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Condensa trabalhos de Adail Sobral

 

 “Preservando o sentido e alterando a forma   mediante a adaptação das metáforas e das palavras à sua própria língua. Não achei necessário verter palavra por palavra, mas reproduzi o estilo e as ênfases do conjunto...”   (São Jerônimo, Carta a Pamáquio, 395 E.C.)

 

             I. Cabe ao tradutor, do lado da leitura:

 

1. entender a criação de sentidos (não só a significação) na língua estrangeira;

 

2. perceber a que público o autor se dirige na língua de partida;

 

3. perceber que impacto tem a relação interlocutória específica entre autor e público originais na criação de sentidos;

 

4. perceber de que modo o autor cria a arquitetônica, o todo estruturado, da obra a ser traduzida;

 

5. penetrar exotopicamente na cultura de partida, ou seja, conhecê-la tanto do ponto de vista de sua especificidade como da perspectiva de alguém que não é parte dela, mas de outra cultura.

 

  

            II. Cabe ao tradutor, do lado da escritura:

 

1. entender a criação de sentidos na língua-alvo;

 

2. identificar um público a que o autor pode se dirigir na língua de chegada;

 

3. reconstituir o impacto na criação de sentidos na relação interlocutória entre o autor e um público a que ele não se dirigiu (mesmo que a obra seja um romance-roteiro de cinema, criado por uma grande e bem paga equipe, cheio de clichês globalizados e/ou globalizantes e dos ingredientes típicos da “obra de sucesso”);

 

4. criar uma arquitetônica que, sendo fiel ao original, produza efeitos que o original não poderia produzir no público-alvo da tradução, et pour cause;

 

5. voltar ao âmbito de sua própria cultura e, a partir dela, mas tendo a cultura do texto de partida em vista, bem como as relações entre as duas, recriar relações lingüísticas, discursivas, interlocutórias, etc., num outro espaço enunciativo — entre a aparente convergência e a irredutibilidade do discurso.

 

 

“O HOMEM DIANTE DO ESPELHO”

 

 

            Não contemplo o mundo com meus próprios olhos nem a partir de meu íntimo; contemplo-me em vez disso com os olhos do mundo; acho-me possuído pelo outro. Não há aqui integração ingênua entre o extrínseco e o intrínseco.

 

            Espreitar a própria imagem in absentia. A ingenuidade da fusão de mim mesmo e do outro no espelho. O excedente do outro. Careço de um ponto de vista extrínseco sobre mim mesmo, não disponho de um enfoque com respeito à minha própria imagem extrínseca. A partir de meus olhos, vêem os olhos de outrem (1943).

 

... 

“AUTOCONSCIÊNCIA E AUTOVALORAÇÃO”

 

             (...) Povoam o mundo imagens criadas de outras pessoas (trata-se do mundo dos outros, e eu cheguei a esse mundo) entre elas, encontram-se as imagens do eu nas imagens das outras pessoas. A posição da consciência na criação da imagem do outro e da imagem de si. Este é no momento o problema nodal de toda a filosofia... (1946)

 

 (Trechos de BAKTIN, M. M., Hacia uma filosofia del acto ético. De los borradores otros escritos. Barcelona/San Juan: Anthropos/EDUPR, 1997, 147, “De los borradores”, tradução não-autorizada.)

 

  

            “Olho uma cidade observando como os outros a olham. Toda a minha vida é preenchida de nostalgias”.

 

            “Todo mundo se vale do olhar do outro, só que em outros planos, sem se darconta sempre. E como não se pode nunca ver com os próprios olhos, somos todos um pouco cegos. Nós nos olhamos sempre com o olhar do outro, mesmo que seja aquele do espelho”.

 

 

(Trechos de  BAVCAR, E. Memória do Brasil - Evgen Bavcar. Org. e textos; Elida Tessler e João Bandeira. São Paulo: Cosac&Naify, 2003, do fotógrafo (cego) Evgen Bavcar. In: Folha de São Paulo, sábado, 6 de setembro de 2003, p. E 9.).

 

(Texto elaborado por Adail Sobral, para o Grupo Ethos Paidéia)

 

Nota: No livro que encima está página, estão contidos três trabalhos de Adail Sobral, sobre as temáticas: a) Concepção filosófica do ato; b) Ética e Estética; c) Presença da filosofia na obra de Bakthin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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