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Arco do Triunfo em Ipueiras (Foto: Edson Morais)

 

CITAÇÕES EM TOM DE TRIBUTO (I)

 

No semi-árido das águas retiradas

 

Por instantes, lá me vejo na infância, em pleno semi-árido das Ipu­eiras (“águas retiradas”, em sua etimologia), no Ceará. Aí, já dou com a lei­tura a lastrear meu potencial escrever, plasmando-se como matriz para a deci­fragem do mundo. Leitura, a dos livros. E, em um Nordeste de tradição oral, “leitura da oralidade” – a dos cordéis, das estórias de Trancoso e da Carochinha, que me iam chegando das babás e empregadas domésticas, e dos múltiplos contadores de história a povoar os sertões.

 

Na escola, nos iniciávamos na escrita. Isso, pelas vias pacientes e atentas da literal “caligrafia” (a buscar sinais gráficos corretos e belos), em cadernos onde começávamos a “cobrir” as letras, buscando-lhes feições claras e estéticas.  Tudo isso, sob a diligente observação e ajuda de Isa Ca­tunda, professora minha, hoje ainda lúcida em Ipueiras, onde faz pouco tive a felicidade de, num gesto de agradecimento, abraçá-la. Entre os livros didáticos, um deles nos chamava a atenção: o “manuscrito”, onde textos escritos a mão se sucediam a partir dos mais legíveis até os quase incompreensíveis “garran­chos”, nas últimas páginas do livro, que, sob a espreita da palmatória, na es­cola de Dona Ester (mãe do escritor Gerardo Melo Mourão) , na mesma cidade, tínhamos de decifrar.

 

Garranchos assim, bem mais antigos, eu os encontrava nos gigantes­cos livros em que se registravam as escrituras dos imóveis, no cartório de meu pai. “Livros enormes” sob minha ótica infantil, campo aberto onde ca­rimbos eram “boizinhos” e “rezes” nos imensos campos por entre garran­chos e carrapichos  da manuscrita caatinga. Dali, extraíam-se as histórias das duras conquistas das glebas de terra, romanceadas por meu pai, exímio contador de história. Conquistas desde os tempos das sesmarias até os dias de então, que ali afinal se registravam a buscar proteção e amparo da lei: ao norte e ao sul, limitando-se com terras dos “coronéis” fulano e sicrano; a leste e oeste, “enquanto resistência houver”!...

 

Curioso! O oral e o escrito, em dueto, surgiam-me imbricados desde a infância. E a leitura, já aí, não se continha na estrita dimensão, a dos li­vros. Abria-se, mais ampla, para o interpretar de nosso redor. Tudo, em bem dosada mistura entre o real e o fantástico. A leitura dos livros, sim. Mas a “leitura” que, com o pai da lingüística, a chamaríamos “semiológica”.

 

Tópico escrito por Marcondes Rosa de Sousa, in  “A leitura emburrece?”, discussão que se desenvolveu no Grupo Ethos-Paidéia, www.grupos.com.br/ethos-paideia, na Web.

 

 

 

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