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Paz, fruto da justiça

19:57 @ 10/03/2009

 

 

 

Paz, fruto da justiça

 

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe
O Povo - 02 Mar 2009

 

 

 

A Confederação Nacional dos Bispos  do Brasil (a CNBB) lança, para este ano de 2009, sua Campanha da Fraternidade, sob o lema “A paz é fruto da justiça”, a ter início nesta quaresma.

 

        Na verdade, em boa hora, a CNBB nos mostra que a violência a habitar entre nós não há que se reprimir tão só pela força policial. Ela tem origem nas diferentes formas de injustiça, entranhadas em nossa vida social. Oportuna, pois, a campanha proposta, a envolver os segmentos mais amplos de nossa vida social: igrejas, famílias, escolas, comunidades, num amplo espectro das diferentes manifestações da violência que fincou morada entre nós: a doméstica, a do trabalho escravo e a dos crimes de colarinho branco em nossa vida social e política a atentarem contra a ética, a vida econômica, a gestão pública enfim.

        Refletir sobre a violência, em nossos dias, há que ir mais longe que fixar-se na solitária repressão a ela, à ronda policial ou mesmo ao sistema policial. Ela se entranha, de forma mais ampla, em toda a nossa vida social. E refletir sobre ela pode ser importante para o necessário e urgente desenho de democracia, nestes tempos de crise do capital, para o lançamentos das bases de nova convivência democrática.

        De certo que pouco avançaremos se a campanha restringir-se ao tempo da quaresma. Terá que ir mais longe. Vivemos apocalípticos tempos de crise a resvalar no “para além do capital” e a buscar, de forma crescente, a justiça social.

        O papa Bento XVI nos tem surpreendido ao divisar, em abraço, a fé e a razão. Mais que isso, ao refletir sobre a vida cristã em construtivo diálogo entre fé, esperança e caridade. Sem dúvida, aí estão as bases lançadas pelo pontífice de uma sociedade mais justa e mais equânime. E, sem dúvida, de uma social-democracia mais cristã.

        Essa, a nossa esperança!

       

 

 

 

 

 

Educação, capital humano

 

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 16 Mar 2009

        

         Abro O POVO e nele, duas manchetes me chamam a atenção. Mais ostensiva, ressalta-se a declaração da ministra Dilma Rousseff: “o desenvolvimento do País só poderá ser alcançado por meio de ações contra as desigualdades social e econômica”. E, em tom mais discreto: “Prefeitura destina 40% do orçamento para a educação”.



        Por instantes, em minha mente, desfilam múltiplas distorções sabidas e denunciadas dos programas assistencialistas a, num crescendo, afastarem seus beneficiários do mundo construtor do trabalho. E, nisso, martela-me o refrão do baião “Vozes da Seca”, do médico Zé Dantas e Luiz Gonzaga, o rei do baião: “Mas, doutor, uma esmola, para um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Nessa caudal, recordo-me de Ariosto Holanda, em solenidade em Limoeiro do Norte, a confessar, sob forte emoção, lição que lhe havia ficado de dom Aureliano Mattos, a justificar seu Liceu de Artes e Ofício: “Sem uma arte e um ofício, não se é filho de Deus”, força motriz da obstinação a hoje embasar CVTs, Centecs...


        Volto à criação do mundo. E, no Gênesis, vejo, instigado pela serpente, Adão seduzido pela intuição de Eva, a despertar de edênico sono.  E, imagem e semelhança do Criador, nossos pais darem início ao projeto humano, alicerçado na construção e no trabalho, à luz do “comerás o pão com o suor do teu rosto”, num equilibrado e instigado “crescei e multiplicai-vos”... 

        Hoje, o globo inteiro abala-se em desequilíbrios: o ecológico, o desemprego, a educação vista em seu papel de capital humano, a exigir-se ferramenta para que a imagem e semelhança do Criador se dignifique sob a integrada tríade do “profissional, cidadão e pessoa”, pois, “sem uma arte e um ofício não se é filho de Deus.”

 

        Só assim o desenvolvimento poderá encarar-se ... sustentável!

 

MARCONDES ROSA DE SOUSA
Professor da UFC e da Uece
marcondesrosa@gmail.com.br

 

               Vamos ensinar a pescar

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECE

 

Povo - 30 Mar 2009

 

               

                No Ceará (é bordão em meus artigos), economia e política alternam-se, como nossos rios, em cheias e secas. Exemplos recentes entre nós, a União pelo Ceará, com Virgílio Távora, a superar as velhas rixas entre PSD e UDN. Em 1984, Celso Furtado, voltado do exílio político, dava-nos conta, nos Encontros Culturais da UFC, de que os ciclos, no País, vêm e se vão de 15 a 18 anos, daí nascendo, o “projeto das mudanças” liderado pelos à época “jovens empresários do CIC”, à frente Tasso Jereissati.

                Agora, um desses “jovens empresários”, por alguns chamado “o Samurai do Cambeba” e hoje a levar à frente, na presidência da Transpetro, os sonhos do Barão de Mauá, em nossa indústria naval, adverte-nos para a chegada de novo ciclo – político e econômico - entre nós. Sérgio Machado aponta-nos estratégicas presenças de cearenses na vida política e social, no cenário nacional, que poderiam, sob o diapasão do olhar mais alto, re/unir, num “Partido do Ceará”, forças nossas hoje em desperdício, nos poderes executivo, legislativo e judiciário do País.

                Em O POVO, Sérgio Machado nos diz que sua intenção “é explicitar as características do nosso mercado e caminhos do treinamento e do crédito. Não vamos dar o peixe, mas ensinar a pescar”.

                De minha parte, sou partidário, sim, do “dar de comer a quem tem fome”. Mas insisto: “... uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão” (Zé Dantas e Luiz Gonzaga). E, não mais que Pero Vaz de Caminha, nessa jornada, ecoa-me a lição que, no Auditório Castelo Branco (UFC), deixou-nos Celso Furtado: “Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento”.

                Esse, o horizonte de um desenvolvimento sustentável. É a esperança de todos nós!