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SURFANDO NA POROROCA

 

                                    Flávio Vidigal

 

 

          Chegar ao Amapá, não é tarefa fácil.  Depois de 6 hs de vôo, algumas subidas, descidas e conexões o vôo chega a Macapá. No aeroporto às 2hs da manhã, a idéia de um descanso merecido se esvai quando a organização do evento nos guia até 2 ônibus que aguardavam para levar competidores e imprensa até o município de Cotias do Araguari, uma viagenzinha de nada, apenas 4 hs por uma estrada de terra.

 

         Na chegada às 6hs da manhã, começa o embarque de todo equipamento e suprimentos para uma semana na selva. São 3 barcos do tipo gaiola onde acomodamos nossas redes para seguir 13 hs de viagem até próximo a foz do rio onde acontece a pororoca. Bombeiros, médicos, cozinheiros viajam num barco, imprensa em outro e surfistas no terceiro barco: uma verdadeira operação de guerra.

 

         Durante a viagem me impressiono com a população ribeirinha, que vive longe da civilização e dependente do seu próprio esforço para sobreviver. Aproveito para conhecer meus colegas de profissão, alguns veteranos de selva e outros marinheiros de primeira viagem. Equipes da CNN americana, da NHK japonesa e de uma agência de notícias alemã se acomodam com estranheza nas redes, mas não reclamam de nada, pois pra quem está acostumado a cobrir guerras isto mais parece um passeio pelo paraíso me diz o americano Douglas recém chegado do Iraque.

 

         Chegamos ao nosso destino por volta da 19 hs, completando 24 hs de viagem  ininterruptas, desde que entrei no vôo em Floripa e logo nosso Capitão comunica o encontro com a pororoca da noite que em instantes chega chacoalhando o barco por uns 15 minutos. O sono vem com o balanço e a visão do céu estrelado se funde a um sonho que dá asas a imaginação.

 

         O despertar é cedo e corrido pois a pororoca passa as 7 hs da matina  e configura-se neste momento toda a peculiaridade deste evento onde não existem espectadores, apenas competidores, juízes, imprensa e os barqueiros, estes, peça fundamental para que o surfista consiga entrar na onda e para posicionar os cinegrafistas na frente da onda rezando para que o motor na pare.

 

         Nenhum evento no mundo tem estas particularidades. No Tahiti dependemos de barcos para filmar a perigosa onda de Teahupoo, mas eles ficam parados num canal; aqui é adrenalina para todos, pois o evento é em movimento o que não permite erros.

 

         A pororoca acontece nas fases da lua cheia e nova onde a diferença de marés é maior, causando um refluxo das águas do oceano adentrando o rio por vários kilômetros formando ondas que podem ser surfadas por vários minutos.

 

         Neste primeiro dia tudo correu bem e apenas aconteceu um surf treino para checar se a infra  funcionaria. De volta ao barco soubemos que ficaríamos instalados numa fazenda, num igarapé há poucos minutos dali. A chegada revelou-nos mais uma surpresa:  um barco do Governo do Amapá com infra-estrutura para a imprensa  e computadores conectados via satélite, tudo isso nos confins da selva amazônica.

 

         No decorrer da semana os dias se seguiram com pequenos incidentes, barcos quebrados, marés muito secas que nos obrigavam a caminhadas empurrando o barco, ajuda a golfinhos encalhados enfim os problemas que uma operação deste porte pode ter.

 

         A competição tinha um favorito desde o começo; o Rei da Pororoca Adilton Mariano, recordista em tempo de onda surfada, tinha um fácil caminho até a vitória, pela desistência do vice líder do circuito Ricardo Tatuí que não compareceu. Já no primeiro dia do evento Adilton surfou a onda da sua vida; segundo suas declarações, uma onda cheia de manobras e com uma força só encontrada no rio Araguari.

 

         Um incidente marcou o terceiro dia envolvendo a equipe da CNN e a produtora da agencia de notícias alemã. Um avião viria buscá-los em uma outra fazenda a 2hs de barco onde havia uma pista de pouso, mas o barco deles quebrou e eles ficaram a deriva, indo em direção a foz do rio, arrastados por uma forte correnteza, durante 8hs debaixo de uma tormenta tropical.

 

         Só foram salvos porque a equipe da CNN tinha um telefone de satélite e contactou Atlanta nos EUA que se comunicou com o governo do Amapá que por sua vez orientou o avião que iria pegá-los a  jogar uma garrafa com uma mensagem explicando a situação  aos bombeiros que nos acompanhavam  para que fizessem o resgate . A chegada de volta a nossa fazenda, por volta da meia-noite, mostrou que os homens estavam cansados e a produtora  beirava o estado de choque, pois poderia ter acontecido o pior se alguns ribeirinhos não os tivessem acolhido  pouco antes da pororoca entrar com força total.

 

         A competição continua no dia seguinte e se desenrola sem muitas surpresas. Adilton sagra-se campeão do circuito por pontos antes mesmo do evento terminar.

 

         No ultimo dia houve uma semifinal  com o Curitibano Sérgio Laus (recuperado de uma lesão que teve na C5 -quinta vértebra cervical- quando sofreu um sério acidente da última vez que esteve no Rio Araguari)  e o atleta do Amapá, Stanley, vencendo Laus que na mesma onda segue para a final com Adilton Mariano que apresenta um surf mais bonito e com várias manobras sagra-se campeão do evento também.

 

         A bateria estava decidida quando outros surfista resolveram surfar. Adilton continuava na onda quando um dos barcos parou o motor e seus ocupantes surfistas pularam juntamente com o barqueiro deixando o barco desgovernado indo de encontro a pororoca onde ao ser pego pela onda, dá uma surfada quase indo ao encontro do Adilton que numa manobra rápida se afasta e o barco fica pra traz escapando de ir ao fundo.

 

         Depois de tudo isso, como não sou de ferro,  resolvi me jogar na água com a prancha reserva do Laus que estava no meu barco e pude sentir o gosto de poder surfar por 6 minutos a onda mais longa da minha vida.

 

 

 

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