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PAULO ABEL DO NASCIMENTO, O SOL MAIOR

Marcondes Rosa de Sousa

Na Coluna "Vertical", da edição desta sexta, do Jornal "O Povo", lemos:
 
SOL MAIOR
 
E Paulo Abel, cantor cearense que fez sucesso em vários palcos europeus com voz a la soprano, será lembrado pelo Cefet-Ceará. Durante encontro dos ex-alunos dessa escola, dia 10 próximo, às 19 horas. Paulo Abel foi aluno da antiga Escola Técnica Federal do Ceará, rebatizada de Cefet.
 
***
Muitas lembranças. Um dia, pró-reitor de extensão, nos anos 80, fui procurado por Paulo Abel do Nascimento. Ele se confessou filho de pobre. Mágoas de grande maestro brasileiro, que qualificou sua voz como "imoral". Depois, decoberto pelos europeus, foi qualificado como um dos antigos (em seu caso natural) dos "castrati". Voz soprano, caso raro no mundo. Dizia-me: "Se não tivesse sido descoberto, seria eu, com certeza, um desses prosaicos batedores de carteira".
 
Paulo Abel queria fazer alguma coisa pelas crianças pobres. E, no caso cearense, seu projeto era uma "Opera Nordestina". Apoiamos seu projeto. De vez em quando, recebia eu um telefonema de Abel, em qualquer parte do Globo: "Professor, estou indo aí para o Ceará". E aqui, metia-se à criação do "Grupo Sintagma" e dos movimento vários em torno da sonhada "Ópera Nordestina".
 
Criança criança. Gostava de almoçar, quando aqui, em minha casa. Leonardo, o filho mais novo (hoje músico) vivia às turras com ele. Bernadete dizia que ele comia demais, louco por coisas que, de muito, não provava na Europa: feijão com maxixe e coisas do gênero.
 
Um dia, foi ele, na UFC, à tesouraria receber um pro-labore. Lá, o funcionário lhe pediu a carteira de identidade. Ele não a portava mas perguntou para quê. "Ora, respondeu-lhe o funcionário. Para provar que você é você". Aí, Paulo Abel, com sua voz potente e estridente, dessas de fazer tremer as vidraças, começou a cantar". Nisso, passou o reitor, José Anchieta Esmeraldo Barreto, a contemplar a cena. Terminado, ele perguntou ao funcionário: "Alguém, além de mim, cantaria assim?". O funcionário não entendeu. Aí, Anchieta ordenou: "Pague ao homem. Só ele tem essa voz"...
 
Depois de pró-reitor de Anchieta, lá fui eu para a TVE/Ce. Por coincidência, Paulo Abel veio ao Ceará. Meteu-se de bermudas, a verificar e meter-se nas coisas: "Meu Deus, esse piano está se perdendo. Tira daqui, leva prali". O chefe do setor veio falar comigo, preocupado. Pensava que Abel era pessoa minha que eu iria colocar em seu lugar como chefe de sei lá que seção. Escutei a preocupação do funcionário. por acaso, Paulo Abel havia deixado comigo uma revista com fotos de recital seu em programa nacional. Abri a revista com as fotos coloridas. Perguntei ao funcionário da TVE: "É esse aqui, de smooking que você pensa que vou colocar em seu lugar?" O funcionário caguejou: "Ué! Aquele ali de bermudas é esse aqui? E quem é esse artista tão grande e tão simples assim?"
 
 
 
 
Paulo Abel deixou-me alguns CDs seus. E, um dia, um conhado meu, de Teresina, deu com tais CDs e começou a ouvi-los. Aí, Bernadete (a empregada) veio até ele e disse: "É o Abel, né?" Meu cunhado ficou intrigado com o gosto estético da cozinheira: "Você conhece?" E ela, sorrindo: "Ora, come pra diabo. E, quando está perto, atrapalha todo o meu serviço". Pergunte ao Leonardo, com quem ele fica "inticando" fazer as vidraças tremerem com a voz dele! Meu cunhado só entenderia quando expliquei que a figura vinha muito em minha casa...
 
Muitas histórias. Novelescas, até. Uma professora americana, visitante e soprano, um dia confessou-me seu ciúme de Paulo Abel. Ele era um soprano mais potente que ela. Tinha caixa toráxica mais avantajada.
Era grande amigo de Violeta Arraes, que, como Secretária de Cultura do Ceará procedeu a histórica reforma do Teatro José de Alencar.  Um dia, com Paulo Abel, foi visitar as obras. Lá chegando, todos trabalhando em meio a máquinas em intenso barulho. Aí, Paulo Abel, em dado momento, soltou a voz. As serralheiras foram silenciando. Martelos e vozerios, idem. Silêncio geral dos operários. E, afinal, palmas muitas...
 
Com Joãozinho Trinta, no Rio, desenvolveu projeto junto a crianças. Pensava em seu exemplo. E, no Ceará, muito de nossa música deve a ele.
 
Minha saudosa homenagem a Paulo Abel e a solidariedade aos que, na antiga Escola Técnica Federal (hoje Cefet), o relembram em justa homenagem.
 
Prof. Marcondes Rosa de Sousa

Comentários

(04:22 @ 03/11/2006) Anônimo disse:
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