Grupos

Luciana Dummar

 

ÍNTEGRA DO DISCURSO DE LUCIANA DUMMAR         

O Povo 01/05/2008 

        Em meio a tantos rostos conhecidos, cheios de afeto, de cálida emoção e solidariedade, estou a vontade para expressar, em meu nome, em nome da família Rocha Dummar e da família

        O POVO, a gratidão pelo apreço, amizade, devoção, carinho e respeito à memória de meu pai, tão merecedor deles.

        Nada mais apropriado do que esta Casa de Deus para abrigar este ato de celebração espiritual. Neste mesmo espaço, já pudemos ouvir meu pai expressar o quanto a Espiritualidade é o substrato profundo que dá ao O POVO o esteio seguro para manter sua identidade. Foi essa espiritualidade que se tornou um ponto de encontro para todos os que se sentem atraídos pelo apelo da vida, do amor, da justiça e da beleza que irradiam do Criador.

        Falar de meu pai, Demócrito Dummar, é falar do O POVO, pois o jornal era a sua própria vida. O jornal O POVO foi o tesouro que arrebatou o coração terno e apaixonado de meu pai. Foi nele que depositou todas as suas energias, cada gota de suor e cada noite indormida, mas que também lhe deu as maiores alegrias e que fazia brilhar os seus olhos sempre que descobria uma nova idéia ou às vezes por uma simples palavra, que escondia uma sutileza que somente ele conseguia ver.

        Portanto, foi para este jornal - no qual sobrevive o espírito do fundador Demócrito Rocha e de todos que o sucederam - que Demócrito Dummar viveu e morreu.

        Hoje, no entanto, é um dia dedicado à vida. De meu pai, que renasce no Absoluto, e do jornal, que foi a razão de sua existência. Pois esta é a data do início de um grande movimento, que vai marcar os próximos 80 anos do

        O POVO, com a determinação, a coragem e a ousadia que sempre caracterizaram esta Casa e os que nela trabalham.

        Pois o jornal transcende as pessoas, mesmo as mais importantes, como foi o seu fundador, Demócrito Rocha, como foi minha avó Albanisa, assim como transcenderá o meu pai. Transcende porque, como ele mesmo costumava dizer, uma empresa jornalística se distingue de qualquer outra, pois ela produz um bem imaterial. Cabe à imprensa animar o debate de idéias, e era isso que o meu pai fazia de forma incomparável. O POVO é uma comunidade, portanto, não nos pertence, é uma apropriação de todo o Ceará - das atuais gerações e das que ainda virão. E é essa força que nos impulsiona rumo ao futuro.

        Em um dos discursos que meu pai fez agradecendo as homenagens pelos 80 anos do O POVO, ele se dirigiu ao que ele chamava de “quarta geração de sucessores”, eu e meus irmãos. Ele disse ter a certeza e confiança que nós manteríamos a chama inaugural e que a levaríamos à frente. Nós não vamos faltar à confiança depositada em nós, tão generosamente.

        A mim cabe o papel de guardiã desse legado, e não vou abd icar dele de modo algum. Tenho a força de uma guerreira e vou usá-la como nunca. Nenhuma dificuldade me fará recuar. Esse é o meu compromisso inarredável, esta será a razão da minha vida. Ao jornal vou dedicar todas as minhas forças físicas e espirituais, vocês podem ter certeza absoluta disso. E, como sempre, conto com o apoio decidido e leal de todos aqueles que fazem O POVO.

        Conto com os meus irmãos e com nossa família, sempre tão unida. E conto com Wânia, que, nestes 30 anos, amou meu pai e nos ensinou um tipo de amor que nos inspirou.

        Já enfrentamos momentos difíceis, com a perda de pessoas fundamentais para este jornal - a partir de seu fundador, Demócrito Rocha. Passamos por dificuldades de toda ordem ao longo de nossa história.

        Superamos tudo, e saímos sempre mais fortes. Nada nos abateu antes, nada vai nos envergar agora. Este jornal vai continuar a escrever a sua própria história, que se confunde com a história do Ceará e com seu espírito libertário, com independência e credibilidade, como sempre fez nesses oitenta anos de
sua existência.

        Ainda que a dor seja insuportável, fazer menos seria trair a memória de meu pai, seria trair as tradições do O POVO, uma instituição com uma longa história de serviços
em defesa do Ceará.

        Papai
tinha 40 anos quando assumiu O POVO, a idade que eu tenho hoje. Quero terminar lembrando a mesma frase que ele disse, depois da morte de minha avó Albanisa: “Eu tinha de caminhar na selva sozinho, mas sabia a direção da nossa tribo”. Assim como ele, nós também sabemos qual é a nossa direção.

 

 

Escritora Joyce Cavalccante

 

PEQUENAS IRACEMAS

 

Para Cristina Sampaio Façanha,

 com amor e admiração.

 

 

Ventres perambulantes se distribuem ao longo de toda orla marítima. Meninas a mercê dos desejos masculinos. Barriguinhas planas atraindo carícias. Pélvis, arrepios, vontade de alisar, passar a mão por cima, pegar. Cobiçar cinturas submissas. Dedilhar. Introduzir-se pelo cós das saias, minissaias. Descer até o osso sacro. Ter consciência da brisa salgada, comendo pipocas.

 

São de açúcar tostado aqueles corpos esbeltos que passeiam seminus. O cheiro das frutas amarelas se espalha, enquanto elas correm, riem e se escondem.

 

Todas com quase nada de roupa: saiotes, shortinhos, tangas. Tecidos fluidos. Vestidas exatamente como no começo de tudo.

 

Antigamente e ainda hoje, brotam estrangeiros do mar para celebrar a mistura entre as cores dos homens feitos e das meninas inacabadas.

 

Bocas vermelhas. Unhas compridas. As adolescentes de baunilha brincam de não querer, embora devam querer, pois não têm opção. Precisam conseguir seus programas enquanto é ainda entre o meio-dia e a meia-noite. Da praia um eco vibrante as fustiga:

 

Iracema.

 

 

Ceminha é filha de Irene que, enquanto vivia, coitada, tinha uma banca de tapioca na estrada que vai pra lagoa de Porangaba, a chamada lagoa da beleza. A menina se banhava lá todos os dias, acreditando no poder mágico das águas. Mas agora, que sua mãe acabou de morrer, tudo mudou.  Ficou sem ter para onde ir.

 

Por não ter para onde ir, ela foi morar  com o único parente que lhe deu abrigo, um tio. Tio Poti era motorista de táxi e ganhava muito dinheiro. Residia numa casinha bem ajeitada lá para as bandas do Mucuripe e nunca se casou porque passava o tempo levando e trazendo gringos pra cima e pra baixo. Ia buscá-los no aeroporto, hospedava-os nas pousadas e deles ficava cuidando até a hora de irem embora. A maioria gostava tanto do tratamento que, quando voltavam, ou então mandavam um amigo, não queriam ouvir falar de outra coisa que não fosse desses cuidados.

 

Era pra Ceminha cuidar da casa e da comida do tio, mas ela era um desastre para essas coisas. Bagunçava tudo e cozinhava mal e porcamente. Também, ele nunca parava em casa. Por isso ela ficava por ali vendo televisão, mexendo numa coisa e outra, falando com as vizinhas, com a cara na janela cubando o movimento. Nunca saia porque não tinha dinheiro pra pegar um ônibus que fosse. Tinha vergonha de pedir qualquer coisa ao tio, que já fazia o grande favor de deixá-la ficar ali. Comida não faltava, faltava só o que fazer.

 

Tio Poti era simpático, bonachão e parecia lhe querer bem. Olhava para ela de um jeito interessado, nos poucos momentos em que passava em casa. Mal conversavam. Um dia desses, chegou a dizer:

 

— Minha filha, venha cá.

 

E ela foi.

 

Ele suspirou alto e acariciou seu braço magrinho. Olhou para ela e sorriu para aqueles olhos espantados, arrodeados de cílios compridos iguais aos de uma boneca. Fez com que ela sentasse junto dele enquanto ele chupava uma laranja. Depois foram dormir, cada qual no seu canto.

 

Pegaram amizade. Ele passou a aparecer mais, a ficar mais tempo descansando em casa. Desde que chegava ficava chamando por ela. Era Ceminha pra cá, Ceminha pra lá.

 

Com o tempo tio Poti começou a lhe trazer presentes. Sempre que ia ao supermercado trazia, além da comida, bombons, uma blusinha, anéis, pulseiras e fivelas da moda. Ela gostava tanto. Um dia ele trouxe até um biquíni de listras muito bonito. Pediu para ela experimentar, pois se tivesse ficado pequeno ou grande ele trocava. Ela experimentou e ele pediu pra ver, e ficou vendo tudo que queria. Ela não disse nada. Nunca disse. Até se acostumou. Sentia falta quando ele chegava em casa cansadíssimo e não fazia nenhum empenho pra ficar vendo tudinho.

 

Foi quando, num dia, ele chegou todo sorridente dizendo para ela se aprontar, porque iam sair. 

 

— Quero comprar umas roupas novas pra você, minha filha. Coisa de menina rica. Na moda. Assim como essas roupas das artistas. Essas suas daí, já estão muito batidas.

 

Ceminha não coube em si de barulhenta alegria. Já se imaginou dentro de vestes lindas, iguais as das moças da televisão. Pulava no pescoço do tio agradecendo e beijando.

 

Compraram uma sandália de salto alto. Ela nunca tinha usado qualquer coisa assim. Um saiote pregueado e bem curtinho que chegava a mostrar o fundo das calças. E uma blusa de frente única, rosa-choque. E mais roupas de baixo, calcinha e sutien, também rosa-choque. Depois compraram batom, esmalte de unhas, lápis preto para o contorno dos olhos. Pulseiras, anéis e demais bugigangas. Ela nunca tinha sido tão feliz.

 

Ao final foram tomar um sorvete. Ela pediu de um de chocolate com coco, amendoim e morango. Ele um de abacate.

 

— Minha filha, preciso de um favor seu. Você faz?

 

— Faço, tio. Mas claro que faço. Só é dizer. O que é?

 

— É que chegou um gringo. Ele tá hospedado naquela pousada de portão verde, ali em frente. É um português. Muito meu amigo, bem dizer como se fosse um irmão. Estou até fazendo uma sociedade com ele ai numa barraca, pra vender camarão frito. Ele convidou uma moça pra sair hoje a noite. Queria se divertir, num sabe? Tá de férias. Daí a tratante garantiu que ia, mas na última hora disse que não podia, coisa e tal. Veio com uma desculpa amarela e deixou o meu amigo na mão, coitado. Então eu queria lhe pedir pra sair com ele essa noite. Alegrar o coração do pobre. Você faz isso pra mim? Custa nada.

 

— Faço sim, meu tio. Nem precisa perguntar. Você também vem com a gente?

 

— Eu vou ter que trabalhar, minha filha. Vou esperar um avião que chega da França mais tarde, e levar um pessoal que vem nele até a praia da Taiba. Mas o meu amigo é gente boa. Você vai ver. Mais tarde eu passo pra te pegar. Não se preocupe. Já está tudo combinado.

 

Ela ficou meio encabulada na hora em que avistou o português. Ele era branco como leite, com os cabelos espichados. Era mais novo que seu tio e não era feio, mas também não era bonito.

 

  Muito gosto. Martim Soares Moreno.  Disse quando foram apresentados, estendendo-lhe a mão.

 

— Prazer. Murmurou tímida. Meu nome é Iracema, mas pode me chamar de Ceminha.

 

O tio se despediu e foi embora, deixando-a no quarto do desconhecido, nas mãos do desconhecido, a mercê do desconhecido, que agora olhava para ela de cima abaixo de uma maneira amedrontadora.

 

— Quer uma coca-cola? perguntou acariciando-lhe a nuca exposta.

 

  Não senhor.

 

— Pelo amor que tu tens a Deus, não me chame de senhor.

 

— Mas cê já tem cara de senhor.

 

— Quero ser seu amigo. Está bem? disse dando-lhe um beijo na boca.

 

— Está. Respondeu se fastando e limpando o cuspe dos lábios.

 

— Quer jantar?

 

— Se cê quiser.

 

— Então vamos. Depois a gente volta pra cá.

 

Ele se sentia profundamente excitado, pensando em voltar para o quarto com aquela menina que ainda não tinha sido usada. Ela se sentia levemente excitada, pensando que iriam a um lindo restaurante cheio de gente bonita.

 

Subiram mais um andar pelas escadas. O refeitório da pousada estava vazio. No mesmo minuto em que se sentaram, ele pediu apressadamente um filé com ervilhas e batatas fritas, que dividiram. Um guaraná para ela e um uísque para ele. Logo que acabaram de comer voltaram ao quarto. Ele trancou a porta e beijou, abraçou, despiu, olhou e fez o que quis. Ela não teve nem tempo de entender e quando se deu conta ele estava por cima dela, respirando alto e gemendo. Ela chorava, porque essas coisas doem.

 

— Não chores, menina. És muito bonita para chorar —  disse o português com sua fala hilária, sungando as calças, cheio de sotaques e trejeitos. — Conte-me pois, quantos anos tens?

 

— Tô dentro dos treze.

 

 

Um delicioso vento lambe as coxas das meninas barulhentas que passeiam pelas praias. A areia bege range quando seus pezinhos pisam e passeiam. Pélvis e glúteos se remexem ao compasso do andar e da música que vem do aparelho de som escandaloso de algum carro com o porta mala escancarado.

 

Todas usando biquínis minúsculos como as tangas das índias. Mostrando tudo aos conquistadores. Cobrindo só o principal. Gargalham. Andam em bandos. Contam-se o que fizeram na véspera. Falam mal da vida alheia. Uma dessas Iracemas garante que já estaria aprendendo a falar italiano.

 

— Eu vou embora com ele. Já está tudo acertado. Vou deixar essa vida. Deus é pai.

 

— Duvido. Duvido. Visivelmente despeitada, comentou Ceminha.

 

— Você esquece que é de menor e que de menor não viaja sem licença dos pais. Avisou a maior de todas.

 

— E nem pais você tem pra dar licença. Debochou uma outra.

 

— Deixa de ser burra, Iracema.

 

— Iracema não. Flávia.

 

— Só se for. Está bem. Flávia, já que você quer assim.

 

— Nome de guerra é nome de guerra.

 

— Eu nem posso imaginar quando eu estiver lá na Itália, pisando na neve, usando aqueles casacos lindos, pretos. Vou pintar meu cabelo de louro.

 

— Isso se você conseguisse, pelo menos, entrar no avião.

 

— Ele vai casar comigo. Vai sim. Daí eu posso ir pra onde quiser. Mulher casada não precisa de licença dos pais pra viajar. Foi isso que ele me disse.

 

— Assim pode ser   disse uma delas, morta desgosto.

 

— Como vocês se conheceram?    perguntou a mais sabida, querendo aprender o caminho.

 

— Desse jeito: Ele gostou de mim. Chamou e tratamos um programa. Foi ali mesmo na barraca do Poti, aonde a gente costuma fazer ponto. Dali nós fomos para o apartamento dele na Volta da Jurema.

 

— Aqui pertinho?

 

— Bem ali   Disse Flávia apontando o prédio com o queixo.   É aonde eu estou morando agora. Já faz três dias.   Sorriu vitoriosa.

 

— Assim tão rápido?

 

— Ora. Na manhã do dia seguinte ele já me pediu em casamento. Se apaixonou na hora. Também com as coisas que eu fiz pra ele.

 

— Que coisa? Conta pra gente. — Pedia aos gritos esse enxame de Iracemas.

 

Flávia ria. Flávia fazia cara misteriosa. Flávia gozava as companheiras. Flávia deixava as outras com um desejo violento de possuir o alheio.

 

Enquanto prosseguiam, Martino, o italiano, passou de carro, buzinou fazendo a sua escolhida abandonar as amigas e correr ao seu encontro. Beijaram-se e levantaram poeira.

 

Tudo o que ele queria era um filho. Pressionava para Flávia parar de tomar pílulas. Coisa de homem apaixonado. Ela dizia que só casando, pois tinha medo de engravidar e de repente ser abandonada. Ele garantia:

 

— Eu não vou abandoná-la. Tenho quarenta nos e nunca encontrei uma mulher como você. Eu te amo. Quero me casar com você. Ter filhos. Viver feliz. Por favor, amore mio, vamos ter nosso filhinho logo, deixe de bobagem. Um brasileirinho.

 

O coro dizia:

 

— Você não é nem doida de engravidar sem uma aliança no dedo. Ele te larga e nem trabalhar você vai poder, quando tiver com o barrigão nas nuvens.

 

A idéia lhe agradava. Pensava no bebê, uma coisa fofa nos seus braços. Pensava nele com os olhinhos azuis como os de Martino. Um italianinho.

 

Foi falar com o Poti, o dono da barraca “Potiguara”, aonde ela fazia ponto junto com as outras. Dono também de um táxi que servia aos gringos turistas. E empresário de garotas de programa.

 

Era Poti quem cuidava delas todas. Quem arranjava a maioria dos programas, recebia o pagamento adiantado, tirando a parte dele e entregando a delas. É assim mesmo. Mariposa tem que ter alguém cuidando.

 

Ele era legal. Emprestava dinheiro, levava pra fazer aborto se fosse preciso, arrumava programa com os gringos, consolava, comprava roupa, dava de presente mil coisinhas. Menina dele era livre de abuso da polícia. Mesmo sendo menor de idade, andava pra lá e pra cá livremente, sem nunca se encrencar. Fosse de dia fosse de noite, a hora que fosse. Mas também, quando ele não ia com os cornos de um, sai da frente. Não adiantava teimar. Se ele dissesse: com aquele você não sai, o jeito era num sair.

 

— Que cê quer, Flávia?    indagou o Poti.

 

— Ter um particular.

 

— Até já sei o que é. Sente ai. Já  já falo com você.

 

Daqui a pouco voltou trazendo duas águas de coco e deu uma pra ela. Coçou a barguilha, arregaçou as calças, sentou abrindo as pernas gordas pra que dentro delas se acomodasse a pança. Deu um sorriso e esfregou as mãos:

 

— Vamos lá. Desembucha, dona Flávia.

 

— Sabe o Martino, aquele italiano louro. Bonitão?

 

— Esse daí que cê anda enrabichada?

 

— É. —Afirmou a menina baixando a vista.

 

— Que que tem ele?

 

— Quer se casar comigo.

 

— Cê tá frescando com minha cara.

 

— Tô não. Ele quer até vir aqui falar com você.

 

— Pode vir. Mas tem menos de uma semana que ele te conhece, porque não tem nem uma semana que fui buscar ele no aeroporto. Virgem Maria. E o sujeito já quer casar? Ai tem. Ai tem. Ora se tem. Tem osso embaixo desse angu.

 

— Tem não, Poti. Ele é assim mesmo. Ele é romântico. Se apaixonou.

 

— E você acreditou?

 

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JANELA DE ESPERANÇA

 

Marcondes Rosa de Sousa

Professor da UFC e da UECe

 

O Povo – 12.05.2008

 

       

        Cena histórica! O Povo e a Assembléia Legislativa lançam, no Plenário 13 de Maio, o livro “A construção do Ceará – Temas de história econômica”, de Cláudio Ferreira Lima. Demócrito Dummar a meu lado, coube-me dela extrair as visões em abraço entre o logos (história real) e o mythos (história imaginada).

 

        Ensaio-e-erro a buscar um “sentido”: o quebrar a flecha da paz, entre o guerreiro branco e Iracema.  Moacir, o cearense filho da dor, a construir futuros por terras estranhas. Aqui, rios a oscilar entre a solidária grandiloqüência das cheias e o solitário das secas.  Anos 60, VT e a União pelo Ceará; anos 80, o Pró-Mudanças, Celso Furtado, feito guru,  o crescimento a metamorfosear-se em desenvolvimento.

 

        Litoral e sertão, em luta histórica. A irmaná-los, a profecia do Conselheiro: “o sertão a virar mar, o mar a virar sertão”. O caminho das águas, a bandeira branca. Agora, hegemonias em cacos, mas “caos produtivo”. Nossa educação (indústria científico-cultural), entre as piores do mundo. Agricultura, nem mesmo a familiar. Indústria, o curto fôlego, só a da construção civil.  Febre, a efêmera das bolsas (mercado e família). Inteligências múltiplas e verbo, em babel, na construção de ansiado amanhã.

 

        “Janela de esperança” abre-nos a obra.  Recobra-nos as cheias. Sepulta-nos solidões e arranhões.  Reacende-nos a luminosidade do inacabado filme de Orson Welles e o “aqui tudo se mexe” dos cineastas nos festivais nacionais e internacionais que aqui realizamos.

 

        No Museu Histórico e Antropológico, observa-nos, inquieto, o Bode Ioiô, ícone dos laços entre arte, política e boemia, a nos relembrar que, desde o 13 de Maio, o Ceará Moleque proclama que aqui o sol nasce mais cedo. E se não, repete-se a cena de, sonolento, ser vaiado, em plena Praça do Ferreira!

 

 

NOTA DO AUTOR

No artigo acima, perpassa, implicitamente citado, o antológico poema abaixo:

RIOS SEM DISCURSO

João Cabral de Melo Neto

 

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez:
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que, se tem voz, a seca ele combate.

 

 

 

               

 

 

                          GLOBALIZAÇÃO, MULHERES E UTOPIA:

                           O EXEMPLO DE MARINA SILVA [1]

 

 

Bernadete Beserra

 

 

NOTA DA AUTORA

 

A saída de Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente me fez lembrar de um ensaio que escrevi sob a sua inspiração para um número especial da Latin American Perspectives. Acho que a sua atuação no Ministério ao longo dos últimos anos apenas confirma o que intui abaixo a partir de breve encontro que tivemos em Los Angeles, em 2000. Enfim, estou defendendo algumas teses importantes sobre a necessidade de "femininização" da política. Adoraria receber comentários.

 

Um abraço,

Bernadete

 

 

        Encontrei a senadora Marina Silva, pela primeira vez, em abril de 2000, numa palestra na Universidade Estadual da Califórnia, campus de Los Angeles (CALSTATELA). Marina me impressionou pelo fato de estar falando de questões seríssimas a respeito do futuro do planeta com a mesma naturalidade e desenvoltura com que preparo café na minha cozinha.

 

        Aquela forma especial de lidar com o poder me fez lembrar do discurso de Sinéad O’Connor na abertura do CD Universal Mother, onde, em poucas sentenças, ela sintetiza o que considero uma crença absolutamente revolucionária. Sinéad afirma que realmente acredita que as mulheres podem fazer com que a política se torne desnecessária. Ela explica que tal empreendimento seria possível através da criação de algum tipo de cooperação espontânea totalmente diferente das idéias de poder vigentes nas estruturas estatais, religiosas e assim por diante. Tal idéia pode até cheirar a anarquia, mas ela não está interessada em anarquia, mas em formas sagradas de relacionamentos que não sigam os padrões hierárquicos vigentes que são fundamentalmente patriarcais. Ela conclui seu breve e introdutório discurso explicando que “o oposto de patriarcado não é matriarcado, mas fraternidade.” E acrescenta “acredito que são as mulheres que vão ter que quebrar os padrões de poder vigentes e encontrar a chave da cooperação.”

 

        Desde a primeira vez que ouvi tal discurso, comecei a me perguntar porque ela condicionou o fim da política às ações das mulheres. Por que seriam as mulheres que teriam que descobrir a chave da cooperação? Ou, em outras palavras, o que haveria de tão especial nas mulheres que permitiria que ela propusesse que elas seriam as responsáveis pela reinvenção do político?

 

        Sinéad O’Connor propôs-me a questão, mas foi através da leitura dos escritos de Jamie Sams que comecei a encontrar as primeiras pistas para a construção de uma provável resposta. No livro entitulado The 13 Original Clan Mothers, Jamie Sams fala sobre a reabilitação do feminino que as mulheres teriam de empreender com o objetivo de reivindicar de volta a sua função de curar e nutrir o outro. A idéia geral de tal proposição é a da liderança através do exemplo, ao invés de através da conquista ou da competição - tão relacionadas ao masculino. Mas diferentemente do que tal idéia pode sugerir, Jamie Sams não acredita que o feminino é apenas um privilégio das mulheres.

 

        Mas as mulheres, especialmente aquelas que experimentaram a maternidade, têm a vantagem de entender a idéia do feminino de uma forma mais visceral porque elas aprenderam, através dos seu próprios corpos, a arte da paciência. Elas aprenderam que a tarefa de criar filhos requer tempo, paciência e cuidado. Como resultado de tais práticas, as mulheres intuitivamente sabem que para o presente e o futuro do mundo tudo importa. Elas sabem que para a sobrevivência do planeta a tarefa de preparar uma comida saudável para um filho é tão importante quanto a de assinar acordos de paz ou tratados comerciais.

 

        Então, enquanto escutava Marina Silva falando, eu me dava conta de que finalmente me deparava com um exemplo vivo do que Sinéad O’Connor prenunciava. Após ouvir as primeiras sentenças, eu já sentia que Marina Silva provavelmente é uma das raras pessoas que não apenas fala sobre as suas utopias mas também as pratica. Marina teimosamente acredita que o impossível pode ser feito através da cooperação.

 

        Acredita, portanto, que a cooperação não apenas é a chave para a preservação dos recursos genéticos da floresta amazônica, mas é também a chave para a preservação de todos os recursos do planeta. A sua própria história é já um excelente exemplo do milagre da cooperação. Marina só aprendeu a ler quando tinha 16 anos. Apesar disto, aos 36 anos conseguiu ser eleita para o Senado Federal, tornando-se a primeira mulher senadora na história do Brasil. Desde então, e em função da sua luta pela defesa dos direitos dos povos da floresta, ela tornou-se internacionalmente conhecida e já recebeu muitas condecorações internacionais.

 

        Talvez ela não tivesse se tornado a primeira brasileira a conseguir uma cadeira no Senado se não fosse pela morte de Chico Mendes. Se os assassinos de Chico Mendes soubessem da existência de Marina e acreditassem na possibilidade de ela sucedê-lo na política, é possível que eles tivessem pensado duas vezes antes de assassiná-lo. De fato, apesar da sua aparente fragilidade, Marina parece ser ainda mais poderosa do que Chico Mendes. Mas seu poder, como já propus, parece residir principalmente na sua simplicidade e firmeza, qualidades que ela afirma ter aprendido com Chico Mendes. Eles trabalharam juntos no movimento dos seringueiros por mais ou menos quatro anos. Portanto, quando ele foi assassinado em 1988, Marina já havia aprendido muito dos seus ensinamentos politicos.

 

        Marina Silva me impressionou com seus projetos e colocações, mas foi sua habilidade política que mais me impressionou, especialmente a sua forma especial de lidar com o poder, particularmente expressa na sua habilidade de praticar o que diz. Marina é humilde, sábia, apaixonada, firme e esperançosa. Para ela o poder não é um fim nele mesmo, mas o lugar de onde ela pode praticar sua utopia. Neste sentido, ela também me lembra Paulo Freire e seu legado sobre a arte da práxis. Para Paulo Freire, ser revolucionário não é apenas lutar por um mundo mais igualitário e democrático para amanhã. Muito mais do que isto, revolucionário é aquele que já pratica hoje as idéias que ele quer transformar em realidade para todos amanhã.

 

        Nessa perspectiva, democracia, respeito e tolerância têm de ser praticados e não apenas discutidos. Noutras palavras, esses valores não podem e nem devem se perder na retórica da transformação do mundo planejada para amanhã. Principalmente porque o mundo de amanhã não é uma garantia para ninguém, especialmente se considerarmos que o que tem sido globalizado é um estilo de exploração/vida que se tem provado absolutamente insustentável.

 

        Consciente dos perigos da globalização, Marina está lutando para aprovar uma lei para regular o acesso aos recursos biológicos e culturais do Brasil. Ela propõe que o conhecimento dos povos nativos seja remunerado porque, afirma, grande parte da pesquisa de laboratório começa com a informação obtida através das comunidades locais. Ela explica que a “extorsão” de conhecimento ocorre do seguinte modo: os índios usam plantas que são parte da sua medicina tradicional.

 

        Os pesquisadores vão para a floresta, pegam a planta, estudam-na, patenteiam-na e produzem remédios e ganham dinheiro com isto. Nada retorna para a comunidade que produziu a informação original. O objetivo de tal lei, portanto, é pagar tal débito e criar formas sustentáveis de remunerar as populações nativas e os seus países pelos seus recursos naturais e culturais. Do contrário, a preservação da Amazônia nunca passará da retórica. Assim, se é verdade que todo o planeta precisa da Amazônia, todo o planeta deveria mobilizar-se e oferecer alguma contribuição para preservá-la. Mas só há uma forma de produzir tal mobilização: todos os seres humanos precisam entender que a sustentabilidade social, ambiental e política caminham lado a lado. A sobrevivência do mundo depende da compreensão da necessidade de afirmação da diversidade, seja no mundo das plantas ou no mundo dos homens e das sociedades.

 

        Nenhum indivíduo, raça ou nacionalidade pode ter a pretensão de salvar o mundo sozinho. Não há salvação para apenas uma espécie. Ou salvamos o mundo com a sua diversidade ou ninguém será salvo. Portanto, a responsabilidade de preservação da floresta Amazônica é tanto do povo e governo brasileiros como é também, por exemplo, dos estudantes da Universidade Estadual da Califórnia, Los Angeles. Desta maneira, Marina ensinava sua audiência que apesar da distância geográfica, a vida em Los Angeles está muito mais conectada à vida na floresta Amazônica do que imaginamos. Como uma nativa da floresta e cidadã do mundo, ela sabe muito bem que não há a possibilidade de se salvar a Amazônia excluindo os seus habitantes.

 

        Ela sabe que o empreendimento de salvar o mundo exige muito mais do que o salvamento desta ou daquela ilha, desta ou daquela espécie em extinção. Ela sabe, afinal, que o que mais ameaça os recursos da floresta amazônica não são os seus habitantes nativos, mas a exploração promovida pelos poderes imperialistas. Se não fosse pelos nativos da Amazônia, a essas alturas provavelmente não haveria mais “recursos nativos”.

 

        Esses nativos, como muitos outros nativos de outras regiões do planeta, têm sido sistematicamente eliminados por uma política econômica que despreza tudo que não se assemelhe ao colonizador europeu ou americano. Tudo isto é péssimo porque a sobrevivência dos recursos da floresta amazônica depende muito mais da sobrevivência dos seus habitantes nativos do que do bom funcionamento de cidades como Los Angeles.

 

        Durante a palestra e depois, durante o debate, chamou-me atenção a sua forma atenciosa, firme e delicada de se relacionar com a platéia. Depois, quando a palestra terminou, algumas pessoas se reuniram em torno dela para questões mais específicas e, novamente, ela tratou todas com a mesma atenção e respeito independente das aparências. Agindo assim, ela mostrava que seu projeto de um mundo sustentável não é algo para amanhã, quando as condições apropriadas forem criadas. Sua utopia não é uma desculpa para não se engajar profundamente no presente. Ao contrário, sua utopia já está em construção. Foi exatamente isto que ela eloqüente e pacientemente transmitiu para a sua audiência naquela noite. Algumas semanas após a palestra, enquanto discutia com amigos e colegas a globalização e a necessidade da criação de organizações internacionais para o controle do poder e abusos do capital, referimo-nos à Marina e à sua luta por um mundo sustentável.

 

        Eu comentava, especificamente, sobre o impacto que o meu encontro com ela havia produzido sobre a minha compreensão de ativismo político, quando soube que Marina sofre as consequências da contaminação de mercúrio e outros metais pesados. Minha primeira reação foi de raiva: sentia-me meio traída porque queria que ela vivesse para sempre. Queria continuar observando-a na construção da sua utopia. Entretanto, recentemente, lendo um artigo de Diana Jean Schemo para o número de Janeiro/Fevereiro de 1998 da Ms. Magazine, senti-me novamente surpreendida pela compreensão de Marina sobre as limitações do seu corpo. Ela diz: “Eu tenho um espírito forte e um corpo frágil; eu acho que talvez Deus me deu um corpo frágil para que eu não me sentisse onipotente e não esquecesse suas limitações.” Talvez esta seja a razão mesma porque Deus nos deu um planeta com recurso limitados: para que aprendêssemos a valorizá-los; para que precisássemos encontrar formas cooperativas de nos relacionar um com o outro e com o planeta.

 

         Depois de tudo, eu já não penso que a idéia de limites é assim tão ruim. A saúde de Marina Silva me levou a pensar na minha própria saúde, nas suas limitações e precariedade. Noutras palavras, saber que nem nós nem nosso planeta temos garantia de eternidade deveria servir como um lembrete de que todos deveríamos valorizar mais a vida e o presente ao invés de imergirmos nesta cultura predatória da busca de lucros fáceis e privilégios individuais. Deveríamos, finalmente, como as mães, nos preocupar também com o futuro dos nossos filhos e netos.

 

[1] . Uma versão em inglês deste ensaio (Globalization, Women, and the “Trick” of Cooperation: the Example of Marina Silva) foi publicado na Latin American Perspectives Vol. 29 n. 6 - Novembro de 2002.

 

[2] . Bernadete Beserra, PhD em Antropologia pela University of California, Riverside, é professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará.

 

 

 

 

 

 

NOVAS CHEIAS

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo -- 26/05/2008 02:25


        Volto ao lançar da obra "A construção do Ceará", de Cláudio F. Lima, com seu apelo a ciclo novo de cheias, em nossa política. Justo quando os índices nos apontam, a destoar do País, agricultura nem mesmo a familiar; o curto fôlego da construção civil; as bolsas tão só (mercado e família); as múltiplas inteligências em dispersão.


        Surtos últimos de cheias: a União pelo Ceará, com Virgílio Távora (anos 60). Eu e colega estudante à esquerda, na "Arca de Noé", VT a ensaiar protestos contra o "31 de Março" esboçando-se. E, após, na luta contra os coronéis, ele a apoiar o Pró-Mudanças (anos 80)... Ao final do século, o único político lembrado como "cearense do século".

        Nos 80, Celso Furtado, na UFC reunia-nos, na busca de sustentável amanhecer - o crescimento a se metamorfosear em desenvolvimento. Mas, agora, nova dispersão, perdidos nós em ética, valores e rumos. Sociedade e política, em meio à descrença no clima geral do toma-lá-dá-cá.

 

        Descrença geral. Políticos, a desconfiar uns dos outros. No mundo acadêmico, ouço dos que fizeram história: "a universidade não é mais aquela". Nisso, o inesperado aval, na busca do romper com a solidão: "Um galo sozinho não tece uma manhã: precisará de outros galos" - de João Cabral. E uma herdeira de Eva: "Há galos no quintal de meu vizinho".

 

        Do povão, surpreende-me crença nas pentecostais línguas de fogo a brotar de nosso chão. Nas academias, aos poucos, o saber a soldar-se no pensamento complexo. A democracia, vista diálogo das minorias, em dissonantes acordes, a mirar o patamar mais alto da responsabilidade social. As inteligências múltiplas em abraço, a nos rever, entre ateus, a religião, vista "protesto da criatura oprimida e o coração de um mundo sem coração" (Marx).

        Sim, sem dúvida, novas cheias . Ciclo novo à vista!



        Marcondes Rosa de Sousa

         Professor da UFC e da UECE