Produtores do atraso (Eduardo Diatahy)
17:18 @ 10/03/2006

A propósito da mensagem “Ideologias no ensino do português” (em 4 partes), escreve-me o Prof. Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes:
Marcondes:
Li este seu texto via remessa de Circe, na lista de Literatura. Aí você faz referência a mim, segundo você, tendo afirmado que os professores somos «produtores do atraso». É possível que eu tenha dito isso. Sinceramente, porém, não recordo. Mas lembro que costumo afirmar e continuo a pensar que os professores em geral constituem os profissionais da tradição.
Tem, em parte, razão o Professor Diatahy. A afirmação consta do Texto 12 da Lista de Discussão “Desafios Educacionais”, frase final de artigo meu na imprensa cearense. A frase de Diatahy deu-se a propósito da discussão sobre o ensino de língua estrangeira em nossas escolas, até então nada produtivo em contraste com a aprendizagem em cursos e situações fora da escola. Quando eu escrevia o artigo, chegou-me, pela madrugada a frase de Diatahy.
A rigor, diz ela:
“Não se preocupe com isso, não. As escolas e os professores são as instituições e os profissionais da tradição: sempre chegam depois (..). Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...”
A expressão a intitular artigo meu é retirada da expressão “produzindo o atraso”, do Prof. Eduardo Diatahy...
O e-mail que, à época, chegou-me de madrugada, em dezembro de 1999 (no milênio passado!) – a geração “tipo assim” aqui aporia um pequeno ícone a sorrir ou entre parênteses “rsrs” – mas não consegui encontrá-lo, diante de tantos up grades em meus computadores e, com eles, dos HDs que, em muitos se foram.
Abaixo, o artigo meu, então Presidente do Conselho de Educação do Ceará:
PRODUTORES DO ATRASO...
Marcondes Rosa de Sousa,
Presidente do Conselho de Educação do Ceará
Ah! Acertar o passo de nossas escolas com o ritmo dos tempos de agora! Coisa não fácil. Aí, acode-nos a fórmula eufórica de Arquimedes: “Dêem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu erguerei o mundo”. Eureka! Dêem-nos um computador (a alavanca) e uma simples linha telefônica (o ponto de apoio), e aí estaremos em pleno mundo global do conhecimento! Mas, de início, dá-los a quem? Ao professor, de certo, nos diria a Conselheira Guiomar Nammo de Melo (do CNE), fiel seguidora dos ensinamentos da Infraero, que, nas turbulências dos vôos, manda-nos apor máscaras a cair da cabine, primeiro em nós adultos e só depois nas crianças ao lado.
Este, o fundamento dos programas de auxílio ao professor na aquisição dos computadores. Mas qual o efeito dessas “máscaras” sobre o rosto de nossos docentes, até agora? Alguns emblemáticos flagrantes, que temos colhido: Há quem esteja à espera de um curso jamais freqüentado, os equipamentos ainda empacotados. Quem os tenha entregado às crianças como solitários brinquedos. Dedicadas esposas que os tenha deixado com os maridos, para “bater” seus trabalhos. E usos outros até bem mais adequados, que vão do desenho à produção gráfica, além dos oportunos arquivos. Mas convenhamos: reduzir o computador à sádica função de “bater ... os trabalhos” é, para quem o usa e o financia, desperdício e luxo, no mínimo. Além disso, é não perceber que a troca semântica do “bater” pelo “digitar” sinaliza uma mudança cultural, em cujo clima o computador converte-se em digital “alavanca” que, apoiada pelo telefone, abre-nos as portas para a mais bem achada comunicação e educação a distância de nossos dias. Disso, pouco nos damos conta: os dirigentes educacionais, as escolas e os professores, alguns até ousados no plano retórico mas inábeis no operacional.
Por isso, às vezes, a fadiga nos chega a abater a euforia do velho Arquimedes. E, nesse clima, até que nos é um alívio a experiente tranquilidade do sociólogo Eduardo Diatahy Bezerra de Menezes, do Conselho de Educação do Ceará, que, com fina ironia, nos chega, pela madrugada, em silencioso “correio eletrônico”: “Não se preocupe com isso, não. As escolas e os professores são as instituições e os profissionais da tradição: sempre chegam depois (..). Vamos deixá-los, pois, como estão: produzindo o atraso ...”
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