Grupos

Adail Sobral - Tradutor do mês

14:44 @ 03/05/2006

 

É Doutor em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP. Mestre em Letras pela FFLCH-USP e especializado em Lingüística pelo IEL - UNICAMP. Graduado em Letras - Inglês pela UFBA. Tradutor do inglês, do francês e do espanhol das editoras Loyola, SBS, Vozes, Idéias & Letras, Martins Fontes, entre outras, nas áreas de filosofia, lógica, pós-modernismo, teoria psicanalítica, bioética, temas da atualidade etc.

 

A SBS, na pessoa da Jaqueline Garcia, e com a participação da Susanna, me fez uma homenagem que muito me emocionou: http://www.sbs.com.br/bin/editora/index.asp/ (Palavras de Adail Sobral, no Grupo Ethos-Paidéia)

 

 

Turismo, Paretto e os militantes-sabonete

 

Carvalho Neto

 

 

 

                    Segundo a lei de Paretto[1], em qualquer atividade, em geral apenas 20% dos envolvidos são responsáveis por 80% dos resultados. 20% dos clientes de bancos, supermercados e alfaiatarias seriam responsáveis por 80% dos lucros dessas empresas tão diferentes. No entanto, 80% da energia, atenção e trabalho de seus proprietários e executivos é dirigida a esses 80% de clientes que produzem pouco e mais de 20% de seus retornos financeiros.

 

                    A lei foi sendo absorvida em outras áreas. E se mostrou consistente. Em muitos lares 80% da atenção é dirigida ao filho ou a filha mais problemático, e apenas 20% àqueles que vão bem.

 

                    Esse parece ser o caso dos administradores de turismo no Brasil, e infelizmente, nas últimas décadas, no Ceará. A bem da verdade houve honrosas exceções à regra, mas, no geral, as pessoas que dominaram a cena da administração turística no estado e em Fortaleza nem sempre eram ou estavam preparadas para a função, uma pena.

 

                    Entre as estultices mais “òbvio ululante” que perpetraram, está à ênfase dada ao turismo internacional. Mais de 80% dos turistas que visitam o Ceará são brasileiros, vêm de São Paulo, do Rio de Janeiro, de Minas, do Rio Grande e de estados vizinhos, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, etc. Porém, mais de 80% da atenção, dos recursos e dos esforços de nossos valorosos administradores do setor é voltada para atrair o visitante internacional.

 

                    Resultado, muito investimento e resultados pífios. Com os mesmos recursos, se dirigidos ao turismo interno, obteríamos efeitos espetaculares. Por que os gringos não vêm? Porque moram longe, têm férias e feriados curtos distribuídos durante o ano, têm opções mais baratas e bastante sofisticadas em locais mais próximos.

 

                    Dessa forma quem conseguimos atrair foram investidores estrangeiros que aqui compram pousadas em nossas praias e controlam todas as pontas do processo. Têm uma agencia de captação na Itália, Espanha ou Portugal, contratam vôos charteres para trabalhadores de baixa renda, os apanham no aeroporto e os levam diretamente para sua pousada. Numa estrutura em que o sexo efetivamente é componente ponderável.

 

                    Ah, mas se dispusermos de infra-estrutura competitiva atrairemos os galegos. Não. O México é vizinho do maior pólo emissor de turistas, tem estruturas e equipamentos com os quais nem sonhamos em balneários e praias que nada ficam a dever às nossas, e ainda assim 80% do negócio turístico ali é concentrado no turismo interno.

 

                    Ainda há tempo. Poderemos fincar pé na estatística de que somos o maior pólo atrativo do país, em termos de turismo interno, segmentar nossa oferta para os brasileiros, que vêm sempre com amigos e família, sem contribuir muito com o aumento do fenômeno do turismo sexual, gastam aqui tanto quanto os estrangeiros, e... falam nossa língua!

 

                    Mas aqui tudo é mais difícil. Todas as cidades turísticas do planeta gastam tremendas quantidades de energia, criatividade e dinheiro para se inserirem no calendário turístico com uma festa, um evento que se torne emblemático da atividade. Nós tivemos aqui a maior micareta do país, do Mundo. Mas a mesquinhez dos que não participavam do banquete a comprometeu.

 

 


                    Com argumentos os mais hipócritas. O barulho ensurdeceria a vizinhança. Esquecendo-se que a Beira-mar sempre se constituiu em ágora fortalezense, para onde se dirigiam “naturalmente”, a comemorar copas do mundo e quejandos, as massas com ricos e pobres.

 

                    Agora, depois de comprarem a Câmara dos Vereadores e adulterar o Código Municipal, os mais ricos construíram, nesse local que fora público, uma muralha de arranha-céus e de hotéis que infernizam a vida dos que sofrem com o calor que a ausência da brisa marítima provoca.

 

                    O mais estranho é que as vozes mais tonitruantes, em defesa de nossa primorosa casta de milionários, é quase sempre a dos destituídos de dinheiro, de escrúpulos e de cérebros. Dos militantes-sabonete, empacotadinhos, cheirozinhos e lisos.

 

 

 

 



[1] PARETTO, Vilfredo , economista italiano, autor de Trattato de Sociologia General e Manuel d'Economie Politique

 

 

 

 

SOBRE CAOS E CONTRAPONTOS

 

Ricardo Marques

 

 

Amados amigos, sem nenhuma tentativa de convencer ninguém, nem de polemizar, e no mais elevado espírito de brandura e benevolência, gostaria de discordar de parte dessa cosmovisão quanto à expectativa, a meu ver um tanto conformista, de que a esculhambação que aí está é apenas uma "necessária" fase caos a preceder algo de muito bom que o próprio caos esteja construindo...

 

O fato de o caos preceder uma nova ordem é, de certa forma, ciência, especialmente no que se refere à Física. Contudo, não é uma lei a ser aplicada a tudo o que acontece. Seria o mesmo que dizer que todas as coisas são relativas porque assim provou a teoria da relatividade, de Einstein - quando sabemos que a teoria de Einstein não diz isso, nem pode ser aplicada à maioria dos fatos histórico-político-econômico-sociais, e muito menos a fatos religiosos.

 

A depender do contexto, a premissa do caos como sendo uma etapa necessária a uma boa e nova ordem não vale. Em Biologia, por exemplo, há casos diversos em que o caos precede um caos ainda pior, podendo chegar à completa extinção. Uma nova ordem pode se estabelecer depois de um resultado mais ou menos desastroso, porém é, muitas vezes, uam "ordem" menos aperfeiçoada e defeituosa - não seria exagero dizer que seria apenas uma nova "desordem" em andamento. É daí, por exemplo, que vieram todas as doenças que acometem os seres vivos, inclusive o ser humano. Em minhas aulas sobre Termodinâmica Biológica falo bastante dessas coisas.

 

Na Sociologia e na História vemos situações caóticas, como guerras, fome, revoluções sangrentas, ou até mesmo uma "Santa" Inquisição, depois das quais se estabeleceu uma nova "ordem" cujo estado foi bem pior que o primeiro - ou seja, foi uma nova "desordem", no entanto, convenientemente entendida por alguns interessados como sendo uma "ordem".

 

E em se tratando de teologia, há, sim, vários casos do caos precedendo a ordem, como em Gêneses 1, quando "a terra era sem forma e vazia", e depois disso veio a Criação, ou mesmo o Apocalipse, com "os elementos ardendo, se desfarão", para depois virem os prometidos "novos céus e nova terra". Mas não posso deixar de citar que a própria Bíblia, inclusive nos evangelhos, e dito pelo próprio Jesus, nos ensina que chegariam os tempos difíceis onde “se levantará nação contra nação, e reino contra reino"; que haverá "terremotos, maremotos, fome, doenças, pragas, desolação"; que "o amor de esfriará de quase todos" e que "muitos apostarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores".  E diz que serão muitos a interpretar e ensinar que esses acontecimentos seriam "finais", a precederem uma nova ordem se estabeleceria logo mais.

 

A questão é que Jesus diz que tal entendimento, que será universalmente aceito, é apenas "o princípio das dores", e que "quando acharem que há paz, então virá repentina destruição", a ponto de "homens desmaiarão de terror pelas coisas que haverão de sobrevir". Mas alerta, ao mesmo tempo, que a dureza dessa realidade seria de difícil aceitação, e que as pessoas prefeririam acreditar em respostas mais "confortáveis".

 

O profeta Daniel, o próprio Senhor Jesus e o apóstolo João (em suas visões do Apocalipse na ilha de Patmos), revelam harmonicamente diversos fatos proféticos sobre esse tempo que aparentemente viria "após" o caos. Avisam, por exemplo, que "haverá um tempo de falsa paz", com uma nova ordem mundial estabelecida, tendo como pano de fundo um pacto social e político para "consertar" os escombros do caos que se pensará haver terminado. Mas Jesus e os profetas avisam que essa nova ordem é maligna em sua essência, pertence ao "sistema mundano" (kosmokrator) e que seu acobertamento não durará. O mal se revelará e começará um novo período chamado de "grande tribulação", provocada justamente pelos arautos da "nova ordem", quando todo oponente será violentamente perseguido. Mas a "Tribulação" terá um fim permanente, que, segundo palavras do próprio Jesus, será marcado pela sua "segunda vinda", desta vez "em esplendor e grande glória", com os anjos e os ressurrectos, e "todo olho o verá". Segundo Ele, essa volta será repentina e inesperada, "como um ladrão que entra de surpresa à noite, numa casa". Então virá o fim, e a verdadeira "nova ordem" definitiva, onde o caos estará permanentemente neutralizado. Essa confluência de profecias e acontecimentos tomou a atenção até de Isaac Newton, que dedicou anos de estudo à harmonia entre as profecias de Daniel, no Antigo Testamento, e as do Apocalipse de João, no Novo Testamento - Newton publicou um livro sobre esse tema.

 

O foco da questão aqui é, portanto, o entendimento pessoal, de cada um, sobre QUANDO o caos termina para produzir uma nova ordem, e SE essa nova ordem é mesmo ela, ou se ainda é o caos disfarçado, propositalmente enganoso, na verdade uma desordem, que ainda se revelará mais catastrófica, e somente depois é que a verdadeira nova ordem se estabelecerá. Nesse ínterim, conforme as Escrituras, a maioria da humanidade não saberá reconhecer o engodo, porque estará voltada para "suas próprias necessidades" e selecionando como verdades apenas aquelas que estiverem de acordo com "suas próprias conveniências". Jesus disse que a Verdade seria "dura demais" e por isso a maioria se ressentiria dela, e "por isso não darão ouvidos à verdade", "cercando-se de mestres e palavras que lhes sejam confortáveis", como nos diz o apóstolo Paulo.

 

 

Vagner Muniz,

 

 

Pensei em escrever algo sobre os "contrapontos". E, então, encontro a mensagem do Ricardo. Algumas coisas me vêm à mente:

 

1. Sempre me chamou a atenção o confronto entre as frases "contra fatos não há argumentos" e "não existem fatos, apenas interpretações". De um lado, os "realistas ingênuos", de outro, os "relativistas insanos", já disse alguém. Penso que um lado e outro têm suas razões. A sabedoria consistiria em articular os pólos, ora pendendo para um, ora para outro, mas sempre na dialógica. Democracia: iguais possibilidades para a expressão de idéias, o que é diferente de dizer que todas as idéias sejam igualmente boas. Na atual situação política brasileira, parece-me que alguns fatos estão atropelando as interpretações. Que se respeitem as preferências, mas não é por elas, nem com elas, que, como dizia minha avó, vamos tampar o sol com a peneira.

 

2. Não entendi que foi falado aqui que "a esculhambação que aí está" seja uma fase "necessária" ao advento de bons tempos. Acontece que o caos pode conter uma ordem de outro nível, ou pode evoluir para um estado de ordem perceptível (ou pode aprofundar-se em sua complexidade). Desse modo, um momento de grandes conflitos pode já conter a semente da mudança. Pois então que justamente a esculhambação está gerando uma mobilização (tímida, é verdade) para a conquista de melhores dias. Não que ela, a esculhambação, seja necessária, no sentido de que tínhamos-de-passar-por-isso; mas que com ela e por ela alguns vislumbram outros caminhos. Não se busca uma crise, mas uma vez instalada é por meio dela, ou por oposição a ela, que se encontram outras vias.

 

3.  Há de se entender também a diferença entre a acepção rotineira do termo "caos" e a acepção técnica. Na acepção rotineira, fome, guerra etc. são caos, ou seja, são situações de sofrimento, de perdas etc. Na acepção técnica, caos não tem em si mesmo valorizações negativas nem positivas. Um grupo que passa fome pode apresentar-se de forma previsível e ordenada (o que não significa que seja um estado desejável), enquanto que, por outro lado, busca-se, por exemplo, a espontaneidade, o acaso, a desordem em festas, manifestações artísticas etc. Como disse um amigo meu, "o caos em que está a política brasileira se apresenta organizado em um chefe e quarenta ladrões".

 

 

 

Ricardo Marques 

  

Vagner, você está certíssimo nesses pontos.  Comungo com estes comentários seus, especificamente; eles expressam exatamente uma parte de como entendo o que está em discussão.

 

Veja você como é difícil conduzir um debate por e-mail, uma vez que aquilo que se escreve jamais permite expressar um completo entendimento do que pensa aquele que escreveu Tem horas que imagino que alguém pensa de um jeito, e lá vem o tal demonstrando idéias que também são as minhas e eu achava que aquela pessoa era bem diferente; ao mesmo tempo, às vezes alguém imagina que penso de certa maneira, quando se surpreenderia se soubesse de fato o que está em minha cabeça.

 

É notável como ninguém aqui nessa Lista tem idéia de como é, em realidade, a cabeça um do outro, e acho que nos surpreenderíamos bastante se convivêssemos uns com os outros no dia a dia, tendo oportunidade de compartilhar nossos pensamentos e idéias em bate-papos informais e prolongados...

 

Adail Sobral (ao Moderador do Grupo)

 

Estou completamente perdido: não sei que mensagens sobre a complexidade vieram  antes de quais outras. Não percebo quem comenta o quê, porque vários enviaram várias. Por acaso, a lista tem algum dispositivo de organização das mensagens sobre um mesmo assunto prá colocar em ordem? O que já se disse aqui sobre isso constitui um artigo que só precisa ser organizado como tal. Posso converter prá pdf e deixar no site, e depois posso ir acrescentando as novas. O problema é que não o tenho como fazer esse primeiro "ajuntamento". Tudo começou com tua frase lapidar e agora temos um belo debate sobre o pensamento complexo, aliás, algo que o pensamento é por definição.

 

 

 

Adail Sobral, o apocalíptico 

 

 

Ricardo,

 

Não se esqueça de que somos também aquilo que escrevemos e, principalmente, o modo como escrevemos, os temas que abordamos, as reações que revelamos a cada tema etc. Não podemos negar isso na convivência. Depois de viver aqui nossos eus "internéticos", a convivência seria outra, mesmo que já nos tivéssemos conhecido antes.

 

Falar é dizer e dizer-se, é compromisso, é agir sem álibi. O sublime e a tragédia espreitam em cada palavra proferida.

Adail, ora apocalíptico

 

 

 

 

 

“Afrodite Frô”

 

 

Assino embaixo. Conheci o Adail por e-mail e virei seu fã. Conheci-o pessoalmente e reafirmei meu carinho por ele. Beijos, saudades de você, tradutor do mês.

 

a) Frô

 

  

 

Ricardo Marques

 

  

 

Pois eu discordo, em parte. Dizer que “somos o que escrevemos” só vale quando, por exemplo, lemos vários livros ou uma imensidão de cartas de uma pessoa. Jamais, porém, o que se lê em algumas mensagens de e-mail, às vezes escritas de forma apressada, na madrugada, ou em meio ao calor de uma discussão. Isso pode tanto trair algo de real, como produzir interpretações anômalas por parte de quem lê, se quem lê estiver com o espírito e as emoções armados e comprometidos.

 

Como conselheiro e estudioso do comportamento humano há 23 anos, tenho visto e tratado disso sistematicamente, lidando com más interpretações que pessoas fazem de outras com base em coisas que jamais poderiam ter servido de "fundamento". Está tudo na cabeça de quem julga. E isso eu nem ponho em discussão, pois é prova dentro de minha experiência pessoal e de quem leio e me referencio para meu aprendizado. Se eu fosse me permitir formar imagem de alguns de vocês com base no que sou tentado a interpretar quando leio algumas coisas que escrevem, eu os estaria julgando levianamente e irresponsavelmente, pois já teria formado imagens bem complicadinhas.

 

Mas, no meu íntimo, minha experiência benevolente com a pessoa humana me diz que alguns de vocês são bem diferentes do que parecem transparecer em algumas mensagens, que prefiro filtrar.

 

Não usem isso para gerar mais uma polêmica gratuita, gente. Dispam-se desse correr atrás de discutir sempre, por tudo... Prefiro abraçá-los e amá-los.

 

  

Adail Sobral

 

 

   Você não discorda, nem eu discordo de você. Você aponta relevantes elementos. Tive o cuidado de dizer "***também*** o que escrevemos", em distintas circunstâncias. Consigo hoje ler um texto e identificar o estado de calma ou de exaltação com que escrevi, e isso também faz parte de mim. Minhas reações em geral, da expressão de raiva à generosidade, também "são" eu.

 

Que acesso teremos ao íntimo do outro, se nem ao nosso temos, a não ser ao ver a expressão comportamental, atitudinal, emocional etc., que se manifesta **também** em nossos textos? Discordo de quem diz que toda mensagem eletrônica é escrita apressada ou superficialmente. Não é o caso de muitíssimas, inclusive suas, que leio aqui.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

Incluo aqui como comentário uma série de mensagens sobre "caos" e "ordem" que precedeu a discussão já postada pelo Marcondes

COMO TUDO COMEÇOU (uma saga em andamento)

Marcondes enviou mensagem de título: “Contrarios são contrapontos de uma mesma verdade!”
Recebeu resposta do Ricardo e replicou:


Meu Caro Ricardo, Gostei, sim, de suas considerações, em tom inteligente e sereno, sobre as perspectivas de interação entre as aparentemente contrárias “ordem” e “desordem” – as duas construindo a dialética que impulsiona a natureza, a vida social e humana, a arte, a história nossa enfim. Religioso (sei-o eu) e bom exegeta do “livro dos livros”, você concorda com o princípio que está, desde os antigos, entre os próprios pagânicos: o do “no princípio, era o Caos”. E sabe que a esse caos eram dados dois sentidos: um negativo, as trevas, a confusão, o que você hoje designa por... “esculhambação” (rsrs); outro, porém, com força criadora, princípio inovador, o dito “caos produtivo”. Vá lá na literatura clássica, nas Metamorfoses de Ovídio e lá estão as duas formas. No Gênese, eis a diferença, a terra era “inane e vazia” ... “et spiritus Dei ferebatur super aquas” – lembro-me do seminário, em minhas aulas de latim, ao traduzir a Vulgata. Hoje, vejo Jeová como um solitário. Ter-se-ia sentido só. Nem mesmo, narcíseo, tinha alguém para com ele, reverenciar sua “imagem e semelhança”. Daí, o primeiro sinal da mudança: “Fiat lux”. “Et lux facta est”. E um refrão, Ricardo, que há de ter um sentido: “E Deus viu que isso era bom”. No primeiro dia, a luz, a refletir sobre as águas, deu a Jeová, eu euforia narcísea, condições de ver sua própria imagem (não me condene, uso linguagem simbólica). E assim foram os “dias” da evolução do mundo e da vida. A cada fase criativa, a repetição do refrão. Até o penúltimo, quando Ele fez o homem “à sua imagem e semelhança”. Tanta euforia e sadio narcisismo que, neste dia, Jeová silenciou e não “viu que isso era bom”. Curiosamente, foi o primeiro dia em que ele, justo ao invés, pronunciou a frase na negativa: “Não é bom que ele fique sozinho”. O “não é bom” parecia, aos olhos de Jeová, do que o “era bom”. Daí, Eva, retirada da própria costela de Adão, como seu produtivo contraponto. No meio do Eden, plantou a “árvore do bem e do mal”, em termos de agora, da “ordem” e da “desordem” – a ciência. Curioso, tê-ia feito tabu intocado (a ordem) mas, ao mesmo tempo, a declaração de que “se a tocardes sereis como um de nós”, capazes, como se deuses, de criação da vida. Talvez aí a sugestão e indução de duas coisas: a) o mundo não se concluía com a homeostase (o equilíbrio, a ordem) a levar-nos todos a um improdutivo e “paradisíaco” “sono adâmico”; b) de que, pela “árvore da vida” teríamos a instrução de como levarmos a vida adiante. Mas, além da árvore, Jeová plantou no Éden, dois personagens curiosos: a serpente e Eva, com o feminino poder da “produtiva desordem”, a liderar o mundo. E a “desobediência” – o romper com a estática lógica da primeira parte da criação – e o “tocar do fruto proibido”. Isso teria feito com que os humanos se descobrissem nus. E, irônico, receberam o “castigo (?) do “parirás o filho com dor” (o criar as irônicas "imagens e semelhanças de Deus") e do “comerás o pão com o suor do teu rosto” (o trabalho, vale dizer, a produção do mundo ). Ambos, poderes de criação e de início de um novo projeto, o humano. À porta do Éden, um anjo, para que o homem não retornasse à homeostase com o Éden, como no início. A linguagem bíblica, como a artística e simbólica, joga com a polissêmica “desordem produtiva”, o ruído prenhe de significação... Jeová, porém, não conseguiu ficar só. Acompanhou os banidos. Meteu-se na briga entre Caim e Abel. Viu “desordens”, na vida humana, tendo de ser corrigidas. Daí, o dilúvio em nome da “ordem divina” a desordenar a vida humana. Mas, em contraponto, a “arca de Noé” a por sob nova ordem o humano e o natural. Assim, toda a vida, e são vários os livros da vida, num alternar o dialético jogo entre “ordem” e “desordem”. Até a nova ordem do Cristianismo, refazendo as leis, a morte de Cristo, a ordem sob a perspectiva dos judeus, inaugurando a nova ordem... Esta, a “boa nova” dos “evangelhos”. A lição do Apocalipse, que foi escrito não para sinalizar o “fim do mundo” mas, ironicamente, o reinício da “nova era”, a cristã. Isso, sob a conotação do “caos inovador”, como na antiguidade clássica. Engraçado! Queriam, os do Seminário, que eu fosse para Lovaina e depois para Roma. Para uns, eu seria um novo “Paulo”, na Igreja Católica de nosso País. E eu, curiosamente, não gostava de Saulo que se fizera, embora arrogante, “pequeno” (Paulo). Mas, por outro lado, achava o Evangelista João, embora poeta, pirado demais, para o meu gosto. Hoje, depois da derrubada das torres gêmeas, da retomada dos fundamentalismos (judaico, islâmico e cristão), começo a dar valor à sintaxe surrealística do Apocalipse.
Marcondes


Depois de uma discussão sobre a autoria da frase-título da mendagem anterior, disse Marcondes:

 A formulação da frase foi minha. Mas, com sua sensibilidade, você chegou ao Vagner. Estava agora, revendo toda a discussão que, para aqui, trouxe ele sobre o Manifesto contra a leitura. E relia o seu final. Quando Vagner, nos indagava sobre o “ver para prever a fim de prover” do positivismo”. E logo depois, vinha ele com um autêntico manifesto de adesão ao “pensamento complexo”. Em seguida, na releitura hoje de Heráclito, a partir do livro “Espere o inesperado, ou você não o encontrará”, chegava eu, por vias do marketing de agora das grandes empresas, ao mesmo pensamento. A frase é, no fundo, inspirada no epigrama “A oposição traz benefícios” e de outros ensaios de Heráclito. De lá para cá, avancei. E estava eu justamente coletando tópicos de Edgar Morin para estudo por meus alunos. Fiz uma experiência, em Teoria da Literatura. Estou começando tudo sob uma perspectiva epistemológica. Exatidão, certeza, previsibilidade hoje são conceitos que ficaram lá em Newton. E ordem e desordem se equilibram. Não apenas na arte. Não apenas nas ciências humanas. Até nas outrora ditas “exatas”. A “verdade” hoje se tinge de pluralidade, da tensão dialética entre os aspectos positivos da “ordem” (limitação ou organização) e da “desordem” (destrutiva ou criativa)... Nesse contexto, é possível a gente enxergar algumas coisas interessantes. Estou recobrando textos do “in illo tempore”. Não sei se serão considerados arcaicos, velhos, passados (Tem coisas muito boas: do Adail, do Vagner e até minhas, além de outros autores). Estou aproveitando esses textos entre meus alunos, que gostam muito e se sentem privilegiados. Brinco com eles, em relação à epistemologia arquitetônica dos campi de nossas universidades. Na UFC, o bairro do Pici abriga as chamadas “ciências exatas”, hoje prováveis... O do Benfica, as ciências humanas, as inexatas e as artes. E Porangabuçu, a saúde (um misto das duas). Mas, sabidamente, essa epistemologia territorial foi ficando abaixo. Hoje, criaram-se os núcleos a abrigar as ciências mais dispares. E os mais jovens jogam foram tais pre/conceitos. Meu genro é pós-doctor em “física médica”. Foi para a USP, mas teve de completar estudos nos Estados Unidos, Finlândia, Japão. Minha filha faz o PHD em odontopediatria. Mas, nos States, misturou técnicas de dança como táticas odontopediátricas. Foram-se as certezas. Mas isso não é coisa inventada agora pelo pensamento complexo. Tentem navegar um pouco em alguns dos insights de Heráclito:

a) A oposição traz benefícios; b) Uma maravilhosa harmonia é criada quando juntamos o aparentemente desconexo; c) Onde não há luz do sol, podemos ver as estrelas; d) A ordem mais bela é um monte de detritos amontoados ao acaso; e) A água do mar é pura e impura: para os peixes, potável e vital; para os humanos, impotável e corrosiva; f) Num circulo, o ponto de chegada é também um ponto de partida; g) O médico inflige a dor para curar o sofrimento; g) O caminho por onde se sobe é o mesmo por onde se desce; h) Os cães ladram para o que não compreendem; h) Para o burro, lixo vale mais que ouro

Em seu livro “Espere o inesperado ou você não o encontrará”, Roger Von Oech, ao comentar o insight que dá título ao livro, fala na descoberta por Lorenz do que se chamaria “efeito borboleta”: Será que o bater de asas de uma borboleta no Brasil pode causar um tornado no Texas?” O efeito borboleta se tornaria desde então em uma metáfora fecunda, para indicar que “causa e efeito são aplicáveis ao universo mesmo quando o padrão é indecifrável e as causas exatas de nossas dificultades, enraizadas muito longe no tempo e no espaço, são absolutamente insondáveis!”. E conclui Von Oech: “O cientista da computação Douglas Hofstadter – num comentário que lembra Heráclito – coloca questão de uma forma ligeiramente diferente: ‘Parece que um tipo misterioso de caos está à espreita atrás de uma ordem aparente – mas nas profundezas do caos espreita um misterioso tipo de ordem”. E essa lógica apocalíptica parece ser o fundamento hoje do pensamento complexo, que tentava eu pinçar de Edgar Morin. Mas deixa pra lá. Tudo tem seu tempo e oportunidade... E se Vagner não foi o autor da frase, será, com certeza, cúmplice dela. Isso garanto-lhes. Marcondes

Nova intervenção do Marcondes:

TÓPICOS SOBRE O PENSAMENTO COMPLEXO (I)
Ordem, desordem, complexidade
 
 À primeira vista, o céu estrelado impressiona por sua desordem: um amontoado de estrelas, dispersas ao acaso. Mas, ao olhar mais atento, aparece a ordem cósmica, imperturbável – cada noite, aparentemente desde sempre e para sempre, o mesmo céu estrelado, cada estrela no seu lugar, cada planeta realizando seu ciclo impecável. Mas vem um terceiro olhar: vem pela injeção de nova e formidável desordem nessa ordem; vemos um universo em expansão, em dispersão, as estrelas nascem, explodem, morrem. Esse terceiro olhar exige que concebamos conjuntamente a ordem e a desordem; é necessário a binocularidade mental, uma vez que vemos um universo que se organiza desintegrando-se. Quanto à vida, também há a possibilidade de três olhares: à primeira vista, era a fixidez das espécies, reproduzindo-se impecavelmente, de forma repetitiva, ao longo dos séculos, dos milênios, em ordem imutável. E depois, ao segundo olhar, parece-nos que há evolução e revoluções. Como? Por irrupção do acaso, mutação ocasional, acidentes, perturbações geoclimáticas e ecológicas. Posteriormente, vemos que há desperdícios enormes, destruições, hecatombes não só na evolução biológica (a maior parte das espécies desapareceu) mas também nas interações dentro dos ecossistemas, e eis-nos confrontados com a necessidade de um terceiro olhar, isto é, de pensar conjuntamente a ordem e a desordem, para conceber a organização e a evolução vivas. Quanto à história humana, inversamente, o primeiro olhar não foi o da ordem, mas o da desordem. A história foi concebida como uma sucessão de guerras, atentados, assassinatos, conspirações, batalhas: uma história shakespeariana, marcada pelo sound and fury. Mas veio o segundo olhar, sobretudo a partir do século passado, quando se descobrem determinismos infraestrutrurais, se procuram as leis da história, os acontecimentos se tornam epifenomenais, e, muito curiosamente, desde o século passado, as ciências antropossociais, cujo objetivo é, todavia, extremamente aleatório, esforçam-se por reduzir a aleatoriedade e a desordem, estabelecendo ou julgando estabelecer, determinismos econômicos, demográficos, sociológicos. No limite, Durkheim e Halbwacks reduzem o suicídio – aparentemente o ato mais contingente e mais singular – a determinações socioculturais. Mas é impossível, tanto do domínio do conhecimento do mundo natural como no conhecimento do mundo histórico ou social, reduzir nossa visão quer à desordem, quer à ordem. Historicamente, a concepção do tolo shakespeariano (quer dizer: life is a tale, told by an idiot, full of sound and fury signifying nothing) não é tola – revela uma verdade da história. Em contrapartida, a visão de uma história inteligente, isto é, de uma história que obedece a leis racionais, essa sim torna-se tola. Temos, portanto, tanto na história como na vida, de conceber as errâncias, os desvios, os desperdícios, as perdas, os aniquilamentos, e não apenas as riquezas, como também não só de vida, mas de saber, de saber fazer, de talentos, de sabedoria. Problema duplo por toda parte: o da necessária e difícil mistura, confrontação, da ordem e da desordem. O desenvolvimento de todas as ciências naturais fez-se, desde meados do século passado, por meio da destruição do antigo determinismo e no confrontamento da difícil relação ordem e desordem. As ciências naturais descobrem e tentam integrar aleatoriedade e desordem, quando eram deterministas a princípio e por postulado, enquanto, mais complexas por seus objetos, mas mais atrasadas em sua concepção de cientificidade, as ciências humanas tentavam expulsar a desordem. A necessidade de pensar conjuntamente, em sua complementaridade, sua concorrência e seu antagonismo, as noções de ordem e desordem levantam exatamente a questão de pensar a complexidade da realidade física, biológica e humana. A meu ver, para isso é necessário conceber um quarto e novo olhar, dirigido para o nosso olhar, como muito bem disse Heinz von Foerster. Temos de olhar para o modo como concebemos a ordem e para nós mesmos, olhando para o mundo, isto é, incluir-nos em nossa visão do mundo. (Extraído da obra Ciência com consciência, de Edgar Morin. Rio, Bertrand Brasil, 1990. pp. 175-177)

Resposta do Adail:
Citando Morin: "A necessidade de pensar conjuntamente, em sua complementaridade, sua concorrência e seu antagonismo, as noções de ordem e desordem levantam exatamente a questão de pensar a complexidade da realidade física, biológica e humana. A meu ver, para isso é necessário conceber um quarto e novo olhar, dirigido para o nosso olhar, como muito bem disse Heinz von Foerster. Temos de olhar para o modo como concebemos a ordem e para nós mesmos, olhando para o mundo, isto é, incluir-nos em nossa visão do mundo." Bakhtin concordaria em gênero, número, grau, desinência etc. A realidade é física, biológica e humana; é, repetindo Wallerstein, um sistema (ordem) histórico (desordem). Não por acaso, Bakhtin foi materialista dialético e religioso.


Resposta do Roberto:

Prof. Marcondes,
Obrigado pelo interessante artigo a nos lembrar dos ciclos da natureza. Estrelas nascem, amadurecem, morrem e explodem, espécies biológicas entram em extinção, outras se adaptam em ciclos modificadores e sobrevivem. O ser humano também cria espécies novas, milho transgênico cujas espigas são ricas mas os grãos das espigas são sementes pobres, fora os milhares de novas espécies de vírus de computador, excelentes instrumentos para testar a paciência de grande quantidade de pessoas. E também belezas diversas, como as orquídeas mescladas e outras, formando novas variedades de cores e aromas. Salve o progresso da natureza.
 
Abraços de Viçosa,
 Roberto
 
 
Nova mensagem do Marcondes:
TÓPICOS SOBRE O PENSAMENTO COMPLEXO (II)
 
Sobre a ordem
Sou obrigado, ainda que de forma sumária, a tentar falar sobre a ordem, conceito que não é simples nem monolítico, porque a noção de ordem ultrapassa, por sua riqueza e a variedade de suas formas, o antigo determinismo, concebedor da ordem sob o aspecto único de lei anônima, impessoal e suprema, regendo todas as coisas do universo, lei que, por isso constituía a verdade deste universo. Existe, na noção de ordem, não só a idéia da lei do determinismo, mas também a idéia de determinação, ou seja, de coação, noção que, a meu ver, é mais radical ou fundamental do que a idéia de lei. Mas também há, na idéia de ordem, eventual ou diversamente, as idéias de estabilidade, constância, regularidade, repetição; há a idéia de estrutura; em outras palavras, o conceito de ordem ultrapassa, de longe, o antigo conceito de lei. Isso significa que a ordem se complexificou. E como se complexificou? Em primeiro lugar, há várias formas de ordem. Em segundo lugar, a ordem já não é anônima e geral, mas está ligada a singularidades; sua própria universalidade é singular, porque nosso universo é, doravante, concebido como universo singular, com nascimento e desenvolvimento singulares, e aquilo a que podemos chamar de ordem é fruto de coações singulares, próprias deste universo. Por outro lado, sabemos muito bem que aquilo de denominamos a ordem viva está ligado a seres vivos singulares, e as espécies vivas aparecem-nos como produtoras/reprodutoras de singularidades. Portanto, a ordem já não é antinômica da singularidade, e essa nova ordem desfaz a antiga concepção que afirmava: só há ciência do geral. Enfim, hoje, a ordem está ligada à idéia de interações. De fato, as grandes leis da natureza tornaram-se leis de interação, ou seja, não podem operar se não houver corpos que interatuem; portanto, essas leis dependem das interações, que, por sua vez, dependem dessas leis. Mas, sobretudo, vemos que, com a noção de estrutura, a idéia de ordem demanda outra, que é a idéia de organização. Na verdade, a ordem singular de um sistema pode ser concebida como a estrutura que a organiza. De fato, a idéia de sistema é a outra face da idéia de organização. Creio, portanto, que a idéia de estrutura está a meio caminho entre as idéias de ordem e de organização. A organização, entretanto, não pode ser reduzida à ordem, embora a comporte e a produza. Uma organização constitui e mantém um conjunto ou “todo” não redutível às partes, porque dispõe de qualidades emergentes e de coações próprias, e comporta retroação das qualidades emergentes do “todo” sobre as partes. Por isso, as organizações podem estabelecer suas próprias constâncias: é o caso das organizações ativas, das máquinas, das auto-organizações, enfim, dos seres vivos; podem estabelecer sua regulação e produzir suas estabilidades. Portanto, as organizações produzem ordem, sendo co-produzidas por princípios de ordem, e isso é verdadeiro para tudo aquilo que é organização no universo: núcleos, átomos, estrelas, seres vivos. São organizações específicas que produzem sua constância, sua regularidade, sua estabilidade, suas qualidades etc. Assim, a idéia enriquecida de ordem não só não dissolve a idéia de organização, mas também nos convida a reconhecê-la. Enfim, a idéia enriquecida de ordem demanda o diálogo com a idéia de desordem; foi, efetivamente, o que se passou com o desenvolvimento das estatísticas e dos diversos métodos de cálculo que levam em conta a aleatoriedade. Voltarei a abordar esse assunto. O que quero dizer, para concluir este sucinto catálogo dos componentes diversos da idéia da ordem, é que a idéia enriquecida de ordem, que recorre às idéias de interação e de organização, que não pode expulsar a desordem, é muito mais rica, efetivamente, do que a idéia do determinismo. Complexificação e relativização andam juntas. Já não existe ordem absoluta, incondicional e eterna, não só no plano biológico, porque sabemos que a ordem biológica nasceu há dois ou três mil milhões de anos neste planeta, e morrerá mais cedo ou mais tarde, mas também no universo estelar, galáctico e cósmico. (Extraído do livro Ciência com consciência, de Edgar Morin. Rio, Bertrand Brasil, 2005. pp. 197-199) Marcondes

Mensagem do Vagner, iniciando a discussão sobre a complexidade:

Muito já conversamos sobre a transformação da língua. Inclusive isso foi motivo de calorosos debates (“a linguagem neotelegráfica dos jovens” era o nome de um dos tópicos polêmicos). Eu não teria tocado novamente no assunto se não estivesse hoje vendo o assunto por outro ângulo. Que a língua se transforma, todos sabemos, mas minha questão agora é outra. Não é o caso de criticar o uso de práticas lingüísticas particulares, em comunidades restritas ou não. Também não é o caso de adequação à situação comunicativa. Não é o caso de criticar a escola, já que não propomos algo efetivo. Não é o caso de buscar justificativas para toda e qualquer mudança lingüística a partir do próprio sistema lingüístico (hoje tenho plena convicção da interação sistêmica: mudanças ocorridas num sistema, como a língua, decorrem de uma série de interferências de sistemas de diferentes naturezas). Não é, tampouco, o caso de tentar impor a via lingüística única. É simplesmente o caso de tentar entender o motivo de alguns indivíduos não conseguirem decifrar seus próprios escritos. O que significariam “aspx td bein”, “maxi qUiza”, “nujm gto”? Os colegas do autor não sabem dizer; o próprio autor não sabe dizer. E há vários casos desses. A lingüística sozinha (ou outra disciplina sozinha) não explicará. A filosofia do “viver o presente” foi deturpada ao ponto de que em muitos casos a ação visa esgotar-se em si mesma, não projetando o futuro, não respeitando o passado. Já ouvi: “Que bom seria se tivéssemos um super-computador portátil que tivesse em sua memória todas as informações! Não precisaríamos mais estudar, bastaria que acessássemos um arquivo!”. A idéia de um conhecimento “contido” num indivíduo é ruim, mas a de um conhecimento desvinculado dos indivíduos, um conhecimento “acessável”, é pior. A “desmaterialização”, a “virtualização” são temas do momento, e demorei para entender que não são apenas modismos. Os que nos criamos em outra filosofia consideramos o conceito de “duração”, que se vê hoje transformado. E aqui vai o meu manifesto por um pensamento sistêmico, por um pensamento complexo. Não conseguiremos entender as transformações da língua procurando justificativas exclusivamente no sistema lingüístico. Abraços, Vagner Muniz


“Provocação” do Vagner

Colegas, Para a nossa reflexão: Qual a relação entre conhecimento e previsão? É certo que se conheço posso fazer previsões? É certo que se faço previsões é sinal de que conheço? Abraços, Vagner

Resposta do Adail:

Provoquemos a partir disso. Uma possibilidade de pensar isso é: racionalistas e empiristas, p. ex., deblateraram muito a esse respeito. Cada um defendia um tipo de conhecimento: o apriori e o a posteriori. O primeiro é o reino das proposições dedutivas, que partem de hipóteses, e o segundo das indutivas, que partem da observação. Kant demonstrou que um mesmo "evento" pode ser objeto de uma explicação a priori ou a posteriori e, portanto, os dois modos não são mutuamente excludentes: a observação leva a hipóteses e as hipóteses orientam a observação. Assim, o conhecer em si já é complexo. Teoricamente, quando se conhece uma dada conduta, pode-se prever que, dadas as mesmas condições (embora esse "mesmas" possa ser problemático), o mesmo "evento" vai se repetir da "mesma" maneira. Ocorre que nem sempre isso acontece, o que implica haver graus de previsibilidade. Um sistema aberto funciona de modo distinto de um sistema fechado, e a previsibilidade varia, sendo maior nos sistemas fechados. Mas estes tendem à entropia e, quando não mudam, perecem. Portanto, conhecimento e previsão têm uma relação problemática, porque dependem da definição de "mesmo". Podemos prever que o sol sempre vai surgir, mas não podemos ter certeza de que não vai explodir hoje mesmo. A pretensão das ciências exatas de poder prever exatamente tudo foi derrubada por várias teorias, inclusive a das estruturas dissipativas e algumas reformulações da econometria, que, ao ter de lidar com as expectativas, ficou menos "exata". A meu ver, conhecer não implica necessariamente previsões, mas implica parâmetros de avaliação do grau de previsibilidade dos sistemas, a depender das características destes. Assim, conhecendo certos parâmetros dos textos, posso prever que certos textos em certas situações vão exibir elementos que já estiveram presentes neles, mas não dizer que só esses vão aparecer. Fazer previsões não implica necessariamente conhecer, porque as previsões podem ser baseadas num entendimento errôneo. Mas se se confirmam, seja qual for o critério, as previsões podem agregar conhecimento, porque afinal, se posso, conhecendo a árvore, "prever" seus frutos, também posso, conhecendo os frutos,"prever" a árvore. Mas há mutações genéticas imprevisíveis. E assim voltamos à primeira questão: o que são fatos? Existem na natureza, são criados pelos seres humanos, ou os dois? Se os dois, quais são de um tipo e quais de outro? Ou todos são uma confluência das duas coisas? Para mim, há fenômenos do mundo e objetos de conhecimento. Criamos este últimos examinando os primeiros a partir de critérios, de preferência bem definidos e válidos. Vemos o mundo de algum ponto de vista. E os pontos de vista não são necessariamente parciais, no sentido de tendenciosos, mas sempre são parciais, no sentido de incompletos - et pour cause. Logo, os objetos variam, mas o mundo dado, o dos fenômenos, está aí. Creio que nenhum evento se repete exatamente da mesma maneira, mas no âmbito de um núcleo básico que permite sua identificação como os mesmos no âmbito de sua irrepetibilidade. Por ora é isso.
adail, o nada breve

Resposta do Adail à questão das frases "contra fatos não há argumentos" e "não existem fatos, apenas interpretações":

Vagner, Muito bom o que você fala sobre a questão dos “fatos”! Dando razão ao que você diz, proponho que temos antes de tudo de definir "fatos" e "interpretação". Há fatos concretos, como o surgir do sol e nossa capacidade de linguagem. Contra alguns deles não há interpretação, mas já houve: um dia julgou-se que o sol girava em torno da terra, o que não era um fato mas era visto como sendo. Entra então a interpretação: há várias formas de entender nossa capacidade de linguagem, mas não há como negá-la. Assim, a. "Existem fatos, e contra alguns não se pode, no estágio atual do conhecimento, argumentar - quanto à sua existência". b. "Todo fato comporta interpretações, havendo assim argumentos contra eles - quanto ao modo de vê-los" c. "Para haver interpretações de fatos, tem de haver fatos" d. Todo fato é considerado de um dado ponto de vista, e os pontos de vista variam, mas os fatos, uma vez estabelecidos, não. e. Existem fatos, e contra alguns há argumentos; e toda interpretação de fatos reconhece a existencia de fatos Logo, são falácias as proposições: "contra fatos não há argumentos" e "não existem fatos, apenas interpretações" adail

A isso se seguiram as intervenções relativas ao pensamento complexo já postadas aqui.

Nilze Costa e Silva

 

Posso contar aqui um “causo”? 

 

 

Algumas pessoas costumam dizer que sou romântica, acho que por ser otimista, acreditar que o bem neste planeta supera o mal e que o mundo está ficando cada dia melhor, com leis mais aprimoradas, mesmo que nem sempre sejam cumpridas.

 

Reclamo sempre que os jornais nunca noticiam as grandes ações humanas em manchetes visíveis.

 

Um pequeno exemplo: vi uma nota bem pequena num cantinho de página de um jornal, noticiando que uma costureira tinha requerido a bolsa-família de seus dois filhos por estar desempregada. Dois meses após o marido lhe dá a noticia de que conseguira um empréstimo para montar a sua pequena e tão sonhada fábrica de confecções. Então a mulher dirigiu-se à Caixa Econômica e devolveu o benefício para outra mãe que precisasse mais dele.

 

Ontem meu carro caiu num buraco enorme na Av. Pontes Vieira, já perto da Assembléia Legislativa. Sob uma chuva torrencial, não havia como tirar o pneu, todo enfiado no buraco. Meu marido logo ligou para o seguro, mas não conseguia completar a ligação. Avistei um daqueles homens que coletam lixo em carroças pedi sua ajuda, em meio à torrencial chuva. Ele logo acorreu. De repente um carro estaciona do outro lado da rua. Desce um rapaz de uns 30, anos, bem vestido e pergunta pelo macaco. O César entregou e ele se abaixou, sujou as mãos de lama, molhou-se, levantou o carro e foi atrás de pedras junto com o outro homem.

 

Encheu o buraco com enormes pedras (tudo isso quase que silenciosamente) e perguntou se meu marido não preferia que ele, sendo mais magro, entrasse no carro para dar uma ré e tentar tirar o carro do buraco. Assim fez e deu tudo certo. Ao receber a chave do carro, o César estava preocupado em dar uma grana para o carroceiro, por ser mais humilde, e quando olhou para o outro, este já entrara em seu carro, onde estava também uma mulher e uma criança. Falei pro César que não desse dinheiro a ele. Não precisava. Ajudara por amor.

 

Deu pra sentir isso. Em meio a um trânsito agitado e a uma chuva torrencial, aquele homem que nó nunca vimos em nossa vida, desceu para nos ajudar a sair de um enorme buraco, sem que nós pedíssemos sua ajuda. Sujara a roupa e se molhara. Somente um grande respeito e amor ao semelhante pode te-lo movido. Quando ele entrou em seu carro, o vidro estava fechado e eu dei um grito, para que ele ouvisse: Que deus lhe pague! –

 

Ele sorriu e a esposa dele jogou um beijo pra mim. Ganhei meu dia. Passei o dia feliz, contando essa história pra todo mundo. Que maravilha é viver

 

Nilze Costa e Silva

Ricardo Marques

 

 

Conto um "causo"

(A Nilze Costa e Silva)

 

 

Tens razão, Nilze. Meu filho é escoteiro. Os colegas dele não entendem por que ele faz boas ações, e por vezes o ridicularizam por isso, sabia? Tenho tentado ensiná-lhe que não devemos nos deixar afetar pelos outros, quando os outros tentam fazer de nós piores do que somos. Por isso é tão importante se ter valores e referenciais na vida, se possível desde criança... Lamentavelmente é justo isso que tem se extinguido na sociedade atual, segundo os especialistas. A começar pela família, cada dia mais descartada como foco de boa educação e formação.

 

É curioso como muita gente já está tão distante do que é bom, que quando se faz o bem por se achar isso o normal e o natural a fazer, outros nos olham perplexos, como a dizer: "será que isso ainda existe, ou esse cara é doido?"

 

Conto um "causo", desta vez comigo e minha esposa. Ontem saímos do apartamento de minha mãe debaixo de forte chuva. No primeiro quarteirão, passou por nós um carro branco em cujo teto estava um embrulho - parecia um presente, uma caixa azul com uma fita. O embrulho despencou e caiu no meio da rua. Os do carro nada notaram e continuaram sua trajetória.

 

De imediato, parei meu carro e desci rapidamente, indo até o meio da rua para pegar o pacote. Minha esposa, que não havia visto, ficou gritando por mim, perguntando o que eu estava fazendo. Retornei ensopado para o carro e, enquanto retomava a direção, entreguei o presente à minha esposa e expliquei o que havia ocorrido.

 

Pisei fundo atrás do carro branco, fugindo completamente da minha rota, e o reencontrei mais adiante, próximo ao Hospital Gastroclínica. Eles já estavam parando e se dando conta de que esqueceram o presente sobre o carro. Foi quando demos com a mão, minha esposa desceu na chuva e lhes entregou o embrulho.

 

De dentro do carro, o casal nos fitou com olhar de perplexidade e um "obrigado" quase não saía. Foi então que ambos puseram a cabeça na janela e começaram a agradecer repetidamente, dizendo "como é que ainda tem gente assim hoje em dia" e coisas desse tipo. Nós, que já estávamos de volta em nosso carro, tentamos "cortá-los" dizendo apenas "nada demais!" e "Deus os abençoe". E fomos saindo.

 

Eles nos seguiram por vários quarteirões, e em cada sinal que parávamos, abriam o vidro lateral e gritavam: "obrigado mesmo! Brigadão!". Nós apenas sorríamos e fazíamos sinal de "legal!".

 

Meu filho de 10 anos, que estava no banco de trás, perguntou: "pai, porque eles estão agradecendo tanto? A gente só deu a eles o presente que eles deixaram cair"... Eu e Ana Carmem respondemos: "pois é, filho, as pessoas estão tão impregnadas com o egoísmo e a falta de consideração por parte dos outros que se admiram quando agimos certo"...

 

Quisera eu que o Brasil tivesse muitos cidadãos como o meu filho mais velho, que, já sei, saberá ser diferente, fazer o que é bom e certo, independente das circunstâncias. Já posso morrer tranqüilo. Deixo um bom legado ao meu país: um bom cidadão. Quero que ele reproduza essa forma de pensar e de agir, multiplique-a...

 

(Por Ricardo Marques)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

PARA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI ...

 

Jean Kleber Mattos (UnB)

 

 

Busco no Ethos-Paidéia uma foto referida como ilustrativa de importante matéria sobre o pensamento complexo. Encontro-a afinal. Gosto dela.

 

A foto mostra um campo de girassóis de rara beleza ao lado de comentário de professor Roberto Mueller sobre os ciclos da natureza. Nele, um ser humano examina uma inflorescência. Um pesquisador? Um melhorista genético comemorando o desempenho de uma nova cultivar? Talvez. E que tal um mortal comum, apenas internado na embriaguez flava do campo? O homem tem um turbante e barba. Lembra Osama Bin Laden. Um Osama desarmado? Um “outro” Osama? Esperança.

 

Na verdade, sabemos que a impressão que temos ao ver uma foto ou um quadro já existe na memória. O girassol tem a fama de postar-se sempre de frente para o sol e para isso moveria sua cabeça coroada. É uma alegoria. Incas, sim, adoravam o sol, assim como outros povos da América Pré-Colombiana. Um campo de girassol causa forte impacto pela cor amarela, estimulante. Cada pessoa relata uma impressão diferente. Para mim parece um desfile de crianças com rostinhos redondos.

 

Ao ver a foto assomou-me à mente uma obra de arte que vi no cinema quando jovem. Se procurarmos uma breve sinopse do grande filme “Os Girassóis da Rússia” dirigido pelo grande Vittorio de Sica e protagonizado por dois monstros do cinema tais como Sophia Loren e Marcello Mastroianni, lá encontraremos apenas: “uma mulher luta para refazer sua vida após descobrir que seu marido, soldado desaparecido durante a Segunda Guerra Mundial, está vivendo uma nova vida na Rússia. Ela parte à procura do marido, atravessando os campos de girassóis”.O comentarista encerra dizendo: “a música de Henry Mancini ainda soa em meus ouvidos”. Música, aliás, que concorreu ao Oscar.

 

O que uma breve sinopse não tem espaço para dizer, é que os campos de girassóis lá referidos são uma belíssima alegoria do renascimento e da esperança. O narrador comenta que as gigantescas plantações de girassol cresceram sobre os campos onde jaziam milhares de cadáveres dos soldados russos abatidos pela guerra. Uma jovem viúva russa encontra um soldado italiano à morte. É o inimigo. Aquele povo matou seu marido. Ela o arrasta para dentro de casa. Trata dele e o salva da morte. Recuperado e grato, ou apaixonado, ele torna-se seu marido. Prêmio para ela que perdera o marido. Perda para a noiva italiana que assim perdia definitivamente seu marido herói.

 

Girassóis que crescem sobre campos de batalha representam a superação da morte. A superação do caos da guerra com o ressurgir da luz. Do amor entre inimigos. Da retomada da existência, mesmo para a noiva perdedora, que na história terá um braço amigo a apoiá-la. Italiano, é claro. E que melhor planta para simbolizar tudo isso senão o girassol com a sua embriaguez amarela?

 

 

 

Pentecoste

Tempos do caos produtivo

 

 

Observo a vida política a meu redor. E, como a maioria, fico enojado. Desligo a televisão e abro os livros. E, neles, desperto para o olhar mais avançado da ciência de agora: o "pensamento complexo", a nos despertar para mais otimismo. Hoje, os cientistas pautam-se por três olhares. De início, o da desordem e do acaso. Depois, o da ordem. Por fim, a descoberta de que o mundo se organiza ... desintegrando-se. Assim, os astros, a natureza, a vida social, a arte, a política até. Estrelas nascendo, morrendo, desintegrando-se. Nada a se perder e tudo a se transformar. Aí, as revoluções, os terremotos, os conflito.

 

No País, persegue-nos a visão estreita do "udenismo". De tamancos, quando estamos por baixo; de salto alto, quando no poder, como nos lembrava Brizola. Isso sem que percebamos, quando no chão, o apelo da lama. Ou os horizontes, ao pisar os tapetes do poder. Em nossa bandeira, lá deixamos o lema "ordem e progresso", sem atentar para o perigo de uma ordem como estagnação ou falta de liberdade. E, cegos, esquecemo-nos, quase sempre, de que a desordem pode ser inquietação e clamor por inclusão social dos muitos.

 

Nos anos 80, o País e particularmente o Ceará, celebramos um amplo pacto, que hoje requer seja revisto. Mas não a solitária revisão do "rearmamento moral" da reeditada "UDN" de outrora. Hoje, é tempo do diálogo e do abraço entre as feições produtivas da ordem e da desordem. Ordem não como "estagnação". E o olhar da desordem como tsunamis a portar avisos.

 

Chegamos ao fim de um ciclo e à necessidade de novo pacto. Em fragmentos, a sociedade nos dá um recado: o de que a "torre de Babel" pode se converter em cena pentecostal, onde as dissonâncias se orquestrem em harmonia, na reedição do "caos produtivo" da mitologia antiga e, hoje, do "pensamento complexo".

 

 

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual (UECe)


 

.

 

Rio Jaguaribe (Ceará)

O MENINO E SUAS LEMBRANÇAS

 

 

Era uma madrugada de muita chuva. O Rio Jaguaribe estava de “barriga cheia”. De barreira a barreira, como diz o matuto que labuta no chão dessa “Terra Severina”. De repente, o grito de dor corta a madrugada em casa humilde. É o suplício de uma jovem mãe pedindo ao marido para buscar a parteira porque a hora chegou, chegou a hora de botar no mundo mais um menino, fruto das horas carnais e do descanso de um longo dia de trabalho, na enxada e no cercado,  transformando suor em pão para os filhos.

 

Quando a parteira chegou, depois de atravessar o Rio Jaguaribe em uma pequena canoa, lá pelas últimas horas da madrugada, a criança já tinha vindo ao mundo. Era um belo menino, o quinto filho desse jovem casal. E os tempos passaram e ele foi crescendom, e tinha um amor muito grande pelas coisas de sua terra e de sua comunidade.

 

Ele passava horas e horas com os animais, paquerando com as árvores da região, principalmente com as altas e robustas carnaubeiras, esperando a hora em que o vento as sacudia e derrubava os seus frutos pelo chão. Quando pipocava um fruto no chão barrento, havia uma disputa entre o menino e os porcos, e o barrigudinho levava sempre a melhor.

 

 No rio, era uma piaba.  Sempre acompanhava o pai e os jumentos para buscar água no rio, que ficava distante cinco quilômetros. De manhã, quando o pai acordava bem cedinho para tirar leite das vacas no curral, ele já estava acordado, e forçosamente tinha que o levar consigo em cima dos ombros, em meio a um frio de rachar os queixos. As noites eram longas e, às vezes, o sono demorava vir pelas assombrações imaginativas de sua mente.

 

Gostava, desde cedo, de  ouvir as conversas jogadas fora dos amigos de seus pais, na bodega que ficava ao lado da casa. O menino ficava de queixo caído de tanto ouvir as histórias mirabolantes do seu Moreirinham na boquinha da noite. Ele ainda se lembra de uma pequena história em que um homem chupou 40 mangas e depois foi para casa comer uma panelada. É claro que ninguém acreditou, mas não havia cristão do mundo, por aquelas paragens, que ousasse duvidar das histórias de seu Moreirinha. Ninguém podia rir e todos permaneciam caladosm horas a fios ouvindo o seu Moreirinha, inclusive o menino.

 

O tempo passou e a família foi embora para a cidade grande, deixando para trás os sonhos, a vida no campo, o rio, os animais, o cheio do pó da carnaúba, o cheiro do curral e dos animais e só ficaram as lembranças. Lembranças de um tempo bom, de fartura, do banho de rio, das brincadeiras, das noites frias e assustadoras.

 

Na cidade grande, o menino viu um novo mundo: dos carros de um lado para outro da rua, as pessoas andando apressadas pela rua. Logo foi matriculado na escola mais próxima de sua cidade no jardim de infância. E o menino pensou: que tempo maravilhoso aquele de minha vida. "Foi um rio que passou em minha vida"...

 

As imagens que estão na mente desse menino: o rio, a sua casa, a chuva caindo na calçada da casa, o palheiro onde seu pai plantava, a casa de fazer cera de carnaúba com a sua prensa, a varanda onde os amigos de seu pai contava histórias, as carnaubeiras, as noites assustadoras e longas.

 

  

AS IMAGENS

 

 

O rio era muito bonito, com águas claras e transparentes. De noite, o sol morre por detrás de suas águas. O menino relata os momentos em que, muitas vezes, viu o sol desaparecer por trás das águas do rio, dos montes e das carnaubeiras. O momento era de contemplação para ouvir o rio falar de suas corredeiras.

 

Em uma linda manhã, cai uma chuva grossam que rapidamente lava a calçada de sua varanda. Olha para o céu cortado pelas rajadas de vento frio e fica imóvel a olhar a água tomando conta da terra. De repente, põe a mão para fora do alpendre para sentir, em suas mãos, o líquido precioso que semeia a vida. No relato do menino, podemos imaginar a sinfonia da chuva ao bater nas folhas das carnaubeiras, no telhado de sua casa, no chão formando as poças de água. De vez em quando, as trovoadas tomam conta do cenário inundando a alma daquele pequenino ser de sentimentos ora de pavor, ora de admiração pela mãe natureza.

 

 

Mas as carnaubeiras estão lá majestosas, lindas, impávidas e senhoras do sertão. O menino olha para os seus cachos de frutos toda manhã, esperando que elas delicadamente os joguem no chão pela força do vento. Nesse relato, podemos imaginar o lindo som vindo das folhas das carnaubeiras açoitadas incansavelmente pelo vento. Mas o que seria dessas árvores se não fossem os ventos que semeiam suas sementes pelo solo ora escaldado pelo sol impiedoso, ora encharcado pela chuva. O sertão fala, o sertão chora. O homem cala para ouvi-lo.

 

No relato, as noites na comunidade do menino não começam nas estórias, nos contos de casos dos amigos dos seus pais, mas ao mesmo tempo são assombradas. O sono demora a aparecer. Podemos imaginar o silencio da noite cortado pelo som de diversos animais (cachorro, gato, sapo e pererecas e aves noturnas).  De repente a noite é cortada pelo som de bombas soltadas por alguns moradores para assustar bichos como raposas que vêm saciar a sua fome com as galinhas . 

 

No relato a varanda do alpendre da casa do menino é o encontro dos amigos de seus pais para em noite enluarada jogar conversa fiada. Conversas de histórias que tocam o seu imaginário e permanece em sua mente durante boa parte de sua vida. Imaginário aqui nos leva pelo relato do menino o silêncio da noite sendo invadido pelas risadas, pelas vozes humanas falando de coisas, contando coisas, inventando coisas. Aqui o sertão cala para ouvir os homens e menino o acompanha de queixo caído para ouvir a seriedade dos contos históricos do seu Moreirinha.

 

 

INFERÊNCIAS

 

Realmente, quando nos deparamos para produzir algo, a coisa parece ser difícil. Ainda não estamos acostumados e a maioria das escolas ainda não tem a cultura tecnológica para produzir alguma coisa. Além do mais, o desafio de utilizar o vídeo como função de expressão para expressar nossas idéias por meio da linguagem audiovisual é enorme e demanda tempo. Ainda não temos as devidas tecnologias a nossa disposição e preparo para tal. Construir também requer mudança de atitudes perante e novas concepções de educação. O paradigma das cópias e dos modelos de reprodução acrítico dos conteúdos ainda está impregnado em nossas mentes.

 

O de que mais gostei foi me colocar na condição de aprendiz, de pensar sobre educação e TICS, de produzir, embora o texto demande melhor organização textual. Não é possível gravar os sons, mas fiquei imaginando como essa atividade seria interessante para os estudantes (os sons das carnaubeiras, do rio, dos animais noturnos, da chuva, etc). Seria uma produção e tanto dos meninos cumprimentando-se com as imagens produzidas em desenhos, pinturas através dos vídeos.  No final, ao juntarem-se imagens aos sons não teria dúvida de que nossos alunos estariam produzindo novos significados.

 

Portanto, a concretude dessa atividade poderia ajudar  bastante o professor a compreender e motivar-se para a possibilidade de utilizar o vídeo como função de expressar sentimentos e produzir conhecimentos. A questão que persegue ainda é transformar em imagens e sons  a história “O menino e suas lembranças”, na qual palavras, sentimentos, imagens se integrassem. Mas achei muito interessante a leitura da dessa etapa 03 - A TV e a educação  - A TV fala da vida, do presente, dos problemas afetivos, a fala da escola é muito distante e intelectualizada - e fala de forma impactante e sedutora - a escola, em geral, é mais cansativa, concorda? – que  trata da produção audiovisual com crianças, adolescentes e jovens.

 

Neste sentido, pude perceber que projetar este tipo de situação pedagógica é um grande desafio, correr riscos, atravessar um período de instabilidade, onde crianças e jovens possam ser mais do que telespectadores, mas produtores audiovisuais. Portanto e de acordo com as leituras do curso, etapa 03, a educação escolar precisa compreender e incorporar mais as novas linguagens, desvendar os seus códigos, dominar as possibilidades de expressão e as possíveis manipulações. É importante educar para usos democráticos, mais progressistas e participativos das tecnologias, que facilitem a evolução dos indivíduos e a formação de cidadãos responsáveis.

 

(Tópicos  da "Etapa 03 – Vídeo e TV na Escola, Produção de Vídeo".

Por Luís Moreira de Oliveira Filho)

 



 

 

 

 

Mulhermar (Nilze Costa e Silva)

00:05 @ 21/05/2006

Lagoinha (Ce)

 

MULHERMAR

 


Amanheço, acordo
Desperto em Lagoinha
Durmo, alvoreço
Me enlevo, transpareço
Abro os olhos e sonho

Menina e mulher, mulhermar
Ando sobre dunas quentes
Que me queimam os pés
Choro ondas
Retorno à infância

Iracema menina
Lagoinha mulher
Os quatro cantos de minhas paredes
São rodeadas de mar
Meus cabelos são algas marinhas
Quando durmo e me banho de luar

Lagoinha me toma e me abraça
Me invade e me alaga
Me torna lua
Solitária e nua.

 

(Nilze Costa e Silva)

 

 

 

Concha Acústica (Reitoria da UFC)

 

UNIVERSIDADE PÚBLICA

 

Nos Centros de Ciências Exatas, investidos pelo poder do cetro da Técnica, a arrogância pessoal chega a extremos e nos Centros de Humanidades, o que se percebe, a cada dia, são provas de desumanidade··.


Cellina Rodrigues Muniz

O Povo - [27 Maio 17h58min 2006]



É lamentável que o grande lema que mobilizou inúmeras manifestações estudantis e greves docentes em prol da Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade esteja se tornando cada vez mais vazio. Um simples jargão discursivo pouco efetivado na prática e que, infelizmente, parece estar fadado ao esquecimento.

 

O que mais assusta nisso tudo não é saber que a decadência da Universidade segue uma imposição de ordem econômica e política mundial: com a crise do capital, é normal que tudo se torne mercadoria, inclusive o saber. Sim, é tristemente normal, que a indústria do vestibular seja legitimada por todos e o acesso aos bancos universitários seja cada vez mais uma questão de posse: só quem pode pagar por uma educação supostamente de qualidade pode entrar na Universidade e é incrível que o próprio Governo reconheça isso, financiando vagas em faculdades particulares para alunos de escola pública.

 

Também é normal, infelizmente, que a maioria do quadro de professores das universidades seja composta pelos chamados professores substitutos, que de fato, não estão substituindo ninguém e sim ocupando uma vaga ociosa, por prazo determinado, a ser novamente ocupada por outro substituto, após dois anos sem direito a carteira assinada e FGTS. É tristemente normal porque David Harvey, há quinze anos, já falava sobre a chamada "acumulação flexível", que, com o sistema neoliberal, veio impor contratos de trabalho mais "flexíveis": na verdade, essas novas relações trabalhistas (de contrato temporário) apenas dissimulam o problema do desemprego. Para citar apenas esses dois exemplos, fica claro que a Universidade segue um paradigma de conjuntura global. Mas o que mais aflige é a intensidade com que os acadêmicos reproduzem essa ordem.

 

A conivência e a participação dos próprios professores contribuem para torná-la mais elitista, menos acessível e um centro de formação de incompetentes. As briguinhas entre facções de departamentos para ver que linhas de pesquisa captam mais recursos, as pretensas exigências de produtividade centradas em publicação e o quase nenhum comprometimento com atividades de graduação e extensão refletem o nível absurdo de competitividade do mundo pós-moderno, além da vaidade desses sujeitos do saber.

 

Nos Centros de Ciências Exatas, investidos pelo poder do cetro da Técnica (como diria Pierre Bourdieu), a arrogância pessoal chega a extremos e nos Centros de Humanidades, o que se percebe, a cada dia, são provas de desumanidade, tal como em casos de professores de cursos de especialização (pagos) que, sem respeito pelas histórias pessoais dos alunos ou por sua aprendizagem, se assumem como exclusivos burocratas, demonstrando mais interesse pelos boletos bancários de pagamento do que pela presença nas aulas e apresentação de trabalhos de disciplina...

 

O que fazer diante disso tudo e do que não foi citado, mas que muitos conhecem? A reflexão crítica, através do questionamento dessas e outras "normalidades", e a organização social articulada com a atuação pessoal direta de docentes e discentes no cotidiano da Universidade, talvez ainda possam reverter o vazio em que se transforma o discurso pelo ensino público, gratuito e de qualidade e revigorá-lo como bandeira de luta pela igualdade, dentro e fora das salas de aula.

 

CELLINA RODRIGUES MUNIZ é licenciada em Letras e mestre em Lingüística. Ex-professora substituta do Departamento de Letras Vernáculas da UFC e professora substituta do Departamento de Língua Portuguesa da Uece.