Grupos

                                                        

 

 

 

 

 

Pronunciamento do Deputado Ariosto Holanda

   Grande Expediente, 13 de agosto  de 2009

·  Crescimento Econômico versus Desenvolvimento Social  

            Senhor Presidente,

             Senhoras e senhores deputados: 

             Ocupo a tribuna dessa casa para discutir a questão do crescimento econômico  versus desenvolvimento social e para ressaltar as ações do Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica da Câmara dos Deputados, quando aponta os caminhos para capacitação tecnológica da população.

Apesar de o Brasil ter entrado no século XXI  com um sistema industrial fortalecido e uma moderna estrutura de agronegócios, que lhe conferem liderança  mundial  em vários setores, no entanto, a sua política de geração de empregos por não acompanhar as reais necessidades  do país, tem resultado num preocupante atraso social. Se de um lado temos empresas modernas e eficientes na sua maioria distribuídas nas regiões sul e sudeste,  concentrando renda e riqueza, de outro temos um sem número de micro e pequenas empresas de baixíssima produtividade espalhadas pelo país, que busca, na informalidade, a sobrevivência.

            O professor  José Pastore, já observava: "o Brasil vive um tempo paradoxal: euforia no mercado financeiro e desespero no mercado do trabalho".

 Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios- PNAD-2007, o país em relação à População Economicamente Ativa – PEA, atualmente, com  90 milhões de trabalhadores,    tem 35,3% dos empregados com carteira assinada, 23% sem carteira assinada e 21% trabalhando por conta própria. Os rendimentos da classe trabalhadora estão assim distribuídos: 29% têm rendimentos inferiores ou iguais a um salário mínimo, 38% têm de um a dois salários mínimos, 13% tem de dois a três salários mínimos e apenas 0,5% superam os vinte salários mínimos.

            Como o  índice de desemprego é da ordem de 8,5%, o Brasil, para pagar a imensa dívida social que se acumula ao longo de 40 anos, na forma de concentração de renda, déficit educacional e  desemprego precisa encontrar  os caminhos  para executar uma política econômica, socialmente justa, que leve em conta as pessoas

            Como diz o professor Ignacy Sachs: “a luta contra a pobreza e pela integração social com  criação de empregos produtivos deve ser contínua e presente.  Não é aceitável que os progressos financeiros e econômicos sejam realizados a custa do desemprego ou subemprego estruturais, que resultam em exclusão social e pobreza”.

            Temos que discutir o que é desenvolvimento; desenvolvimento para que e para quem.  Não devemos confundir crescimento econômico com desenvolvimento. Não são sinônimos. O crescimento está preocupado com os valores  relacionados com a riqueza, como p.ex., o aumento de Produto Interno Bruto - PIB; já o desenvolvimento está focado nos indicadores sociais relacionados com o emprego, renda, saúde, educação, justiça social e outros, ou seja, com o Indice de Desenvolvimento Humano - IDH.

            Nessa discussão, ênfase deve ser dada à necessidade de considerar o emprego uma questão básica no equacionamento das estratégias do desenvolvimento. Propostas  como a de geração de trabalho a partir das vocações regionais e locais surgem  como elemento fundamental de políticas públicas desenvolvimentistas.

            Num estado democrático, regulador de uma economia mista, o objetivo do desenvolvimento deve ter o homem como ponto de partida, observando, sobretudo, a sua cultura e seu meio, e seu direito, enquanto cidadão,   à  educação e  trabalho.

            O verdadeiro desafio está em romper  essa lógica de crescimento que resulta em desemprego e exclusão, substituindo-a por outra que garanta o emprego. A  falta de trabalho constitui uma forma irreversível de destruição do homem, já que ele deixa de realizar o que é mais importante na sua vida: a sua profissão.

            Infelizmente, o que se observa é que os investimentos produtivos tendem a subtrair os empregos pela substituição de homens por máquinas, sem facultarem para os operários  outras oportunidades de trabalho.    A busca desenfreada da competitividade, com base no  lucro máximo, em menos tempo e com menos mão de obra traz como conseqüência  desemprego, concentração de renda, miséria, corrupção e violência.

            Entendo que as políticas sociais e econômicas devem visar não só a riqueza, mas, o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida de todos. Observa-se, no entanto, que o   progresso científico e tecnológico não tem proporcionado,  a todos, melhoria da qualidade de vida.

            Atualmente,  temos conhecimento e tecnologia com base na engenharia genética, na química fina, na biotecnologia e outras ciências, que seriam capazes de assegurar uma superprodução de medicamentos ou de alimentos para curar a maioria das doenças e matar a fome de milhares de famintos.

            Se não o fazemos, é porque vivemos num mundo onde a lógica do crescimento é perversa; lógica que está alicerçada na ambição, no egoísmo, na ganância e na luta pelo poder. E nesse cenário o homem é atropelado, esquecido, ou visto como agregado de máquina.

            Notar-se-á  que as questões que temos de enfrentar são antes de tudo, morais. Se houvesse mais fraternidade humana, se os valores éticos fossem realçados, não teríamos no mundo crianças com fome, subnutridas e doentes, nem teríamos famílias desesperadas buscando o seu direito à vida.

            Entendo, Senhor Presidente, que a qualificação profissional e a geração de trabalho são, atualmente, os principais desafios para a promoção da cidadania dos milhões de excluídos,

            Infelizmente, o diagnóstico que se tem sobre essas duas ações mostra uma situação preocupante. O que está agravando essa situação do desemprego é o analfabetismo funcional dos trabalhadores. Com o  avanço tecnológico crescente e acelerado, eles não conseguem entrar nesse novo mercado de trabalho que exige conhecimento.

            Preocupado com essa situação, o Conselho de Altos Estudos da Câmara dos Deputados apresentou em dezembro de 2007 um estudo sobre a Capacitação Tecnológica da População. Elaborado em parceria com o executivo e a comunidade ele aponta para a necessidade urgente de promovermos ações voltadas para a qualificação profissional dos trabalhadores e assistência técnica aos  pequenos negócios. Enfatiza o relatório que a educação é o melhor caminho para diminuirmos a distância entre o Brasil que tem o 12º. PIB mundial e o Brasil que ocupa o 63º. Índice de Desenvolvimento Humano – IDH .  Seis motivações incentivaram o conselho a analisar a situação atual.

1) O elevado número de analfabetos funcionais - na faixa etária de 15 a 64 anos existem 115 milhões de brasileiros com os seguintes graus de instrução: 10 milhões são analfabetos, 35 milhões tem um nível muito baixo de escolaridade, 40 milhões estão no início da alfabetização e somente 30 milhões tem qualificação para entrar no novo mercado de trabalho que exige conhecimento.

2) A  deficiência  de ensino técnico profissionalizante no país - enquanto nos países desenvolvidos a relação é a de um técnico de nível superior para cinco técnicos de  nível médio,  no Brasil é de dois superiores para um nível de médio e no Nordeste é de 4 superiores para um nível médio.

3) O  analfabetismo tecnológico das pequenas empresas e pequenos negócios – a mortalidade das micro e pequenas empresas é alta porque sem condições de inovar e de apropriar  novas tecnologias não conseguem sobreviver no mercado competitivo.

4) A deficiência de professores de matemática, física, química e biologia - o programa  de Avaliação Internacional de Estudantes (PISA) classificou o Brasil em último lugar em leitura, matemática e ciências. Esse quadro tem refletido diretamente no atraso tecnológico do país.

5) O Brasil é o  último lugar entre os países emergentes (China, México, Rússia, Índia) no cumprimento das metas para inserir-se na sociedade do conhecimento. São causas apontadas: o analfabetismo funcional  e  o baixo nível de escolaridade da população adulta. Ainda existem 15 milhões de analfabetos na faixa etária acima de 15 anos. Segundo o INEP / 2002, de  100 alunos  que entraram na 1ª. série  do primeiro grau, somente 48 concluíram o fundamental, 32  concluíram o médio,   17  entraram na universidade e somente 8 terminaram.   Enquanto a  taxa de escolarização de adultos, no Brasil é 6,3 anos, na Argentina é de 8,5, no Chile de 10 e na Europa de 11,8 anos. Estudos demonstram que as pessoas quanto  mais instruídas tendem a  cometer menos crime, a ter menos filhos, a cuidar melhor da saúde, a depender menos dos auxílios de governo, a sofrer menos com desemprego,a ter maior participação política e a melhorar a produtividade.

            6) A curva da concentração de renda medida pelo coeficiente Ginni - vem se mantendo,  há mais de 40 anos, no mesmo patamar de 0,6, isto é, 10% dos mais ricos detêm 60% da riqueza do país.

            Diante desse quadro a política de geração de emprego decorrente do atual modelo econômico torna-se difícil de ser equacionada, porque temos pela frente esse elevado número de analfabetos funcionais, e um mercado de trabalho que diante do avanço tecnológico crescente está a exigir dos trabalhadores novos conhecimentos. Já começamos a nos deparar com situações onde temos de um lado pessoas procurando emprego e na contramão trabalho procurando profissional. O que fazer então, com milhões de trabalhadores cuja força de trabalho é cada vez menos exigida ou nem mais o é? Não estariam aí, as razões maiores do desemprego, da concentração de renda, da violência, da marginalidade e da corrupção?

            O discurso do crescimento econômico como fórmula de geração de trabalho, diante dessa massa de excluídos, torna-se inócuo, porque poderemos ter aumento significativo do PIB sem que isso implique em criação de um grande número de empregos e diminuição de pobreza.

            Há, diante dessa situação, uma urgência em criarmos mecanismos ágeis e flexíveis de transferência de conhecimentos para a população, como verdadeiros atalhos que avancem sobre os procedimentos tradicionais da educação. Temos que discutir um modelo pautado na democracia que tenha como base uma economia que leve em conta as pessoas. A lógica atual do modelo neoliberal que tem como carro chefe o mercado, do ponto de vista social é perversa e concentradora de renda.

Foi com base nesse diagnóstico que o conselho de altos estudos da câmara dos deputados, na sua missão de pensar o Brasil decidiu aprofundar essa discussão.

A conclusão dos trabalhos resultou num projeto de lei e um projeto de indicação que aponta para uma política de resgate da cidadania dos excluídos a partir de ações que tenham como fundamentos a educação em todos os níveis, a extensão e a informação.

Entre as ações propostas  destaca-se a da  implantação de  um grande programa de extensão tecnológica que contempla a instalação no país de 1.200 Centros Vocacionais Tecnológicos- CVT. 

            Certamente, Senhor Presidente,  a geração de emprego e a distribuição de renda só se dará, de modo efetivo, quando investirmos no capital humano e procedermos a uma profunda transformação na lógica do desenvolvimento.

O salto de qualidade só virá se tivermos a capacidade de realizar mudanças profundas no sistema de transferência de conhecimentos e que seja capaz de envolver toda sociedade.

Como fazer ingressar num sistema produtivo esse grande número de analfabetos funcionais? Como distribuir renda com pessoas sem qualificação profissional, nesse mundo de economia globalizada? Como superar as desigualdades regionais se temos a consciência de que elas aumentam com a concentração de conhecimentos?

O analfabeto fora da Escola, o analfabeto tecnológico dentro da escola, a escola fora da realidade atual, a universidade sem interagir com os problemas do meio, o setor produtivo isolado dos problemas educacionais e tecnológicos são verdadeiros desafios para qualquer governo que queira promover uma revolução educacional, científica e tecnológica.

A fim de dar resposta a esses questionamentos o Conselho de Altos Estudos, com o apoio do Presidente da Câmara Dep. Michel Temer, e com a presença dos  ministros da ciência e tecnologia, do trabalho, da educação , da previdência e dos reitores e professores dos institutos federais promoveram no dia 07 de  julho um seminário com o  objetivo de discutir as ações que venham resgatar e fortalecer a extensão tecnológica do país.

Entendeu o conselho, que a Extensão seria o mecanismo mais ágil e flexível para levar o saber a todos que não têm mais tempo de ir para uma escola formal, mas, que precisam adquirir novos conhecimentos. Na ocasião identificamos como principais extensionistas os professores da rede formada pelos institutos federais que, até 2010, estarão presentes em 350 municípios.

Essas instituições, ágeis, flexíveis, competentes e comprometidas com a missão de capacitar as pessoas para o trabalho, e que tiveram sua origem nas antigas escolas técnicas federais ao formarem uma rede, pela sua  capilaridade,  poderão assumir a missão da extensão tecnológica do país.

Se interagirem com o meio levando conhecimento, informação e assistência técnica para os trabalhadores, microempresários e pequenos negócios, os institutos federais poderão mudar esse quadro do analfabetismo funcional dos trabalhadores e do analfabetismo tecnológico das micro e pequenas empresas.

            Mas, para o êxito dessa missão torna-se necessária a aprovação do PL – 7394/2006 que cria o fundo para financiar o material e custeio das ações de extensão.

            Ao concluir, Senhor Presidente,  solicito a Vossa Excelência que sejam tomadas as medidas necessárias para a votação em regime de urgência desse projeto de lei, que pelo seu alcance social merece esse destaque.

        Muito obrigado.

 

 

 

Lá, não sei onde… Quando chegar o tempo

Postado no blog Cotidiano e Fé, do Jornal O Povo,

em 11 de agosto de 2009 por Ricardo B. Marques


Recentemente li uma mensagem de uma amiga, numa lista de discussão, falando de uma cidade do interior, onde as pessoas são “calmas e felizes”. E aquelas palavras me remeteram, num relance, a memórias que eu pensava esquecidas.


Ah! Um dia me mudo para uma cidadezinha dessas… Lembro-me de minha infância e adolescência, quando ia muito ao interior do Ceará, passando férias em casas de meus tios-avós maternos. Nas palavras de Paulo César, cantor e compositor do Grupo Logos: “Acordar bem cedo e ver o dia a nascer… E o mato molhado anunciando todo o cuidado de Deus”.


Ah, aquele cheirinho de estábulo e passarinhos de todos os tipos cantarolando ao redor da casa – não tem dinheiro que pague. Tomar leite com pão quentinho, queijo coalho assado e ovo frito. Depois, sair andando, sem pressa nem hora, pelas veredas abertas na matinha, árvores frondosas por todo lado a nos sombrear, até chegar às casas do pessoal simples e hospitaleiro, onde nos aguardava um tacho de queijo ainda sendo feito, ou a delícia de um “alfinim” bem puxado, como chamávamos por lá. A hora do lanche era regada a mel de engenho com farinha, iguaria que nenhum restaurante chique da cidade grande consegue entender…


Amava tomar banho de rio, bóia feita de cabaças… Ou então daquelas não tão naturais, porém não menos divertidas, de câmaras de ar de pneu de trator. Quem viveu isso? Cabiam umas três crianças numa só! Na beira do rio disputávamos espaço com galinhas d’água, jaçanãs e outros bichinhos que fuçavam por ali, catando comida.

O almoço, aquele feijão bem temperado, macaxeira cozida com manteiga, carne de sol desfiada… Hummmm, e a sobremesa era aguardada com ansiedade, aquele doce de leite ou de goiaba, ainda meio quentinho, acabado de fazer ali mesmo. Mais tarde, hora de pescar.


À noite era uma graça, sentávamos em frente à casa para contar e ouvir histórias de fantasmas, de cemitério, de lobisomem, saci e caipora. Ainda cedo todo mundo entrava, à luz de lampião e lamparina, e se não fechássemos logo as portas os “sapos-cururu” invadiam a casa aos montes e a gente tinha que enxotá-los. Tudo era uma diversão.


Falando em pescar, tive a impagável chance de morar um ano no interior do Mato Grosso, ainda pré-adolescente, tempo em que esperava ansiosamente o sábado de manhãzinha para sair, debaixo de um frio congelante, e pescar lambaris com varinha de bambu. Mais tarde voltávamos com um cesto cheio, para assar tudo com farinha e ficar comendo debaixo de uma árvore, defronte o rio, ao som de corredeiras e cachoeiras, contemplando a paisagem, conversando ou lendo revistas do Capitão Marvel, do Fantasma, dos Sobrinhos do Capitão.


Mas eu nasci mesmo foi no Piauí, na maravilhosa Parnaíba, cidadezinha pacata e gostosa para se viver. Ruas à sombra de grandes árvores, pés de oiti, jambo e mangueiras centenárias, frondosas. Na casa de meus avós paternos, gente humilde dotada de maravilhosos talentos artísticos, um quintal de uns 12 metros de fundo, cheio de árvores frutíferas e com direito a lagoinha para os marrecos. Encher baldes e baldes puxando água em bomba manual era diversão, e não trabalho.


Acreditem: passei roupa com ferro de brasa, e ajudei minha avó a acender fogão à lenha. A TV era ainda em preto e branco, começava às quatro da tarde, se jantava às 18 horas, mas às nove da noite todo mundo se recolhia, a luz era cortada e entrávamos debaixo de mosquiteiros, pois as muriçocas se atiçavam e não tinha quem aguentasse. Mas tudo era levado na esportiva, na naturalidade. Até chegar o sono, o tic-tac do pêndulo do carrilhão, lá na sala, marcava a cadência que governava aquela vida despretensiosa e tranqüila.


Êta, saudade, meu. Hoje meus filhos nem imaginam o que é isso. Mas não é só culpa da cidade grande, não. O próprio interior mudou muito… Acredito que, em algum lugar, ainda existe a vida bucólica a que me referi. E é lá, não sei onde, que quero terminar meus dias, quando chegar o tempo. Esse é um de meus pedidos a meu bom Deus… Contudo, caso não existam mais lugares assim, ou se eu não tiver mais acesso a eles, não me preocupo, há coisa muito melhor esperando por mim e por você – como está escrito: “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1ª Coríntios 2:9).

http://blog3.opovo.com.br/cotidianoefe/la-nao-sei-onde-quando-chegar-o-tempo/
 

Artigo

CIC – 90 anos

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 17 Ago 2009 - 01h50min

(CIC), 90 anos. E a rebrotar o ímpeto das cheias de nossos rios a nos sepultar a solidão, em busca da solidária grandiloquência das cheias, no leito seco de nossa política, recobrando, assim, a cíclica (re)união pelo Ceará, como nos tempos de Virgílio Távora, do Pró-Mudanças de Tasso Jereissati.

De “jovem empresário político” dos anos 80, ouço o pessimismo em relação aos de agora. Relembro Fernando Henrique Cardoso, a esse tempo, assistindo a palestra ”Dos ideais do CIC a uma prática de governo”: “Esta é que é a social democracia que buscamos – nascida do barro do chão e não a que importamos da Europa.

Há pouco, o CIC lançava-nos debate sobre o Observatório de Educação, para reflexão de nossas lideranças sociais e políticas. O Ceará integra o rol das 14 cidades brasileiras onde o Observatório Social se ensaia.

Tudo isso, repito,  lembra-nos Fernando Henrique Cardoso, a essa época aqui a assistir, de Tasso Jereissati, a encabeçar Projeto das Mudanças, a palestra “Dos ideais do CIC a uma prática de governo”: “Esta é que é a social democracia, nascida do barro do chão, não a abstrata que importamos da Europa”.

Agora, é FHC, ex-presidente que ao CIC trás para, em seminário aberto, pautar-nos “Cenários Econômicos e Políticos Nacional e Internacional”. E o “jovem empresário” dos anos 80, atual presidente da Transpetro e ex-senador Sérgio Machado, para nos falar do “O Brasil, o Nordeste e o Novo mapa da riqueza” (Sérgio Machado). E hoje, Tasso Jereissati sobre gestão pública como fator de desenvolvimento.econômico e social.

No Ciec e Fiec, recobrem assento as indústrias sem chaminés a produzir cultura, desde Jorge Parente, os programas de responsabilidade social pelo Estado de Wania e Demócrito Dummar.
A Robinson Cruz e Silva e equipe, nossa adesão!

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da Uece Centro Industrial do Cear
á
marcondesrosa@terra.com.br

 

 

Algumas sínteses que fiz a respeito da atual crise no senado.

José do Vale Pinheiro Feitosa

a)      A crise tem um fundo cultural, social e político. É cultural com os senadores se comportando como elite privilegiada, que se encontra acima das leis universais da constituição. É social uma vez que a sociedade brasileira se encontra em processo de rearranjo, com forte mobilidade ascensional de grandes segmentos e já não suporta as regras da cultura política e social tradicional. É política com dois movimentos simultâneos: por um lado a desconfiança generalizada da sociedade com os políticos e por outro a degradação moral de políticos e da burocracia partidária.

 

b)      Quando Sarney disse que a crise não era dele, mas do senado. O erro não foi do senador, mas da interpretação possível. Ora com esta frase Sarney diz exatamente que a crise é dele, uma vez que ele é membro do senado. E membro destacado, a Presidência, sobre a qual recaem simbolicamente os grandes problemas do senado.

 

c)      Esta é uma das grandes crises da história recente do senado. Ou, talvez, uma das recorrentes grandes crises do senado a lembrar: a crise Jáder Barbalho, a crise Antonio Carlos Magalhães e a crise Renan Calheiros. Esta se diferencia em face de que o atual presidente do Senado é um político tradicional da história do país, já foi governador, líder de bancada, presidente de partido político e Presidente da República.

 

d)     Qual o motivo da crise do Senado não vir para as ruas. A primeira é que o Senado é uma casa fechada e elitista. A segunda é pelo fato de que os demais poderes estão sem problemas no momento. A terceira e mais óbvia: parte da crise é a luta PT e PSDB na sucessão presidencial de 2010. Estranhamento quanto ao comportamento do PT em relação à Sarney?

 

e)      O PT sentou-se para acalmar os ânimos no dia de ontem com o PSDB e DEM por outro motivo não menos secundário. Há uma franca contradição entre Lula e sua política sucessória e os interesses eleitorais do PT por causa do arranjo com o PMDB. O PT está desesperado com as perdas para o PMDB nas próximas eleições. Além das pesquisas que podem demonstrar desgaste para Lula com o apoio a Sarney, há outro dado para o recuo público de Lula dizendo que não votou em Sarney e este é o problema do PT.

 

f)       O papel da mídia na crise do Senado é relevante. Todo o horror moral, a batida diária do malho sobre o presidente do Senado, a republicação dos mesmos fatos; a repercussão em cadeia de jornais, rádios e televisão; o tom geral de escândalo até para empregar alguém, prática velha dos políticos são táticas e estratégias com o objetivo de esquentar a crise. A mídia se acostumou a derrubar chefes de poderes.

 

 

 

A crise não é só do Senado...

 

Francisco de Queiroz Maia Júnior
O Povo - 12 Ago 

 

Os recentes episódios no Senado Federal deixaram muita gente estarrecida. Contudo, eles são a sequência lógica de um processo de decomposição da política nacional – que, por sua vez, revela um problema ainda mais sério: o progressivo distanciamento da sociedade brasileira dos valores morais e do apego à legalidade.  

 

Há uma inversão preocupante de valores. No senado, por exemplo, Renan Calheiros, que há pouco tempo era réu em várias acusações, agora exibe sem nenhum pudor seus dotes de advogado, juiz e promotor.

 

Com o aval da “maioria na Casa” e em nome da “governabilidade”, Renan casa e batiza sob o aplauso de uma trupe que tem histórico igualmente suspeito ou o silêncio envergonhado de algumas lideranças da “base aliada”.

 

E ai surge uma questão: Como um governo e um presidente que alardeiam ter aceitação de quase 80% se submetem aos caprichos de Sarney, Renan e sua trupe? Por que Lula não usa seu prestígio para romper com velhas práticas e aprimorar as instituições republicanas?

 

Em entrevista recente, os senadores Tião Viana (PT) e Jarbas Vasconcelos (PMDB) questionaram essa postura do presidente Lula. Segundo Viana, “Lula nada fez para evitar a desconstrução e a perda de autoridade moral do Congresso. Os partidos estão mais fracos e deteriorados do que antes da sua posse. E é papel do chefe de estado fazer com que instituições como o Parlamento sejam vigorosas”.

 

Na contramão, no entanto, o presidente Lula elegeu como novos líderes políticos gente como Sarney, Renan e Collor - que, pelo histórico, tendem a reconduzir a política brasileira a momentos de triste lembrança.

 

O pior: quem ousa questionar esse caminho equivocado – caso dos senadores Pedro Simon e Tasso Jereissati – é rechaçado com uma virulência e uma falta apreço pela opinião pública só vistas em regimes ditatoriais.

 

O próprio presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque, escolhido por Renan, afirmou que não ligava à mínima para a opinião pública. O que se pode esperar, então, de pessoas como essas que estão em postos-chave da República (cujo significado é “coisa pública”)?

 

O fato é que com o aval de Lula, gente de histórico controvertido está assumindo poderes e feições perigosas. Políticos que em outros países estariam respondendo aos tribunais ou atrás das grades não deveriam exibir tanto poder e se portar com tanto cinismo. Tampouco deveriam ter a pretensão de calar e subjugar à força pessoas dignas que se insurgem contra eles.

 

As pessoas de bem não podem aceitar esse estado de coisas passivamente; precisam e devem manifestar sua indignação.

 

Se os maus líderes prevalecerem, o prejuízo não será só do Senado ou da política brasileira. Os maus líderes propagam péssimos exemplos e corrompem de forma grave a estrutura de qualquer sociedade – que jamais pode prosperar sem a crença no valor do trabalho, sem a obediência à lei e o culto aos valores éticos e morais.


 

 

Brasil do ódio quer punir o beijo

 

Friday, September 4, 2009

By Paulo Ghiraldelli

 

Depois de 1964, quando uma pessoa de mau caráter queria eliminar um concorrente em qualquer lugar de nossa sociedade, já não tinha a seu favor somente os instrumentos baixos de costume. Ganhou outro, decisivo: a delação. Bastava falar: “comunista” ou, logo depois, “terrorista”. Pronto, o teto do acusado desabava e a vaga ficava com o delator. Muita gente subiu na vida desse modo após 64. Alguns estão aí até hoje, usufruindo do bom e do melhor por conta da maldade que cometeram naquela época.

 

O Estado de Direito precisa pegar os criminosos, claro, mas justamente por ser um Estado de Direito e não uma ditadura, tudo deve ser feito pela eficácia, não pela propaganda, não pela campanha. Não se caça criminosos com campanha. A campanha afugenta o verdadeiro criminoso e deixa indefeso o inocente. Em um prazo rápido, toda a sociedade é vítima de delações maldosas, como as que vivemos no período ditatorial, ou delações criadas a partir dos fantasmas fomentados pela campanha.

 

Quando se iniciou o “caça às bruxas” em relação à pedofilia no Brasil, escrevi dizendo que iríamos logo caminhar para o que estamos vivendo: os criminosos não estão presos e, no lugar deles, uma série de pessoas doentes são escorraçadas. Agora, as coisas pioraram. Nem mais se trata de doentes, e sim de pessoas sadias, completamente corretas em seus procedimentos, que começam a ir para a cadeia. E o que é mais terrível, chocante: não só adultos, mas as próprias crianças estão sendo submetidas a tratamentos traumáticos. Em nome do amor, faz-se o ódio, em nome da proteção das crianças, cria-se a tortura infantil.

 

O caso do italiano preso por beijar a filha de oito anos, no Estado do Ceará, (artigo) mostra que estamos dando passos fortes em direção à era do ódio no Brasil. A mãe, brasileira, explicou o caso. Mas a polícia, guiada por uma lei errada, e vizinhos dirigidos por uma campanha alucinada contra a pedofilia, colocaram o homem na cadeia. Se não bastasse isso, também levaram a criança de oito anos que, agora, está respondendo interrogatório para dizer … ora, para dize o que? O que vão perguntar para essa criança? Vão perguntar para ela se o pai a beijou na boca? Vão perguntar para ela se o pai “fez amor” com ela? Que isso? Quem vai fazer essas perguntas? Funcionários públicos com diplomas de psicólogos formados por essas bugigangas atuais chamadas faculdades? Você, leitor, sabe bem o que é isso? Você, leitor, entende o terror que isso representa para a criança, para o pai e, daqui a pouco, para todos nós?

 

Não pense você que estamos fora da mira da lei e das vozes da delação. Quando se institui o terror, todos nós somos vítimas. Pois, ao contrário do que disse a maioria dos jornais televisivos, o costume de beijar na boca os filhos pequenos não é um costume só italiano. O que a imprensa medrosa omitiu é que no Brasil nós fazemos isso. Além do mais, somos netos de quem, em boa parte dos Estados, senão de italianos?

Daqui a pouco, as coisas não vão mais ficar só na questão do beijo. Logo as fotos que pais tiram de filhos começarão a servir de material de suspeita e delação. Aguardem: o terror está dando apenas seus primeiros passos.

Sei que os conservadores, os mal-amados, os que possuem ódio do próprio corpo, os que não conseguem entender o que são relações de afeto corporal vão reagir contra este meu texto. Alguns, inclusive, vão me acusar de querer proteger pedófilos. Também fui acusado de proteger comunistas no passado. Em alguns casos, até de ser comunista ou terrorista. Conheço bem essa gente que adora a delação. Mas, do mesmo modo que, no passado, não fiquei do lado do “caça às bruxas”, também aqui reajo. Pois não podemos deixar nossas crianças e seus pais à mercê da loucura de pessoas desequilibradas, que continuam incentivando as campanhas contra a pedofilia como se, gritando a quatro cantos “pedófilo” “pedófilo”, fossem proteger alguém.

 

Se você sai gritando “pedófilo” na rua, acredite, as redes de pedofilia e de prostituição infantil vão se esconder. A única coisa que você vai conseguir, fazendo isso, é colocar logo um parente seu, completamente inocente, na cadeia. Porque as pessoas inocentes irão continuar com seus hábitos normais. E dentro de nossos hábitos, a carícia em nossas crianças é regra, não é exceção.

 

Por que há pessoas fazendo tanto barulho em relação à pedofilia? Teriam sido elas vítimas? Ou elas são pessoas sem causa e, enfim, por considerarem o sexo algo sujo, imaginam que todo mundo que se aproxima de uma criança – inclusive um pai – é um maníaco sexual? Por que estamos dando tanta voz para essa gente que não consegue ter orgasmo, que é visivelmente mal amada? Por que essa gente desequilibrada emocionalmente pode ficar no controle de mecanismos que despertam o “caça às bruxas”? O que está ocorrendo com a nossa sociedade? Esquecemos rapidamente nosso passado, quando a o clima “vale delatar todo terrorista” terminou por colocar inocentes sob o regime da barbárie.

 

Estamos acuados porque ninguém tem coragem de se colocar contra essas campanhas, pois há o medo de ser acusado de querer proteger a pedofilia. Ora, eu não tenho medo. Sei perfeitamente que a pedofilia é uma doença, e sei perfeitamente que os obcecados contra a pedofilia são tão ou mais doentes que os pedófilos. Aliás, não tenho mais filhos pequenos, e evito contato com crianças. Já quando era professor, tentava passar o mais longe possível de alunas. Pois a maldade estava à solta. Agora, então, nem me fale.

 

O que foi solto na nossa sociedade, mesmo, é o demônio. Foi esse demônio que colocou o italiano na cadeia, pois ele estava bem encarnado nos que o delataram. Agora, tudo isso só vai servir para traumatizar para sempre a filha do italiano, que está lá, na delegacia, com oito aninhos, tentando salvar o pai. Terá ela clareza da maldade que é o Brasil? Será que ela conseguirá ser sabida? Ou as perguntas irão confundi-la e ela acabará por condenar seu pai? Como irá proceder? Será que ela não vai gerar o mesmo estrago criado tantas outras vezes, onde vidas foram destruídas pela maldade da denúncia? Esquecemos assim, tão fácil, a célebre loucura feita contra os proprietários daquela escola paulista – lembram?

 

Sei bem que filosoficamente é Rousseau o responsável por tudo isso. Foi ele quem destituiu o poder de Descartes e Locke de dizer algo sobre a infância e a pedagogia. Tornou-se o “dono da infância”. Seu conceito de infância se tornou o conceito de infância par excelence. Com ele, as crianças viraram anjos indefesos, que precisavam continuar em estado de natureza, puras, protegidas por redomas de vidro. Quando Freud tentou falar em sexualidade infantil, isso ganhou apenas os muito escolarizados. No senso comum, a idéia é que o filho do outro é sempre adulto, e o nosso filho sempre criança. Então, não vai ser difícil ver alguns dos delatores tratando marmanjos de vinte e cinco anos como bebês, em casa, enquanto vão acusar o italiano e a criança de oito anos de estarem “em ato de pecado” – sim, só falta isso. Mas isso não vai tardar. Pois conheço bem a mentalidade reacionária de quem está sustentando essas campanhas contra a pedofilia. De ineficazes, essas campanhas estão se tornando altamente nocivas.

 

Embora eu saiba a origem filosófica do problema, só com filosofia eu não posso ajudar a solucionar o caso. Preciso falar claro, avisar todos claramente do que está ocorrendo. Pois não quero ver pais amorosos sendo punidos, em meu país, por amarem seus filhos. Quem iria imaginar que, um dia, no Brasil, iríamos para a cadeia por beijar filhos? Nenhum de nós pode agüentar isso. Não podemos deixar o Brasil do ódio vencer o Brasil do amor.

 

São Paulo, 4 de setembro de 2009

© Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo

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Portal: http://filosofia.pro.br

Rede Social: http://ghiraldelli.ning.com

 

90 ANOS DO CIC (Vertical S/A)

10:30 @ 07/09/2009

Vertical S/A

90 anos do CIC

Jocélio Leal
O Povo - 06 Set 2009



O programa Vertical S/A, na TV O POVO, debateu os 90 anos do Centro Industrial do Ceará (CIC) com o atual presidente, Robinson de Castro, e com um ex-presidente, o economista Lima Matos. Mais do que uma retrospectiva dos últimos 30 anos da entidade, quando de fato entrou para a história, ao servir de celeiro para uma geração de empresários-políticos, fez provocações sobre o futuro. Leia trechos.

NOVOS INVESTIMENTOS

 

Lima Matos - Há um certo planejamento, como por exemplo, refinaria. Nós trabalhamos um pouco na universidade até com cursos já na área de petróleo, na UFC, mas é preciso mais coisa já para discutir. Por exemplo, qual o impacto naquelas 10 cidades ao redor do Pecém? Eu sei que o Estado está começando a fazer, mas precisa ir mais a fundo para se debater esse assunto. É preciso um avanço. O Estado está avançando, a Prefeitura de Fortaleza também, mas é possível uma intensidade maior e deixar mais claro para a sociedade todos os indicadores dessas mudanças.


COPA
LM-
O governador já lançou em reunião com a gente, na Fiec e no CIC, uma proposta de em torno de R$ 10 a 15 bilhões em investimento. O Cid me mostrou uma série de obras que ele está conseguindo. A sociedade precisa se engajar um pouco mais, é preciso que a gente se envolva através de diversas entidades, para verificar que Estado é esse que vem aí. Se vier 50% do que está programado, o Ceará sai de 2% do PIB brasileiro pra 4%, 5%, uma revolução. Para essa revolução, o Ceará não está preparado ainda. A sociedade nem sequer está percebendo essa mudança.

POLÍTICA
LM -
A sociedade hoje é órfã de um processo político mais forte. Aqui no Ceará quantas lideranças estavam no PMDB e passaram para o PSDB, quantas estavam no PSDB e passaram para o PSB, para outros partidos, e a ideologia ficou misturada a uma relação pessoal. Então nós precisávamos de uma reforma política. Você não vê PMDB, PSDB, PT levando para os seus núcleos debates sobre o futuro do Ceará.


ROBINSON DE CASTRO - Eu acho que é preciso primeiro superar essa crise de representação. A bancada, como um todo, nacional está muito preocupada com seus interesses pessoais locais. Não tem uma agenda que contemple interesses comuns, interesses maiores. Está faltando um pouco de cultura, de cidadania, de politização da sociedade como um todo, ai entra a educação.



PLANEJAMENTO
LM -
As lideranças precisam discutir um pouco mais, acho que o CIC foi responsável por uma mudança no Estado fundamental, que nós participamos, realmente. Mas precisamos rediscutir o Estado para 20 anos depois, estabelecendo quais são as premissas que nós vamos trabalhar, quais são os setores que o Ceará quer atacar. Na área do conhecimento qual é nosso potencial maior, o que a gente precisa desenvolver mais e com as âncoras que estão chegando ai. O que precisa desenvolver no setor universitário.

EDUCAÇÃO
RC -
Nós contratamos um consultor professor-doutor que defendeu uma tese sobre observatório em educação, ele montou todo o modelo de gestão, de sustentabilidade desse instrumento que o CIC vai inaugurar, mas que é um instrumento da sociedade. Vai ter um grupo de notáveis que vai estar em torno desse observatório e daí a gente terá condições de discutir isso, pautar isso mais amplamente. A inauguração está prevista para outubro.


LM - Hoje nós não temos 1ª e 2º grau bons, nós temos um nível de pessoas que passam, mas depois são praticamente analfabetos. E enquanto estados como Minas Gerais têm 15 universidades federais, nós temos uma com alguns campi avançados e a estadual com algumas diversificações no interior. Precisamos ter muito mais em educação.

 

A catástrofe de nossa educação

Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 14 Set 2009

“75,6 mil crianças de 6 e 7 anos são analfabetas”, confessa a Secretaria de Educação do Ceará. “A escola pública no Estado enfrenta situação de verdadeira catástrofe” - diz-nos Márcia Campos - “75,6 mil das crianças entre 6 e 7 anos estão na escola mas não sabem ler, escrever ou entender.

 

Tais desafios envolvem os amplos atores da educação (escola, família, sociedade). E nossas forças produtivas, sob a liderança do Centro Industrial do Ceará (CIC), lança-nos a par com 14 cidades brasileiras, o “Observatório de Educação”, a nos transpor o arcaico das “indústrias de chaminés” rumo ao moderno das “indústrias culturais” para toda a federação (União, estados e municípios) no clima de responsabilidade social e ecológico.

 

Nessa linha, recebo, de Ariosto Holanda, discurso a propor, no combate às desigualdades regionais no País, “revolução educacional, científica e tecnológica, hoje com 1.200 CVTs (Centros Vocacionais Tecnológicos)”. Tudo, à luz da lição que, de Dom Aureliano Mattos, colheu: “sem uma arte e um ofício, não se é filho de Deus”.

 

Do Senador Cristovam Buarque, acompanho a luta sem tréguas pela educação em artigos, discursos, pronunciamentos. E de Sérgio Machado, presidente da Transpetro, leio loas ao Programa de Aceleramento de Lula, com 25% de investimentos ao Nordeste – “o dobro da fatia do PIB”, possível rede de fornecedores. Mas evitando-se “enfrentar situação de catástrofe: indústrias isoladas a importar matéria-prima do Sul-sudeste”...

 

Abro a Carta Magna e a LDB. Saltam-me os três horizontes prescritos para a educação: o cidadão (ser social), o profissional (o construtor da vida pelo trabalho) e a pessoa (o ser transcendente). E a martelar-me, os versos de Gonzagão e Zé Dantas: “... uma esmola a um homem que é são ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”.

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe

marcondesrosa@gmail.com

 

 

 

 

 

 

Como justificar uma dolorosa ausência

Paulo Elpídio de Menezes Neto

 

 

 

Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2009

 

Meu caro Henry,

 

Indago-me, por vezes, com certa relutância e visível hesitação, sobre como deveria proceder um “ex” de qualquer coisa para colaborar com os remanescentes em atividade, os agentes das ações cotidianas, sem, contudo, criar-lhes constrangimentos ou fazer mossa aos seus incontáveis afazeres. Não é fácil, como haverá de ver você, quando houver cumprido a sua brilhante e valiosa passagem pela UFC.

 

No mais das vezes, calo-me, furtando-me a manifestar pensamentos e juízos, em respeito aos que estão na linha de frente dessas freqüentes e indesejáveis querelas ou circunstâncias. É claro que me refiro à UFC, instituição à qual consagrei mais de trinta anos de minha vida, sem afazeres paralelos ou interesses transversais. Não estou convencido se contribuí à altura dos desafios que tive que enfrentar. Ninguém poderá firmar julgamento definitivo a esse respeito. Pelo menos, sem a necessária distância que permite julgamento sereno e imparcial.

 

Faço-lhe essas ponderações, em respeito a uma velha amizade, e a alguém que, como você, tem uma folha corrida exemplar, como médico, professor e gestor, em nossa Universidade.  Essas ressalvas servem de anteparo a algumas observações que decidi fazer-lhe, pessoalmente, apenas para justificar a minha boa intenção, ainda que não a possa separar do sentimento crítico que ela dissimula.

 

Estive, neste final de semana, logo após regressar de Fortaleza, onde passei um mês de férias, entre netos e raros e diletos amigos, em visita à Bienal do Livro do Rio de Janeiro, no ato da sua inauguração. Poucos eventos podem assemelhar-se a essa iniciativa da Câmara Brasileira de Livro. A Bienal representa uma demonstração de vitalidade da produção editorial brasileira e dos avanços que conseguimos assegurar ao longo dos anos, no plano intelectual e científico, e na indústria da produção de livros.

 

No exercício da reitoria da UFC e, posteriormente, quando Secretário da Educação Superior, pude, representando o governo, contribuir decisivamente para assegurar a participação dos programas editoriais universitários, com o projeto PROEDI e os recursos orçamentários disponíveis à época. Posteriormente, foi constituída uma associação de editoras universitárias – a ABEU – cujo papel deve ser assinalado como relevante em favor da expansão da produção editorial universitária, à qual coube estimular e encorajar as Universidades e os seus projetos editoriais.

 

Pois bem. Lá estive, movido pelo interesse intelectual de quem se habituou a conviver com livros, desde tenra idade, como, aliás, todos nós, dominado pela curiosidade de quem espreita as novidades anunciadas e espera fazer descobertas, entre novidades e coisas velhas.

 

Na longa peregrinação pelos amplos salões da Bienal, vislumbrei a mostra das editoras universitárias, organizada em um enorme stand, sob a responsabilidade da ABEU. Com a vocação de editor, ainda não aposentada, percorri as salas e as estantes, nas quais mais de 15 editoras expunham a sua produção. Lembrei-me, de repente, de procurar o acervo da UFC, cuja editora ocupou, no passado, lugar de destaque entre as similares, tendo a sua produção distribuída em todo o território nacional, em regime de co-edição.

 

Nada havia ali que lembrasse a vitalidade intelectual do Ceará, muito menos da UFC. Entrei no site da Bienal, em grau de recurso. De fato, do Ceará, do que trouxesse a marca cearense nada estava ao alcance dos olhos ou das mãos, a não ser alguns títulos publicados pela Editora do Senado Federal. Das Edições UFC (era esse o nome da editora, terá mudado, nesses últimos anos, é da nossa índole mudar as aparências, afinal) nada a registrar. Uma ausência que denunciava um vazio que, de fato, não existe. Sabemos que muitos escrevem e publicam no Ceará, às vezes às próprias expensas que as vias oficiais ocupam-se com outras iniciativas.

 

Uma coisa puxa outra. Nas festividades do ano Brasil-França, contentamo-nos, os cearenses, com a exibição de alguns poucos filmes e, eventualmente, alguma fala, por força das circunstâncias. Nós que, nos passado desenvolvemos numerosos programas de cooperação com a França (escrevi um ensaio sobre esse tema, na área das Ciências Sociais), no âmbito da UFC, fomos marginalizados dos eventos anunciados e realizados. O estado do Ceará ficou à margem de todas as iniciativas, relacionadas com as relações culturais e científicas entre o Brasil e a França, por razões desconhecidas. Desconhecidas? Consta que, promovida uma reunião por agentes consulares e diplomáticos franceses, em Fortaleza, os representantes oficiais das instituições ou não compareceram ou deixaram de apresentar os projetos a prazo. Sabemos, agora, que mais de 100 personalidades franceses, escritores, cientistas e homens de cultura, vieram ao Brasil ou estão por vir, além dos Rafales anunciados, em visita a instituições e unidades da federação...

 

Como justificar essa dolorosa ausência? O que podemos fazer para recompor nossos balanços positivos no plano da cooperação universitária com a França? Há o que fazer?

 

Dirigi-me ao Embaixador da França, lamentando o esquecimento a que o Ceará fora relegado, justamente pelo sucesso vivido das nossas colaborações passadas. Só então descobri que, de fato, ausentáramo-nos das negociações em momentos decisivos. Fazer o quê?

 

Não me leve a mal. Escrevo-lhe essas considerações, com cópias a amigos, sem o intuito de agravar ou censurar quem quer que seja. Não me cabe exercer esse papel; se me coubesse a iniciativa, não o faria. Peço-lhe que faça chegar cópia ao professor Jesualdo. Faltam-me intimidade e encorajamento para fazê-lo pessoalmente. Não senti, em meus breves contatos com o reitor, que ponderações ou cogitações de dúvida pareçam-lhe apropriadas, na relação entre estranhos.

 

Um grande abraço e a amizade de sempre,

 

Paulo Elpídio

 

 

 

"O Parlamento está de costas para a sociedade''

 

‘*Cláudio Couto, doutor em ciência política pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, e professor da Fundação Getúlio Vargas, é estudioso da área de conflitos e coalizões políticas - características do pano de fundo da votação de ontem no Conselho de Ética do Senado.

 

Para Couto, o cenário que levou ao arquivamento das denúncias e representações contra o presidente da Casa, José Sarney* (PMDB-AP), custará caro ao Parlamento, que insiste em sustentar oligarquias em detrimento da opinião popular.*

 

A entrevista é de Roberto Almeida, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 20-08-2009.

 

*Eis a entrevista.*

 

*Como analisar o contexto dos arquivamentos?*

 

O acordo entre a base do governo e a oposição indica que há uma oligarquia que compõe a classe política profissionalizada no Brasil e, particularmente, a classe parlamentar. Falo em termos de oligarquia porque em uma situação em que mesmo governistas e oposicionistas, que a rigor disputam ferrenhamente o poder, conseguem entrar em acordo sobre uma questão tão divisiva como essa.

 

O fato é que todos têm a perder com a continuidade das investigações, e os interesses comuns entre oposição e governo vão contra interesses que são entendidos pela sociedade como interesses de toda a sociedade.

 

*É a total dissociação da opinião popular?*

 

 Creio que sim. O Parlamento está de costas tanto para a opinião pública quanto para a opinião social mais ampla. A sociedade de um modo geral se vê evidentemente contrariada com esse tipo de arquivamento, que ao meu entender solapa a legitimidade do Parlamento. Cada vez que o Parlamento toma decisões para proteger interesses privados de seus membros, entendidos eles como uma corporação, as pessoas vão entender que o Congresso é formado por um grupo de pessoas preocupado unicamente com os seus próprios ganhos, ilegítimas para ocupar os cargos que ocupam e transferindo essa ilegitimidade para a própria instituição. Esse é o preço mais alto que se paga.

 

*Como avalia o desenvolvimento da crise no PT?*

 

É uma crise porque é o principal partido do governo, o partido do presidente, e o presidente deixou muito claro desde o começo do processo que queria a preservação de *José Sarney*. Se o seu próprio partido tem uma divisão interna e tem gente que acha que o presidente está errado, é uma crise importante dentro do PT. Sobretudo quando algumas dessas lideranças são muito importantes dentro do partido.

 

É complicado para eles justamente nessa hora em que princípios éticos estão sendo jogados fora pelo PT e em que o uso da coisa pública para fins privados pelo presidente do Senado se tornou tão evidente. Não é uma crise insuperável, mas não quer dizer que algumas cicatrizes não vão permanecer. Já há tantas cicatrizes no PT e essa seria mais uma.

 

*Como reformar uma instituição desacreditada?*

 

Em um prazo muito longo, com uma conduta diferenciada dos parlamentares. Mais um escândalo como esse mantém as coisas no péssimo nível que já se encontram. A recuperação vai demorar ainda mais.

 

 

Fonte: UNISINOS

 

 

 

Eclipse lua e sol

 

 

TENDÊNCIAS E PERSPECTIVAS DA

EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI

                                               

Isolda Castelo Branco

(Trabalho apresentado num Encontro sobre Educação)

 Pensar a Educação para o século XXI é um desafio muito grande tendo em vista sua abrangência. Fica difícil fazer um recorte diante de tantos Programas, como o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), Brasil alfabetizado, Planos: Estadual e Municipal, publicações dos mais diversos autores, como Foucault, Bourdieu, Hanna Arendt que dis­cutem os aspec­tos teóricos da Educação, as inúmeras Conferências sobre o assunto;  Rela­tório sobre  os quatro pilares  estabelecidos pela UNESCO e o Programa brasileiro “Todos pela Educação”. 

 

Entretanto, vou procurar situá-la, na minha perspectiva,  no mundo glo­ba­lizado, na  Sociedade pós-moderna, do conhecimento, analisar o tipo de Homem/ Mulher que queremos formar, e como as escolas estão res­pon­dendo às demandas e exigências do progresso científico, para, em seguida, apresentar meu olhar sobre as perspectivas futuras.  

 

Não pretendo aprofundar as discussões sobre a sociedade pós-moderna, mas pensar com Frei Betto, que afirma: “o avanço da tecnologia, da in­for­matização, da robótica, a gloogleatização da cultura, a telecelulariza­ção das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras”. 

 

 “Para o referido autor para o pós-moderno a história findou. O que im­porta é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e impor­tante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e perma­nente; já não há pensamento crítico, neste mundo competitivo, o homem prefere ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator”. 

 

Eu acrescento algumas outras características: ausência de padrões de re­fe­rência, as incertezas, a fluidez e a fragmentação, um bombardeio de in­formações sem crítica; ausência de questionamentos porque as regras não são mais necessárias e uma cultura do excesso pouco criticada. 

 

A sociedade do conhecimento que valoriza o capital intelectual, exige que os cidadãos possuam capacidades e aptidões nas mais diferentes áreas, como informática, línguas estrangeiras, criatividade, espírito cien­tífico, condições para resolver problemas, liderança e sobretudo capaci­dade de interação. 

           

2. Que tipo de Educação pode ser pensado para esta Sociedade? 

 

Considero que pensar a Educação não significa situá-la apenas em ter­mos pedagógicos,  verificando quais os recursos econômicos disponíveis, (FUN­DEB), o papel da  Escola, da aprendizagem, a situação do professor e os processos de avaliação do ensino com seus indicadores. 

 

Embora todos esses aspectos tenham sua grande importância, vou fixar-me em dois eixos: a inserção da Educação no contexto social e no tipo de Ho­mem/Mulher que queremos formar. 

 

Pretendo, a partir desta rápida caracterização da nossa Sociedade, anali­sar aspectos do mundo globalizado, a situação da Educação brasileira, para em seguida desenvolver os quatro pilares de Jacques Delors, sobre Educação, estabelecidos pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educa­ção, Ciência e Cultura). 

 

Minha escolha baseia-se na opção que os integrantes do Relatório da UNESCO fizeram “por uma concepção pedagógica que foge ao padrão he­gemônico da razão cartesiana, estrutural ou positivista, sugerindo mesmo o movimento dialético da historicidade, a partir da transforma­ção dos edu­candos em sujeitos de seu próprio processo educativo e de seu devir”. 

 

          3. Inserção da Educação no mundo globalizado 

 

A globalização é sempre vista em termos econômicos a partir dos gran­des blocos: EEUU, União Européia e Mercosul. A globalização para ter uma di­mensão mais significativa poderia intercambiar também os as­pectos cultu­rais e educacionais. O Brasil, devido a língua predominante (portuguesa), diferentemente dos outros países da América Latina, não tem oportunidade de conhecer nem trocar experiências com os demais. Temos um único canal de TV (circuito fechado) CNN, que traz informa­ções sobre América Latina. 

 

Os modelos de Educação, vigentes nos outros países, desde que conheci­dos,  como os da Finlândia, Cuba, EEUU, Portugal, Argentina e Chile, entre outros, podem oferecer, aos pesquisadores brasileiros, subsídios necessários para o salto de qualidade que precisamos dar. 

 

As experiências desses países demonstram a importância da alfabetiza­ção em massa (Cuba), a valorização dos professores, (Finlândia, EEUU), experi­ências renovadoras do sistema educacional, (Portugal), e a impor­tância da leitura e da  cultura (Argentina e Chile).  

 

Antes de desenvolver os quatro pilares  estabelecidos pelo Relatório da UNESCO vamos apresentar sumariamente algumas características da so­cie­dade brasileira. 

 

      3.1   Situação do Brasil no mundo global. 

 

O Brasil possui riquezas incomensuráveis; as descobertas atuais são inúme­ras: biodiversidade, da Amazônia, as novas descobertas do pré-sal, petróleo, biodiesel, energia eólica, minérios, entre outras, que já estão sendo motivo de interesse dos países desenvolvidos. Paralelamente, a toda esta riqueza, como já é do nosso conhecimento, somos também um país com uma imensa desigualdade so­ci­al-exclusão/favelas/desemprego/ situação precária da saúde/ violên­cia estrutural/doméstica e nas escolas. 

 

A violência tem sido estimulada pela Mídia por intermédio de alguns de seus programas infantis e para adultos.

 

A situação de violência, de nossas Escolas, é assustadora, e está a exigir uma análise mais aprofundada. Infelizmente muitos alunos com grande poten­cial e liderança são perseguidos e expulsos da Escola. Alguns deles tornam-se os mais temidos “bandidos”; entretanto, o que se percebe é uma tendên­cia a responsabilizar as crianças e os adolescentes pela vio­lência da socie­dade brasileira, deixando de identificar os verdadeiros responsáveis pelas atrocidades cometidas no ambiente escolar. Diante deste quadro, pretendo examinar, até que ponto possuímos as condi­ções que podem nos tornar capazes de cumprir, juntamente com os outros países em desenvolvimento os quatro pilares estabelecidos pelo Relatório da UNESCO. 

 

  4.   Os Quatro pilares estabelecidos pelo Relatório da UNESCO  

4.1  Aprender a conhecer

            4.2  Aprender a fazer

 4.3 Aprender a viver juntos

            4.4 Aprender a ser 

 

 

(Continua)

 

 

                             Eclipse sol e lua

 

4.1 Aprender a conhecer 

 

 

O Brasil possui experiências educacionais exitosas que já serviram de modelo para outros países.

.

O sistema de alfabetização, criado por Paulo Freire,  (infeliz­mente desconhecido por muitos educadores) que propõe uma educação li­bertadora, seria capaz de resolver o problema do anal­fabetismo bra­sileiro, se não fosse a vontade política de não re­solvê-lo. 

 

Novas experiências, exitosas, no interior do Estado, nesta área, têm sido acrescentadas com o Letramento, que inclui as diversas lingua­gens, sobretudo as artísticas, bastante valorizadas, no Re­latório (UNESCO), e que vem sendo desenvolvidas pelo Prof. Ca­valcante Junior da UNIFOR ( Universidade de Fortaleza).

 

Lauro de Oliveira Lima foi  o grande educador, que, juntamente com uma Equipe de professores, da qual fiz parte, divulgou a teo­ria pia­getiana na cidade e no interior do Estado do Ceará, e em outros Esta­dos. Elaborou, em seus livros, diretrizes de uma Edu­cação para o En­sino Médio, que hoje estão sendo aproveitadas e valorizadas. 

 

Darcy Ribeiro, como Reitor da Universidade de Brasília, fez uma ver­da­deira revolução no sistema educacional do Ensino Superior brasileiro.  

 

O que foi feito de todo este riquíssimo acervo de conhecimentos sobre a Educação no Brasil? 

 

1.      Por que esta situação vergonhosa da Educação Brasileira na atuali­dade? 

 

Aprender a conhecer supõe, antes de tudo aprender a aprender; ter o prazer de compreender, de descobrir, de experimentar, porque mais importante do que a aquisição de um repertório de saberes codificados é o domínio dos instrumentos do conhecimento. 

 

A nova função dos professores é de mediador, ensinar os alunos a pro­curar os conhecimentos que  deseja transmitir,  com  a ajuda da internet, com quem os alunos estão tão familiarizados. O conhecimento é múlti­plo, evolui constantemente; os professores com aulas, em três turnos e, sem condições de adquirir livros para sua atualização, sentem-se, muitas vezes, em condi­ção de inferioridade em relação a seus alunos. 

 

Conforme o Relatório (UNESCO) a “sucessão muito rápida de informa­ções mediatizadas, o “zappping” tão freqüente, prejudicam de fato o processo de descoberta , que implica duração e aprofundamento de apreensão dos con­teúdos” .

 

No aprender a conhecer é fundamental a importância da Alfabetização, da formação de professores e alunos leitores, o que assegura, como diz Paulo Freire, nossa capacidade de ler o mundo para ter condições de ajudar na sua transformação. 

 

Jean Soublin, do jornal francês, LE MONDE, a partir de uma pesquisa, realizada pela Associação dos editores, chegou a algumas conclusões sobre a leitura no Brasil, que considero, até certo ponto, verdadeiras.

 

As conclusões desta sondagem foram as seguintes:

 

“No Brasil, vendem-se apenas dois livros por habitante cada ano; uma forte maioria confessa não ter lido nenhum livro durante o ano. A TV ocupa o tempo livre dos estudantes brasileiros e nas novelas onipresen­tes, procura-se em vão um personagem lendo, comprando ou mencio­nando o nome de algum livro. Os estudantes mais favorecidos preferem surfar na Internet”. 

 

Nosso grande desafio: a motivação de nossos alunos; o que fazer para que os alunos tenham gosto pelo conhecimento sistemático, oferecido pelas Es­colas, uma vez que seu  nível de informação hoje em dia é muito elevado e diversificado? Como motivar alunos muito inteligentes, inqui­etos e com um bom nível de informação? 

 

A revolução tecnológica trouxe consigo uma nova forma de pensar, de ver o mundo, uma nova lógica e novos parâmetros de comportamento. A aprendizagem do conhecimento hoje passa fundamentalmente pela In­for­mática. Num mundo globalizado e competitivo a Informática se im­põe como a grande ferramenta de alavancagem das mais diversas com­petên­cias. 

 

Entretanto, não basta multiplicar o número de computadores, e dar cur­sos de Informática, porque a prática tem nos mostrado que os adoles­centes não navegam buscando conhecimento, informações relacionadas com as disci­plinas das Escolas, fazendo pesquisas; seu uso restringe-se ao MSN, ao OR­KUT e sobretudo aos jogos eletrônicos.  

 

Dormem altas horas da madrugada, comunicando-se com jovens do mundo inteiro, falando sobre seus interesses necessidades e projetos que muitas ve­zes desconhecemos. 

 

Uma grande preocupação, dos pais, na atualidade, é com o problema da pedofilia via internet. Não sabem como controlar as crianças, que desde muito cedo, navegam como querem na internet. Sem o controle dos adultos, pesquisam o que lhes interessa, sujeitos, como é do nosso conhe­cimento, ao assédio e sedução sexual dos internautas. 

 

Governo, prefeitura, empresários e Universidades, no Ceará, estão de­sen­volvendo um enorme esforço e investindo na área da Tecnologia da Infor­mação, onde deverão ser criados, Cinturão Digital, Gigafor (já em funcio­namento) e os Parques Tecnológicos. Em sintonia com os Progra­mas do go­verno federal, estão tentando tornar o Ensino Médio mais atraente para os jovens, capacitando-os nesta área de grande importância para o desenvol­vimento de nosso Estado. 

 

4.2 Aprender a Fazer 

 

As perguntas fundamentais, diante das permanentes transformações e exi­gências do mercado de trabalho, de acordo com o Relatório são as se­guintes: como ensinar o aluno a pôr em prática os seus conhecimentos e, também, como adaptar a educação ao trabalho futuro quando não se pode prever qual será sua evolução? Como aprender a comportar-se, eficazmente, numa situação de incerteza, como participar na criação do futuro? São in­dagações constantes do Relatório da UNESCO. 

 

Diante da urgência de se pensar soluções, para nossa situação educacio­nal, e, com as demandas das empresas por mão de obra qualificada, têm sido apresentadas algumas tentativas para compensar nosso atraso, e  responder, sobretudo às necessidades das indústrias modernas, para que os jovens pos­sam fazer sua inserção no mercado de trabalho. 

 

Entretanto, é preciso levar em conta que o progresso técnico modifica, ine­vitavelmente, as qualificações exigidas pelos novos processos de pro­dução. De acordo com o Relatório “as tarefas físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, daí a importância maior ser dada às qualidades como a capacidade de se comunicar, trabalhar com os ou­tros, gerir e resol­ver conflitos, tornam-se cada vez mais importantes. As qualificações hoje devem ter uma base mais comportamental. Trata-se mais de uma qualifica­ção social do que uma qualificação profissional”  

 

As exigências do mercado são muitas vezes super valorizadas, e daí a im­portância dada, em detrimento de outros aspectos de maior valor, às técni­cas de avaliação, aos indicadores educacionais e sócio-econômicos.

 

Estas atitudes dos educadores sugerem certa predominância de uma vi­são positivista da Educação, cuja maior preocupação, com os resultados objeti­vos, demonstra uma concepção mecanicista, que mascara os as­pectos qua­litativos que possivelmente darão uma visão mais rea­lista do nosso quadro educacional.

 

Embora reconheça o valor concedido sobretudo aos indicadores, como ins­trumentos de avaliação, considero que os educandos devem priorita­ria­mente ser preparados para a Vida e não para o mercado. 

 

4.3 Aprender a Conviver 

 

Uma pergunta, constante do Relatório,  pode nortear nossa reflexão: é pos­sível conceber uma educação capaz de evitar conflitos, ou de re­solvê-los de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos ou­tros, de suas culturas, de sua espiritualidade?  

 

O aumento preocupante da violência, nas Escolas brasileiras, está a exi­gir, não só um verdadeiro diagnóstico da situação educacional, como um  reco­nhecimento de que aperfeiçoar o sistema de controle e punição não tem atingido os resultados desejados. 

O espírito de competição, o nível de pobreza da população, as exigências do mercado de trabalho e o individualismo, que caracterizam o mundo atual, têm favorecido o ambiente propício para a escalada da violência. 

 

Os adolescentes vivem situações familiares altamente conflitantes. Num ambiente em que a mãe é a “chefe de família”e os pais, desempregados, tor­nam-se alcoólatras, que “modelos” possuem para a formação de suas perso­nalidades? 

 

Os adolescentes possuem uma extraordinária energia vital e capacidade cri­ativa, que, ou será canalizada em seu benefício e dos outros, ou se voltará contra a Sociedade. Um dos resultados de uma pesquisa recente,  entre os adolescentes, da Venezuela, demonstrou o desejo que eles têm de serem agentes de seu próprio futuro. 

 

Trabalhar os preconceitos, a diversidade sexual e a equidade de gênero po­dem oferecer pistas para o desenvolvimento de um maior espírito de cola­boração entre os jovens. 

 

A aplicação de uma metodologia construtivista, que exige a participação dos alunos, como sujeitos do conhecimento, juntamente com a realização de projetos, com pesquisas por eles desenvolvidas, em grupo, poderá fa­cilitar a aquisição de atitudes mais solidárias e construtivas. 

 

4.4 Aprender a SER 

 

Voltando ao que disse anteriormente, sobre o que nos falta pensar, na área da Educação,  e ao que considero um dos principais eixos desta mi­nha refle­xão, vou analisar que tipo de Homem e Mulher estamos preo­cupados em formar, na perspectiva das relações de gênero. 

 

Toda Ciência tem seu objeto de estudo determinado e conhecido. Na Educa­ção o que conhecemos de nosso objeto de estudo, que é o nosso(a) aprendiz?  

 

O que sabemos do perfil psicológico (bastante diferenciado das décadas passadas) de nossos alunos(as)? Como elaboram os conceitos das mais di­versas disciplinas, adquiridos na Escola, em que consiste seu universo sim­bólico, quais são seus interesses, sonhos, desejos e necessidades? 

 

Os adolescentes de hoje são inteligentes, dinâmicos, criativos, mas ime­dia­tistas, querem respostas prontas, como as que conseguem quando clicam no Google ou em outros sites de busca. Em sua maioria,  não gostam de regras,  só as que são por eles elaboradas; vivem em seu mundo virtual, fazendo parte de comunidades do Orkut, onde encon­tram respostas para suas dúvi­das e sua necessidade de comunicação.  

 

Acostumados desde muito cedo a ver uma sucessão de imagens e cenas, passarem rapidamente diante de seus olhos, na TV, têm dificuldade de con­centração. São inquietos, incapazes de ouvir o outro, de fazer   matu­rar as coisas assimiladas dentro de si. Grande parte deles não têm inte­resse pela literatura; e sua escrita, via Internet, resume-se ao que escre­vem em seus có­digos lingüísticos, desconhecidos pelos adultos. 

 

Sentem-se muito bem adaptados ao mundo tecnológico, usando as múl­ti­plas funções de um celular, jogando videogame, ouvindo músicas no MP3, discutindo filmes. 

 

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                        Eclipse do sol e da lua

 

 

Outro aspecto, assinalado no Relatório, diz respeito à equidade de gê­nero: “ O progresso sustentável em direção à universalização da educa­ção requer o empoderamento das mulheres e das meninas, uma vez que o nível edu­cacional da mãe é um determinante forte da matrícula e desempenho dos filhos na escola”. 

 

As questões de gênero vão muito além dos indicadores quantitativos de matrícula e conclusão de curso. Um amplo campo de pesquisas conforme o Relatório  “documenta a falta de sensibilidade de gênero no currículo esco­lar, nos materiais didáticos e vieses de gênero, nas interações de sala de aula, que favorecem a participação dos meninos em detrimento das meni­nas” Para que a igualdade de gênero seja atingida, sobretudo de­vido à maior vulnerabilidade, à gravidez indesejada, é fundamental que os direitos sexuais e reprodutivos sejam garantidos. 

 

Com Frei Beto penso que “outrora, falava-se em realidade: análise da re­ali­dade, inserir-se na realidade. Hoje a palavra é virtualidade; o sexo também se tornou virtual, não há envolvimento emocional, controla-se tudo no mouse. Estamos construindo super homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados”. 

 

O que se pode observar hoje é que a prioridade, em torno da qual vivem os adolescentes, é o sexo. Sem as informações biológicas sobre o funcio­na­mento dos ciclos sexuais, masculinos e femininos, necessárias à pre­servação das doenças e da gravidez precoce, dominados pelos hormô­nios, expostos e estimulados pela programação da TV, que relaciona sexo com dinheiro e vi­olência, os adolescentes realizam suas experiências se­xuais sem estabelecer vínculos, sem a necessária vivência da intimidade, nem o amadurecimento para realização de uma vida emocional  rica e gratificante.

 

Na minha perspectiva, os meios de comunicação têm uma alta respon­sabi­lidade no processo de subjetivação de crianças e adolescentes, no que tange ao aumento da violência e ao exercício da sexualidade. 

 

A polêmica entre os estudiosos deste assunto é grande. Mas como gosto sempre de me apoiar em dados da realidade, para não permanecer só na te­oria, fiz um levantamento em uma escola pública e uma favela, sobre como nossas crianças (7 e 8 anos) estão vendo a novela Favorita, cujos re­sultados comentarei a seguir.  

 

Os desenhos, em sua quase totalidade, revelaram  explicitamente o nível de violência da novela, demonstrando, desta maneira, como está sendo for­mado o imaginário de nossas crianças, expostas a um tipo de violência in­suportável para nós adultos. 

 

Apesar de estarmos preocupados profundamente com os aspectos cog­niti­vos da Educação, tipos de aprendizagem (que conteúdos precisam dominar, como transmiti-los) não estamos conseguindo motivar nossos alu­nos(as). Grande parte dos adolescentes não está estudando nem lendo.   

 

Aproveito a reflexão feita por Rubem Alves, numa entrevista concedida a Josiane Benedet, para entrar em consonância com sua maneira de pen­sar. “Além de insistir que os professores não devem se preocupar tanto em ensi­nar, sendo o mais importante ajudar o aluno a descobrir, e estar disposto ao risco de não saber, ele insiste no desenvolvimento da capaci­dade de sentir. É preciso ensinar os alunos a gostar de música, apreciar as obras artísticas, gostar de poesia. Sabemos que esses ensinos, na era tecnológica, não nos en­sinam a fazer nada, mas ensinam o que é funda­mental, e o que importa re­almente na vida: sentir, porque os conteúdos cognitivos nos oferecem meios para viver, mas somente a sensibilidade nos dá razões para viver, e é isso que é mais ausente nos nossos sistemas educacionais porque não constitui material para o vestibular”. 

 

Diante das novas configurações familiares, onde os pais dispõem de pouco tempo para os filhos, e os conflitos tornam cada vez mais difícil a convivên­cia familiar, o papel da Escola tornou-se fundamental, não só para aprendi­zagem dos conteúdos cognitivos, mas como um espaço de socialização, dos novos saberes, do encontro, do afeto, de extrema im­portância para a forma­ção de suas personalidades. 

PERSPECTIVAS

            Pensei, para 2009, nas perspectivas com as seguintes Metas educacionais :   

           1.      Conhecer o contexto sócio, econômico e cultural do Ce­ará/Fortaleza. Estudar a literatura cearense, assim como as Artes Plásticas, teatro e compositores musicais.  

 

        2.      Despertar o gosto pela leitura através do desenvolvimento das múl­ti­plas linguagens (vídeo- clipe, teatro, cinema, literatura) que lhes é familiar. 

 

 

       3.      Possibilitar o acesso à informática, e aos inúmeros sites educacio­nais que podem   motivar os alunos e facilitar o trabalho dos pro­fessores. 

       4.      Conhecer o perfil dos educandos por meio do estudo da Psico­logia dos Adolescentes. Saber o que pensam, fazem e sentem; quais seus verdadeiros interesses e necessidades. 

       5. Ensinar a Pensar através do estudo da Filosofia  com o objetivo de desenvolver nos educandos uma nova ótica do mundo, o espí­rito crí­tico  e novas formas de relações de poder dentro da Escola. 

       6. Tornar possível a educação afetivo/sexual, tendo como prioridade  a educação dos sentimentos. 

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