
A irresistível força da inércia
Paulo Elpídio de Menezes Neto
O Povo - 23/08/2008
"O mal do governo não é a falta de persistência, mas a persistência na falta"
Aporelli, o Barão de Irararé
Não sou dos que acreditam que a autoflagelação seja meizinha indicada para os males da inépcia. Vez por outra, entretanto, é necessário um mergulho nas águas turvas dos nossos desalentos para de lá extrair lições que nos permitam compreender porque erramos tanto, durante tanto tempo em relação aos mesmos passos improvisados. A educação, entre nós, está na categoria de alto risco, alarme laranja, pelos desacertos acumulados, cuja responsabilidade deve ser compartilhada, com humildade, pelos governos, pelos educadores e pela sociedade, réus sem apelação das omissões históricas, da perseverança no erro e dos modismos importados ou engendrados nas oficinas da burocracia educacional com a serena cumplicidade dos agentes do Estado e seus legisladores.
Repassando sumariamente registros correntes divulgados pela mídia, é possível construir, sem que nos surpreendamos tanto, um quadro sombrio da educação brasileira. Há mais de doze anos, tentamos implantar um sistema de avaliação da educação superior, sem que cheguemos ao fim e ao cabo dessa tarefa. Cada ministro que chega, definem-se novas regras, as anteriores são relegadas ao esquecimento, e a tarefa é reiniciada ao som triunfal das grandes revelações anunciadas. A realidade, essa pouco muda. Dados recentes demonstram que a carreira de professor para o ensino fundamental e médio atrai apenas 11% dos alunos de cursos superiores - e precisamente os mais despreparados. 83% desses professores, mostra a Unesco, denotam insatisfação com o que ganham e os meios de que dispõem para o exercício das suas tarefas. O ensino básico piorou, em relação ao ano de 1995, tomados como referência os resultados alcançados pelos alunos em matemática e português. Destaque-se, entretanto, por justo e meritório, o avanço alcançado com a introdução de alguns exames e indicadores de avaliação, como o ENAD, o ENEN e o IDD, com base nos quais podemos conhecer o retrato real dessa situação, sob muitos aspectos, desoladora.
Na educação superior, o Brasil tem menos alunos matriculados na rede pública do que os demais países latino-americanos, segundo a Unesco. A nossa melhor universidade, assim reconhecida - a USP - em um "ranking" mundial de universidades eleitas pelo seu desempenho acadêmico e científico não passou do 200º. lugar, prosaica medalha de bronze, em um campeonato acirrado de instituições de porte.
As universidades federais mal saíram de um longo jejum orçamentário para receber as migalhas distribuídas - espécie de bolsa universidade, tipo "fome zero" --, mediante contrato de adesão às imposições de uma controvertida estratégia educacional. Novas universidades foram criadas, "campi" avançados viram a luz do dia, uns na esteira de uma expansão necessária, outros como instrumento de uma política de afirmação das ações "inclusivas" e "afirmativas", para dentro e para fora das nossas fronteiras. Uma universidade, nos pampas, voltada para o MERCOSUL, outra, no ABC paulista, para os trabalhadores. E uma universidade para a união dos povos da África, em Redenção, no Ceará. Dissipação de oportunidades e gesto perdulário de quem pretende ignorar alternativas confiáveis.
Valem essas referências para demonstrar quão distantes andamos, em concepção estratégica, no plano da economia do conhecimento, do que pensam e agem alguns países, confrontados, a sério, com os desafios da educação superior. A França, preocupada em assegurar melhor classificação para as suas universidades em nível mundial, investe pesadamente na construção de novos "campi", na infra-estrutura dos meios e insumos para o conhecimento e no treinamento de professores e pesquisadores. A China pôs punha em execução um plano audacioso de construir dez Universidades de Harvard em dez anos, com investimentos sem precedentes.
Um comentário final, bem a propósito. Na campanha que precedeu a eleição do novo Reitor da UFC, nesta última quarta-feira, apenas um dos candidatos, o professor Jesualdo Farias, assinalou com pertinência o que se espera uma universidade possa oferecer: excelência acadêmica, desenvolvimento da pesquisa, integração com o setor produtivo, inserção no plano internacional, capacitação docente, adequação da formação em nível de graduação às condições e exigências da sociedade e da economia. O resto vem por acréscimo e conseqüência. A universidade mede-se e avalia pela sua qualidade e a capacidade de produzir bens de conhecimento de boa qualidade. Está aí o seu compromisso com a sociedade. Este o desafio do próximo reitor da UFC.
Paulo Elpídio de Menezes Neto - ex-Reitor da UFC e ex-Secretário Nacional de Educação Superior do MEC.
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