Grupos

Profa. Iranita Maria de Almeida Sá

 

Em 07/05/2000, no Boletim do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação, na Web, a Profa. Zânea Duarte, Assessora da Presidência do CEE/Ba, apresenta o artigo abaixo, de autoria da Profa. Iranita Maria de Almeida Sá, então a integrar o Conselho de Educação do Ceará, com a seguinte nota:

 

“Este texto foi transcrito da "Lista de Discussão" do Conselho de Educação do Ceará, a famosa "Lista do Prof. Marcondes" (a quem agradecemos pelas excelentes contribuições)”.

 

 

DOS CONCEITOS À OPERAÇÃO

 

 

Iranita Maria de Almeida 

 

 

Estamos diante de um novo momento na educação, mas não somos apenas nós. A reformulação do sistema de ensino é uma tendência hoje em todos os países da União Européia.

 

Instaura-se um novo modelo de educação profissional centrado na noção de "competência", ampliando a anterior concepção marcada pela "qualificação" profissional. Nesse sentido, a educação deve ser pensada em função da vida, do trabalho, da ciência e da tecnologia.

 

Na era da qualificação, as instituições formavam os futuros profissionais qualificando-os para ocuparem um posto de trabalho. Os conhecimentos e as habilidades deveriam estar de acordo com as exigências do saber técnico, para o melhor desempenho profissional. Agora, na era da competência, essas mesmas instituições devem reestruturar seus currículos para incorporar as seguintes dimensões:

 

·        competências teóricas e práticas específicas da profissão;

·        conhecimentos gerais relacionados à profissão;

·        atitudes e habilidades comuns a uma área profissional e ao mundo do trabalho.

 

Além disso, a Resolução CNE/CEB Nº 04/99 define sete princípios norteadores da educação profissional de nível técnico, que devem ser almejados. Entre eles, destaco: "respeito aos valores estéticos, políticos e éticos" e "desenvolvimento de competências para a laborabilidade", por serem dois princípios que se me afiguram como inéditos.

 

Portanto, essas antigas escolas têm agora uma nova função: o desenvolvimento pessoal e da cidadania, a preparação básica para o mundo do trabalho e o domínio dos meios para continuar aprendendo, se tornando cada vez mais competente.

 

Mas essa surpreendente preocupação com a educação profissional parece ter sido apenas uma retomada as preocupações de alguns séculos atrás.

 

Segundo alguns historiadores, o judaísmo não só reconhecia como recomendava o ensino de um ofício: "A mesma obrigação tens de ensinar a teu filho: um ofício como a instruí-lo na Lei" e "É bom acrescentar a teus estudos o aprendizado de um ofício."

 

Os séculos seguintes presenciamos um paulatino e decisivo preconceito em relação ao aprendizado dos ofícios e dos trabalhos ou inferiores na escola social.

 

No Brasil, o processo de construção das idéias e das principais contribuições teóricas obre educação e trabalho passam de um caráter meramente filosófico ao predomínio de estudos apoiados na teoria do capital humano, anos 60. Em seguida, as reflexões são críticas feitas às teorias da educação, nos anos 70 e, na década seguinte, segundo alguns teóricos, é que as teorias pedagógicas articulam a educação com as relações sociais mais amplas.

 

Restam-nos algumas preocupações. Entre elas, como as escolas conseguirão se distanciar de suas práticas e concepções, passando a compreender e implantar toda essa gama de inovações pedagógicas.

 

A propósito desse desafio, lembrei-me de uma história (abaixo transcrita) muito interessante e que parece ilustrar a questão sobre como implantar, na prática, teorias e conceitos.

 

***

 

O sapo, preocupado com uma cobra que vivia (e caçava) nas imediações de sua residência, foi consultar a coruja, conhecida como dona de grande cabedal de conhecimentos e sabedoria. "Tinha grande preocupação" disse ele, "é o poder de hipnose da tal cobra. O que devo fazer?

 

- É muito fácil, disse a coruja depois de alguns minutos de profunda reflexão, "Voe! É o que eu faria: é rápido, fácil e descomplicado".

 

Aliviado, o sapo agradeceu pelo sábio conselho e se foi. Após algum tempo voltou.

 

- "Sabe Dona Coruja, há um pequeno problema técnico de implantação na idéia que a senhora me deu outro dia. Sapos não voam!"

 

A coruja, já provavelmente cansada daquele problema tão "simples", retrucou:

 

- "Não me venha com problemas técnicos de implantação. Meus conselhos são fundamentalmente conceituais".

 

 

 

 

 

Igreja da Prainha

IGREJA DA PRAINHA (Nilze Costa e Silva)

 

“Tu não possuis, ó lírica cidade,

o perfume do tempo, o antigo aroma

que é mesmo a alma dolente da suadade

pelas ruas de Nápole e Roma”

(Jader de Carvalho)

 

 

A Igreja da Prainha nunca caiu. Apenas uma ameaça, uma rachadura em seus flancos angulosos coloridos de azulejos.  Passeio lentamente pela rua do Seminário Velho, que hoje não existe mais. O pensamento despenca ladeira abaixo indo procurar lá na Praça dos Aviões a minha infância moleque, correndo pela Rua Dragão do Mar.

 

No alto da ladeira, a praça, o Cristo Redentor. Eu, menina, subia lá no alto, o corpo em transe, a olhar a cidade tremendo, toda uma extensão de mar balançando à minha frente, prestes a derramar. Antes eu não sabia que o mar era tão paralelo ao céu e que suas ondas e nuvens e cores e movimentos se assemelhavam tanto.

 

Desisti de ver a última gaivota quase imperceptível ao longe. Desci a escada helicoidal do Cristo Redentor e fui sentar na praça, em frente à Igreja da Prainha. Era noite de novena. As crianças vestidas de anjo e eu a olhar de baixo a coração da virgem Maria, linda e azul, no alto do tablado.  Seguia a procissão de Nossa Senhora com os olhos famintos de umas asas enfeitadas algodão e uma roupinha de seda azul . Mas nunca me deixaram ser anjo. O padre dizia que anjo não tem pele morena e tinha que ter olhos azuis.  Ora, seu padre, eu nunca vi anjo mulher e taí a Marinez sendo anjo, só porque tem olho azul. Entrava por um ouvido, saí pelo outro e o padre nem escutava o que eu dizia. Apenas trovejava que sábado ia ter confissão.

 

Eu menina, eu mulher, lambendo com os olhos da lembrança as paredes do seminário velho. Um Cristo crucificado em frente à Igreja.

 

O Cristo Redentor ainda está aqui, imponente no meio da praça, abençoando a cidade com seu abraço forte e solidário.  Hoje a beleza da praça se alarga. As palmeiras servem de pouso aos pardais, que ainda tímidos, esperam o desabrochar de novas palmas. O Teatro São José, reformado, ainda guarda as lembranças do antigo Círculo Operário, onde eu, quando menina, numa tentativa de ser no futuro uma mulher prendada (nunca o fui...) fiz um curso de corte e costura por insistência de minha mãe, que nunca consegui concluir.

 

Eu menina, eu mulher. Por que o encontro das duas, neste fim de tarde, percorrendo as mesmas ruas de outrora? Onde as noites de novena, a multidão da Praça, a coroação da Virgem? Os anjos, onde estão os anjos?

 

 

Pódio ou cemitário: o dilema de nossas escolas?

OLHAR DE MÃE E EDUCADORA SOBRE A AVALIAÇÃO EM NOSSAS ESCOLAS

 

Esta é uma história, dessas comuns em nossas escolas (sobretudo as que acredi­tam no dilema “ou o pódio ou o cemitério”.), que teve início em fevereiro de 2005. A mãe, educadora, ex-integrante do Conselho de Educação do Ceará, quer discutir, com base em situação traumática de seu filho, o que, no quotidiano escolar, estamos cha­mando de “avaliação”.

 

Ela acredita que “a avaliação não se esgota no mensurar” e toma afinal posição:

 

(...) queiramos ou não, vivemos um outro momento em que o conceito de avalia­ção não significa apenas ‘mensuração’, como em suas origens. Guba y Lincoln (1988), dividiram conceitualmente quatro gerações, no processo de avaliação: mensuração, descrição, julgamento e negociação. Estamos, portanto, num está­gio onde o medo, a arbitrariedade e o autoritarismo já deveriam ter sido supera­dos pela coragem, a participação, o bom-senso, a negociação e a promoção para a felicidade das pessoas. Não o contrário.

 

            Acompanhemos essa história, em dois momentos:

 

a)      A narrativa do que ocorreu com o filho da professora, em dada es­cola, em Fortaleza, na provocação por ela feita ao Conselho de Edu­cação do Ceará;

 

b)      No tratamento da questão, em Parecer emitido pelo Conselho de Educa­ção do Ceará, ao final indicado.

 

***

 

 

I - O REQUERIMENTO DA MÃE AO CEC (Protocolado sob n. 04360805-, em 25 de fevereiro de 2005)

 

IRANITA MARIA DE ALMEIDA SÁ (...) vem, perante este colendo Conse­lho, expor fatos e, afinal, cobrar explicações e atitudes tanto da escola aqui em questão como desse órgão mais alto da educação cearense, em relação a um apregoado “direito subjetivo", que entendemos ora ferido.

 

1.0  OS FATOS

 

·        - Seleção: prova, entrevista e boletim

 

Recentemente – mais precisamente no dia 7 de janeiro, às 15 horas, meu filho, MARCO ANTONIO ARANTES COSTA FILHO, submeteu-se a uma “seleção”, visando a ingressar, transferido de outra escola, na 1ª. sé­rie do Ensino Médio do Colégio Farias Brito, sito à Avenida Dom Luiz (Sede Odilon Braveza), em Fortaleza.

 

Antes desse dia, à quinta-feira pregressa, nessa escola, já estivéramos nós, para que o aluno se submetesse a uma “entrevista”, ocasião em que tivemos de apresentar “boletim” alusivo à vida escolar do estabeleci­mento de origem. Ali, recebíamos a informação de que a “seleção toma­ria por base, como “resultado somatório”, elementos dos três campos, a saber: a “prova”, a “entrevista” e os dados do “boletim” sobre a anterior vida escolar do aluno.

 

·        Negação de acesso à prova

 

Na quinta-feira a seguir, dia 12 de janeiro, dia aprazado para o resultado da “seleção”, telefonei para o Colégio. E, por intermédio de uma funcionária da secretaria, fui informada de que meu filho havia sido “reprovado”. O resul­tado surpreendeu-me (o próprio Marco Antonio havia declarado ter feito boa prova e os resultados do boletim davam indicação nesse sentido). Telefonei, novamente, para a escola. Pedi, dessa feita, que me atendesse a coordena­dora. Lá, no entanto, não havia nenhuma. E, depois de a ligação repassar-se por várias pessoas, terminei sendo atendida por alguém se declarando “psi­cóloga”. Ela me prometeu, após se inteirar da questão, retornar a ligação.

 

E assim o fez, meia hora depois. Disse-me que, de fato, “o aluno havia tido problemas com a nota.” Quis então eu saber “que nota” e se poderia ter acesso à prova. Ela me disse que, infelizmente, isso não era permitido...

 

·        Revisão da prova

 

No final de semana, conversei, sobre o problema, com familiares e um cu­nhado, este com ligações de amizade junto à direção da escola. Ele, logo na segunda-feira, pela manhã (10 de janeiro), esteve com a coordenadora, Profa. Fernanda, a quem pediu que “olhasse o caso com bons olhos”. A coordena­dora assegurou-lhe que a revisão seria feita, dando-lhe disso retorno. À tarde, pessoalmente, fui até o colégio, com o intuito de pedir explicações sobre a “seleção”.

 

Ao lá chegar, fui informada de que estavam todos participando de uma reu­nião com o Diretor Superintendente, Dr. Tales. Dispus-me a aguardar o tér­mino da reunião. E, após uns 30 ou 40 minutos de espera na recepção, eis que me chega uma ligação da coordenadora, Prof.ª Fernanda, para informar-me que a reunião iria “demorar bastante” e que, depois, poderíamos tratar a questão. Ela me disse haver conversado com meu cunhado. E que, no dia se­guinte, iria tomar as providências para que a prova fosse revista, restando a nós aguardar.

 

Quinta-feira, 19 de janeiro, sem retorno. Volto a telefonar para a coordena­dora, que me confirma, por fim, a mesma história da “reprovação” sob a máscara da frase: “o aluno não alcançou os níveis exigidos pelo colégio”. Isso, afirmou ela, conclusão mesmo após a revisão dita feita. Tivemos, por telefone, uma longa conversa. Pude esclarecer razões de ordem subjetiva e objetiva sobre a seleção e da opção nossa pelo colégio.

 

2.0  QUESTÕES A SE ESCLARECER

 

Tais fatos causaram-nos – confesso – mal-estar enorme. E nos deixaram, ao filho e a mim, indagações que persistem junto a essa instituição de ensino e de educação. Por certo que entendemos não poderem ser essas práticas im­provisadas ou deliberadamente excludentes. Mas, ao contraio, devem refletir inteligentes decisões de seu grupo gestor, frutos de concepções e referenciais teóricos previamente adotados e pela escola abraçados.

 

Educadora e mãe, num país onde educação consagra-se como direito – obje­tivo e subjetivo a qualquer cidadão que, nesse “direito” se sintam lesados – ficam-me por responder (que, se possível, gostaríamos fossem lastreados em provas e documentos formais) as seguintes questões a nos incomodar:

 

a)      Que normas e documentação institui, no Colégio, a seleção de novos candidatos (Regimento Interno, que, na resposta esperamos trans­crito)?

 

b)      Para o ingresso na 1ª serie do Ensino Médio, a avaliação tem, como campo, o conteúdo da série anterior que ele concluiu – no caso, a ób­via 8ª. serie ou da que irá cursar – como foi marcado pela psicóloga que nos atendeu?

 

c)      Se, do processo de seleção, fazem parte a entrevista, o boletim e a prova, qual o peso, em nota, para cada um deles?

 

d)      Por que o sistema de avaliação é exclusivamente baseado em nota?

 

e)      Por que é proibido ter acesso à prova, se ela deve ser um processo trans­parente como manda a lei?

 

f)        Se assim é, por que não dar ciência aos alunos, pais e responsáveis de que não terão eles direito ao acesso nem à prova e nem à nota, contra­riando assim a Constituição Federal, as diretrizes e bases da educação nacional (LDB) e o sistema jurídico enfim?

 

g)      Se a prova abrange Português e Matemática, o resultado é apenas de uma ou de duas?

 

h)      A que se propõe a entrevista, se as perguntas feitas são do tipo “o que você faz nos fins de semana”?

 

i)        Por que o simples “olhar o boletim” sem analisar a história-de-vida do aluno, durante e ano e considerar seu processo de evolução?

 

j)        Se o aluno, na seleção, não tem desempenho considerado adequado, por que não conversar com a família, expor a questão e até, se for o caso, assinarem os responsáveis pelos alunos em tal situação, um termo de responsabilidade, caso a opção sejas ficar no colégio?

 

k)      Por que acreditar numa seleção que é realizada tanto nos dias marca­dos no calendário do colégio, como em outros dias, dependendo da situação de outras pessoas? Será que dessas “outras pessoas” foram reprovadas?

 

l)        Em pleno Séc. XXI, o Colégio estaria ainda se pautando pela “cultura da reprovação” a partir de um simples “teste de seleção”?

 

m)    Por fim, uma curiosidade. O que dizer do caso de um aluno haver ti­rado, na seleção, “nota dez” de, de imediato, receber oferta de bolsa, de sorte a tornar-se “ícone”, no marketing, como produto da escola?

 

3.0  A AVALIAÇÃO NÃO SE ESGOTA NA MENSURAÇÃO

 

Outras questões poderiam para aqui serem trazidas. Importa-me, porém, di­rigir-me, em maior grau, à coordenação da escola, responsável eu é pelos elementos do planejamento escolar, dos quais a avaliação é um deles.

 

A avaliação de qualidade deve constituir-se em parte integrante de um pro­cesso de ensino e aprendizagem, e não como um fato isolado.

 

Eis o que pensa Ansubel Novaz y Honesian (1995):

 

La funcíón de la evaluación consiste em determinar el grado en que ob­jetivos, de importancia educativa, están siendo alcanzados en realidad.  (...) evaluar es hacer um juicio de valor o de mérito, para apreciar los resultadeos educativos en términos de si están satisfaciendo o no um conjunto específico de metas educativas (em Otoria y Otros, 1995)

 

 

            Partindo dessa premissa, entendemos que, queiramos ou não, vivemos um mo­mento em que o conceito de avaliação não significa apenas “mensura­ção’, como em suas origens”. Guba y Lincoln (1969) dividiram conceitual­mente quatro gerações, no processo de avaliação: mensuração, descrição, julgamento e negociação.

 

Estamos, portanto, num estágio onde o medo, a arbitrariedade e o autori­tarismo já deveriam ter sido superados pela coragem, a participação, o bom-senso, a negociação e a promoção para a felicidade das pessoas. Não o contrário.

 

4.0  O PEDIDO

 

Minha intenção, afinal.

 

Mãe, espero da escola - em nome do direito subjetivo, que é a educação em nosso País e em todas as suas modalidades bem como a qualquer cidadão – a resposta a essas questões.

 

Educadora, gostaria que o Conselho de Educação do Ceará, além de refletir sobre o processo de avaliação em nossas escolas, cuidasse, no caso em questão, no sentido de observar se as suas intenções e normas (que detalham direitos e diretrizes nacionais) estão sendo cumpridas, no quotidiano de nos­sas escolas.

 

Atenciosamente,

Profa. Iranita Maria de Almeida Sá

 

***

 

A POSIÇÃO ASSUMIDA PELO CONSELHO DE EDUCAÇÃO DO CEARÁ - http://www.cec.ce.gov.br/par2006.htm, 

 

PARECER 0068/2006, em 08 de fevereiro de 2006, um ano quase após... (Do qual aqui se extraem):

 

 

III – VOTO DA RELATORA

 

O voto é no sentido de que, nestes termos, responda-se às indagações de  Iranita Maria de Almeida Sá, mãe do aluno Marco Antônio Arantes Costa Filho.

 

Este é o parecer, salvo melhor juízo.

 

IV – CONCLUSÃO DA CÂMARA

Processo aprovado pela Câmara de Educação Básica do Conselho de Educação do Ceará.

 

Sala das Sessões da Câmara de Educação Básica do Conselho de Educação do Ceará, em Fortaleza, aos 08 de fevereiro de 2006.

 

MARTA CORDEIRO FERNANDES VIEIRA

Relatora

 

ADA PIMENTEL GOMES FERNANDES VIEIRA

Presidente da Câmara

 

GUARACIARA BARROS LEAL

Presidente do CEC

 

 

 

 

 

Arco do Triunfo em Ipueiras (Foto: Edson Morais)

 

CITAÇÕES EM TOM DE TRIBUTO (I)

 

No semi-árido das águas retiradas

 

Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipu­eiras (“águas retiradas”, em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a lei­tura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a deci­fragem do mundo. Leitura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, “leitura da oralidade” – a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Carochinha, que me iam chegando das babás e empregadas domésticas, e dos múltiplos contadores de história a povoar os sertões.

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráficos corretos e belos), em cadernos onde começávamos a “cobrir” as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas.  Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Ca­tunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros didáticos, um deles nos chamava a atenção: o “manuscrito”, onde textos escritos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreensíveis “garran­chos”, nas últimas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na es­cola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mourão) , na mesma cidade, tínhamos de decifrar.

 

Garranchos assim, bem mais antigos, eu os encontrava nos gigantes­cos livros em que se registravam as escrituras dos imóveis, no cartório de meu pai. “Livros enormes” sob minha ótica infantil, campo aberto onde ca­rimbos eram “boizinhos” e “rezes” nos imensos campos por entre garran­chos e carrapichos  da manuscrita caatinga. Dali, extraíam-se as histórias das duras conquistas das glebas de terra, romanceadas por meu pai, exímio contador de história. Conquistas desde os tempos das sesmarias até os dias de então, que ali afinal se registravam a buscar proteção e amparo da lei: ao norte e ao sul, limitando-se com terras dos “coronéis” fulano e sicrano; a leste e oeste, “enquanto resistência houver”!...

 

Curioso! O oral e o escrito, em dueto, surgiam-me imbricados desde a infância. E a leitura, já aí, não se continha na estrita dimensão, a dos li­vros. Abria-se, mais ampla, para o interpretar de nosso redor. Tudo, em bem dosada mistura entre o real e o fantástico. A leitura dos livros, sim. Mas a “leitura” que, com o pai da lingüística, a chamaríamos “semiológica”.

 

Tópico escrito por Marcondes Rosa de Sousa, in  “A leitura emburrece?”, discussão que se desenvolveu no Grupo Ethos-Paidéia, www.grupos.com.br/ethos-paideia, na Web.

 

 

 

Plenário do Conselho de Educação do Ceará

Educação a distância e inclusão social (II)

 

 

No opúsculo Educação a distância: processo contínuo de inclusão social. Fortaleza, Conselho de Educação do Ceará, 1998), a então Conselheira Iranita Maria de Almeida Sá, discorre sobre os fundamentos, as concepções, as características, os veículos e linguagens, o processo e a função da educação a distância, como ferramenta da inclusão social, em nosso País.

 

É uma “conversa inicial” sobre o tema.

 

 Tópico extraído da Revista Mensagem, 16 (1), jan./jun. 1988 – 103/107, publicada pelo Conselho de Educação do Ceará.

 

 

Tecendo Nova Manhã

22:42 @ 14/04/2006

Galo (de Aldemir Martins)

 

TECENDO NOVA MANHÃ

Marcondes Rosa de Sousa

 

         O poder da caneta! A expressão se repisa na imprensa, na boca de nossos políticos. Mas com o sabor nostálgico dos tempos clientelistas, quando a caneta era arma a distribuir favores como moeda na conquista e sedução de votos. Junto à intelectualidade, a expressão tem outra conotação: a do poder, inerente ao ''ofício do escrever'', capaz de expressar não-ditos incontidos no sentimento do povo.



         Decorrente do ''poder da caneta'', está o ''poder de resina'' - a capacidade de juntar dispersas hegemonias em cacos: a caneta, enfim, com seu sintático poder de enfrasar insulados poços e poças, recobrando a força e a beleza da ''grandiloqüência das cheias'' de nossos rios.


         Os fatos recentes chocaram-nos. Mas, no fundo, são meros vômitos do não mais contido, sinal de notório fim de ciclo, com o rever necessário da história, repondo cacos já rotos. Impetuosidades e descortesias, para alguns. Para outros, imitação de Cristo quando do templo, expulsou vendilhões...



         No Ceará, a história nos mostra ganhos em momentos assim. Assim, na União pelo Ceará, que nos legou Virgílio. E nos anos 80, tendo Celso Furtado por ícone, a rejuntar todos num projeto para mudar o Ceará: dos empresários do CIC aos mais à esquerda, com o apoio do próprio VT. Tempo hoje de revisão histórica, de novo pacto, em novo ciclo.


         Sinto-me cobrado em meu ''ofício do escrever''. E, nisso, agarro-me aos versos de João Cabral de Melo Neto: ''Um galo sozinho não tece uma manhã (...) / muitos galos que se cruzem (...) para que a manhã, desde uma teia tênue/ vá se tecendo, entre outros galos''.



         De um amigo, chega-me a propósito, a oportuna conclusão, em bem-humorado lapsus linguae: ''Precisamos, no Ceará, dessa manhã'' ''Mas um galego (digo, um galo) não a tece sozinho!''


         Por um Ceará sob as tintas de um amplo e novo caleidoscópio social!


         MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente.

 

 

 

 

Publicação do Conselho de Educação do Ceará (1997)

 

EDUCAÇÃO SUPERIOR,

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 E INCLUSÃO SOCIAL

 

 

Tópicos para discussão

 

 

Na discussão sobre “A responsabilidade das universidades para com o desenvolvimento sustentável”, a professora Eunice Durham, em 1997, apontava duas questões fundamentais: a) a autonomia; b) a responsabilidade social, onde se iriam esbarrar os limites de tal autonomia.

 

            Sobre a autonomia:

 

            “Em primeiro lugar, sob perspectiva minha e do Ministério da Educação, autonomia universitária é questão fundamental.  Não tanto pelo aspecto da liberdade acadêmica, vale dizer da liberdade crítica (que ela assegura), mas por outro aspecto, até considerado secundário e que, no entanto, é instrumento básico da liberdade acadêmica: a racionalidade do uso dos recursos.  Autonomia é conceito que há de estar ligado a um processo novo de racionalização. Isso, porque hoje sabemos que não só dispomos de poucas verbas para a educação (o que é mais grave) que boa parte delas é mal gasta. Não por culpa individual de ninguém, mas pela ação de um sistema que terminou por se tornar perdulário (...)”

 

 

            Sobre a responsabilidade social, limite onde se esbarra a autonomia:

 

            “Autonomia é idéia que tem de se fazer acompanhar da noção de responsabilidade. De fato, é muito difícil que exista uma autonomia verdadeira, se não há uma garantia mínima de fluxo de recursos suficientes para sustentá-la. Mas aí é quesurge o problema: como satisfazer o conjunto das reivindicações com 100 por cento das verbas destinadas à educação, qyabdi essas necessidades, somadas, atingiram até 250 por cento dessas verbas (...)

 

            “Num passado recente, a universidade brasileira legitimou-se, perante a opinião pública, em razão de sua luta política contra o regime autoritário, que dominou o País. Foi isso que lhe deu visibilidade e a auto-estima sentida por professores, em relação a si próprios. Consideramo-nos, nós todos (e eu participei dessa geração), como autêncicos heróis, na luta contra a ditdura e em prol da liberdade.

 

            Muito bem! Foi-se a luta contra o arbítrio.  E, agora, qual o papel que nos cabe? Não podemos mais, nostalgicamente, reeditar os anos 60, quando a universidade era vista como a vanguarda do proletariado, que iria fazer a revolução socialista... Essa visão vanguardista está, hoje, inteiramente superada. 

 

            Os tempos agora exigem um pouco mais de modéstia, que deverá ocupar o lugar da ingenuidade, que nos invadia, ao nos acreditar vanguarda, em todo o mundo...”

 

            E ela conclui: “Acabar com a miséria é o grande desafio”!

 

            (Op. cit. pp 1011)

 

            Hoje, o conceito de “autonomia” toma colorações mais maduras, sobretudo nas instituições públicas.  As antes “privadas” hoje são envoltas no largo espaço do público, que ultrapassa os tradicionais limites do’estatal’.  E o que hoje procuramos é o ideal constitucional do “regime de colaboração” entre os entes estatais (união, estados e municípios), agora não mais “frios governos” mas espaços sociais habitados por plurais “protagonistas de ampla rede” ou de imensa teia social.

 

Como - eis a pergunta lançada para esses potenciais “protagonistas de nossa teia social” - ficariam hoje, quase uma década depois, os conceitos básicos propostos por Eunice Durham: a autonomia, nos limites da responsabilidade social, a mirar o horizonte de um sustentável desenvolvimento a nele incluir todos os cidadãos?

 

Você, instituição ou pessoa física, é um desses “protagonistas” que, em “teia”, há que ser ouvido.

 

Mande-nos sua visão. Hoje, o que pensa sua instituição (social ou acadêmica) e você?

 

O Ceará, em clima de Conferência Estadual de sua Educação Superior, busca resposta para essas questões.

 

 

 

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO

 

Vagner Muniz

 

 

Ainda na linha do "a leitura emburrece?", tenho observado algumas coisas. Muito se diz que vivemos a,  (ou na)  "civilização da imagem". Afirma-se que a "simultaneidade" da imagem seria "superior" à "linearidade" do verbal; que a simultaneidade estaria mais de acordo com os processos mentais e com a inteligência. Donde: a leitura emburreceria.

 

Já tem  muito "letrado" afirmando isso.

 

Primeiro, confunde-se a linearidade da escrita ou da fala aos processos de construção do sentido, esses nada lineares.

 

Segundo, as imagens proliferam, o que certamente interfere nos processos cognitivos e sociais, mas não implica em enfraquecimento do verbal, antes em outras possibilidades de articular o discurso.

 

Terceiro, ler menos (livros e revistas) é uma coisa. Outra é que a comunicação escrita (e-mails e sms, para ficar em duas) nunca foi tão difundida.

 

Quarto,  uma sociedade ágrafa seria coisa muito diferente de uma afônica.

 

Quinto, confunde-se formação de imagens, no sentido de formação de conceitos, com construção de imagens físicas.

 

Sexto, imagens e verbalidade têm suas especificidades; há o que se pode manifestar com uma, mas não com outra e vice-versa.

 

Sétimo ...

 

Oitavo ...

 

 

 

Adail Sobral

 

A VAGNER MUNIZ,  MEU AMIGO “SUMIDO”

 

Adail Sobral

 

            Interessantíssimas e bastante perspicazes suas observações, meu amigo "sumido"! Sabe que um dia desses, já cansado, eu traduzia, quando, diante de um dado termo, veio-me não uma palavra em português, mas a imagem de um quadro do Velázquez. Fiquei a pensar sobre os meandros do pensamento verbal, no fato de que pensamos por imagens, mas não imagens visuais, e sim imagens mentais, que nada têm de linear.

 

            Fui do verbal ao visual e deste ao verbal, e traduzi o tal termo. Acho que a falta de leitura emburrece, como o mostram os tais letrados ao dizer o oposto: eles devem ter deixado de ler!

 

            Escrevi minha tese no computador e li as sucessivas versões em papel, e olhe que sou viciado em Internet (onde há a meu ver mais textos do que imagens, ou ao menos eu procuro os textos). Por que o fiz? Porque criar um hipertexto para ler daria trabalho e não me daria a liberdade (!) de saltar páginas à vontade, e porque no computador não é possível ter a visão de conjunto que a linearidade, precisamente, permite.

 

            Por outro lado, diante de qualquer texto, escrito ou falado, nunca estamos na linearidade, porque um trecho nos leva a retroceder na leitura, outro a tentar ver o que vem depois antes de chegar lá. Quando leio na tela, nunca uso os tais "leitores", preferindo o texto "normal".

e

            Vejo certo fascínio de alguns por se dizer modernos, avançados etc., sem parar para pensar na realidade. Como disse o Eco, a Internet resgatou o texto da "civilização" da imagem, cujo epítome é a TV. Mas claro que quem já está viciado em imagens físicas só vê as próprias.

 

            Isso é o grave: tomam-se hábitos recentes de certos grupos e julga-se que são hábitos de todos. A falta de leitura (e agora falo de ler inclusive o mundo) emburrece. Será que a tecnologia incomoda tanto que alguns precisam arrumar rapidamente uma explicação qualquer para se livrar do problema?

 

 

Profa. Iranita Sá

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA:

PROCESSO CONTÍNUO DE INCLUSÃO SOCIAL

 

 

APRESENTAÇÃO

 

 

 "Inda que mal lhe pergunte: o que é que esse povo todo veio fazer aqui?" - é a pergunta que "Seu" Cosme, velho funcionário do Conselho de Educação do Ceará (há pouco falecido) faz a Helsenir Lucena, assessora da Presidência. Helsenir lhe responde que "discutir assuntos relacionados com a educação a distância”, tema que "Seu” Cosme diz desconhecer. Paciente, a assessora tenta explicações até que o velho funcionário suspira, grunhe, em seu dialeto, interjeições indecifráveis, e por fim sentencia: "Se, bem de pertinho, a educação já não é grande coisa, imagine quando é feita de longe".

 

No comentário, "Seu" Cosme deixa escapar o que, talvez, esteja no imaginário de nossa gente sofrida: a desilusão com a educação, vale dizer, a feita "bem de pertinho" (dita presencial) e a que se opera "de longe" (chamada a distância). Tudo como se estivesse seguindo a trilha do provérbio "quem não tem cão caça com gato". E lançasse seu descrédito contra o "cão" (a educação convencional), em seu papel e, mais ainda, contra o gato (educação a distância), desacreditado suplente do inoperante cão.

 

            No País, com efeito, há muito que à educação a distância atribui-se um pálido papel supletivo, restrito à formação de uns poucos à margem de nosso sistema escolar. Um processo que tradicionalmente carrega todas as conotações negativas da mordaz expressão "de longe", contidas no desabafo de "Seu" Cosme: as do desinteresse, do sem acompanhamento, da incúria e do descaso até.

 

 Eis que, agora, o tema ressurge avultado em relevo, em um contexto onde outros são o Planeta e o Brasil, quando o avanço tecnológico cria inéditas oportunidades de interação, de acompanhamento e controle, fazendo, dessa atividade de ensino, um aberto processo de educação continuada. Em tais circunstâncias, a educação a distância assume o tríplice aspecto de uma educação: a) supletiva, (para os que se postam à margem da escolarização convencional); b) continuada (para os cidadãos em geral, além da escola); c) complementar (numa expansão do espaço e do tempo escolar). Em outras palavras, ela se torna um eficiente processo de inclusão social. Transpõe os limites da escolarização convencional, constituindo-se em um processo a nos acompanhar a vida inteira. Contribui para a redefinição, na instituição escolar, dos paradigmas de tempo, espaço, interação e presencialidade.

 

É sobre essa temática, dentro desse contexto de novos paradigmas que, neste opúsculo, ocupa-se a Profa. Iranita Maria de Almeida Sá. Em linguagem transparente e singela, num tom familiarmente didático e sob o ilustrativo formato de uma “unidade” de um virtual programa de educação a distância, educadores e professores aqui encontrarão um “início de conversa” sobre: o mosaico das conceituações desse tipo de educação, seu tríplice papel, suas características, seus diversificados canais e linguagens, as posturas e atitudes a ela inerentes.

 

O tema nos chega em hora oportuna, justamente quando o País se repensa em seu desenvolvimento, ora intentado mais humano e menos excludente. E, dentro desse contexto, a educação a distância torna-se o signo maior da “lógica da inclusão”, ao tempo em que é a própria educação que se descobre, na tradição nacional, como uma ferramenta até hoje posta a serviço da combatida exclusão... Tempo ainda, no Ceará, de olhar para trás e retomar as históricas e bem-sucedidas experiências de educação a distância (as efetuadas por meio do rádio, da televisão e do jornal), inspirando-as, no entanto, da nova lógica e dos padrões da atualidade.

 

            Tudo isso para que, da “inclusão social”, façamos uma Roma onde devam desaguar os caminhos todos: das estradas carroçáveis às infovias, do “orelhão” ao satétite. Coisa que, no fundo, talvez fosse a queixa maior de “Seu” Cosme: os reclamados cuidados “bem de pertinho”, para que a educação possa ter qualidade melhor!

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Presidente do Conselho de Educação do Ceará (1998)

 

 

Quadro, extraído do opúsculo, acima citado, de autoria da Profa. Iranita Maria de Almeida Sá, que faz um paralelo entre as funções do professor (na educação convencional) e do tutor (na modalidade a distância)

 

 

 

EDUCAÇÃO PRESENCIAL

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA

Conduzida pelo professor

Acompanhada pelo tutor

Predomínio de exposições o tempo inteiro

Atendimento ao aluno, em consultas individualizadas ou em grupo, em situações em que o tutor mais ouve que fala.

Processo centrado no professor

Processo centrado no aluno

Processo como fonte central de informação

Diversificadas fontes de informação (material impresso e multimeios)

Convivência, em um mesmo ambiente físico, de professor e aluno, o tempo inteiro

Interatividade entre aluno e tutor, sob formas outras, não descartada a ocasião para os “momentos presenciais)

Ritmo de processo ditado pelo professor

Ritmo ditado pelo aluno aluno dentro de seus próprios parâmetros.

Contato face a face entre professor e aluno

Múltiplas formas de contato, aí incluída a ocasional “face a face”

Elaboração, controle e correção das avaliações pelo professor

Avaliação de acordo com os parâmetros definidos, em comum acordo, pelo tutor e o aluno

Atendimento pelo professor, dentro dos rígidos horários de orientação e sala de aula

Atendimento pelo tutor, com horários flexíveis, lugares distintos e meios diversos

 

 

 

 

 

 

 

Fortaleza (Ce)

UM NOVO CONCEITO: TURISMO É EDUCAR

(ANYA RIBEIRO)

 

 

De inicio, divulgamos no Grupo Ethos-Paidéia, a nota de 16 de fevereiro de 2006, que o Jornalista José Maria Pinto, em sua Coluna “Turismo S/A”, em O Povo, divulgava:

 

“PAINEL

 

Iranita Sá, coordenadora do curso de Turismo da Face, reúne a calorada, amanhã, no Hotel Vila Galé.  Outra promoção de Iranita é o Chá das Cinco, em data a ser marcada, com aqueles que ajudaram o turismo do Ceará a crescer.”

 

Em reação e provocação, escrevia-nos, então, Anya Ribeiro de Carvalho, anya.ribeiro@turismo.gov.br, ex-secretária estadual de turismo no Ceará e hoje a brilhar na constelação do turismo nacional:

 

Além dessa animação, o que a FACE fez, em 2005, para ajudar o turismo a crescer? Quantos profissionais foram formados? Quantos ingressaram no mercado de trabalho? Em quais atividades? Do total dos graduados da Face quantos atuam hoje no mercado? Em quais setores? PENSO QUE ESTAS QUESTÕES SÃO BEM IMPORTANTES!

 

Em comentário, procurei eu repor a questão da formação dos técnicos em turismo, em nossas instituições, fatos por ela sabidos:

 

Essas, Anya, são as inquietações dos que, fora do âmbito das Instituições de Educação Superior, operam, empresarialmente ou no plano político, com o nosso turismo. Há como que um "conflito de linguagem" entre a vida acadêmica e o operativo lá fóra.

 

Do Exterior, ouvi muito a crítica segundo a qual nós, aqui no Brasil, estaríamos querendo formar um profissional "genérico demais" e não existente - o "turistólogo", quando o mercado aí estaria a exigir uma plêiade diversificada nesse campo, desde o guia e o enólogo aos especialistas em política, administração e  turismo ecológico. Ramon Serra, da Universidade de Saint Paul (na Espanha) foi um deles, quando aqui esteve.

 

Pessoalmente, quando era Presidente do Conselho de Educação do Ceará, queixei-me, certa feita e por escrito, dos "maus tratos" em um hotel renomado de Brasília: o Hotel Nacional, quando de convenção nacional. Ao pagar a conta, fui abordado pelo gerente que me chocou. Disse-me que, naquele momento, havíamos, ele e eu, trocado de posição. O cliente ali, deixava de ser eu, o reclamante, para ser ele, que assumia sua reclamação: "A culpa pela incompetência, professor, é do senhor e não minha!"

 

Não entendi. E ele, dizendo ter tido acesso à minha ficha, disse: "O senhor é presidente de um Conselho de Educação, foi presidente do Fórum dos CEEs, é membro da cúpula do partido que está no governo federal (era a época de FHC).  Se os funcionários não lhe prestaram o serviço a que o senhor tinha direito, olhe bem e me diga se a culpa não é dos que  prepararam estes profissionais!..."

 

Cheguei ao aeroporto, onde encontrei (era uma sexta) deputados e autoridades que voltavam ao Ceará. Queixei-me. Os deputados meus amigos foram unânimes: "O homem tem razão!" Lá pelas tantas (recorda-se?) chegou você, que acabou de me derrubar: "Há, no Ceará, Marcondes, uma só escola de hotelaria credenciada pelo Conselho de Educação do Ceará. E aposto que você, que deve ter assinado essa autorização, não teria coragem de lá se hospedar".

 

Todos riram. Mudei de tom e ali nasceu a idéia de juntarmos todos os interessados, no Centro de Convenção, em Fortaleza, e pautarmos caminhada no sentido de rever esse quadro.

 

Fizemos a reunião. Infelizmente, você durou pouco, após isso, na Setur. A pasta mesclou-se a outras, ficando a idéia para ser retomada.

 

Creio que é chegada a hora de isso acontecer. Como mero cidadão, estou, junto à Secretaria de Educação Superior, ajudando ao Hélio Barros orientar nossas faculdades (públicas e privadas) a, em "regime de cooperação" cumprir com seu papel, o desenvolvimento, em moldes sustentáveis, no Estado e no País.

 

A Faculdade Evolutivo resolveu moldar-se na pauta dessa preocupação. Junto à coordenação de seu engatinhante curso de turismo, conta hoje com o trabalho da Profa. Iranita Sá, ex-conselheira do CEC, com larga experiência em turismo (coordenou o primeiro curso quando na Unifor) e seu doutorado em educação. E você hoje tem percepção do problema em nível nacional...

 

As perguntas, Anya, não são apenas para a Faculdade Evolutivo (a Face) mas para a plêiede de nossas instituições (profissionais e de nível superior). E não apenas do Ceará mas de todo o Brasil, onde os cursos de turismo demandam questionamento.

 

Suas provocações vêm, pois, em hora oportuna. E bem cabem em nosso Grupo de Discussão, o "Ethos-Paidéia", onde a "paidéia do turismo" há que se atrelar à pauta do "Ethos" (vale dizer, da "convivência social" fazendo do turismo arte da construção coletiva e do desenvolvimento social, lançando fora suas vergonhosas marcas do "turismo sexual", a humilhar nossas "iracemas", aqui e "além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte..

 

 

Ao que, afinal, Anya Ribeiro, concluiu:

 

 

Continuo eu acalentando este sonho de rever a programática e grade curricular dos cursos de turismo, que somam hoje no país quase 700, modernizada conceitualmente e tecnologicamente. Sabes que concordo plenamente  com o Prof. Ramon Serra.

 

A política nacional do turismo trabalha produtos segmentados para mercados de nichos especializados como são os observadores de aves até os esportes de natureza, passando por pesca, golfe, eventos... São onze os produtos segmentados em qualificação  para serem ofertados ao consumo dos mercados  estratégicos para o Brasil.

 

Precisamos resgatar aquilo que sabemos ser o principal instrumento de uma política pública para um destino Brasil com oferta de produto turístico de padrão de qualidade internacional.  

 

UM NOVO CONCEITO:TURISMO É EDUCAR!!!!!

 

 

Não há o que discordar. E, no artigo “Trote e responsabilidade social”, esse foi o pensamento:

 

 

Nosso turismo e sua formação nos impõem revisões urgentes: 1) olhar mais largo para a sedução de litoral, serras e sertões nossos, onde criatividade, hospitalidade e cultura alencarinas plantam morada; 2) novas dimensões do turismo de agora - lazer, ecologia, religiosidade, ciência, negócios; 3) extirpação das manchas ficadas do dito ''turismo sexual''; 4) a elevação da atividade a ''indústria sem chaminés'', alargando a inclusão social de nossa gente, cuja criatividade é vista capital humano de seguro retorno.


Na iniciativa, por certo, há tato e visão de Iranita Sá, expert em educação e turismo, hoje ligada à Face. Espera-se que o novo símbolo altere a face da educação superior cearense, a construir-se, mosaico do plural ''semi-alheio'', na tessitura do coletivo.

 

Vejam no Blog do Grupo “Ethos-Paidéia”, no endereço:

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/month/02-2006.html

 

 

Hoje, pensamos que duas ocasiões se abrem para a discussão mais vertical dessa questão: a) o Congresso Brasileiro de Turismo em Fortaleza, de 15 a 18 de maio; b) a Conferência Estadual de Educação Superior, ora em organização pelo Governo do Estado do Ceará e Assembléia Legislativa, da qual voltaremos a falar.

 

Até lá!

Prof. Marcondes Rosa de Sousa

Coordenador do Grupo Ethos-Paideia

Integrante da Comissão Organizadora

da Conferência Estadual de Educação Superior

 

 

 

 

 

NAÇÕES A CATA DO SOL E DOS VENTOS

 

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

(Médico sanitarista)

 

 

 

De volta ao Rio. Vim do Ceará, mais especificamente de Paracuru. Cidade bela e amada, hoje inundada de Espanhóis, Portugueses, Italianos, Suecos, Alemães e uma grei de outras tantas nações a cata do sol, ventos e de jovens cearenses respirando oportunidade social.

 

Quem são eles, os estrangeiros? Lembram o subalterno Martim Soares Moreno em busca, por seu lado, de oportunidades no equador da terra. De uma "Iracema dos lábios de mel", da paz que as guerras terroristas não permitem na origem; de uma casa barata para comprar. Casa esta que já foi de alguém da falida classe média de Fortaleza, que a construiu na década de 80, comprando barato os terrenos e as arcaicas moradias aos nativos de Paracuru.

 

Certamente os atuais dólares convertidos em reais, honrarão as dívidas do cheque especial e do cartão de crédito do sufoco rotineiro, daqueles que moram a "imensa Aldeota" em que se transformou Fortaleza. Tão rápido como os nativos se viram sendo jogado para lotes distantes da periferia de Paracuru, assim que as classes médias lhes compraram o antigo patrimônio, o dinheiro da venda, se transforma em pó e só dar para vender o almoço com o qual pagará a janta. Mas esta corrente já deixa ver uma centena de elos frágeis. Nitidamente já corroídos.

 

Os "estrangeiros", na maioria, são operários qualificados, muitos com renda garantida apenas por seis meses, trabalham um período e praticam "surfs" os demais nas praias do terceiro mundo. Uma corrente cujo fluxo de força é o Euro valorizado em relação às demais moedas do mundo e especialmente a brasileira. Qualquer crise monetária e a corrente da felicidade do turismo local se rompe, deixando moradias abandonas e os parcos empregos gerados em frangalhos. Mas não tenho dúvida de que, da forma como descrevo os eventos na terra do sol, leva-se à tentação de imaginar-se que a alternativa é atrair o "turista rico" com ousados projetos de "resorts" ao estilo Costão do Sauípe.

 

Nada mais duvidoso, pois turista rico é igual a moeda forte e leva ao mesmo. Então, a onda do turismo só tem importância para nós quando a nossa meta for o nativo de Paracuru, aquele do Ceará. Quando a educação formar técnicos especializados, mais pessoas com curso superior, a saúde pública ampliar a qualidade de vida das pessoas, os empregos gerados sejam alocados aos locais e a previdência social efetivamente pague um mínimo digno. Quando, enfim, a política para os homens da terra do sol for conduzida para si e por si e jamais por "empresários" de ocasiões apenas, aqueles que "surfam" nas oportunidades e abandonam a prancha, assim que a onda quebra.

             

 

VENDA DE CORPOS

PARA O ABATE DA FOME

 

 

Ricardo Marques.

 

 

(...) E já que se falou aqui em "turismo sexual", quero só contar uma historinha rápida.

 

Um amigo vindo de Curitiba presenciou um caso de prostituição infantil na Avenida Beira-Mar, em Fortaleza (Ce). Uma senhora brigava e instruía uma menina de uns nove anos a respeito de como "pegar" turistas.

 

No mesmo dia, esse meu amigo, que é professor, telefonou para todos os órgãos e entidades que poderiam fazer alguma coisa. Numa delas, municipal, foi atendido por funcionários que não demonstraram sequer terem idéia de como proceder numa situação dessas. Chamaram "dona fulana", que não estava. Era só com ela. Outra veio ao telefone e disse que ele ligasse depois porque a pessoa que entendia desse negócio não estava.

 

Conseguiu falar com a tal "dona fulana" dias depois, sempre insistindo todos os dias, mas a tal senhora informou que eles não podiam fazer nada, que ele telefonasse para outro órgão. E ele tentou, e tentou. Foi recebido friamente em uns, e nem mesmo recebido em outros.

 

No final das contas, "caiu a ficha": não existe combate à prostituição infantil no Ceará, nem interesse em que haja. As notícias de comissão disso e daquilo se reunindo para "discutir" a prostituição infantil é só “pra inglês ver”, parece que não passa de espetáculo político. Nada acontece de concreto.

 

Enquanto isso, menininhas e menininhos continuam a descobrir, mesmo sem entenderem, que vender seus corpinhos para brasileiros e estrangeiros mentalmente enfermos e inescrupulosos, é o caminho mais fácil e rápido para passarem menos fome... Enquanto isso, os governos municipal e estadual continuam desinteressadíssimos com a segurança, a violência, as drogas, a cidade imunda e a prostituição, e vão arrecadando cada vez mais impostos.

 

E parecem muito felizes, obrigado. A preocupação gira só em torno de política partidária e sucessão. Quando muito, vão aprovando a venda do Estado aos estrangeiros, hoje proprietários de praias e uma imensidão de terrenos e imóveis. Afinal, o que importa às pessoas daqui, nessa história toda?

 

Votos é que lhes servem, pois não?

 

 

 

Quadro de Barrica

 

 

ENTRE O CHÃO E O HORIZONTE

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

 

 

 

Como andaria hoje o Ceará, em sua educação superior? Essa, a questão que, em “conferência estadual”, colhe a Secretaria dessa área, em todo o Estado, a partir de suas regiões, entre líderes sociais e o mundo acadêmico. Conclusa a fase primeira, agora a proposta é a de um grande pacto social, em todo o Estado.

 

Reflexivo “Pero Vaz de Caminha”, acompanho tais discussões, nas regiões sob o desenho do Ipece, onde um caleidoscópico Ceará surge por entre as tintas do real e dos sonhos (sociais, econômicos e culturais). Nele, dados, sim, dizem-nos algo. Mas, sós, são meros “dedos” a nos apontar um chão real. Mais alto só dirão se mirarem o horizonte mais amplo do desenvolvimento sustentável e da inclusão social.

 

De tal discussão, a etapa primeira está concluída. Agora, o Ceará, esfacelado em suas regiões, aí está a reclamar “contrato social”, por meio do qual sociedade e mundo acadêmico, em rede e em teia, insiram-nos a educação superior na pauta do “onde estamos” e do estratégico “para onde vamos”. Soltos, tais dados já nos apontam preocupações: 27º lugar em termos de acesso, cursos (os mesmos a se repetirem sem a oferta de novos, vitais ao Estado) concentrados na Capital. Daí, a tradicional migração de talentos, a importação de outros aqui não forjados, o desemprego à vista.

 

Agora, somos todos chamados ao pacto. Na pauta, os desafios: o onde estamos e o para onde vamos. O estatal e a iniciativa social, braços dados. Acima de tudo, a discussão em plano mais alto, para além dos estreitos e caducos limites do estatal e privado, na questão do financiamento até!. Tudo sob o olhar mais alto do “estadístico”, por sobre eventuais governos e disputas eleitorais. Executivo e legislativo estaduais, sob o olhar social, dizem aceitar a opção pelo estratégico: o hoje visto degrau para o amanhã.

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECe). Escreve quinzenalmente.

 

 

SOBRE O TURISMO

E O “TURISMO SEXUAL”.

 

Carvalho Neto

 

 

Nas discussões sobre a questão é sempre possível verificar pelo menos três posicionamentos. 

 

Há os apologéticos para quem o turismo é um processo em si benéfico o que, às vezes, implica numa opinião quase sempre neutra no que se refere aos seus subprodutos. Do outro lado os niilistas em sua exacerbada negação de que possa haver algo de positivo no turismo, dado que a atividade não passaria de mais uma deformação burguesa que preda o território e destrói o caráter autóctone das populações. Também não é incomum a reverberação de críticas e ataques dos que, estando momentaneamente na oposição, percebam algum sucesso nas políticas e práticas de quem esteja acrescentando sinergias aos sistemas que promovem a indústria sem chaminés.

 

Às três acepções podem-se fazer reparos. Turismo não é panacéia. Não resolve problemas estruturais. Agrava-os. Não é neutro. Implica em intervenção no ambiente. E finalmente há que se perguntar se e quando é benéfico, quem são e de que modo o são, os beneficiados.

 

No segundo caso, a discussão ainda é profícua. Quem não consegue ver na atualidade alguns avanços na qualidade de vida, na expectativa de vida, etc. e ao mesmo tempo é capaz de identificar todos os custos do processo contribui mais na denunciação dos excessos que na promoção do turismo. Mas contribui, são, portanto, imprescindíveis.

 

No terceiro caso, dos oposicionistas e oportunistas não pode haver contribuição significativa.

 

O caso do turismo sexual é bom exemplo das três abordagens.

 

Para os primeiros não é o turismo que incrementa a prostituição, mas na realidade ele o incrementa, até certo nível, sim. A contribuição maior desse grupo é identificar, quase sempre de maneira correta, outras variáveis causais mais importantes para o fenômeno: pobreza, baixa auto-estima, desemprego, má-educação, estigmas e idiossincrasias locais, etc.

 

Aos segundos, a historia recente, em que etnias, grupos religiosos e militantes políticos têm sido vítimas, e também desencadeadores, de guerras e atentados, a negação das vantagens e benefícios da atividade turística em si, não parece justificá-los. Esses, porém são essenciais em denunciar e promover a discussão. Em lutar e por freios que garantam um grau adequado de preservação dos caracteres locais. Erram apenas ao defender que a prostituição não existiria se não houvesse turismo. Como o sabe qualquer cidadão de qualquer cidade em qualquer país em todo o Mundo.

 

No terceiro caso a prostituição é usada apenas para atacar o grupo desafeto no poder. Não estão interessados em enfrentar ou resolver as causas da prostituição, mas em desacreditar e desconstruir seus adversários políticos. Nesse grupo é que se identificam atores-autores de pesquisas, teses e dissertações, que abordam o “turismo sexual”, que ficham algumas centenas de jovens da Beira-mar, mas esquecem as dezenas de centenas de pessoas prostituídas nos bairros, no centro da cidade, nos escritórios, universidades e escolas. Lugares em que não há a intervenção do visitante estrangeiro, aonde o pagamento nem sempre é realizado em espécie, no caixa como se diz, em que favores sexuais são moeda de troca corrente para a manutenção de empregos, benefícios, etc.

 

Sem esquecer que esses trabalhos, por mais espetaculosos, geram sempre manchete, garantem entrevistas. Mas eles chamam a atenção precisamente por serem a exceção.  Por vezes, há também um dinheirinho extra, sem impostos, oriundos de organizações que recebem subvenções dos países mais ricos em que são muitos os que desejam aplacar a própria vergonha de saberem-se também causa, não a menor, dessa atividade ancestral.

 

A todas essas prefiro a explicação de seu Juca (nome fictício, história verídica). Morador de pequena cidade do litoral leste cearense. Tocador de violão. Para explicar a natureza da pobre economia local.

 

Aqui tudo é difícil. Já montei pra mais de dez negócio. Só desisti quando perdi tudo, no último. Montei um cabaré. Trouxe as meninas de longe, do Piauí, de outras cidades daqui do Ceará. Em três meses cabaré fechou. Todas casaram. Uma inclusive cumigo. Foi aí que eu vi que num dava pro comércio.

 

 

 

Foto: O Povo (campanha)

 

Imprensa e imagem turística

Ivonildo Lavor

 

 

O Povo - [28 Abril 03h31min 2006]

 

 

Passado o impacto das reportagens sobre turismo sexual no Jornal da Globo, onde Fortaleza e Natal (mais Fortaleza) tiveram forte exposição na mídia nacional, o assunto merece ainda alguma reflexão.

 

Após a divulgação, nenhuma ação objetiva foi tomada pelos poderes públicos para tentar amenizar os fatos reais e tristes mostrados. Tudo voltou 'a normalmente', tanto na Praia de Iracema como nas barracas de paria da Beira Mar. Parece até que nada aconteceu.

 

Confesso que esperava que a prefeita Luizianne Lins, que na época de deputada estadual combateu o turismo sexual, apresentasse alguma iniciativa contundente para amenizar o problema. Faltou também do governo do Estado novas medidas para encarar a situação.

 

O turismo tem na imprensa um forte parceiro. No entanto, a cobertura do dia-a-dia das mazelas brasileiras incomoda empresários do turismo e representantes governamentais da área. Tenho ouvido muitas reclamações nesse sentido.

 

Uma celeuma recente entre a Rede Globo e o prefeito César Maia, do Rio de Janeiro, sobre as gravações de uma cena de arrastão na Praia do Leblon, a ser exibida na novela "Páginas da vida" - que sucederá "Belíssima", causou polemica. Maia disse que as imagens causariam estrago no turismo do Rio. Alguns ajustes foram feitos e a prefeitura do Rio liberou as gravações. O autor Manoel Carlos disse ao jornal O Globo que as cenas vão ao ar no primeiro capítulo, em 10 de julho.

 

Pode até existir exageros na forma da divulgação, afetando diretamente destinos, como no caso da série de reportagens do Jornal da Globo, onde foi apresentado o turismo sexual e infantil apenas em Fortaleza e Natal.


 

No entanto, exagerada é a reação de parte de setores do turismo e de governantes brasileiros, segundo a qual a veiculação dessas notícias causa "estragos irreparáveis" de imagem. Não é tanto assim. O certo é que só ações planejadas e um policiamento eficaz e permanente resolve o problema, afastando o perigo e permitindo a volta do turismo sadio. Tentar encobrir as nossas mazelas só vai favorecer a contravenção e premiar a omissão dos órgãos públicos no combate à criminalidade.

 

IVONILDO LAVOR é presidente da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (Abrajet-CE) e colunista de O POVO