Grupos

 

Um homem público

Antonio de Albuquerque Sousa Filho
O Povo - 28/06/2008 13:59

 

O governador Virgilio Távora foi um autêntico servidor público, colocando os interesses do estado acima de quaisquer outros. Como governante, implantou pela primeira vez o planejamento (Plameg I) no Ceará, cujas diretrizes e ações permitiram trazer a energia de Paulo Afonso para Fortaleza. VT estabeleceu ainda os planos estaduais de rodovias, eletricidade, comunicações, de abastecimento d´água de Fortaleza e, sobretudo, impulsionou a política de industrialização, consolidada com o estabelecimento do Distrito Industrial, além de ampliar a educação pública, através da criação dos anexos do Liceu. Tudo o que veio depois disto, com outros governos, construiu-se sobre essas bases lançadas por Virgílio.

 

Em seu segundo governo, VT consolidou o princípio da administração por resultados (Plameg II), acompanhando diariamente o andamento dos projetos através da "sala de situação", criada junto à sede do governo e coordenada pela professora Terezinha Xavier (UFC). Mantinha às segundas-feiras reuniões com todo o secretariado para análise das atividades governamentais; cada secretário despachava diretamente com o governador pelo menos uma vez por semana. Adotou ações inovadoras, como o chamado "projeto pronto" , que possibilitou a construção de quarenta mil novas unidades habitacionais em todo o estado, destacando-se os conjuntos Lagamar, Santa Terezinha, Santa Cecília, São Miguel e Campo do América, em Fortaleza. Pavimentou 1534 km de rodovias estaduais; ligou todos os municípios do estado à rede de telefonia fixa, bem como à de tv. Construiu o açude Jaburu, na região da Ibiapaba, o que possibilitaria, posteriormente, o surgimento de atividades hortigranjeiras e de produção de flores na região. Instalou o Centro Administrativo do Estado, no Cals.

 

Na área do turismo, foi criado o Centro de Artesanato Luiza Távora, a internacionalização do Aeroporto Pinto Martins, a duplicação da pista Crato-Juazeiro e a conclusão do estádio do Castelão. Na educação, foi duplicado o número de escolas e implantado o programa de educação rural, a "cartilha da Ana e do Zé", o Estatuto do Magistério, o Centro de Treinamento de Professores e efetuou-se um levantamento de todas as escolas do estado e de todos os municípios, relativamente a necessidades de pessoal e treinamento, material e instalações físicas. Infelizmente, as administrações posteriores não deram seguimento a este esforço.

 

Virgílio Távora era um executivo capaz de auto-crítica, a ponto de dizer a seus auxiliares: - "Se eu der uma ordem errada, alertem-me!". Como secretário de seu governo durante dois anos, muitas vezes o vi recuar, assumindo responsabilidade pessoal com relação a ações iniciadas. Por outro lado, havia oportunidades em que ele assinalava a importância social e econômica de um determinado projeto, por mais que implicasse em dificuldades políticas e resistências de determinados setores, sustentando integralmente a sua realização.

 

Decorridos neste mês vinte anos de seu falecimento, vale lembrar que Virgilio Távora foi deputado federal, senador, ministro de estado e governador (por duas vezes). E que terminou seus dias tendo que vender os bens, inclusive a residência onde sempre viveu. Nos dias atuais, em que vemos políticos e dirigentes colocarem seus interesses pessoais acima dos coletivos, é sempre importante lembrar de homens como Virgílio Távora, verdadeiramente imprescindíveis.



Antonio de Albuquerque Sousa Filho - Professor Aposentado da UFC. Secretário de Educação (1979-1981) durante o governo de Virgílio Távora

 



 

Dona Ruth

 

José Rosa Abreu Vale

 O Povo - 28/06/2008 

 

Guardo de Dona Ruth a imagem de uma mulher competente ao definir conceitos; rigorosa e objetiva ao expor método de observação da realidade; solidária e prática ao estimular o envolvimento na ação.

 

Encontrei-a muitas vezes, seja como secretário do Trabalho e da Ação Social, seja, mais tarde, como membro do Conselho da Comunidade Solidária. Ela tinha um apreço especial por projetos desenvolvidos no Ceará. Mais de uma vez aludiu ao carinho que tinha por Dona Renata Jereissati e por seu modo eficiente de interagir com o trabalho social.

 

Nas reuniões do Conselho, manifestava a inteligência da antropóloga que perscrutava os movimentos sociais, o rigor da socióloga que diagnosticava os obstáculos e as potencialidades dos municípios e a competência da pedagoga social que mediava a interlocução dos mais diversos segmentos econômicos e culturais. Era impressionante vê-la promover o diálogo entre ministros, empresários, especialistas de vários campos e países, líderes dos movimentos sociais urbanos e representantes de pequenas comunidades rurais do Brasil profundo.

 

Dona Ruth soube firmar as iniciativas da Comunidade Solidária em princípios sólidos: o fortalecimento da capacidade de pessoas e grupos como agentes de seu auto-desenvolvimento; o direcionamento dos projetos para as áreas geográficas e setores mais pobres da população; a parceria entre múltiplos atores, públicos e privados, como estratégia para ampliar os recursos investidos na área social; a descentralização e participação da comunidade para maior eficiência das ações; a avaliação para medir custos e resultados, bem como replicar os programas em larga escala.

 

Impossível não compartilhar o sentimento de quantos lamentam a morte de Dona Ruth. Impossível esquecer que sua presença continuará viva e atuante nas conquistas resultantes dos muitos projetos que semeou no chão da realidade de nossas populações em busca de inclusão.

 

José Rosa Abreu Vale - Professor

 

Ruth Cardoso (Agamenon Bezerra)

14:32 @ 01/07/2008

 

Ruth Cardoso

Agamenon Bezerra
 
O Povo - 28/06/2008

 

Nunca é demais repetir o que hoje é consenso geral: a inesperada morte da antropóloga Ruth Cardoso representa uma perda irreparável para o Brasil, assim como para as ciências sociais brasileiras, nas quais atuou com dedicação e competência.

 

Ruth Cardoso não gostava (e talvez com razão) de ser chamada de "primeira dama" quando seu marido era presidente. "Coisa dos americanos", dizia. Tímida e um pouco refratária a jornalistas, muito menos gostava do título, sempre usado por eles, de "ex-primeira dama". Ela era, e sempre foi, muito mais do que estes rótulos passageiros sugerem. Era a mulher do presidente Fernando Henrique, é verdade. Foi sua dedicada companheira por várias décadas, desde os velhos tempos em que cursavam a Universidade de São Paulo. Mas nunca foi um apêndice dele. Intelectualmente ombreava-se com ele nos títulos acadêmicos e, em muitos aspectos, até mesmo na qualidade dos trabalhos que produziu. Respeitada pelo mundo afora como antropóloga brilhante, suas realizações como cientista social nada deixam a desejar à trajetória intelectual do seu famoso marido.

 

Ruth Cardoso deixa o Brasil mais triste e mais pobre. Sua simplicidade, firmeza e dignidade são qualidades raras no mundo de hoje. E ela as tinha em abundância. Sóbria, independente e discreta, impunha-se com delicadeza e sem ostentação, características da mulher superior que era. Simples de gestos e democrata de ação, tratava a todos com igualdade, respeitando a individualidade alheia independentemente de engajamentos político-partidários ou inclinações ideológicas. Deixa um exemplo, alguém já o disse muito bem, "de elegância sem afetação, de naturalidade sem demagogia, e de firmeza sem arrogância". Foi, realmente, mesmo não querendo o título, a primeira dama do Brasil.



Agamenon Bezerra - Cientista Político

agabdasilva@yahoo.com.br

 

 

Eduardo Galeano

Eduardo Galeano, as palavras e a alma da América Latina

 

No dia 3 de julho, os países do Mercosul concederam a Eduardo Galeano o título de primeiro Cidadão Ilustre da região. Estas foram suas palavras de agradecimento.

 

Redação - Carta Maior

***

 

Colar de histórias

 

Nossa região é o reino dos paradoxos.

 

Tomemos o caso do Brasil, por exemplo:

 

paradoxalmente, Aleijadinho, o homem mais feio do Brasil, criou as mais altas belezas da arte da época colonial;

 

paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e a poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que mais alegria ofereceu em toda a história do futebol;

 

e, paradoxalmente, Oscar Niemeyer, que já completou cem anos de idade, é o mais novo dos arquitetos e o mais jovem dos brasileiros.

 

Ou, por exemplo, a Bolívia: em 1978, cinco mulheres derrubaram uma ditadura militar. Paradoxalmente, toda a Bolívia zombou delas quando iniciaram sua greve de fome. Paradoxalmente, toda a Bolívia terminou jejuando com elas, até que a ditadura caiu.

 

Eu conheci uma dessas cinco obstinadas, Domitila Barrios, no povoado mineiro de Llallagua. Em uma assembléia de operários das minas, todos homens, ela levantou e fez todos calarem a boca.

 

Quero dizer só uma coisinha — disse —. Nosso inimigo principal não é o imperialismo, nem a burguesia, nem a burocracia. Nosso inimigo principal é o medo, e nós o carregamos dentro.

 

E, anos depois, reencontrei Domitila em Estocolmo. Havia sido expulsa da Bolívia e ela tinha marchado para o exílio, com seus sete filhos. Domitila estava muito agradecida pela solidariedade dos suecos, e admirava a liberdade deles; mas tinha pena deles, tão sozinhos que estavam, bebendo sozinhos, comendo sozinhos, falando sozinhos. E dava-lhes conselhos:

 

Não sejam bobos –dizia-. Fiquem juntos. Nós, lá na Bolívia, ficamos juntos. Mesmo que seja para brigar, ficamos juntos.

 

E como tinha razão.

 

Porque, digo eu: existem os dentes, se não ficarem juntos na boca? Existem os dedos, se não ficarem juntos na mão?

 

Estarmos juntos: e não só para defender o preço dos nossos produtos, mas também, e, sobretudo, para defender o valor dos nossos direitos. Bem juntos estão, mesmo que de vez em quando simulem brigas e disputas, os poucos países ricos que exercem a arrogância sobre todos os outros. Sua riqueza come pobreza, e sua arrogância come medo. Bem pouquinho tempo atrás, por exemplo, a Europa aprovou a lei que transforma os imigrantes em criminosos. Paradoxo de paradoxos: a Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha a porta no nariz dos invadidos, quando eles querem retribuir a visita. E essa lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a sermos comidos e a viver com medo.

 

Medo de viver, medo de dizer, medo de ser. Esta nossa região faz parte de uma América Latina organizada para o divórcio de suas partes, para o ódio mútuo e a mútua ignorância. Mas somente estando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos amestrou para o medo e a resignação e a solidão e que cada dia nos ensina a não gostar de nós mesmos, a cuspir no espelho, a copiar em vez de criar.

 

Ao longo da primeira metade do século dezenove, um venezuelano chamado Simón Rodríguez caminhou pelos caminhos da nossa América, no lombo de uma mula, desafiando os novos donos do poder:

 

Vocês -clamava o sr. Simón-, vocês que tanto imitam os europeus, por que não imitam o mais importante, que é a originalidade?

 

Paradoxalmente, não era ouvido por ninguém este homem que tanto merecia ser ouvido. Paradoxalmente, chamavam-no louco, porque cometia a sensatez de acreditar que devemos pensar com nossa própria cabeça; porque cometia a sensatez de propor uma educação para todos e uma América de todos, e dizia que a quem não sabe, qualquer um engana e a quem não tem, qualquer um compra, e porque cometia a sensatez de duvidar da independência dos nossos países recém-nascidos:

 

Não somos donos de nós mesmos - dizia. Somos independentes, mas não somos livres.

 

Quinze anos depois da morte do louco Rodríguez, o Paraguai foi exterminado. O único país hispano-americano verdadeiramente livre foi, paradoxalmente, assassinado em nome da liberdade. O Paraguai não estava preso na jaula da dívida externa, porque não devia nem um centavo para ninguém, e não praticava a mentirosa liberdade de comércio, que nos impunha e nos impõe uma economia de importação e uma cultura de impostação.

 

Paradoxalmente, depois de cinco anos de guerra feroz, entre tanta morte sobreviveu a origem. Segundo a mais antiga de suas tradições, os paraguaios nasceram da língua que os nomeou, e entre as ruínas fumegantes sobreviveu essa língua sagrada, a língua primeira, a língua guarani. E em guarani falam ainda hoje os paraguaios na hora da verdade, que é a hora do amor e do humor.

 

Em guarani, ñe´é significa palavra e também significa alma. Quem mente a palavra, trai a alma.

 

Se dou minha palavra, estou me dando.

 

Um século depois da guerra do Paraguai, um presidente do Chile deu sua palavra, e deu-se.

 

Os aviões cuspiam bombas sobre o palácio de governo, também metralhado pelas tropas de terra. Ele havia dito:

 

Daqui eu não saio vivo.

 

Na história latino-americana, é uma frase freqüente. Foi pronunciada por vários presidentes que depois saíram vivos, para continuar pronunciando-a. Mas essa bala não mentiu. A bala de Salvador Allende não mentiu.

 

Paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile chama-se, ainda, Onze de Setembro. E não se chama assim pelas vítimas das Torres Gêmeas de Nova York. Não. Chama-se assim em homenagem aos verdugos da democracia no Chile. Com todo o respeito por esse país que amo, atrevo-me a perguntar, por simples senso comum: não seria hora de mudar-lhe o nome? Não seria hora de chamá-la Avenida Salvador Allende, em homenagem à dignidade da democracia e à dignidade da palavra?

 

E atravessando a cordilheira, pergunto-me: por que será que o Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar nascendo?

 

Paradoxalmente, quanto mais é manipulado, quanto mais é traído, mais nasce. Ele é o mais nascedor de todos.

 

E pergunto-me: Não será porque ele dizia o que pensava e fazia o que dizia? Não será por isso que ele continua sendo tão extraordinário, neste mundo onde as palavras e os fatos muito rara vez se encontram, e quando se encontram não se cumprimentam, porque não se reconhecem?

 

Os mapas da alma não têm fronteiras e eu sou patriota de várias pátrias. Mas quero culminar este viagenzinha pelas terras da região evocando um homem nascido, como eu, aqui pertinho.

 

Paradoxalmente, ele morreu há um século e meio, mas continua sendo meu compatriota mais perigoso. É tão perigoso que a ditadura militar do Uruguai não conseguiu encontrar nem uma única frase sua que não fosse subversiva e teve que decorar com datas e nomes de batalhas o mausoléu que erigiu para ofender sua memória.

 

A ele, que se recusou a aceitar que nossa pátria grande se quebrasse em pedaços; a ele, que se recusou a aceitar que a independência da América fosse uma emboscada contra seus filhos mais pobres, a ele, que foi o verdadeiro primeiro cidadão ilustre da região, dedico este título, que recebo em seu nome.

 

E termino com palavras que escrevi para ele algum tempo atrás:

 

1820, Paso del Boquerón. Sem virar a cabeça, você afunda no exílio. Estou vendo, estou vendo você: desliza o Paraná com preguiça de lagarto e ao longe se afasta flamejando seu poncho esfarrapado, ao trote do cavalo, e se perde na mata. Você não diz adeus à sua terra. Ela não iria acreditar. Ou talvez você não sabe, ainda, que está indo para sempre.

 

Acinzenta-se a paisagem. Você está indo, vencido, e sua terra fica sem alento. Irão devolver-lhe a respiração os filhos que nasçam dela, os amantes que a ela chegarem? Aqueles que dessa terra brotem, aqueles que nela entrem, far-se-ão dignos de tristeza tão funda

 

Sua terra. Nossa terra do sul. Você será muito necessário para esta terra, Dom José. Cada vez que os cobiçosos a firam e humilhem, cada vez que os tolos acreditem que está muda ou estéril, você fará falta. Porque você, Dom José Artigas, general dos simples, é a melhor palavra que ela já disse.

 

 

Tradução: Naila Freitas / Verso tradutores

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15091


 

 

 

Belo, o apelo à sedução

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 07/07/2008 

 

 

Postos, os candidatos à Prefeitura de Fortaleza.Ponto acordado, a feição feminina da cidade: a “loura desposada do sol” (Paula Ney) e Iracema, a “morena virgem dos lábios de mel” (Alencar). O belo, a transversalizar a campanha, sob a pauta do “só amamos o que nos agrada os sentidos” de nossos filósofos. Isso, apelo tanto aos munícipes como poder de sedução aos turistas - a cidade feita portal de entrada num quebrar da flecha entre Iracema e o “guerreiro branco”.

 

Nessa linha, Ciro Gomes abre a discussão. Com “dever de indignação”, denuncia-nos o distorcido turismo aqui plantado como “prostituição a céu aberto”. Em contraponto, é a própria população que, num crescendo, já expressa seu “cansei”, em meio a seu conviver arranhado, nos diversos sentidos. Visão poluída - no centro, bairros, ruas, alamedas e bosques. Decibéis enervantes a nos azucrinar os tímpanos, dia e noite - dos buffets, casas noturnas, carros de som... Nas lagoas, rios e mangues, poluições olfativas a hospedar infecções e dengues. O direito de ir-e-vir a nós tolhido nas ruas, vias, vielas, insuficientes e esburacadas. Serviços de saúde, em nada a cuidar do corpo e da alma dos mais precisados. Escolas, trancadas na corporação de si próprias, sem as passarelas da responsabilidade social a abraçar seu entorno (famílias, bairros, a cidade) - aqui, entre as piores do Estado, do País e do globo...

 

Aplausos ao belo a acordar esta Fortaleza dita bela. É a vez, sim, de as oportunidades de trabalho, em dueto com os sadios turismo e lazer dêem-se as mãos como na versão madura da fábula “A cigarra e a formiga”.

 

É o que esperamos de nossos políticos, ainda vistos como o mitológico Narciso ou a madrasta de Branca de Neve, a nos indagarem: “Existe alguém mais belo que eu?”

 

Que acordem! É o que todos nós esperamos.



Marcondes Rosa de Sousa  é Professor da UFC e da UECe



Cid Gomes e Beni Veras

 

Agenda para o Ceará

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

O Povo - 21/07/2008 

 

A convite do presidente do Centro Industrial do Ceará, Robinson de Castro e Silva, estive, no auditório da Fiec, para assistir a palestra e debate com o governador Cid Gomes sobre "Agenda para o Ceará", eufêmica sugestão em lugar de nosso apregoado "sem projeto"... À entrada, folder e, em sua capa, a missão do aniversariante CIC: "induzir, entre empresários e profissionais liberais, a construção coletiva do desenvolvimento sustentável do Ceará".  

No auditório, diversificados atores. Pontual, Cid Gomes, com sua equipe e políticos. Direto ao aviso. Antes, em palácio, 5 horas de exposição e franco debate, ali a "enxugar-se" em duas horas. Assim foi, em meio a adesões, debates, franqueza, ênfase nos projetos estruturantes, pelos diversos campos, orientados para o emprego e a renda, a nos fazer cidadãos.  

Ao final, um governador, vez primeira, é convidado para descerrar retrato do último ex-presidente e de galeria em caricatura dos ex-presidentes. Cumprimento-o. Digo-lhe eu haver omitido ali preocupações com a educação, a arte, cultura e turismo, desde os 80, de grande impacto para a inclusão social. A ele, os parabéns pelo apelo ao mundo intelectual em seu papel de verbalizar e soldar esforços. Ele me diz concordar, lamenta a inesperada morte do reitor da UFC, ávidos os dois pelo reatar de tais laços.  

Observo a galeria dos ex-presidentes do CIC (1977-2008). Em mim ecoa a voz de um deles: "O CIC infelizmente não é mais o mesmo"... Outro, o meu sentir. É que os tempos agora são outros: o solidário ora se faz das dissonâncias a compor produtivos acordes. Essa, a lição que, de volta aos anos 80, levou-me à reinauguração do ora aniversariante Theatro José de Alencar: o maestro Koellreutter a reger ruídos da obra, vozes em desencontro, a mostrar-nos dissonâncias em harmonia!  

Marcondes Rosa de Sousa, Professor da UFC e da Uece, e-mail: marcondesrosa@gmail.com