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A FÍSICA DO CEARÁ EM LUTO

 

Foi com enorme pesar que as comunidades científicas do Ceará tomaram ciência do súbito falecimento do Professor Raimundo Alberto Normando, ocorrido à noite de ontem, dia 31.12.2006, nesta capital. O Professor Normando era, na verdade, um expert em física fenomenológica. Possuidor de um profundo conhecimento da matéria, e sendo ele dono de um talento especial para o ensino, o que fazia com grande destreza, conseguia formar simples um campo de saber, dito complexo, despertando vocações de novos físicos, no meio da nossa briosa juventude.

 

Nos anos sessenta, a sua apostila de Física ficou famosa por catapultar tantos jovens aos bancos universitários, mesmo os particularmente avessos ao estudo da Física, isso por descomplicar assuntos áridos, e supostamente difíceis, mercê da forma prática e objetiva de sua montagem, notadamente didática.

 

Nasceu o Prof. Normando em Fortaleza, há 72 anos, no seio de uma família, de estrato humilde, filho de um ferroviário da Rede de Viação Cearense, que sabia da importância de educar a sua prole e preparar seus filhos, para a vida, incentivando-os ao estudo permanente, em que pesem as limitações financeiras, advindas dos seus parcos vencimentos de operário da antiga Estrada de Ferro. Fundamentalmente, a sua formação escolar foi cumprida em escola pública, em especial, no velho Liceu do Ceará, onde sempre foi tido como um aplicado aluno.

 

Na década de cinqüenta, a despeito das dificuldades monetárias, obteve apoio de seu genitor, para largar o seu torrão, a fim de realizar o sonho de ser físico, conseguindo ingressar, mediante vestibular, na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde foi bacharelado em Física. A inexistência dessa graduação, no Ceará, àquela época, impeliu-o a buscar sua realização profissional em outro estado, mesmo ciente dos empecilhos que teria de enfrentar em uma terra distante, mas teve a felicidade de contar com a sensibilidade paterna, diante da aspiração do seu filho estudioso e da escolha que seu rebento fizera.

 

Ao longo da sua vida acadêmica, foi um lente, por excelência, tendo sido professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, antes de ser admitido na Universidade Federal do Ceará (UFC). À UFC, por três décadas, serviu com extrema dedicação e competência, tendo exercido funções de extrema relevância, como: Presidente da Comissão Coordenadora de Vestibular (CCV), Pró-Reitor de Graduação e Vice-Reitor. Em grande parte, foi responsável pela consolidação da Graduação em Física, mantida pelo antigo Instituto de Física, concorrendo, ainda, para a implementação da Pós-Graduação da Física, sendo esta enquadrada, hoje, entre os melhores programas do país, nessa área, o que constitui motivo de orgulho para a UFC e para a gente cearense. Praticamente, todos os docentes e pesquisadores da Física, atuantes no Ceará, foram seus alunos e/ou com ele mantiveram relações de convivência pessoal e profissional.

 

Homem de pensamento cartesiano e ações pragmáticas; sabia, aliás, como poucos, analisar detidamente um problema e desvendar as soluções mais oportunas para cada situação-­problema, transferindo abstrações, de matiz teórica, para o cotidiano, trazendo inovações gerenciais, sempre de notável valia.

 

Também foi docente da Universidade Estadual do Ceará (UECE), entidade sobejamente favorecida, quando de sua aposentadoria na UFC, pois o Professor Normando trouxe uma vasta experiência, tanto administrativa como fundada na docência. Foi ele peça-chave para a melhoria da Licenciatura em Física e a criação do Bacharelado em Física da UECE. Nos primórdios da UECE, tendo sido convidado para assumir a Reitoria da novel entidade, declinou da oferta para não interromper compromissos assumidos com a gestão da UFC, muito embora tenha ele se prontificado a colaborar com o novo dirigente da instituição, o que fez sempre que para tanto foi solicitado.

 

Apesar da aposentadoria compulsória, por ter ultrapassado a idade-limite de 70 anos, ainda continuava ativo e muito produtivo, atuando intensamente na Comissão Executiva do Vestibular da UECE, onde exercia um papel vital na feitura de concursos e vestibulares; serve de exemplo o ocorrido entre agosto e outubro, do ano recém-findo, quando lidou com uma centena de provas dos concursos públicos da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará.

 

No convívio social, era tido como uma pessoa bastante afável, além de ser um notório "causer", revelado nos intervalos e pausas que fazia para espairecer, quebrando a rotina da extenuante, porém prazerosa, tarefa de revisão e exame das questões destinadas a concursos diversos. A maçonaria, para ele, não era apenas uma confraria reservada a encontro social, mas uma instituição à qual devotava o seu apreço, como instrumento de exercício da cidadania, expresso em obras de benemerência e ação social, para o bem do próximo.

 

 

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No ano pretérito, motivado pelo sentimento de brasilidade, e diante dos descalabros da corrupção que avassala o país, o Prof. Normando brindou a sociedade cearense com um curioso e intrigante estudo sobre o tamanho da "Corrupção no Brasil", indagando "Que fazer com 10 bilhõe$? O livro, rico em informações e comparações, as mais diversas, demonstra o quão bem informado era o Prof. Normando, conseguindo repassar ao leitor a sensação de aviltamento que pesava sobre ele, um cidadão probo, de caráter, plasmado na seriedade e na retidão, duramente provado no exercício de suas atribuições públicas.

 

O desaparecimento físico do Prof. Normando deixa uma lacuna de difícil reposição, apesar de ratificar o caráter transitório da vida terrena e de realçar a grandeza da existência humana, atingida em outra dimensão. Certamente, terá ele agora a oportunidade de, em outro plano, o espiritual, travar embates com outros físicos nacionais que partiram antes dele: Schemberg, Lattes, Leite Lopes, dentre outros.

 

Não será uma surpresa se, lá nas alturas, o Prof. Normando, mercê da sua grande habilidade para negociar, conseguir que os resultados das discussões no campo da fenomenologia, forjadas em esferas "para além do nosso entendimento", tragam mais luzes para aclarar as idéias dos tantos físicos que aqui continuam e que, com o seu passamento, enfrentam o viés da orfandade no conhecimento da matéria.

 

Como um aguerrido cavaleiro normando, que desceu das terras nórdicas para a Bretanha, segue, agora, em Paz, meu bom Normando, para o Valhalla, a morada final dos guerreiros vikings tombados em combate. Afinal, muitos foram os embates que você superou, sempre com grande determinação e tirocínio, legando-nos feitos e realizações, em prol do ensino superior cearense, que a posteridade certamente haverá de reconhecer.

 

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor titular de Saúde Pública da UECE

 

 

 

 

                                                                                   

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