Nordeste, reflexões sobre uma política alternativa de desenvolvimento (ii)
12:45 @ 17/04/2007
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Uma estrutura agrária apta para proporcionar uma oferta elástica de alimentos populares é condição necessária do desenvolvimento, mas não assegura por si mesma o desenvolvimento. Este pressupõe a existência disso que os economistas costumam chamar de "motor", ou seja, um centro dinâmico capaz de impulsionar o conjunto do sistema. Na economia tradicional do Nordeste esse papel dinâmico, ainda que exercido em escala modesta, coube à demanda externa (era a época da economia primário-exportadora). No período mais recente ele coube aos investimentos infra-estruturais financiados, via de regra, a fundo perdido, pelo governo federal e aos investimentos industriais, às mais das vezes subsidiados.
Tanto no caso da economia primário-exportadora como no da industrialização recente, a impulsão dinâmica produziu um crescimento que pouca ou nenhuma conexão teve com a demanda interna regional, razão pela q al as transformações sociais foram praticamente inexistentes, frustrando-se o verdadeiro desenvolvimento.
Mas não podemos deixar de reconhecer que essa impulsão dinâmica é essencial, vale dizer, que não existe desenvolvimento sem acumulação e avanço técnico, se bem que a recíproca não seja verdadeira. Uma adequada estrutura agrária é pré-requisito para o desenvolvimento, mas o impulso dinâmico deste terá que vir da complexificação do sistema produtivo em seu conjunto e isto, numa vasta região como o Nordeste, somente se torna possível mediante industrialização.
A indústria, em sentido lato, é o setor produtivo em que cresce mais rapidamente a produtividade, portanto, é ela que lidera a elevação dos salários e produz o excedente que alimenta a acumulação e gera novos empregos, ainda que estes se situem em outros setores produtivos. O terciário moderno também apresenta as mesmas características, mas ele supõe o prévio desenvolvimento do setor industrial. A própria agricultura, em sua fase mais avançada, integra-se com a indústria, posto que o essencial de seus custos tende a assumir a forma de insumos produzidos pelas indústrias.
O problema crucial, num caso tão complexo como o do Nordeste, está em definir o tipo de industrialização capaz de gerar um verdadeiro desenvolvimento, pois sabemos de experiência que a tendência natural é para favorecer indústrias sem qualquer vínculo direto com o mercado regional.
Importa, de antemão, que nos entendamos sobre nossos objetivos estratégicos, os quais terão necessariamente que ser de natureza social. Se o desenvolvimento requer a elevação do nível de vida da massa da população, ele somente será alcançado se o salário médio acompanhar o crescimento da produtividade social média e se o diferencial de salários tender a reduzir-se. Uma política dinâmica de desconcentração da renda exige que seja mantido um elevado esforço de investimento e que este seja efetivamente criador de novos empregos.
São estas idéias elementares que não é demais relembrar. O que caracteriza o desenvolvimento é o projeto social subjacente. O crescimento econômico, tal qual o conhecemos, funda-se na preservação dos privilégios das elites que satisfazem seu afã de modernização. Quando o projeto social dá prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da maioria da população, o crescimento se metamorfoseia em desenvolvimento. Ora, essa metamorfose não se dá espontaneamente. Ela é fruto da realização de um projeto, expressão de uma vontade política.
Se é nosso propósito lutar pelo desenvolvimento do Nordeste, uma das primeiras ilusões que teremos de abandonar é a idéia de equiparar o nível da renda do nordestino ao do habitante do Centro-Sul. Se esta última região reduz sua taxa histórica de crescimento econômico, isso repercutirá negativamente no Nordeste. A diferença de níveis de renda que hoje existe entre as duas populações constitui o legado do longo período de desenvolvimento primário-exportador, para o qual o Nordeste era menos dotado do que o Centro-Sul, e dificilmente poderá ser eliminada, pelo menos enquanto esta última região não superar o considerável atraso que a separa das economias desenvolvidas. Cabe acrescentar que não está aí o problema. Nas estatísticas internacionais o Brasil figura com um nível de desenvolvimento social visivelmente abaixo do que lhe corresponde na classificação segundo a renda por habitante. Nada impede que, para uma mesma taxa de crescimento econômico, ou mesmo para uma taxa inferior nesta região, o Nordeste obtenha resultados mais significativos no plano social do que o Centro-Sul.
Para que o processo de industrialização SI apenas um "motor", de crescimento, mas também instrumento de homogeneização social, é necessário que essa industrialização se vincule amplamente ao mercado regional. Isso não significa que não possam existir indústrias primariamente ligadas ao mercado externo à região, mas, sim, que, no seu conjunto, as atividades industriais reflitam as condições sócio-econômicas do Nordeste. Em outras palavras, é necessário que esta região se dote de um subsistema industrial capaz de autogerar o seu próprio crescimento apoiando-se na expansão da demanda interna.
Posto que o Nordeste possui uma renda por habitante que corresponde a cerca de um terço da região Centro-Sul, é natural que a demanda regional tenha uma composição distinta e, a fortiori, que a estrutura do setor industrial reflita essa distinção. Mas, na medida em que as indústrias nordestinas tenderam a ser simples prolongamento das indústrias do Centro-Sul, a estrutura da oferta nesta última região passou a condicionar a demanda no mercado nordestino. A preponderância dos padrões de consumo da região mais rica teria que traduzir-se, na mais pobre, em maior concentração de renda e agravação das disparidades sociais.
A menos que modifiquemos essa situação, estaremos condenados a refletir, ampliadas, as deformações por demais notórias da sociedade do Centro-Sul do País. Longe de contribuir para reduzir as desigualdades sociais, a industrialização continuará a reforçar a tendência estrutural do sistema para concentrar a renda e excluir a grande maioria da população dos benefícios da acumulação realizada com subsídios oficiais. Portanto, não basta modificar a estrutura agrária; também é indispensável redirecionar o processo de industrialização.
Todo esforço deve ser envidado para obter uma maior integração da indústria regional e vinculá-Ia, progressivamente, ao mercado local. Isto exige que se estabeleça um regime de reserva de mercado para as indústrias que se localizem na região e adotem opções tecnológicas compatíveis com uma ampla criação de emprego. Indústrias com outra orientação tecnológica também poderão localizar-se na região, mas não há razão para que se beneficiem de estímulos oficiais. O sistema de subsídios deverá ser posto a serviço do desenvolvimento do mercado local e da homogeneização social.
Do ponto de vista nacional, trata-se de aplicar uma política de industrialização que tenha em conta a dimensão continental e as peculiaridades regionais do Brasil. A unificação do mercado nacional, obtida nos anos 30, foi exigência de certo estágio da industrialização do país. Seus efeitos negativos nas áreas com um tecido industrial mais frágil puderam, por algum tempo, ser amortecidos graças aos elevados custos dos transportes inter-regionais. A partir dos anos 50 os transportes passaram a ser amplamente subsidiados mediante a construção de estradas a fundo perdido e a uma política de baixos preços de combustíveis. O quadro presente é distinto, pois o estágio atual da industrialização brasileira está exigindo a desconcentração territorial com vistas a economizar gastos em transportes e também de descongestionar os grandes centros in- dustriais do Centro-Sul, onde são notórias as deseconomias criadas pelo excesso de aglomeração. É no quadro de uma política industrial orientada para a solução desses novos problemas que devemos reivindicar para o Nordeste uma maior autonomia de decisão.
São estes, no meu parecer, os dois eixos de uma política capaz de abrir para o Nordeste o caminho de um autêntico desenvolvimento. Para encetar uma luta dessa magnitude, que não terá êxito sem a participação entusiasta de toda uma geração, necessitamos dispor, no plano político, de adequados instrumentos de ação.
Em primeiro lugar, evidentemente, estão as tarefas no plano nacional de reconstrução do quadro constitucional e de plena legitimação do poder. Nessa fase de reinstitucionalização devemos reivindicar uma adaptação do quadro federativo à realidade atual do País, a fim de que regiões como o Nordeste possam preservar sua identidade e adquiram peso específico nas decisões que afetem as condições de vida do povo. À SUDENE deveriam ser restituídas suas prerrogativas originais de órgão que assessora tanto o Presidente da República como o Congresso Nacional e que participa do sistema de decisões do Poder Executivo no mais alto nível. Se não dispomos de instrumentos adequados de ação política, continuaremos reduzidos ao papel de pequenos satélites numa Federação que se rege cada vez mais em função de interesses econômicos que nos escapam.
Na medida em que no Nordeste se constitua uma vontade política e que amadureça a consciência de que nossos problemas somente terão solução a partir da própria região, deixaremos de ser vistos com complacência, como dependentes incômodos ou como reserva de caça para aventureiros políticos. Então, recuperaremos o papel que já nos coube na condução dos destinos nacionais. E não será por falta de fé no futuro deste País que nós, nordestinos, deixaremos de cumprir a nossa missão na obra histórica de reconstrução que temos pela frente.
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