Ilhas Maldivas (Flávio Vidigal)
11:41 @ 09/04/2008
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MALDIVAS: AS ILHAS PERDIDAS
Flávio Vidigal
Parece que o meu destino está intimamente ligado ao mar e à busca de lugares que possam me trazer alguma resposta a sentimentos de liberdade infinita. Não sei o que procuro, não sei se achei e se um dia esta busca vai ter fim.
As 22 hs de vôo até Male, capital da Republica das Maldivas, parecem uma eternidade e um pensamento me leva de volta ao passado das grandes navegações onde homens partiam para o desconhecido sem saber se iam voltar ou o que iam encontrar, em viagens com anos de duração. Parece que hoje o homem “moderno” é um fraco e não sobreviveria nas duras situações de nossos antepassados. À medida que a tecnologia evolui, o homem regride em suas aptidões físicas.
Avisto da minha janela centenas de pontos no oceano Indico; são centenas de ilhas em forma de atol. O azul do mar é intenso, as ilhas são planas e cobertas por alguma vegetação rasteira pontilhada de coqueiros.
Uma destas ilhas se destaca das demais, pelo seu aspecto urbano e pela imponente cúpula dourada de uma mesquita. É Male, a capital.
As Ilhas Maldivas têm, em seu povo, uma mistura de árabes, africanos e hindus e escrevem e falam um estranho dialeto chamado divehi, composto de sinais que mais parecem umas cobrinhas. A religião muçulmana é oficial, proíbe a venda de bebidas alcoólicas, de revistas pornográficas, e o consumo de drogas é punido com a pena de morte. Tudo isso sem radicalismos já que nos barcos onde os estrangeiros se hospedam é tolerada uma cervejinha e o vinho, alguns homens na rua te abordam oferecendo mulheres mostrando fotos na tela de seus modernos celulares e ficamos sabendo que os estrangeiros presos com drogas ficam presos alguns meses e depois são deportados. Portanto, dá pra perceber que não se trata de um povo radical e intolerante, talvez até por que o turismo seja a principal fonte de recursos destas ilhas perdidas no Oceano Indico.
Caminhando pelo centro de Male, entro numa loja onde sou atendido pelo simpático dono chamado Ismael. Depois de correr os olhos por tudo e achar que estava diante de uma fraude em artesanatos - pois as peças eram exatamente iguais ao artesanato da Indonésia - acho um livro sobre as Maldivas que me fez esquecer do resto, já que em poucas páginas viradas descubro alguns laços em comum com o povo.
Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar. Conquistaram as ilhas e durante 70 anos, exatamente na fase áurea do comércio com a Índia, mantiveram aqui entrepostos na rota das especiarias. Ismael me pergunta se sou português e fica feliz em saber que sou brasileiro. Falamos de futebol, é claro, durante alguns minutos, mas ele percebe minha curiosidade no livro e gosta do meu interesse pelas coisas do seu país. A história que ele me conta num inglês de acento estranho, me faz novamente voltar a época das navegações, pois tão incrível como um português chegar até aqui foi saber que depois de 70 anos, um habitante de um dos atóis do sul chamado Muhamad conseguiu libertar seu povo da Coroa Portuguesa e desde então esta é considerada a data mais famosa comemorada por aqui e ele (Muhamad) o maior herói.
O turismo está bem desenvolvido, são vários resorts oferecendo desde sombra e água de coco, até mergulhos com tubarões e arraias gigantes, sem contar o novo filão que são os surfaris, expedições em barcos superconfortáveis em busca das ótimas ondas do Oceano Indico.
Um problema sério nas Ilhas é o lixo. Não sei se vem de outras regiões pelo mar ou se é o produzido lá mesmo e jogado ao mar, voltando às praias das ilhas desabitadas.
Não tem jeito: por mais longe que se vá neste mundão mundinho, os sinais de uma civilização corrompida e imediatista me incomodam e me fazem pensar qual seria a solução para voltarmos a apreciar uma vida simples onde o tempo corre mais lento e as vivencias mais profundas.
O meu caminho passa por todos os lugares, mas existe um que só existe na minha cabeça. Enquanto não achá-lo continuarei procurando.
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