da fome e da morte, trazendo, portanto, uma mensagem de esperança e sonhos para o futuro. “As profecias que antecipam os ditos da natureza se diferenciam de uma tradição profética inspirada no messianismo e na idéia de um paraíso terrestre, pautada pelo imaginário do milagre. A imprevisibilidade excluída da dimensão do milagre e a incerteza do futuro são o céu e o chão de onde partem as profecias relativas ao tempo climático”, explica Martins.

Segundo ela, para fazer suas previsões pluviométricas, os profetas do sertão seguem, em sua maioria, rigorosos critérios de observação da natureza. “Critérios sistematicamente reforçados nas experiências e leituras dos sinais relativos, por exemplo, à posição dos planetas, ao vento, ao acasalamento dos bichos, à barra desenhada no céu durante o Natal”, informa. A importância do papel dos profetas fez surgir, em Quixadá, no sertão central cearense, uma Associação que realiza encontros anuais com estes “meteorologistas”. Para o professor Abelardo Montenegro, a criação da Associação também contribui para resgatar a dívida que todos têm com os profetas da chuva.

Montenegro é um dos fundadores da Faculdade de Ciências Econômicas, onde lecionou, por 30 anos, a cadeira de Economia Internacional. Neste período, conquistou o respeito da comunidade acadêmica nacional e até do exterior. Morou em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina, mas sempre voltou ao Ceará. E voltou para entender melhor sua terra, seus conterrâneos. Desta vontade nasceu, entre outros livros, “Psicologia do povo cearense”, “Ceará, tentativa de explicação”, “A Praça do Ferreira”, “História dos Partidos Políticos Cearenses” e “Interpretação do Ceará”.

Assim como Gilberto Freyre, Raimundo Faoro e Sérgio Buarque de Holanda estão para o Brasil, tidos como explicadores do país, Abelardo Montenegro está para o Ceará. É um explicador da cultura, da história, da formação da sociedade cearense. Uma comparação que ele recebe com bom humor: “Sou sociólogo, psicólogo social, professor, jornalista.

Agora só falta ter muito dinheiro ou então casar com uma viúva rica. Aí, iria resolver muitos problemas meus e dos amigos”. E é também com bom humor que justifica sua aposta em “O Ceará e o profeta de chuva” como um dos seus melhores livros. “Não sou profeta, mas fico impressionado com minha vontade em fazer este livro. Quando sento para escrever, não mais tenho 92 anos, talvez no máximo 50. Escrever é um elixir do rejuvenescimento”.

Délio Rocha

UFC: 50 anos

12:02 @ 11/03/2006

 
 
 
 
Reitoria da UFC
 
O Ceará divide-se em solidões, apesar da presença dos nossos nos postos de nacional influência. Resta à UFC força aglutinadora capaz de recompor hegemonias em cacos.

 

UFC: 50 anos

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

            Meio século, faz a UFC. E ela o festeja com os cem anos de seu fundador - Martins Filho. Justa a homenagem, de tributos e festas, a ela e por ela. Mas, por muitas que sejam, muito pouco ainda – é o que pensamos os que lhe fomos alunos, professores, gestores... A expectativa é a de um olhar retrospectivo e prospectivo, 50 anos atrás e à frente, entre ela e o Ceará.

 

            Ela é a matriz de nosso capital humano, a povoar a Praça dos Três Poderes – executivos, legislativos e judiciários, em nossa federação. Mas não só. Planta-se, mais ampla, lá onde o intelectual, o empresarial e o político se fazem poder. Mãe das universidades outras, nasceu já de braço com as agências de desenvolvimento. O Cetrede, em parceria com o BNB, um exemplo. Foi ela que, ao estado, levou o planejamento. E o Plameg, de Virgílio Távora, é marco disso. Dela saíram programas a elevar nossos padrões de desenvolvimento humano (saúde e educação sobretudo). Sua extensão deu “responsabilidade social” a alunos e docentes, além de canais mais amplos para a difusão científica, tecnológica e cultural. O Padetec e a Rádio Universitária, mostras disso.

 

            Em seminários e encontros, ela tem acertado o passo com o projeto dos cearenses. Agora, é tempo de novo acerto. O Ceará divide-se em solidões, apesar da presença dos nossos nos postos de nacional influência. Resta à UFC força aglutinadora capaz de recompor hegemonias em cacos. Em tempos de tensão entre o global e o local (o “universal pelo regional”), cabe-lhe ajudar a recompor e harmonizar as diversidades num grande projeto. Não ela própria isolar-se no Pólo Cultural do Benfica!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente.       

 

Histórica reunião

12:06 @ 11/03/2006

''Profético, o Conselheiro - o sertão vai virar mar, o mar virar sertão!''
 
 
 
A única fotografia de Antônio Conselheiro, feita por Flávio de Barros em Canudos,
em 06 de outubro de 1897.

HISTÓRICA REUNIÃO

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [02 Fevereiro 02h02min 2005]

Na Fiec, auditório repleto: empresários, acadêmicos, lideranças várias. Sérgio Machado, presidente da Transpetro, expõe reversão, pelo governo federal, da política dos transportes: a Embraer, o orgulho de agora. De resto, ferrovias ficadas do império, rodovias com saudades de JK e indústria naval em declínio desde os 80, hoje paralisada.

Plano factível e transparente, hoje a envolver sete estados, anseio de 95 por cento de nossa exportação. Apelo final: que, nordestinos, acertemos o passo com o agora: as águas transpostas do São Francisco, mais que para nos matar a sede, sejam caminho integrado à Transnordestina a às vias marítimas e fluviais a desaguar no porto da inclusão social. E a constatação: nunca tantos os cearenses com influência no cenário nacional. Mas sem forças, perdidos em solidões. Daí, o proposto concerto (com c e com s) de cantos e contracantos em plural harmonia.

Nos debates, empresários dispõem-se a solidarizar hegemonias em cacos. Acadêmicos abrem-se chamando todos a discutir o mar, em reunião da SBPC, em Fortaleza. Temores: ''Interesses eleitoreiros poderão dispersar-nos''. Abraços finais. Sérgio segreda-me já positivos encontros com lideranças políticas. O presidente do CIC garante-nos a entidade fórum aberto para as grandes questões comuns.
Emp
resário agrícola: ''Profético, o Conselheiro - o sertão vai virar mar, o mar virar sertão!'' E, na saída, alguém observa: ''É bom algo assim acontecer. Do contrário, esta morna calma aparente será atropelada por inesperados maremotos. Não foi disso sinal, o segundo turno das eleições em Fortaleza, com Luizianne e Moroni?''

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente.

 

Dribles grosseiros

12:31 @ 11/03/2006

 
 

 
 
 

Dribles grosseiros
Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo - [30 Março 01h41min 2005]

''Subir os montes para compreender as planícies. Às planícies descer, para captar a natureza dos montes''- eis o conselho de Maquiavel ao Príncipe. Aos montes e planícies, pois, em nossa educação!

Nos montes, ao virar o século, ela se vê ''capital social e humano''. E ''direito de todos, do nascer ao morrer''. Isso, da infantil à superior. Esta, grau inconcluso, por natureza... Na planície, ''universalização'' corrói-se como ''apressada massificação''. Daí, faculdades improvisadas, cursos em atropelo, sem ajuste ao ''mundo do trabalho'' e às necessidades: as sociais e as regionais. Para os míopes, um ''negócio'', em desafino com as antes ''casas onde se produz e se distribui o saber''. Nelas, professores tidos ''meros empregados ou palhaços até de alunos''. O diploma (e não o saber) como mercadoria posta à venda. Recém-graduados, a substituir, por preço vil, experientes e titulados docentes. Grosseiros dribles à legislação trabalhista: fantasiosas ''cooperativas'' e ''empresas prestadores de serviços'' a mascarar o ensino. Isso, em meio à discutível inclusão por cotas de negros e egressos da escola pública no seio acadêmico.

Na mesma planície, corporações econômicas já se dão conta de que a responsabilidade social pode lhes trazer, por ironia, vantagens em seu afã competitivo (www.ethos.org.br). Com tal intuito, normas aí estão (SA-8000). E é nesse tom que pressões sociais postulam ''ouvidoria'' para colher o vigilante olhar coletivo sobre a educação superior, como a dizer: é a sociedade (e não o aluno) o cliente maior da educação. Que, aos egressos da planície e hoje no Olimpo, lhes fique a lição!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente

 

 
 

Aguas retiradas (16.03.04)

12:43 @ 11/03/2006

 
 
Praça Getúlio Vargas
(Doacervo de Edson Morais)
 
 
 
''Aqui, somos, a partir do nome - ''Ipueiras'', em tupi -, ''águas retiradas''!

 

Águas retiradas

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [16 Março 01h39min 2005]


Pracinha do interior - ''virtual'', a diferença. Ali, gerações nos reunimos, em papos de ''suspiros poéticos e saudades'', mesclados à dor do povo, em súplicas por chuvas a São José.

Jornais estendidos ao chão falam de águas transpondo-se, de bacias interligando-se, feitas caminhos a tingir de verde os sertões. Pessimista, alguém reclama: ''Aqui, somos, a partir do nome - ''Ipueiras'', em tupi -, ''águas retiradas''!- Mais otimista, outra voz dá conta de projeto: o açude'' Lontras'', a dormir no Dnocs, à espera de ''decisão política''. Mais realista, alguém propõe a construção do ''Cupira'', mais modesto. ''Faltam recursos'' - avisa o prefeito. ''Descaso!'' - uma senhora revolta-se.

Escândalo, os elevados índices de indigência e pobreza absoluta de mais da metade da população. Sardônico, alguém cobra: ''E cadê as apregoadas indústrias de Tasso e de Ciro, que, por aqui, não apareceram?'' Os mais otimistas apontam progressos: na educação básica e na queda da mortalidade infantil. E outros, a decantar o potencial das serras úmidas, das macambiras, da cultura e do capital humano da terra. Mais pragmático, alguém grita: ''E por que não uma associação?'' E uma jovem: ''Sou funcionária no Congresso Nacional. Panfletagem? É comigo mesmo!''. A idéia é faísca a se alastrar...

Fico a matutar. Uma pequena cidade, em seu atraso, a converter-se em emblema das populações esquecidas: um ''sítio'' às margens de uma ''www'', na Web, www.ipueiras.com. Ao lado, a virtual ''pracinha'': ipueiras@grupos.com.br, todos a se dar as mãos. O local fazendo-se global, socorrido por este. Tempos novos. Que se lembrem disso nossos políticos!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente

 

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(Na foto, Adail Sobral e Frô, na entrega de premiação a esta)
 
 
LEITURA E PRAZER
 
Adail Sobral
 
 
(...)  Concordo plenamente  com as várias colocações suas. E creio que o prazer na escola não está ligado a palhaçada. É preciso, a meu ver, unir Bakhtin a Vygotsky. Explico brevemente:
 
Desenvolvimento e aprendizagem não têm uma relação direta, embora tenham relação. É preciso afastar a influência nefasta da pedagogia teleológica.
 
Ensinar é desafiar o aluno a ir além do que alguma teoria maléfica disse que, na idade dele, ele tem condições de ir. Se, de 10 itens, o professor 'ensinar" um só de modo que o aluno descubra como se constrói o conhecimento, o resto o aluno aprende sozinho. O professor tem de ser dialógico: partir da pergunta do aluno, não das respostas que julga ter. Porque talvez pergunta e resposta não correspondam. Parte-se do rap para chegar a Machado de Assis, em vez de enfiar Machado a alunos de tenra idade, que aí só vão querer rap! Alguém dirá: você não ensina e por isso julga fácil. Não julgo fácil e digo que, quando ensinei (da pré-escola à graduação), fiz isso que prego. E fui repreendido mais de uma vez pelas direções, até que cansei e fui ser tradutor e teórico. Mas vou voltar!
 
Li Heidegger aos 17 anos, porque um meu professor, a partir dos 12, vendo meu interesse (ele viu!), me "ensinou" a ouvir música clássica alemã e me falou desse pensador ao tratar justo de música (Wagner). Não entendi nada em termos intelectuais na época, mas a marca do anseio de descobrir a realidade das coisas, que Heidegger deixou em mim, ainda não acabou, tantas décadas mais tarde. Sou uma criança que pensa, porque, quando criança, me permitiram pensar e sentir, etc. e ao mesmo tempo ser criança. Não tive filhos, mas "criei" os dos outros, que vão muito bem hoje. Só que, para isso, briguei com alguns amigos (menos com algumas amigas, porque as mulheres... Bem, as mulheres sabem das coisas.)
 
Está provado que, desafiado, o aluno caminha; enclausurado numa dada expectativa, ele fenece e, com ele, a escola. Vygostsky desenvolveu uma linguagem específica para multimutilados de guerra (há um filme sobre isso) se comunicarem e eles aprenderam e superaram suas deficiências. A escola precisa ser comunidade, não um ambiente estranho em que se estuda mas não se lê, em que se disciplina o corpo e se mata a mente e os sentidos.
 
O conto erótico é a vara zen que produz a iluminação, mas depois é preciso meditar durante anos para entender que houve iluminação!
 
Por paradoxal que pareça, o que falta à escola é ****ordem***! Logos! A escola hoja trabalha com o mythos do discurso "correto" e com a métis do respeito absoluto às diferenças. Falta-lhe a ordem do discurso, do logos, a ordem do pensamento, o prazer da descoberta, conduzir o aluno a se autoconduzir, ensinar a pescar e não dar um peixe, não a repressão, que isso existe de várias maneiras na escola e só serve para piorar mais. O prazer tem de vir do fato de o aluno descobrir o prazer de ir dos conceitos espontâneos aos sistemáticos da ordem do discurso escolar sem sofrer mais do que as exigências da disciplina intelectual. Ler não pode ser transformado em exercício, mas em prazer da descoberta do mundo. A escola tem primeiro que ensinar os professores: médico, cura a ti mesmo, disse o sábio há tantos séculos!
 
O aluno constitui o professor e vice-versa. Mas o professor teve enfiadas na cabeça umas viseiras que não fazem ver o valor do aluno como incitação a ser um professor melhor. Traduzo há mais de 20 anos, e cada livro que chega é para mim um desconhecido. Quando acabo uma tradução, volto às primeiras páginas e as reformulo, assim como altero outras partes, porque só no fim posso dizer que entendi. Como o professor pode achar que já sabe, se sua obrigação é a eterna descoberta, um espírito que deve ser "comunicado", tornado comum aos "dois", porque conteúdos são transmitidos bem melhor pelos livros, pelas máquinas.
 
Por uma educação libertadora, à maneira de Epicuro, não das esquerdas teleológicas falidas, nem das direitas neoconservadoras do adestramento do aluno!
Voltarei ao assunto.
 
 

Águas Mortas (Ruy Câmara)

14:54 @ 12/03/2006

 
 
 
Poder emudecer ante as águas que vão sumindo é quase uma virtude. Flutuando sobre o cascalho, sepulcro das águas paralíticas, tudo que aí jaz, parece se acomodar tão lentamente, quanto as palavras impuras contidas na muda história dessa gente. É ingenuidade pensar que não estamos a adulterá-la. Estamos sim, com palavras e interconectividade. Mesmo que se bastem, essas imagens precisam ser tocadas pelos vastos sentidos. Assim se acomodam e se convertem em palavras sentidas.

Numa continuidade de reflexão aqui iniciada sobre a sintaxe dos rios, por João Cabral de Melo Neto:

Águas Mortas

Que seja o destino das águas quebrar a monotonia dos mares,
sejam antes desviadas para deixar fertilidade e vida por onde passam.

Ruy Câmara

Só agora, livre dos murmúrios que me perseguiam a eito, posso sentir o quanto é difícil cruzar a barreira da ficção enquanto a reflexão teórica ameaça danificar as imagens que se projetam adiante.

Nenhuma imagem fala por si mesma. O rio morto é obra da minha paciência, hipérbole de miséria e a tumba sórdida dos esquecidos. Desceu inteiro, solitário, tristonho. Como foi ingênuo e ao mesmo tempo magnífico, levando peixes para o mar de peixes, até o fim da devoração. Já não chora enquanto escorre-se como uma lágrima ressequida sobre o cascalho do meu rosto. Já não urra mais em sonhos, nem sente a aflição do último veio que se esgota no curso do próprio silêncio. Desse veio restará apenas uma taça quase vazia, a cicuta de quem aí irá beber na sequidão do vale, até a hora do cortejo que vejo deixando a aldeia, parte do ofício da providência que não providencia.

A última campina já se foi, deu-se inteira a comer. Resta o lodo, que é o fim das águas, a solidão do homem que foge do gosto salobro de uma tarde devorada pela fome. No horizonte, aberto no desabraço das próprias asas, um abutre perdido não sabe como se esconder no ar azul. Parece um pêndulo-negro à procura de um abrigo, ou do desabrigo que o mantém indeciso entre continuar ali pairado, ou flanando baixo até cair no solo firme.

Poder emudecer ante as águas que vão sumindo é quase uma virtude. Flutuando sobre o cascalho, sepulcro das águas paralíticas, tudo que aí jaz, parece se acomodar tão lentamente, quanto as palavras impuras contidas na muda história dessa gente. É ingenuidade pensar que não estamos a adulterá-la. Estamos sim, com palavras e interconectividade. Mesmo que se bastem, essas imagens precisam ser tocadas pelos vastos sentidos. Assim se acomodam e se convertem em palavras sentidas. Mas o tempo vai passando, as águas também, protelando o que na última hora será dito: Desse veio restarão umas poucas palavras poéticas, palavras cheias de perturbadoras imagens, tanto e quanto um entressonho que vai se materializando devagar, devagar, até que um sonho novo venha substituir o velho. Tudo sofre os efeitos da substituição calculada, tudo, inclusive a alacridade do meu riso.

Há poucos instantes e agora novamente indagando-me sobre isto, com a maior serenidade possível, chego à legítima conclusão de que, o caminho adiante não tem atalhos, e a metáfora do sonho pode ser a foz ou o abismo. Pelo abismo passarão só as imagens. Mas sem palavras todos os olhos são mudos, e as novas águas não se aperceberão na travessia do desperdício.

Onde puseram as palavras proféticas dos Gênios Malditos que diziam, “O Sertão vai virar mar”? Ora, o gênio não se expressa pelo olhar. Que o diga, Borges. As imagens ocas morrem cedo porque não se comportam bem no contexto. Mas não convém perder de vista o que vai fluindo no caminho dessas águas, nem é oportuno reivindicar o retorno ao passado. Sabemos nós que a natureza nem sempre reabilita sistemas extintos.

Aqui cabe dizer algo menos restritivo: Para quem das águas retira o sustento, os leitos são caminhos naturais, traçados pelo Empreiteiro de todas as obras. Para quem aí navega sobre toras milenares, são os leitos que potencializam as riquezas nacionais. Para quem precisa desviá-los para gerar estoques de signos monetizados, todos os rios deveriam ser comunicantes com o Jordão. Se este é um geral desejo, os leitos mortos serão meras palavras e tão restritos quanto certos conceitos universais. O tempo que espere, e só nos resta continuar o percurso.

Mas ao invés de reprimido entre as margens estreitas de um rio paralítico - desatento à amplitude infindável da própria subjetividade, e apesar do murmúrio que revela numa curta pausa, as sombras mortas do invisível, e por toda parte há quem diga que sou uma porção dessa invisibilidade espacial, e ao mesmo tempo, parte substancial do vazio temporal que me comporta -, melhor é fazer um passeio a pé pelos campos contíguos ao leito do Sono, onde poderei admirar um estranho e muito belo contraste, de um lado, o ocre enegrecido do barro petrificado em robustas colinas, e do outro, o esplendor da soagem, de cuja aparência, como é natural nessa época do ano, tinge as vastas superfícies com um colorido inimitável.

Mas com o passar das águas e dos homens, tudo vai ficando banal, repetitivo e um obstáculo intransponível continuará a ser tão avassalador, quanto a fúria vingativa das catástrofes gigantescas. É melhor seguirmos a marcha. Estamos mais interessados nos signos do que nos enunciados. Contudo, não me apraz repetir o trotar barulhento dos idealistas e naturalistas. Em tudo há incoerência, tanto que, os mais exaltados até já insinuam o extermínio humano para o bem da natureza.

E aqui novamente, olhando para essas nuvens ágeis, fingidoras, sinto que é hora de fazer um balanço de consciência, antes que esta reflexão se misture às palavras vãs da lei impura, que como as toras milenares, também apodrecerá nas próximas correntezas. Mas como posso ser coerente com o meu discurso, sendo ao mesmo tempo algoz e vitima da natureza, usuário das benesses do meu tempo, e impávido como o sol outonal que despenca sobre os telhados e vai se deitar para incinerar a alma de quem aí estiver, ou frio e insensível como os cavaleiros andantes da política, que iniciaram a longa marcha pela universalidade do poder? A marcha continua, tão incerta quanto a vida frágil de quem todos os dias repete os mesmos trajetos para suster-se. Parece ser esse o destino dos rios e dos homens. Mas para que pressa, se ninguém nos espera em lugar algum? O mundo é grande, o Céu é maior.


ruycamara@uol.com.br
Ruy Câmara é poeta romancista, dramaturgo e sociólogo.

O texto acima, posfácio do livro Águas dos Trópicos; p. 265, Edições Bagaço e SECULT, uma antologia de ensaios e de poemas contemporâneos organizada por Beatriz Alcântara e Lourdes Sarmento, para a Bienal do Livro

 

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Mas foi Alencar que nos legou a ''história imaginada'' dos subterrâneos de nosso inconsciente coletivo: Iracema, ''a porção feminina da alma nacional'', a nos abrir sinuosas e sedutoras sendas, nas pegadas da serpente e de Eva, rumo ao solidário.

Iracema: 140 anos

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [13 Abril 01h51min 2005]


Duas formas de ler a vida e o mundo opunham-se na antiguidade: o logos (''história real'') e o mythos (''história imaginada''). Tais formas hoje se abraçam. Os mitos, elevados a símbolos, são prenúncios do logos (a ciência).

Em nossa ''história real'', a pecuária marcou-nos, de masculino, o chão cearense: Na amplidão da caatinga, a rês. Atrás dela, o vaqueiro. Entre os dois, apenas a mística e a solidão. Mas foi Alencar que nos legou a ''história imaginada'' dos subterrâneos de nosso inconsciente coletivo: Iracema, ''a porção feminina da alma nacional'', a nos abrir sinuosas e sedutoras sendas, nas pegadas da serpente e de Eva, rumo ao solidário. Iracema saída dos banhos: das sombras, dos ventos, do sol. O ''aljôfar d'água'' (das chuvas, lagoas, cascatas, rios e mares) a rorejar-lhe o corpo, salpicado de verde: o dos ''mares bravios'', da relva e da selva, da alma cearense.

História de amor, sim, entre Iracema e o guerreiro branco! Mais que isso, o decantar da hospitalidade alencarina. Autêntico tour por ''onde canta a jandaia'', as ''alvas praias'', serras, sertões, a rica toponímia, rituais, culinária e cultura, a ter por guia ''o pé grácil e nu'' de Iracema. Aí, a sugestão de novos conceitos, mapeamento e roteiro para o turismo, ora caído no vil dueto de ''gringos e prostitutas''!

Iracema, 140 anos! Justo quando o Ceará se repensa em seus caminhos, de sintaxe e perenização do verde e das águas. Tudo para que ''Moacir, o filho da dor'' aqui finque morada. O romance conclui-se: ''O primeiro cearense ainda no berço emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de uma raça?'' Persiste a reflexão!

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente

 

 

 

QUEM NÃO LÊ NÃO ESCREVE

Wander Soares

 

 

Bill Gates afirmou: "Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros"

 

É alarmante o fato de que apenas 1% dos alunos brasileiros da 3ª série do 2º grau (ou seja, os que se preparam para ingressar na universidade) tenha domínio adequado do idioma português.

 

O resultado, expresso em pesquisa do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), deve servir de alerta para os responsáveis pela gestão do ensino, os professores e os pais de alunos. Não é sem razão que os estudantes brasileiros reagiram de forma tão contundente ao "provão" instituído pelo Ministério da Educação, que expõe o despreparo com que nossos alunos saem das universidades.

 

O problema apontado pela pesquisa, que inclui outras áreas do conhecimento, como a matemática, poderia ser simplesmente atribuído, numa análise mais simplista e superficial, à má qualidade do ensino público. O estudo, entretanto, também abrange os alunos das escolas particulares, nas quais, em tese, se pratica ensino de melhor nível. Fica claro que a questão é mais abrangente e grave, merecendo a atenção de toda a sociedade e das autoridades neste final de século. Seria ingenuidade, para não falar em omissão histórica, imaginar que possamos conquistar o desenvolvimento sem preparar adequadamente nossos jovens para um mundo em que a informação, em todas as áreas do conhecimento humano, será um diferencial decisivo para delimitar o grau de independência e competitividade de países, empresas, instituições e, sobretudo, indivíduos.

 

Não bastam tecnologia de ponta, redução de custos, programas de qualidade e produtividade. Para participar da globalização com vantagens competitivas, o Brasil precisa de valores humanos, cujos talento, cultura, criatividade e preparo são requisitos fundamentais ao desenvolvimento. Observa-se no país, contudo, uma perigosa desvalorização da cultura básica, da erudição e do conhecimento. A informação científica e humanística é "pelletizada" em apostilas, na "indústria" do vestibular ou na realidade virtual da multimídia eletrônica. A grande maioria dos cursos de 2º grau e "cursinhos" prepara o aluno apenas para realizar a prova, mas não desenvolve nele o raciocínio, o senso crítico e o conhecimento de base. Obras literárias importantes são resumidas, de forma pobre e descaracterizada, em poucos parágrafos. As apostilas são confeccionadas sem estudos prévios, ao contrário do que ocorre com os livros, que demandam anos de pesquisa por profissionais, especialistas, intelectuais, escritores e cientistas, contendo ilustrações detalhadas e informações completas.

 

Já sem cultura básica, nossos jovens também não são estimulados à leitura de jornais e revistas, que também se constituem em fonte imprescindível de informação e formação. Os estudantes sabem manipular com habilidade os microcomputadores, em casa e, de forma crescente, também nas escolas, públicas e privadas. "Navegam" com fluidez na Internet, mas não são capazes de interpretar um texto de Machado de Assis; são verdadeiros ases das artes marciais dos jogos eletrônicos virtuais, mas não conseguem redigir um texto com princípio, meio e fim, estilo, forma e linguagem; "conversam'' com colegas de outros continentes, via modem, mas atentam contra o idioma com seu pobre vocabulário. Nossos jovens têm acesso a todos os canais da era da informação, mas não têm informação. Por isso, no ano decisivo de disputa de uma vaga na universidade, recorrem a cursos especializados em vestibulares, que treinam, mas não ensinam.

 

As escolas brasileiras não possuem bibliotecas. As raras existentes são incompletas e, o que é pior, pouco frequentadas. Em casa, a leitura de livros, igualmente, não é estimulada. Nada contra a informática, a multimídia e a realidade virtual. É inadmissível, porém, a ausência de formação intelectual e a alienação diante da realidade tangível. Para reverter esse quadro - uma responsabilidade de autoridades, educadores, professores e pais -, não basta oferecer aos alunos os imprescindíveis livros didáticos. É preciso oferecer-lhes incentivo e meios de lerem os principais autores nacionais e estrangeiros, da literatura de ficção e não-ficção, jornais, revistas e

obras científicas e humanísticas. Essa é a forma de construirmos uma sociedade inteligente, culta e capaz de conduzir o Brasil a um destino melhor.

 

Como reflexão, fica o alerta de Bill Gates, o multimilionário gênio da informática, que, sem qualquer constrangimento, afirmou: "Meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros". Sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever - inclusive a sua própria história.

 

WANDER SOARES

 

Wander Soares, 51, é vice-presidente da Abrelivros (Associação Brasileira dos Editores de Livros), diretor-adjunto da CBL (Câmara Brasileira do Livro) e diretor de marketing da editora Saraiva.

 
 
Segurança, o chão dos direitos

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - [25 Maio 02h44min 2005]


Medo, fobia até! Eis o sentimento detectado por recente pesquisa de O POVO, em Fortaleza. Insegurança, a queixa maior (65,5%), acima do desemprego (60,1%), do mau serviço de saúde (53,1%) e do custo de vida (37,1%). A violência pisoteia-nos a vida: nos shows, nas ruas, no trabalho, residências, escolas. E faz-se presente em pessoas próximas (58,6%), sob a forma de furtos (30,2 %), de assaltos e roubos (37,6%), entre outros.

Desculpas, as de sempre: recursos minguantes, regime de colaboração (União, Estado e Município) em atropelo, a esconder incompetências. No mais, o clima geral em nossa política: papos, palanques, promessas adiadas para ''o próximo mandato''. Tudo, num estranho e maligno autismo, cada um a se agarrar a seus pedaços e ganhos.

Cidadão, retorno aos bancos de faculdade, quando me premiam os sonhos socialistas, de um lado, e os pessoais dramas existenciais, de outro. Nisso, cai-me às mãos o livro Meu encontro com Marx e Freud, de Eric Fromm. E, em sala de sala, a voz do escritor Moreira Campos em refrão: ''Drama social algum é maior que minha dor de dente'' (Fitzgerald).

Hoje, violência torna-se dor-de-dente maior a nos roubar o chão em que se assentam os ''direitos fundamentais do homem''. Assim, há que ser discutida para além da ótica policial. Ensaio disso tivemos, nas últimas eleições em Fortaleza, quando ''amor e temor'' foram a campo, feitos ''mocinho e bandido''. Fim de jogo, abraços sob a bandeira do ''quem ama protege''.

Voltar à questão impõe-se. Mesmo sem eleição. Não possível, simulem-se ''pré-candidatos''. Moroni e Delegado Cavalcante, ícones ainda do imaginário do povo?

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente

 

 
Plantão Gramatical
lava jato ou lava a jato?

 
 
Plantão gramatical
 
Adísia Sá

O Povo - [20 Dezembro 02h35min 2005]

Uma entidade não se projeta pela aparência de suas instalações, mas pela eficiência de sua atuação. E quando a entidade é de prestação de serviço à comunidade, a sua importância cresce na proporção direta de seu trabalho.

Poucas, entre nós, as entidades que estão voltadas exclusivamente para o bem comum, para o engrandecimento moral ou intelectual das pessoas. Dentre as que merecem o aplauso e o agradecimento do cearense, avulta-se o Plantão Gramatical.

Desde quando o conheço e dele preciso e recebo as informações de que necessito, nunca me faltou. Vem de longo tempo, talvez de suas primeiras atuações, quando aparecia como algo diferente e original. Dúvida, ignorância mesmo, tudo era esclarecido, informado com detalhes, ultrapassando, quase sempre, o imediatismo da questão.

Como jornalista, quantas vezes não bati à porta do Plantão, pelo telefone, tirando dúvidas, aprendendo. No auge de meu trabalho como ombudsman do O POVO, raro o dia em que não pedia socorro ao Plantão. Seus atendentes, professores, mestres, sempre a postos ... nunca faltavam , pelo contrário, encerravam a informação garantindo a sua presença, sempre que necessária.

Silenciosamente, Plantão Gramatical ganhou terrenos, espaços na admiração e no respeito do cearense: do jovem aluno ao intelectual, todos em busca de informações, de esclarecimentos. E saíamos todos enriquecidos com o que vinha do amigo distante: prestativo, competente, generoso, seguro e anônimo.

Sim, quem nos atendia e atende no Plantão Gramatical é anônimo, faz questão de ficar no anonimato, como o verdadeiro mestre - o que não procura, mas merece, o aplauso dos alunos... Fortaleza em peso é aluna do Plantão. Obrigada, mestres, e que continuem em sua missão, por todos louvada.

Para mim não basta louvar o Plantão Gramatical: é necessário pedir melhores condições de trabalho para os que ali mourejam. Nunca reclamaram e sabiam que a Imprensa estaria, como está, de seu lado. Pelo contrário: parece que se sentem muito bem onde estão. Eu, por mim, acho que é hora de todos nós, beneficiários pelo Plantão ao longo do tempo e todo tempo, clamarmos por melhores acomodações para os mestres à distância.

Quem, neste Estado e noutros também, pode dizer que jamais precisou do Plantão? Pois que nós, os seus beneficiários, nos juntemos e apelemos à Prefeitura, ao Governo, ao Papa e sejam quem for: quanto melhor instalado o Plantão Gramatical, maiores serviços prestará a quem dele solicitar.

Alguém duvida disto? Experimente,ligue, diga seu problema e depois me responda: o Plantão Gramatical não merece o que estou propondo?


ADÍSIA SÁ, jornalista e ombudsman emérita do O POVO

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PAULO ABEL DO NASCIMENTO, O SOL MAIOR

Marcondes Rosa de Sousa

Na Coluna "Vertical", da edição desta sexta, do Jornal "O Povo", lemos:
 
SOL MAIOR
 
E Paulo Abel, cantor cearense que fez sucesso em vários palcos europeus com voz a la soprano, será lembrado pelo Cefet-Ceará. Durante encontro dos ex-alunos dessa escola, dia 10 próximo, às 19 horas. Paulo Abel foi aluno da antiga Escola Técnica Federal do Ceará, rebatizada de Cefet.
 
***
Muitas lembranças. Um dia, pró-reitor de extensão, nos anos 80, fui procurado por Paulo Abel do Nascimento. Ele se confessou filho de pobre. Mágoas de grande maestro brasileiro, que qualificou sua voz como "imoral". Depois, decoberto pelos europeus, foi qualificado como um dos antigos (em seu caso natural) dos "castrati". Voz soprano, caso raro no mundo. Dizia-me: "Se não tivesse sido descoberto, seria eu, com certeza, um desses prosaicos batedores de carteira".
 
Paulo Abel queria fazer alguma coisa pelas crianças pobres. E, no caso cearense, seu projeto era uma "Opera Nordestina". Apoiamos seu projeto. De vez em quando, recebia eu um telefonema de Abel, em qualquer parte do Globo: "Professor, estou indo aí para o Ceará". E aqui, metia-se à criação do "Grupo Sintagma" e dos movimento vários em torno da sonhada "Ópera Nordestina".
 
Criança criança. Gostava de almoçar, quando aqui, em minha casa. Leonardo, o filho mais novo (hoje músico) vivia às turras com ele. Bernadete dizia que ele comia demais, louco por coisas que, de muito, não provava na Europa: feijão com maxixe e coisas do gênero.
 
Um dia, foi ele, na UFC, à tesouraria receber um pro-labore. Lá, o funcionário lhe pediu a carteira de identidade. Ele não a portava mas perguntou para quê. "Ora, respondeu-lhe o funcionário. Para provar que você é você". Aí, Paulo Abel, com sua voz potente e estridente, dessas de fazer tremer as vidraças, começou a cantar". Nisso, passou o reitor, José Anchieta Esmeraldo Barreto, a contemplar a cena. Terminado, ele perguntou ao funcionário: "Alguém, além de mim, cantaria assim?". O funcionário não entendeu. Aí, Anchieta ordenou: "Pague ao homem. Só ele tem essa voz"...
 
Depois de pró-reitor de Anchieta, lá fui eu para a TVE/Ce. Por coincidência, Paulo Abel veio ao Ceará. Meteu-se de bermudas, a verificar e meter-se nas coisas: "Meu Deus, esse piano está se perdendo. Tira daqui, leva prali". O chefe do setor veio falar comigo, preocupado. Pensava que Abel era pessoa minha que eu iria colocar em seu lugar como chefe de sei lá que seção. Escutei a preocupação do funcionário. por acaso, Paulo Abel havia deixado comigo uma revista com fotos de recital seu em programa nacional. Abri a revista com as fotos coloridas. Perguntei ao funcionário da TVE: "É esse aqui, de smooking que você pensa que vou colocar em seu lugar?" O funcionário caguejou: "Ué! Aquele ali de bermudas é esse aqui? E quem é esse artista tão grande e tão simples assim?"
 
 
 
 
Paulo Abel deixou-me alguns CDs seus. E, um dia, um conhado meu, de Teresina, deu com tais CDs e começou a ouvi-los. Aí, Bernadete (a empregada) veio até ele e disse: "É o Abel, né?" Meu cunhado ficou intrigado com o gosto estético da cozinheira: "Você conhece?" E ela, sorrindo: "Ora, come pra diabo. E, quando está perto, atrapalha todo o meu serviço". Pergunte ao Leonardo, com quem ele fica "inticando" fazer as vidraças tremerem com a voz dele! Meu cunhado só entenderia quando expliquei que a figura vinha muito em minha casa...
 
Muitas histórias. Novelescas, até. Uma professora americana, visitante e soprano, um dia confessou-me seu ciúme de Paulo Abel. Ele era um soprano mais potente que ela. Tinha caixa toráxica mais avantajada.
Era grande amigo de Violeta Arraes, que, como Secretária de Cultura do Ceará procedeu a histórica reforma do Teatro José de Alencar.  Um dia, com Paulo Abel, foi visitar as obras. Lá chegando, todos trabalhando em meio a máquinas em intenso barulho. Aí, Paulo Abel, em dado momento, soltou a voz. As serralheiras foram silenciando. Martelos e vozerios, idem. Silêncio geral dos operários. E, afinal, palmas muitas...
 
Com Joãozinho Trinta, no Rio, desenvolveu projeto junto a crianças. Pensava em seu exemplo. E, no Ceará, muito de nossa música deve a ele.
 
Minha saudosa homenagem a Paulo Abel e a solidariedade aos que, na antiga Escola Técnica Federal (hoje Cefet), o relembram em justa homenagem.
 
Prof. Marcondes Rosa de Sousa

A Maia Junior (07.12.2005)

01:35 @ 18/03/2006

 

 
A Maia Júnior
Marcondes Rosa de Sousa

 

O Po o - [07 Dezembro 02h30min 2005]

Estamos, sim, nos perdendo em ''coisas pequenas'' e sem projetos, no Ceará. ''Tirou daqui'', é voz geral. A vez agora é de Maia Júnior, o vice-governador, a nos apelar para a revisão das vias de nossa educação.

Aqui, o Fundef ensaiou-se. Cedo, CPI já nos indicava desvios e correções. Um dia, nos veio o ''orgulho'' dos ''98% de crianças na escola''. Muitas delas, indignas, como as indigenas - foi a resposta ao interrogativo ''qual'', na raiz do vocábulo ''qualidade''. Símbolos disso, os ''anexos da Prefeitura'', em Fortaleza, e o ''pacto pela escola digna'': todos nós (incluídos