Grupos

Formação profissional

Antonio de Albuquerque Sousa Filho

O Projeto Rondon funciona à base do trabalho voluntário dos alunos que, uma vez selecionados, são treinados para suas tarefas e supervisionados por professores


O Povo - 14/07/2007 02:31

Uma importante etapa na formação universitária é a vivência da realidade externa aos campi, através de estágios e residências. Surgido em 1967, o Projeto Rondon criou oportunidade ímpar, possibilitando estágios em regiões geográficas diferentes da localização originária dos estudantes, na filosofia nacionalista de "integrar para não entregar". Deste modo, alunos das regiões sul, sudeste e nordeste puderam conhecer não somente a realidade amazônica - versão inicial do projeto - mas também puderam aproximar-se da realidade das comunidades do interior de seus próprios estados.

A implantação do programa, que envolveu mais de 400 mil universitários de 200 instituições de ensino universitário em 4 mil municípios, deu-se graças ao apoio estratégico das forças armadas, governos estaduais, municipais, bem como das próprias comunidades. O sucesso foi tal que muitos desses profissionais, uma vez terminados seus cursos, retornaram para trabalhar no mesmo local onde haviam estagiado durante o projeto, principalmente na região amazônica.

O Projeto Rondon funciona à base do trabalho voluntário dos alunos que, uma vez selecionados, são treinados para suas tarefas e supervisionados por professores das áreas de conhecimento especifico de atuação e acompanhados pela coordenação geral do Projeto Rondon estadual. As chamadas "operações", de que participam os alunos, ocorrem, geralmente, em período de férias ou nos fins de semana. Algumas universidades mantêm o chamado "campus avançado do Projeto Rondon", como é o caso da Universidade Vale do Acaraú (Uva), que dispõe de um na cidade de Reiriutaba, graças à visão do ex-Reitor Prof. Teodoro Soares.

O Projeto Rondon foi desativado em 1989, lamentavelmente, em virtude da mesma estreita concepção, que tantas vezes interrompe a continuidade administrativa em nosso país. Logo em 1990 foi retomado, porém, pela Associação Nacional dos Rondonistas - Projeto Rondon (uma ONG), e, a partir de 2003, pelo governo do presidente Lula, que reativou o projeto junto ao ministério da defesa. No Ceará o projeto Rondon vem atuando em vários municípios, com apoio de prefeituras e do governo do estado, havendo notícia da boa qualidade de seu trabalho por parte da população.

São experiências como essas que demonstram o potencial do Projeto Rondon, não somente para o desenvolvimento e integração do país, mas sobretudo para envolver e motivar nossa juventude na busca de uma nação mais igualitária e includente.

Antonio de Albuquerque Sousa Filho – Ex-reitor da Universidade Federal do Ceará

 

 

Olhar de Cristiane

Marcondes Rosa



O Povo - 09/07/2007 02:23

 

Na Web, lanço "Aspectos socioeconômicos do Ceará", de Cláudio Ferreira. Lima, para o Fórum Ceará. E, dos Inhamuns (Ce), chegam-nos de Cristiane Feitosa, contrapontos.


Liberdades políticas, fundamentais a construir, com emprego e renda, o desenvolvimento. Cristiane tem outro olhar: "Vivendo e trabalhando no interior (...) percebe-se que tal liberdade não existe. É pura utopia. Não há liberdade do povo e nem desenvolvimento". Relevante, diz Cláudio, o papel da educação na construção da democracia participativa, muito chão, no Ceará, por andarmos: "Do total, 603.522 são analfabetos e 1.598.126 têm o lo. Grau incompleto. Apenas 90.373 possuem superior completo". Contraponto: "(...) um dos interesses - seja ele municipal, estadual ou federal - de não haver investimento sério com a educação é formar os 'currais eleitorais' (...) mais fácil controlar o voto numa sociedade sem informação, que nos vem com a educação".


Cristiane é contra a "segurança protetora das bolsas": (...) leva à falta de mão-de-obra para trabalhos rurais (...) o trabalhador sabe que vai receber sem esforço algum... (...) "pai aposentado, mãe e cinco filhos maiores, ninguém trabalha mais (...) Vivem todos da aposentadoria do patriarca" (...) "Os filhos homens vivem na cachaça e partem para os assaltos (...) "A marginalidade, o alcoolismo e a prostituição estão aumentando". E conclui: "(...) base de tudo, a educação" (...) a levar o homem do campo a ficar no campo". Tudo, sob o lema do "não lhe dê um peixe, ensine-o a pescar".


Chegam-nos avais a Cristiane. Um deles, o da profa. Maria Adélia de Souza (USP), a propor "novo discurso político para o País": "Não há como refletir sobre o mundo novo, especialmente numa região pobre como o Nordeste brasileiro com as teorias, conceitos e significados do século XX".



Marcondes Rosa - Professor da UFC e da Uece


Degrau do amanhã

Marcondes Rosa de Sousa

Tempo de chamar de volta, mais maduro, o Projeto Rondon, a nos tecer a iniciativa social em novo pacto. Na pauta, os desafios: onde estamos e para onde vamos. Braços dados, a iniciativa social e a estatal, o hoje a construir-se degrau do amanhã


O Povo - 14/07/2007 02:31

Projeto Rondon, 40 anos! Não vou afagar saudades, chocando os fãs do caricato just in time, que, no passado, vêem "roupa velha que não nos serve mais". Passado é degrau na escalada histórica rumo ao amanhã, a construir-se do caos produtivo do agora.

Fiz parte da "geração tigresa", "gostava de política em 1966" ao formar-me, depois amarguei o "frenetic dancing days" do arbítrio. Mas, aos poucos, tornei-me ator entre os que pensaram a universidade, entregando-se, ora a seu planejamento, ora a derrubar, pela extensão, muros entre os jardins de Academo e a vida social. Foi quando senti a força de sua ação nas comunidades rurais e urbanas, no interior do estado e na Amazônia, com Chico Mendes, a integrar os saberes: o acadêmico e o popular, no prenúncio do "pensamento complexo" de agora, mãos dadas, na ação, a campos diversos do conhecimento.

Ao final dos anos 90, vi a UFC ligar-se ao projeto do Ceará e da região, ao recobrar e dar força à sua comunicação com o meio - instituições, governos, empresas - na troca de saberes. Sintonia com os novos tempos. Teoria e prática conciliadas pela extensão. A pesquisa a beber, no real, fonte e razão última suas de ser. E a buscar, da sociedade, apoio, recursos físicos e saberes outros nesta produzidos. Tudo, com vistas a estágios e empregos de seus alunos. Ensino, em sintonia com os novos tempos, com visão de fim, aberto às necessidades futuras, consciente de que mercados podem estar em crise ou em transformação.

Nestes anos 2.000, já no Conselho de Educação do Ceará, um dia, em reunião com o Banco Mundial, desabafei: "Trinta anos, postei-me no limiar entre a universidade e a sociedade, tentando um namoro, que resultou em um coito interrompido". Mas bons ventos logo após soprariam, vindos da iniciativa dita "privada", ao se reconhecer "social". Na Fiec, academias tiveram assento como "indústrias de capital humano", ali chamadas para programa a crescer de "responsabilidade social", a permear currículos do senso de solidariedade entre instituições em social iniciativa. E, passo seguinte, a integrarem, nesse esforço, os demais atores da educação social - movimentos sociais e políticos, igrejas, mídia etc. (Art. 2º da LDB).


Depois, os tempos de murici a nos despedaçar. Toda uma infra-estrutura implantada esfacelando-se à espera de que cabeças (intelectuais), mãos (os gestores), tato e corações (os políticos) compreendam que é da união que nasce a força, a costurar inclusão social e superação da miséria.


Tempo de chamar de volta, mais maduro, o Projeto Rondon, a nos tecer a iniciativa social em novo pacto. Na pauta, os desafios: onde estamos e para onde vamos. Braços dados, a iniciativa social e a estatal, o hoje a construir-se degrau do amanhã. Coisa possível no Ceará, onde o sol libertário sempre nasce mais cedo! É a esperança.


Marcondes Rosa - Professor da UFC e da UECE

 

 

EDITORIAL

Do legado do Projeto Rondon

 

É possível que o Projeto Rondon tenha se tornado uma proposta desperdiçada pela reabertura democrática


O Povo - 11/07/2007 01:48

 

Os veteranos do Projeto Rondon comemoram neste dia 11 de julho o 40º aniversário do surgimento do programa, em 1967, e que, durante os 22 anos de existência, engajou mais de 400 mil estudantes universitários de quase 200 instituições do ensino superior em todo o Brasil, atuando em cerca de quatro mil municípios do País.

Apesar de o projeto ter sido instituído durante o regime militar, na presidência de Arthur da Costa e Silva, num governo considerado de exceção, a inscrição de pessoas interessadas no Rondon era voluntária. Mesmo que no ano seguinte, 1968, tenha ocorrido o maior movimento de oposição estudantil, principalmente nas universidades federais, ao sistema então vigente, o projeto teve prosseguimento nos períodos posteriores do regime.

O mais importante na experiência foi o conhecimento de um Brasil que a nova geração de então ignorava, prestando serviços a populações desassistidas, inclusive nas fronteiras com as nações vizinhas. O projeto, com o nome, foi desativado em 1989 na reabertura democrática e propostas de continuidade nem sempre tiveram os resultados esperados. No governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), foi criado o programa Universidade Solidária, sem os mesmos desdobramentos.

O período em que o Rondon apresentava maior visibilidade era nas férias de final-começo do ano e de julho. É uma questão que, atualmente, parece ausente nas comunidades onde se mantém ensino superior. Universidade é ensino, pesquisa e extensão. De maneira nenhuma tem o objetivo apenas de obtenção do diploma de graduação e de outros títulos. Propostas como o Rondon agilizaram a concepção de campi avançados, num total de 23 em sua época. Isso é o que está faltando num Brasil no qual a juventude e pessoas de outras idades que cursam o ensino superior parecem menos entusiasmadas em causas e projetos do que por volta de 40 anos atrás.

Talvez seja difícil o ressurgimento do Projeto Rondon com o mesmo modelo original. Mas, é preciso conscientizar no aluno brasileiro algo como o então presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, preconizou no discurso de posse, em janeiro de 1961: “Não me venham perguntar o que o País pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pelo País”.

Ainda que isso deixasse de ser ressaltado, o Rondon tinha uma proposta participativa e comunitária no seu voluntarismo. É possível que a intenção fosse desideologizar o estudante universitário. Mas, pelo menos, apresentava uma alternativa num planeta então dividido pela Guerra Fria.

 

 

Rondon, 40 anos

 

Pedro Henrique Chaves Antero

O Povo - 09/07/2007 02:23


Hoje, em razão dos 40 anos de criação do Projeto Rondon, a Assembléia Legislativa do Ceará, por iniciativa do Deputado José Teodoro, faz Sessão solene de homenagem a essa grande iniciativa, nascida do Professor Wilson Choeri, chefe do Departamento Cultural da Universidade do ex-Estado da Guanabara, com o apoio do Coronel Sergio Mário Pasquali. O encontro dos dois homens de ideal e de visão aconteceu em 1967, num contexto de graves dificuldades políticas e sociais.

O Rondon nascia com o objetivo de levar as elites civis a conhecerem os "outros brasis" e a se tornarem, portanto, mais brasileiras. Choeri pensava no amanhã, época em que essa juventude estaria ocupando funções de responsabilidade no país. E sua idéia foi prontamente entendida pelo universitário brasileiro. Em 1969, uma equipe de universitários de Filosofia, de Mato Grosso, ao regressar de uma Operação nacional, assim se manifestou: "Esta viagem deu-nos uma certeza: não basta olhar o mapa do Brasil aberto sobre a mesa de trabalho ou pregado à parede de nossa casa. É preciso andar sobre ele para sentir de perto as angústias do povo, as suas esperanças, seus dramas ou suas tragédias, a sua história, a sua fé no destino da nacionalidade. Só então se compreenderá que a responsabilidade desta geração é simplesmente formidável".

O entusiasmo de ontem encontra nos dias de hoje razões mais profundas e mais complexas para o despertar da juventude. As crises políticas provocadas pelo relativismo ético, os problemas graves do meio ambiente e a ambição internacional em torno da riqueza natural da Amazônia ameaçam o futuro da nossa pátria. A mensagem do Rondon, pois, de solidariedade e de amor ao irmão desamparado é atual e atende aos sentimentos de muitos que estão dispostos a um engajamento desinteressado.


Pedro Henrique Chaves Antero - Professor de Ciências Políticas

 

Em busca do amanhã

 

 

Marcondes Rosa

 

      O Povo - 11/06/2007 02:34

   

 

 

          O aljôfar da chuva embaraça-nos o pára-brisa do carro, este, qual pé grácil e nu de Iracema, a correr matas, rumo a Ipu e Ipueiras. Estrada, a do Canindé, onde São Francisco se faz “irmão dos lascados”, ávidos de esmola. Nada de acauã, “chamando a seca p’ro sertão”. Tudo verde! Secas ali ocultam águas. Tudo na mesma paisagem, como neves perenes entre esquimós (Celso Furtado). Nela, toponímias deslizam-nos ante os olhos. Rara a produção de alimentos. Crescentes, agressões à ecologia.  

 

          Bica do Ipu, afinal. A mirá-la, o Corcovado da Caatinga. A seus pés, o Jatobá, a sepultar os álacres banhos de rio de nossa infância. À sua margem, casebres sufocados pelo peso de parabólicas a portar o abraço entre o local e o global. O Caravelle recebe-nos com a hospitalidade dos tabajaras, embora a clamar por um turismo a enredar-se no solidário, em ecológicas teias. Escolas, muitas. Míopes ainda do porto das profissões e das mãos dadas entre os cidadãos. A juventude, hoje a cavalgar motos, entregando-se à bebida pelas estradas, ruas e noites sem amanhã, em ruidosas quebras da lei do silêncio.  No cartório de imóveis, o evocar dos ruídos dos bacamartes a estender as questões fundiárias aos limites do “enquanto resistência houver”. Mas, sempre, o quebrar a flecha da paz. Assim, o prefeito, o “Neném do Cazuza”, a reeditar Wordsworth – “criança, o pai do homem”, olhos em busca de amanhãs.

 

          Alto da Serra. Matriz de São Gonçalo, Sítios Buriti e Lagoa dos Tavares, onde tem curso a agricultura familiar. Riquezas históricas, culturais e naturais. “Bicas”, “pingas”, cristalinas águas, ruínas históricas. Mas, violência a plantar, nas estradas, “pedágios” exigidos aos aposentados, vindos dos limites com o Piauí.

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          Terra de vaqueiro cabra-macho? Não, de Iracema, a porção feminina da alma nacional!

         

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          Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará e da Universidade Estadual do Ceará. Escreve quinzenalmente.

 

 

 

 

 

ENTRE O ONTEM E O AMANHÃ

 

                       

Pedro Sisnando Leite*       

                      

     Assisti à solenidade de recriação da SUDENE, na sede do Banco do Nordeste, no Passaré. O presidente Lula liderava uma comitiva de ministros, governadores e parlamentares. Muitos convidados estavam presentes, inclusive eu e algumas poucas pessoas da "velha guarda" do Banco, testemunhas da história regional.


     Os discursos foram de mensagens sobre um novo tempo, a começar pelo do Presidente, que cumpria uma promessa de sua campanha eleitoral: criar uma nova SUDENE. A estrela desse evento, contudo, foi o mestre Celso Furtado. Pelo semblante das pessoas, creio que poucos se aperceberam da mensagem do saudoso professor. Lembro-me, em parti­cular, da afirmativa de que o Nordeste de hoje não era muito diferente daquele que conheceu quando estava como superintendente da SUDENE. "O Nordeste cresceu economicamente, mas o seu drama social continua igual ou pior". Dias antes, aliás, ele havia revelado, em entrevista: "Fiz muito, mas não o essencial, que era enfrentar à miséria do campo”. De fato, a reforma agrária anunciada no Primeiro Plano Diretor da SUDENE nunca pode ser executada, inclusive a implantação do modelo de colonização no Maranhão (COLONE).

 

      Naquele momento, recordei-me da festa de lançamento da SUDENE, 34 anos antes no Teatro Princesa Isabel, no Recife. Encontrava-me, en­tão, em missão como estagiário do ETENE/BNB e participei desse evento. Estavam, na comemoração, o presidente Juscelino Kubitschek, todos os governadores do Nordeste, muitos ministros, parlamentares e o povo. Na ocasião, não havia preocupação de segurança e tive a oportunidade de apertar a mão do simpático líder nacional.


     Os discursos foram muito aplaudidos, especialmente o do professor Celso Furtado. O jovem ídolo da SUDENE não escolheu palavras e disse que chegara o momento do Nordeste, o qual jamais seria o mesmo. Disse: "Agora começa uma nova fase de progresso e extermínio das de­sigualdades econômicas e sociais". Acreditei. E trabalho até hoje para a concretização  desse sonho! Certamente, muitas pessoas pensam e agem também com esse objetivo.

 

      Daquele momento em que foi anunciado pelo presidente Lula a cria­ção da renovada SUDENE, até hoje, passaram-se muitos meses e anos. A nova Comissão de Desenvolvimento Regional do Senado, presidida pelo Senador cearense Tasso Jereissati, realizou muitas reuniões e viabilizou todos os ajustes necessários dessa matéria através de um substitutivo ao Projeto de Lei de autoria do Senador Antônio Carlos Magalhães.


     As autoridades convidadas para opinarem sobre o assunto, detentoras de renomado conhecimento no campo do desenvolvimento econômico, divergiram sobre o mérito e oportunidade da iniciativa. Pessoalmente en­caminhei aos assessores da referida Comissão ponderações argumentando que a recriação do órgão regional não se justificava por­que as realidades atuais são totalmente diferentes do que ocorria no início da década de 60.

 

     Os Estados estão mais preparados institucionalmente e não vão se submeter à autocracia que geralmente domina tais organizações do Go­verno Federal. Mesmo que a SUDENE conte com um Conselho Deliberativo, será demasiadamente burocratizado e politizado, conforme a proposta idealizada. A formatação do federalismo da Constituição de 1988 atribuiu também aos Estados uma grande autonomia administrativa e financeira. Alem disso, a Lei não determina claramente o montante de recursos que será disponibilizado para a Região.

 

     Uma das idéias é redirecionar os atuais recursos do Fundo Constitu­cional do Nordeste (FNE) administrados pelo Banco do Nordeste, para participação acionária em empresas e para obras de infra-estrutura. É retirar parte da capacidade de investimento do BNB com fins produtivos para obras de baixo impacto de renda e emprego duradouro. Seria como deixar de investir em atividade com retorno de uma relação capi­tal/produto, como se diz tecnicamente, de um ou dois de investimento para gerar uma unidade de produto para aquela que exige vinte unidades de investimento para um de produto em longo prazo.


     Por outro lado, os recursos do FNE já são do Nordeste por determina­ção constitucional. O que a nova SUDENE deveria fazer era trazer novos recursos orçamentários, para assim fortalecer a capacidade produtiva re­gional, com a construção ou manutenção da infra-estrutura existente. De minha parte, acredito como dizia o saudoso Dr. Rômulo de Almeida, pri­meiro Presidente do BNB, "O que o Nordeste precisa é de mais recursos e ação e não de estudos e projetos".


     Falta também uma política nacional de desenvolvimento regional, com objetivos claros e estratégias, metas e responsabilidades bem definidas. Rumos para que os Estados saibam o que devem fazer, assim como evi­tar clientelismo e corrupção.

 

       E verdade que o Nordeste tem crescido e se transformado setorial­mente. As regiões metropolitanas evoluíram e se modernizaram. Mas a agricultura ficou praticamente estagnada e o interior esquecido a sua própria sorte. Temos agora um subdesenvolvimento industrializado. De­sigualdades, pobreza e milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza (cerca de 25 milhões) das quais a metade são constituída de miseráveis, vivendo com renda de 1/4 de salário mínimo.

 

      Enfim, precisamos agora de novas políticas. Estamos entre o ontem, que teve os seus encantos e suas razões  de ser e um futuro que a Divina Providência tomará conta. A nós, hoje, cabe idealizar, propor e defender um novo modelo de desenvolvimento econômico com eqüidade, respeito a  dignidade dos marginalizados e liberdade de oportunidades para todos. Um lugar onde ser rico não seja uma ofensa, mas a miséria e a corrupção não prevaleçam; e o desgoverno não torne a vida da sociedade uma tragédia.


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*Pedro Sisnando Leite é professor titular de economia da UFC/Caen, téc­nico do BNB e secretario de Desenvolvimento Rural do Ceará de 1995-2002. É membro do Instituto do Ceará, da  Academia Cearense de Ciên­cias e da Academia de Ciências Sociais do Ceará.

 

 

 

Visão de futuro

Marcondes Rosa

O Povo - 23/07/2007 03:26 

        Foram, no Centro Administrativo do Banco do Nordeste do Brasil, 73 minutos a nos envolver em emoção. Isso, ao término de encontro a retomar repisadas vias para o andar da região nordestina: "O longo amanhecer" cinebiografia de Celso Furtado" (título de livro homônimo de Celso). Ali, conosco, José Mariani, seu diretor.

A aridez monetarista cedia lugar à sensibilidade artística. Mostrava-nos o vocacionado escritor, que levara, para a economia e a política, o tato na busca da superação dos dramas de nossa gente. O nordestino, que criaria a Sudene, a divisar nas secas, qual a neve aos esquimós, limitação sim, mas riqueza. E um Brasil a ter, em seus contrastes, justo sua potencialidade maior, uma história onde ciclos (econômicos e políticos) esgotam-se, cedendo uns, lugar aos demais.

O filme é aula sobre o que somos. Intelectuais e economistas depõem sobre nossos contrastes, dramas, potenciais e riquezas. Celso, ressaltado como o sensível negociador, olhos postos no "onde estamos" e na visão futura e concreta do "onde chegar" e do sonho. Ele, o persistente criador da Sudene, ministro do planejamento, no exílio, à frente depois de nossa cultura, após a redemocratização. O filme é metáfora bem posta desse futuro possível, eivado, porém, de óbices e desvios. Mas de firme, possível e alcançável horizonte. Há que chegar à escola formal (em todos os níveis) e aos "agentes sociais" da educação (mídia, igrejas, movimentos sociais). E, justo quando o protesto de Luiz Gonzaga e Zé Dantas parece esquecido: “uma esmola, para um homem que é são, ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

Pelo tato, ao professor Mariani, os parabéns. A nós, a lembrança de que o porto da educação é o "mundo do trabalho" e da "prática social" (LDB). Ou seja, o integrado "profissional, cidadão e pessoa" (CF).

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECE