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LONGO AMANHECER

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 25/06/2007 


Ante o poço sem fundo da corrupção "neste País", a me pautar "paciência histórica", um forte spleen me invade. Decido calar-me e encostar a caneta. "Justo quando te reconheces quixotesco e o Fórum Social Mundial aponta outro mundo possível?", cobra-me Isolda Castelo Branco (UFC). Para os dicionários, o termo diz do "romântico, sonhador a se meter em estripulias" (Aurélio Séc. XXI), hoje a assumir a conotação de quem se vale da "ordem desordenada da arte, a superar a da própria natureza" (Cervantes), num resgate de Heráclito: "A ordem mais bela é um monte de detritos amontoados ao acaso". O mitológico "no princípio, o caos", e o bíblico apocalipse, em tom de "revelação e aviso".


Na mídia, tento decifrar: docentes e guardas a atirar cadeiras e gás de pimenta, uns contra os outros, na agressiva e narcísea "Fortaleza Bela". Nas ruas, rincões, favelas, prisões, alto escalão, a violência a nos irmanar. Na política, o "passar a limpo o País", com o basta ao salto alto de uns e os tamancos de outros, persistentes UDNs, o povo a exigir, destes, os pés no chão. Aos turistas, o "relaxe e goze", da sexóloga ministra, sedução masoquista de apagões aéreos, ícones do "próspero". Tempos de murici, cada qual a cuidar de si, sob as sombras das mal-humoradas mangabeiras a nos desenhar futuros...


Em nossa bandeira, "ordem e progresso" a chocar-se com a criativa desordem. Mais que império da maioria, quer-se respeito às minorias a compor dissonantes acordes. "Um longo amanhecer", no depoimento otimista deixado por Celso Furtado, no qual, a CNBB "não vê atitude de desesperanças", mas "a metáfora de um país que ainda não encontrou o caminho de um desenvolvimento sustentado".


Pedrinho, o neto, guerreiros voadores seus à mão: "vô, para onde nós vamos?". E eu, a abraçá-lo com emoção: "Porto seguro"!