
120 ANOS DEPOIS
Marcondes Rosa de Sousa,
Professor da UFC e da UECe
Diz-nos Cristovam Buarque, em artigo recente, que, com o poema “Navio Negreiro”, Castro Alves despertou a Nação para a causa abolicionista. E que agora, 120 anos depois, a arte, de novo, voltava a outra abolição: a “educacionista”. E isso, quando, no último carnaval, a “Vai Vai”, escola-de-samba paulista, desfilara com imensa bandeira nacional a portar o lema “Educação é progresso”, em lugar do “Ordem e Progresso”.
O novo slogan, mais que bordões ou “temas transversais” em nossa pedagogia, tem forte apelo popular. Tanto assim que, na caudal da “Vai Vai”, hoje figuram empresários, artistas e – diz pesquisa - o povão, para os quais educação é “capital social e humano” ou “força criativa”.
Dias atrás, no Ceará, geração histórica, ora partida em duas facções políticas, postava-se em auditórios contíguos na FIEC. Num, a discutir o ensino profissional (CENTECs e CVTs), alastrando-se hoje por Minas, São Paulo e o País, sob o lema “sem arte e sem ofício, não se é filho de Deus” (Dom Aureliano a Ariosto Holanda). Noutro, os programas históricos de redução da pobreza, no Ceará. Neste, José Serra, a elogiar programas como o das “rezadeiras e parteiras leigas”, de Galba Araújo, a alastrar-se pelo País e o mundo. Técnicos de Israel a nos mostrar expressivos índices de tal redução. Eloqüentes depoimentos: a) menino de rua hoje professor universitário; b) ex-favelado ora notório causídico nas causas populares.
Como nos desfiles de carnaval, a educação nutre-se das lições do ensaio-e-erro. Escola de samba, nela desfilam os que, do nascer ao morrer, tangidos pela cumplicidade das arquibancadas, deságuam, afinal, na “praça da dispersão” do ser humano, em sua tríplice face, a atingir o sustentável desenvolvimento, integrada pelo profissional, o cidadão e a pessoa, em novo abolicionismo.
Comentários
(08:11 @ 06/04/2008) Jean Kleber disse:
Caro Marcondes, você tem razão quando fala da cumplicidade das arquibancadas. Na verdade é o povo quem define o que é educação. Os intelectuais acham que são eles a defini-la. Eu fico admirado de ver como a população em geral assimila o papel de "bancário" que fomos levados a exercer. No caixa eletrônico fazemos hoje todas as operações que antes o "caixa" executava em nossa frente, depois de enfrentarmos a fila. As crianças nadam de braçada no computador. E o "way of life" norte-americano começa a se estabelecer como comportamento nosso. Tudo hoje se quer resolver com um advogado. Até pisão no pé na fila do banco. Depressão e disturbio bipolar ja fazem parte do linguajar do dia-a-dia. Na esteira dos pseudo-intelectuais "sem terra" faz passeata contra a transgenia (essa é braba !). Células tronco também é assunto em vias de banalização. É esse o quadro. Sobra informação. Há que cuidar da formação, contudo. Cursos para professores (sobrecarregando a jornada diária, claro!), são promovidos pelas secretarias de educação à semelhança do tapa-buraco das estradas promovido pelo governo em janeiro de 2008. Há um esforço, sim. De atualização, de adequação e não se "chega" porque? Porque os tempos hoje são extremamente dinâmicos. As tecnologias e as descobertas logo se desatualizam. E quiem puxa o trem? Os gênios, os cientistas de primeira linha que têm uma percepção quase além de "Jornada nas Estrelas". O que nos falta? Ética. Filosofia de vida realmente produtiva, voltada para a fraternidade. Humanização. Busca de um padrão de vida menos belicoso, sem engarrafamentos, sem poluição, uma tecnologia voltada para a qualidade de vida. Saúde, enfim. E a cidadania de não furar a faixa de pedestres. De não atirar a latas de cerveja pela janela do veículo. De não invadir. De não "levar vantagem". De promover o trabalho e não a esperteza. É aí que está pegando...