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PODE O TALENTO MORAR NO NORDESTE?

 

Marcondes Rosa de Sousa

 

Tribuna do Ceará, Fortaleza, 16/6/1997

 

      Cientistas nordestinos abespinharam-se com o ministro Bresser Pereira, da Ciência e Tecnologia. É que o Ministro, ao confessar-se seguidor do bíblico "a quem mais tem, mais será dado", teria escorregado nas palavras, denunciando preconceito para com o Nordeste. Voz isolada ou ensaio de um amplo coral?

 

      Vejamos. Dias atrás, em reunião nacional, um membro do "Paulistério" deixou-se trair, em um lapso frasal: "o Fundef vai bem, apesar da existência de prefeitos corruptos, no Ceará". Semanas atrás, a Revista Veja, sob esse mesmo viés, armou reportagem apontando professores universitários de Alagoas e do Ceará como os mais altos salários do escalão federal, admissíveis, em sua ótica, aos executivos das indústrias paulistas. Repercutindo a matéria, a Agência Reuters enviou notícia aos veículos internacionais, atribuindo o fato "aos Estados mais pobres do Nordeste" brasileiro, sobretudo os "notoriamente mais corruptos de Alagoas e Ceará" - difamação que, em cadeia e via Internet, tentou-se, sem êxito junto aos formadores de opinião, no País.

 

      As principais livrarias da Nação ostentam, entre os "best sellers", o último livro de Sebastião Nery, onde o Ceará, em 9 páginas, é grotescamente descrito, não como um Estado, mas como uma corrupta "holding empresarial", a serviço de um restrito grupo econômico, em projeto nada político e social. Enquanto isso, num show em São Paulo, a cantora Rita Lee, contestando a atriz Regina Casé, reafirma, em tom de manifesto: "São Paulo é que carrega, nas costas, o Brasil!"

 

      Em meus sonhos, por certo, não está a Confederação do Equador. Mas, da mente, não consigo apagar a cena que me ficou da adolescência: sala de aula de uma escola em Campinas/SP, eu o único cearense presente. Entre orgulhoso e encabulado, escuto do professor: "Em minha vida, sempre afirmei que, ao melhor aluno, "nove"; ao melhor professor, "nove e meio"; "dez", apenas para Deus. Agora, obrigo-me a uma exceção. Dei meu primeiro "dez" a um aluno. É que São Paulo exporta café e o Ceará exporta talento".

 

      Adulto, descobri que, aos olhos do Centro-sul, o talento não pode morar no Nordeste. Só tem crédito se exportado. "Seria isso a predestinação de uma raça'?" - já indagava Alencar. Ou, em tom pragmático, o diapasão proposto para as próximas eleições presidenciais?

 

      (Extraído do livro Educação: insistências e mutações – Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza. Fortaleza, Edições UVA, 2003. p. 89)

 

      Transcrito para o Blog do Grupo Ethos-Paidéia:

 

http://www.grupos.com.br/blog/ethos-paideia

 

 

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