SOBRE CAOS E CONTRAPONTOS
Ricardo Marques
Amados amigos, sem nenhuma tentativa de convencer ninguém, nem de polemizar, e no mais elevado espírito de brandura e benevolência, gostaria de discordar de parte dessa cosmovisão quanto à expectativa, a meu ver um tanto conformista, de que a esculhambação que aí está é apenas uma "necessária" fase caos a preceder algo de muito bom que o próprio caos esteja construindo...
O fa
to de o caos preceder uma nova ordem é, de certa forma, ciência, especialmente no que se refere à Física. Contudo, não é uma lei a ser aplicada a tudo o que acontece. Seria o mesmo que dizer que todas as coisas são relativas porque assim provou a teoria da relatividade, de Einstein - quando sabemos que a teoria de Einstein não diz isso, nem pode ser aplicada à maioria dos fatos histórico-político-econômico-sociais, e muito menos a fatos religiosos.
A depender do contexto, a premissa do caos como sendo uma etapa necessária a uma boa e nova ordem não vale. Em Biologia, por exemplo, há casos diversos em que o caos precede um caos ainda pior, podendo chegar à completa extinção. Uma nova ordem pode se estabelecer depois de um resultado mais ou menos desastroso, porém é, muitas vezes, uam "ordem" menos aperfeiçoada e defeituosa - não seria exagero dizer que seria apenas uma nova "desordem" em andamento. É daí, por exemplo, que vieram todas as doenças que acometem os seres vivos, inclusive o ser humano. Em minhas aulas sobre Termodinâmica Biológica falo bastante dessas coisas.
Na Sociologia e na História vemos situações caóticas, como guerras, fome, revoluções sangrentas, ou até mesmo uma "Santa" Inquisição, depois das quais se estabeleceu uma nova "ordem" cujo estado foi bem pior que o primeiro - ou seja, foi uma nova "desordem", no entanto, convenientemente entendida por alguns interessados como sendo uma "ordem".
E em se tratando de teologia, há, sim, vários casos do caos precedendo a ordem, como em Gêneses 1, quando "a terra era sem forma e vazia", e depois disso veio a Criação, ou mesmo o Apocalipse, com "os elementos ardendo, se desfarão", para depois virem os prometidos "novos céus e nova terra". Mas não posso deixar de citar que a própria Bíblia, inclusive nos evangelhos, e dito pelo próprio Jesus, nos ensina que chegariam os tempos difíceis onde “se levantará nação contra nação, e reino contra reino"; que haverá "terremotos, maremotos, fome, doenças, pragas, desolação"; que "o amor de esfriará de quase todos" e que "muitos apostarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores". E diz que serão muitos a interpretar e ensinar que esses acontecimentos seriam "finais", a precederem uma nova ordem se estabeleceria logo mais.
A questão é que Jesus diz que tal entendimento, que será universalmente aceito, é apenas "o princípio das dores", e que "quando acharem que há paz, então virá repentina destruição", a ponto de "homens desmaiarão de terror pelas coisas que haverão de sobrevir". Mas alerta, ao mesmo tempo, que a dureza dessa realidade seria de difícil aceitação, e que as pessoas prefeririam acreditar em respostas mais "confortáveis".
O profeta Daniel, o próprio Senhor Jesus e o apóstolo João (em suas visões do Apocalipse na ilha de Patmos), revelam harmonicamente diversos fatos proféticos sobre esse tempo que aparentemente viria "após" o caos. Avisam, por exemplo, que "haverá um tempo de falsa paz", com uma nova ordem mundial estabelecida, tendo como pano de fundo um pacto social e político para "consertar" os escombros do caos que se pensará haver terminado. Mas Jesus e os profetas avisam que essa nova ordem é maligna em sua essência, pertence ao "sistema mundano" (kosmokrator) e que seu acobertamento não durará. O mal se revelará e começará um novo período chamado de "grande tribulação", provocada justamente pelos arautos da "nova ordem", quando todo oponente será violentamente perseguido. Mas a "Tribulação" terá um fim permanente, que, segundo palavras do próprio Jesus, será marcado pela sua "segunda vinda", desta vez "em esplendor e grande glória", com os anjos e os ressurrectos, e "todo olho o verá". Segundo Ele, essa volta será repentina e inesperada, "como um ladrão que entra de surpresa à noite, numa casa". Então virá o fim, e a verdadeira "nova ordem" definitiva, onde o caos estará permanentemente neutralizado. Essa confluência de profecias e acontecimentos tomou a atenção até de Isaac Newton, que dedicou anos de estudo à harmonia entre as profecias de Daniel, no Antigo Testamento, e as do Apocalipse de João, no Novo Testamento - Newton publicou um livro sobre esse tema.
O foco da questão aqui é, portanto, o entendimento pessoal, de cada um, sobre QUANDO o caos termina para produzir uma nova ordem, e SE essa nova ordem é mesmo ela, ou se ainda é o caos disfarçado, propositalmente enganoso, na verdade uma desordem, que ainda se revelará mais catastrófica, e somente depois é que a verdadeira nova ordem se estabelecerá. Nesse ínterim, conforme as Escrituras, a maioria da humanidade não saberá reconhecer o engodo, porque estará voltada para "suas próprias necessidades" e selecionando como verdades apenas aquelas que estiverem de acordo com "suas próprias conveniências". Jesus disse que a Verdade seria "dura demais" e por isso a maioria se ressentiria dela, e "por isso não darão ouvidos à verdade", "cercando-se de mestres e palavras que lhes sejam confortáveis", como nos diz o apóstolo Paulo.
Vagner Muniz,
Pensei em escrever algo sobre os "contrapontos". E, então, encontro a mensagem do Ricardo. Algumas coisas me vêm à mente:

1. Sempre me chamou a atenção o confronto entre as frases "contra fatos não há argumentos" e "não existem fatos, apenas interpretações". De um lado, os "realistas ingênuos", de outro, os "relativistas insanos", já disse alguém. Penso que um lado e outro têm suas razões. A sabedoria consistiria em articular os pólos, ora pendendo para um, ora para outro, mas sempre na dialógica. Democracia: iguais possibilidades para a expressão de idéias, o que é diferente de dizer que todas as idéias sejam igualmente boas. Na atual situação política brasileira, parece-me que alguns fatos estão atropelando as interpretações. Que se respeitem as preferências, mas não é por elas, nem com elas, que, como dizia minha avó, vamos tampar o sol com a peneira.
2. Não entendi que foi falado aqui que "a esculhambação que aí está" seja uma fase "necessária" ao advento de bons tempos. Acontece que o caos pode conter uma ordem de outro nível, ou pode evoluir para um estado de ordem perceptível (ou pode aprofundar-se em sua complexidade). Desse modo, um momento de grandes conflitos pode já conter a semente da mudança. Pois então que justamente a esculhambação está gerando uma mobilização (tímida, é verdade) para a conquista de melhores dias. Não que ela, a esculhambação, seja necessária, no sentido de que tínhamos-de-passar-por-isso; mas que com ela e por ela alguns vislumbram outros caminhos. Não se busca uma crise, mas uma vez instalada é por meio dela, ou por oposição a ela, que se encontram outras vias.
3. Há de se entender também a diferença entre a acepção rotineira do termo "caos" e a acepção técnica. Na acepção rotineira, fome, guerra etc. são caos, ou seja, são situações de sofrimento, de perdas etc. Na acepção técnica, caos não tem em si mesmo valorizações negativas nem positivas. Um grupo que passa fome pode apresentar-se de forma previsível e ordenada (o que não significa que seja um estado desejável), enquanto que, por outro lado, busca-se, por exemplo, a espontaneidade, o acaso, a desordem em festas, manifestações artísticas etc. Como disse um amigo meu, "o caos em que está a política brasileira se apresenta organizado em um chefe e quarenta ladrões".
Ricardo Marques
Vagner, você está certíssimo nesses pontos. Comungo com estes comentários seus, especificamente; eles expressam exatamente uma parte de como entendo o que está em discussão.
Veja você como é difícil conduzir um debate por e-mail, uma vez que aquilo que se escreve jamais permite expressar um completo entendimento do que pensa aquele que escreveu Tem horas que imagino que alguém pensa de um jeito, e lá vem o tal demonstrando idéias que também são as minhas e eu achava que aquela pessoa era bem diferente; ao mesmo tempo, às vezes alguém imagina que penso de certa maneira, quando se surpreenderia se soubesse de fato o que está em minha cabeça.
É notável como ninguém aqui nessa Lista tem idéia de como é, em realidade, a cabeça um do outro, e acho que nos surpreenderíamos bastante se convivêssemos uns com os outros no dia a dia, tendo oportunidade de compartilhar nossos pensamentos e idéias em bate-papos informais e prolongados...
Adail Sobral (ao Moderador do Grupo)

Estou completamente perdido: não sei que mensagens sobre a complexidade vieram antes de quais outras. Não percebo quem comenta o quê, porque vários enviaram várias. Por acaso, a lista tem algum dispositivo de organização das mensagens sobre um mesmo assunto prá colocar em ordem? O que já se disse aqui sobre isso constitui um artigo que só precisa ser organizado como tal. Posso converter prá pdf e deixar no site, e depois posso ir acrescentando as novas. O problema é que não o tenho como fazer esse primeiro "ajuntamento". Tudo começou com tua frase lapidar e agora temos um belo debate sobre o pensamento complexo, aliás, algo que o pensamento é por definição.
Adail Sobral, o apocalíptico
Ricardo,
Não se esqueça de que somos também aquilo que escrevemos e, principalmente, o modo como escrevemos, os temas que abordamos, as reações que revelamos a cada tema etc. Não podemos negar isso na convivência. Depois de viver aqui nossos eus "internéticos", a convivência seria outra, mesmo que já nos tivéssemos conhecido antes.
Falar é dizer e dizer-se, é compromisso, é agir sem álibi. O sublime e a tragédia espreitam em cada palavra proferida.
Adail, ora apocalíptico

“Afrodite Frô”
Assino embaixo. Conheci o Adail por e-mail e virei seu fã. Conheci-o pessoalmente e reafirmei meu carinho por ele. Beijos, saudades de você, tradutor do mês.
a) Frô
Ricardo Marques
Pois eu discordo, em parte. Dizer que “somos o que escrevemos” só vale quando, por exemplo, le
mos vários livros ou uma imensidão de cartas de uma pessoa. Jamais, porém, o que se lê em algumas mensagens de e-mail, às vezes escritas de forma apressada, na madrugada, ou em meio ao calor de uma discussão. Isso pode tanto trair algo de real, como produzir interpretações anômalas por parte de quem lê, se quem lê estiver com o espírito e as emoções armados e comprometidos.
Como conselheiro e estudioso do comportamento humano há 23 anos, tenho visto e tratado disso sistematicamente, lidando com más interpretações que pessoas fazem de outras com base em coisas que jamais poderiam ter servido de "fundamento". Está tudo na cabeça de quem julga. E isso eu nem ponho em discussão, pois é prova dentro de minha experiência pessoal e de quem leio e me referencio para meu aprendizado. Se eu fosse me permitir formar imagem de alguns de vocês com base no que sou tentado a interpretar quando leio algumas coisas que escrevem, eu os estaria julgando levianamente e irresponsavelmente, pois já teria formado imagens bem complicadinhas.
Mas, no meu íntimo, minha experiência benevolente com a pessoa humana me diz que alguns de vocês são bem diferentes do que parecem transparecer em algumas mensagens, que prefiro filtrar.
Não usem isso para gerar mais uma polêmica gratuita, gente. Dispam-se desse correr atrás de discutir sempre, por tudo... Prefiro abraçá-los e amá-los.
Adail Sobral
Você não discorda, nem eu discordo de você. Você aponta relevantes elementos. Tive o cuidado de dizer "***também*** o que escrevemos", em distintas circunstâncias. Consigo hoje ler um texto e identificar o estado de calma ou de exaltação com que escrevi, e isso também faz parte de mim. Minhas reações em geral, da expressão de raiva à generosidade, também "são" eu.
Que acesso teremos ao íntimo do outro, se nem ao nosso temos, a não ser ao ver a expressão comportamental, atitudinal, emocional etc., que se manifesta **também** em nossos textos? Discordo de quem diz que toda mensagem eletrônica é escrita apressada ou superficialmente. Não é o caso de muitíssimas, inclusive suas, que leio aqui.