No ar, a sintonia da terra (Débora Maria Moura Medeiros) - II
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UMA JANELA ABERTA
O vínculo que se almejava estabelecer com a sociedade, a identificação com as produções cearenses, a amplificação do alcance para além dos muros da universidade: tudo isso está sintetizado no slogan que a Rádio Universitária adota desde a sua fundação. Rodger de Rogério também encontra uma relação entre essa frase e a situação vivida pela emissora em seus primeiros anos:
Tem um conceito na Física, que é o conceito de amplificação: quando dois sistemas vibram em freqüências iguais, essa vibração se amplifica. Então, a idéia era o quê? Se a gente conseguir sintonizar a população, a Rádio vai ecoar isso. (...) Quando dois sistemas vibram na mesma freqüência, a intensidade da vibração vai aumentar indefinidamente e vai se sustentar mesmo que tenha – e é até bom que tenha – forças contrárias, porque senão ela estoura: vai amplificando, amplificando, acaba perdendo a força, até que se exaure. Mas, se tem forças contrárias, ela consegue uma amplitude de vibração grande por conta disso. Daí aquele slogan que a gente usou, que é “a sintonia da terra”, a freqüência da terra, dessa terra aqui, desse veículo aqui. De certa forma, aconteceu isso, porque a Rádio funcionava não sei como! (risos) - (Rodger de Rogério, depoimento de 24/03/2008)
A escassez de verbas para a UFC como um todo foi um fator que influenciou diretamente o estabelecimento da emissora. Para contornar essa dificuldade, foi preciso recorrer a iniciativas no limite da formalidade, pois não se enquadravam totalmente nos trâmites legais, cuja lentidão as emperraria, mas também não tinham caráter ilegal. Expedientes assim permitiram que a Rádio contratasse profissionais renomados no meio radiofônico, apesar da ausência de recursos específicos para a área.
Não se tinham condições de trazer muitos profissionais. O Almir Pedreira e o Guilherme Netto foram contratados porque nós tínhamos uns cargos em comissão naquela época. Houve muita reação dentro da universidade porque eu tirei muita coisa dos meios da administração. Por exemplo, esses cargos em comissão geralmente eram para departamentos administrativos e eu dei para a Rádio, exatamente pra conseguir trazer alguns profissionais competentes e experientes. (Paulo Elpídio de Menezes Neto, depoimento de 24/03/2008)
Também se fez necessário racionar recursos no momento de adquirir os equipamentos, sem os quais a Rádio não poderia começar a transmitir. A gente trabalhava com o que tinha. Deixa eu só te dizer: pra comprar os equipamentos da Rádio Universitária, foi um sacrifício grande demais. Um microfone não tinha no comércio. Você tinha que ou mandar dar um jeito de comprar em São Paulo ou ir a [Manaus]. Nesse tempo, tinha muito material bom em Manaus, porque lá eles tinham facilidade de comprar material estrangeiro mais barato, devido à Zona Franca de Manaus. Então, inclusive, eu fui lá, comprar equipamento. Comprei vários equipamentos pra Rádio Universitária – de estúdio, NE?: microfones, gravadores... (Clóvis Coelho Catunda Filho, depoimento de 24/06/2008)
Para manipular os aparelhos, foram contratados os operadores de áudio Eduardo Coqueiro, Antônio Carlos Gomes, Assis Lima e Pedro Manuares. A chefia do departamento técnico da emissora ficou a cargo de Paulo Roberto Frazão, profissional experiente que já havia trabalhado na gravadora RCA Victor (atual BMG) e era tido por muitos como um verdadeiro artista da, sonoplastia. Na Rádio, ele fez escola, como testemunha o operador de áudio Antônio Carlos Lima:
“Ele me ensinou muita coisa, foi um dos melhores professores que eu peguei” (Antônio Carlos Lima, depoimento de 22/03/2008)
Lima, como é conhecido entre colegas e ouvintes, tinha 19 anos quando entrou para a equipe da emissora ainda em fase experimental, mas a Rádio já o fascinava desde a época em que trabalhava como contínuo da UFC. Atraído pela miríade de vinis e pelo contato pessoal com locutores que, antes, só conhecia pela voz, ele pediu transferência para lá. Inicialmente, exercia funções básicas, como limpar os discos.
Meu trabalho como operador começou assim: faltou um operador. Esse operador só vivia faltando, aí botaram ele pra fora. O Marcondes Rosa era muito cabeça quente, não tava de brincadeira, não. Quem tava de brincadeira ele botava pra fora. Aí, o Rodger disse: “Rapaz, vamos contratar gente da universidade mesmo”. Aí, eu disse: “Eu já to mexendo aí!”. E fiquei mexendo, né? Trabalhando escondido. Aí, o sindicato disse que não podia. O Sindicato dos Radialistas, naquela época, era muito forte. Tinha que fazer um curso. Dentro da universidade mesmo, teve um curso pra operador e locutor, porque, antes, tinha uns locutores, também, que não eram registrados. Tinha o Luciano Clever, o Franzé Rodrigues, que era estudante e tava entrando também. Faziam locução, mas não tinham registro ainda. A gente teve que fazer o registro. Aí, eu fiz seis meses de curso, aqui mesmo, na universidade, no [Auditório] Castello Branco. (Antônio Carlos Lima, depoimento de 22/03/2008)
Além dos operadores de áudio, outros profissionais foram contratados para implantar o projeto. Locutores experientes como Almir Pedreira, BamanVieira, Fernando Rodrigues e Everardo Sobreira foram os primeiros a dar voz a boa parte dos programas, seguindo as concepções do diretor artístico Guilherme Netto, que ingressava na Rádio após ter trabalhado por muitos anos como diretor, produtor e até cantor em outras emissoras. A servidora da UFC Dóris Sampaio, que possuía experiência com rádiodramaturgia na Rádio Dragão do Mar, foi remanejada do sistema de bibliotecas para a coordenação do setor de apoio técnico da Rádio Universitária, que englobava a discoteca e o arquivo de gravações da própria Rádio, enquanto Marta Lopes cuidava da produção. Sem esquecer o conceito de extensão como diálogo com a sociedade e que “a programação do rádio define-se como o conjunto dos programas, mensagens, conteúdos através dos quais uma emissora busca construir sua identidade e estabelecer um diálogo com os ouvintes e com o meio social alcançado pelas suas transmissões” (LIMA, 2005, p. 26), procurou-se construir uma grade de programação que abrangesse várias esferas de interesse ao longo do horário de funcionamento da emissora, das 6h às 23h:
Tinha o Matinata, que era uma coisa de acordar, músicas suaves. A Rádio acho que entrava às 6h no ar, com o Matinata. Depois, o comentário do Marcondes – não tô lembrando se companhado de um noticiário. Depois, tinha o Reouvindo o Nordeste. Depois, tinha o Brasil em Todos os Tempos. Aí, sim, o noticiário do meio-dia, o jornal da Rádio, com crônicas e com comentários políticos. O Garganta escrevia uma crônica todo dia, sobre a cidade. O [Carlos] Pontes fazia o comentário político e o departamento de jornalismo produzia todo o noticiário, que ganhou prêmios muitos. (...) Aí, depois do noticiário, tinha um programa de música instrumental, chamado – no início, era Teclados Bem emperados ...) e, depois, ele virou Cordas, Bandas e Metais, que era tipo depois do noticiário, 11h, meio-dia, até às 2h da tarde. Às 2h da tarde, começava um programa chamado É Preciso Cantar. E, depois do É Preciso Cantar, tinha acho que já o Pessoal do Ceará – não me lembro bem, não. E, aí, o Fim de Tarde, que toda vida teve. O Nelson [Augusto] criou a Programação do Ouvinte logo depois – no início, não tinha; esse era um horário acho que do noticiário. E, à noite, o programa diário era o Música Erudita. E não me lembro: aí, tinha, cada dia, um programa variado. (José Rômulo Mesquita, depoimento de 17/03/2008)
A multiplicidade de áreas de conhecimento que a UFC abrigava em seus departamentos mostrou-se imprescindível para a manutenção de tantos programas diferentes. Muitos docentes se tornaram colaboradores, trazendo para a emissora seus conhecimentos e interesses. Entre eles, estavam os professores do departamento de Física Dedé Evangelista, Heliomar Abraão Maia e José Maurício de Oliveira Matos. No entanto, para dar coesão à grade, era necessário que os programas possuíssem um formato que atendesse às especificidades técnicas do rádio, conhecimento especializado que cabia aos profissionais da área transmitir.
Todo mundo era dono da sua discoteca, trazia o disco, né? Tinha programa de jazz famoso, programa de música erudita também. Cada qual fazendo com o seu. Você pegava as suas coisas de casa e levava pra Rádio Universitária, que, naquele tempo, era pequena, tava começando, não tinha uma discoteca ainda que pudesse ter tanta coisa. (...) E aí a gente [profissionais da área] entrou nessa de orientar de como fazer um roteiro de programa de rádio, porque conteúdo você tem. Como dizia minha avó, “o jeito de espalhar no papel” nós fomos – não ensinar –, mas nós fomos dizer como fazia. (Everardo Sobreira, depoimento de 24/6/2008)
Em um processo de aprendizagem contínuo, esses profissionais também desenvolviam seu trabalho junto a uma leva de bolsistas, composta, em sua maioria, por estudantes, que desempenhavam papel importante na produção de diversos programas. Um deles era Nelson Augusto, aluno de Marcondes Rosa no curso de Letras. Nelson sempre fazia seus trabalhos sobre literatura relacionando os temas à música, de modo que o professor conhecia seu gosto pelo assunto quando o convidou para trabalhar na Rádio como bolsista. Ele passou, então, a acompanhar os programas que iam ao ar ainda na fase experimental da emissora e, quando esta foi inaugurada, ficou encarregado da produção de programas musicais, como o Brasil em Todos os Tempos, que traz uma seleção de músicas de artistas da MPB.
Eu produzia os programas musicais, os textos. Tinha um programa, que ainda existe, que é o Brasil em Todos os Tempos. A gente, na época, datilografava o roteiro, escolhia as músicas, as efemérides do dia. Era um programa muito legal, como é até hoje. Mas eu só fazia produção, às vezes algumas entrevistas: os artistas iam lá na Rádio e a gente fazia a entrevista. Aí, eu fazia o roteiro todo dia, né? Então, todo dia, no dia anterior, eu passava a tarde fazendo, pesquisando nos livros, datilografando e tal – em duas vias, porque tinha que ser uma pro locutor e uma pro operador. E, aí, o locutor começou a faltar. Faltava um dia, faltava outro, aí ficava aquele trabalho todo perdido, né? Porque só dava certo praquele dia, porque era o santo do dia e tal, as datas, as comemorações, as mortes dos artistas da música, os aniversários. (...) Aí, uma vez, eu falei isso e o Rodger disse assim: “Vá lá e faça!”. E eu disse: “Eu?” E ele: “Vá lá e faça!”. Aí, eu fiz, gravei o programa, fuiouvir... Primeiro programa, aquela coisa toda. Aí, na outra semana, o locutor faltou de novo, e o Rodger: “Vá lá e faça!” de novo. Aí, eu fui aperfeiçoando. Lá pra terceira ou quarta semana, quando ele faltava, eu achava ótimo, porque eu fazia, já tava com aquele pique. Aí, depois [disse para o locutor]: “Olhe, se você não quiser vir mais, deixe que eu faço tudo logo” (risos). (...) Então, quer dizer, eu fui ser locutor por acaso. Eu nunca quis ser locutor, eu sempre ficava nos bastidores, nas entrevistas, nos roteiros. E, por conta disso, eu agradeço esse locutor ter faltado. (Nelson Augusto, depoimento de 15/03/2008)
O incentivo para se arriscar em outras funções e projetos pode ser visto como uma política da emissora em relação ao seu quadro funcional. Muitas vezes, a aposta nas idéias de bolsistas, profissionais e colaboradores se traduzia em pioneirismo reconhecido até mesmo em âmbito nacional, como ocorreu com José Rômulo Mesquita. Contratado como bolsista em 1982, para produzir um programa sobre o Centro de Ciências Agrárias da UFC, o então estudante de Agronomia permaneceu na Rádio mesmo depois da extinção dessa proposta inicial. Sua identificação com a música nordestina levou-o a colaborar com a produção do programa Reouvindo o Nordeste, que cabia a Rodger de Rogério. O diretor logo o encarregou totalmente da produção, e José Rômulo reestruturou o programa, passando a baseá-lo em pesquisas e gravações que fazia pelo interior do estado, com artistas da terra.
À época, o governo havia implantado o Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa (Sinred), que interligava as rádios educativas de todo o país por meio do intercâmbio do material produzido em cada uma delas.
E, nessa história de troca de programas, eles gostaram. Tinha reuniões periódicas desse pessoal dessa rede e foi sugerido o Reouvindo pra participar da grade do Sinred. Então, o conselho mandatário resolveu que o Reouvindo ia pra grade, e o Reouvindo rodava todo dia nas rádios educativas do Brasil. Todo dia, tinha meia hora de Reouvindo nas rádios, e eu recebi muita resposta dessas emissões. Inclusive, eu tenho até uma carta de uma ouvinte paulista, que pede notícias sobre um artista que rolou no programa. (José Rômulo Mesquita, depoimento de 17/03/2008)
O reconhecimento nacional veio acompanhado de inovações na maneira de se fazer rádio, como a presença de uma programação jornalística, algo incomum nas rádios de freqüência modulada (FM) da época.
Simplesmente, a Rádio rompeu com o conceito absurdo de FM no Brasil. Por quê? Porque o conceito de FM é um conceito equivocado ainda hoje: que FM é pra tocar música e blábláblá é com rádio AM. Não tem nada a ver. Isso foi uma questão puramente de mercado. (...) Então, a Rádio entrou fazendo um noticiário às 7h da manhã – se chamava Rádio Almanaque (...); 11h30 tinha o Meio-Dia de Notícias, meia-hora de noticiário; 1h30 da tarde, tinha o Opinião, uma superentrevista diária; 6h30 da tarde, Jornal da Noite, que, inicialmente, nós colocamos às 11h30 da noite e depois puxamos pras 6h30 da noite. E tinha, nos finais de semana, um grande debate, Centro de Debates, um super-debate, polêmico, muito legal. E tinha um programa de ciência, que, aliás, a Rádio Universitária, eu acho, tinha pioneirismo nisso. O Ítalo Gurgel [atual assessor de Comunicação Institucional da UFC] era a pessoa que fazia o programa de ciência. (...) E comentários. Tinha um artigo de literatura, com o Carlos D’Alge, um comentário diário do Guilherme Netto sobre esporte, um comentário do Marcondes Rosa também. Depois, eu comecei a fazer um comentário dentro do jornal das 11h30, abria o jornal e entrava uma espécie de editorial, mandando lenha em muitas coisas, né? (...) Então, era um pouco isso. Era uma rádio de muito jornalismo, e um jornalismo de circulação, que ia cobrir os fatos, enfim, que tomava posição em relação às coisas, de reportagens diárias. (...) Além, evidentemente, de situações do tipo sai um plano econômico. Então, a gente montava uma estrutura rápida ali: trazia o comentarista, trazia o jornalista, a gente passava o dia inteiro jogando informação. Então, era um jornalismo muito forte. (Nonato Lima, depoimento de 26/5/2008)
Os comentários refletiam a diversidade de pensamentos políticos existentes na emissora. Enquanto o diretor Marcondes Rosa emitia opiniões de cunho moderado sobre os acontecimentos políticos, Nonato Lima, que tinha um posicionamento de esquerda, opinava de acordo com os próprios ideais no editorial de um jornal da emissora, o qual, em tese, deveria ser uma vitrine para a postura da Rádio, mas que acabava deixando clara a heterogeneidade das idéias que circulavam entre os que trabalhavam ali. A variedade não impedia que a emissora fosse vista como uma rádio ligada à esquerda.
A Rádio era tida como revolucionária, esquerdista, sei lá, comunista, depois, petista, o que era um equívoco. Na verdade, o que havia era uma posição mais assim: “ora, se o país precisa entrar numa democracia e a Rádio tá no ar, por que não discutir?” Aí, a gente discutia. De vez em quando, a gente entortava um pouco mesmo, eu acho. Mas era muito em função do momento: aquele era o momento de posições claras, era direita e esquerda. Hoje, você já não tem essa discussão, mas, naquele momento, ou você tava com a ditadura ou você tava contra a ditadura. (Nonato Lima, depoimento de 26/5/2008)
Antes de se tornar jornalista, Nonato Lima já era radialista. Ele ingressou na atividade aos 15 anos, como estudante do Ensino Médio e, ainda muito jovem, foi contratado como redator da filial da Rede Iracema de Rádio de Iguatu, sua cidade natal. Transferido para Fortaleza pela mesma empresa, entrou para o curso de Letras da UFC, mas seu fascínio pelo jornalismo, que já o havia levado a fazer um curso por correspondência sobre os fundamentos da profissão, fez com que, mais tarde, optasse pelo curso de Comunicação Social. Everardo Sobreira, que havia construído uma carreira como locutor e noticiarista na Rádio Iracema e na TV educativa, o conhecia da outra emissora e, ao ser chamado para trabalhar na Rádio Universitária, levou o colega junto. Quando, em 1982, Everardo sofreu um acidente vascular cerebral, foi Nonato quem o substituiu na coordenação do núcleo de jornalismo, de onde testemunhou a influência que o processo de redemocratização do país exercia sobre o cotidiano da emissora.
O interessante é que a Rádio, naquele momento, era um lugar assim de muito trânsito, era um lugar muito agitado. Todo mundo passava pela Rádio Universitária, porque – hoje, olhando um pouco à distância, era um pouco como se fosse aquela janelinha lá, aberta, num grande número de janelas fechadas. Todo mundo vinha pra cá porque aqui, de algum modo, as pessoas se expressavam. A arte, não só a música, mas os artistas se expressavam, os políticos se expressavam, os estudiosos, os pensadores e o pensamento acadêmico acabavam passando por aqui de algum modo: ou pra aderir a uma posição “x” ou “y” ou pra se confrontar com certas posições, pra reclamar de uma posição ou outra que a Rádio tomou, mas havia esse trânsito muito forte. Então, não havia uma fonte propriamente. Agora, a gente começava a ouvir aquelas pessoas que estavam voltando à vida pública – alguns saindo da cadeia mesmo, como Chico Lopes [atualmente, deputado federal pelo PcdoB-CE], Cláudio Pereira [jornalista e produtor cultural] e outros, mas outros era já integrando-se, trazendo a público as mobilizações, os protestos. O movimento pela anistia e contra a carestia foi um dos primeiros, os movimentos de bairros apareciam muito, associações de moradores, que, no fundo, no fundo, ali era uma mobilização da sociedade por democracia. (Nonato Lima, depoimento de 26/5/2008)
Entretanto, se, através do seu jornalismo, a Rádio possuía relativa liberdade para se colocar como um canal aberto à expressão da sociedade, o mesmo não acontecia com a produção musical, que se encontrava sob pressões parecidas com as que outras emissoras sofriam à época.
Sônia Leal se tornou bolsista do setor de apoio técnico em 1983. Além de realizar a manutenção do acervo, ela também produzia programas e, ao selecionar as músicas que tocariam durante as emissões, percebia a presença dos censores do governo militar.
Nós tínhamos um crivo de censura incrível. Os LPs tinham as faixas já que o diretor de programação tinha que passar o pincel e dizer “censurado”, porque [senão] a gente era penalizado, era punido. (...) Tinha uma série do Caetano Veloso, não pode nem se falar, era aquela dos festivais, não podia botar. “É proibido proibir” [composição com que Caetano Veloso participou do Festival Internacional da Canção, em 1968] de jeito nenhum! Chico Buarque, ele foi muito inteligente, com muita propriedade, pela carga cultural da família, ele utilizava um pseudônimo, chamado Julinho da Adelaide. Então, Chico Buarque pintava e bordava sem ninguém saber que era ele, mas tinham músicas dele que a gente também não podia botar, não. Ainda hoje, se você for buscar nesse acervo antigo, você vai ver: “censurado”, “censurado”, não podia. (Sônia Leal, depoimento de 20/6/2008)
Apesar da censura, era, em grande parte, nos programas musicais que se manifestava a vocação para a educação não-formal, almejada desde a criação do projeto. Por educação não-formal, compreende-se aquela “que incide en aspectos relacionados con la motivación, la información de servicio público, la modificación de conductas, la divulgación de cuestiones de interes social, etc.” (MERAYO PÉREZ, 11 mar. 2008, p. 6). Ao contrário da educação formal, que obedece à sistemática das aulas transmitidas de maneira seriada, a educação não-formal se insere sutilmente na programação, sendo levada em consideração já na feitura dos programas, em um processo que envolve desde a escolha das músicas até o tratamento dado ao conteúdo informativo.
Desde os primeiros anos, a inserção da educação não-formal na grade de programação da Rádio Universitária é perceptível na descrição que os produtores fazem de sua atividade. É o caso de Leovigilda Bezerra ou Leó, como é conhecida entre seus colegas de trabalho. Aluna de Marcondes Rosa no curso de Letras, em 1982, ela foi convidada pelo professor para se tornar bolsista da Rádio. Assim como Sônia Leal, Leó se dedicava à produção musical. O programa É Preciso Cantar, inspirado na canção homônima de Chico Buarque, foi um dos primeiros a ficar sob a sua responsabilidade e seguia um formato que combinava uma seleção de canções de artistas brasileiros sobre um tema específico a textos que aprofundavam a abordagem do assunto e contextualizavam cada música no cenário cultural em que esta surgiu. Entretanto, em outros programas, mesmo sem a intermediação de textos, Leó produz uma argumentação inteligível recorrendo apenas às seleções musicais.
Em qualquer seleção musical, tem uma intenção, tem um objetivo de mostrar alguma coisa, de lembrar alguma coisa, de dizer alguma coisa. Eu já fiz vários programas assim. Por exemplo, eu quero dar uma opinião sobre alguma coisa. Um exemplo bem besta: eu não concordo com a monarquia, acho que a monarquia é um regime que não se adéqua ao Brasil, que é ultrapassado, qualquer coisa desse tipo – eu nunca fiz um programa desses, mas é um exemplo. Aí, eu escolho as músicas. A primeira música fala de monarquia, a segunda fala de uma monarquia que não deu muito certo, a terceira fala de uma que deu certo, a quarta fala de república... Eu monto uma história, uma seqüência de fatos dentro das músicas, onde eu vou, no fim, dizer alguma coisa. No fim, [o ouvinte vai pensar]: “Ah, então a monarquia... A pessoa que fez esse programa aí não concorda”. (Leovigilda Bezerra, depoimento de 28/5/2008)
A educação não-formal também estava presente nas campanhas institucionais promovidas pela emissora. Um exemplo conhecido foi a campanha pelo uso racional da água.
Durante essa programação toda, a gente tinha incisões de chamadas, provocando um esclarecimento ou um debate sobre determinado assunto, como aquele da água. A gente fez um trabalho muito bonito sobre a água, não só com debates, mas até na programação das músicas: em determinado programa musical, a gente incluía coisas ligadas à água. Durante um determinado período, a idéia era o quê? Semear, educar o pessoal a saber utilizar a água, a entender a necessidade da água. (Clóvis Coelho Catunda Filho, depoimento de 24/06/2008)
Além dos formatos mais convencionais, como suplementos musicais e noticiários, a grade também tinha espaço para a experimentação. Foi assim que surgiram os rádiodramas, escritos em conjunto por Leó Bezerra e o poeta, dramaturgo e então estudante de Medicina Artur Guedes, responsável, principalmente, pelo programa Música Erudita, no qual dividia com os ouvintes seus conhecimentos sobre música clássica.
Começou com o Era uma Vez, que essa Dóris Sampaio, que era a chefe da discoteca, ela teve essa idéia, da gente fazer leitura dramática – na verdade, não era leitura dramática, eram rádiodramas mesmo – de histórias infantis. Aí, a gente chamava o pessoal do curso de Arte Dramática e as pessoas que faziam teatro na universidade e a gente fazia o Era uma Vez uma vez por semana, uma história infantil de uma hora. Criava os personagens, tinham contra-regras, era legal. Porque, nessa época, a Rádio era no prédio da Reitoria e tinha um auditório lá, e a gente gravava no auditório. (...) Aí, quando foi alguns anos depois, teve uma grande greve dos servidores – não lembro qual foi o ano. Aí, o Artur me chamou e chamou a Marta [Aurélia]: “Vamos fazer uma rádionovela sobre a greve?” Porque a Rádio tinha que fazer alguma coisa, a gente só não podia sair do ar, mas tinha que fazer alguma coisa pra mostrar que a gente tava em greve. Aí a gente fez a primeira novela, que era a história do Sílvio Silva e da Fabíola de Montparnasse. Que era um servidor da UFC, muito pobre, que era apaixonado por uma aristocrata aí da cidade. E todos os dias, durante a greve, a gente veiculava um capítulo. (Leovigilda Bezerra, depoimento de 28/5/2008)
Dessa forma, os radiodramas também transpunham elementos da realidade para suas tramas e, através deles, transmitiam uma mensagem para a comunidade – no caso, a participação na greve pelos servidores técnicoadministrativos que trabalhavam na emissora. Nem sempre a mensagem estava explícita, mas estava ali, aberta às interpretações do ouvinte, que, quanto mais convivia com a programação, mais familiarizado se tornava com as intenções embutidas nela, apropriando-se das emissões também para usos próprios.
A jornalista Marta Aurélia atuou em vários dos radiodramas escritos por Leó Bezerra e Artur Guedes, desde que entrou como bolsista em 1983. Em paralelo a essa experiência, ela ingressou no grupo de teatro do qual Artur fazia parte e trabalhou com artes cênicas ao longo da década de 1980. Porém, essa não foi a única contribuição que a Rádio Universitária trouxe para sua formação pessoal. Foi ali que ela descobriu a vocação para o jornalismo, abandonando o curso de Letras, para ingressar no de Comunicação Social.
Desde cedo, ainda bolsista, foi incentivada a ousar em outras funções, como a de locutora, que assumiu quando uma colega deixou a emissora e exerce até hoje. Mesmo tendo chegado à Rádio no último ano da gestão conjunta de Clóvis Catunda, Rodger de Rogério e Marcondes Rosa, Marta guarda uma impressão forte do período.
Bom, nesse período lá atrás, quando eu comecei, era uma coisa muito efusiva, muito quente, assim, era produção vertiginosa, todo dia acontecendo, muitas reuniões... Acho que eu mesma tava assim, em ebulição, e talvez eu estivesse percebendo isso no mundo, mas realmente estava acontecendo, porque eu via as outras pessoas também do mesmo jeito. Éramos todos muito mais jovens (risos). Então, tava todo mundo pulsando pra criar, pra fazer coisas. (...) E, assim, essa orientação de direção também acontecia muito assim: era forte, intensa e apaixonada. Acho que isso é uma coisa muito presente nesse período. Isso faz uma grande diferença. (Marta Aurélia, depoimento de 14/3/2008).
Em 1983, com o término do mandato do reitor Paulo Elpídio, que os havia nomeado, Clóvis Catunda, Marcondes Rosa e Rodger de Rogério deixaram a direção da Rádio Universitária. Segundo Rodger, aquela era uma postura que havia sido decidida muito antes:
Desde o início, a gente tava convicto de que ia implantar a Rádio, mas que nós não seríamos eternos diretores da Rádio, que aquele não seria um feudo. Desde o início, a gente tinha esse pensamento, porque, na universidade, a gente criticava que existiam alguns feudos, nessa área de cultura principalmente, né? (...) A gente não queria que a Rádio fosse isso, não queria que a Rádio fosse mais um feudo. (Rodger de Rogério, depoimento de 22/3/2008)
A direção executiva da Rádio Universitária é um cargo de confiança, preenchido mediante indicação do reitor em exercício. Assim, de certa forma, a gestão de cada diretor torna-se um reflexo da gestão do reitor responsável por sua nomeação. O único pré-requisito para exercer o cargo é o pertencimento à categoria dos docentes da UFC. Assim, ao longo dos anos, a Rádio foi dirigida por professores com perfis diferenciados, alguns vindos do curso de Comunicação Social, outros proveninentes de campos do conhecimento como a Biologia e a Física, mas todos com um estilo de gestão próprio, repercutindo tanto positiva quanto negativamente no dia-a-dia da emissora. Desvendar como isso se deu em cada período distinto será um dos objetivos das próximas etapas desta pesquisa.
REFLEXÕES FINAIS: DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Com este trabalho, foi possível perceber que um projeto institucional não está imune a pressões externas, exigindo articulações políticas, num jogo de avanços e concessões. Os relatos coletados deram conta de como o regimento da emissora foi pensado justamente para contornar as dificuldades formais, assim como seu estabelecimento demandou negociações intensas, como no diálogo ocorrido entre o reitor Paulo Elpídio de Menezes Neto e o governador Virgílio Távora. Essas pressões não terminariam com a inauguração da emissora. Ao longo de sua história, percebem-se estratégias de adaptação ao contexto político, seja ele favorável ou desfavorável à emissora, de modo a mantê-la no ar.
Outro fator percebido foi a influência que projetos e aptidões pessoais demonstrados pelo quadro funcional da Rádio Universitária exerceram sobre sua programação e, conseqüentemente, sobre a meta de educação não-formal que se pretendia atingir através de cada programa. Do mesmo modo, foi possível discernir o papel central que esse projeto institucional desempenhou no desenvolvimento das carreiras profissionais de estudantes, servidores e colaboradores, desenvolvimento este que será recontado ao longo da pesquisa.
A própria programação da época mereceu reflexões, pois constitui a concretização do projeto inicial, assinalando os pontos em que os objetivos dos fundadores se realizaram e que outros fatores, muitas vezes imprevistos, foram acrescentados ao longo dos anos. Um fato observado por alguns indivíduos que interagiram com a emissora nessa fase inicial é que a atual grade de programação ainda conserva muitos dos programas surgidos naqueles anos.
Acompanhar as mudanças nesses programas também será importante para compreender a identidade institucional. Este artigo consiste apenas na primeira etapa de um trabalho de pesquisa que deve se estender por mais um ano, na busca por construir um retrato da identidade institucional em constante transformação da Rádio Universitária. De que maneira todos os elementos percebidos nessa fase inicial se farão presentes nos anos seguintes? Como eles interagirão com as situações surgidas em cada época? Esses e outros questionamentos, relativos a cada recorte específico, marcarão as próximas investigações.
BIBLIOGRAFIA
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: PD&A, 2002.
LIMA, Francisca Almira Murta de. Radiodifusão Educativa: avaliação do projeto de educação não-formal desenvolvido pela Rádio Universitária FM daUniversidade Federal do Ceará (UFC). Monografia (Especialização em Gestão Universitária). Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade, Universidade Federal do Ceará – UFC, 2005.
MERAYO PÉREZ, Arturo Merayo. La radio pública en Iberoamérica. Disponível em: <http://bocc.ubi.pt/pag/merayo-arturo-radio-publicaiberoamerica. pdf> Acesso em: 19 mar. 2008
MERAYO PÉREZ, Arturo. Identidad, sentido y uso de la radio educativa. Disponível em: <http://bocc.ubi.pt/pag/merayo-arturo-radio-educativa.pdf>Acesso em: 11/03/2008
PENTEADO, Sílvia Teixeira de. Identidade e poder na universidade. Santos: Unisanta Editora, 1998.
UFC. Seminário Geral: Uma tentativa de administração solidária. Fortaleza: Imprensa Universitária, 1981.
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