Grupos

       

 

“Continuo dizendo com Luther King: Eu tenho um sonho.  Continuo tão sonhador como nos belos tempos do Projeto São José, a razão maior por que entrei e - digo isto entre nós - por que saí do governo. Não mudaremos, Marcondes, essa realidade tão cruel, que levou e ainda leva tantos cearenses à marginalização e à diáspora, sem a mediação da educação e da cultura. Veja a propósito artigo que produzi sobre o São José em 2005, se não me falha a memória, em que não trato apenas de idéias, mas sobretudo de ações concretas.”  

 

(Cláudio Ferreira Lima, ao Grupo Ethos-paidéia”, em 2 de março de 2008)

 

 

 

AS PROMESSAS DO SÃO JOSÉ

           

Cláudio Ferreira Lima*

 

                                                           “O sertão é um mar, meu senhor.

                                                            E a gente ‘tamo’ chegando.

                                                            Para dizer eu vim, a gente veio.

                                                            Olha, a gente veio lutar pela vida e lugar”.

                                           

  Na olaria do tempo,

de Ricardo Guilherme

& Ângela Linhares

 

 

 

            Há dez anos, quando surge, o projeto São José é a grande promessa do governo do Estado. Nasce do Programa de Apoio ao Pequeno Produtor Rural – PAPP, integrante do Projeto Nordeste, concebido pelo Banco Mundial para ser a redenção do Nordeste.

 

        O PAPP, executado pela Secretaria de Planejamento - SEPLAN, em 1995, havia chegado a apenas 56 municípios. Tem menu diversificado: apóia de instrumentos agrícolas a criação de caprinos,  de casa de farinha a fábrica de confecções. Aprovado o pleito, o presidente de Associação Comunitária é convocado a Fortaleza. E chega acompanhado da liderança política  para assinar o contrato e receber o cheque. Não é difícil imaginar desvios e insucessos. Não raras vezes, do previsto não aparece  nada, e quando aparece o dirigente comunitário se apossa de tudo.

 

        Com o São José é diferente. Primeiro, não será mais ação isolada da SEPLAN, mas, isto sim, ação integrada de governo. Todas as secretarias serão envolvidas. Segundo: deve estar presente nos 177 municípios beneficiários, não importa o partido do prefeito, com prioridade para os mais pobres e os assentamentos da reforma agrária; Terceiro: ação de governo sem ouvir a sociedade não faz sentido O governo existe para a sociedade, e não o contrário. Portanto, a comunidade é quem conhece as suas próprias necessidades e se empenhará, com a ajuda do governo, a resolvê-las mediante a participação ativa dela na definição e execução do projeto. Quarto - este ponto é decisivo: combater a pobreza é combater o paternalismo e o clientelismo, que distorcem tanto a democracia representativa que esta acaba se tornando um simulacro.

 

        Daí, todo o cuidado é pouco. Por isso, adota-se uma espécie de pedagogia da libertação. Procura-se atender, de início, prioritariamente, às demandas básicas de água e energia, juntamente com a mecanização agrícola. As próprias comunidades nos ensinaram que, sem água e energia, nada vai adiante: nem bicho nem gente. Além do mais, elas se tornavam presas fáceis dos favores politiqueiros do carro-pipa e da miséria da desinformação. A propósito desta última, ouvimos numa comunidade: “Energia é a coisa melhor do mundo: clareia por fora, mas clareia por dentro da gente, também”.

 

        A luta contra o paternalismo e o clientelismo é, sem dúvida, o desafio maior. Algumas vacinas importantes são administradas. O governo faz convênio com o Ministério Público e a Secretaria de Segurança Pública para monitorar os projetos. Mais: os convênios são assinados em solenidade pública no município com a presença das autoridades e depois de cumprida esta formalidade: “alguém tem alguma coisa contra? Se tiver, que fale agora ou se cale para sempre”. Ainda por cima há um disque-denúncia: 800-1903, data do santo.

 

        E não fica nisso. Quinto e último: o São José é mais que combate a pobreza; é mudança cultural. Tem lema: “vamos mudar o sertão/ para o sertão não se mudar”, que serve de mote para cantoria. Um cordel, que termina assim: “Viva meu Padim Ciço/ São Francisco em Canindé/ Viva o Banco Mundial/ E o homem que tem fé/ Viva o povo organizado/ Viva o governo do Estado/ E viva meu São José”. E uma bela peça teatral, Na olaria do tempo, de Ricardo Guilherme e Ângela Linhares, que fala deste jeito: “O dinheiro é para quem trabalha; governo só toma de conta. E o resto é mutirão, é multidão em romaria do tempo que se constrói tijolo por tijolo. A argamassa é a parceria; a ação, a engenhoca”.

 

        No dia 10.05.1966, realiza-se o 1° Encontro do Projeto São José. Comunidades de todas as regiões do Estado se reúnem em Fortaleza, no Centro de Convenções, para mostrar seus produtos e trocar experiências, como a de Jordão, em Sobral, que conclama: “Se ajunte minha gente/ Todo mundo de mão dada/ Construindo a vida nova/ Com esperança renovada/ No Projeto São José/ A força de quem tem fé/ É sempre recompensada”. Nesse congraçamento, é bem visível na face de cada um o sentimento de pertencer a uma grande comunidade que acredita em si, na sua própria força, para lutar e romper os grilhões do paternalismo e clientelismo.

 

        E as comunidades procuram melhoras. Vão a outros Estados conhecer experiências bem-sucedidas. Algumas delas, no Cariri, com apoio do Estado e de prefeituras, foram ver como se fabrica farinha em Pernambuco. Enquanto isso, os gerentes do São José, que coordenam escritórios em 12 municípios – e que são a mola-mestra do Projeto –, fazem reuniões de trabalho com os agentes de desenvolvimento do BNB. O Banco quer apoiar com o microcrédito as comunidades mais avançadas. A cooperativa de compras de pequenos supermercados de Fortaleza se interessa por produtos das comunidades do São José, e vai ao Interior para acertar detalhes. Enquanto isso – meados de 1997 -, já se programam assistência técnica e metas a serem cumpridas pelas comunidades, como crianças na escola e com vacina em dia, adultos alfabetizados, mulheres com pré-natal e prevenção do câncer em dia e todos com registro de nascimento e carteira de identidade. Em suma, as promessas do São José contagiam a todos em todos os quadrantes do Estado. Não é à toa que as pesquisas de opinião do governo à época registram o São José como o projeto mais bem avaliado pela população do Estado.

 

        Muitos leitores podem pensar que isso tudo é um sonho, uma heresia. Ainda mais se tiverem ouvido, como ouvimos, nas últimas eleições, este diálogo ainda, infelizmente, tão corriqueiro entre nós: Diz um cidadão para o outro: - Fulano é candidato. E o outro logo pergunta: - É? E ele tá dando o quê?. Pois bem: o São José, tal como descrito, já existiu durante algum tempo “neste Ceará caboclo/ De Mãe Preta e Pai João”. E bem que pode voltar. A semente está apenas adormecida. Só é preciso chover bom governo e se ter cuidado redobrado com as ervas daninhas do paternalismo e clientelismo.

 

        É hora, pois, de renovar as esperanças. Há ainda muito, muitíssimo que lutar em nossa terra pela vida e lugar.

        ______________________

           

            (*) Cláudio Ferreira Lima é economista, ex-secretário de Planejamento do Estado e primeiro coordenador do Projeto São José.

 

 

 

 

CARTA A UMA FILHA DE EVA

 

 

(Mensagem divulgada, por Marcondes Rosa de Sousa, na Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, que antecedeu ao Grupo Ethos-paidéia, pela Internet, em dezembro de 1999)

 

Prezada Colega,

 

Não, não são “menores” as questões que a colega levanta. Não vejo assim e tenho certeza assim já não vêem muitos que, à frente dos cargos que ocupam, tentam enfrentá-las. A crítica de insensibilidade atribuída às “autoridades” é, quase sempre, um estereótipo de visão, comum a quantos que, dos bucólicos “bosques de Academo“, observamos e julgamos a vida. Comigo, pelo menos, foi assim, até’ quando tive de arregaçar as mangas para o trabalho de salgar de chão idéias e críticas...

 

Sobre a vida ao redor, não tenho, como a professora, visão tão pessimista. A despeito de Nostradamus e dos previsíveis surtos escatológicos (de final de década, século e milênio), ainda não presenciei, desta vez, a anunciada encenação real do “Apocalipse Now’. Felizmente, o mundo não acabou. Mas, se assim foi, isso não nos autoriza a concluir que, nele, tudo são flores... E que, de algum modo, ele chega ao fim, tão violenta tem sido a mudança que se vem operando em toda a galáxia de valores, crenças e paradigmas, cedendo lugar a novas lógicas, com cruas seqüelas e traumáticas acomodações, em todos os setores de nosso quotidiano.

 

Decerto, já não somos os mesmos. E mesmas já não são, nem mesmo, as águas em que nos banhamos. Mas, por ironia, a construção do novo, mais do que nunca, parece agora resultar do paradoxal abraço entre Heráclito e Parmênides, orientados, ambos, pelo desenho de um novo horizonte a buscar, preservada, a essência das coisas e a tocar para a frente o universal projeto humano. E cá estamos nós, no limiar do Terceiro Milênio, em novo capítulo da narrativa humana, a perseguir, de novo, os perdidos sonhos da Revolução Francesa, pela re-significação dos ideais da “liberdade, igualdade e fraternidade”, sob o crivo da solidariedade entre os homens, nestes tempos em que tudo se enxerga à luz da globalidade.


          Mais fundo e longe que isso, lá estamos nós no Gênesis, de novo, instados a revê-lo, inesperadamente despertos de um profundo e adâmico sono. Ao centro do Eden, agora, deparamo-nos com a árvore do bem e do mal
o saber. E, seduzidos pela serpente e por Eva, tomamos às mãos o até então proibido fruto, com a certeza de que, com esse gesto, abrimos os olhos, ficando mais perto da onisciência divina. “Educação, educação, educação”— as três prioridades do mundo gritamos em coro com Tony Blair, com o espanto de um “eureka” dos novos tempos! Uma educação, no entanto, não mais sob a conotação excludente do mundo de Adão, sob o viés do qual enxergávamos: a) a ela mesma como um “fruto proibido”; b) todo processo criativo como um “parirás os filhos com dor”; c) o trabalho como o castigo do “comerás o pão com o suor do teu rosto “; d) a sinuosidade e a sedução como a maldição do rastejar ao chão imposta à serpente.

 

Sim, é tempo de reconciliar educação e trabalho, dois fundamentais direitos do homem, pela aproximação entre a escola e a vida. Retirar do “trabalho” a inicial conotação do castigo, do “tripalium” (canga sobre o dorso dos bois), desde a origem. O trabalho, na verdade, éaferramenta da construção de nosso projeto econômico e social, base de toda a cidadania.

 

Tenho dúvidas se o começo de tudo devam ser os “estatutos “. Em nosso País, marca-nos o pecado original de tudo iniciar pelo reescrever da Carta de Pero Vaz de Caminha ... A mim, as cartas só alcançam sentido quando se convertem em sinal de pactos. E, nesse sentido, a LDB, em realidade, já é um avanço. Nela está escrito que a educação escolar não poderá estar desvinculada do mundo do trabalho, apontadas que estão as ali cimentadas passarelas entre a escola e a empresa. Nessa esteira, documentos legais vários tentam aproximar os dois mundos. E, mais recentes, aí estão as diretrizes e os perfis da educação profissional, produzidos pelos Conselhos de Educação. Isso, entretanto, não parece o bastante. Não bastam as normas. E preciso consciência, “cultura” e, sobretudo, decisão social.

 

Concordo. A educação básica, tal como historicamente praticada por nós, a pouco nos leva. Pouco tem a ver com a vida. Aparentemente, nossa escola fundamental e média é até mais densa do que a de outros povos (a americana, por exemplo), em termos do volume de informações. A diferença (disse-me uma vez alguém) é quando, em casa, de repente estoura a instalação hidráulica, ocorre um problema com a geladeira ou o sistema elétrico. O estudante brasileiro fica inerte; o americano, com o que aprendeu na escola, vai lá e resolve o problema...

 

Também penso que devemos “desmitifica ra universidade” Nem todos, de fato, precisam chegar à universidade... Prefiro, ao invés, desmitificá-la de outra forma, afirmando que é ela que precisa chegar a todos. Não só abrindo-se num imenso leque de extensão e serviços mas, também, aumentando suas vagas. Estamos com índices ínfimos de acesso à educação superior no Brasil, quando os países desenvolvidos já decretaram, para a população jovem, a universalização de tal acesso, nos primeiros anos do entrante milênio. Entendo, por outro lado, que a educação não pode ter uma única porta, o vestibular (já morto na LDB). Os desiguais merecem diferentes portões: os campos diversos do saber; as formas várias de inteligência; as ordens diferentes de idades; os oriundos das desigualdades geogáficas, econômicas e sociais...

 

A colega diz que, em sua vida profissional, fez discípulos que, por sua vez, farão os seus. Que isso, entretando, não basta. Faz-se preciso muito mais. E, nessa ânsia, diz sentir-se “desesperada “. O que fazer? é a questão.

 

Penso que, num mundo a mudar, o desespero e a postura de Jeremias, a chorar a Jerusalém desolada, não são a chave. Neste instável instante, quando passamos a limpo o Gênesis, a solução está, sem dúvida, no compartilhamento por todos dos frutos da “árvore do bem e do mal”. E quem guarda o legado da índole da serpente e de Eva há de encontrar, em fazendo a sua parte (estou seguro), as alavancas necessárias da intuição, do veneno e da emoção, para a coletiva tarefa de reinvenção do mundo. Que as filhas de Eva, pois, apercebam-se de que têm um relevante papel nessa história.

 

Transcrita de Marcondes Rosa de Sousa. EDUCAÇÃO: INSISTÊNCIAS E MUTAÇÕES (Fortaleza. Edições UVA, 2002. Pp. 160-162)

 




 



 

 

HUGO CHÁVEZ NUNCA

SERÁ SIMÓN BOLÍVAR

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

3/3/2008

 

 

Novamente o astuto Hugo Chávez conquistou manchetes de primeira página nos principais jornais do país. O Estado de S.Paulo (03/03/2008) destacou: “Chávez mobiliza tropas na fronteira com a Colômbia”. E a Folha de S. Paulo, na mesma data, repetiu a notícia em letras garrafais: “Chávez mobiliza tropas contra a Colômbia”.

 

O motivo do ímpeto bélico do ditador de fato da Venezuela, que está armado até os dentes, foi a morte de Raúl Reys, numero dois na escala do comando dos bestiais narcoguerrilheiros das Farc que mantêm, com requintes de campo de concentração, prisioneiros políticos e pessoas indefesas. As torturas e humilhações são feitas em nome do povo e justificadas pela causa.

 

Reys foi morto com outros companheiros em um acampamento no Equador, e é de se perguntar o que estariam fazendo esses bandidos travestidos de salvadores da pátria em outro país. De todo modo, o presidente equatoriano, Rafael Correa, um dos seguidores de Chávez, se apressou como este a fechar sua embaixada em Bogotá.

 

Chávez é um falastrão e com sua retórica teatral e esperta conquista mentes e corações. Seu comportamento é populista. Sua alma é a de um caudilho. Suas ações são ditatoriais. Sem dúvida, elementos que fazem sucesso na América Latina. Acostumado a jogos de cena usou a libertação de reféns das Farc como golpe internacional de marketing para que aparecesse como líder benevolente. Mas, ao mesmo tempo, pediu que aos seus queridos companheiros facínoras fosse retirada a denominação de terroristas.

 

Diga-se de passagem, que o presidente Lula da Silva certa vez recusou ao presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, tal denominação para os angelicais malfeitores, atitude, sem dúvida, ligada à solidariedade existente entre companheiros do Foro de S.Paulo, entidade de esquerda da qual Lula foi um dos fundadores.

 

Hugo Chávez, que vem se perpetuando no poder através de sucessivas eleições, que de legalidade só têm a aparência, pois derivam das manobras do caudilho, se apresenta como a reencarnação de Simon Bolívar sem a envergadura do marcante líder latino-americano, nascido em Caracas em 24 de julho de 1783.

 

Bolívar era de uma família rica, dona de muitas terras. Aos 14 anos teve iniciação militar chegando a subtenente e mais tarde a coronel. Sua educação foi feita em Caracas, mas ele ampliou sua visão de mundo em viagens a vários países da Europa, tendo estado em particular na Espanha. Bolívar apreciava as atividades de ordem intelectual e a leitura, mas se destacou como líder político e militar tendo participado ativamente da difícil luta da independência da Venezuela do domínio espanhol, o que lhe valeu o título de Libertador. Em 5 de julho de 1811 a independência da Venezuela foi formalizada sem unanimidade na adesão das províncias.

 

Representante da “elite crioula”, Simon Bolívar idealizou, primeiramente em moldes liberais, uma grande nação latino-americana. Seu sonho era o de formar pelo menos uma confederação de grandes Estados que servissem de contrapeso ao poder dos Estados Unidos.  De início essa confederação seria formada pela Nova Granada, Venezuela, Equador (unidades que constituíam a Colômbia), Peru e Bolívia, e esses Estados teriam um governo comum. Mas as dificuldades para manter a unidade da confederação foram intransponíveis e no final de 1829 eclodiu na Venezuela o movimento separatista que posteriormente se estendeu aos outros Estados.

 

Bolívar acabou derrotado pela doença e pela tristeza de ter seus sonhos desfeitos. Longas e difíceis lutas o tornaram prematuramente envelhecido aos 47 anos de idade e veio a falecer em 17 de dezembro de 1830.

 

Bolívar, de início liberal, acabou se tornando um ditador, mas nunca foi socialista e Hugo Chávez jamais alcançará sua trajetória. Em 1830, ano de sua morte, afirmou o Libertador externando toda sua desilusão: “A América Latina é, para nós, ingovernável”. “Se acontecesse que uma parte do mundo voltasse ao caos primitivo. Isso seria a última metamorfose da América Latina”.

 

Se numa hipótese Hugo Chávez invadisse a Colômbia, o Brasil o acompanharia?  Acredito que pela vontade e gosto de Marco Aurélio Garcia, o chanceler de fato, isso se daria. Mas a profunda amizade de Lula da Silva pelo companheiro da boina vermelha já não parece a mesma, apesar do líder petista ter seguido de certa forma os passos de Chávez na senda do autoritarismo. E quando o presidente da República hostiliza de forma vulgar e brutal os outros Poderes, como fez agora com o Judiciário, parece se exercitar no estilo chavista, o que levanta a suspeita de que partirá para o terceiro mandato.

 

De todo modo, percebe-se a competição dos egos descomunais de Lula e Chávez e o apoio brasileiro ao vezo hitlerista do venezuelano não está definido. A menos que Chávez esteja apostando na vitória de Barack Obama, mulçumano com fortes ligações com a esquerda radical, como denunciam a bandeira de Cuba e a foto de Che Guevara em seu escritório oficial de campanha, em Houston. Se Obama vencer, possivelmente a política mundial dará uma volta e tanto. Então, Chávez  seguirá tranqüilamente em seus intentos e Lula irá atrás.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br  

 

 

 

 

 

     

 

      CACOS EM CAOS PRODUTIVO

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor da UFC e da UECe

 

 

    Alterna-se o Ceará, como seus rios, dos solidários surtos das cheias ao solitário das cercas, nas cacimbas sob cadeados, em seus leitos secos. Desde a arte até a política: a União pelo Ceará, com Virgílio Távora (anos 60); o “Pró-mudanças”, com os “jovens empresários do CIC” a nos unir “contra a miséria e o clientelismo político” (Anos 80).

 

    Agora, nossas hegemonias em cacos. O Ceará, atrás, no País e na região. Agricultura, nem a familiar. Indústria, a da construção civil, de curtas pernas. O olhar nosso, sob a ilusão do efêmero das bolsas: a tipo “família” e a do mercado.

 

    O CIC, de novo, resina a querer nos untar.  Críticas: “não é o mesmo de outrora”. A faltar-lhe, o carisma de um Celso Furtado, guru de outrora.  Discordo. Lá, nossos ciclos políticos eram entre 15 e 18 anos. Nos 80, a democracia era o amanhecer. Agora, em novo ciclo, “cacos” são “caos”, a democracia em novo tom. Não o “império da maioria”, mas minorias em diálogo, em dissonantes acordes aprendidos com a bossa-nova. Tempos do “pensamento complexo”, do “caos produtivo”, onde o mundo intelectual, com suas múltiplas inteligências, pactua valores e dá verbo à ação dos gestores (estatais e sociais), captados pelo tato político.

 

   

    Hora de novo contrato social. As instituições educacionais – da infantil ao mundo acadêmico -  vistas como indústria científico-cultural a formar capital humano.  O crescimento econômico, metamorfoseado em sustentável desenvolvimento, a mirar o “longo amanhecer” sonhado por Celso Furtado. O País, sob a clássica pauta da “unidade na diversidade”. E o “ethos” feito lei de responsabilidade social, a ensaiar passos além do “integrar para não entregar” do Projeto Rondon, nestes tempos de bossa-nova: o das dissonâncias em produtivos acordes, na feição democrática como caleidoscópio social de agora!

 

   

 

 

A guerra dos alfabetizadores 

 

"Vós, investigadores, não deveis confiar em autores
que, apenas pelo emprego da imaginação, se fazem
intérpretes entre a natureza e o homem, mas somente
naqueles que exercitaram seu intelecto com os resultados
de experimentos." (
Leonardo da Vinci)



Antes mesmo de Francis Bacon, Da Vinci já mostrava o caminho da ciência experimental, cujos avanços mudaram a face da Terra. Alguns ramos da ciência embarcam em naves espaciais. Mas, entre nós, há educadores que, nessa matéria, continuam refestelados em seus uivantes carros de boi. As discussões sobre como alfabetizar uma criança ainda não seguiram os conselhos de Da Vinci: se há dúvidas, é preciso buscar os "resultados de experimentos". Os vôos da imaginação só cobrem a decolagem do processo científico. A aterrissagem é no solo do mundo real.

 

Circulam pelo menos quatro escolas de pensamento. Há uma que afirma ser a leitura um processo global. Aprende-se a ler frases inteiras, blocos de palavras. Ao lidar com um assunto palpitante, tudo dá certo. Esse é o método exaltado pelos gurus e adotado quase universalmente. Outra escola afirma que o melhor é metodicamente aprender sons e letras. É o método fônico, neto do velho bê-á-bá. Uma terceira seita fica entre as duas anteriores. Adota o processo fônico, mas acha necessário contar uma história interessante, em paralelo à tarefa mecânica de aprender a associar sons e garranchos no papel. Por último, há um grupo agnóstico, que afirma que, não importa o método, tudo depende do professor. Cada grupo cita seu guru favorito, e a discussão patina.

 

Como a capacidade de ler e entender é algo eminentemente mensurável, estamos falando de números. Por sorte, há números em abundância. Isso porque, como os Estados Unidos e a Inglaterra passaram por dilema semelhante, foi criado um Literacy Panel, encarregado de juntar todas as pesquisas sérias feitas sobre o tema (veja-se Diane McGuinness, O Ensino da Leitura, editora Artmed). Apareceram cerca de 100 000 artigos científicos. Passando o pente-fino, sobreviveram menos de quarenta. Pelas mesmas razões que não é necessário ser engenheiro automobilístico para ver quem chegou em primeiro numa corrida, podemos medir qual método alfabetiza melhor sem entender suas teorias.

 

Os resultados são bastante claros e se aplicam ao português – por ser também uma língua fonética. Nem uma só pesquisa confiável mostrou vantagens para o método global. A disputa foi entre variantes do método fônico. A combinação do fônico com uma contextualização ou enredo não mostrou bons resultados. Ao que parece, a historinha que acompanha o aprendizado de letras e sons desvia a atenção e consome tempo dos alunos. É melhor primeiro aprender a ler bem e depois dedicar-se a entender o que está escrito. Observou-se também que, quanto mais fraco o aluno, mais o método fônico traz vantagens. Tais resultados puseram uma pá de cal na controvérsia. Todos os países de Primeiro Mundo que haviam abandonado os métodos fônicos voltaram a adotá-los. Faz pouco, o ministro francês Gilles de Robien proibiu o global.

 

As pesquisas mostram vantagens sistemáticas para o fônico. Portanto, a hipótese dos agnósticos é negada. De fato, se o método fosse irrelevante, tais diferenças não existiriam. Mas os agnósticos podem ter alguma razão quando se comparam professores que não conhecem bem nem um método nem outro. Nesse caso, as comparações não mostram nada.

 

Em ciência não há conclusões definitivas ou finais. Mas, até que se refutem as conclusões do Literacy Panel, o que sabemos hoje nos obriga a aceitar a superioridade do método fônico. A sociedade brasileira tem o direito de fazer duas exigências aos que recebem salário (pago pelos contribuintes) para cuidar de alfabetização. Que superem suas cruzadas ideológicas e se ponham de acordo. Que para isso se valham dos princípios da ciência empírico-dedutiva, que, desde Bacon, todos os cientistas aceitam (ou seja, o que valida uma hipótese são experimentos, não os gritos de seus defensores).

 

Claudio de Moura Castro é economista
(Claudio&Moura&Castro@cmcastro.com.br
)

 

 

 

 

       

Celso Furtado (UFC 1984)

 

 CÍCLICAS CHEIAS E SECAS DAS ÁGUAS

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

        De minha infância, em Ipueiras, guardo o dialético jogo das águas, por entre cheias e leitos secos dos ricos, a nos falar dos surtos entre o solidário e o solitário. Moacir daqui emi­grante, fui compreender “além, muito além daquela serra”, a dos Órgãos, a divisão entre os homens que teria visto nascer Rousseau, com seu pacto social, quando um deles cercara um pedaço de terra ao rotulá-lo de  “isso é meu”....

 

        Tal jogo, aí está, cíclico, a nos marcar da arte à política: dos Oiteiros aos Clãs e Siriarás, a literatura, à vida social e política, para ficarmos nos mais recentes: a “União pelo Ceará”, em torno de Virgílio Távora, a pacificar os velhos PSD e UDN, quando o Ceará pautou-se pelo acordo sob Planos de Metas Governa­mentais, dando saltos evidentes, nos anos ‘60.  E, nos anos ’80, quando, a partir dos debates com Celso Furtado, no Seminário “Perspectivas para o Desenvolvimento da Re­gião Nordestina”, unia-nos todos, no Auditório Castelo Branco, na reitoria da UFC, em torno de um projeto que ter­minaria por colocar em cena os então “jovens empresários do CIC – Centro Industrial do Ceará”: na caudal do movi­mento pela redemocratização do País e, entre nós, para aqui “acabar com a miséria e o clientelismo político”. 

 

        Dão-nos conta os da APESC - Associação dos Professo­res de Ensino Superior do Ceará - de encontro nacio­nal que aqui, já nos anos ’60, reunia o mundo acadêmico, abrindo espaços para escalada mais madura, a nos vir, nos anos ’80, com o Simpósio “Para onde vai a universidade bra­sileira?”, sob o olhar “de dentro” e “de fora”  dos “jardins de Academo” como “indústria do conhecimento” a formar ca­pital social e humano, na oitiva, em diálogo, de empresários e integrantes da CUT, entre atores diversos outros.

 

        Ao final dos anos 90, aqui recebíamos o então embaixa­dor do Brasil na Indonésia, Jadiel de Oliveira, após 40 anos pelos “quatro campos do mundo” a nos falar do soci­alismo do século XXI, então se esboçando a partir dos “ti­gres asiáticos”, onde a precedente prática afinal resvalaria em teoria. Lembro-me de indagação minha se o modelo era válido para o Brasil. E ele: “Sim, se a partir do Ceará”. Pergunto-lhe por quê.  “É que o sol libertário sempre nasce mais cedo, no Ceará” – res­pondeu-me. Depois, no Plenário 13 de Maio, no Legislativo Estadual do Ceará, ouviria, de Cristovam Buarque, a insistên­cia desse mesmo conceito, ao longo de nossa história. E, de nosso folclore, depois, olharia as cenas do “Ceará Moleque”, a aguardar, sob vaias, o preguiçoso e retardado sol, em plena Praça do Ferreira, em Fortaleza...

 

        Agora, queixas de novos surtos do solitário quando o Ceará é visto bem atrás no contexto do País e da região.   He­gemonias, em cacos.  Nossa educação, em coro com o Brasil, entre as piores do mundo. Agricultura, nem mesmo a fami­liar. Indústria, tão só a da construção civil, de curtos fôlego e pernas.  Emprego e turismo, em baixa.  Febre, apenas a efê­mera das bolsas - as do mercado e as do tipo família.  O mundo acadêmico, sobre falsos pisos e sem horizontes, insu­lado em seus castelos, sem o abraço das inteligências múlti­plas para o desenho dos valores a nos nortear e dar verbo ao projeto e ao amanhã, em nossa caminhada.

 

        De volta, agora, os reclamados surtos do solidário. O CIC a insinuar-se resina a untar-nos. Críticas, porém: “O CIC já não é o mesmo, hoje carente do carisma de um Celso Furtado, que via, entre nós, em ciclos de 15 a 18 anos, nossa economia e política. À época, ninguém mais já aceitava depender do es­tado, as coisas ditadas de cima p’ra baixo”. E nos citava o ímpeto intuitivo de Ulisses Guimarães sobre as eleições diretas: “ele levantou a bandeira e saiu sozinho correndo na frente”.s em ciclos que v5 a 18 anos, polcarisma de um Celso Furtado"rojetos de nossa caminhada...ileira, abrindo os caminhos mais madu

 

        Hegemonias, no Ceará, eis que afinal em cacos. Agora, são esses cacos o produtivo caos, novo sal da democracia do agora não mais “império da maioria”, mas diálogo das mino­rias, nos atuais tempos do “pensamento complexo” a tomar por base o “caos produtivo”. Nesse clima, novo contrato so­cial, onde as inteligências múltiplas (da verbal à transcen­dente), em diálogo, pactuam valores e dão verbo ao projeto social, rumo ao amanhecer de um sustentável desenvolvi­mento: “Quando o projeto social dá prioridade à efetiva me­lhoria das condições de vida da maioria da população, o cres­cimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. É fruto da realiza­ção de um projeto, expressão de uma vontade política”  (Celso Furtado).

 

        Novo tempo e hora de recíprocas grandezas, cicatri­zando descabidos arranhões e narcíseas posturas entre os três mundos ora em infante “monólogo coletivo”: o intelectual, com suas múltiplas inteligências por se abraçarem; o dos gestores (sociais e estatais); e do tato político, em novo pacto social, sob valores de agora.  Por lema, a clás­sica reedição da “unidade na diversidade”, ocasião para o reencetar passos. Não apenas no Projeto Rondon, em sua inicial e histórica missão, a do “integrar para não entregar”, mas em novo e mais alto degrau nos tempos de agora: o do reconhecer que a educa­ção, em todos os seus níveis e formas, é “indústria do conheci­mento”, a formar capital social e humano. E, sob essa ótica, contribuir para que retomemos as experiências de responsa­bilidade social, com o status de lei, as instituições educacionais a ter assento em nossa FIEC:

 

 http://www.fiec.org.br/publicacoes/jornalfiec/edicoes/0902/default.asp?URL=8

 

 

        São os nossos votos e esperança!

 

________________________________

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor aposentado as Uni­versidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará.       

 

UM ENCONTRO INESQUECÍVEL

 

Ricardo Marques*

O POVO – Domingo, 09/03/2008


           

Os hebreus sofriam há 400 anos, escravos dos egípcios. Deus preparara o caminho de um escolhido, desde o berço, para libertar Seu povo do cativeiro para a Terra Prometida. Moisés, criado como filho do próprio faraó, foi levado a fugir do Egito. Passou anos no deserto, pastoreando ovelhas e aprendendo com os desafios da vida, até que Deus o chamou para essa árdua missão.

 

O faraó não quis deixar o povo partir, daí seguirem-se pragas sobre o Egito. Somente a última delas foi terrível o suficiente para que o faraó se desse por vencido e libertasse os hebreus. Na Bíblia, em Êxodo, cap. 12, Deus avisa que todos os primogênitos seriam mortos por um "anjo da morte" que passaria pelo Egito; entretanto, os filhos dos hebreus seriam poupados. Para isso, deveriam imolar um cordeiro sem defeito, e aspergir o sangue nas portas de suas casas. O cordeiro seria assado e comido por cada família e, quando viesse o "anjo da morte" a cada casa, vendo o sangue na porta, passaria por cima. Vem daí o termo páscoa, do hebraico "pessach", que significa "passagem".


        Conforme dito, aconteceu. E, após isso, o povo foi liberto. Em Êxodo (12:13, 14), Deus institui a celebração desse evento: "(...) Quando eu vir o sangue do cordeiro, passarei por vós, e não haverá entre ti praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito. Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor: nas vossas gerações o celebrareis como estatuto perpétuo".


        Séculos se passaram. Jesus, o Messias prometido, Deus vindo em forma humana conforme prometido por todo o Antigo Testamento, é exaltado por João Batista: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Os discípulos começavam a entender: todo o evento da Páscoa, o cordeiro imolado, o sangue derramado que vencia a morte, na verdade foram dados por Deus como símbolos da obra redentora de Cristo, a vida eterna presenteada àqueles que crêem e aceitam o sacrifício do Cordeiro de Deus por cada um de nós. Jesus, o único que jamais pecou. Por isso o cordeiro pascal tinha de ser sem defeito.


        É chegado o dia. Jesus sabia, e já avisara: seria morto como o cordeiro da páscoa. Na celebração da festa com seus discípulos, durante a ceia, pede que, dali em diante, ao celebrarem a Páscoa, pensem no pão simbolizando o corpo de Cristo, e no vinho como o sangue dEle. E pediu que aquilo fosse repetido toda Páscoa, em memória dEle, até que voltasse.

       
        Jesus foi preso. Açoitado, espancado ferozmente. Dali, trôpego e exausto, caminhava pela via dolorosa, carregando nas costas duas enormes cargas: uma pesada cruz de madeira, onde dentro em pouco seria cravado pelos punhos e tornozelos; a outra, o pecado de toda a humanidade, por quem, em infinito ato de amor, morreria para que vivêssemos.

 

        Um homem simples, vindo do campo, Simão, chegava a Jerusalém para participar do sacrifício anual da Páscoa. Provavelmente trazia, na bagagem, um cordeirinho a ser imolado. Mas, no coração, talvez a desesperança de um futuro incerto, numa terra oprimida, um povo sofrido.


        Passava por ali, vendo a multidão, ouvindo a confusão nas ruas. De repente, seu olhar se cruza com olhos que ele jamais vira antes. À margem da dor e da zombaria, Jesus mira firme a vista de Simão: em menos de um segundo, a percepção da eternidade, alma invadida pelo amor perfeito, infinito.

 

Um tropeço, o olhar gracioso se desvia, a cruz vai ao chão. Simão sequer teve tempo de atentar para o sangue a cobrir a face daquele homem; sequer se dera conta de toda a dimensão cósmica do que ali acontecia... Repentina, a ordem dos guardas: "Ajuda-o! Carrega-lhe a cruz!".


        Um homem comum, que apenas passava. Um envolvimento inesperado, um privilégio a ser compreendido: em suas costas, o peso do símbolo dAquele que venceria a morte. Uma páscoa diferente... Um encontro inesquecível.


(*) Ricardo Marques é biólogo e paleontólogo, neurocientista e educador, membro da Igreja Batista Central e diretor-geral do Colégio Kerigma.

 

 

 

 

 

CARTA AO JORNALISTA PEDRO BIAL

Apresentador da Rede Globo de Televisão

 

 

 

(Encaminhada a este Blog por Circe Vidigal,

em nome da cultura, da desalienação

da grande massa popular (classes de A a Y)

 e que discutem, nas ruas,

com tanta profundidade psicológica,

 o grande eventual atual da nossa TV:

 o Big Brother Brasil”)

 

 

        Prezado Senhor

        Pedro Bial

 

      Digníssimo Jornalista, apresentador da Rede Globo de Televisão.

 

      Confesso, Sr.Bial que não sou espectador do programa o qual o senhor apresenta. Talvez para felicidade da minha cultura e para infelicidade do índice de audiência, ao qual seu programa está atrelado. Mas, tive durante um dia desses, num dos raros casos fortuitos que o destino apresenta, a oportunidade de, por alguns minutos, apreciar o tão falado Big Brother Brasil, o BBB.

 

      Para minha surpresa, durante uma ou duas vezes o senhor, ao chamar os participantes para aparecerem no vídeo o fez da seguinte maneira: “Vamos agora falar com nossos heróis!” De imediato, tive uma surpresa que me fez trepidar na cadeira. Heróis???? O senhor chama aqueles que passam alguns dias aboletados numa confortável casa, participando de festas, alguns participando até de sessões de sexo sob os edredons, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão de reais. Heróis?

 

      Pois bem, Sr. Pedro Bial, eu trabalho numa Plataforma Marítima que se localiza a aproximadamente 180 km da costa brasileira e contribuímos, mesmo modestamente, para que o nosso País alcançasse a auto-suficiência em Petróleo e continuamos lutando, todos nós, para superar esse patamar.

 

      Neste último dia 26 de Fevereiro presenciamos um acidente com um dos Helicópteros que faz nosso transporte entre a cidade de Campos e a Plataforma. As imagens que ficaram em nossa mente, Sr. Bial, irão nos marcar para o resto das nossas vidas. Os seus "heróis", Sr Bial, são meros coadjuvantes de filmes de segunda categoria comparados com os atos de heroísmos que presenciamos naquele momento.

 

      Certamente o Senhor, como Jornalista que é, deve estar a par de todo o acontecido. Mas sei que os detalhes o Sr. desconhece. Pois bem, perdemos alguns colegas. Colegas esses, Sr Bial, que estavam indo para casa após haver trabalhado 15 dias em regime de confinamento. Não o confinamento a que estão sujeitos os seus "heróis", pois eles têm toda uma parafernália de conforto, segurança e bem estar, que difere um pouco da nossa realidade. Durante esse período de quinze dias esses colegas falaram com a família apenas por telefone. Não tiveram oportunidade de abraçar seus filhos, de beijar suas esposas, de rever seus amigos e parentes... Logo após decolar desta Plataforma com destino a suas casas o Helicóptero caiu no mar ceifando suas vidas de modo trágico e desesperador. E seus "heróis" Sr Bial, a que tipo de risco eles estão expostos? Talvez aos paredões das terças-feiras, a rejeição do público, a não ganhar o premio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito.

 

      Os heróis daqui, Sr Bial, foram aqueles que desceram num bote de resgate, mesmo com o mar apresentando um suel desafiador. Nossos heróis, Sr. Bial, desceram numa baleeira. Nossos heróis foram os mergulhadores, que de pronto se colocaram à disposição para ajudar, mesmo que isso colocasse suas vidas em risco. Nossos heróis, Sr. Bial, não concorrem ao Premio de um Milhão de reais, não aparecem na mídia, nem mesmo os nomes deles são divulgados. Mas são heróis na verdadeira acepção da palavra. São de carne e osso e não meros personagens manipulados pelos índices de audiência. Nossos heróis convivem aqui no dia-a-dia, sem câmeras, sem aparecerem no Faustão ou no Jô Soares.

 

      Heróis, Sr Bial são todos aqueles que diariamente, saem das suas casas, nas diversas cidades brasileiras, chegam à Macaé ou Campos e embarcam com destino as Plataformas Marítimas, sem saber se regressarão às suas casas, se ainda verão seus familiares, ou voltarão ilesos, pois tudo pode acontecer: numa curva da estrada, num acidente de helicóptero, no vôo comercial de regresso a sua cidade de origem...

 

      Não tenho autoridade suficiente para convidá-lo a conhecer nosso local de trabalho e conseqüentemente esses nossos heróis, mas posso lhe garantir, Senhor Bial, que, caso o senhor estivesse presente nesta plataforma durante aquele fatídico acidente, seu conceito de herói certamente seria outro.

 

      Carlos Augusto Lordelo Almeida.

      Técnico de Segurança

      Plataforma P-XVIII

 

Em memória dos colegas:

Durval Barros

Adinoelson Gomes

Guaraci Soares

 

 

 

“BOLSA MARMITA”

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

14/03/2008

 

 

A festança foi em Dianópolis, Tocantins. O benfeitor dos pobres e parceiro dos ricos, presidente Luiz Inácio, entregou títulos de propriedade a 58 famílias de pequenos agricultores incluídos num projeto de irrigação rural que totalizou 2,2 hectares. Para compensar a bondade feita aos pequenos, 2,3 hectares foram repassados a cinco empresários.

 

 Os presentes ao comício acharam natural e justa a divisão, e o presidente foi muito aplaudido pela claque composta por 28 prefeitos, pelo governador Marcelo Miranda e demais autoridades. Satisfeitíssimas ficaram as 5.000 pessoas que foram levadas para assistir ao espetáculo da política. Elas ganharam refrigerantes e quentinhas com arroz, feijão e alguma outra comida de pobre.

 

Tal ato de coronelismo explícito em pleno século XXI ensejou a frase do senador Álvaro Dias (PSDB-PR): “faltam sete meses para a eleição e o governo já começou a distribuir quentinha eleitoral. Até outubro vão criar a ‘Bolsa Marmita”.

 

O governo na verdade já está incrementando sua impressionante máquina eleitoreira voltada especialmente para a pobreza. Se 45 milhões de pessoas já contam com Bolsa-Esmola, esse incentivo ao dolce far niente, agora vão também ser contemplados com R$ 30,00 mensais jovens de 16 e 17 anos, portanto, eleitores.

 

 

O Programa Bolsa-Família paga entre R$ 18,00 a R$ 112,00 de acordo com a renda e o número de filhos, mas, segundo tem sido noticiado, muitos que não precisam do auxílio o recebem do pai Estado configurado no benemérito pai Lula. É o Bolsa-Fraude funcionando como o “programa social” mais difundido no País.

 

 Tudo, porém, vai melhorar ainda mais em nosso paraíso tropical: Decreto do governo garante que as revisões da renda, que têm por limite R$ 120,00 per capita, só ocorrerão a partir de 2010, e daí com intervalos de dois anos. Por isso, mesmo a família que ultrapassar o limite de renda continuará a ganhar o cobiçado numerário.

 

 Tem mais, pois o ano é de eleições: Os agraciados com o Bolsa Família poderão abrir contas bancárias sem tarifa nem comprovação de renda e os titulares terão acesso a crédito de até R$ 600,00. Ainda segundo o governo, em abril serão treinadas 200 mil pessoas para trabalhar em prometidas obras do PAC. Haja marmita para distribuir a tanta gente.

 

Entusiasmado com os números da economia, Lula está como quer e gosta: em plena campanha. No seu primeiro mandado ele prometeu que seus ministros percorreriam o país de ônibus para sentir o cheiro da poeira e conhecer os problemas do Brasil. Como ministros viajam de avião, preferencialmente da FAB, não sentem cheiro de poeira. Parece também um tanto duvidoso que conheçam profundamente os problemas do País. Contudo, muitos deles acompanham o chefe em campanha e alguns vão sendo destacados como balões de ensaio para uma possível candidatura à presidência da República em 2010.

 

É o caso de Dilma Rousseff, chamada de “mãe do PAC” por Lula que, naturalmente, é o pai, e Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social que comemorou com pompas e honras os quatro anos de sua pasta. Durante a cerimônia festiva Ananias deu o tom de atraso da esquerda: clamou contra a privatização da Vale do Rio Doce, que na verdade se tornou um sucesso, e pôs em cheque o direito de propriedade.

 

No mais, o que se vê é o presidente da República usando palanques em todo Brasil para divulgar sua montagem eleitoral. Ele imprime nos discursos improvisados a velha e retumbante retórica sindicalista, esbraveja, cobra, vocifera, parecendo estar tomado por transe colérico. Para ter mais sucesso do que obtém seu companheiro Hugo Chávez em suas aparições pela América Latina, só falta a Luiz Inácio dançar o xaxado.

 

Lula tem retomado sua posição predileta de vítima. Queixa-se dizendo que não querem deixá-lo trabalhar, apela para sua longínqua origem pobre e comove o público ao dizer que sua mãe nasceu analfabeta, ao que José Simão, da Folha de S. Paulo, redargüiu que a sua nasceu analfabeta, desdentada e virgem.

 

É de se perguntar se tais arroubos populistas, esse entusiasmo de perfeito idiólatra, a crença nas próprias petas que matreiramente inventa não são sinais mais que evidentes de que ele só pensa naquilo: o terceiro mandado. Afinal, sabe que será muito fácil mudar a Constituição, pois conta com os subservientes parlamentares interessados apenas em privilégios e mensalões, ou seja, a “base aliada”.

 

Em meio a foguetórios e vivas que comemoram um crescimento de 5,4% do PIB em 2007, a crise na economia norte-americana lança sua sombra sobre o mundo e nosso Banco central já fala em aumentar juros para enfrentar a possibilidade de uma inflação mais alta e os gastos excessivos do governo.

 

Mas quem se importa? Os pobres têm marmita garantida, os ricos, altíssimos lucros e a classe média serve para pagar o imposto de renda mais alto da América do Sul, conforme levantamento feito pela consultoria Ernst & Young e, assim, sustentar Programas como o Bolsa-Fraude, o Bolsa-Esmola e o Bolsa-Marmita.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br

 

 

ERRADICAR A POBREZA
COM DESENVOLVIMENTO

 

 

Pedro Sisnando Leite

 

 

Muitos estudos comprovam que o Ceará

acumulou nos últimos vinte anos conhecimentos

valiosos para doravante acelerar a eliminação

da pobreza da população

 

O Povo - 15/03/2008 

 

 

A mais urgente tarefa que o governo do Ceará tem agora é prosseguir na luta contra a pobreza, especialmente no quadro rural, onde 70% dos seus residentes encontram-se abaixo da linha da pobreza. Vacilar nessa estratégia poderá significar perda de anos preciosos. Quando estudei a economia dos paises nórdicos (Escandinávia: modelo de desenvolvimento, democracia e bem-estar-Sisnando. Hucitec) aprendi que esses países trabalharam persistentemente durante cinqüenta anos na busca de um desenvolvimento com inclusão social e sem desigualdades. Nesse período, forças partidárias diversas dominaram o cenário político escandinavo, mas os objetivos desenvolvimentistas foram mantidos de modo inabalável. Hoje, estão entre os países de economia mais próspera e igualitária do mundo.

 

No caso do Ceará, a pobreza é antiga e de caráter endêmico. Um programa para enfrentá-la deve levar em conta certas características, requisitos e implicações políticas. O mundo subdesenvolvido tem colhido resultados medíocres na redução da pobreza porque persistiram em procurar fórmulas mágicas para um problema de natureza científica.

 

Muitos estudos comprovam que o Ceará acumulou nos últimos vinte anos conhecimentos valiosos para doravante acelerar a eliminação da pobreza da população. É preciso não esquecer que o Ceará passou por significativas mudanças econômicas e sociais e construiu uma rede básica de infra-estrutura que poucos países subdesenvolvidos dispõem. Políticas e concepções de estratégia de desenvolvimento foram idealizadas e testadas, a ponto de serem adotadas em outros estados da Região Nordeste e mesmo pelo Governo Federal, como ocorreu na área de saúde, Seguro Safra, Reforma Agrária Solidária e fortalecimento agricultura familiar (Pronaf).

 

Outro exemplo a oferecer como comprovação do acerto dessas concepções para o desenvolvimento com eqüidade e redução da pobreza foi a recente publicação da experiência cearense em um número especial de uma das mais famosas revistas de economia do mundo. Trata-se da "Progress in Planning" (www.elsevier.com/locate/pplann/), cujo título de capa é: "Regional development as a policy for growth with equity - The State of Ceará as a model", assinado pelos renomados economistas Raphael Bar-El e Dafna Schwartz, da Universidade de Ben-Gurion (Israel). Tão importante como esse fato, foi o testemunho do criador da Ciência Regional, o economista Walter Isard que, depois de conhecer os trabalhos desenvolvidos nos últimos anos no Ceará, encaminhou correspondência ao Governador do Estado afirmando entre outras coisas: "Tenho conhecimento do crescimento econômico do Estado do Ceará e ao mesmo tempo da pobreza persistente". "O conceito de política que foi elaborado e desenvolvido pelos governos do Estado coloca o Ceará à frente dos esforços importantes no processo de desenvolvimento: como alcançar a redução da pobreza e disparidades entre várias regiões e populações, juntamente com o crescimento econômico". Diz ainda o professor Isard: "Acredito que o Estado do Ceará está representando um papel histórico como líder de um modelo para a solução do problema tão penoso da pobreza".

 

Dentre as diretrizes desse modelo referenciado, destaca-se a necessidade de planejamento regional adequado, investimento público em infra-estrutura, especialmente em apoio às atividades das populações pobres. É prioridade essencial o investimento em capital humano e apoio às atividades não agrícolas no quadro rural de pequeno e médio porte. O desenvolvimento de "capital social" deve ser realizado através da cooperação e participação regional, intensificação do avanço tecnológico e melhoramento da produtividade agrícola e rural. O desenvolvimento do interior deve ser o motor do processo e não um apêndice; e o setor público deve trabalhar para corrigir "as falhas de mercado" que ao longo dos anos concentraram a renda e subutilizaram a mão-de-obra.O foco dos programas devem ser os mais pobres, mas é indispensável o aproveitamento das potencialidades regionais onde elas se encontram.

 

Com essas diretrizes, determinação política e apoio da sociedade, a pobreza do Ceará poderá ser erradicada, com benefícios para todos.

 

Pedro Sisnando Leite - Professor Titular Aposentado de Desenvolvimento Econômico da UFC e vice-presidente do Instituto do Ceará

 

 

 

Caleidoscópio

 

TAMANCOS E SALTOS ALTOS

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 17/03/2008 00:28

 

Entre nós, política é termo ambíguo. Desde Aristóteles, é a solda a nos integrar, humanos, no viver e construir o mosaico do social. Mas, de outro lado, carrega ele, desde 1500, os seculares vícios de nossa "coisa pública". Nesse quadro, os surtos éticos, por ironia, portam conotação caricata do antigo "rearmamento moral" da UDN de outrora ou da expressão de Brizola ao referir-se à "UDN de tamancos" (o PT) e à "de salto alto" (o PSDB).

 

Hoje é inesgotável o poço de nossos vícios políticos. E o clamor pelo "basta" alastra-se por toda nossa complexa nação. E, nessa caudal, são as próprias facções políticas que se armam dos Conselhos de Ética e Disciplina (nacionais, estaduais, municipais, zonais até). Ética e disciplina ora se exigem construção bem cuidada, no novo clima do repensar o contrato social de Rousseau a ora nos invadir toda a sociedade, em sua atual e complexa composição. É que democracia agora não é mais a ilusória miragem do "império da maioria". Antes, é diálogo e convivência das minorias, num amplo caleidoscópio. E, nesse quadro, outros os valores a se pautar e rever. E óbvio que, nesse quadro, "ética e disciplina" hão de transpor as posturas cartoriais de outrora.

 

Partidos políticos terão que acertar, porosos, seus passos com a complexa vida social do agora. Longo, assim, o chão pela frente, que a coisa pública terá, não mais tida como patrimônio de uns poucos. Com essa consciência, foi que aceitei integrar "conselho de ética e disciplina" (estadual e municipal) em um de nossos partidos, no qual não suportaria a brizolista conotação dos "tamancos ou saltos altos" ou mesmo das "sandálias dos pescadores". Mas, sob olhar fito no clamor de nossas ruas e, ao mesmo tempo, no horizonte de uma democracia de tons socializantes rumo ao gradual e "longo amanhecer"!

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da UFC e da UECe

marcondesrosa@gmail.com


Cláudio Ferreira Lima (Foto: Fco. Fontenele)

 

O ECONOMISTA

COM SENSO HISTÓRICO

 

Jocélio Leal
Da Redação

 

O economista Cláudio Ferreira Lima,

um apaixonado pela história do Ceará,

transformou nossa memória recente

 no livro “A Construção do Ceará”,

que será lançado em abril

e resgata um pouco das nossas

escolhas políticas e econômicas.

 

O Povo - 17/03/2008 

 

O que dizer de economistas escrevendo história? São duas ciências absolutamente imbricadas. A formação em Economia exige compreender o passado e dele extrair elementos para a complexa tarefa de ler as conjunturas, decifrando cenários atuais e futuros. Pois bem, o cearense de Pacoti, Cláudio Ferreira Lima, 61, é um economista apaixonado pela história. Por ser paixão, ele o acompanhou em todos os cargos públicos que ocupou. No Governo do Estado, como secretário do Planejamento. No Parlamento, como assessor da bancada do Nordeste na Constituinte. No Banco do Nordeste, onde começou a vida profissional, se aposentou e está hoje de volta como assessor da Presidência. "Sempre trabalhei com consciência histórica daquilo que eu estava fazendo. Por menor que fosse, teria algum significado no final".



Faltava compilar anos de janela em textos. E ele o fez por três anos seguidos, quando aceitou o convite para escrever capítulos para o Anuário do Ceará. Em 2004 assim o fez com "400 anos de história e 40 anos de planejamento". No ano seguinte com "O Ceará na História". E em 2006 com "Cidades do Ceará: origens, transformações e perspectivas". Agora, Cláudio juntou as três peças. No dizer dele, como num puzzle. Nasceu "A Construção do Ceará - temas de história econômica", livro que ele lança na primeira quinzena de abril. No quebra-cabeças bem montado pelo economista que começou a se interessar por história ainda garoto, o encaixe foi feito seguindo uma ordem lógica. Primeiro, a partir do início do processo histórico, em termos globais. Depois, as marcas dele na tessitura da rede de cidades. E, finalmente, a intervenção do Estado nesse processo por meio do planejamento governamental.

 

O livro é, como revela, o coroamento de toda uma vida acompanhando e participando da história do Ceará. E pensar que o envolvimento de Cláudio com a história começou com um tiro. No peito. Ele era moleque quando ouviu no rádio, enquanto cortava o cabelo, que Getúlio Vargas havia morrido. O barbeiro, atônito, largou a máquina e gritou desesperado. O menino Cláudio saiu correndo. Foi ao quintal de casa, pegou um pedaço de carvão, e escreveu a data: 24 de agosto de 1954. Definiu aquele dia como um marco. Nessa entrevista, concedida na redação do Anuário do Ceará na tarde em que o livro chegou da gráfica, Cláudio fala de Governo passados, do Governo Cid, do Governo Lula, mas sempre buscando enquadrar o hoje ao porvir. Eis o sentido histórico da economia.

 

O POVO - O senhor está lançando um livro que é a reunião de três capítulos do Anuário do Ceará e que trata da história do planejamento e da história do Ceará. Qual o sentido deste livro na sua vida?
CLÁUDIO FERREIRA LIMA - Sem dúvida nenhuma, é o coroamento, eu diria assim, de toda uma vida que eu passei acompanhando e vivendo a história do Ceará. De maneira que quando fui convidado para escrever esses capítulos, que eram partes integrantes do Anuário do Ceará nos anos de 2004, 2005 e 2006, eu já tinha isso porque ao longo dessa minha vida pública, eu fui juntando muita coisa, até porque nunca fiz vôo cego. Fui intervindo na realidade, seja através do Banco do Nordeste, seja depois no Estado, ocupando cargos públicos. Mas, conhecendo o processo histórico do Ceará, Já tinha escrito muita coisa, já tinha sistematizado muito. O livro faz toda essa retrospectiva da história do Ceará. Sempre trabalhei com consciência histórica daquilo que eu estava fazendo. Por menor que fosse, teria algum significado no final. Mas a razão de ser disso aí vem lá atrás. Todo o percurso da minha vida, ainda menino.

 

OP - E como começou essa história?

CFL - Filgueiras Lima tem um verso muito interessante que ele conta como foi levado para a poesia. Ele diz "era menino, um dia olhei o céu, longe, as estrelas. E eu tive uma vontade imensa de comê-las. Estava desvendado meu destino". Eu gosto de fazer como esse poema. Uma ligação com o desvendamento do meu destino. Eu era menino, um dia ouvi no rádio que Getúlio Vargas tinha morrido pela pátria. Eu tive uma imensa vontade de ser Getúlio. Estava desvendado o meu destino. Então, tudo começa aí.

 

OP - O senhor ouviu no rádio com qual idade?

CFL - Eu tinha sete anos.

 

OP - E como foi a cena?

CFL - Eu estava na barbearia, o barbeiro cortando meu cabelo, quando foi anunciado pelo repórter da Casa das Máquinas, em edição extraordinária, a morte de Getúlio Vargas. O barbeiro, então, atônito, soltou a sua máquina - cortava-se cabelo então com uma máquina - e gritou desesperado. E eu fiquei também assim, totalmente atônito. Mudei de um rádio para outra, acabou que saí correndo e sem parar cheguei à minha casa, eram mais de cem metros, e fui para o fundo do quintal, peguei um pedaço de carvão e escrevi no muro: 24 de agosto de 1954. Olhei para aquilo ali escrito e jurei ali que a partir de então me interessaria por todos aqueles fatos ao redor da morte de Getúlio. Já tinha uma certa consciência, porque tive uma professora, a minha primeira professora primária, em Fortaleza, a professora Marfisa. Ela me alfabetizou e me alfabetizou no sentido mais amplo, porque ela, inclusive, costumava usar leitura de jornal. Daí também minha ligação muito grande depois com os jornais.

 

OP - Em 1964, o senhor estava envolvido com algum movimento político?

CFL - Eu estava envolvido nas campanhas de reforma de base, empolgado com aquilo. De repente veio o golpe de 64. As campanhas acabaram, os governadores eram nomeados, de maneira que passei um longo tempo fora disso. Fui para a faculdade, participei do movimento estudantil, das passeatas, cantava o hino da independência - ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil. E enfim quando terminei a faculdade, naquele clima todo, estive fora do Brasil, e quando retornei para abertura política de 1979 eu fui para o CIC - Centro Industrial do Ceará.

 

OP - Mas o senhor saiu do Brasil por iniciativa própria, não foi?

CFL - Eu fui para a Bélgica participando de um programa do Itamaraty. Foi um concurso nacional que eu fiz, passei uma temporada aqui, seis meses em Brasília e depois dois anos de estágio na embaixada do Brasil em Bruxelas. Lá também aconteceu um fato muito importante, é que eu conheci um embaixador, Luiz Souto Maior. Que era um grande conhecedor das questões internacionais e aprendi muito com ele. Tanto que àquela época, era 77, 78, começo de 79, quando eu retornei ao Brasil, e eu já tinha um conhecimento seguro do que estava acontecendo com a antiga União Soviética.

 

OP - E qual a sua relação com o CIC daquela época?

CFL - Retorno ao Brasil, em 79, e fui levado ao CIC. E lá eu encontrei, então, o Beni Veras que foi a pessoa com quem eu passei a ter um contato mais estreito. E vivi intensamente esse período de 79 até a campanha de 86, do Tasso Jereissati. Discutíamos muito as grandes questões do Brasil, do mundo e principalmente do Ceará. Foi uma fase muito interessante, eu recordo que, numa dessas reuniões, ficou decidido que a gente teria que escrever sobre o tema do Ceará. Ali eu comecei a escrever. Escrevi artigo no O POVO nessa época. Sobre as questões do Ceará, as grandes questões como a questão da seca, o tratamento que devia ser dado, as questões regionais, sobre o Vale do Coreaú, por exemplo. E um colega economista um dia me censurou: "você, como é que pode, estudou tanto economia, está se dedicando a economia do Ceará, que é quase nada na economia brasileira, não passa de um por cento".



OP - O senhor foi direto para o Governo com a Geração CIC, pós-vitória de Tasso em 1986?
CFL - Eu participei da campanha de 86, mas quando foi em 87, no lugar de ir para o Governo, eu fui chamado para a Constituinte. A bancada do Nordeste solicitou ao BNB que mandasse um técnico para coordenar uma assessoria bancária da Região. E eu fui, então, designado para essa missão. E passei uns dois anos na constituinte. E lá foi outro grande aprendizado que eu tive do Brasil. Aprendi muito com o senador Virgílio Távora. Eu ficava ao lado dele, durante todo aquele processo de discussões, ele teve uma participação muito ativa, apesar de já doente. Eu também estive muito próximo do Mauro Benevides. Depois, então, retornando da Constituinte é que eu fui participar dos governos das mudanças.

 

OP - Já no Governo Ciro.

CFL - Eu participei então do governo Ciro como presidente do Instituto de Planejamento do Ceará (Iplance). Foi uma experiência muito boa, a gente estava lutando realmente por ter uma base de dados e informações e conhecimento para atuação do governo. O Iplance deu uma grande colaboração ao governo Ciro. Depois disso, então, eu tive uma passagem pelo Ministério do Planejamento com o Beni Veras ministro. Entrei na campanha em 94, do Tasso Jereissati para governador e participei do segundo governo Tasso. Inclusive na coordenação do plano de Governo que foi, na verdade, esse plano de 95 a 98, o Plano de Desenvolvimento Sustentável, o primeiro projeto mais amplo do Governo das Mudanças. Porque nos primeiros governos havia o problema fiscal...



OP - O Ceará na época fez um profundo ajuste fiscal, que agora o Aécio Neves chama de choque de gestão, não é?
CFL - Exatamente. Muita coisa, inclusive, que está acontecendo em Minas Gerais aconteceu aqui no Ceará. É quase que uma repetição, realmente, disso tudo.



OP - O Governo Lula tem sido bastante favorável a Pernambuco. A questão parece passional. Até quando vamos estar sujeitos a essas paixões?


CFL - Eu diria que o Ceará teve, realmente, no Governo Fernando Henrique, oportunidades para aproveitar e aproveitou. Mas eu gosto de ver, numa análise mais ampla. Eu acho que o governo Lula, ele tem um grande mérito. Eu fui secretário do planejamento e vi ali, no orçamento, todas as contradições. Todas as pressões dos vários grupos de interesse se dão ali dentro do orçamento. Então, no Brasil há grandes pressões. Você hoje tem os rentistas de um lado apelando para os juros. Outros querem os investimentos em infra-estrutura. São os desenvolvimentistas. E também existe uma classe ampla, a mais ampla, que é a classe mais pobre que precisa de investimentos sociais. Então o governo Lula, pra mim, tem esse grande mérito de conquistar uma fatia importante para atender também essa população.



OP - O senhor está falando da assistência do Bolsa-Família.

CFL - Estou falando de todos os programas sociais do governo. O Bolsa-Família, realmente, é um programa importante. Porque a gente passa por cima, mas afinal o Estado brasileiro não é formado apenas pelas classes mais privilegiadas. Existem todas as outras classes menos privilegiadas e que têm que ser atendidas por esse Estado.

OP - O Ceará já foi um laboratório de boas idéias para o País - vide agentes de saúde, programas de eletrificação rural e de educação básica. O Ceará perdeu um perfil de vanguarda no Brasil?


CFL - Bom, eu acho que o Ceará foi muito importante como laboratório de políticas que serviram depois para o próprio Governo Federal. O próprio programa da educação aqui do Estado inspirou um programa maior do Governo Federal. E nós temos, por exemplo, o Governo de Minas Gerais levando para lá, também, muita coisa feita aqui. Lógico que ele procura melhorar, ampliar essas idéias. Outra coisa importante, o Territórios da Cidadania. Nós tivemos mesmo aqui no Ceará um programa muito parecido com esse aí, que era um programa de ações imediatas e concentradas. Exatamente a gente escolhia os territórios dos municípios mais pobres do Ceará. Nós tínhamos critérios para isso, que eram indicadores que a gente conjugava naquela época, de educação, de saúde, de saneamento, de renda. E a partir daí, da conjugação desses indicadores a gente definia os municípios mais pobres. Nós trabalhávamos com 18 a 20 municípios e tínhamos ações integradas em todas as secretarias e concentradas nesses municípios.



OP - E hoje, está faltando visão de planejamento? O Ceará está se planejando bem?


CFL - A visão de planejamento não é mais a mesma como antes, depois dos tempos neoliberais, em que o mercado é quem dita os caminhos. E faz falta o Iplance, que era órgão multidisciplinar. Porque o Ipece tem uma visão mais limitada. É um órgão mais acadêmico do que deveria ser, embora o Estado deva manter estreita relação com a Academia.



OP - Na sua gestão como secretário do Planejamento, o que o senhor destacaria como símbolo da sua passagem pelo Governo?


CFL - Sem dúvida, o projeto São José. Na época, segundo Governo Tasso, havia uma efervescência muito grande. O Projeto São José é um programa que já havia, mas que era um programa de controle do Banco Mundial. O Governo na época resolveu modificá-lo. Chegava a 55 municípios, fizemos uma grande modificação, e era um programa que estava apenas com uma secretaria, esse programa passou a ter o apoio de todas as secretarias de Estado. E ganhou um lema, que era "vamos mudar o sertão para o sertão não se mudar", e concentrou suas atividades em águas e energia, que são aquelas coisas mais básicas. E eu acho que isso aí foi um sucesso até porque serviu de exemplo. Depois foi reconhecido pelo Banco Mundial por estar correto, passou a ser uma referência. De fato, a água e a energia são indispensáveis. Eu não entendo até hoje porque a gente não universalizou isso, que é uma coisa que não custa tanto.



OP - O senhor acredita no Governo Cid?

CFL - Quando eu reclamo que nós não tivemos, ainda, a sorte que merecíamos, o Ceará não tem servido ao seu povo como deveria, não é porque não tivessem surgido já projetos. Mas eu tenho muita esperança, desse projeto atual, do Cid Gomes. Ele tem uma característica muito especial, depois ele acelera. Foi assim em Sobral. Acredito que ele vá engrenar e dar uma acelerada, como naquelas corridas de 1.500 metros. Numa corrida longa ninguém sai logo em disparada.



OP - Qual o grande mérito do Governo Lula?


CFL - Atender a maior fatia da população mais pobre. Porque normalmente apesar de ser a grande população ela não tem um poder de pressão que fatias da população que são mais organizadas. Eu acho que na eleição de 2002 o Ceará perdeu, vamos dizer assim, um momento importante de ter um plano de governo que avançava nessa questão de abrir novos horizontes para o Estado. Era o plano do candidato Sergio Machado (do qual Cláudio foi assessor). Ele não foi eleito, esse plano então não foi executado. Era um plano interessante que exigia uma atividade muito intensa porque o Ceará estava diante de vários investimentos importantes em infra-estrutura, como o Castanhão, o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, pra citar dois grandes, e que precisava urgentemente arregaçar as mangas e buscar o aproveitamento dessa infra-estrutura.



OP - Qual a sua leitura dessa proposta de reforma tributária do Governo Federal no que diz respeito à guerra fiscal?
CFL - Há questões em que os estados mais ricos, como São Paulo, não estão de acordo. Essa questão da cobrança de ICMS no destino tem que ter uma compensação. Então, isso vai gerar, realmente, ainda muita discussão. Nós estamos apenas no começo disso. A minha preocupação com relação a essa reforma diz respeito à questão regional, também, a questão do financiamento e desenvolvimento regional. É um longo percurso. É claro que o Governo também quando chegou com essa reforma estava naturalmente pensando em aprová-la tal qual ela está aí. A própria comissão especial será um grande filtro.



OP - Quem escreveu "A Construção do Ceará" foi o Cláudio economista, servidor público ou o Cláudio historiador não-acadêmico?
CFL - Bom, acho que tudo isso aí. O Anuário é um projeto que visa levar informação e conhecimento ao grande público. Então, em primeiro lugar, esses capítulos que depois se transformaram no livro, ganharam unidade, atualizei os dados e as informações, as análises. Eles têm um caráter, sobretudo, didático. É um livro feito pra ser entendido por qualquer leitor, assim como o Anuário o é. É lógico que, como dizia Machado de Assis, ser simples é muito difícil. Realmente a gente sua muito pra poder ser simples. Por isso que admiro o jornalista. Eu procurei me guiar por isso. Agora, tem uma coisa interessante, eu li um historiador catalão, Josef Fontana, que é interessante o que ele diz. Eu já procurava fazer nessa minha vida, que era ter uma visão de história que entendesse que cada momento do passado, assim como cada momento do presente não contenha apenas a semente de um futuro pré-determinado e inevitável. Mas de toda uma diversidade de futuros possíveis. Um dos quais pode acabar tornando-se dominante por razões complexas, sem que isso signifique que é o melhor, nem por outro lado que os outros estejam totalmente descartados.



OP - Deixa eu fazer um jogo de três perguntas, uma para cada capítulo. Qual é a nossa história sem planejamento?
CFL - Sem planejamento não tem saída. Hoje está cada vez mais patente. Claro que tem que conjugar, não é planejamento e mercado. Nem o planejamento centralizado nem o mercado sozinho, isso aí já deram provas, eles não resolvem o problema. Então, tem que conjugar as duas coisas.



OP - Como o senhor vê o Ceará na história?

CFL - O Ceará na história, eu faço tendo como fio da meada a própria história do Brasil. Eu vou destacando aqueles aspectos relevantes da história do Ceará. Primeiro o Ceará demorou um pouco mais para entrar, vamos dizer assim, na história. Só depois que ele entra e entra como uma espécie de complemento da economia da cana-de-açúcar, com o gado. E mais adiante é que ele entra de forma mais direta na economia muito com o algodão. Depois vem a industrialização.



OP - E qual a conseqüência disso nas cidades?

CFL - Agora a gente com isso pode entrar no outro capítulo que trata das cidades do Ceará, da origem, transformações e perspectivas. Nesse processo, o que vai ocorrer? Ele acaba desaguando na macrocefalia de Fortaleza. Fortaleza concentrando mais a população e a economia. Um dos problemas graves. E inclusive que está como umas das prioridades do atual governo Cid Gomes, por intermédio da sua Secretaria de Cidades, combater essa questão das desigualdades entre as regiões do Estado que são muito graves. Você tem Fortaleza e sua região metropolitana concentrando o grosso da economia da população. No restante, você tem a economia na região de Sobral e na região do Cariri, um pouco no Centro-Sul, em Iguatu. No mais, o Sertão Central e os Inhamuns, em termos econômicos, são um grande vazio. Há um grande desafio aí de melhorar essa distribuição que estava presente em todos planos de Governo.


OP - Qual o eixo pelo qual podemos juntar as três abordagens?

CFL - Bom. Nós temos o processo mais global, no primeiro capítulo, quando eu falo da história do Ceará, depois eu olho pra esse processo por intermédio da formação das cidades e finalmente com o planejamento eu vejo a questão da intervenção, que é coisa recente, planejada do Estado. Isso vem a partir do inicio dos anos 1960, com o governo Virgilio Távora, com o seu primeiro Plameg. Então, vamos dizer assim, esses três capítulos todos eles, num resumo, são uma reflexão. A gente vai no passado para clarear esse presente, e mostra que o grande problema que o Ceará tem reside nessa concentração em Fortaleza, essa macrocefalia de Fortaleza. E claro que por trás dela está o problema da pobreza do Estado. E um problema muito sério das tristes partidas. Falo sobre isso no inicio do livro, quando trato da construção do Ceará pelo cearense aqui no próprio território.



OP - E qual o papel dos cearenses na construção do País?

CFL - O cearense também foi um dos grandes construtores da unidade brasileira. E ainda tem sido. Nas minhas considerações finais eu cito Gilberto Freyre, mostrando essa grande contribuição que o cearense tem dado para a unidade do nosso País. Portanto, o grande eixo seria exatamente essa reflexão, esse retorno ao passado para poder clarear esse futuro no sentido de resolver nossos problemas.

 

 

***


E-mais

O economista Antônio Cláudio Ferreira Lima, 61, nasceu em Pacoti-CE. Formado pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ele tem especialização em elaboração e análise de projetos pelo Centro de Desenvolvimento Econômico do Ministério do Planejamento e em promoção comercial pelo Ministério das Relações Exteriores

Técnico aposentado do Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Cláudio Ferreira lima desde 2005 atua como assessor especial da presidência da instituição. Ocupou os cargos de secretário do Planejamento do Estado (no segundo governo de Tasso Jereissati 1995-1997), presidente do Instituto de Planejamento do Ceará (Iplance) durante o governo de Ciro Gomes (1991-1994). Também foi coordenador da assessoria técnica da Bancada do Nordeste na
Assembléia Nacional Constituinte (1987-1988)


Filgueiras Lima tem um verso muito interessante que ele conta como foi levado para a poesia. Ele diz "era menino, um dia olhei o céu, longe, as estrelas. E eu tive uma vontade imensa de comê-las. Estava desvendado meu destino". Eu gosto de fazer como esse poema. Uma ligação com o desvendamento do meu destino. Eu era menino, um dia ouvi no rádio que Getúlio Vargas tinha morrido pela pátria. Eu tive uma imensa vontade de ser Getúlio. Estava desvendado o meu destino



O Iplance deu uma grande colaboração ao governo Ciro. Depois disso, então, eu tive uma passagem pelo Ministério do Planejamento com o Beni Veras ministro. Entrei na campanha em 94, do Tasso Jereissati para governador e participei do segundo governo Tasso. Inclusive na coordenação do plano de Governo que foi, na verdade, esse plano de 95 a 98, o Plano de Desenvolvimento Sustentável, o primeiro projeto mais amplo do Governo das Mudanças.


Aprendi muito com o senador Virgílio Távora. Eu ficava ao lado dele, durante todo aquele processo de discussões, ele teve uma participação muito ativa, apesar de já doente. Eu também estive muito próximo do Mauro Benevides. Depois, então, retornando da Constituinte é que eu fui participar dos governos das mudanças

No Parlamento, como assessor da bancada do Nordeste na Constituinte. No Banco do Nordeste, onde começou a vida profissional, se aposentou e está hoje de volta como assessor da Presidência. "Sempre trabalhei com consciência histórica daquilo que eu estava fazendo. Por menor que fosse, teria algum significado no final"

 

 

 

Agulhas Negras (Circe Vidigal)

20:04 @ 17/03/2008

Academia Militar de Agulhas Negras

 

AGULHAS NEGRAS

 

 

 

Circe Vidigal

 

 

A casa da menina ficava na Praça de entrada da Academia Militar das Agulhas Negras. Era uma bela e simpática residência, com jardins cheios de dálias à toda  volta e uma varanda no andar de cima.  Na parte de trás havia um quintal  onde fizeram uma boa horta. Quando as cenouras ficaram de bom tamanho, arrancava-as, tirava-lhes a terra na própria roupa e as comia assim mesmo, sem sequer lavá-las.

 

A casa condizia com o posto e o cargo que seu pai exerceria. Como coronel, fora designado para o Comando do Corpo de Cadetes. Ela já não usava tranças e seus cabelos dourados escuros eram fartos e rebeldes. Magricela, olhos verdes e nenhum peito. Uma táboa. Nunca se preocupara se era feia ou bonita; andava sempre tão ocupada, estudando ou  “aprontando “ com os irmãos que não lhe sobrava tempo para vaidade.

 

Estaria, talvez, com uns treze anos, mas agira, até então, como um molequinho junto aos meninos. Nunca brincara de bonecas e a única que tivera fora trazida por seu padrinho da Alemanha. Era uma bela e cara  boneca de porcelana que se espatifou ao chão no dia em que a ganhou. Achara-a linda e, em seu entusiasmo desastrado, jogou-a para o alto e deixou-a cair no chão. Sua mãe quase a matara de raiva, por sua falta de modos, compostura:- “Isso lá era jeito de menina? Devia levar uma boa surra ! “  

 

Imagine só ! Com o pai por perto ela não se atreveria!  A mãe juntou todos os caquinhos que levou mais tarde para o hospital de bonecas em Botafogo. Disseram-lhe que ficara perfeita, mas nunca mais lhe vira a cara.  Não soube que fim levara e também, pouco importava. Seu tempo livre era para se aperfeiçoar com o pião. Já conseguia pegá- lo na palma da mão mas ainda faltavam alguns malabarismos mais sofisticados- Na carniça e na búlica era sempre a primeira: Marraio ! E o resto, como se dizia?  “ Sou rei” ?  Não tinha certeza. Esquecera mesmo da resposta que se dava ! Também, são tantos anos ! Havia também uma brincadeira de polícia-ladrão, onde, na fuga, se subia por uma goiabeira no quintal, dali ganhava-se o telhado da garagem  do vizinho de onde se atiravam ao chão, numa caixa de areia fabricada pelo cúmplice, filho do próprio ( vizinho ) . Mas isso foi bem antes, quando ela ainda tinha seis anos e moravam em Realengo.

 

Agora, em Rezende, já era quase uma mocinha e apesar da falta de vaidade já se dava conta como ficava estranho correr no meio daquele monte de meninos: os irmãos e seus amigos – só ela de mulher.

 

Matricularam-na num colégio da cidade, onde todos os filhos de militares estudavam. Os professores eram também militares da Academia e a disciplina era férrea, além do ensino ser, também, de primeiríssima qualidade. Mas todos sofriam, por isso ou por aquilo. Ela, filha do comandante, era visadíssima. Sorte que era uma terrível “cdf” e só tirava nota alta. Também, pudera; vinda do Instituto de Educação, só poderia fazer um bonito ! Paradoxalmente, com  tanta peraltice que fazia na rua era comportadíssima na escola. Acho que era meio sonsinha e gostava de representar a  boa moça.  Enfim, não misturava a rua com a escola. Eram compartimentos diferentes, onde exercia sua dupla personalidade, ou, quem sabe, sua personalidade global setorizada apropriadamente.

 

 

Nas férias, o conjunto de casas onde moravam os oficiais costumava ficar  quase vazio, pois a maior parte ia para sua terra de origem. Então era uma festa completa para a garotada que ficava. Juntavam-se em bandos com tarefas distribuídas: vocês pegam as flores do jardim do major fulano e beltrano. Na casa de outro havia muito milho no quintal e assim por diante. Não entravam pela frente; pulavam os muros internos, dos fundos,  passando de uma casa para outra; marcava-se um ponto de reunião onde se dividia irmãmente o produto da farra – ou roubo, como queiram.

 

A casa vivia enfeitada de flores e ainda ninguém se dera conta. A empregada, crente, há quinze anos na casa, recusara-se a cozinhar aquele milho do pecado e vivia ameaçando “contar para o coronel” mas qual nada! Vira nascer a menina e todos os seus outros irmãos.  Tivemos que arranjar outra pessoa menos escrupulosa para fazê-lo. O pai certo dia estranhou. As dálias e as rosas continuavam em seu jardim e aquela floração desvairada dentro de casa! Não era bobo !  -“De onde são essas flores?” Perguntou já de cara feia. Bem, não costumavam mentir-lhe e confessaram-lhe a brincadeira, contando com sua compreensão. Não contavam era com seus conceitos éticos e morais pra faltinha tão sem importância.

 

O castigo foi severo: uma semana sem sair de casa, sem falar ao telefone com os amigos, sem botar o olho na rua.  O irmão logo abaixo dela prometia ser um cientista da pesada, pois bolou  imediatamente uma máquina de comunicação com os amigos; acoplou na enceradeira uma lâmpada que acendia e apagava no botão.  Aprenderam, num dicionário, o Código Morse e ficavam se comunicando com os amigos do outro lado da praça, estes apenas acionando a luz do teto das suas varandas.

 

Eita, castigo divertido! Mas quase inutilizaram a enceradeira, de tanto liga e desliga para formar as palavras!  Gostaram dessa comunicação em código, que lhes permitia liberdade total de linguagem e assunto, na presença dos outros, não pertencentes ao bando e, já fora do castigo, aprenderam a linguagem dos surdos-mudos e ficavam assim, na frente dos outros, danados, pois não sabiam do que se falava.

 

Criança inventa cada uma!  Mas ela não era mais criança. As regras já lhe haviam chegado e sofria muito com isso, todos os meses. De repente, percebeu que aqueles jovens fardados a olhavam de forma diferente dos meninos, mas não se atreviam a dirigir-lhe a palavra. Imagine! A filha do Comandante! Daria cadeia na certa!  Mas o destino é imprevisível e, na casa do melhor amigo de seu pai, que também tinha vários filhos que eram da “turma”, a mocinha conheceu um jovem cadete de 17 anos que tocava piano e violino de forma encantadora.

 

 Ela ficava paradinha, sentada num cantinho, ouvindo embevecida. Tudo o que sempre desejara fora um piano, poder tocar assim como ele. Mas o pai, em seu excessivo zelo nunca o permitira. Era de uma família de musicistas, as irmãs formadas, uma em piano outra em violino pelo Conservatório Nacional de Música. E duas tuberculosas, que nunca mais puderam tocar seus instrumentos. Não queria isso para sua menina. Queria vê-la saudável e até ignorante; já se preocupava tanto com seu excessivo zelo nos estudos!

 

Imagine se fosse aprender piano. Nunca! Mas ela ficou triste para o resto da vida, por causa desse piano. Ficou um buraco em seu coração e até hoje chora, já quase bisavó, quando conta essa história. Pobre pai. Ela hoje o compreende bem, mas, mesmo assim,  jamais poderá perdoá-lo. E como não ficar deslumbrada, com aquele jovem tocando piano? Ele percebeu o seu encantamento e veio falar-lhe.

 

No dia seguinte, na hora da dispensa, estava em seu portão, pois via sempre quando ela saía de bicicleta. E começaram a conversar, ali mesmo. Falavam do piano, quando o pai chegou no seu jipe. O jovem prestou-lhe continência e o pai lhe respondeu educadamente, mas com a cara fechada. Quando a menina entrou ele a chamou: -“ Você tem um ímã; uma atração por maus elementos. Onde conheceu esse rapaz? “  - “  Na casa de seu amigo Cel. Otávio. Ele toca piano muito bem ! E violino também. É um artista, não sei o que está fazendo aqui nessa escola? - “ Ele é um agitador! Um comunista !  E um presunçoso !

 

Chamei-o como a um filho, para conversarmos; talvez precisasse apenas de alguns esclarecimentos; falei-lhe do comunismo e do que se tratava e sabe o que me respondeu?  “– “ Não tenho culpa, coronel, se os comunistas  pensam  como eu !  “Aquilo selara seu destino, ou melhor, o meu, pois proibiu-me terminantemente de vê-lo ou falar-lhe, mas  jamais o perseguiria por seu credo ideológico. O pai era justo e respeitava  as crenças alheias, mesmo que opostas as dele. Não lhe faria mal algum;  E ele era apenas um menino com a cabeça cheia de sonhos, engajado na campanha do “Petróleo é Nosso “!

 

 Ironia do destino :  anos mais tarde esse coronel seria um dos fundadores da Petrobrás; depois de sua morte prematura, teve até  um petroleiro batizado com seu nome.  Ela soube, nos Anos de Chumbo, que seu amigo pianista tinha cinco irmãos, que todos haviam sido presos e um desaparecera completamente nos porões da ditadura. Quanto a ele, jamais o viu novamente, mas ainda se lembra de tudo, nos mínimos detalhes. E de seu pai lhe dizendo: - “Deus sabe o que faz quando te fez mulher. Se fosses homem já estarias preso, morto ou deportado! Só me procuras maus elementos”

 

E tinha razão; ela adorava um fora da lei, agressor do sistema; Naquela época havia na Itália um bandido famoso caçado por toda a Polícia. Salvatore Giuliani era belo, valente  e seu nome  e retrato estavam em todos os jornais, montado num garboso cavalo, com uma carabina a tiracolo. Lindo !  Ela torcia por ele, desesperadamente, ainda mais que corria uma lenda que roubava dos ricos para dar aos pobres; o próprio Robin Hood italiano. Mas um dia o pegaram e o mataram. Foi tudo muito triste.

 

Mas mais triste do que tudo em sua pré-adolescência, lá nas Agulhas Negras, foi o dia  em que o pai achou que lhe havia mentido, que o enganara, não acreditando em suas explicações. Ela se atrasara ao se arrumar para o colégio. Estava começando a ficar vaidosa e havia posto uns papelotes nos cabelos, na noite da véspera. Eram pedacinhos de jornal onde se enrolavam as mexas de cabelo; faziam o mesmo efeito dos atuais rolinhos. Ao tirá-los, pela manhã, toda aquela quantidade de cabelo ficara dura e enrolada como uma loira carapinha e não havia pente ou escova que a baixasse. Foi preciso molhá-lo muito para voltar a um estado razoável.

 

O pai, acostumado com sua pontualidade para não perder o ônibus que levava toda a garotada para o colégio, já estranhou aquele atraso; além do que, sua menina não era dada àquelas vaidades! Quando ela viu que já perdera a hora do ônibus, pediu-lhe que a levasse em seu jipe para o colégio, o que ele negou peremptoriamente, alegando que veículo militar não era para transporte de família. Implorou-lhe. Pelo próximo ônibus perderia a primeira aula.

 

Ele foi irredutível. Sem escolha, foi para o ponto esperar. Encontrou na condução um colega também retardatário – mas esse de malandro que era – e sentou-se no mesmo banco, naturalmente, onde conversaram até o destino final. Qual não foi sua surpresa, ao descer e encontrar seu pai, no jipe, na porta do colégio. Chamou-a, mandou-a subir e tocou de volta para casa, sem uma palavra de explicação.

 

 Ela não estava entendendo nada e lhe perguntava, por que estava fazendo aquilo. Seu rosto estava terrível! Só ao chegar em casa e fechar-se com ela no escritório, falou: -“ Eu quero uma explicação para toda essa dissimulação! Nunca pensei que você fosse capaz de enganar seu pai dessa forma ! “ Enganar? Como? Ela não conseguia compreender até que ele lhe explicou . Ela o havia enganado, ao lhe pedir que a levasse. Teria sido  só para disfarçar o “encontro “ combinado, pois já sabia que ele não transportava ninguém de casa no jipe! Além do mais, todos aqueles preparativos embelezatórios significavam alguma coisa!  Não houve jeito de convencê-lo e ele estava profundamente magoado e convencido do crime de alta traição.

 

A relação entre os dois sempre se baseara na confiança mútua e no diálogo e mesmo quando brigavam e se desentendiam era algo diferente do que se costuma ver com outros pais e outros filhos. Era a sua amada princesa, dona dos melhores atributos e tentava prepara-la para a vida com  amor, honestidade e retidão. Entre eles nunca houvera mentiras. E agora ela lhe dava esse desgosto!  Pois estaria de castigo, sem ir ao colégio sequer, enquanto não reconhecesse seu erro e lhe pedisse desculpas.

 

Que coisa terrível, ter que pedir desculpas por algo que não fizera! A isso não estava acostumada e agüentou firme, em seu quarto, num desespero de fazer dó, pois iria perder as provas finais e com isso, todo um ano letivo ! Briga de foice. Ela não se conformava e não via outra saída senão morrer. Se mataria.

 

Mas como?  Ouvira falar em estriquinina, veneno poderoso que matava rápido apesar da dor. Nas gavetas dos armários da mãe havia várias bolinhas, com um cheiro forte, para matar baratas. Juntou uma porção delas, mas não conseguiu dissolvê-las em água; esmigalhou-as o mais miudinho que pode, colocou  tudo na boca e engoliu com água; e deitou-se esperando para morrer. Sequer fez uma oração. Queria morrer mesmo.

 

Salva por sua ignorância, a naftalina deu-lhe uma tremenda dor de barriga e nada mais. Vencida pela primeira vez em sua vida, acabou pedindo desculpas ao pai só para poder prestar os exames finais. Afinal, era a primeira aluna da turma, como iria perder o ano só porque seu pai já não era mais o mesmo? Que se danasse. Ficou sem lhe falar vários meses e toda a família sofria com isso, pois ele também não se comunicava com os outros.

 

Um caso de amor mal resolvido, mas que, felizmente, não acabou em tragédia. E ninguém, nunca, soube de sua tentativa de suicídio.

 

REMINISCÊNCIAS PASCOAIS

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

 

 

Nessa Páscoa lembranças fugidias me perpassam pela mente como brisas trazidas do passado. Ressurgem em cores esmaecidas a grande mesa posta para o almoço familiar, a tolha branca impecavelmente engomada, o círio pascal ao centro, os pequenos ovos de chocolate disposto em delicados arranjos perto de cada prato. Tudo aquilo formava um espetáculo ao mesmo tempo alegre e grandioso para adultos e crianças que comemoravam o simbolismo da vitória da vida sobre a morte contido na ressurreição de Cristo.

 

Não é possível relembrar exatamente o que diziam os convidados, mas o burburinho festivo, o ressoar dos risos, as lembranças que se perdem em tons pastéis como num quadro antigo, sem dúvida foram responsáveis pela construção de um dos redutos mais importantes de minha infância.

 

Agora surgem na memória, como eco das tradições mineiras em que fui confeccionada a época do colégio Sion de Campanha passada no internato. Naquele interlúdio de minha vida tudo estava em seus lugares disciplinadamente. O futuro era sonhado no recreio enquanto se falava sobre o que cada uma de nós queria ser mais tarde: médica, advogada, bailarina, mãe de família com uma penca de filhos. Ninguém abria mão de se casar com um príncipe encantado e havia a crença generalizada de que podíamos controlar nosso destino.

 

Na Páscoa, quando a maioria das alunas passava o feriado em casa, eu que era de Belo Horizonte ficava quase só entre as imensidões daqueles corredores e salas vazias. Nem por isso era menos feliz do que as colegas que haviam partido. Ficava com minha grande caixa de ovos de chocolate que sempre chegava pontualmente, com as leituras piedosas que as freiras me indicavam e, especialmente, com minhas reflexões. Foi naqueles confins mineiros que uma semente de compreensão acabou por germinar num pensamento que me acompanhou pela vida afora: sou uma passageira da eternidade em busca de Luz.

 

Essas enevoadas recordações, que emergem de meu remoto ontem, misturam-se também às cores dos doces típicos da quaresma: doce de abóbora, doce de batata roxa, doce de cidra. Ecoam ao longe cânticos de procissões  e retorna o espanto infantil diante da imagem de Jesus crucificado. Ao mesmo tempo, como era deliciosa a alegria da descoberta dos ovos de páscoa espalhados pelo jardim.

 

Comparando aqueles tempos com os de hoje posso concluir que sob os pores-do-sol de minha Belo Horizonte os contornos do viver eram mais bem definidos em tradições que hoje se perdem em feriados eminentemente comerciais. Mesmo assim, Pesach ou passagem (para os judeus) ressurreição ou Páscoa (para os cristãos), são comemorações que sempre deixarão subjacentes no coração do humano o desejo de superação do finito, a vontade de renascer de algum modo, a esperança de renovação.

 

Feliz Páscoa para todos.

 

Maria Lucia Victor é escritora.

E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

 

 

 

EDUCAÇÃO E PROGRESSO

 

 

Cristovam Buarque

 

  

"Navio negreiro" foi escrito por Castro Alves em 1868, anos antes de Joaquim Nabuco escrever "O Abolicionista". Foi o poeta quem despertou o Brasil e divulgou a mensagem dos abolicionistas.

 

Durante o regime militar, foram os poetas e cantores que nos acordaram para a democracia. Na semana passada, 120 anos depois da Abolição, os poetas voltaram às ruas com outra bandeira: o educacionismo. A escola de samba Vai Vai, de São Paulo, cantou a educação como saída para o futuro do Brasil. No desfile das campeãs, carregou uma imensa bandeira do Brasil com o lema “Educação é progresso", no lugar de "Ordem e progresso".

 

Thobias Nascimento e os passistas da Vai Vai não são os únicos educacionistas no cenário brasileiro. O desfile foi inspirado no empresário Antônio Ermírio de Moraes, um educacionista que defende a educação como saída para o Brasil. Seu livro tem um título que lembra Castro Alves: "Educação pelo amor de Deus". Jorge Gerdau é outro empresário educacionista, que há anos investe parte de seus recursos em educação. É um dos promotores do "Compromisso de todos pela educação", que mobiliza a consciência nacional e de nossos dirigentes para a importância da educação. Milu Vilela é uma educacionista que faz companhia ao Gerdau na direção do "Compromisso de todos pela educação". E a isso tem se dedicado há anos, usando sua energia e influência, procurando apoio, incentivando bons professores, bons secretários estaduais e municipais. Viviane Senna é outra educacionista. Usa obstinadamente o seu prestígio para lutar pela educação.

 

Não só pressionando politicamente nossos dirigentes, e investindo, por meio da Fundação Ayrton Senna. Tive o privilégio de visitar sua experiência na Zona da Mata pernambucana e assistir à recuperação de crianças que tinham ficado para trás, abandonadas pelo governo, pelas famílias e por si próprias, como casos perdidos do ponto de vista educacional. Já começavam a constituir o contingente de analfabetos adultos, quando seu programa as trouxe de volta à esperança.

 

Xuxa, uma das mais conhecidas artistas brasileiras, é quase desconhecida no que se refere ao seu trabalho como educacionista na Fundação Xuxa Meneghel, onde atende 350 crianças, desde a primeira infância, e suas famílias, em um total de 2 mil pessoas. Rodrigo Baggio é um educacionista que se dedica desde a adolescência à tarefa de promover a inclusão digital que deveria ser feita dentro das escolas. Denise Valente dirige uma rede de 40 escolas de maior qualidade mantidas gratuitamente pela Fundação Bradesco, que atende mais de 109 mil alunos anualmente. Antônio Oliveira Santos, presidente da Confederação Nacional do Comércio inaugura, no Rio de Janeiro, dia 19, a ESEM, Escola Sesc de Ensino Médio, uma instituição com internato de alunos e professores. Jorge Werthein, José Roberto Marinho, Severiano Alves, Cláudio de Moura e Castro, Nizan Guanaes - o Brasil está cheio de "educacionistas", adjetivo que ainda não existe nos nossos dicionários; ainda não adotaram, mas já tem significado: a doutrina que considera a educação como vetor fundamental do progresso defende que a utopia não vem da desapropriação do capital dos patrões para os empregados, mas sim de colocar os filhos dos empregados na mesma escola dos filhos do patrão.

 

      A enorme bandeira do Brasil que os integrantes da Vai Vai carregaram no sambódromo paulista, com o lema "Educação e Progresso", mostrou que o movimento educacionista começa a crescer no século XXI, como no século XIX um movimento inicialmente muito pequeno cresceu, com o nome de abolicionista. Eles queriam que todos os brasileiros fossem livres da escravidão; nós queremos que todos os brasileiros tenham acesso a uma escola de qualidade, único caminho para serem livres.

 

Falta fazer com que os educacionistas de hoje se transformem em um exército. Por isso, seja um educacionista você também.

 

                                                  Cristovam Buarque é senador (PDT - DF)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Macunaíma: retrato de um povo sem caráter?

 

 

ELES TÊM POVO, E NÓS?

 

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

28/03/2008

 

 

Em 1881, na sua obra L’esclavage au Brésil, o francês Louis Couty escreveu: “O Brasil não tem povo”. “Em nenhuma parte se encontrarão estas massas fortemente organizadas de produtores livres e agrícolas ou industriais, que, em nossos povos civilizados são a base de toda riqueza, bem como não se acharão massas de eleitores sabendo pensar e votar e capazes de impor ao governo uma direção definida”.

 

Este perfil da sociedade brasileira, descrito por Couty, nos remete a outras recordações. Sem nenhuma conotação terceiro-mundista de complexo de inferioridade, vem à lembrança que, enquanto a Revolução Industrial, iniciada em fins do século XVIII na Inglaterra, dali se espalhava para o continente europeu e alguns lugares do mundo, no Brasil não se podia sequer falar em evolução agrária um século depois. Assim, enquanto a partir do Império Britânico se desenvolveram a técnica, a ampliação de mercados, o capitalismo industrial, na ex-colônia portuguesa utilizava-se até fins do século XIX o escravo no lugar da máquina, a força bruta em vez da tecnologia.  E sob a mentalidade da Contra-Reforma, anticapitalista e antiprodutiva, o legado lusitano de lucro fácil e aversão ao trabalho metódico e produtivo, imprimia no tecido social os comportamentos que fazem de nós em grande parte o que somos agora.

 

Lembremos também que nosso Executivo já nasceu forte, assim permanecendo até hoje. E mesmo quando esse Poder, ao longo da história, deixou a desejar, tal fato não estimulou em nosso povo atitudes revolucionárias ou mesmo reações de protesto que, se aconteceram partiram de alguns grupos e não da sociedade como um todo.

 

A explicação de nossa proverbial passividade deve ser buscada em nossas raízes e como tão bem enfatizou Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil: “Entre nós, o domínio europeu foi, em geral, brando e mole, menos obediente a regras e dispositivos do que a lei da natureza. A vida aqui parece ter sido incomparavelmente mais suave, mais acolhedora das dissonâncias sociais, raciais e morais. Nossos colonizadores eram, antes de tudo, homens que sabiam repetir o que estava feito o que lhes ensinara a rotina”.

 

A Espanha, que, na bela imagem de Fernando Diaz Plaja, “é como um licor forte que pode ser apreciado ou detestado, mas nunca bebido com a indiferença com que se toma um copo d’água”, legará também ás suas colônias seus valores, seu radicalismo. O espanhol foi deixando seu rastro, engendrando com as índias uma raça mestiçada, os crioulos, que herdaram os valores de Castela: orgulho, honra, coragem, fidalguia, aversão ao trabalho manual, individualismo.

 

A partir de 1810, inicia-se o processo de independência das colônias hispânicas com a participação de seus povos, algo que não ocorreu no Brasil. Entretanto, as revoluções das oligarquias nativas continham muito mais o elemento da tradição do que o da mudança. O que se desejava alterar era a composição do poder e não sua essência. Desse modo, surgirá na América de origem espanhola o desequilíbrio estrutural cujas manifestações mais graves e até hoje sentidas são a instabilidade política, o atraso econômico e, no plano cultural a desconfiança generalizada e o individualismo.

 

Mesmo assim, vemos hoje com relação a comportamentos cívicos, a diferença entre nós e os demais países latino-americanos. Estas sociedades são capazes de reação diante de governos considerados inaceitáveis ou pouco convincentes.

 

Vimos isso há pouco tempo na Venezuela, no movimento organizado por estudantes que disseram “no” às pretensões de Hugo Chávez de se consolidar como ditador. Observamos o apoio do povo colombiano ao seu presidente Uribe, nas manifestações contra as sanguinárias Farc. Não têm faltado insurgências de bolivianos contra Evo Morales. E agora a classe média argentina está arregimentada e indo às ruas fazer “panelaços” contra a elevação de impostos das exportações de grãos.

 

No Brasil, o MST recrudesceu em violência, destruição, desrespeito à propriedade e ninguém tomou conhecimento. Uma epidemia de dengue, antes negada pelo ministro da Saúde, avança no Rio de Janeiro ceifando vidas, principalmente de crianças, e com possibilidade de se alastrar para outros Estados. Mas o presidente disse que nossa Saúde está perto da perfeição e todos acreditam. A violência urbana mata como se estivéssemos em guerra e as pessoas se deixam matar como moscas sem reclamação. A corrupção governamental é tanta que se banalizou e é tida como natural.  E quando o presidente Luiz Inácio, tendo um ataque agudo de chavite diante do ditador de fato da Venezuela, bravateia em Recife como um Odorico Paraguaçu, que ligou para o presidente Bush e disse: “Ô Bush, o problema é o seguinte, meu filho: nós ficamos 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo, vocês vêm nos atrapalhar, pô? Resolve!” Todo mundo embevecido aplaude e a aprovação do grande líder sobe.

 

Será que passado tanto tempo depois da visita de Couty, ainda não temos povo?

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

 

mlucia@sercomtel.com.br