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Igreja da Prainha

IGREJA DA PRAINHA (Nilze Costa e Silva)

 

“Tu não possuis, ó lírica cidade,

o perfume do tempo, o antigo aroma

que é mesmo a alma dolente da suadade

pelas ruas de Nápole e Roma”

(Jader de Carvalho)

 

 

A Igreja da Prainha nunca caiu. Apenas uma ameaça, uma rachadura em seus flancos angulosos coloridos de azulejos.  Passeio lentamente pela rua do Seminário Velho, que hoje não existe mais. O pensamento despenca ladeira abaixo indo procurar lá na Praça dos Aviões a minha infância moleque, correndo pela Rua Dragão do Mar.

 

No alto da ladeira, a praça, o Cristo Redentor. Eu, menina, subia lá no alto, o corpo em transe, a olhar a cidade tremendo, toda uma extensão de mar balançando à minha frente, prestes a derramar. Antes eu não sabia que o mar era tão paralelo ao céu e que suas ondas e nuvens e cores e movimentos se assemelhavam tanto.

 

Desisti de ver a última gaivota quase imperceptível ao longe. Desci a escada helicoidal do Cristo Redentor e fui sentar na praça, em frente à Igreja da Prainha. Era noite de novena. As crianças vestidas de anjo e eu a olhar de baixo a coração da virgem Maria, linda e azul, no alto do tablado.  Seguia a procissão de Nossa Senhora com os olhos famintos de umas asas enfeitadas algodão e uma roupinha de seda azul . Mas nunca me deixaram ser anjo. O padre dizia que anjo não tem pele morena e tinha que ter olhos azuis.  Ora, seu padre, eu nunca vi anjo mulher e taí a Marinez sendo anjo, só porque tem olho azul. Entrava por um ouvido, saí pelo outro e o padre nem escutava o que eu dizia. Apenas trovejava que sábado ia ter confissão.

 

Eu menina, eu mulher, lambendo com os olhos da lembrança as paredes do seminário velho. Um Cristo crucificado em frente à Igreja.

 

O Cristo Redentor ainda está aqui, imponente no meio da praça, abençoando a cidade com seu abraço forte e solidário.  Hoje a beleza da praça se alarga. As palmeiras servem de pouso aos pardais, que ainda tímidos, esperam o desabrochar de novas palmas. O Teatro São José, reformado, ainda guarda as lembranças do antigo Círculo Operário, onde eu, quando menina, numa tentativa de ser no futuro uma mulher prendada (nunca o fui...) fiz um curso de corte e costura por insistência de minha mãe, que nunca consegui concluir.

 

Eu menina, eu mulher. Por que o encontro das duas, neste fim de tarde, percorrendo as mesmas ruas de outrora? Onde as noites de novena, a multidão da Praça, a coroação da Virgem? Os anjos, onde estão os anjos?

 

 

Comentários

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