Grupos

   

 

 

 

120 ANOS DEPOIS

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

Professor da UFC e da UECe

 

 

    Diz-nos Cristovam Buarque, em artigo recente, que, com o poema “Navio Negreiro”, Castro Alves despertou a Nação para a causa abolicionista.  E que agora, 120 anos depois, a arte, de novo, voltava a outra abolição: a “educacionista”. E isso, quando, no último carnaval, a “Vai Vai”, escola-de-samba paulista, desfilara com imensa bandeira nacional a portar o lema “Educação é progresso”, em lugar do “Ordem e Progresso”.

 

    O novo slogan, mais que bordões ou “temas transversais” em nossa pedagogia, tem forte apelo popular. Tanto assim que, na caudal da “Vai Vai”, hoje figuram empresários, artistas e – diz pesquisa - o povão, para os quais educação é “capital social e humano” ou “força criativa”.

 

    Dias atrás, no Ceará, geração histórica, ora partida em duas facções políticas, postava-se em auditórios contíguos na FIEC.  Num, a discutir o ensino profissional (CENTECs e CVTs), alastrando-se hoje por Minas, São Paulo e o País, sob o lema “sem arte e sem ofício, não se é filho de Deus” (Dom Aureliano a Ariosto Holanda).  Noutro, os programas históricos de redução da pobreza, no Ceará.  Neste, José Serra, a elogiar programas como o das “rezadeiras e parteiras leigas”, de Galba Araújo, a alastrar-se pelo País e o mundo. Técnicos de Israel a nos mostrar expressivos índices de tal redução. Eloqüentes depoimentos: a) menino de rua hoje professor universitário; b) ex-favelado ora notório causídico nas causas populares.

 

    Como nos desfiles de carnaval, a educação nutre-se das lições do ensaio-e-erro. Escola de samba, nela desfilam os que, do nascer ao morrer, tangidos pela cumplicidade das arquibancadas, deságuam, afinal, na “praça da dispersão” do ser humano, em sua tríplice face, a atingir o sustentável desenvolvimento, integrada pelo profissional, o cidadão e a pessoa, em novo abolicionismo.

 

 

 

 

CUBA É UM HORROR!

 

 

Médicos cubanos contra a dengue no Rio de Janeiro


 

Crianças cubanas livres da dengue, apesar da guerra biológica dos EUA

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Não acredito que o governador Sérgio Cabral vá levar adiante seu anúncio de que chamará médicos de Cuba para ajudar no combate a dengue aqui, no Rio de Janeiro.

Mas se ele fizer isso, estará tomando uma das raras atitudes lúcidas do seu governo, porque a ilha de Fidel Castro tem os maiores especialistas no combate a esse mosquito, que se manifestou lá pela primeira vez de forma mortal em 1981, no contexto da guerra bacteriológica dos Estados Unidos contra Fidel.

Naquele ano, depois de produzir a peste suína na ilha, que obrigou ao sacrifício de 500 mil porcos, os agentes de espionagem dos EUA introduziram em Cuba a dengue hemorrágica (tipo 2), importada da Tailândia e das Filipinas, na Ásia, onde aparecera na década de cinqüenta.

Embora, desde 2003, Cuba tenha sido declarada pela Organização Mundial da Saúde como a única área livre da dengue no Caribe e América Central, para chegar a esse status, o governo cubano fez das tripas coração, com uma mobilização gigantesca no ano da epideia de 10 mil agentes de saúde e de toda a eficiente estrutura do médico de família, de resto a uma resposta consistente para os problemas de saúde pública.

Aliás, por falar em médico de família, aquele que cuida de você para não ficar doente, devo lembrar que os cubanos deram uma excelente contribuição no Estado de Tocantins, para onde 700 deles foram contratados pelo governador Siqueira Campos, um conservador que sabe que em saúde não pode haver politicagem, nem discriminação ideológica.

No entanto, como eles estavam afetando os interesses da indústria da doença, que movimenta bilhões de reais, sofreram uma pressão direta encabeçada pela direção do Conselho Regional de Medicina de lá. E num dia, sem mais, nem menos, foram mandados de volta sem sequer um muito obrigado.

Aqui no Rio, os médicos cubanos já prestaram sua valiosa contribuição em 1987. A ajuda que deram foi considerada altamente positiva pelo médico Rivaldo Venâncio da Cunha, que naquele ano integrava a equipe coordenadora do combate á engue na Secretaria Estadual de Saúde.

Isso não é novidade: hoje há mais de 30 mil médicos cubanos prestando serviços de solidariedade em cerca de 70 países. Eu mesmo vi o resultado desse trabalho nos bairros pobres de Caracas.

Para finalizar, por hoje: Mais de 99,1% da população está coberta com um médico e uma enfermeira da família. No geral, há um médico para cada 100 pessoas em Cuba. A mortalidade infantil e a expectativa de vida em Cuba são, respectivamente, 5,4% por mil nascidos vivos e 77 anos, índices superiores ao de países como Estados Unidos, Japão e Dinamarca, segunda a UNESCO.

 

 

 

SURFANDO NA POROROCA

 

                                    Flávio Vidigal

 

 

          Chegar ao Amapá, não é tarefa fácil.  Depois de 6 hs de vôo, algumas subidas, descidas e conexões o vôo chega a Macapá. No aeroporto às 2hs da manhã, a idéia de um descanso merecido se esvai quando a organização do evento nos guia até 2 ônibus que aguardavam para levar competidores e imprensa até o município de Cotias do Araguari, uma viagenzinha de nada, apenas 4 hs por uma estrada de terra.

 

         Na chegada às 6hs da manhã, começa o embarque de todo equipamento e suprimentos para uma semana na selva. São 3 barcos do tipo gaiola onde acomodamos nossas redes para seguir 13 hs de viagem até próximo a foz do rio onde acontece a pororoca. Bombeiros, médicos, cozinheiros viajam num barco, imprensa em outro e surfistas no terceiro barco: uma verdadeira operação de guerra.

 

         Durante a viagem me impressiono com a população ribeirinha, que vive longe da civilização e dependente do seu próprio esforço para sobreviver. Aproveito para conhecer meus colegas de profissão, alguns veteranos de selva e outros marinheiros de primeira viagem. Equipes da CNN americana, da NHK japonesa e de uma agência de notícias alemã se acomodam com estranheza nas redes, mas não reclamam de nada, pois pra quem está acostumado a cobrir guerras isto mais parece um passeio pelo paraíso me diz o americano Douglas recém chegado do Iraque.

 

         Chegamos ao nosso destino por volta da 19 hs, completando 24 hs de viagem  ininterruptas, desde que entrei no vôo em Floripa e logo nosso Capitão comunica o encontro com a pororoca da noite que em instantes chega chacoalhando o barco por uns 15 minutos. O sono vem com o balanço e a visão do céu estrelado se funde a um sonho que dá asas a imaginação.

 

         O despertar é cedo e corrido pois a pororoca passa as 7 hs da matina  e configura-se neste momento toda a peculiaridade deste evento onde não existem espectadores, apenas competidores, juízes, imprensa e os barqueiros, estes, peça fundamental para que o surfista consiga entrar na onda e para posicionar os cinegrafistas na frente da onda rezando para que o motor na pare.

 

         Nenhum evento no mundo tem estas particularidades. No Tahiti dependemos de barcos para filmar a perigosa onda de Teahupoo, mas eles ficam parados num canal; aqui é adrenalina para todos, pois o evento é em movimento o que não permite erros.

 

         A pororoca acontece nas fases da lua cheia e nova onde a diferença de marés é maior, causando um refluxo das águas do oceano adentrando o rio por vários kilômetros formando ondas que podem ser surfadas por vários minutos.

 

         Neste primeiro dia tudo correu bem e apenas aconteceu um surf treino para checar se a infra  funcionaria. De volta ao barco soubemos que ficaríamos instalados numa fazenda, num igarapé há poucos minutos dali. A chegada revelou-nos mais uma surpresa:  um barco do Governo do Amapá com infra-estrutura para a imprensa  e computadores conectados via satélite, tudo isso nos confins da selva amazônica.

 

         No decorrer da semana os dias se seguiram com pequenos incidentes, barcos quebrados, marés muito secas que nos obrigavam a caminhadas empurrando o barco, ajuda a golfinhos encalhados enfim os problemas que uma operação deste porte pode ter.

 

         A competição tinha um favorito desde o começo; o Rei da Pororoca Adilton Mariano, recordista em tempo de onda surfada, tinha um fácil caminho até a vitória, pela desistência do vice líder do circuito Ricardo Tatuí que não compareceu. Já no primeiro dia do evento Adilton surfou a onda da sua vida; segundo suas declarações, uma onda cheia de manobras e com uma força só encontrada no rio Araguari.

 

         Um incidente marcou o terceiro dia envolvendo a equipe da CNN e a produtora da agencia de notícias alemã. Um avião viria buscá-los em uma outra fazenda a 2hs de barco onde havia uma pista de pouso, mas o barco deles quebrou e eles ficaram a deriva, indo em direção a foz do rio, arrastados por uma forte correnteza, durante 8hs debaixo de uma tormenta tropical.

 

         Só foram salvos porque a equipe da CNN tinha um telefone de satélite e contactou Atlanta nos EUA que se comunicou com o governo do Amapá que por sua vez orientou o avião que iria pegá-los a  jogar uma garrafa com uma mensagem explicando a situação  aos bombeiros que nos acompanhavam  para que fizessem o resgate . A chegada de volta a nossa fazenda, por volta da meia-noite, mostrou que os homens estavam cansados e a produtora  beirava o estado de choque, pois poderia ter acontecido o pior se alguns ribeirinhos não os tivessem acolhido  pouco antes da pororoca entrar com força total.

 

         A competição continua no dia seguinte e se desenrola sem muitas surpresas. Adilton sagra-se campeão do circuito por pontos antes mesmo do evento terminar.

 

         No ultimo dia houve uma semifinal  com o Curitibano Sérgio Laus (recuperado de uma lesão que teve na C5 -quinta vértebra cervical- quando sofreu um sério acidente da última vez que esteve no Rio Araguari)  e o atleta do Amapá, Stanley, vencendo Laus que na mesma onda segue para a final com Adilton Mariano que apresenta um surf mais bonito e com várias manobras sagra-se campeão do evento também.

 

         A bateria estava decidida quando outros surfista resolveram surfar. Adilton continuava na onda quando um dos barcos parou o motor e seus ocupantes surfistas pularam juntamente com o barqueiro deixando o barco desgovernado indo de encontro a pororoca onde ao ser pego pela onda, dá uma surfada quase indo ao encontro do Adilton que numa manobra rápida se afasta e o barco fica pra traz escapando de ir ao fundo.

 

         Depois de tudo isso, como não sou de ferro,  resolvi me jogar na água com a prancha reserva do Laus que estava no meu barco e pude sentir o gosto de poder surfar por 6 minutos a onda mais longa da minha vida.

 

 

 

 

 

Dilma Rousseff

 

BOAS NOTÍCIAS

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

06/04/2008

 

A propaganda governamental tem se esmerado em difundir boas notícias. É comum em meio aos jornais de TV o apresentador dizer: agora, uma boa notícia do governo Lula. Segue-se algo fabuloso. Pois é, nosso paraíso começou na era PT e o povo, que não conhece história, acredita piamente.

 

Semana passada a boa notícia chegou pela Veja de 02/04 2008, através de matéria que mostrava o estudo Observador 2008 “feito pelo Instituto de Pesquisas Ipsos sob encomenda da financeira Cetelem, pertencente ao banco francês BNP Paribas”. Tal estudo mostra a redução da população miserável e o ingresso de considerável contingente populacional no mercado de consumo.

 

A revista admite também, “que outros estudos e pesquisas já haviam detectado esse avanço, que nada mais é senão a recompensa ao ciclo de reformas e ajustes econômicos feitos desde o Plano Real”. Mas a impressão que fica é que somente agora fomos presenteados com tal progresso.

 

Algumas dúvidas, contudo, devem ser apresentadas antes que se chegue ao estado de euforia provocado pelos dados oferecidos pelo Observador 2008: A primeira se refere ao critério de renda familiar utilizado pelo estudo, ou seja: as classes D/E, 39% da população, ou 72,9 milhões de pessoas teriam uma renda familiar de 580 reais. Não sei se a pesquisa foi realizada também no nordeste onde a renda familiar geralmente é muito baixa entre os mais pobres.

 

O estouro ascensional, porém, aparece na classe C, composta por 46% da população, quer dizer, 86,2 milhões de pessoas com renda familiar de 1062 reais.

 

Certamente a mobilidade social deve ter se dado através das Bolsas-esmolas do governo Lula, do crédito consignado, do crédito parcelado a perder de vista (concedido pelas lojas), do crédito bancário bastante incentivado, dos reajustes acima da inflação para o salário mínimo, sobretudo para o aposentado do setor rural.  Através dessas facilidades uma parcela das classes mais baixas migrou para a média baixa e passou a consumir eletrodomésticos, celulares, computadores, etc.

 

 As classes A/B da população, 15% da população, 28 milhões de pessoas, para o estudo Observador 2008 teriam uma renda familiar de apenas 2217 reais. Dúvida: não seria essa renda familiar extremamente reduzida considerando-se as classes mais altas? E por que as classes A/B estão reunidas, apresentando uma só renda?

 

Há tempos se noticiou que os ricos do Brasil (classe A) tinham aumentado. Será que sua renda familiar só alcança em média 2217 reais? Isto seria um caso inédito em todo mundo de ricos-pobres.

 

Note-se que a renda média familiar das classes A/B, ao se aproximar bastante da renda familiar da classe C é uma boa notícia para o presidente da República, que teria  transformado o Brasil numa sociedade quase igualitária, algo que muito ajuda a incrementar a idéia do terceiro mandato que segue a todo vapor. 

 

Outra dúvida que pode surgir: se a ascensão das classes mais baixas se deveu também como é dito à oferta de empregos, por que aumentou a imigração de brasileiros em busca de vida melhor em outros países? Em contrapartida, nunca tantos compatriotas foram barrados em fronteiras ou deportados, e se eles estão de volta vai-se precisar de mais empregos.

 

 Em 2006 o Reino Unido mandou de volta 11,3 mil brasileiros e a Espanha impediu a entrada de cerca de 7,7 mil brasileiros. Em 2007 os espanhóis fizeram dar meia volta 9,7 mil brasileiros. Quanto aos Estados Unidos, devolveu em 2006 apenas 2.957 brasileiros, talvez porque está havendo maior controle das autoridades mexicanas, o que dificulta a entrada em território norte-americano pela fronteira do México. (dados da Folha de S. Paulo de 25/03/2008).

 

 Será também prudente perguntar, até quando o governo sustentará as classes mais baixas tornando-as consumidoras, mas improdutivas. E até quando créditos de todo o tipo serão honrados, para que não corramos o risco de repetir o erro dos Estados Unidos referente aos empréstimos de alto risco para a habitação, o que originou a crise que começa a afetar todo o mundo. Finalmente, é lícito questionar se escaparemos ilesos da crise mundial, como afirma o presidente Lula entre brincadeirinhas com o presidente Bush.

 

Afinal, por mais que o governo negue a inflação já começa a sair de controle e outros sinais não muito auspiciosos jazem sob a capa de euforia das boas notícias. Por isso o PT tem pressa, fala em reforma política (leia-se 3º mandato), plebiscito (governo de massas, modelo Hugo Chávez).

 

Já a incômoda novela do dossiê dos gastos com cartões corporativos vai ganhando múltiplas, nervosas e pouco convincentes versões da ministra Dilma Rousseff. Ela quer porque quer achar culpados pelo que fez e o senador Álvaro Dias (PSDB) chegou a ser responsabilizado pela chantagem.

 

Diante da pantomima da ministra só me resta contar que sei, de fonte limpa, quem fez o dossiê para incriminar FHC e chantagear o PSDB. Foi o Etê de Varginha. Não é uma boa notícia?

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

mlucia@sercomtel.com.br


 

 

 

MALDIVAS: AS ILHAS PERDIDAS

                                 

 

Flávio Vidigal

 

 

Parece que o meu destino está intimamente ligado ao mar e à busca de lugares que possam me trazer alguma resposta a sentimentos de liberdade infinita. Não sei o que procuro, não sei se achei e se um dia esta busca vai ter fim.

 

As 22 hs de vôo até Male, capital da Republica das Maldivas, parecem uma eternidade e um pensamento me leva de volta ao passado das grandes navegações onde homens partiam para o desconhecido sem saber se iam voltar ou o que iam encontrar, em viagens com anos de duração. Parece que hoje o homem “moderno” é um fraco e não sobreviveria nas duras situações de nossos antepassados. À medida que a tecnologia evolui, o homem regride em suas aptidões físicas.

 

Avisto da minha janela centenas de pontos no oceano Indico; são centenas de ilhas em forma de atol.  O azul do mar é intenso, as ilhas são planas e cobertas por alguma vegetação rasteira pontilhada de  coqueiros.

 

Uma destas ilhas se destaca das demais, pelo seu aspecto urbano e pela imponente cúpula dourada de uma mesquita. É Male,  a capital.

 

As Ilhas Maldivas têm, em seu povo, uma mistura de árabes, africanos e hindus e escrevem e falam um estranho dialeto chamado divehi, composto de sinais que mais parecem umas cobrinhas. A religião muçulmana é oficial, proíbe a venda de bebidas alcoólicas, de revistas pornográficas, e o consumo de drogas  é punido com a pena de morte. Tudo isso sem radicalismos já que nos barcos onde os estrangeiros se hospedam é tolerada uma cervejinha e o vinho, alguns homens na rua te abordam oferecendo mulheres mostrando fotos na tela de seus modernos celulares e ficamos sabendo que os estrangeiros presos com drogas ficam presos alguns meses e depois são deportados. Portanto, dá pra perceber que não se trata de um povo radical e intolerante, talvez até por que o turismo seja a principal fonte de recursos destas ilhas perdidas no Oceano Indico.

 

Caminhando pelo centro de Male, entro numa loja onde sou atendido pelo simpático dono chamado Ismael.  Depois de correr os olhos por tudo e achar que estava diante de uma fraude em artesanatos -  pois as peças eram exatamente iguais ao artesanato da Indonésia -  acho um livro sobre as Maldivas que me fez esquecer do resto, já que em poucas páginas viradas descubro alguns laços em comum com o povo.

 

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar. Conquistaram as ilhas e durante 70 anos, exatamente na fase áurea do comércio com a Índia, mantiveram aqui entrepostos na rota das especiarias. Ismael me pergunta se sou português e fica feliz em saber que sou brasileiro. Falamos de futebol, é claro, durante alguns minutos, mas ele percebe minha curiosidade no livro e gosta do meu interesse pelas coisas do seu país. A história que ele me conta num inglês de acento estranho, me faz novamente voltar a época das navegações, pois tão incrível como um português chegar até aqui foi saber que depois de 70 anos, um habitante de um dos atóis do sul chamado Muhamad conseguiu libertar seu povo da Coroa Portuguesa e desde então esta é considerada a data mais famosa comemorada por aqui e ele (Muhamad)  o maior herói.

 

O turismo está bem desenvolvido, são vários resorts oferecendo desde sombra e água de coco, até mergulhos com tubarões e arraias gigantes, sem contar o novo filão que são os surfaris, expedições em barcos superconfortáveis em busca das ótimas ondas do Oceano Indico.

 

Um problema sério nas Ilhas é o lixo. Não sei se vem de outras regiões pelo mar ou se é o produzido lá  mesmo e jogado ao mar, voltando às praias das ilhas desabitadas.

 

Não tem jeito: por mais longe que se vá neste mundão mundinho, os sinais de uma civilização corrompida e imediatista me incomodam e me fazem pensar qual seria a solução para voltarmos a apreciar uma vida simples onde o tempo corre mais lento e as vivencias mais profundas.

 

O meu caminho passa por todos os lugares, mas existe um que só existe na minha cabeça. Enquanto não achá-lo continuarei procurando.

 

 

IMPORTÂNCIA DO ENSINO DA POESIA NA ESCOLA

 

Emiliana Maria de Sousa Teixeira

 

Não se vê mais o ensino da poesia na escola. O professor de hoje não está buscando recursos e apoio para que os alunos tenham acesso a este conhecimento fascinante, porque não dizer, a esta bela arte que é a poesia. Esquecem que através deste tipo de atividade em sala de aula pode-se estar alimentando o hábito para a leitura.

 

O universo da poesia é muito rico e encantador, e o professor é o mediador e o iniciador das crianças neste mundo maravilhoso da leitura. E sabemos que o trabalho com leitura deve ser lúdico, prazeroso  e bastante agradável.

 

Alguns educadores questionam: “Ah, é difícil ensinar poesia na escola! Como devo fazer? Como iniciar? Como introduzir e como incentivar o estudo da poesia e criação de textos poéticos com os nossos alunos? Eu não entendo nada de poesia! E para escrever poesia não é necessário inspiração, dom?”  Sim, em parte, mas eu diria, como muitos admiradores da poesia  e poetas profissionais, que precisamos contar com os conhecimentos poéticos, como também com um pouco de inspiração e outro pouco de transpiração!

 

O que vimos são questões levantadas por nossos colegas que não se sentem capacitados para este tipo de trabalho com os alunos em sala de aula. Acredito que não há regra ou uma fórmula pronta para escrever o que sentimos, e poesia é puro sentimento, é usar a sensibilidade para colocar através dos poemas de forma poética o que acontece em nosso dia-a-dia, injustiças, a paixão, a perda, a ilusão, a morte, a esperança, o amor, enfim, imaginação e graça.

 

Mas é possível, sim, ensinar poesia na escola; só é necessário que o professor se interesse e queira trabalhar o novo com empenho e dedicação em prol do aluno; assumir esse desafio para melhorar sua prática pedagógica. É muito importante e interessante, pois além de incentivar a leitura, leva o mesmo a mergulhar nesse mundo maravilhoso do poema, como forma de se expressar, reivindicar, falar ao mundo do mundo ou do seu próprio mundo.



O professor necessita de novas ferramentas, precisa trabalhar este tema com cuidado para que possa encontrar subsídios de como passar esse conhecimento para os alunos, de como encantá-los sem desanimá-los. Mas tudo depende da criatividade do professor com boa dose de capacitação no tema abordado.


Eu poderia até dar algumas dicas aos interessados, com um pouco de ousadia: por que não começar brincando com as palavras? Interessante, como também usar a seqüência didática, pois é uma técnica viável e acessível a todos. É necessário realizar muitas atividades com os alunos; ler muitos livros, utilizar pesquisas, descobrir coisas novas, como também sair das quatro paredes da sala de aula e ir ao campo ou pátio, sentir a natureza, quem sabe isso ajudará a incentivar os alunos ao mundo da poesia, porque -  de repente - eles se sentem inspirados, contagiados e motivados a verem com outros olhos aquilo que sempre viram e que nunca perceberam o quanto é belo e encantador!


A partir daí, os alunos poderão dar início as suas produções que deverão ser examinadas e avaliadas com cautela e valorização, podendo o professor utilizar de várias técnicas para este fim, como permitir que sejam lidas em sala, corrigidas pelo professor e pelos próprios alunos, pois ao ensinar aos alunos a revisarem e aperfeiçoarem seus textos, o professor estará auxiliando-os a criarem o hábito de serem leitores de si mesmos, e daí para frente, quem sabe, publicar e expor suas produções em jornais da escola, do bairro ou da cidade, murais, literatura de cordel, na internet – blogs, etc. Assim, eles perceberão a importância do seu trabalho e se sentirão compensados.

 


Como vimos, qualquer pessoa pode produzir poemas com seus encantos poéticos, sem necessariamente se prender a rima, musicalidade, sílabas contadas, etc. e tal, pois sabemos que isto é motivo suficiente para que os professores não queiram introduzir o ensino da poesia na escola.


Escrever com o coração é desafiar a própria razão! Todos nós podemos produzir poemas belíssimos, é claro que não podemos esquecer que há pessoas que já nascem com esse dom, mas podemos trabalhar, exercitar, basta querer, sentir vontade e coragem, afinal, a poesia lida com o que é de humano, é uma comunicação especial, própria de cada um, com seus encantos e desencantos, mas belos e profundos.


Então, caros colegas professores, perceberam como é importante o ensino da poesia na escola?



Emiliana Maria de Sousa Teixeira é pedagoga,

especialista em Metodologia do Ensino.

 

(Texto postado para discussão,

no Grupo Ethos-paidéia,

pela Profa. Vera Santiago)

 

 

QUEM GOVERNA?

 

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

 

13/04/2008

 

 

 

Quem governa o Brasil? A pergunta pode parecer descabida, sinal de total desconhecimento da atualidade. Feita a um brasileiro dos grotões, analfabeto, agraciado com bolsa esmola seria respondida com facilidade: “quem governa o Brasil é nosso ‘padim’ Lula”. 

 

Intelectuais, empresários, artistas, jornalistas tirariam o “padim”, mas acrescentariam: “o presidente Lula que é um gênio, um líder carismático, um estadista”. Dizer menos é ser preconceituoso.

 

 Ouso contestar a opinião da maioria e afirmar: Lula é como a rainha da Inglaterra, reina, mas não governa.  E seu linguajar cuidadosamente errado, suas ensaiadas metáforas futebolísticas, seus gritos, seus esgares nada tem a ver com o cargo presidencial, mas com o inconfundível estilo populista dos demagogos. 

 

 Cuidadosamente construiu-se a imagem mais favorável possível do pobre ex-metalúrgico. Mostrou, quando foi preciso, um “Lulinha de paz e amor”, agora apresenta o Lulão bravão tendo ataques furiosos e revivendo os tempos de oposição virulenta. Imagens falsas, postiças, ocas de conteúdo.

 

O fato é que Lula presidente na verdade não existe, ele é tão somente o melhor produto de marketing já produzido pelo PT através da mágica de Duda Mendonça. Quanto a seu desmoralizado partido é associado às forças externas que estão envolvendo a América Latina. Forças cujo expoente é Hugo Chávez. Entre os seguidores deste destaco o boliviano Evo Morales, que expropriou a Petrobrás com a anuência do governo petista e sem um pio dos nossos nacionalistas que, se antes bradavam, “o petróleo é nosso”, agora dizem com satisfação: “o petróleo é deles”. Lula apenas ressoa as forças nefastas de uma chamada esquerda, que infestam a América Latina e são apoiadas pelo PT.

 

 Esta esquerda que emerge com o nebuloso socialismo do século XXI de Chávez é deslocada no tempo, incapaz de aprender com os erros dos totalitarismos do século passado, perpetuadora da mentalidade do atraso que sempre assolou o continente, sequiosa de poder pelo poder, continuadora das mazelas tão nossas, tão latino-americanas, tais como: incompetência estatal, corrupção, clientelismo, patrimonialismo, populismo, autoritarismo, nacionalismo xenófobo. É muito “ismo” para um só lugar desse mundo do absurdo.

 

Lula da Silva vai, como se diz, na onda dos companheiros nacionais e internacionais. É um fiel aliado de Chávez, um cultor do moribundo Fidel Castro e apenas funciona como caixa de ressonância destas vozes. Prova disso foi não ter aceitado declarar as sanguinárias e abjetas Farc como terroristas, conforme o pedido que certa vez lhe foi feito pelo presidente Uribe, da Venezuela.

 

 Tão pouco LILIS é carismático ou genial. Se fosse dotado de tanto carisma que, não nego, já usufruiu enquanto líder sindical teria sido vitorioso na primeira eleição. Foram necessárias quatro eleições para chegar lá. Foi preciso mudar de roupa e de discurso e depois de eleito copiar o que chamou de “herança maldita” para não deixar fora dos trilhos o trem da economia. Mas mesmo lá ele continua sindicalista sem nunca ter atingido o nível de estadista, uma estatura cívica que muitos áulicos lhe atribuem burilando uma forçada e falsa imagem.

 

Sobre a “genialidade”, já afirmei em outro artigo que, se o presidente-sindicalista tem alguma esta pertence à categoria dos repentistas (sem nenhum demérito para a criatividade dos artistas nordestinos). Com a tarimba de palanque adquirida no chamamento para greves, Lula da Silva recebe o mote dos seus assessores e dispara o cordel político onde não faltam certas graçolas inconvenientes e pavoneamentos de idiólatra.

 

Vazio de substância e apelando para a emoção, ele agrada. Mas seria errôneo dizer que agrada pela linguagem popularesca.  Com experiência adquirida por trabalho executado entre paupérrimos e analfabetos favelados pude observar que, se eles comentem erros de português por lhes faltar escolaridade, por outro lado não falam seguidas besteiras (que o politicamente correto alcunhou generosamente de gafes), mas graduados na dura escola da vida possuem o que se convencionou chamar de sabedoria popular.

 

Enfim, LILS reina, mas não governa. Suas atividades são variadas e prazerosas: viagens, muitas, por todo o Brasil e para o exterior. Palanques onde permanece em eterna campanha. Festanças. Recepções a atletas, algo tão ao gosto nacional. Recepções a autoridades internacionais. Reuniões inúteis com Conselhos igualmente inúteis. Visitas de cortesia a companheiros latino-americanos em seus respectivos países. Que doce vida!

 

Mas se Lula da Silva não sabe de nada, não vê nada, não ouve nada, não administra nada, quem governa o País? Seria um gabinete das sombras composto por aqueles que, tendo cometido toda a sorte de negociatas e torpezas caíram de podres, mas continuam lá? Nossa política externa é conduzida pelo Itamaraty ou por Marco Aurélio, o obsceno e José Dirceu, o lobista internacional? O marketing tão bem elaborado por acaso prescinde do mago da propaganda, Duda Mendonça?

 

Resumindo, são os marajás do petismo sindical que dirigem nossos destinos. Muitos pensam que Lula da Silva governa o Brasil. Que estúpido engano, que monumental blefe virou esse País.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.

 

mlucia@sercomtel.com.br  

 

 

 

 

 

PONTE PARA O AMANHÃ

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 14/04/2008 01:33

 

 

Quinta última! Eleições para reitor, na UECe. Nos, jornais, rádio, TV e na Web, debates a reclamar, não insulados, o mundo acadêmico e o sócio-governamental. Na surdina, lado a lado, recíprocos arranhões em torno de sonegado piso, a nos estorvar pactuação. Mas, cedo, a velha frase "Drama social algum é maior que minha dor de dente" me levava ao dentista...

 

No táxi, o motorista quer saber se, em mim, persistem ainda laços com a educação - mote para que ele vomite queixas de escolas a ruir abandonadas, professores mal preparados e desmotivados, alunos sem ofício e futuro, em meio a propaganda narcísea de nossos governos.

 

Vácuo do pós-almoço. Eu na secção eleitoral. Lá, visual agressivo, cartazes, adesões, tudo a clamar por uma universidade em harmonia com amplo projeto social no Estado. Ante a urna, identidade de mim exigida. Puxo cartão a comprovar-me "professor titular". Na saída, colegas chegando. E, para meu espanto, em seu rosto, a esperança das relações entre o "fora" e o "dentro" do mundo acadêmico a recobrar-se.

 

Já em casa, abro os jornais. USP e Unicamp, as únicas brasileiras no rol entre as 200 melhores universidades do mundo, onde, nos 10 primeiros lugares, figuram norte-americanas e britânicas, de acordo com o Times Higher Education Supplement, que se louva na opinião de acadêmicos, companhias que empregam recém formados e de outros países, e das pesquisas realizadas no mundo universitário.

 

Volto aos anos 80, quando, na UFC, no simpósio "Para onde vai a universidade brasileira?", o "dentro" e o "fora" das IES do País viam a academia, num mundo pós-indústrias de chaminés, como indústria do conhecimento a gerar capital humano. E, aqui, na FIEC, a ter assento embora simbólico...

 

Hora de sanar arranhões a erguer pontes para o amanhã. Aqui, onde o sol nasce mais cedo!

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe



 

 

 

 

NÓS E AS FARC

 

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

18/04/2008

 

A patética foto de Ingrid Betancourt, prisioneira das Farc, possivelmente correu o mundo. É o retrato da dor, da profunda solidão, do sofrimento infindo que essa mulher padece há seis anos nas mãos dos impiedosos e sanguinários terroristas e narcotraficantes das Forças Revolucionárias da Colômbia – Farc. E aquela face transfigurada pelo padecimento tornou-se emblemática de tantos que, como ela, foram arrancados do convívio familiar e amargam no cárcere asfixiante e insalubre da selva a desumanidade dos que, a principio se investindo de guardiões do paraíso na terra se tornaram os carrascos do inferno.

 

Betancourt não sofre sozinha as inenarráveis humilhações que um ser humano é capaz de suportar antes de enlouquecer.  Aproximadamente 700 pessoas dormem acorrentadas em árvores, não recebem tratamento médico necessário, são obrigadas a caminhar pela selva mesmo sem condições físicas. No cativeiro das Farc onde a misericórdia não existe prolifera a mesma essência maléfica dos campos de concentração, pois em tal miserável sobrevivência homens e mulheres, além dos agravos físicos, são despidos de sua dignidade.

 

As Farc seqüestram, torturam, matam os pobres que não têm dinheiro para pagar resgate, mantêm entre centenas de prisioneiros alguns que, tendo relevância política podem funcionar como moeda de barganha para libertar os companheiros capturados pelo Estado Colombiano que tem à frente o presidente Álvaro Uribe, um estadista, algo raro na América Latina.

 

Há pouco tempo uma missão médica francesa, apoiada pela Espanha é pela Suíça esteve na Colômbia na tentativa de socorrer e resgatar Ingrid Betancourt e outros três reféns cuja saúde precária inspira cuidados. Em vão o presidente Álvaro Uribe anunciou a suspensão das atividades militares no sudeste do país para possibilitar a ação da missão médica. Em vão o presidente francês, Nicolas Sarkozy dirigiu apelo ao chefe das Farc, Manoel Marulanda, para que libertasse a senadora Ingrid Betancourt, seqüestrada em 23 de fevereiro de 2002, em plena campanha para a presidência de República.

 

Todavia é necessário, é urgente, é imprescindível que a França retome seu objetivo, insista nele, persista no afã de salvar Ingrid e quantas vítimas puder das garras de seus algozes.

 

Aliás, não só a França, a Espanha e a Suíça devem se empenhar nessa meta. A questão é humanitária e não pertence a esse ou aquele país. Estranhamente os países sul-americanos permanecem indiferentes diante do horror perpetrado em sua vizinhança. Parece que o entendimento das Farc como sendo de esquerda dá glamour ao terrorismo. Exemplo disso é o presidente Lula da Silva, companheiro das Farc no Foro de São Paulo, que se negou a classificar os bestiais guerrilheiros e narcotraficantes como terroristas, conforme apelo feito pelo presidente Uribe. Talvez Lula prefira para as Farc o falso rótulo de “forças insurgentes”. Assim estaria mais uma vez de acordo com a vontade de outro de seus maiores companheiros, Hugo Chávez.

 

Silenciaram os “bons revolucionários” latino-americanos enquanto Chávez, o ditador de fato da Venezuela, simulou gestos humanitários ao negociar a soltura de algumas vítimas das Farc, enquanto as financia e lhes dá respaldo político. Aos demais governantes da América Latina, incluindo o brasileiro, é mais cômodo culpar o presidente Uribe pela situação, em que pese ele estar fazendo há tempos todos os esforços para combater aqueles celerados. Condenar Uribe, tática comum dos esquerdistas que são exímios em alterar, distorcer, manipular fatos, na verdade equivale a condenar a vítima e absolver os criminosos. Tudo indica que a esquerda latino-americana aprendeu direitinho a lição com o mestre Stalin.

 

Em trecho da carta, exigida pelos facínoras para provar que estava viva Ingrid escreveu:

“A vida aqui não é vida, é um desperdício lúgubre de tempo. Tudo está sempre pronto para partirmos às pressas. Aqui nada é seu, nada dura, a incerteza e a precariedade são a única constante. A cada dia resta menos um pouco de mim mesma”.

 

No Brasil, o embrião das Farc, o MST, está exacerbando sua violência. O chamado movimento social agora invade não só terras produtivas, mas propriedades da Vale do Rio Doce (maior mineradora do mundo), hidroelétricas, Assembléias Legislativas, agências de Banco, praças de pedágio, além de bloquear estradas. O flagrante desrespeito ao Estado de Direito, o esbulho da propriedade particular, o prejuízo causado ao País avançam impunemente sob o olhar complacente das autoridades constituídas, que até financiam as ricas e vistosas manifestações do MST.

 

Como afirmou Edmund Burke: “Tudo que é necessário para que o mal triunfe, é que os homens de bem nada façam”.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, escritora e professora universitária.

mlucia@sercomtel.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

DEMÓCRITO, O ÍCONE

 

 

Marcondes Rosa de Sousa,

O Povo – 22.04.08

 

 

            Prostrou-me, em súbita emoção, a trágica notícia.  Ao lado de Demócrito, estivera eu, ao se lançar, entre líderes da terra, a obra “A construção do Ceará – Temas da história econômica”, de Cláudio Ferreira Lima, ali propondo o resgate da sintaxe perdida em nossa política, no alternar-se das solidárias cheias e das solitárias secas de nossos rios.

           

            A custo, recobro o lado construtivo da emoção.  E do “escrever é espantar-se”, extraio do barro do chão cotidiano, a “psicanálise e metafísica do mundo” a nos lastrear o projeto, sadios cúmplices os dois, desde os anos 80, quando, esgotada a União pelo Ceará, Celso Furtado reunia-nos dos então “jovens empresários do CIC” às mais avançadas correntes de esquerda: “o crescimento econômico a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento”.

 

            Pontos e contrapontos a compor acorde.  Universidades a transpor muros, nas praças, campos e ruas. Literatura, arte, cinema, em simpósios e festivais aqui (nacionais e internacionais). Programas de responsabilidade social e de educação a distância.  Com assento na FIEC, vistas “indústrias sem chaminés” nossas instituições de ensino superior..

           

            Histórica parceria. O cotidiano da vida na pauta de projeto plural, sob o diapasão do “quebras comigo a flecha da paz?”, entre Iracema e o guerreiro branco, a ter por símbolo de agora a sinfonia regida pelo maestro Koellreutter, na reinauguração do Teatro José de Alencar, onde ruídos da obra concertavam-se com violinos e vozes, no desenho do solidário e plural.

 

            Uma saudade! Mas, ícone maior a decantar, de Demócrito Rocha, o poema Rio Jaguaribe. E a desaguar, na solidária água grande e no “longo amanhecer” de Celso Furtado.  Dele, diria o poeta Manuel Bandeira - no alto, São Pedro, bonachão, a convidá-lo: “Entra, Demócrito, você aqui não precisa pedir licença”!