Poema de Vilemar F. Costa
19:54 @ 19/02/2010

Flanar pela rua
Vaguear caminhos e o pensamento
A deriva da própria vida a flutuar
Na existência e suas inconstâncias
Sob leve brisa vadiar
Na hora que o sol foge,
Prender a tarde na sola dos pés
Cruzar tempo, espaço e vento
Paredes baldias, vitrines, portas de aço, casas
A paisagem de concreto, espessa textura
Que reverbera calada, seus neons incandescentes
E a canícula sofrida.
Vozes atravessam a calçada,
Bêbados mendigos crianças, limitam
O ir e vir dos burgueses apressados
Espantados e enojados dos invisíveis citadinos
Ônibus escorrem, tomados de modorra
Carroças puxadas a homens
Motocicletas e peruas,
Algumas em movimento
Numa praça flanelinhas inebriados
Aguardam o final do litúrgico oficio
Para ganhar o real
Sombreada nas torres da igreja
A banca de velhas revistas e jornais
Guarda o tuberculoso esquálido a praguejar
O poeta ébrio beija a boca da noite
Sorve estrelas, enlouquecido
Impreca contra passantes que teimam instigá-lo
Enquanto homogays heteroguys safistas
Feito bibelôs coloridos
Fazem algazarras e riem-se,
Prostitutas alegres velhos assanhados
Trocam olhares lúbricos mútuos
À sombra do centro de cultura
No meio-fio, lauto banquete de carcaças podres
sobras de alimentos servidas em sacos de lixo,
nutrem a fome de crianças verminosas
velhos decrépitos mendigos loucos e bêbados
Praças poetas bêbados flanelinhas
velhos homos lesbios putas e loucos
Crianças verminadas e michês,
Estão invisíveis na cidade cega
Não refresca a alma
Não há espairecer
Observar o lado invisível da cidade
Nem há como
Falsear o céu no chão a vadiar
Ir por outros ares a imaginar
Verdes prados caminhos retos fontes refrescantes
Borboletas plantas pássaros insetos
Impossível no passeio divagar
flanar e não enxergar, a invisível dor
Mesmo que a tentação obrigue,
dispor os pés descalços no chão
À beira da noite que vem baixando,
Ousar-se livre como um pássaro
É apenas crônica delusão
No campo de morangos
Onde nada é real, para a elite do andar de cima
Presa entre condomínios e shoppings
Viver de olhos fechados é mais fácil**
Vilemar F. Costa
* Free as a bird : Lennon – McCartney - Ringo
** Strawberry fields forever : Lennon - McCartney
PoEma de Vilemar F. Costa
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