
FORA A POLÍTICA. É POSSIVEL?
Marcondes Rosa de Sousa
· As vendedoras de sonhos
Veja: http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia/Index.html?action=view&post=19937
Rosa da Fonseca, uma das "vendedoras de sonhos", a integrar a dupla Maria Luísa Luíza Fontenele (primeira mulher prefeita de Fortaleza, colega minha, professora na UFC) me telefona. Quer conversar comigo sobre os sonhos do grupo agora, depois que Maria e outros retornaram das comemorações, na França, dos internacionais movimentos a refletirem sobre o movimento ali de 68, a se espraiar pelo globo. Lá, o Grupo esteve presente, considerado, no mundo, um dos mais organizados, atuantes e maduros, de lá emitindo programas e cobertura, via Web, e por radiodifusão sonora, em emissora de Fortaleza.
E isso, justo quando me envolvia eu com a cata de títulos e documentos de minha história-de-vida, para ação de "danos morais" contra inexistente empresa a contra mim praticar sucessivos estelionatos, temática do artigo "Notícia de Jornal", que escrevi e aqui divulguei, e, ainda, para depor com vista a entrevista a compor programa na hoje "TV Ceará", ex-Televisão Educativa do Estado do Ceará (TVE), da qual fui presidente no primeiro governo de Tasso Jereissati, de onde, Violeta Arraes me levou para dirigir o então criado Departamento de Audiovisual da Secretaria de Cultura, Turismo e Desportos do Estado.
· Preocupação com o futuro
Brincando comigo, Rosa instiga-me: "Deixe o passado para depois. Nossa preocupação e conversa é sobre o futuro" (rsrs). Felizmente, a visita/entrevista, em minha residência, pela equipe de produção da TV Ceará, seria transferida para outro dia. E, logo após almoço, recebi Rosa, chegada no carro de Maria Luíza, estacionado, a esperá-la, frente à minha residência.
Rosa e Maria queriam estratégias para levar o movimento à frente. Na verdade, desde a crônica "As vendedoras de sonhos", que lancei, anos atrás, na Rádio Universitária, muita gente externou seu sentimento a se identificar com o que chamei "meu lado adolescente", ao qual devotava tributo. A crônica, em realidade despertou, em muitos, até no meio judiciário e no campo político enfim, reações positivas, muita gente a se identificar com o sufocado "lado adolescente" nela insinuado...
Um dia, no aeroporto, em viagem de delegação do Ceará a uma partidária convenção nacional - era eu então membro do mais alto conselho do PSDB no País, quando, no aeroporto, me cai, do bolso, um recibo de contribuição minha ao grupo de Rosa e Maria. Um assessor de Tasso, na frente de todos, em voz alta, tentou me "queimar" no partido... Para sua desilusão, porém, ouviu de Tasso (que a mim recorria ao diálogo com a esquerda, em suas mais diferentes facções, em seu governo) o seguinte comentário, entre risos: "Mas eu também contribuo!".
· Falência do mercado
De Rosa, recebo, de Robert Kurz, em português, traduzido do alemão, o artigo "Por água abaixo – A conjuntura mundial começa a desmoronar-se – HTTP://obeco.planetaclix.pt/ HTTP://www.exit-online.org/ , que se conclui com o tópico a seguir, sobre a falência do mercado:
(... Com tudo isto, não se trata de um clássico movimento cíclico. Há quase 30 anos que a conjuntura da economia real perdeu a sua sustentabilidade própria. O sobe-e-desce da economia mundial tem sido cada vez mais comandado pelos mercados financeiros autonomizados. A causa não foi a "avidez" dos especuladores, mas a incapacidade de o capital mobilizar trabalho humano, como substância da criação de valor real, à escala necessária, sob as condições da 3ª. Revolução Industrial. De fato, a "revolução neoliberal" não pôde suplantar a fraqueza estrutural do crescimento que veio à luz do dia nos anos 70. Em vez disso, o mercado mundial, incluindo o volante da exportação asiática, tem sido suportado por orgias de endividamento e bolhas financeiras. O reverso foi desemprego em massa, sub-emprego e baixos salários. Agora, chega ao fim a onda longa do crescimento financeiramente induzido".
· Movimento sob o lema “Fora a política!”
É, nesse contexto, que o grupo liderado pelas "vendedoras de sonhos" decidiu não mais pertencer a um partido político nem pleitear candidaturas. E assumir sua postura, faz já alguns anos, do "voto nulo". E, pasmem vocês, com a radical postura agora do "fora a política". Vale dizer, do "banir a política" da vida dos cidadãos. Tal postura, de pronto, assustou-me, por não se tratar apenas de um protesto ou clamor contra o comportamento de nossos políticos. Em verdade, temos ouvido, de forma crescente, verdadeira onda geral, em nossa sociedade, contra nossa política – e, sobretudo, contra o comportamento de nossos políticos, em particular. Até mesmo entre os próprios políticos, cada qual a condenar os colegas...
Dias atrás, em palestra e discussão sobre a reforma tributária, tendo como conferencista o Senador Tasso Jereissati, relator da matéria no Senado, após o elogio ali de todos os no auditório principal da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, vi-o desabafar: "Não acredito que tal reforma saia. Em nossa política, vivemos, lamentavelmente, um interesseiro e generalizado clima do toma-lá-dá-cá"..."
Dias depois, na Assembléia Legislativa do Estado do Ceará, conversava eu com deputado estadual, um dos dois únicos ali a fazer oposição ao atual governo de Cid Gomes. O mesmo que fez a denúncia da sogra de Cid a acompanhá-lo, no carnaval, em périplo por diversos países, num jatinho fretado. Na conversa, ele, pessimista a respeito da defesa dos professores universitários do sistema estadual de ensino – o assunto do qual tratávamos - virou-se para mim e desabafou: "E você ainda acredita em político?" Eu, então, a ele indaguei: "Você não acredita nem mesmo em você, que é político?". E ele, talvez sem pensar, respondeu-me "não, nem em mim"...
· Tempos em que o PDT cabia em uma Kombi
Foi aí que lhe lembrei cena, nos anos 80, quando aqui vinham, para o meio acadêmico, personalidades como Celso Furtado e Darcy Ribeiro. E lhe disse que Darcy Ribeiro, intelectual e político do partido de tal deputado, recebi-o, pró-reitor, na UFC. Ele, numa camionete, acompanhado do Prof. Flávio Torres da Araújo, também da UFC, hoje suplente da senadora Patrícia Sabóia pelo PDT (ele sogro de minha filha, os dois, ele e eu, esperando agora a única netinha) e a ex-deputada federal Moema Santiago. Um PDT, que, à época, cabia, com folga, numa Kombi. Aí, concluí: "E, no entanto, Darcy Ribeiro superlotou, com as mais de 5.000 pessoas, a Concha Acústica...
O mesmo, em 86 aconteceria com Celso Furtado, aqui, no Auditório Castelo Branco, a unir, em torno do que se converteria depois no Movimento "Pró Mudança", a partir do Ceará, onde, com certeza, ele próprio, o deputado ora a não acreditar nem nele mesmo, teria estado, por certo, nos dois eventos...
· Enterrar a política faz-se preciso
Voltemos ao choque que o "Fora Política" me provocou. O folheto diz: "Já foi anunciada a morte da política. Mas ainda não seu sepultamento" E nos assegura: "Enterrar a política, pois, é preciso". Tudo, para que afinal possamos "compreender bem o que é a política, sua fantástica trajetória e sua crise final". E, por fim, o convite para o "Ato-show Fora Política! Não vote! Alternativa Já", em 12 de setembro, na Praça do Ferreira, em Fortaleza.
Rosa me pede apoio para tal movimento a crescer. A ela, confesso estranhar a luta "contra a instituição política" e não contra o comportamento dos políticos. Certo que se teçam críticas de nossa sociedade aos políticos – a sociedade a não enxergar, nos políticos, espelho dela própria, ambos em crise no que toca a fins e valores.
Por instantes, na conversa, reconheço que, mais do que nunca, o mundo se converte numa "... seara de Caim" – título de livro que, ao concluir o hoje extinto Seminário da Imaculada, em Campinas (SP), recebi como prêmio por meus estudos. E tal lembrança me levou aos iniciais momentos quando o Criador, no Éden, do "barro do chão", criou, à sua própria imagem e semelhança, nossos pais, Adão e Eva. A partir daí, com o "crescei e multiplicai-vos" faria do casal, sua imagem. Em outros termos, Adão e Eva assumindo seu caráter sociopolítico, inato no ser humano.
· Engasga-me o sepultar da política
Rosa me pede ajuda, no projeto do grupo por um sepultar da ... política, para que nos seja possível abrirem-se outras perspectivas: as de um mundo sem política. Mas o sepultar da política confesso que me intriga, engasgando-me até... Prefiro fazer a política voltar ao projeto divino e humano. Em outros termos, vendo, na sã política, retornada a seu inicial berço, instrumentos pelo qual o Criador acompanharia sua "imagem e semelhança", salvando-a dos dilúvios e enviando seu próprio filho, para levar à frente tal projeto sobre a terra...
Num flashback, retorno ao Gênesis, a Moisés e as tábuas da lei, quebradas por este e por outros, em alguns momentos e ciclos da história humana. E, num rápido survey repasso, em minha imaginação, o Livro Sagrado, em seus capítulos até o Apocalipse. E, a transversalizar a longa jornada da humanidade, ali diviso a política, no cajado de profetas, reis, governantes enfim, a tanger os caminhos do homem sobre a terra.
Em tal curso, vejo a humanidade, herdeira ora de Caim, ora de Abel. E a ciência política, sob esse dialético diapasão, ora o ser humano visto "lobo do homem" (Hobbes), ora sob o manto do mito do "bom selvagem" (Rousseau), num dialético jogo marcado pela dualidade da imagem e semelhança de Deus, na ambigüidade entre o maculado e o abençoado após o "pecado original", a provarem Adão e Eva, dos frutos da "árvore do bem e do mal"...
Nesse jogo, o dos pontos e contrapontos, percorro, por instantes, nossa ciência política: das tábuas da lei de Moisés a ... Zé Dirceu, com reflexivas paradas em Maquiavel, Sun Tsu e outros muitos, em nossa ciência política, num alternar-se, em nossa história, do jogo entre vilezas e construtivas grandezas.
· O lado ‘práxis” das vendedoras de sonhos
Na conversa com Rosa, ouço o lado "práxis" do Instituto Práxis de Filosofia, do grupo liderado a que este pertence, cuja constituição acompanho desde os tempos da crônica "As vendedoras de sonho", e depois, em sua constituição, quando escrevi, desta feita no Jornal "O Povo", em 22.01.2003, artigo com o mesmo título, de onde destaco o trecho:
"Hoje, o sonho delas é um espaço para a troca de idéias com vistas a uma 'sociedade humanamente diversa, socialmente igual, criativa, prazerosa no ócio produtivo, e completamente livre' (...) "Daí, o tributo às Rosas (como a da Fonseca) e às Maria Luízas (como a Fontenele), que, com sua feliz idéia do Instituto Filosofia da Práxis, aguardam, de nós, solidária ajuda. Porque sonhar é preciso. Para que possamos gozar da saúde: a pessoal e a da própria democracia!"
· Descrédito dos políticos, confiança e fé nas igrejas
Mas, agora, conta-me Rosa, já empenhado o prédio, em razão dos gastos com ação do Instituto mais ampla, estão tendo dificuldades para o envolvimento maior da população na "ajuda", já que as seitas religiosas estão fazendo o mesmo, com a vantagem para estas, em razão do número crescente de seus fiéis, sendo possível baratear o custo das cautelas, em seus sorteios...
Por instantes, paro em minhas reflexões teóricas, a refletir sobre novo fenômeno a observar, crescente, em nossa sociedade. As pessoas, descrentes de tudo, vão à procura da resolução de seus problemas, não mais recorrendo aos políticos, mas a Deus nas igrejas. E justo em tempos em que as inteligências se operam "múltiplas", sintetizadas pela de estatura mais alta e complexa: a transcendente (religiosa).
A Rosa conto que, na UFC, já não vi as antigas "lojas de departamentos", estas não mais existentes nem mesmo ... na Mesbla. O próprio pensamento, não o vi mais retalhado, positivista, em epistemológicas fatias, a expressar a "complexidade crescente e generalidade decrescente". E quando, entre marxistas, pouco tempo atrás, no mundo acadêmico, falei em "ateísmo", o que ouvi, dos mais extremados, foi justo o contrário: a expressão por Marx atribuída à religião, "ópio do povo", no contexto em que foi expressa, diria (explicam hoje os ex-materialistas antes ateus) algo sobre a forma emocional pela qual os oprimidos expressam sua revolta contra as injustiças... O 'embriagar-se', aí, metáfora do inconsciente eclodir do sentimento de revolta a levá-los à reação...
· A tríade “fé, esperança e... caridade”
Esse momento de pensamento e complexidade a sintetizar fé, esperança e caridade, lembra-nos Bento XVI, com suas já lançadas e as prometidas encíclicas e reflexões, ao nos chamar a atenção não apenas para o abraço entre "fé e razão", como para o necessário equilibro do trinômio "fé, esperança e ... caridade". Mas conclui: a cáritas não confundida com a esmola, nos termos da inicial postura de Francisco Assis e hoje, na feliz expressão de Zé Dantas (médico, parceiro de Luiz Gonzaga), com o refrão:
"Mas, doutor, uma esmola,
Para um homem que é são,
Ou lhe mata de vergonha,
Ou vicia o cidadão."
Em seus pronunciamentos, nossa ciência (expressão da razão) se desenvolveu, mas, em certos momentos de nossa história, perdeu a noção de seus fins, no que tange ao desenvolvimento humano. A política, a mirar o horizonte da tríade da revolução francesa "liberdade, igualdade e fraternidade", atropelou-se quer com o marxismo, quer com as experiências de cunho social-democrático... morrendo na praia. E, sob essa ótica, aí estão as versões várias de nossa social-democracia, do comunismo e da lógica do mercado... Todas, a perder de vista seu "para onde" ou mesmo "para quê"...
· Não acabar com a política, mas recobrar função inerente do projeto humano
Acabar com os tropeços da humanidade, em seus tortuosos e distorcidos caminhos, não implica em acabar com a política, inerente ao próprio homem, desde o princípio, por natureza, um "animal político".
Voltemos ao Gênesis e à criação do mundo. No centro do Éden, o Criador plantara a intocada "árvore do bem e do mal". E, ao olhar feminino da serpente e de Eva, provocou a curiosidade e toque final, o que faria o casal "conhecedor do bem e do mal". Arguta, Eva, de intuitivo olhar, se veria imagem e semelhança de Deus. E o mesmo, em Adão, fonte de sua clônica costela, desperta do masculinho sono adâmico, passando a enxergar positivo (o bem) e o negativo ângulo (o mal) do saber...
A expulsão do Éden seria, pois, o início do projeto humano, num contínuo "crescei e multiplicai-vos". O "comerás o pão com o suor do teu rosto" não o castigo, mas o despertar do homem para, qual o Criador, empenhar-se ele em construir a vida e o mundo, onde haveria de correr leite e mel, na esteira da multiplicação e a repartição dos pães...
Um anjo, a guardar as portas do Éden. Sem retorno de Adão e Eva aos tempos da homeostásis com a natureza, a construir o projeto humano. Jeová, porém, a acompanhar tal caminhada: separando brigas entre Caim e Abel; no dilúvio. A arca de Noé, salvando a vida e os seus. Iluminando os profetas, os reis, os políticos enfim. Por fim, Cristo, o filho de Jeová, com seu Evangelho, e as lições da multiplicação e do repartir dos pães e do vinho, na terra, núncios da que viria a ser a revolução industrial...
· A visão cíclica de nossa política, a nós deixada por Celso Furtado (anos 80)
A meus olhos, na Bíblia - do Gênesis (a criação do mundo sob a configuração de dias) aos diversos apocalipses até seu último livro - está permeada de uma visão cíclica da vida. E foi essa a visão que, mutatis mutandis, nos deixaria Celso Furtado, ao ultimar sua palestra e longo debate, no Auditório Castelo Branco, na reitoria da Universidade Federal do Ceará, em 1986, que tenho gravada em CD, sobre tal visão, que, na terminologia lingüístico-semiológica, chamaríamos de sincronias a se alternarem em diacronias em busca crescente de uma pancronia:
"(...) Eu considero que são quinze anos. O ciclo de Vargas foram quinze anos. E outros ciclos. O próprio ciclo da república, da Constituição de 46, durou de 46 até 64, dezoito anos. O ciclo político brasileiro existe dessa forma. E se esgota. Porque, como todo sistema, tende a se usar, no Brasil.
O Brasil tem tantos problemas que a classe política não está preparada para enfrentá-los. A classe política reflete o passado: no Brasil e aqui no Nordeste. Reflete a tendência para conservar o que existe. Então, se instala um ciclo político e esse sistema, que aí está defendendo-se, vai se usando, se usando, se usando...
E "(...) a nova geração vai ter um trabalho importante de reconstrução a realizar e um espaço político a ocupar. E eu espero para ela que aprenda um pouco com os nossos erros, E reconstitua e restabeleça essa fé no futuro deste País, que, aparentemente, se desgastou muito!" (Celso Furtado)
Pelas fotos a cobrir o evento (do que disponho), ali estava presente significativa mostra de toda a geração que se engajaria em movimento pela redemocratização do País e, no Ceará, do denominado "Projeto das Mudanças".
De lá para cá, logo que, após minha última queda cardiovascular, fui convidado por Cláudio Ferreira Lima, assessor da presidência do Banco do Nordeste, para assistir à cinebiografia de Celso, ouviria o encerramento do evento por um deputado, nas seguintes palavras:
"Os problemas do Nordeste, com vista a seu desenvolvimento, em resumo, são três: primeiro, dinheiro; segundo, dinheiro; terceiro, dinheiro. E tenho dito!" ...
· Crescimento a metamorfosear-se em desenvolvimento
Ao ouvir a frase acima do deputado, ao encerrar o encontro, vem-me à mente, em direção nada coincidente, trecho enfático do pensamento de Celso Furtado, na histórica palestra no Auditório Castelo Branco (UFC):
"O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, funda-se na preservação dos privilégios das elites, que satisfazem seu afã de modernização. Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento" (Celso Furtado, 1986)
(Continua em "Fora a Política. Possível? (Parte II)