PEQUENAS IRACEMAS
Para Cristina Sampaio Façanha,
com amor e admiração.
Ventres perambulantes se distribuem ao longo de toda orla marítima. Meninas a mercê dos desejos masculinos. Barriguinhas planas atraindo carícias. Pélvis, arrepios, vontade de alisar, passar a mão por cima, pegar. Cobiçar cinturas submissas. Dedilhar. Introduzir-se pelo cós das saias, minissaias. Descer até o osso sacro. Ter consciência da brisa salgada, comendo pipocas.
São de açúcar tostado aqueles corpos esbeltos que passeiam seminus. O cheiro das frutas amarelas se espalha, enquanto elas correm, riem e se escondem.
Todas com quase nada de roupa: saiotes, shortinhos, tangas. Tecidos fluidos. Vestidas exatamente como no começo de tudo.
Antigamente e ainda hoje, brotam estrangeiros do mar para celebrar a mistura entre as cores dos homens feitos e das meninas inacabadas.
Bocas vermelhas. Unhas compridas. As adolescentes de baunilha brincam de não querer, embora devam querer, pois não têm opção. Precisam conseguir seus programas enquanto é ainda entre o meio-dia e a meia-noite. Da praia um eco vibrante as fustiga:
— Iracema.
Ceminha é filha de Irene que, enquanto vivia, coitada, tinha uma banca de tapioca na estrada que vai pra lagoa de Porangaba, a chamada lagoa da beleza. A menina se banhava lá todos os dias, acreditando no poder mágico das águas. Mas agora, que sua mãe acabou de morrer, tudo mudou. Ficou sem ter para onde ir.
Por não ter para onde ir, ela foi morar com o único parente que lhe deu abrigo, um tio. Tio Poti era motorista de táxi e ganhava muito dinheiro. Residia numa casinha bem ajeitada lá para as bandas do Mucuripe e nunca se casou porque passava o tempo levando e trazendo gringos pra cima e pra baixo. Ia buscá-los no aeroporto, hospedava-os nas pousadas e deles ficava cuidando até a hora de irem embora. A maioria gostava tanto do tratamento que, quando voltavam, ou então mandavam um amigo, não queriam ouvir falar de outra coisa que não fosse desses cuidados.
Era pra Ceminha cuidar da casa e da comida do tio, mas ela era um desastre para essas coisas. Bagunçava tudo e cozinhava mal e porcamente. Também, ele nunca parava em casa. Por isso ela ficava por ali vendo televisão, mexendo numa coisa e outra, falando com as vizinhas, com a cara na janela cubando o movimento. Nunca saia porque não tinha dinheiro pra pegar um ônibus que fosse. Tinha vergonha de pedir qualquer coisa ao tio, que já fazia o grande favor de deixá-la ficar ali. Comida não faltava, faltava só o que fazer.
Tio Poti era simpático, bonachão e parecia lhe querer bem. Olhava para ela de um jeito interessado, nos poucos momentos em que passava em casa. Mal conversavam. Um dia desses, chegou a dizer:
— Minha filha, venha cá.
E ela foi.
Ele suspirou alto e acariciou seu braço magrinho. Olhou para ela e sorriu para aqueles olhos espantados, arrodeados de cílios compridos iguais aos de uma boneca. Fez com que ela sentasse junto dele enquanto ele chupava uma laranja. Depois foram dormir, cada qual no seu canto.
Pegaram amizade. Ele passou a aparecer mais, a ficar mais tempo descansando em casa. Desde que chegava ficava chamando por ela. Era Ceminha pra cá, Ceminha pra lá.
Com o tempo tio Poti começou a lhe trazer presentes. Sempre que ia ao supermercado trazia, além da comida, bombons, uma blusinha, anéis, pulseiras e fivelas da moda. Ela gostava tanto. Um dia ele trouxe até um biquíni de listras muito bonito. Pediu para ela experimentar, pois se tivesse ficado pequeno ou grande ele trocava. Ela experimentou e ele pediu pra ver, e ficou vendo tudo que queria. Ela não disse nada. Nunca disse. Até se acostumou. Sentia falta quando ele chegava em casa cansadíssimo e não fazia nenhum empenho pra ficar vendo tudinho.
Foi quando, num dia, ele chegou todo sorridente dizendo para ela se aprontar, porque iam sair.
— Quero comprar umas roupas novas pra você, minha filha. Coisa de menina rica. Na moda. Assim como essas roupas das artistas. Essas suas daí, já estão muito batidas.
Ceminha não coube em si de barulhenta alegria. Já se imaginou dentro de vestes lindas, iguais as das moças da televisão. Pulava no pescoço do tio agradecendo e beijando.
Compraram uma sandália de salto alto. Ela nunca tinha usado qualquer coisa assim. Um saiote pregueado e bem curtinho que chegava a mostrar o fundo das calças. E uma blusa de frente única, rosa-choque. E mais roupas de baixo, calcinha e sutien, também rosa-choque. Depois compraram batom, esmalte de unhas, lápis preto para o contorno dos olhos. Pulseiras, anéis e demais bugigangas. Ela nunca tinha sido tão feliz.
Ao final foram tomar um sorvete. Ela pediu de um de chocolate com coco, amendoim e morango. Ele um de abacate.
— Minha filha, preciso de um favor seu. Você faz?
— Faço, tio. Mas claro que faço. Só é dizer. O que é?
— É que chegou um gringo. Ele tá hospedado naquela pousada de portão verde, ali em frente. É um português. Muito meu amigo, bem dizer como se fosse um irmão. Estou até fazendo uma sociedade com ele ai numa barraca, pra vender camarão frito. Ele convidou uma moça pra sair hoje a noite. Queria se divertir, num sabe? Tá de férias. Daí a tratante garantiu que ia, mas na última hora disse que não podia, coisa e tal. Veio com uma desculpa amarela e deixou o meu amigo na mão, coitado. Então eu queria lhe pedir pra sair com ele essa noite. Alegrar o coração do pobre. Você faz isso pra mim? Custa nada.
— Faço sim, meu tio. Nem precisa perguntar. Você também vem com a gente?
— Eu vou ter que trabalhar, minha filha. Vou esperar um avião que chega da França mais tarde, e levar um pessoal que vem nele até a praia da Taiba. Mas o meu amigo é gente boa. Você vai ver. Mais tarde eu passo pra te pegar. Não se preocupe. Já está tudo combinado.
Ela ficou meio encabulada na hora em que avistou o português. Ele era branco como leite, com os cabelos espichados. Era mais novo que seu tio e não era feio, mas também não era bonito.
— Muito gosto. Martim Soares Moreno. Disse quando foram apresentados, estendendo-lhe a mão.
— Prazer. Murmurou tímida. Meu nome é Iracema, mas pode me chamar de Ceminha.
O tio se despediu e foi embora, deixando-a no quarto do desconhecido, nas mãos do desconhecido, a mercê do desconhecido, que agora olhava para ela de cima abaixo de uma maneira amedrontadora.
— Quer uma coca-cola? perguntou acariciando-lhe a nuca exposta.
— Não senhor.
— Pelo amor que tu tens a Deus, não me chame de senhor.
— Mas cê já tem cara de senhor.
— Quero ser seu amigo. Está bem? disse dando-lhe um beijo na boca.
— Está. Respondeu se fastando e limpando o cuspe dos lábios.
— Quer jantar?
— Se cê quiser.
— Então vamos. Depois a gente volta pra cá.
Ele se sentia profundamente excitado, pensando em voltar para o quarto com aquela menina que ainda não tinha sido usada. Ela se sentia levemente excitada, pensando que iriam a um lindo restaurante cheio de gente bonita.
Subiram mais um andar pelas escadas. O refeitório da pousada estava vazio. No mesmo minuto em que se sentaram, ele pediu apressadamente um filé com ervilhas e batatas fritas, que dividiram. Um guaraná para ela e um uísque para ele. Logo que acabaram de comer voltaram ao quarto. Ele trancou a porta e beijou, abraçou, despiu, olhou e fez o que quis. Ela não teve nem tempo de entender e quando se deu conta ele estava por cima dela, respirando alto e gemendo. Ela chorava, porque essas coisas doem.
— Não chores, menina. És muito bonita para chorar — disse o português com sua fala hilária, sungando as calças, cheio de sotaques e trejeitos. — Conte-me pois, quantos anos tens?
— Tô dentro dos treze.
Um delicioso vento lambe as coxas das meninas barulhentas que passeiam pelas praias. A areia bege range quando seus pezinhos pisam e passeiam. Pélvis e glúteos se remexem ao compasso do andar e da música que vem do aparelho de som escandaloso de algum carro com o porta mala escancarado.
Todas usando biquínis minúsculos como as tangas das índias. Mostrando tudo aos conquistadores. Cobrindo só o principal. Gargalham. Andam em bandos. Contam-se o que fizeram na véspera. Falam mal da vida alheia. Uma dessas Iracemas garante que já estaria aprendendo a falar italiano.
— Eu vou embora com ele. Já está tudo acertado. Vou deixar essa vida. Deus é pai.
— Duvido. Duvido. Visivelmente despeitada, comentou Ceminha.
— Você esquece que é de menor e que de menor não viaja sem licença dos pais. Avisou a maior de todas.
— E nem pais você tem pra dar licença. Debochou uma outra.
— Deixa de ser burra, Iracema.
— Iracema não. Flávia.
— Só se for. Está bem. Flávia, já que você quer assim.
— Nome de guerra é nome de guerra.
— Eu nem posso imaginar quando eu estiver lá na Itália, pisando na neve, usando aqueles casacos lindos, pretos. Vou pintar meu cabelo de louro.
— Isso se você conseguisse, pelo menos, entrar no avião.
— Ele vai casar comigo. Vai sim. Daí eu posso ir pra onde quiser. Mulher casada não precisa de licença dos pais pra viajar. Foi isso que ele me disse.
— Assim pode ser disse uma delas, morta desgosto.
— Como vocês se conheceram? perguntou a mais sabida, querendo aprender o caminho.
— Desse jeito: Ele gostou de mim. Chamou e tratamos um programa. Foi ali mesmo na barraca do Poti, aonde a gente costuma fazer ponto. Dali nós fomos para o apartamento dele na Volta da Jurema.
— Aqui pertinho?
— Bem ali Disse Flávia apontando o prédio com o queixo. É aonde eu estou morando agora. Já faz três dias. Sorriu vitoriosa.
— Assim tão rápido?
— Ora. Na manhã do dia seguinte ele já me pediu em casamento. Se apaixonou na hora. Também com as coisas que eu fiz pra ele.
— Que coisa? Conta pra gente. — Pedia aos gritos esse enxame de Iracemas.
Flávia ria. Flávia fazia cara misteriosa. Flávia gozava as companheiras. Flávia deixava as outras com um desejo violento de possuir o alheio.
Enquanto prosseguiam, Martino, o italiano, passou de carro, buzinou fazendo a sua escolhida abandonar as amigas e correr ao seu encontro. Beijaram-se e levantaram poeira.
Tudo o que ele queria era um filho. Pressionava para Flávia parar de tomar pílulas. Coisa de homem apaixonado. Ela dizia que só casando, pois tinha medo de engravidar e de repente ser abandonada. Ele garantia:
— Eu não vou abandoná-la. Tenho quarenta nos e nunca encontrei uma mulher como você. Eu te amo. Quero me casar com você. Ter filhos. Viver feliz. Por favor, amore mio, vamos ter nosso filhinho logo, deixe de bobagem. Um brasileirinho.
O coro dizia:
— Você não é nem doida de engravidar sem uma aliança no dedo. Ele te larga e nem trabalhar você vai poder, quando tiver com o barrigão nas nuvens.
A idéia lhe agradava. Pensava no bebê, uma coisa fofa nos seus braços. Pensava nele com os olhinhos azuis como os de Martino. Um italianinho.
Foi falar com o Poti, o dono da barraca “Potiguara”, aonde ela fazia ponto junto com as outras. Dono também de um táxi que servia aos gringos turistas. E empresário de garotas de programa.
Era Poti quem cuidava delas todas. Quem arranjava a maioria dos programas, recebia o pagamento adiantado, tirando a parte dele e entregando a delas. É assim mesmo. Mariposa tem que ter alguém cuidando.
Ele era legal. Emprestava dinheiro, levava pra fazer aborto se fosse preciso, arrumava programa com os gringos, consolava, comprava roupa, dava de presente mil coisinhas. Menina dele era livre de abuso da polícia. Mesmo sendo menor de idade, andava pra lá e pra cá livremente, sem nunca se encrencar. Fosse de dia fosse de noite, a hora que fosse. Mas também, quando ele não ia com os cornos de um, sai da frente. Não adiantava teimar. Se ele dissesse: com aquele você não sai, o jeito era num sair.
— Que cê quer, Flávia? indagou o Poti.
— Ter um particular.
— Até já sei o que é. Sente ai. Já já falo com você.
Daqui a pouco voltou trazendo duas águas de coco e deu uma pra ela. Coçou a barguilha, arregaçou as calças, sentou abrindo as pernas gordas pra que dentro delas se acomodasse a pança. Deu um sorriso e esfregou as mãos:
— Vamos lá. Desembucha, dona Flávia.
— Sabe o Martino, aquele italiano louro. Bonitão?
— Esse daí que cê anda enrabichada?
— É. —Afirmou a menina baixando a vista.
— Que que tem ele?
— Quer se casar comigo.
— Cê tá frescando com minha cara.
— Tô não. Ele quer até vir aqui falar com você.
— Pode vir. Mas tem menos de uma semana que ele te conhece, porque não tem nem uma semana que fui buscar ele no aeroporto. Virgem Maria. E o sujeito já quer casar? Ai tem. Ai tem. Ora se tem. Tem osso embaixo desse angu.
— Tem não, Poti. Ele é assim mesmo. Ele é romântico. Se apaixonou.
— E você acreditou?
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publicado por Marcondes