
Violeta Arraes e Marcondes Rosa
DONA RUTH E VIOLETA
DO ALTO A OLHAREM POR NÓS
(No Grupo Ethos-paidéia)
JEAN KLEBER MATTOS (UnB)
Tenho a dizer que Dona Ruth era uma referência nacional de elegância, de aprumo, de cultura. Eu simplesmente a venerava quando em vida e agora me solidarizo com Fernando Henrique Cardoso e me junto aos demais amigos para honrar a sua memória e desejar-lhe uma luminosa jornada na espiritualidade.
MARCONDES ROSA DE SOUSA
Sobre Dona Ruth, endosso, Jean Kleber, sua visão e palavras. Sobre sua morte, que, como a de Violeta Arraes, chocou-me. E, com ela, sobretudo, a proximidade entre as duas, que eram historicamente, muito amigas.
Violeta me telefonava muitas vezes. Os problemas com sua aposentadoria, estava eu a cuidar, na burocracia do Governo Estadual (dela e da minha). Blanchard Girão, seu amigo e subsecretário, o fazia. Mas, cardíaco, veio a falecer. Maria Benigna, a filha, me telefonava sempre. Violeta, voz já rouca, ultimamente, batia sempre papos políticos comigo. Um mês atrás, voz muito fraca - estranhei. E, por coincidência, para falar da visão de Dona Ruth sobre política "não assistencialista" dos programas de "redução da pobreza", cá lançados, com similares hoje no Canadá.
A morte agora das duas me faz recordar as circunstâncias do convite e da vinda de Violeta para ocupar o cargo de Secretária de Cultura e Turismo, no Governo de Tasso, no Ceará. Eu, ao tempo, ocupava o cargo de Presidente da então TVE do Ceará. Um dia, Tasso chama a mim e a Ariosto Holanda a seu gabinete. Confessa que quer, no campo da cultura e do turismo, uma revolução. Aí começamos os três a lançar, sobre a mesa, nomes. Até que ele me sonda de chofre: "E que tal sua amiga Violeta Arraes?" Ariosto se assusta. Mas noto que, na indagação de Tasso havia um "feeling" e uma quase decisão.
Na verdade, na administração de José Anchieta Esmeraldo Barreto, egresso do Cariri, terra de Violeta, fora eu Pró-reitor de Extensão, na UFC. Anchieta, que gostava de chinelo, informalidades, um dia me convocara. E, de chofre, me foi jogando. Queria pró-reitores, uns, para executar suas idéias. Outros, porém - e este era meu caso, para referendar ações para as quais não tinha ele a menor idéia ou vocação. E, na extensão, gostaria de me dar carta branca.
Foi nessa linha que conheci Violeta, aqui a acompanhar o embaixador francês com propostas como as do Projeto França/Brasil, que terminaria por nos trazer coisas como a aproximação de nossas indústrias das confecções e artesanato, que terminaria por introduzir a renda cearense na moda parisiense e de New York, além da arquitetação, na UFC, de curso de estilismo. Daí, a aproximação com o pessoal do audiovisual - muitos deles cearenses - que nos levaria, na UFC e no Estado, ao Simpósio Cinema e Literatura, a criação do Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro. E, depois que chegou Violeta a Secretária, a grandes seminários internacionais, tanto no campo das comunicações como afinal a 5ª. Edição do FestRio, em sua 5a. edição.
Voltemos à reunião e a aproximação Violeta & Dona Ruth. A reunião dos três, em Palácio (Tasso, Ariosto e eu), ultima-se com Tasso: "Mas não sou eu quem vai fazer o convite. Conheço Violeta e ela vai, de pronto, negar-se. Fica a incumbência com você, Marcondes".
Telefono eu para Paris. Violeta, a cuidar do marido Pierre Gervaiseau, num hospital. Transmito-lhe o convite de chofre. Ela muda de assunto e, como Tasso esperava, bate-me o telefone. Dois dias depois, tento de novo. Ela me diz que dará todo apoio se, ao contrário, o escolhido for eu". Termino por lhe dizer coisas como "Não sou irmão do Miguel Arraes, não sou ponte entre França e Brasil, não sou amigo pessoal de Gilberto Gil, Betânia, Cazuza, Chico Buarque" e por aí fui... Na minha argumentação, do "não sou eu" fui pondo sobre a mesa as potencialidades dela, sobretudo a da junção de toda a histórica esquerda.
Depois de alguns dias, ela é quem me telefona para dizer: "Ruth (então primeira Dama) está aqui, fui com ela a um estilista. Contei a ela de sua doidice”... Dona Ruth teria dito: "Taí, desta vez, ele tem toda a razão. Aceite, que daremos, Fernando e eu, o maior apoio". Quando ia me alegrando, ela disse. Dentro de uma semana, estarei aí mas, antes quero uma conversa, os dois.
E assim foi. A condição dela é que a fosse assessorar. Não aceitei cargo formal, ao deixar a TVE. Mas tão só o, sob licença da UFC, estruturar o Departamento de Audiovisual. Primeira ação, o FestRio, que, nas brigas dos cineastas com Brizola, Tasso aceitou abrigar sua 5a. edição no Ceará.
A morte de Dona Ruth me relembrou, entre Violeta e Dona Ruth (e o casal) lembranças muitas. E isso, me trazendo de volta o quanto Dona Ruth, como intelectual e mulher (tal qual Violeta) foi para a esquerda brasileira. Cenas, em fotos, de FHC sobre rede cearense armada na casa de Violeta em Paris. O lado "menino" - infantil até - de FHC, com quem convivi - e de maturidade de Dona Ruth.
Espero que, as duas "em outra vida" se dêem as mãos. Olhem por nós. E que nos façam, com sua seriedade e olhar, no reencontro com Celso Furtado, fazer com que o crescimento econômico realmente ""se metamorfoseie em desenvolvimento" que só será "sustentável" se a redução da pobreza abra caminhos para inclusão social para além do assistencialismo, em nosso ciclo como prognosticava meu ainda "guru maior", Celso Furtado, hoje a inspirar mais de 55 países no Centro Internacional Celso Furtado, onde Rosa Furtado, viúva do economista e amiga de Violeta Arraes, é coordenadora cultural: www.centrocelsofurtado.org.br/ e-mail: rosa@celsofurtado.org.br.
JEAN KLEBER MATTOS
É o que sempre digo, Marcondes. Sua experiência de c
onvívio com alguns ícones incontestáveis da história recente do Brasil deve ungi-lo para dizer algo sobre os grandes projetos culturais e desenvolvimentistas da atualidade. Isso se chama predestinação. E nós outros, acólitos desta celebração, aqui estamos - e estaremos sempre – para auxiliar e aprender, pois os postos de comando da história são urdidos “lá em cima”. Digamos que têm origem extraterrena...