Agulhas Negras (Circe Vidigal)
20:04 @ 17/03/2008
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Academia Militar de Agulhas Negras
AGULHAS NEGRAS
Circe Vidigal
A casa da menina ficava na Praça de entrada da Academia Militar das Agulhas Negras. Era uma bela e simpática residência, com jardins cheios de dálias à toda volta e uma varanda no andar de cima. Na parte de trás havia um quintal onde fizeram uma boa horta. Quando as cenouras ficaram de bom tamanho, arrancava-as, tirava-lhes a terra na própria roupa e as comia assim mesmo, sem sequer lavá-las.
A casa condizia com o posto e o cargo que seu pai exerceria. Como coronel, fora designado para o Comando do Corpo de Cadetes. Ela já não usava tranças e seus cabelos dourados escuros eram fartos e rebeldes. Magricela, olhos verdes e nenhum peito. Uma táboa. Nunca se preocupara se era feia ou bonita; andava sempre tão ocupada, estudando ou “aprontando “ com os irmãos que não lhe sobrava tempo para vaidade.
Estaria, talvez, com uns treze anos, mas agira, até então, como um molequinho junto aos meninos. Nunca brincara de bonecas e a única que tivera fora trazida por seu padrinho da Alemanha. Era uma bela e cara boneca de porcelana que se espatifou ao chão no dia em que a ganhou. Achara-a linda e, em seu entusiasmo desastrado, jogou-a para o alto e deixou-a cair no chão. Sua mãe quase a matara de raiva, por sua falta de modos, compostura:- “Isso lá era jeito de menina? Devia levar uma boa surra ! “
Imagine só ! Com o pai por perto ela não se atreveria! A mãe juntou todos os caquinhos que levou mais tarde para o hospital de bonecas em Botafogo. Disseram-lhe que ficara perfeita, mas nunca mais lhe vira a cara. Não soube que fim levara e também, pouco importava. Seu tempo livre era para se aperfeiçoar com o pião. Já conseguia pegá- lo na palma da mão mas ainda faltavam alguns malabarismos mais sofisticados- Na carniça e na búlica era sempre a primeira: Marraio ! E o resto, como se dizia? “ Sou rei” ? Não tinha certeza. Esquecera mesmo da resposta que se dava ! Também, são tantos anos ! Havia também uma brincadeira de polícia-ladrão, onde, na fuga, se subia por uma goiabeira no quintal, dali ganhava-se o telhado da garagem do vizinho de onde se atiravam ao chão, numa caixa de areia fabricada pelo cúmplice, filho do próprio ( vizinho ) . Mas isso foi bem antes, quando ela ainda tinha seis anos e moravam em Realengo.
Agora, em Rezende, já era quase uma mocinha e apesar da falta de vaidade já se dava conta como ficava estranho correr no meio daquele monte de meninos: os irmãos e seus amigos – só ela de mulher.
Matricularam-na num colégio da cidade, onde todos os filhos de militares estudavam. Os professores eram também militares da Academia e a disciplina era férrea, além do ensino ser, também, de primeiríssima qualidade. Mas todos sofriam, por isso ou por aquilo. Ela, filha do comandante, era visadíssima. Sorte que era uma terrível “cdf” e só tirava nota alta. Também, pudera; vinda do Instituto de Educação, só poderia fazer um bonito ! Paradoxalmente, com tanta peraltice que fazia na rua era comportadíssima na escola. Acho que era meio sonsinha e gostava de representar a boa moça. Enfim, não misturava a rua com a escola. Eram compartimentos diferentes, onde exercia sua dupla personalidade, ou, quem sabe, sua personalidade global setorizada apropriadamente.
Nas férias, o conjunto de casas onde moravam os oficiais costumava ficar quase vazio, pois a maior parte ia para sua terra de origem. Então era uma festa completa para a garotada que ficava. Juntavam-se em bandos com tarefas distribuídas: vocês pegam as flores do jardim do major fulano e beltrano. Na casa de outro havia muito milho no quintal e assim por diante. Não entravam pela frente; pulavam os muros internos, dos fundos, passando de uma casa para outra; marcava-se um ponto de reunião onde se dividia irmãmente o produto da farra – ou roubo, como queiram.
A casa vivia enfeitada de flores e ainda ninguém se dera conta. A empregada, crente, há quinze anos na casa, recusara-se a cozinhar aquele milho do pecado e vivia ameaçando “contar para o coronel” mas qual nada! Vira nascer a menina e todos os seus outros irmãos. Tivemos que arranjar outra pessoa menos escrupulosa para fazê-lo. O pai certo dia estranhou. As dálias e as rosas continuavam em seu jardim e aquela floração desvairada dentro de casa! Não era bobo ! -“De onde são essas flores?” Perguntou já de cara feia. Bem, não costumavam mentir-lhe e confessaram-lhe a brincadeira, contando com sua compreensão. Não contavam era com seus conceitos éticos e morais pra faltinha tão sem importância.
O castigo foi severo: uma semana sem sair de casa, sem falar ao telefone com os amigos, sem botar o olho na rua. O irmão logo abaixo dela prometia ser um cientista da pesada, pois bolou imediatamente uma máquina de comunicação com os amigos; acoplou na enceradeira uma lâmpada que acendia e apagava no botão. Aprenderam, num dicionário, o Código Morse e ficavam se comunicando com os amigos do outro lado da praça, estes apenas acionando a luz do teto das suas varandas.
Eita, castigo divertido! Mas quase inutilizaram a enceradeira, de tanto liga e desliga para formar as palavras! Gostaram dessa comunicação em código, que lhes permitia liberdade total de linguagem e assunto, na presença dos outros, não pertencentes ao bando e, já fora do castigo, aprenderam a linguagem dos surdos-mudos e ficavam assim, na frente dos outros, danados, pois não sabiam do que se falava.
Criança inventa cada uma! Mas ela não era mais criança. As regras já lhe haviam chegado e sofria muito com isso, todos os meses. De repente, percebeu que aqueles jovens fardados a olhavam de forma diferente dos meninos, mas não se atreviam a dirigir-lhe a palavra. Imagine! A filha do Comandante! Daria cadeia na certa! Mas o destino é imprevisível e, na casa do melhor amigo de seu pai, que também tinha vários filhos que eram da “turma”, a mocinha conheceu um jovem cadete de 17 anos que tocava piano e violino de forma encantadora.
Ela ficava paradinha, sentada num cantinho, ouvindo embevecida. Tudo o que sempre desejara fora um piano, poder tocar assim como ele. Mas o pai, em seu excessivo zelo nunca o permitira. Era de uma família de musicistas, as irmãs formadas, uma em piano outra
Imagine se fosse aprender piano. Nunca! Mas ela ficou triste para o resto da vida, por causa desse piano. Ficou um buraco em seu coração e até hoje chora, já quase bisavó, quando conta essa história. Pobre pai. Ela hoje o compreende bem, mas, mesmo assim, jamais poderá perdoá-lo. E como não ficar deslumbrada, com aquele jovem tocando piano? Ele percebeu o seu encantamento e veio falar-lhe.
No dia seguinte, na hora da dispensa, estava em seu portão, pois via sempre quando ela saía de bicicleta. E começaram a conversar, ali mesmo. Falavam do piano, quando o pai chegou no seu jipe. O jovem prestou-lhe continência e o pai lhe respondeu educadamente, mas com a cara fechada. Quando a menina entrou ele a chamou: -“ Você tem um ímã; uma atração por maus elementos. Onde conheceu esse rapaz? “ - “ Na casa de seu amigo Cel. Otávio. Ele toca piano muito bem ! E violino também. É um artista, não sei o que está fazendo aqui nessa escola? - “ Ele é um agitador! Um comunista ! E um presunçoso !
Chamei-o como a um filho, para conversarmos; talvez precisasse apenas de alguns esclarecimentos; falei-lhe do comunismo e do que se tratava e sabe o que me respondeu? “– “ Não tenho culpa, coronel, se os comunistas pensam como eu ! “Aquilo selara seu destino, ou melhor, o meu, pois proibiu-me terminantemente de vê-lo ou falar-lhe, mas jamais o perseguiria por seu credo ideológico. O pai era justo e respeitava as crenças alheias, mesmo que opostas as dele. Não lhe faria mal algum; E ele era apenas um menino com a cabeça cheia de sonhos, engajado na campanha do “Petróleo é Nosso “!
Ironia do destino : anos mais tarde esse coronel seria um dos fundadores da Petrobrás; depois de sua morte prematura, teve até um petroleiro batizado com seu nome. Ela soube, nos Anos de Chumbo, que seu amigo pianista tinha cinco irmãos, que todos haviam sido presos e um desaparecera completamente nos porões da ditadura. Quanto a ele, jamais o viu novamente, mas ainda se lembra de tudo, nos mínimos detalhes. E de seu pai lhe dizendo: - “Deus sabe o que faz quando te fez mulher. Se fosses homem já estarias preso, morto ou deportado! Só me procuras maus elementos”
E tinha razão; ela adorava um fora da lei, agressor do sistema; Naquela época havia na Itália um bandido famoso caçado por toda a Polícia. Salvatore Giuliani era belo, valente e seu nome e retrato estavam em todos os jornais, montado num garboso cavalo, com uma carabina a tiracolo. Lindo ! Ela torcia por ele, desesperadamente, ainda mais que corria uma lenda que roubava dos ricos para dar aos pobres; o próprio Robin Hood italiano. Mas um dia o pegaram e o mataram. Foi tudo muito triste.
Mas mais triste do que tudo em sua pré-adolescência, lá nas Agulhas Negras, foi o dia em que o pai achou que lhe havia mentido, que o enganara, não acreditando
O pai, acostumado com sua pontualidade para não perder o ônibus que levava toda a garotada para o colégio, já estranhou aquele atraso; além do que, sua menina não era dada àquelas vaidades! Quando ela viu que já perdera a hora do ônibus, pediu-lhe que a levasse em seu jipe para o colégio, o que ele negou peremptoriamente, alegando que veículo militar não era para transporte de família. Implorou-lhe. Pelo próximo ônibus perderia a primeira aula.
Ele foi irredutível. Sem escolha, foi para o ponto esperar. Encontrou na condução um colega também retardatário – mas esse de malandro que era – e sentou-se no mesmo banco, naturalmente, onde conversaram até o destino final. Qual não foi sua surpresa, ao descer e encontrar seu pai, no jipe, na porta do colégio. Chamou-a, mandou-a subir e tocou de volta para casa, sem uma palavra de explicação.
Ela não estava entendendo nada e lhe perguntava, por que estava fazendo aquilo. Seu rosto estava terrível! Só ao chegar em casa e fechar-se com ela no escritório, falou: -“ Eu quero uma explicação para toda essa dissimulação! Nunca pensei que você fosse capaz de enganar seu pai dessa forma ! “ Enganar? Como? Ela não conseguia compreender até que ele lhe explicou . Ela o havia enganado, ao lhe pedir que a levasse. Teria sido só para disfarçar o “encontro “ combinado, pois já sabia que ele não transportava ninguém de casa no jipe! Além do mais, todos aqueles preparativos embelezatórios significavam alguma coisa! Não houve jeito de convencê-lo e ele estava profundamente magoado e convencido do crime de alta traição.
A relação entre os dois sempre se baseara na confiança mútua e no diálogo e mesmo quando brigavam e se desentendiam era algo diferente do que se costuma ver com outros pais e outros filhos. Era a sua amada princesa, dona dos melhores atributos e tentava prepara-la para a vida com amor, honestidade e retidão. Entre eles nunca houvera mentiras. E agora ela lhe dava esse desgosto! Pois estaria de castigo, sem ir ao colégio sequer, enquanto não reconhecesse seu erro e lhe pedisse desculpas.
Que coisa terrível, ter que pedir desculpas por algo que não fizera! A isso não estava acostumada e agüentou firme, em seu quarto, num desespero de fazer dó, pois iria perder as provas finais e com isso, todo um ano letivo ! Briga de foice. Ela não se conformava e não via outra saída senão morrer. Se mataria.
Mas como? Ouvira falar em estriquinina, veneno poderoso que matava rápido apesar da dor. Nas gavetas dos armários da mãe havia várias bolinhas, com um cheiro forte, para matar baratas. Juntou uma porção delas, mas não conseguiu dissolvê-las em água; esmigalhou-as o mais miudinho que pode, colocou tudo na boca e engoliu com água; e deitou-se esperando para morrer. Sequer fez uma oração. Queria morrer mesmo.
Salva por sua ignorância, a naftalina deu-lhe uma tremenda dor de barriga e nada mais. Vencida pela primeira vez em sua vida, acabou pedindo desculpas ao pai só para poder prestar os exames finais. Afinal, era a primeira aluna da turma, como iria perder o ano só porque seu pai já não era mais o mesmo? Que se danasse. Ficou sem lhe falar vários meses e toda a família sofria com isso, pois ele também não se comunicava com os outros.
Um caso de amor mal resolvido, mas que, felizmente, não acabou em tragédia. E ninguém, nunca, soube de sua tentativa de suicídio.
Comentários
(12:46 @ 18/03/2008) Jean Kleber disse:
Um prazer ler esta crônica. Realmente um prazer. Um abraço.
(14:05 @ 26/03/2008) Anônimo disse:
Olá Circe, lendo sua crônica, voltei ao meu passado, e como é gostoso superar tudo e poder contar mais tarde. Parabéns querida, pois sei que essa menina ainda mora em você. Dalinha Catunda