Grupos

Um encontro inesquecível

Ricardo Marques*

O POVO - 09/03/2008

 

 

        Os hebreus sofriam há 400 anos, escravos dos egípcios. Deus preparara o caminho de um escolhido, desde o berço, para libertar Seu povo do cativeiro para a Terra Prometida. Moisés, criado como filho do próprio faraó, foi levado a fugir do Egito. Passou anos no deserto, pastoreando ovelhas e aprendendo com os desafios da vida, até que Deus o chamou para essa árdua missão.


        O faraó não quis deixar o povo partir, daí seguiram-se pragas sobre o Egito. Somente a última delas foi terrível o suficiente para que o faraó se desse por vencido e libertasse os hebreus. Na Bíblia, em Êxodo, cap. 12, Deus avisa que todos os primogênitos seriam mortos por um "anjo da morte" que passaria pelo Egito; entretanto, os filhos dos hebreus seriam poupados. Para isso, deveriam imolar um cordeiro sem defeito, e aspergir o sangue nas portas de suas casas. O cordeiro seria assado e comido por cada família e, quando viesse o "anjo da morte" a cada casa, vendo o sangue na porta, passaria por cima. Vem daí o termo páscoa, do hebraico "pessach", que significa "passagem".

        Conforme dito, aconteceu. E, após isso, o povo foi liberto. Em Êxodo (12:13, 14), Deus institui a celebração desse evento: "(...) Quando eu vir o sangue do cordeiro, passarei por vós, e não haverá entre ti praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito. Este dia vos será por memorial, e o celebrareis como solenidade ao Senhor: nas vossas gerações o celebrareis como estatuto perpétuo".

        Séculos se passaram. Jesus, o Messias prometido, Deus vindo em forma humana conforme prometido por todo o Antigo Testamento, é exaltado por João Batista: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Os discípulos começavam a entender: todo o evento da Páscoa, o cordeiro imolado, o sangue derramado que vencia a morte, na verdade foram dados por Deus como símbolos da obra redentora de Cristo, a vida eterna presenteada àqueles que crêem e aceitam o sacrifício do Cordeiro de Deus por cada um de nós. Jesus, o único que jamais pecou. Por isso o cordeiro pascal tinha de ser sem defeito.

        É chegado o dia. Jesus sabia, e já avisara: seria morto como o cordeiro da páscoa. Na celebração da festa com seus discípulos, durante a ceia, pede que, dali em diante, ao celebrarem a Páscoa, pensem no pão simbolizando o corpo de Cristo, e no vinho como o sangue dEle. E pediu que aquilo fosse repetido toda Páscoa, em memória dEle, até que voltasse.

        Jesus foi preso. Açoitado, espancado ferozmente. Dali, trôpego e exausto, caminhava pela via dolorosa, carregando nas costas duas enormes cargas: uma pesada cruz de madeira, onde dentro em pouco seria cravado pelos punhos e tornozelos; a outra, o pecado de toda a humanidade, por quem, em infinito ato de amor, morreria para que vivêssemos.

        Um homem simples, vindo do campo, Simão chegava a Jerusalém para participar do sacrifício anual da Páscoa. Provavelmente trazia, na bagagem, um cordeirinho a ser imolado. Mas, no coração, talvez a desesperança de um futuro incerto, numa terra oprimida, um povo sofrido.

        Passava por ali, vendo a multidão, ouvindo a confusão nas ruas. De repente, seu olhar se cruza com olhos que ele jamais vira antes. À margem da dor e da zombaria, Jesus mira firme a vista de Simão: em menos de um segundo, a percepção da eternidade, alma invadida pelo amor perfeito, infinito.

        Um tropeço, o olhar gracioso se desvia, a cruz vai ao chão. Simão sequer teve tempo de atentar para o sangue a cobrir a face daquele homem; sequer se dera conta de toda a dimensão cósmica do que ali acontecia... Repentina, a ordem dos guardas: "Ajuda-o! Carrega-lhe a cruz!".

        Um homem comum, que apenas passava. Um envolvimento inesperado, um privilégio a ser compreendido: em suas costas, o peso do símbolo dAquele que venceria a morte. Uma páscoa diferente... Um encontro inesquecível.

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(*) Ricardo Marques é biólogo e paleontólogo, neurocientista e educador, membro da Igreja Batista Central e diretor-geral do Colégio Kerigma.




(Romance de Rosalina Coelho Lisboa)

Política, coisa suja

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da Uece
O Povo - 13 Abr 2009

 

         Na mídia, política é coisa suja. E isso me leva a Aristóteles, para quem o homem é animal político, a construir, gregário, o mundo. Abro o livro “... a seara de Caim”, que, no Seminário da Imaculada, em Campinas (SP), recebi como “prêmio áureo”, em 1960, onde se lê: “Os povos não merecem julgamento pelos crimes dos seus maus filhos, mas pela violência da reação que esses crimes provocam. Pois Deus concede poder de água lustral ao sangue de Abel (...), que redime a seara de Caim”.


         A “coisa pública” (res publica), entre nós, molda-se em formal aliança (foedus) entre união, estados e municípios. Prudente atentarmos para a advertência de Montesquieu: “é uma eterna experiência que todo homem, a quem é dado poder, termina por ser levado a dele abusar; ele vai até onde encontra limites”.


         Muitas, as queixas apontadas em nossa federação, onde “foedus” – a aliança entre seus entes - também se reclama para as regiões. Em recente seminário sobre o Nordeste, onde discutíamos suas potencialidades e limites, a reclamação geral era a de que regiões, no contexto atual entre o global e o regional, haveriam que se alçar a entes federativos.

         Em nossa federação, os poderes executivo, legislativo e judiciário compartilham de formal independência e harmonia entre si. Passos mais avançados de reforma, porém, em nossa política se esperam.


         No plano nacional, o legislativo é bicameral: câmara e senado. Neste, a representação opera-se igual para os estados e o distrito federal, a nação em equilíbrio.


         Nestes tempos de crise, o Brasil é respeitado, ocupando lugar entre os grandes. E, no plano interno, sem os históricos surtos de Confederação do Equador. É tempo de passarmos a limpo, na expressão de Darci Ribeiro, a nossa política, vista ainda por muitos ... “coisa suja”...


         É a esperança de todos nós!



          

 

 

 

 

DEMÓCRITO, UMA SAUDADE!

                Marcondes Rosa de Sousa

                Professor da UFC e da UECe

 

                Um ano desde a trágica notícia a nos abalar a todos: Demócrito Dummar  a nos deixar, em inesperada viagem para a outra vida.  Hoje, porém, o conforto do projeto e lições que deixou.  Um jornalismo  (jornal, rádios e televisão) sob a batuta de um cotidiano arrancado do barro do chão, mas sem perder de vista “psicanálise e metafísica do mundo” (Roland Barthes).  Um jornalismo, em que a feição gráfica se opera num “produtivo caos” a nos lançar o forte apelo: nossos segmentos sociais, em aparente ruído, a desenhar, porém, democracia nos plurais acordes em sinfonia.

                Desde os anos 60, nas funções que ocupei, sobretudo na Universidade Federal do  Ceará, captei,  das relações entre O Povo e a inteligentzia do Ceará, a concordância com o lema “O universal pelo regional”,  que Martins Filho legaria à UFC, acorde com o “poder de pauta” de Demócrito a O Povo. Pauta de uma caminhada em que teriam que se articular cabeças (os intelectuais), mãos (os gestores públicos e sociais) e tato (os políticos). 

                Basta mirar, em retrospecto, as históricas iniciativas conjuntas entre nossas universidades (a UFC sobretudo):  os simpósios, os festivais de cinema e audiovisual, os programas de responsabilidade social, os cursos de educação à distância, a editoração de livros e periódicos, entre muitos outros.

                Saudade, presença dos ausentes (Olavo Bilac).  Demócrito, em nós que ficamos, nos é sensível presença.  Presença nos meios de comunicação de O Povo, em que o poder de pauta evoca o poema de Demócrito Rocha, O Rio Jaguaribe, a desaguar, presença sensível no  jornalismo de  nossa plural sociedade, na ágora e no agora, em busca do “longo amanhecer” de que nos falaria Celso Furtado, hoje em outra vida,  aqui trazido, em 1984, pela UFC e O Povo: “o do crescimento econômico a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento”.