Amor: tolerância ou compreensão (Ivoni Sá)
17:32 @ 19/09/2006

AMOR: TOLERÂNCIA OU COMPREENSÃO?
Tolerância e compreensão têm significados diversos, embora não antagônicos.
Compreender é apreender, com o outro, seus talentos, suas fraquezas, seus gostos, suas dificuldades, anseios e fragilidades, visando “co-la-bo-rar” (isto é, trabalhar com ele) em sua “construção”, na busca da superação de obstáculos e na atualização do seu potencial. É ajudá-lo a definir seus limites, a projetar-se, a recuar quando a razão assim sugerir. É favorecer, ao outro, oportunidade para ousar e crescer, sempre respeitando a si, como pessoa material e espiritualmente, e o outro, a quem deve amar como a si mesmo.
Tolerar é aceitar, geralmente com amargura, o outro que se nega como filho de Deus, como ser solidário. É justificar, já na infância, as birras da criança, os primeiros atos destrutivos e egoístas, a preguiça para trabalhar pelo seu crescimento como pessoa. É aceitar como característica do jovem os primeiros “pegas” de carro, suas grosserias para com os mais velhos e os mais fracos como busca de autenticidade. É omitir-se, esquecer que os adultos - pais e educadores – têm a obrigação de iluminar o caminho do educando.
A mera tolerância, pela permissividade que gera, desperta, no indivíduo, uma sensação de desamor – a impressão de que para o outro ele não conta – e faz despertar, na criança e no jovem, o instinto autodestrutivo ou violento, aquele demonstrado pela depressão, este pela revolta.
Certa vez, ouvi de um jovem que seus pais não o amavam porque, há tempos sofrendo ele de problemas dentários, mas com medo de ir ao dentista, foi-lhe permitido ficar assim, somente tomando paliativos, até perder de vez e de forma mais brutal os seus necessários dentinhos. Comparava-se ao seu vizinho também medroso, mas cujos pais periodicamente o levavam ao dentista para prevenir as cáries; arrematava a sua reflexão dizendo que o seu colega além de hoje exibir um belo sorriso estava se tornando cada dia mais corajoso e desinibido diante da turma.
O amor não se define pelo doador, mas por quem o recebe. Nesse caso o que para os pais era uma sofrida demonstração de compreensão e respeito ao filho; para o filho “cheirava” a descaso, pouca valorização de sua pessoa – causa de tristeza e revolta.
Maria Ivôni Pereira da Silva é professora aposentada e educadora da Universidade Federal do Ceará, tabeliã do Município de Aquiraz, ex-integrante do Conselho de Educação do Ceará.