Tradução e alteridade (Adail Sobral)
13:05 @ 26/03/2006

Condensa trabalhos de Adail Sobral
“Preservando o sentido e alterando a forma mediante a adaptação das metáforas e das palavras à sua própria língua. Não achei necessário verter palavra por palavra, mas reproduzi o estilo e as ênfases do conjunto...” (São Jerônimo, Carta a Pamáquio, 395 E.C.)
1. entender a criação de sentidos (não só a significação) na língua estrangeira;
2. perceber a que público o autor se dirige na língua de partida;
3. perceber que impacto tem a relação interlocutória específica entre autor e público originais na criação de sentidos;
4. perceber de que modo o autor cria a arquitetônica, o todo estruturado, da obra a ser traduzida;
5. penetrar exotopicamente na cultura de partida, ou seja, conhecê-la tanto do ponto de vista de sua especificidade como da perspectiva de alguém que não é parte dela, mas de outra cultura.
II. Cabe ao tradutor, do lado da escritura:
1. entender a criação de sentidos na língua-alvo;
2. identificar um público a que o autor pode se dirigir na língua de chegada;
3. reconstituir o impacto na criação de sentidos na relação interlocutória entre o autor e um público a que ele não se dirigiu (mesmo que a obra seja um romance-roteiro de cinema, criado por uma grande e bem paga equipe, cheio de clichês globalizados e/ou globalizantes e dos ingredientes típicos da “obra de sucesso”);
4. criar uma arquitetônica que, sendo fiel ao original, produza efeitos que o original não poderia produzir no público-alvo da tradução, et pour cause;
5. voltar ao âmbito de sua própria cultura e, a partir dela, mas tendo a cultura do texto de partida em vista, bem como as relações entre as duas, recriar relações lingüísticas, discursivas, interlocutórias, etc., num outro espaço enunciativo — entre a aparente convergência e a irredutibilidade do discurso.
“O HOMEM DIANTE DO ESPELHO”
Não contemplo o mundo com meus próprios olhos nem a partir de meu íntimo; contemplo-me em vez disso com os olhos do mundo; acho-me possuído pelo outro. Não há aqui integração ingênua entre o extrínseco e o intrínseco.
Espreitar a própria imagem in absentia. A ingenuidade da fusão de mim mesmo e do outro no espelho. O excedente do outro. Careço de um ponto de vista extrínseco sobre mim mesmo, não disponho de um enfoque com respeito à minha própria imagem extrínseca. A partir de meus olhos, vêem os olhos de outrem (1943).
...
“AUTOCONSCIÊNCIA E AUTOVALORAÇÃO”
(Trechos de BAKTIN, M. M., Hacia uma filosofia del acto ético. De los borradores otros escritos. Barcelona/San Juan: Anthropos/EDUPR, 1997, 147, “De los borradores”, tradução não-autorizada.)
“Olho uma cidade observando como os outros a olham. Toda a minha vida é preenchida de nostalgias”.
“Todo mundo se vale do olhar do outro, só que em outros planos, sem se darconta sempre. E como não se pode nunca ver com os próprios olhos, somos todos um pouco cegos. Nós nos olhamos sempre com o olhar do outro, mesmo que seja aquele do espelho”.
(Trechos de BAVCAR, E. Memória do Brasil - Evgen Bavcar. Org. e textos; Elida Tessler e João
(Texto elaborado por Adail Sobral, para o Grupo Ethos Paidéia)
Nota: No livro que encima está página, estão contidos três trabalhos de Adail Sobral, sobre as temáticas: a) Concepção filosófica do ato; b) Ética e Estética; c) Presença da filosofia na obra de Bakthin.
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