Grupos

Universidade Federal do Ceará

XXVII Encontro de Iniciação Científica

Fortaleza, outubro de 2008

 

No ar, a sintonia da terra

Jornalismo e educação não-formal no surgimento da Rádio Universitária FM 107,9 MHz

 

Autora: Débora Maria Moura Medeiros

Orientadora: Profª Drª Márcia Vidal Nunes

 

A Rádio Universitária FM possui caráter educativo e está vinculada à Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), operando a partir da UFC. A pesquisa da qual resulta este artigo é a primeira etapa de um trabalho historiográfico que abrangerá os 26 anos de funcionamento da emissora. O levantamento de dados está sendo feito através do método de história oral, ou seja, entrevistas com reitores, diretores, funcionários, colaboradores e bolsistas que participem ou tenham participado da rotina da instituição.

 

A partir desses testemunhos, conciliando perspectivas diversas, será composto um retrato do desenvolvimento da identidade institucional da emissora, para compreender a maneira como as mudanças no cenário político nacional têm afetado sua rotina e as contribuições que os projetos pessoais de todos aqueles que lá trabalham ou trabalharam se entrelaçaram com o projeto inicial. As próximas páginas contêm um relato das articulações anteriores à criação da Rádio e de seu funcionamento entre 1981 e 1983, detalhando o processo que resultou na programação musical e jornalística de então.

 

Os dados recolhidos nesta etapa contribuíram para a compreensão das peculiaridades de uma rádio pública e educativa, no que diz respeito à formação de quadros profissionais e à relação desse tipo de emissora com o poder. Verificou-se que muito da dinâmica de trabalho que era praticada no início continua ainda hoje no cotidiano da emissora. Isso se deve, em parte, à permanência de funcionários que eram bolsistas à época e à filosofia de trabalho da Rádio, à qual aderem também seus novos integrantes.

 

Palavras-chave: HISTÓRIA, IDENTIDADE INSTITUCIONAL, RÁDIO UNIVERSITÁRIA.

 

INTRODUÇÃO

 

Há 26 anos em funcionamento, a Rádio Universitária possui uma história rica, que ainda não foi contada em sua totalidade. Emissora pública que atravessou os períodos de autoritarismo e redemocratização mais recentes da política brasileira, ela constitui um meio de expressão singular para artistas, pesquisadores e movimentos sociais, os quais nem sempre encontram espaço em outros veículos de comunicação cearenses.

 

Nesta pesquisa, ouviremos, através do método de história oral, o maior número possível de indivíduos que participem ou tenham participado da trajetória da emissora. Ao fim, chegaremos a um retrato da identidade institucional da Rádio Universitária, importante para o esclarecimento de uma série de questões, a começar por aquelas referentes aos seus primeiros anos de funcionamento: como a Universidade Federal do Ceará, apesar das dificuldades financeiras que enfrentava, pôde apoiar o projeto? De que forma ele foi recebido pela comunidade acadêmica? Que participação na execução do projeto tiveram os estudantes, servidores e professores que compunham a UFC? De que forma as restrições à liberdade de expressão impostas pela ditadura militar se faziam sentir no interior da Rádio? Posicionamentos políticos individuais encontravam espaço na programação? Em que se pautava o fornalismo da emissora? Como funcionários e bolsistas concretizavam o objetivo de educação não-formal ambicionado pelos fundadores?

 

Assim, espera-se, em breve, colocar à disposição da comunidade material referente ao período que se inicia com a inauguração da Rádio Universitária e se estende até hoje, o qual poderá ser útil para reflexões posteriores sobre a emissora, a Universidade Federal do Ceará e o próprio radialismo.

 

IDENTIDADE INSTITUCIONAL: TESSITURA DE IDENTIDADES

 

A fragmentação da identidade do indivíduo é resultado das configurações históricas e sociais que deram origem à pós-modernidade, quando mudanças estruturais e institucionais puseram em xeque as noções estabelecidas e, com elas, a sensação de pertencimento do sujeito às estruturas e instituições. Para o teórico jamaicano Stuart Hall, não só somos pós-modernos, como “‘pós’ relativamente a qualquer concepção essencialista ou fixa de identidade – algo que, desde o Iluminismo, se supõe definir o próprio núcleo ou essência de nosso ser e fundamentar nossa existência como sujeitos humanos” (HALL, 2002, p. 10). Ao invés disso, “dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas” (HALL, 2002, p. 13) e assumimos identidades diferentes para configurações diferentes.

 

Segundo essa perspectiva, a coesão das sociedades, bem como das instituições que as integram, só seria possível através da articulação entre os sujeitos fragmentados, quando suas convicções e histórias pessoais encontram um ponto de intersecção, para formar algo novo e coletivo. É nesse momento que surgem as identidades institucionais, que podem ser tidas como “histórias cruzadas, resultados transitórios de processos de identificação. Escondem negociações de sentido, choques de temporalidade em constante processo de transformação”  (PENTEADO, 1998, p. 22).

 

Assim como o indivíduo, antes da Pós-Modernidade, era visto como dono de uma identidade estanque e isenta de contradições, as instituições, por muito tempo, foram consideradas órgãos com metas unificadas, em que todos se punham a serviço das concepções de uma liderança arbitrária, sem questionamentos ou ações em sentidos divergentes. No entanto, iniciativas individuais também fazem parte da identidade institucional:

 

Sob uma perspectiva da organização da entidade, o racionalismo, que visa à maximização dos resultados, assume que os membros partilham valores e metas. Quando se tem uma visão dinâmica da organização, são as atividades, as estratégias e as relações que proporcionam o ponto de partida para a análise, evidenciando que os projetos dos membros de uma organização podem ser múltiplos. (PENTEADO, 1998, p. 49)

 

Estudar a identidade institucional de um meio de comunicação como a Rádio Universitária é uma tentativa de compreender até que ponto as atitudes dos seus profissionais definem a linha editorial, a relação com os ouvintes e com as fontes, além da postura diante das instâncias de poder, sejam elas internas, como a Reitoria e a Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura, sejam externas, como o governo, nas instâncias municipal, estadual e federal. Também se procura verificar a influência da identidade institucional sobre as trajetórias individuais, seu papel na formação profissional e na definição de projetos pessoais.

 

DO PAPEL  ÀS ONDAS DO RÁDIO

 

A Rádio Universitária entrou no ar, em caráter experimental, no dia 21 de setembro de 1981, Dia do Rádio e do Radialista. Entretanto, as articulações  que viabilizaram o projeto aconteciam, pelo menos, desde o segundo semestre letivo de 1979, quando foi realizado o Seminário Geral da Universidade Federal do Ceará, com o tema “Uma tentativa de administração solidária”. Implantado de maneira progressiva, através de campanhas de sensibilização e reuniões preliminares nos departamentos e centros acadêmicos, o Seminário Geral tinha como meta restabelecer a gestão participativa na UFC, “permitindo campo para a exercitação do jogo democrático não-oficial” (UFC, 1981, p. 8) quando a abertura política da ditadura militar havia apenas começado.

 

Os dilemas financeiros, estruturais e didáticos da universidade deviam ser debatidos por todos os seus segmentos, que também poderiam lançar soluções e novos projetos. O professor Marcondes Rosa de Sousa, assessor do reitor Paulo Elpídio de Menezes Neto à época, assinala a demanda que, exteriorizada no seminário, se concretizaria na Rádio Universitária dois anos mais tarde:

 

O que todo mundo disse é que a universidade não podia ficar nos jardins medievais. A Universidade tinha que fazer da sua extensão um laço de diálogo em dupla-mão – isso aqui foi dito nesse Seminário – com a sociedade. Foi na época em que o Brasil todo estava pensando nos projetos com as periferias urbanas, com o meio rural... Aí, eu disse o seguinte: “Nós precisamos de um canal que seja forte para esse  diálogo em dupla-mão: dizer pra sociedade valores, mas também ouvir de lá pra cá. Que a ciência não fosse uma coisa que os príncipes colocassem lá, nem a educação, mas que o saber popular também estava gerando conhecimento”. Então, conversa vai, conversa vem, a gente chegou à conclusão de que um dos mecanismos maiores seria uma rádio. (Marcondes Rosa de Sousa, depoimento de 17/03/2008)

 

De acordo com Merayo Pérez (2008), o rádio é tido como um meio de comunicação de massa peculiar. Ao mesmo tempo em que transmite uma mesma mensagem a todos os seus receptores, também consegue tornar essa mensagem pessoal, graças a características técnicas, como a portabilidade dos rádios de pilha, e à maneira como sua audição pode ser conciliada com o cotidiano do ouvinte.

 

Como projeto de extensão para uma universidade que almejava aprofundar seu vínculo com a sociedade, então, a idéia, que partiu do professor Rodger de Rogério, tinha potencial. Para o professor de Ciências Políticas Paulo Elpídio de Menezes Neto, que havia acabado de assumir a Reitoria, a criação da emissora também representou uma chance de deixar um marco de sua gestão, apesar das contingências financeiras.

 

          Como nós vivíamos um período de crise, as restrições financeiras para as universidades públicas federais eram muito grandes e nos restou esse exercício de politização interna, de proporcionar à comunidade universitária e mesmo ao público da cidade algumas especulações sobre coisas que as rádios não tocavam – e nem os jornais sequer. Questões literárias, entrevistas com escritores, até mesmo no plano político, mas não no plano político partidário, de discutir as alianças do governo, mas de discutir os programas de governo – e isso a Rádio fez bastante, com muita insistência, com muita competência, dentro das suas limitações. (Paulo Elpídio de Menezes Neto, depoimento de 24/03/2008)

 

A universidade possuía um canal AM que poderia ser implantado. Porém, o grupo formado pelos professores Marcondes Rosa, Rodger de Rogério, Clóvis Catunda, B. de Paiva e Eusélio Oliveira, remanescentes do núcleo de discussão iniciado no Seminário Geral e que resultaria na Rádio Universitária, planejava uma programação focada na educação não-formal, o que contrariava o que a legislação da época entendia por usos válidos para uma AM universitária, que consistiam basicamente em aulas para o 1º e 2º graus. Um canal FM estaria livre da obrigatoriedade das aulas. À época, havia uma concessão para FM educativa disponível, e o grupo logo submeteu seu projeto à avaliação do governo.

 

No entanto, pouco depois, a Secretaria de Cultura do Estado do Ceará entregou uma proposta semelhante. O reitor Paulo Elpídio de Menezes conta como o impasse foi resolvido:

 

Sabíamos que não levaríamos a melhor, provavelmente o canal ia ser concedido ao Governo do Estado, o que, pra nós, não era uma solução adequada, era uma solução muito política. Naquele tempo, a estrutura das ações culturais no Estado era muito incipiente, a Secretaria de Cultura tinha sido criada há pouco tempo, enfim, não inspirava confiança que se fosse fazer um trabalho sério. Eu resolvi, então, partir pra uma outra direção: fui diretamente ao Virgílio e expus a situação, que já havia uma demanda nossa e que seria injusto que o Governo do Estado ficasse com o canal. E a reação foi inesperada: ele concordou e achou que o Estado não tinha nem meios pra assegurar uma rádio de boa qualidade, embora o projeto estivesse sendo tocado pelo Eduardo Campos, que era secretário de Educação e um escritor reputado, pessoa com quem eu me dava muito bem. E isso em um primeiro momento causou uma certa indisposição entre a Secretaria de Cultura e a Universidade, mas logo passaria. E o Virgílio concordou. O fato é que nós obtivemos a autorização: autorização no Conselho de Cultura e depois autorização na Radiobrás. Mas precisava de uma última aquiescência formal do governador, isso era vital, havia uma inquietação muito grande, uma insatisfação muito grande da parte da Secretaria de Cultura e o governador tava no meio dessas pressões. E eu fui um dia falar com ele, me recordo bem, eram seis horas da manhã. Ele me recebeu na casa dele – ele ainda no quarto de dormir – e eu tinha levado um ofício, em que ele pedia formalmente a concessão da rádio para a universidade, como governador do Estado. E ele assinou ali, ainda brincou da Rádio comigo e disse: “Olhe, veja lá o que essa rádio vai fazer comigo! Eu sei que vocês muito em breve vão começar a falar mal de mim.” (Paulo Elpídio de Menezes Neto, depoimento de 24/03/2008)

 

O passo seguinte era criar um documento legal que desse suporte às intenções do grupo fundador. Elaborado em 7 de outubro de 1980, o Regimento Interno Universitária é deliberadamente confuso, porém dentro dos padrões jurídicos, de modo a facilitar a negociação com o Governo Federal e conseguir autonomia na realização do projeto. Marcondes Rosa, que, por ser bacharel em Direito, comandou a redação, esclarece:

 

Nós driblamos todo mundo, certo? Quer dizer, em lei, eu notei o seguinte: você tem que magnificar as coisas grandes e negociar as pequenas. (...) Aquilo que era consenso, a gente colocava e, depois, as partes pequenas deixava pra negociar (Marcondes Rosa de Sousa, depoimento de 17/03/2008).

 

 

Diante da proibição de uma universidade federal controlar uma emissora de rádio, o Regimento vinculava a Rádio Universitária à Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura (FCPC), órgão de caráter privado criado em 1977 para captar recursos e financiar projetos da universidade. Além disso, o documento deliberava sobre a criação de um Conselho Diretor, que seria composto por representantes de diversas universidades, dissipando de vez a suspeita de que a UFC seria a única instituição a fazer uso da Rádio.

 

Na prática, a diretoria ficou a cargo de Marcondes Rosa, Rodger de Rogério e Clóvis Catunda, que assumiu como o primeiro diretor executivo da emissora.

 

A gente chamava de diretor executivo, diretor de cultura e diretor de educação. Eu seria o diretor de cultura, que tratava da programação da Rádio propriamente, o Marcondes foi o diretor de educação. E, aí, ele cuidava mais em colocar no ar um pouco do pensamento da Rádio e isso se refletia nos debates que tinha na programação. (Rodger de Rogério, depoimento de 22/03/2008)

 

A divisão de atribuições se adequava às aptidões de cada um. Clóvis Catunda, professor que havia feito uma experiência pioneira com aulas televisionadas no Departamento de Física da UFC, tinha prática e interesse na implantação de projetos de radiodifusão educativa. Rodger de Rogério regressava de um período de docência no Departamento de Física da Universidade de São Paulo (USP), durante o qual também havia gravado, em 1972, o disco coletivo Meu corpo minha embalagem todo gasto na viagem, primeiro registro fonográfico do grupo que ficaria conhecido como Pessoal do Ceará, composto por artistas como Téti, Ednardo, Tânia Araújo, Augusto Pontes, Fagner e Dedé Evangelista. A experiência o inseriu não só no meio musical cearense como no nacional, o que facilitaria o contato com as dezenas de artistas que visitaram a Rádio ainda em seus primeiros anos. Marcondes Rosa, como professor do Departamento de Letras, lidava com questões da educação em seu cotidiano, além de conhecer os bastidores da política, o que o habilitava a articular discussões radiofônicas sobre o assunto.

 

O envolvimento com a política também tornou Marcondes Rosa o interlocutor natural junto ao governo. Quando ele apresentou o projeto ao Governo Federal, o intelectual baiano Eduardo Portella estava à frente da pasta de Educação e Cultura. Segundo o professor, o ministro “tinha se encantado com uma universidade se infiltrando na sociedade por um mecanismo não convencional, que era uma rádio” (Marcondes Rosa de Sousa, depoimento de 17/03/2008) e deu seu aval para a criação da emissora. O governo militar, no entanto, determinou que Eusélio Oliveira e B. de Paiva, ambos conhecidos por sua militância na esquerda, se afastassem do projeto. Pouco depois, devido a crises internas que se somaram à sua origem política também de esquerda, Portella foi destituído e, em seu lugar, o general Rubem Ludwig foi nomeado ministro da Educação e Cultura. O novo ministro “se entusiasmou pela Rádio e, ao invés de mandar parar, ele fez questão de vir para o lançamento” (Marcondes Rosa de Sousa, depoimento de 17/03/2008).

 

A inauguração da Rádio Universitária FM 107,9 ocorreu em outra data emblemática: 15 de outubro de 1981, Dia do Professor. No dia da inauguração, eu tava lá. Foi até no auditório Castello Branco  [Auditório da Reitoria]. Quem leu a abertura foi o Everardo Sobreira, o locutor. Tava o reitor, tava o representante do presidente, tava o Edson Queiroz, tava o Jorge Amado. Vieram muitos convidados. Eu ficava só olhando de longe, nas brechinhas. Entre as caixas de som, tinha umas brechinhas, e eu ficava lá. Foi à noite, a inauguração, teve um coquetel. (Antônio Carlos Lima, depoimento de 22/03/2008)

 

            O evento foi transmitido ao vivo do Auditório da Reitoria e contou com segurança reforçada, devido à possibilidade de ocorrer um protesto organizado por estudantes. Aquela noite de inauguração, com a presença de autoridades e sob um clima de expectativa, foi o resultado de um diálogo nem sempre harmonioso com o poder, porém constitutivo da identidade institucional, que começou a se formar antes mesmo de a Rádio existir de fato, ao mesmo tempo em que tornou essa existência algo mais próximo do concreto.

 

A construção da identidade institucional integra efeitos contraditórios: estruturas, sistemas de legitimação e práticas de poder são incorporados, num sentido que se ajusta ao da dominação social global; projetos individuais e coletivos são mobilizados, dando sentido às trajetórias institucionais. (PENTEADO, 1998, p. 108)

 

Além das negociações em nível externo, a emissora enfrentou conflitos no interior da universidade que delinearam sua identidade institucional.

 

DA GENTILÂNDIA À REITORIA

 

A narrativa acima pode dar a impressão de que as negociações iniciais para viabilizar a Rádio eram de conhecimento comum à época. No entanto, segundo Paulo Elpídio, desde o início houve um cuidado para conduzi-las sem alarde:

 

Nós estávamos ainda no último governo militar. Eu tinha medo de que, se a coisa se espalhasse, que a Rádio ia ser concedida para am Universidade Federal... Ora, a Universidade Federal tinha fama de antro de subversivos. E eu disse: “Essa gente [os apoiadores do regime] vai encontrar um meio de impedir isso”. Nós tínhamos conseguido demoverm o Virgílio [Távora], mas os grupos militares na cidade, que apoiavam a revolução, eram muito fortes. Dentro da própria universidade, havia muitos professores ligados à revolução. Houve episódios lamentáveis de denúncias na universidade, de professor contra professor. Enfim, são coisas que são até um pouco tristes de lembrar, mas que ocorreram. Então, mantivemos o projeto em sigilo até quando veio a autorização. (Paulo Elpídio de Menezes Neto, depoimento de 24/03/2008)

 

Eventualmente, a notícia da implantação da Rádio Universitária alcançou a comunidade acadêmica e, nesse primeiro momento, angariou opositores.

 

A comunidade universitária não aceitou bem a Rádio imediatamente. Eu me lembro de colegas da Física que disseram que não gostaram, que eu estava “metido” nessa história de uma rádio pra universidade. O próprio professor Martins Filho [primeiro reitor da UFC], ele também não ficou satisfeito com o fato de o [reitor] Paulo Elpídio montar uma rádio na universidade. Ele achava que rádio não era coisa pra universidade. Um certo preconceito, eu acho, com o popular, porque o rádio realmente é uma coisa muito popular, tanto quanto ou até mais que a televisão. Teve isso. A Academia, de certa forma, teve uma resposta negativa com relação à Rádio. (Rodger de Rogério, depoimento de 22/03/2008)

 

O curso de Comunicação Social se manifestou particularmente contrário à iniciativa, por entender que a emissora deveria servir como laboratório para o departamento, no que discordava da Reitoria. Eu resisti, não porque eu julgasse que não caberia o curso de Comunicação ter uma rádio-laboratório, mas porque era um canal com um objetivo mais amplo, não era só um laboratório. Era uma rádio. A primeira rádio cultural do Ceará, uma FM não-comercial. (...) Queriam que a Rádio, inclusive, fosse instalada no curso de Comunicação Social e dirigida por alunos e professores. (Paulo Elpídio de Menezes Neto, depoimento de 24/03/2008)

 

O estabelecimento da emissora na Reitoria, em um corredor anteriormente ocupado por setores administrativos que foram transferidos para o campus do Pici, tinha como intenção evitar ainda mais conflitos e reforçar o controle por parte da administração da universidade.  O prédio não era a sede pretendida pelos diretores, mas a convivência, no mesmo espaço, entre dois projetos tão díspares quanto o de uma rádio e o de um centro burocrático gerou inovações para ambos.

 

Eu queria que a Rádio fosse fora da Reitoria, do prédio da Reitoria. Eu queria que a Rádio fosse onde é hoje, que, na época, era o Projeto Rondon, ou então numa casa de estudantes que tinha ali na esquina da pracinha da Gentilândia. Eu lembro que o Paulo Elpídio disse: “Eu não quero mexer nem com os estudantes nem com os militares, os coronéis. Então, deixa aqui dentro, porque dá um certo status pra Rádio e ninguém vai reclamar”. E assim foi feito. Mas era um problema, porque eu achava que a Reitoria era um palácio e, pra abrigar uma rádio... Uma rádio é uma coisa popular. A Reitoria exige um certo vestuário que a Rádio não exigiria. Bom, foi feito assim e aconteceram algumas coisas interessantes. O João do Valle, por exemplo, pra entrar na Rádio, o Paulo Elpídio teve que descer e dizer que ele podia entrar sem sapato, porque ele estava descalço. Foi numa programação que a gente fez pra Concha Acústica e o João do Valle foi a estrela do espetáculo. Outra coisa: a Concha Acústica tava desativada há anos e a Rádio conseguiu ativá-la. (Rodger de Rogério, depoimento de 22/03/2008)

 

Petrúcio Maia, Miúcha, David Duarte, Calé Alencar, Téti, Fábio Júnior, Gonzaguinha, Dominguinhos, Marinês e Moraes Moreira estão entre os muitos artistas que visitaram a emissora já durante seus primeiros anos. Dessa e de outras formas, a atividade da Rádio deixava de ter como único fim a transmissão de mensagens e passava a interagir com a rotina da universidade, “en un proceso participativo de creación y distribución de información conducente a una comprensión recíproca, un acuerdo solidário y una acción transformadora emprendida en común, donde el componente protagonista deja de ser el mensaje para pasar a ser la información” (MERAYO PÉREZ, 11/03/2008, p. 7) e as relações humanas que a permeiam.

 

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