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AMOR: TOLERÂNCIA OU COMPREENSÃO?

 

Maria Ivôni Pereira de Sá 

 

Tolerância e compreensão têm significados diversos, embora não antagônicos.

Compreender é apreender, com o outro, seus talentos, suas fraque­zas, seus gostos, suas dificuldades, anseios e fragilidades, visando “co-la-bo-­rar” (isto é, trabalhar com ele) em sua “construção”, na busca da superação de obstáculos e na atualização do seu potencial. É ajudá-lo a definir seus li­mites, a projetar-se, a recuar quando a razão assim sugerir. É favorecer, ao outro, oportunidade para ousar e crescer, sempre respeitando a si, como pes­soa material e espiritualmente, e o outro, a quem deve amar como a si mesmo.  

 Tolerar é aceitar, geralmente com amargura, o outro que se nega como filho de Deus, como ser solidário. É justificar, já na infância, as birras da criança, os primeiros atos destrutivos e egoístas, a preguiça para trabalhar pelo seu crescimento como pessoa. É aceitar como característica do jovem os primeiros “pegas” de carro, suas grosserias para com os mais velhos e os mais fracos como busca de autenticidade. É omitir-se, esquecer que os adultos - pais e educadores – têm a obrigação de iluminar o caminho do educando.

                 

A mera tolerância, pela permissividade que gera, desperta, no indiví­duo, uma sensação de desamor – a impressão de que para o outro ele não conta – e faz despertar, na criança e no jovem, o instinto autodestrutivo ou violento, aquele demonstrado pela depressão, este pela revolta.

 

Certa vez, ouvi de um jovem que seus pais não o amavam porque, há tempos sofrendo ele de problemas dentários, mas com medo de ir ao dentista, foi-lhe permitido ficar assim, somente tomando paliativos, até per­der de vez e de forma mais brutal os seus necessários dentinhos. Compa­rava-se ao seu vizinho também medroso, mas cujos pais periodicamente o levavam ao dentista para prevenir as cáries; arrematava a sua reflexão di­zendo que o seu colega além de hoje exibir um belo sorriso estava se tor­nando cada dia mais corajoso e desinibido diante da turma.

           

O amor não se define pelo doador, mas por quem o recebe. Nesse caso o que para os pais era uma sofrida demonstração de compreensão e respeito ao filho; para o filho “cheirava” a descaso, pouca valorização de sua pessoa – causa de tristeza e revolta.

 

Maria Ivôni Pereira da Silva é professora aposentada e educadora da Universidade Federal do Ceará, tabeliã do Município de Aquiraz, ex-integrante do Conselho de Educação do Ceará.

 

 

 

 

 

Celso Furtado

 

Marcondes Rosa de Sousa

Observo, sem a pessoal envolvência, nossa vida política, procurando entender-lhe infidelidades e apetites fisiológicos. Volto a Maquiavel (1523), nos conselhos ao Príncipe: descer à planície para entender os montes; alçar os montes para conhecer a planície. Ou seja: postar-se príncipe para ouvir reclamos do povo; ouvir o povo para poder ser príncipe. Retorno a 1983, quando me coube convidar o então retornado ao País idealizador da Sudene a pedido de JK, para nos falar sobre "Perspectivas para o Desenvolvimento da Região Nordestina", em seminário promovido pela UFC e O POVO.

Releio o texto de Celso Furtado. E, nas fitas já rotas, ouço os gritos dos muitos, nos jardins da reitoria, a reclamar os espaços mais amplos da Concha Acústica. Celso nos fala do avanço das potencialidades e limites da região. Mas critica o descompasso entre crescimento e desenvolvimento, agravado num país em crise, recessão e desgoverno. Passo primeiro, repensar a nação, no contexto do global/ regional. Caminhos, a reforma agrária, a resistência aos efeitos da seca (estio e irrigabilidade, como se esquimós a conviver com as geleiras). Indústria e mercado regional, via mais rápida para a inclusão social pelo emprego. Em suas palavras: "O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, funda-se na preservação dos privilégios das elites, que satisfazem seu afã de modernização. Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento".


Hoje se apregoam em dueto as duas figuras, tocadas porém por ministérios e poderes em sensível atropelo. A hora é de ouvir o que pensa Celso Furtado, vivo em sua obra imortal, acreditada no mundo inteiro.

MARCONDES ROSA DE SOUSA é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (Uece). Escreve quinzenalmente. E-mail: marcondes1943@yahoo.com.br.

(Do Jornal “O Povo