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Morte aos professores - 01/06/2005

Por Wilson Souza

Por: Wilson de Oliveira Souza


Talvez a frase seja um tanto radical. Mas no momento em que todos buscam alternativas para a melhoria da educação, somente com propostas diferenciadas é possível chamar a atenção para o grave problema que se verifica, principalmente, em salas de aula. Enquanto muitos estudiosos gastam toneladas de papéis procurando medidas, conceitos e definições de como enfrentar a equação no ensino, medidas simples, porém necessárias, podem alterar o status quo numa situação de aprendizagem. A primeira medida é acabar com os professores.

Bem, ao contrário do que possa parecer, não se propõe assassinato em massa de docentes, mas sim de proporcionar, nas escolas, uma nova relação entre o educador e educando. Primeiramente que busque na raiz da palavra o significado emocional de professor. Este ser, como a própria nomenclatura expressa, é aquele que professa. E quem professa, é profeta. E, como tal, é o dono do futuro e da verdade. E é esse profissional que ainda predomina nas escolas, do pré-escolar aos cursos de pós-graduação. E tudo conspira para a perpetuação da maléfica figura do professor. Seu habitat é um espaço, geralmente quadrado - também chamado de sala de aula - onde se encontra uma disposição cênica do mobiliário como fosse um grupo de militares em formação de ordem unida. Carteiras e cadeiras estão dispostas uma atrás da outra, em fileiras, onde os alunos têm o contato com o seu colega da frente por intermédio da nuca. Algumas escolas reforçam o ambiente autoritário colocando um tablado para que o professor fique mais proeminente. Não é difícil encontrar locais que também possuem uma cerca separando alunos e professor. É o anticonvívio social. A morte da interpessoalidade.


Esse sistema de disposição do mobiliário é, ao mesmo tempo, uma forma de controle por parte do professor e reproduz aquilo que ele representa: a autoridade e poder. E ele parece se extasiar com isso, já que muitos poucos alteram a distribuição das cadeiras, mesmo sabendo que o professor pode compor sua sala como melhor aprouver. Mas o que vemos hoje é o status de poder autoritário reinando entre muitos educadores na relação com os educandos. Alguns até fazem questão de manter a classe sob silêncio sepulcral, mediante broncas e atitudes recriminatórias, visando preservar a autoridade. É até comum encontrar professor que expulsa os alunos mais inquietos da sala, com o objetivo de manter o controle sobre o resto da tropa. Isso ocorre porque quem está na situação de educador é um professor, e não um estimulador de aprendizagem. É este que deve ocupar o lugar de destaque na relação educando-educador.

Na atual situação da educação, onde ainda prevalece a figura do professor, há uma tarefa específica: ele ensina. Ao se destrinchar o significado emocional desta palavra, pode-se dividi-la em duas, a princípio: "en" e "sina". O termo "en" tem o mesmo som de "em", que, dentre os vários significados, pode-se compreender como "em estado de", da mesma forma que, ao se referir a um doente em estado de coma, podemos dizer que "o doente está em coma". Já a palavra "sina" também tem um significado nada lisonjeiro, que indica uma situação de fardo, destino. E o atual sistema educacional tem sido realmente um fardo e destino nada agradável àqueles que procuram nos bancos escolares uma forma de aumentar o conhecimento. Inúmeras pesquisas e depoimentos de docentes e estudiosos demonstram que os professores não cansam de reclamar de que os educandos não demonstram interesse na aprendizagem. E isso é até compreensível, já que esses profissionais preferem manter a autoridade e poder, conferido pelo status quo, onde a sisudez e o mau humor sobrepõem à seriedade. Não se cultiva o prazer em sala de aula. Apenas existe a mesma reprodução do sistema opressor contra o educando, já cansado da situação que ele encontra cotidianamente em sua família, trabalho e grupos sociais.


Portanto, os comportamentos inquietos - que o professor prefere definir como rebelde - nada mais é do que o grito de sufocamento que o educando vive. Ele quer aumentar seus conhecimentos, mas com prazer. Chamam-se isso de aprendizagem, que provém do verbo aprender. Aliás, a própria palavra é, por si só, autoritária. Sabe-se que o vocábulo "a" é usado com o sentido de "a priori". Se decompuser a palavra aprender, encontrar-se-á como significado emocional o "prender" antecipado. Ou seja, o educando é "preso" antes de ser seduzido pelo tema ou discurso. Não é por acaso que esse verbo tem o mesmo significado de memorizar. Portanto, a real função na relação entre educando e educador deveria ser a de apreender. Porque o significado de apreensão é mais condizente com a situação vivida pelo educando, que precisa manter em expectativa o novo conhecimento que está sendo adquirido. A apreensão é um estado de alerta que prepara o espírito para o desconhecido. Encontra a-se como sinônimo para apreender os termos assimilar, entender, captar.


Mas o professor não consegue entender e nem assimilar a diferença entre "aprender" e "apreender". Somente o estimulador de aprendizagem permite fazê-lo, porque é dotado de espírito libertador, onde a preferência é a descoberta, pelo educando, de novidades significativas para a vida atual e futura. Ele vê o educando como um ser autônomo, enquanto o professor vê o educando como um concorrente. Tanto no campo profissional, quanto pessoal. Essa situação ocorre porque o estimulador de aprendizagem tem um papel fundamental nessa relação. Ele é co-participante das descobertas. Nesse sentido, o termo "co" tem significação emocional de parceria, divisão e compartilhamento, da mesma forma que vemos em "co-habitação" (morar junto), "cooperação" (participar junto), co-autor (realizar junto), entre outros. Nesse sentido, o estimulador de aprendizagem, ao estabelecer a parceria com o educando, o faz mediante a junção do "co" com o "apreender", surgindo daí a chave para o prazer na relação educando-educador, que é a de "compreender". A situação é de grande importância, já que se deve perceber que compreender significa também abranger, incluir, captar, conter, assimilar, dentre outros termos de cunho participativo e não autoritário.

Em uma educação aonde se busca a participação, é fundamental que os atuais docentes percebam a diferença entre esses dois profissionais: professores e estimuladores de aprendizagem. Enquanto o primeiro pauta suas ações e transmissões de conhecimento nas respostas; o segundo privilegia as perguntas. Os professores oferecem respostas às dúvidas dos alunos. Os estimuladores de aprendizagem ofertam mais perguntas para os questionamentos.

 

Enquanto professores procuram acalmar a ansiedade dos educandos, mediante proposição de que para tudo há um tempo certo; os estimuladores de aprendizagem incentivam a inquietação dos integrantes da sala com ações e estímulos para a curiosidade. Para os professores as aulas são enfadonhas. Para os estimuladores de aprendizagem as aulas constituem em uma troca ímpar. Os professores sedimentam e transferem o conhecimento mediante o uso dos verbos saber, ensinar, cumprir, entregar dentre outros assemelhados. Os estimuladores de aprendizagem preferem o uso de seis verbos: perguntar, organizar, reelaborar, questionar, uniformizar/unir e expressar. São apenas seis verbos, mas são mágicos. Eles têm o poder da descoberta, pois a junção das letras iniciais forma o caminho do conhecimento, que é a pergunta. Junte-se a isso o símbolo da dúvida, conhecido como ponto de interrogação. Então temos a palavra por quê?

 

Portanto, em um momento em que muitos buscam alternativas para melhorar a educação, é preciso que os docentes se dispam do ranço autoritário que a função ainda lhe dá, fruto de anos e anos de transferência < i>. E isso só é possível mediante propostas diferentes dos atuais sistemas utilizados em salas de aula. E para isso é preciso que se invista em perguntas. Mas antes, "matem os professores".

 

Revista Gestão Universitária02/6/2005 - Número 1

Comentários

(17:22 @ 12/01/2010) Jean Kleber disse:
Um artigo realmente propositivo. Gostei de lê-lo. Sabemos que as mudanças virão lentamente. No entanto já temos alguém utilizando a bússola. Parabéns.

(10:39 @ 17/04/2011) Edna Lima disse:
Achei interessante o seu artigo, entretanto, assim como outros você atribui os conflitos em sala de aula aos professores.Concordo que há profissionais com o perfil que você descreveu, mas, o problema não é só esse. Todas as mazelas da educação sempre é atribuída ao professor. Como a família está dentro desse contexto de descaso com a própria imagem do prefessor? Que políticas públicas existem para dignificar a figura desse profissional? Como pode-se perceber, há muitas outras questões a serem discutidas, além do perfil do educador carrasco que você descreveu.

(17:28 @ 23/05/2011) Simone disse:
Você já lecionou? Só quem já lecionou sabe de fato qual a realidade que se passa nas escolas. Há profissionais como os que você descreveu, mas cuidado com as generalizações. A escola não é a "palmatória do mundo". Quem nos derá que realmente a culpa de todas as mazelas sociais fossem dos professores, certamente seria um problema fácil de resolver. O fato é que poucos se importam com o sistema educacional, desde autoridades políticas que cortam gastos cada vez mais da educação e pagam mal aos seus professores e tem medíocres planos de carreira, isso quando tem, até a família que veem a escola sim como algo que irá "aprisionar" o seu filho por um turno pelo menos, já que a maioria dos pais não aguenta o resultado da má educação que vem dando aos filhos há tempos.