Piso: sal, sol, amanhã! - Marcondes Rosa de Sousa
20:04 @ 27/10/2008

Keynes
Marcondes Rosa de Sousa
O Povo - 27 Out 2008
Chão, dizem os dicionários, é o lugar onde pisamos. Na expressão "piso salarial', é o sal básico a nos garantir o caminhar e a vida. Apesar disso, 'piso salarial' é sintagma que, aos professores das instituições de educação superior do estado, tolda-se de conotações afetivas infelizmente não positivas para as relações entre o mundo acadêmico, o governo e a sociedade.
"Piso salarial" foi conquista do mundo acadêmico no estado, quando Gonzaga Motta, ele professor da UFC e governador, o implantou após reclamado. Tasso Jereissati, logo a seguir, quando o estado vivia drama com suas apertadas finanças, impetra, em juízo, a suspensão do benefício. Sentença final do Supremo Tribunal Federal, 22 anos depois, dá ganho de causa aos docentes. O governo estadual, em recursos na fase da execução de sentença, tenta bloqueios a ela, buscando esperadas negociações...
Professor titular da UECe, dou testemunho. Tasso, governador, imaginava que as finanças do estado, à época curtas, tornariam tal piso "impagável". Daí, não aceitar, dos que ocupávamos "cargo de confiança", que sequer mediássemos a questão. E assim, se passaram... 22 anos sem negociações!
Agora, escuto de colegas docentes aposentados, queixas em crescendo a evocar Keynes: "O governo joga a questão para quando todos estivermos mortos". Ao governador, em evento no hall da FIEC, tento passar o clima de arranhões entre os docentes. E ele, após confessar tentativas suas de abertura e diálogo, replica-me: "Quem, no caso, tem razões para estar arranhado sou eu!..."
A hora é de esfriarmos a cabeça, sanar arranhões e mirar ambicionado amanhã. Para isso, con/versarmos - governo, mundo acadêmico, sociedade. E, nessa con/versa, vermos o 'piso salarial' a compor-se do sal e do chão a nos condimentar o ansiado amanhã!
Marcondes Rosa de Sousa
Professor da UFC e da UECE
Comentários
(14:56 @ 30/10/2008) Jean Kleber disse:
Marcondes, este artigo está um tanto fidalgo. A citação de John Maynard Keynes é estimulante. Estive vendo: "a incerteza é uma força endógena ao sistema capitalista"..."a reação natural dos indivíduos às incertezas quanto aos acontecimentos econômicos futuros é se guiar por um comportamento convencional"... Eu achava que a folha de pagamento e o investimento em pesquisa eram os gargalos dos que administram o mundo universitário (universidades públicas, no caso, pois as particulares não investem em pesquisa cara). Hoje incluo a manutenção (água, luz, banheiros...). Há um papo, sempre recorrente, de redução da gratuidade do ensino universitário (remember Paulo Renato) recusado sempre pelos movimentos sociais. Mas alguma solução (talvez radical) vai findar surgindo nesses tempos de transformação. Parabéns pelo artigo.