Grupos

Virgílio Távora

Re/União pelo Ceará

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 09/06/2008 

 

Virgílio Távora, 20 anos de morte! Data em branco quase, justo quando cobramos, de nossos dispersos políticos, um Ceará não mais perdido de seu projeto, como agora. VT, o histórico ícone de tal união, único político lembrado "cearense do século XX".

 

Infante em Ipueiras, tal qual o oscilar entre a grandiloqüência das cheias e a solidão das cacimbas no rio Jatobá, vi UDN e PSD em crônico litígio. Cena que me ficou: dois inimigos políticos, em luta na coxia em frente de onde morávamos, desarmados por meu pai, conciliador, que, por uma janela, atirou-me para dentro de casa... Nos anos 60, estudante universitário de esquerda, veria Virgílio postar-se ao lado de João Goulart e a costurar tendências em luta na "União pelo Ceará", sob o pacto do Plameg (Plano de Metas Governamentais), a lhe pautar horizontes: integrando-o pela BR-116 ao País, industrializando-o a partir da energia de Paulo Afonso, gerando trabalho e renda, a educação a se democratizar...

 

       Anos 80, fim de ciclo. E, sobre essa época, a confissão que nos fariam os do Movimento Pró-Mudanças contra os "coronéis": "Quem mais nos deu apoio foi VT. Por ironia, um coronel!"

 

Novo ciclo, sem dúvida, agora. No País, cheias prenunciando grandezas. Mas nós, perdidos do horizonte de um novo amanhecer. Nossos políticos, em seus narcíseos arquipélagos, sob o falso deleite dos pés de murici, cada um a cuidar de si. E, infantes, todos nós a saborear o ilusório "sem porto" das bolsas... Nossa educação, entre as piores do mundo, morrendo na praia. Praia a não atingir, em sadio desenvolver-se, o cidadão (ser social), o profissional (o construtor pelo trabalho) e a pessoa (o ser transcendente).

 

Hora das cheias a sepultar solitárias cacimbas. E a nos enfrasar na esperança de janela em mim marcada desde a infância, rumo ao sustentável futuro!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece

 

 

 

RESPONSABILIDADE SOCIAL

 

Marcondes Rosa de Sousa 

 

Publicado em encarte da

Revista dos Municípios do Ceará,

n. 78 (junho/julho)

 

Responsabilidade social! Crescente consciência após o fracasso do socialismo real e do capitalismo, no desabraço entre o público e o privado.  Participativa, transparente e plural, democracia é hoje não mais império da maioria, mas diálogo entre as minorias.

 

Em tal quadro, educação, do nascer ao morrer, hoje envolve seus atores (escolares e sociais), a formar capital humano - o cidadão (ente social), o profissional (construtor) e a pessoa (ser transcendente), nos termos da LDB.

 

Nessa direção, é crescente o clamor de nossa sociedade por um novo contrato social, a se pautar em valores e princípios, e a se converter em "lei de responsabilidade social", a nos solidarizar na construção coletiva de um crescimento econômico não restrito à fugacidade do PIB, mas a buscar o ideal apontado por Celso Furtado: "o crescimento a se metamorfosear no sustentável desenvolvimento", reduzindo-se a pobreza de nosso país e do planeta que se aspira em equilíbrio ecológico.

 

Tal consciência assiste-nos aos programas de extensão de nossas universidades, desde os anos 60, na linha do Projeto Rondon, entre outros.  E nessa direção, hoje nossos empresários, que postulam suas empresas como "parceiras do desenvolvimento social". Assim, a FIEC, sob a coordenação de Vânia Dummar, ao lançar Grupo de Ação, a responsabilidade social pactuada por 11 instituições de educação superior, como disciplina obrigatória, em etapa inicial. Educação, a integrar Câmara de Educação Superior, tidas por Jorge Parente que lhes deu assento simbólico naquela casa, como "indústrias sem chaminés", gesto elogiado por Beni Veras, então governador: "Não podemos construir o estado com que sonhamos sem o compromisso de todos – governo, iniciativa privada e organizações da sociedade civil, com o desenvolvimento humano".

 

Clamor geral, a Lei de Responsabilidade Social, ao lado da de "responsabilidade fiscal", a buscar nossa federação (União, estados e municípios) em construtivo abraço. Ética e valores, soldados e solidarizados pela educação vista, em todos os seus níveis, como "capital humano", a nos reduzir-nos a pobreza, sob o lema do "comerás o pão com o suor do teu rosto", mandamento maior. Pois, "sem arte e sem ofício, não se é filho de Deus" (Dom Aureliano Matos).  Um horizonte de um país que aspira hoje por nova ética, uma democracia mais participativa, voltada para o horizonte da construção e da salutar convivência entre suas todos.

 

Marcondes Rosa de Sousa, Professor da UFC e da UECe, Ex. Presidente do Conselho de Educação do Ceará e do Fórum Nacional dos Conselhos Estaduais de Educação

 

 

 

Carta das Cidades Educadoras

 

Cidade & Educação

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - h23/06/2008 00:56


Como educador, amargo "mea culpa" por histórico atropelo em nossa educação: o do "todos pela educação (...) para todos", a nos levar ao morrer na praia, entre os "42 piores países do mundo". Daí, aderir a proposta do Colégio Seráfico de Messejana - a do "espaço sócio-educativo" a envolver: a) a Carta das Cidades Educadoras (Barcelona, 2004), de muitas nações; b) a responsabilidade social, para além do capitalismo e o socialismo real, o público e o privado em abraço.

Isso, em escola de crianças, adolescentes e jovens da classe C. E em Messejana ("lagoa abandonada", em tupi), onde 45 mil habitantes se dispersam, em meio ao centro de poder (Cambeba), lagoas, parques, Casa de José de Alencar, hospital de referência nacional ali plantado, shoppings, forte comércio, igrejas, centro e feira artesanal,sob laços de riqueza, pobreza e babel... No Seráfico, balbucios a ensaiar mãos dadas: políticos, empresários, ecologistas, educadores, populares. A escola a engatinhar rumo à cidadania nas ruas, as ruas a emprestar vida social à escola.

A Revista dos Municípios pede-me artigo sobre laços mais fortes entre educação e responsabilidade social. Nele, falo de passos engatinhantes e simbólicos ensaiados, na Fiec, por Wânia e Demócrito Dummar, onde "indústrias sem chaminés" da educação superior tiveram, já nos anos 80, assento simbólico. Celeste Cordeiro, na Fundação Demócrito Rocha, abre-se, solidária a passos de avanço maior, convictos, todos nós, de que, sem o porto do cidadão, do profissional e da pessoa, morreremos na praia.

Daí, nosso aval ao apelo, nas pegadas de São Francisco de Assis, ora lançado pelo capuchinho Frei Francisco Paulo Pereira da Silva. O Ceará e o País, agradecidos, nos farão justiça. Aqui, o sol libertário, pelas vias da educação, sempre tem nascido mais cedo!

Marcondes Rosa de Sousa
Professor da UFC e da UECe

marcondesrosa@gmail.com

 

 


    

Violeta Arraes no Conselho de Educação do Ceará

O Povo - 18/06/2008

"A Violeta é um grande personagem para a história do Brasil. Foi fundamental na implantação de uma nova visão pública de cultura, de rigor, qualidade, cidadania, coisa que não existia antes no Estado. Anteriormente, havia uma secretaria dos artistas e Violeta trouxe uma visão cosmopolita da cultura, como algo que diz respeito ao conjunto governo, artista e população. Ela foi responsável por implementar uma política exigente, de maior credibilidade e qualidade. Reformou prédios e equipamentos importantes como o Theatro José de Alencar, o Arquivo Público, museus do Estado e deu essa visibilidade à cultura que continua até hoje. Guardo dela uma pessoa de atenção extraordinária com os amigos. Alguém com os pés nos sertões. Era uma sertaneja que amava muito a sua terra e, ao mesmo tempo, uma pessoa com a cabeça no mundo".
Oswald Barroso, teatrólogo.


"Tive um convívio grande com a Violeta enquanto ela era reitora da Urca (Universidade Regional do Cariri). Acompanhei de perto o bom trabalho que ela desempenhou, de preparação da universidade para uma transição importante. Ela deixou um legado de respeito à universidade e na compreensão dessa instituição como fundamental para o desenvolvimento de uma região e de um estado pobre. A Violeta deu a dimensão no sentido universal da universidade, trabalhando desde a expansão da estrutura física até como uma grande negociadora junto ao Governo. Isso contribuiu bastante para o que hoje se estruturou como a Universidade Regional do Cariri".
Jesualdo Farias, reitor em exercício da Universidade Federal do Ceará.


"A partir da perspectiva da cultura, quando foi secretária da pasta no primeiro governo Tasso, o papel de Violeta foi fundamental para que a secretaria começasse a ter um perfil mais organizado, deixasse de ser uma secretaria menosprezada e passasse a ser considerada pelo estado como área estratégica de governo. A visão que ela tinha era marcada pelos anos que pela passou na Europa e contribuiu para uma visão cosmopolita de cultura. Ela teve papel fundamental na articulação para criar um pólo de cinema no Estado, bem no início do processo. Apesar dessa iniciativa não ter vingado, ela deixou frutos que foram retomados na gestão do (ex-secretário da Cultura) Paulo Linhares".
Alexandre Barbalho, historiador e ex-presidente da Fundação de Cultura, Esporte e Turismo de Fortaleza (Funcet).


"Eu tive a honra de trabalhar com a dona Violeta de 1996 até 2003, período de seu reitorado, acompanhando-a no cargo de vice-reitor. Tive com ela notáveis lições de uma liderança voltada para interesses superiores do Cariri, sobretudo do papel da universidade no desenvolvimento sustentável da região. Ela reuniu os esforços para criar a Área de Proteção Ambiental da Chapada do Arraripe e intermediou um convênio junto à Agência Nacional de Petróleo para a ampliação do Museu de Paleontologia, duas contribuições fundamentais para a preservação e para a ciência. Na universidade, dona violeta desenvolveu um trabalho de implantação de mentalidade voltada para uma instituição de patrimônio pública e foi responsável pela ampliação física, construindo 40 novas salas e criação de cursos. O trabalho dela foi de consolidação da universidade, que já vinha se firmando, mas ganhou grande impulso".
Plácido Cidade Nuvens, reitor da Universidade Regional do Cariri.


"É quase uma metáfora a partida da Violeta no dia do aniversário do Theatro José de Alencar. Ela tinha uma relação de irmandade, intrínseca. O TJA era a menina dos olhos da gestão dela, que foi marcada pela recuperação e a disseminação de uma política cultural para o teatro como um centro cultural e não simplesmente uma casa de espetáculo. Um centro de formação múltiplo de cultura. Ela redimensionou não só o prédio, mas a política cultural, a inserção do teatro na cidade e morre exatamente nesse dia, nos 98 anos do TJA".
Ricardo Guilherme, teatrólogo.


"Violeta Arraes foi uma pessoa determinante, no momento em que muitos brasileiros no exílio procuravam uma mão amiga. Ela soube dar apoio aqueles que a procuravam.Como Secretária de Cultura, mudou a forma de administrar o setor no Ceará, e empreendeu uma série de projetos inovadores, inserindo o Estado no circuito cultural nacional, além de criar parcerias com organismos internacionais. Sua experiência como reitora da Urca garantiu importantes avanços para a Universidade, sobretudo pela sua preocupação com a preservação do grande potencial ecológico que representa a Chapa do Araraipe. Violeta Arraes nos deixa um legado de amor às coisas do Ceará e um exemplo de dedicação à causa pública".
Senador Tasso Jereissati


"Poucas pessoas no nosso Estado se dedicaram tão profundamente à valorização da cultura cearense quanto Violeta Arraes. Seu trabalho como secretária de Cultura e à frente da reitoria da Universidade Regional do Cariri será sempre lembrado e, de forma unânime, associado à marca de sua competência, seriedade, visão universal e, ao mesmo tempo, compromisso com os nossos valores regionais".
deputado Ciro Gomes (PSB-CE)


"Já decretei luto oficial por três dias. As bandeiras estão hasteadas a meio pau. Estou indo para o Crato, porque estava em Fortaleza, para conduzir as ações pessoalmente. Foi uma perda irreparavável.Como cidadã do Crato, deixa uma lacuna grande, foi uma grande liderança da nossa cidade. Foi reitora da Urca por muitos anos e teve uma atuação muito forte".
Samuel Araripe - prefeito do Crato


"O meu contato com ela, foi porque ela foi secretária de Cultura do Estado e eu a substituí na Secretaria de Cultura. Ela era secretária do Tasso e eu fui do Ciro. Ficamos amigos, mas já éramos um pouco. Era uma pessoa da maior importância, principalmente, pelo acolhimento às pessoas. Importante, como intelectual e como secretária. Muitas obras importantes, restaurou o teatro José de Alencar, trouxe a ópera Aída. Quando a obra foi levada, já era eu o secretário, mas dei continuidade. Uma perda muito sentida. Muitas pessoas daqui foram acolhidas por ela em Paris. Ela acolheu o pessoal (exilados da ditadura), o Miguel Arraes - irmão dela - e o Gilberto Gil. Tinha conhecimento para saber navegar nesses mares revoltos. Não era um atendimento superficial, ela acompanhava mesmo".
Augusto Pontes - compositor e ex-secretário de Cultura do Estado no Governo Ciro Gomes.


"É com muita tristeza que a Ordem dos Advogados do Brasil - Subseção de Crato - externa seu sentimento de pesar pela morte ocorrida hoje (ontem, 17 de junho), na cidade do Rio de Janeiro da ex-secretária da Cultura do Estado do Ceará e ex-reitora da Universidade Regional do Cariri (Urca), Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau".
Francisco Bacurau Bento - presidente da Ordem dos Advogados do Brasil - Subseção de Crato


"A maior contribuição que fica na história da cultura cearense dado pela Violeta foi o trabalho de preservação do nosso patrimônio material, a restauração do Theatro José de Alencar, uma iniciativa ousada que assegurou que o Brasil pudesse ter o único teatro preservado integralmente. Esse foi um trabalho de muito valor financeiro, mas, sobretudo, de determinação pessoal, já que Violeta conseguiu convencer o governador a fazer um grande investimento no mais importante patrimônio da nossa terra. Ela tinha a exata visão do que era importante na cultura mundial e fez o Ceará sintonizar com o circuito mundial da cultura. Aliou isso a um grande amor à terra, incentivo à cultura popular. Combinou ousadia, visão internacional e compromisso local".
Auto Filho, secretário da Cultura


"Foi uma notícia triste. Cheguei de viagem agora, eu a tinha visitado semana passada, no momento em que ela ainda tava lúcida e acordada. Foi um retorno de viagem nada agradável. Violeta deixa toda uma trajetória de marcas muito forte na vida cultural e política brasileira. Nos anos 60, quando estava na França, sua casa foi uma espécie de embaixada brasileira na Europa, acolhendo os exilados, desde os mais famosos até os mais anônimos. Ela fez um belo trabalho na Secretaria de Cultura do Ceará, deu status e personalidade. Iniciou um ciclo de grande agitação cultural no Estado. Na educação também fez ações maravilhosas. Transformou a Universidade do Cariri em padrão de excelência no Nordeste e no Brasil. Ela deixa o seu nome marcado, não só na história do Ceará, do Nordeste, do Brasil. Sempre com generosidade, perseverança e luta".
Luiz Carlos Barreto, cineasta

 

 

Theatro José de Alencar

 

A atuação de Violeta Arraes é destacada

por personalidades da cultura cearense

(Diario do Nordeste)


OSWALD BARROSO

 

“Ela foi a grande dama da cultura”, sintetizou o dramaturgo Oswald Barroso. Amigo de Violeta, Oswald diz que muito de sua visão sobre cultura foi transformada no contato com ela. “Ela trouxe uma mudança qualitativa nas gestões da área. Em políticas culturais no Ceará, pode-se falar em antes e depois de Violeta”.

 

AUTO FILHO


“Ela entendeu muito bem o que era essencial e prioritário a ser feito na esfera cultural. Elegeu em sua gestão a restauração completa do TJA. Se ela tivesse feito apenas isso em sua gestão, já teria se imortalizado como secretária da cultura. Mas a Violeta entendeu a importância e apoiou as culturas populares´, destaca o gestor. ´Foi uma mulher fiel à sua cultura caririense, tanto que era seu desejo repousar na região. Nós procuramos preservar o sentimento da Violeta, de ter coragem de fazer coisas grandes”.

 

MARIA BETHÂNIA

Sob o abalo da notícia


Contatada pelo Caderno 3, a cantora Maria Bethânia, que foi amiga de Violeta Arraes, ainda não havia tomado conhecimento do falecimento da cearense. A assessoria da cantora informou que Bethânia, abalada com a notícia, não teria condições de dar seu depoimento.



ALLEMBERG QUINDINS

Herança no Cariri



A vasta contribuição de Violeta Arraes à cultura cearense deixou um precioso legado também na região do Cariri. Em municípios como Nova Olinda, cujo teatro leva o nome de Violeta, Allemberg Quindins, diretor-presidente da Fundação Casa Grande, que reúne crianças em uma Escola de Comunicação do Sertão, lamentou a perda da amiga e apoiadora, com quem esteve no Rio de Janeiro, em 8 de maio último - dia do aniversário de Violeta.

´Tive a alegria de ter dona Violeta como amiga. E a Fundação Casa Grande teve a honra de tê-la como madrinha. Foi um exemplo de luta para a região´, diz Allemberg. ´No início ela não gostou muito de ter o nome no teatro de Nova Olinda. Achava que era uma forma de exaltação. A única forma de convencê-la foi quando expliquei que o teatro está no sertão e que os meninos do sertão precisavam de exemplos como ela. O Cariri teve como grande mulher Bárbara de Alencar e agora também Violeta Arraes. Quando ela deixou a URCA em 2004, me disse que daquele momento em diante viveria para a família e a Casa Grande´.

 

PLÁCIDO CIDADES NUVENS

Reitor da URCa


´Ela deixou uma grande lição da liderança que soube exercer em função da cidadania, com benefício para a sociedade nordestina, valorizando a cultura popular´, ressalta Plácido. ´Ela tornou a URCA amadurecida para a valorização da educação e da cultura´.



´Uma danada!´

MARCONDES ROSA


´Violeta era um grande ícone do Ceará´, associa-se o professor Marcondes Rosa, que foi amigo e assessor de Violeta. ´Dedicou toda a sua vida aos grandes ideais, como a redemocratização do Brasil. Socialista, abrigava toda a esquerda brasileira em Paris, todos os grandes artistas brasileiros, de Chico Buarque a Cazuza, todos eles tinham a Violeta como grande protetora´, enfatiza. ´Como assessor dela, vi grandes projetos, como o Fest Rio e o Pólo de Cinema e Audiovisual. Também realizou pontes com a moda francesa, colocou a renda cearense na moda de Paris. Era uma danada!´.

 

 

 

 

UMA PRIMEIRA-DAMA QUE VALEU A PENA

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

25/06/2008

 

Quando personalidades marcantes, daquelas que se distinguem no cenário nacional partem, para quem sabe outra dimensão, fica uma sensação de perda como se fosse a de um parente, de alguém próximo, apesar de não termos tido contato pessoal com essa figura. Assim, com certeza, se sentiram os brasileiros quando tomaram conhecimento da morte da ex-primeira-dama, dona Ruth Cardoso, ocorrido em 24/06/2008.

 

Essa comoção não é normal com relação às primeiras-damas. Geralmente elas não se destacam ofuscadas por seus maridos, sobretudo, quando estes são presidentes da República.

 

Algumas esposas de presidentes exercem ou simulam exercer certas funções de assistência social sem muita relevância. Outras se limitam a freqüentar ocasiões sociais ou acompanhar seus maridos em viagens para compor o quadro que os eleitores admiram: o da família bem constituída. Portanto, primeiras-damas podem ser também peças de marketing, figuras sem vida própria com tendência a resvalar para futilidades que os privilégios do seu status comportam.

 

Dona Ruth Cardoso fugiu à regra. Extremamente discreta, dotada de elegância sóbria e gestos comedidos, dona de invejável cultura, ela se destacou no cenário nacional pelo trabalho desenvolvido na área social e pela preocupação com os menos favorecidos.

 

Antes de mais nada, ela foi uma mulher como o são as mulheres de fibra, ou seja, foi primeiramente mãe. Assim, enquanto o marido Fernando Henrique Cardoso se dedicava aos estudos e fazia brilhante carreira, inclusive internacional como sociólogo, a antropóloga Ruth cuidou dos filhos do casal, o que fez com que sua trajetória acadêmica ocorresse mais lentamente que a dele.

 

Mesmo assim conseguiu defender o mestrado em 1970 e o doutorado em 1972. Num país como o nosso, em que se cultiva a mediocridade, a educação caiu ao seu nível mais baixo e não se premia o mérito, infelizmente essa enorme dedicação aos estudos é vista como coisa da elite ou algo desnecessário. Seria, então, preciso mudar nossa mentalidade para se reverenciar os que vencem por mérito.

Dona Ruth foi também professora e pesquisadora e, quando seu marido chegou à presidência da República, assumiu a presidência do Programa Comunidade Solidária. A partir daí foi uma primeira-dama incansável no combate à exclusão social. Menos pelo papel que lhe coube junto a Fernando Henrique e mais por sua consciência cívica, sua visão do país, seu sentimento de brasilidade.

 

Ruth Cardoso não foi a primeira-dama fútil das festas, o ornamento a desfilar junto ao marido, a deslumbrada exibindo jóias e roupas. Mas exerceu o papel para o qual seu preparo intelectual e seu sentimento de cidadã brasileira se conjugaram para fazer da discreta senhora uma pessoa participante do seu tempo, um ser humano útil a outros seres humanos.

 

Ainda assim, recentemente foi vítima desse tipo de sordidez que permeia o jogo político. O dossiê urdido nas tramas palacianas para denegrir o ex-presidente FHC através dos gastos pessoais realizados durante seu governo visavam atingir também dona Ruth. De forma firme, sem se intimidar, ela declarou publicamente que se mostrava indignada com a exploração política que estava sendo feita como os gastos pessoais do seu marido e familiares no período em que ele fora presidente. Realmente, uma abominação visando encobrir abusos de outros, estes sim, absurdos.

 

Dona Ruth, mãe, professora, primeira-dama atuante se foi para outra dimensão. Fica o Brasil em certo estado de orfandade num momento em que faltam mais mulheres dotadas de espírito público, mulheres solidárias, dignas, capazes de entender que cargo não é privilégio, mas encargo e que o fim último da política, como disse Aristóteles, é o bem comum. 

 

Dona Ruth Cardoso, à sua maneira fez política como se deve fazer.  Ela se foi, mas fica seu exemplo. O exemplo raro de como deve ser uma primeira-dama. Dona Ruth valeu a pena.

 

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga, professora, escritora.

 

mlucia@sercomtel.com.br      

 

 

 

Violeta ladeada pelo criador da Urca, Martins Filho, e pelos ex-reitores Edmilson e Teodoro Soares (à direita)

As cores de Violeta

Professor Teodoro
O Povo - 18/06/2008 

 

O Ceará perdeu ontem Violeta Arraes, nome forte da cultura cearense, que floresceu no Cariri, militou politicamente em Pernambuco, ao lado de seu irmão, então governador do Estado, foi exilada na França, de 1964 a 2002 e foi trazida ao Ceará pelo então governador Ceará Tasso Jereissati para ser titular da Secretaria da Cultura. No mandato seguinte, exerceu a reitoria da Urca por seis anos.

 

Conheci Violeta Arraes no início da década de 60, quando era seminarista em Olinda. Seu irmão Miguel Arraes era muito ligado a Igreja por meio do movimento Juventude Universitária Católica (JUC), em que Violeta militava na área cultural em parceria com meu professor Ariano Suassuna, o que fez estreitar nossos laços de amizade. Amiga do padre Hélder Câmara, Violeta fazia parte do Secretariado Nacional de Ação Católica.


Cearense de nascimento, com vivência em Pernambuco, Violeta Arraes, morou cerca de 20 anos em Paris. Alguns deles de forma involuntária. No primeiro dia do arcebispado de dom Hélder Câmara, Violeta Arraes foi visitar o amigo. O regime militar, que depôs do governo seu irmão, expulsou-os do Brasil. De volta à cidade luz, Violeta e seu marido Pierre Gervaiseau formaram uma espécie de embaixada para centenas de exilados brasileiros.


Foi aí que reencontrei Violeta, quando passei a estudar na França, em 1968, depois que terminei os estudos em Roma e decidi fazer pós-graduação. Fui freqüentador de sua casa e das freqüentes reuniões políticas que ela realizava em sua casa, para formar um grupo de apoio a Miguel Arraes. Violeta foi a primeira pessoa a me convidar a entrar na política. Lembro de alguns nomes famosos assíduos àqueles encontros, como Fernando Henrique Cardoso e Valdir Pires.

Coube ao governador Tasso Jereissati dar a oportunidade a Violeta de trabalhar também pelo seu estado natal. Sua posse na Secretaria da Cultura do Ceará, foi altamente prestigiada, com a presença de grandes nomes das artes brasileiras, além de quatro governadores do Nordeste, com boa cobertura da imprensa, merecendo duas páginas da revista "Veja", que destacou sua grandeza humana e prestígio em vários círculos.



Um dos fatos marcantes de sua gestão foi a reforma do Theatro José de Alencar, nossa principal casa de espetáculo. No segundo mandato do governador Tasso Jereissati, Violeta Arraes assume a reitoria da Universidade Regional do Cariri, região que foi berço de seu nascimento. Contou com o apoio de toda classe política cearense, principalmente do então presidente do Conselho de Educação, Marcondes Rosa. Ela deu prestígio à universidade e foi responsável pela visível melhora de sua infra-estrutura, as instalações físicas. Violeta também lutou, sem sucesso, pela federalização da Urca.



Parte Violeta, mulher de múltiplos talentos, de muitas cores, que honrou o Cariri, o Ceará e o Brasil. Que Deus a guarde em seu seio.



Professor José Teodoro é Deputado estadual, ex-reitor da UVA e da URCa

 

 

Violeta Arraes e Marcondes Rosa

 

DONA RUTH E VIOLETA

DO ALTO A OLHAREM POR NÓS

(No Grupo Ethos-paidéia)


JEAN KLEBER MATTOS (UnB)

Tenho a dizer que Dona Ruth era uma referência nacional de elegância, de aprumo, de cultura. Eu simplesmente a venerava quando em vida e agora me solidarizo com Fernando Henrique Cardoso e me junto aos demais amigos para honrar a sua memória e desejar-lhe uma luminosa jornada na espiritualidade.

MARCONDES ROSA DE SOUSA 

Sobre Dona Ruth, endosso, Jean Kleber, sua visão e palavras. Sobre sua morte, que, como a de Violeta Arraes, chocou-me. E, com ela, sobretudo, a proximidade entre as duas, que eram historicamente, muito amigas. 

 

Violeta me telefonava muitas vezes.  Os problemas com sua aposentadoria, estava eu a cuidar, na burocracia do Governo Estadual (dela e da minha).  Blanchard Girão, seu amigo e subsecretário, o fazia.  Mas, cardíaco, veio a falecer.  Maria Benigna, a filha, me telefonava sempre.  Violeta, voz já rouca, ultimamente, batia sempre papos políticos comigo.  Um mês atrás, voz muito fraca - estranhei.  E, por coincidência, para falar da visão de Dona Ruth sobre política "não assistencialista" dos programas de "redução da pobreza", cá lançados, com similares hoje no Canadá.

 

A morte agora das duas me faz recordar as circunstâncias do convite e da vinda de Violeta para ocupar o cargo de Secretária de Cultura e Turismo, no Governo de Tasso, no Ceará.  Eu, ao tempo, ocupava o cargo de Presidente da então TVE do Ceará.  Um dia, Tasso chama a mim e a Ariosto Holanda a seu gabinete.  Confessa que quer, no campo da cultura e do turismo, uma revolução. Aí começamos os três a lançar, sobre a mesa, nomes.  Até que ele me sonda de chofre: "E que tal sua amiga Violeta Arraes?"  Ariosto se assusta.  Mas noto que, na indagação de Tasso havia um "feeling" e uma quase decisão.

 

Na verdade, na administração de José Anchieta Esmeraldo Barreto, egresso do Cariri, terra de Violeta, fora eu Pró-reitor de Extensão, na UFC.  Anchieta, que gostava de chinelo, informalidades, um dia me convocara. E, de chofre, me foi jogando.  Queria pró-reitores, uns, para executar suas idéias.  Outros, porém - e este era meu caso, para referendar ações para as quais não tinha ele a menor idéia ou vocação. E, na extensão, gostaria de me dar carta branca.

 

Foi nessa linha que conheci Violeta, aqui a acompanhar o embaixador francês com propostas como as do Projeto França/Brasil, que terminaria por nos trazer coisas como a aproximação de nossas indústrias das confecções e artesanato, que terminaria por introduzir a renda cearense na moda parisiense e de New York, além da arquitetação, na UFC, de curso de estilismo.  Daí, a aproximação com o pessoal do audiovisual - muitos deles cearenses - que nos levaria, na UFC e no Estado, ao Simpósio Cinema e Literatura, a criação do Festival de Fortaleza do Cinema Brasileiro.  E, depois que chegou Violeta a Secretária, a grandes seminários internacionais, tanto no campo das comunicações como afinal a 5ª. Edição do FestRio, em sua 5a. edição.

 

Voltemos à reunião e a aproximação Violeta & Dona Ruth.  A reunião dos três, em Palácio (Tasso, Ariosto e eu), ultima-se com Tasso: "Mas não sou eu quem vai fazer o convite.  Conheço Violeta e ela vai, de pronto, negar-se.  Fica a incumbência com você, Marcondes".

 

Telefono eu para Paris.  Violeta, a cuidar do marido Pierre Gervaiseau, num hospital.  Transmito-lhe o convite de chofre.  Ela muda de assunto e, como Tasso esperava, bate-me o telefone.  Dois dias depois, tento de novo.  Ela me diz que dará todo apoio se, ao contrário, o escolhido for eu".  Termino por lhe dizer coisas como "Não sou irmão do Miguel Arraes, não sou ponte entre França e Brasil, não sou amigo pessoal de Gilberto Gil, Betânia, Cazuza, Chico Buarque" e por aí fui... Na minha argumentação, do "não sou eu" fui pondo sobre a mesa as potencialidades dela, sobretudo a da junção de toda a histórica esquerda. 

 

Depois de alguns dias, ela é quem me telefona para dizer: "Ruth (então primeira Dama)  está aqui, fui com ela a um estilista. Contei a ela de sua doidice”...  Dona Ruth teria dito: "Taí, desta vez, ele tem toda a razão. Aceite, que daremos, Fernando e eu, o maior apoio". Quando ia me alegrando, ela disse.  Dentro de uma semana, estarei aí mas, antes quero uma conversa, os dois.

 

E assim foi.  A condição dela é que a fosse assessorar.  Não aceitei cargo formal, ao deixar a TVE. Mas tão só o, sob licença da UFC, estruturar o Departamento de Audiovisual.  Primeira ação, o FestRio, que, nas brigas dos cineastas com Brizola, Tasso aceitou abrigar sua 5a. edição no Ceará.

 

A morte de Dona Ruth me relembrou, entre Violeta e Dona Ruth (e o casal) lembranças muitas.  E isso, me trazendo de volta o quanto Dona Ruth, como intelectual e mulher (tal qual Violeta) foi para a esquerda brasileira.  Cenas, em fotos, de FHC sobre rede cearense armada na casa de Violeta em Paris.  O lado "menino" - infantil até - de FHC, com quem convivi - e de maturidade de Dona Ruth.

 

Espero que, as duas "em outra vida" se dêem as mãos.  Olhem por nós.  E que nos façam, com sua seriedade e olhar, no reencontro com Celso Furtado, fazer com que o crescimento econômico realmente ""se metamorfoseie em desenvolvimento" que só será "sustentável" se a redução da pobreza abra caminhos para inclusão social para além do assistencialismo, em nosso ciclo como prognosticava meu ainda "guru maior", Celso Furtado, hoje a inspirar mais de 55 países no Centro Internacional Celso Furtado, onde Rosa Furtado, viúva do economista e amiga de Violeta Arraes, é coordenadora cultural: www.centrocelsofurtado.org.br/  e-mail:   rosa@celsofurtado.org.br.

 

JEAN KLEBER MATTOS 

É o que sempre digo, Marcondes. Sua experiência de convívio com alguns ícones incontestáveis da história recente do Brasil deve ungi-lo para dizer algo sobre os grandes projetos culturais e desenvolvimentistas da atualidade. Isso se chama predestinação. E nós outros, acólitos desta celebração, aqui estamos - e estaremos sempre – para auxiliar e aprender, pois os postos de comando da história são urdidos “lá em cima”.  Digamos que têm origem extraterrena...

 

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

 

 

UM VENTO COM SAUDADE DO DA SERRA DO CRATO

 

José do Vale Pinheiro Feitosa

 

"Eu sou...sou...eu sou um matuto...sou um matuto do da serra do Crato". E num ritmo discursivo, com pausas centenárias, completou sua homenagem concentrada, composta por três períodos apenas: "Ela foi quem me ensinou. O vento que circula no da serra do Crato é um vento com saudade do mar". Em seguida com a voz tolhida pelo choro retornou ao assento em que se encontrava. Alemberg, com a cabeça baixa e suas lágrimas formando um pequeno lago sobre as lentes dos óculos. Era uma saudade que não dispersava, sobretudo recolhia volume.

 

Na porta da pequena capela do Memorial do Carmo, o Rio de Janeiro era contemporâneo como o é. Por trás um grande vai e vem de policiais militares, helicópteros sobrevoando a área, a Avenida Brasil caudalosa, contraditória entre um Mercedes Benz conversível e as favelas de suas laterais. Na porta, enquanto esperávamos, o professor Cândido Mendes se espantava: eu não tinha consciência do quanto Violeta era conhecida no Rio de Janeiro. Cândido era um amigo da militância da juventude universitária católica dos idos dos anos cinqüenta de Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau.   

 

Um destaque para Bia Lessa. Desde os momentos críticos do CTI como uma mini deusa, sabendo que poderes não tinha para mudar o curso mortal, mas querendo para a amiga um final de dignidade. E que dignidade era essa? A humanidade de Violeta. Naqueles dias mesmo a pequenina, miudinha, quase nada, Bia tinha dado um valor estético inusitado para a campanha da moda no Fashion Rio. Mas no dia seguinte ela dizia: com um país feito o nosso aquilo não é nada. Era Bia e você esteve na altura de quem a conhece, de quem vai muito longe, pois sabe que o horizonte que esconde não é fim em si, é apenas a curvatura do cosmo. 

 

Entre os depoimentos, ouviram-se os dos filhos. São depoimentos, em quaisquer circunstâncias, muito especiais. Lendo texto de São Francisco de Assis, Eça de Queiroz  pela voz de um deles ou o mais jovem reconhecendo que o abandono que a militância da mãe lhe parecera era apenas o processo do encontro dele mesmo com a humanidade. Maria Benigna, Henri e Jean Paul, ao lado de um sofrido Pierre Gervaiseau. Pierre é um europeu muito disciplinado, sabe bem das dificuldades terceiro mundistas, mas por vezes quer uma resposta mais direta deste povo, quem o conhece pode imaginá-lo irritado naqueles embates. Não é bem assim e neste momento tem uma grandeza de compreensão e paciência própria de quem as possui. 

 

Quando a família abriu os depoimentos aos amigos, Turíbio Santos trouxe o depoimento pela interpretação de Villa Lobos. Uma arte apropriada àquela brasileira que pertence a um povo que tantos violonistas teve e entre eles este que tem nome ruidoso, inquieto mesmo. Mas este nome grego, Turíbio, recebeu a bênção de um candomblé sincrético, aquele de todos os Santos.

 

Almino, um intelectual de peso, escritor sólido, com a difícil missão de conduzir a Casa Ruy Barbosa do Ministério da Cultura, enfim uma pessoa importante. Sai do seu assento em que se encontrava e andou como um humílimo camponês. Posou com a leveza de uma ave sertaneja e do galho em que estava, extraiu a síntese da relação com a tia, repetindo a oração do anjo da guarda, verso a verso, enquanto o professor Cândido Mendes lhe fazia eco.  Nisso veio pela capela, como se fazia naqueles terreiros de cantadores, um homem e seu violão. Sentou-se num banco que às pressas lhe deram e tocou uma linda canção, música de seu filho e letra dele, que falava do sertão, do nordeste, destas eternidades que entram como categoria do todo. Caetano Velloso ainda retornou e repetiu, ao final da cerimônia e abriu a voz com: no meu cariri quando a chuva não vem/ Não fica ninguém somente Deus ajuda/ Se não vier do céu/ Chuva que nos acuda/ Macambira morre, Xique-xique seca, Juriti se muda. ...E em seguida Caetano cantou: apenas a matéria vida era tão fina.

 

A política nacional, da qual Violeta é matéria, não esteve como mera presença. Apenas oportunidade de mostrar-se. O governo de São Paulo deslocou membros seus, entre aqueles de maior expressão nacional, mas todos com um vínculo pessoal com Violeta: Aloísio Nunes Ferreira e Alberto Goldman. Carlos Augusto e Guel Arraes com suas esposas desde sempre ao lado da tia, estiveram como lembrança do grande amor que ela lhes tinha, sei que sabem, mas fica mais evidente quando dito por um terceiro que sozinho com ela tomou conhecimento de tal. Cacá Digues trouxe duas faces, aquela do nordestino universal igual Violeta e a outra de Nara que se tornou uma espécie de anjo sublime dos dias após em que Violeta ficou sem a amiga. E tantas pessoas fortes do universo estelar de Violeta entre elas, nestas falhas memórias, a Maria Elisa e a Cristina. E o Amir Haddad que entrou silencioso, como um personagem do seu teatro de rua, quase sem falar com ninguém, veio até a amiga, a fixou por algum tempo e, terminada a cerimônia, foi-se.

 

O texto central da cerimônia foi a narrativa do contexto histórico de Violeta na visão do professor de filosofia, diretor do museu de arte moderna, ex-dominicano, humanista e pensador Blanquart. Um ser como a humanidade de vez em quando extrai de seu movimento. Um francês que filosofa com o corpo, aliás isso é bem francês, poderia ser de quem da filosofia extraiu uma imensa revolução social, política e econômica e desta resulta o seu modo de capturar a vida nos séculos XIX e XX. Lendo em francês enquanto Cândido Mendes relia em português, aquele texto deveria retornar para o nosso silêncio reflexivo quando os fatos podem se alongar mais do que momentos.

 

Para completar Violeta o padre que realizava a cerimônia. Era um homem vindo dos sertões de Pernambuco, largado na periferia do Rio de Janeiro, junto ao ministério de capelas esquecidas. Recebeu a incumbência do ofício assim como uma rotina de sua vida. Por todo o tempo em que oficiava sua rotina se mantinha. Mas a partir de um certo momento, parece ter reconhecido Cândido Mendes, Alberto Goldman e Caetano Velloso e como ele mesmo humildemente repetiu: a ficha lhe tinha caído. Oficiava uma cerimônia para alguém muito importante.

 

Mas de todas as importâncias que pude extrair, uma que todos sentimos, mas talvez algumas pessoas do Crato não saibam. O quanto Violeta levou o nome desta cidade para a cultura brasileira. Talvez na cidade "tenha caído a ficha" do quê ela representou para si. E falo deste "" por saber que não é incomum que pessoas se alienem da sua própria realidade, cultivando um individualismo utilitarista que as reduz ao invés de ampliá-las.


           

Pedro Sisnando Leite

 

  CRESCIMENTO E DESIGUALDADE REGIONAL

 

                                                                       Pedro Sisnando Leite (*)

 

 

         È amplamente conhecido nos meios acadêmicos, e na observação da história econômica dos paises subdesenvolvidos, que apenas o crescimento econômico é insatisfatório para alcançar metas de redução da pobreza e obter melhor distribuição da renda. Entre as muitas razões porque há essa contradição, duas podem ser destacadas para demonstrar isso.

 

         Primeiro, os paises subdesenvolvidos que obtiveram elevadas taxas de crescimento do Produto Nacional Bruto (PNB), durante muitos anos seguidos, tiveram também incremento global do desemprego e do subemprego. Na verdade, a criação de novas oportunidades de trabalho nas atividades modernas foi inferior à taxa de crescimento do produto. Segundo, o crescimento do PNB foi acompanhado por um aumento na desigualdade da distribuição da renda, em termos relativo e absoluto, em alguns desses países, tanto em segmentos sociais como regionalmente.

 

         Esses dois fenômenos - crescimento do desemprego e incremento na distribuição desigual da renda - são de fato conectados. Nos níveis de mais baixa renda, com o crescimento da renda, as pessoas não conseguiram obter emprego no setor moderno, enquanto os ganhos do crescimento da renda foram concentrados nos grupos que já estavam empregados. Em conseqüência disso, na formulação de políticas que objetivem a redução da pobreza e uma melhor distribuição de renda, o crescimento deve ser colocado como um resultado e não como uma meta da política econômica. Os renomeados economistas Paul Streeten, Frances Stewart e o Prêmio Nobel em economia, Amartya Sen, por exemplo, defendem essa tese.

 

         É necessário, porém, estar atento para essa questão de crescimento da renda versus desigualdade. Podem ocorrer várias situações que confundem o leitor desavisado. Numa situação, por exemplo, em que a distribuição de renda é relativamente boa, uma taxa mais rápida de aumento da renda irá beneficiar todos os seguimentos econômicos e sociais desse país. Caso haja previamente uma forte concentração da renda e da desigualdade, certamente o crescimento se dará nos setores mais dinâmicos da economia, agravando a concentração da renda. É o caso do Brasil, onde o crescimento tem ocorrido nas regiões mais prósperas e segmentos mais modernos da economia.

 

         Em se tratando de economias subdesenvolvidas, com baixa renda per capita e condições de vida deficientes, entretanto, não há outra solução plausível para mudar tal situação que não seja através do crescimento da renda. Inclusive com taxas mais elevadas do que as de outros paises ou regiões. Somente assim será possível diminuir o hiato de renda entre eles. De outra forma, numa economia estagnada, seria tentar distribuir a pobreza ou retirar dos ricos, que estão viabilizando o crescimento, para transferir para outros setores menos produtivos. Não é isso que gera a prosperidade de uma economia.

 

         O crescimento econômico, portanto, é melhor do que a estagnação e pode contribuir para a criação de emprego e o aumento da renda. Mas as teorias do desenvolvimento econômico e a experiência prática provam que isoladamente isto não é suficiente para a redução da pobreza e da concentração da renda.

 

       Não basta crescer. Tudo depende do estilo de desenvolvimento adotado, da velocidade e dos setores que estão dando origem ao crescimento.  No Brasil, tradicionalmente o crescimento tem sido realizado através dos grandes empreendimentos de alta tecnologia, intensivos de capital com uso de pouca mão-de-obra, e situados principalmente em áreas urbanas. No Nordeste, a preferência são as zonas metropolitanas de Salvador, Recife e Fortaleza, onde se encontra o maior dinamismo econômico. Durante a fase do chamado milagre da economia brasileira, na década de 70, o Nordeste cresceu em média a uma taxa de 8-10% ao ano, em termos reais. Neste período, a renda per capita da Região dobrou. Esse desempenho foi semelhante ao que ocorre mais recentemente na China e na Índia, como grandes feitos dessas economias.

 

         É pouco ressaltado, no caso brasileiro, que essa fase de crescimento excepcional foi também a de maior concentração da renda, tanto em nível nacional como regional. Essas distorções colocaram o Brasil entre as nações de pior distribuição de renda do planeta. O Brasil ainda hoje é considerado, desse ponto de vista, semelhante às ex-colonias africanas como Serra Leoa e Namíbia em termos de desigualdades econômicas.

 

         Nos últimos vinte anos, estudiosos de todo o mundo estão concluindo que há necessidade de mudar o enfoque das políticas de crescimento da renda per capita para um novo modelo de qualidade no crescimento.  A busca dos paises subdesenvolvidos voltou-se para as estratégias que consideram o crescimento como um processo de melhoria da qualidade de todas as vidas humanas.  Para isso, precisam adotar sistemas econômicos, políticos, sociais e institucionais que garantam melhores oportunidades, dignidade dos outros e maior solidariedade com os pobres. Como já preconizava há décadas François Perroux, o desenvolvimento na verdade  é uma transformação cultural e social de uma nação ou região e não apenas aumentos da renda, exportações de mercadorias ou melhorias das infra-estruturas físicas.

 

         Com pequenas variantes, os melhores cientistas preocupados com esse assunto estão de acordo sobre alguns aspectos fundamentais para a obtenção de um desenvolvimento equilibrado, sustentável e com redução da pobreza. Como ocorreu nos   paises da Escandinávia, Japão, Formosa, para citar  apenas alguns casos emblemáticos. Esses ideólogos do desenvolvimento sustentam que   os paises empobrecidos devem seguir estratégias focadas na distribuição dos ativos fixos e na massiva acumulação de capital humano ( educação básica, capacitação de mão-de-obra ).  É fundamental que o crescimento seja direcionado para um desenvolvimento mais equilibrado onde a indústria seja o setor principal, mas a agricultura seja a base desse desenvolvimento.

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(*) Pedro Sisnando Leite é professor titular, aposentado, de desenvolvimento econômico da Universidade Federal do Ceará e Vice-presidente do Instituto do Ceará.  

 

Senador Tasso Jereissati

Obrigado, Violeta

Tasso Jereissati

O Povo - 28/06/2008 

 

É certo que temos muitos exemplos de mulheres que se destacaram nas artes, outras tantas comandaram grandes movimentos e programas sociais, muitas mais brilharam na vida acadêmica e na intelectualidade. Há também aquelas que se destacaram na política e hoje mais da metade dos cargos executivos de grandes empresas é ocupada por mulheres. Entretanto, confesso que não me vem à memória alguém que tenha se destacado tanto, e durante tanto tempo, em tão variados setores da vida nacional, quanto Violeta Arraes.

Do Araripe onde nasce, passando pelo Recife, pela PUC do Rio de Janeiro até o Centro Internacional de Economia e Humanismo, na França, onde conhece seu marido Pierre Maurice Gervaiseau, Violeta construiu as bases de sua cultura universal. Nela o refino intelectual europeu serviu principalmente para a compreensão da realidade brasileira, em todos os seus aspectos. Por outro lado o seu ser sertanejo nativo, não a deixava conformar-se, indo fundo na busca das causas e razões de nosso atraso, para depois tentar mudar esta mesma realidade.

Nesse sentido, Violeta era múltipla, agia em todas as áreas em que de alguma forma, pudesse emprestar sua força e seu talento contra tudo que ela considerasse errado ou injusto. Houve uma Violeta que conheceu o ainda Padre Helder Câmara, tornando-se sua assistente no Secretariado Nacional da Ação Católica. Outra Violeta que vai se dedicar às causas da educação, iniciando, com Paulo Freire, o Movimento de Cultura Popular, enveredando inclusive pelos caminhos do cinema novo e nos movimentos literários da vanguarda de então. Havia ainda a Violeta que vai se engajar politicamente trabalhando, ajudando e aconselhando seu irmão Miguel Arraes em inúmeras campanhas, mandatos e governos. É a mesma Violeta que vai lutar pela liberdade, pela anistia e pelo retorno à democracia. A Violeta do exílio, mão amiga de tantos despatriados, ainda encontra tempo para exercer a psicoterapia, na Clínica do renomado Dr. Widlocher. Surge então a Violeta que se torna adida cultural da embaixada brasileira em Paris, criando o Projeto Brasil - França, que entre inúmeras iniciativas e movimentos artísticos e culturais, dá luz e vez à cultura nordestina.

Vem então a Violeta Arraes que eu vou ter o privilégio e a honra de convidar para ser Secretária de Cultura do Estado do Ceará em 1988. É bom lembrar a situação do Estado, sem dinheiro nem para pagar a folha salarial. Violeta assume o desafio, com vitalidade juvenil e projetos revolucionários. À falta de recursos, ela emprestou seu nome e credibilidade junto a entidades internacionais de apoio à cultura, obtendo verbas para inúmeros projetos, revolucionando conceitos e estruturas. O mais marcante, o que pode resumir o que representou o trabalho de Violeta para o Ceará, foi a recuperação do Theatro José de Alencar, um símbolo para os cearenses, que se encontrava completamente abandonado. É dela o mérito de tudo de positivo que representou o renascimento daquele templo da cultura cearense. Não se tratava apenas da obra em si. Violeta idealizou uma série de projetos paralelos como os cursos de recuperação de obras de arte, em pintura e escultura, em madeira, ferro, bronze. A População vibrava e acompanhava de perto a obra e os projetos paralelos, num misto de descoberta e orgulho. Foi memorável o espetáculo de reinauguração do Theatro, idealizado por ela, em que o Maestro Koellreutter conduziu uma peça composta especialmente para a ocasião, que foi "executada" pelos operários da obra, utilizando os seus próprios instrumentos de trabalho.

Houve tempo ainda para a Violeta Reitora, dedicando os últimos anos de sua vida à Urca, onde distribuiu seu vasto conhecimento, formando gente e inspirando sonhos.

A todas essas Violetas, o Brasil e em especial o Ceará hoje rendem homenagem, reconhecendo a força e o trabalho de uma mulher admirável, que vai fazer muita falta. A todas elas, o nosso muito obrigado.

Tasso Jereissati - Senador/PSDB-CE

 

 

 


Ciro Gomes e Patrícia Pillar



O dever da indignação

Ciro Gomes
Deputado federal

  O Povo - 28/06/2008 

 

José de Alencar é um dos maiores orgulhos do Ceará. Expoente da literatura nacional e referência do Romantismo, deixou uma produção expressiva. Num de seus romances, intitulado Lucíola, de 1862, Alencar conta a história de Lúcia, por quem o personagem e narrador, Paulo, pernambucano recém-chegado ao Rio de janeiro, se apaixona. Lúcia é uma prostituta - a mais bela e requisitada da cidade. Segundo um amigo de Paulo, era "a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância". Com o tempo e o convívio, Paulo e Lúcia vão morar juntos, e um dia ela decide contar sua história. Seu nome verdadeiro não era Lúcia, mas Maria da Glória. Quando tinha 14 anos, seus familiares contraíram a febre amarela. Sozinha e sem dinheiro, procurou auxílio financeiro com um vizinho rico, que, em troca, tirou-lhe a virgindade. Acabou expulsa de casa e encaminhou-se para a prostituição. O dinheiro dos programas, guardava para a sua irmã casta, Ana. Maria da Glória morre de forma trágica nos braços de Paulo, depois de complicações na gravidez que matou o filho que o casal esperava.

 

Com muita freqüência somos condicionados pela ficção, pelas lendas, pelo folclore, pela mitologia ou pelo cinema a romantizar a prostituição, que surgiu na literatura já no épico de Gilgamesh, considerado o primeiro texto literário preservado da humanidade. Ainda que algumas felizardas tenham uma vida que as satisfaça, como no filme Uma linda mulher, interpretado por Julia Roberts, a maioria das prostitutas vive e morre na dificuldade, vítimas da gravidez indesejada, doenças venéreas, abuso sexual, violência de toda sorte. Durante a corrida do ouro no Oeste Americano, o censo contabilizava 300 prostitutas em São Francisco, Califórnia. Destas, 210 (70%) eram imigrantes chinesas, africanas e mexicanas.

 

Após a Guerra Civil americana, o número de prostitutas negras aumentou muito - empurradas para a "vida" pela falta de uma alternativa melhor. Num livro chamado Prostitution, trafficking and traumatic stress, a psicóloga e pesquisadora americana Melissa Farley mostra que a maior parte das prostitutas têm em seu passado uma história de negligência e abuso em suas famílias, isolamento, abuso sexual (como Maria da Glória), psicológico e físico, abuso de drogas e álcool. O livro estabelece uma relação de causa de efeito entre a violência doméstica e a prostituição. São jovens que deixam o lar onde eram subjugadas pelo pai ou pelo marido e, ao caírem na rede da prostituição, permanecem sendo subjugadas pelos cafetões que as aprisionam e pelos homens que contratam seus serviços em clubes de strip tease, casas de massagem, saunas, shows de sexo ao vivo. Da mesma forma que muitos homens casados se enxergam como proprietários de suas mulheres, os homens se enxergam como proprietários das prostitutas.

 

Num país feito o Brasil, o tema ganha uma conotação ainda mais grave quando se constata que algumas grandes cidades, como a Fortaleza de José de Alencar, têm se transformado em prostíbulos a céu aberto. De um lado da rua, hotéis expõem em suas recepções cartazes da campanha de combate à exploração sexual e ao turismo sexual. Do outro lado da rua, na praia, menores de idade oferecem seus serviços sexuais a turistas sem que as autoridades preocupem-se verdadeiramente com o futuro desta juventude. Existem duas formas de discutir este câncer nacional. Uma delas é criar uma ficção e tentar competir com José de Alencar, sugerindo que a mulher se prostitui por vontade própria, e conscientemente. Mais: sugerindo que todas as mulheres se prostituem de forma consciente e por vontade própria. A outra forma é manter-se com o pé na realidade e constatar que a exploração sexual deve ser enfrentada com a seriedade que o tema exige.

 

Calcula-se que 15% da população brasileira viva com renda inferior a um dólar por dia. Desse total, 40% são pessoas com menos de 18 anos. É a esta camada da população que devemos dedicar nossa atenção. É esta camada da sociedade que muitos políticos brasileiros sugerem estar fazendo a opção consciente pela prostituição. É uma juventude espremida pelos adultos. De um lado estão seus pais, que em vez de cobrar desempenho na escola, cobram a féria da atividade sexual. De outro, os turistas. A violência sexual que se pratica a céu aberto diz respeito à toda a sociedade. Às organizações não governamentais e aos governantes. O desafio que temos pela frente, e que deixa perplexas as pessoas de bem, é reverter este quadro.

 

Indignar-se com ele é muito mais relevante do que se espantar com uma expressão mais dura empregada para dimensionar a tragédia. Existe uma evidente inércia em relação ao tema, provocada talvez pela extensa lista de prioridades de um governo. É dever de todos nós trabalhar para impedir que crianças e adolescentes sejam empurradas para a prostituição como um caminho para a solução dos problemas financeiros de suas famílias. Tornam-se com isso objeto de dominação dos adultos e pais e acabam a vida como mercadoria. E aí mora um grande perigo. Todos nós nos preocupamos com os sites que nossos filhos freqüentam. Tememos que se relacionem com pedófilos. Nenhum de nós acredita que nossos filhos se relacionariam com pedófilos por vontade própria. E ainda assim tomamos os cuidados que a tecnologia oferece, como controlar a navegação, criar sistemas que impedem o acesso a sites de conteúdo pornográfico. Preocupamo-nos com o Orkut.

 

Não há dúvida de que devemos manter firme a vigilância. Mas há uma certa incoerência, ou no mínimo egoísmo da nossa parte, se nos espantamos com falta de limites da pedofilia na Internet, e toleramos que na vizinhança de nossas casas protagonizem-se cenas igualmente assustadoras envolvendo crianças e adolescentes sem nosso poder aquisitivo. Abuso é abuso, na rede mundial de computadores ou fora dela.