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PONTE PARA O AMANHÃ

 

Marcondes Rosa de Sousa

O Povo - 14/04/2008 01:33

 

 

Quinta última! Eleições para reitor, na UECe. Nos, jornais, rádio, TV e na Web, debates a reclamar, não insulados, o mundo acadêmico e o sócio-governamental. Na surdina, lado a lado, recíprocos arranhões em torno de sonegado piso, a nos estorvar pactuação. Mas, cedo, a velha frase "Drama social algum é maior que minha dor de dente" me levava ao dentista...

 

No táxi, o motorista quer saber se, em mim, persistem ainda laços com a educação - mote para que ele vomite queixas de escolas a ruir abandonadas, professores mal preparados e desmotivados, alunos sem ofício e futuro, em meio a propaganda narcísea de nossos governos.

 

Vácuo do pós-almoço. Eu na secção eleitoral. Lá, visual agressivo, cartazes, adesões, tudo a clamar por uma universidade em harmonia com amplo projeto social no Estado. Ante a urna, identidade de mim exigida. Puxo cartão a comprovar-me "professor titular". Na saída, colegas chegando. E, para meu espanto, em seu rosto, a esperança das relações entre o "fora" e o "dentro" do mundo acadêmico a recobrar-se.

 

Já em casa, abro os jornais. USP e Unicamp, as únicas brasileiras no rol entre as 200 melhores universidades do mundo, onde, nos 10 primeiros lugares, figuram norte-americanas e britânicas, de acordo com o Times Higher Education Supplement, que se louva na opinião de acadêmicos, companhias que empregam recém formados e de outros países, e das pesquisas realizadas no mundo universitário.

 

Volto aos anos 80, quando, na UFC, no simpósio "Para onde vai a universidade brasileira?", o "dentro" e o "fora" das IES do País viam a academia, num mundo pós-indústrias de chaminés, como indústria do conhecimento a gerar capital humano. E, aqui, na FIEC, a ter assento embora simbólico...

 

Hora de sanar arranhões a erguer pontes para o amanhã. Aqui, onde o sol nasce mais cedo!

 

Marcondes Rosa de Sousa - Professor da UFC e da UECe



 

 

 

Comentários

(22:01 @ 18/04/2008) Antonio Gomes Pereira disse:
Marcondes: Seu desabafo em "Ponte para o Amanhã" confirma duas coisas: o perceptivo e analítico que você é, e a miopia de alguns "claustros" universitários. Que quer dizer engalfinhar-se por uma dor de dente? Quer dizer que se perdeu o "sentimento do mundo," da missão e da perspectiva. E aí se mergulha num caos a varejo. Entende o que se insiste em afirmar com ressignificação da universidade? Os pontos de referência mudaram drasticamente, mas, à mingua de horizontes e compromissos, a atitude corporativista se exasperou e se comprometeu com um processo entrópico que leva muita gente a olhar cada vez mais para o próprio umbigo. E logo aqueles que, por definição social e institucional, deveriam estar sintonizados com as as grandes expectativas que a sociedade deposita (ainda) nos objetivos e na atividade educadora (estão esquecidos disso?) das nossas instituições universitárias. E, no entanto, há muita energia desnorteada ou estagnada, esperando uma nova Paulo Afonso para fazer desse potencial um impulso significativo. Ressignificar é sobretudo atentar para os novos referenciais, conceituais e operativos, que se tornam "imperativos categóricos" para a universidade de hoje. Parece que se faz mister uma desestruturação básica e logo uma arrumação (e não apenas dos móveis) da casa nova. A partir daí, maximizar tudo que aprendemos (o verbo aprender não tem imperativo!) em função do que nos exige (e não é opcional) este século maravilhoso e trágico, vertiginoso e profundo, surpreendente e atávico "como nosso pais". Adeus aos velhos rituais! Adeus aos compartimentos artificiais! Adeus às glórias e títulos de ontem! Com dor, talvez, e com visão, sem dúvida, passemos a página. O livro que folheamos já não vale. O desafio concentra-se agora em buscar afirmar no cotidiano (e nas eleições) os novos e desafiantes significados para cada um dos passos (administrativos, científicos, tecnológicos) dessa instituição que queremos viva, atuante e proativa. Só assim se poderia construir a instigante ponte para o amanhã que você mais insinua do que expressa como imprescindível. Obrigado pelo empurrão amigo

(22:05 @ 18/04/2008) Francisco de Assis Fernandes disse:
Caro Marcondes, Li e reli seu artigo. O mundo acadêmico tem dessas. Eu sou "cria" da USP e lá exerci também funções administrativas. O importante é que ainda temos professores com uma visão realista das IES. Cordial abraço do Assis

(22:07 @ 18/04/2008) Abniza Pontes Leal disse:
Prezado Marcondes, concordo plenamente com a sua visão sobre o nosso meio acadêmico. Acredito que pessoas como você não podem jamais deixar de participar do processo de mudanças. Por favor, não deixe de apresentar suas sábias sugestões. Abniza

(22:09 @ 18/04/2008) Luciara Aragão disse:
Prezado Marcondes, Peço-lhe licença para divulgar este artigo no nosso site nehscfortaleza que está em reforma. Obrigada, Luciara.