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Paulo Elpídio e familiar

 

Revolução semântica 

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto 
 

      “Toda vez que o homem quis trazer o céu para a terra, fez reinar o inferno”,

Karl Popper 
 

            Em artigo recente, Roberto Damatta compara Lula a Prometeu: o personagem mítico roubou aos deuses o fogo da sabedoria, o metalúrgico-sindicalista, sagrado presidente, deitou a mão sobre as glórias do Plano Real e apossou-se dos ganhos do governo satanizado dos social-democratas.  O resto da estória é conhecido, é engenho político sem precedentes que a muitos surpreendeu e a tantos encheu de justificadas dúvidas e incertezas.

 

Assistimos, nestes poucos anos, ao nascimento de um governo midiático, avalista de um Estado-espetáculo e auto-referencial, cenário de uma revolução que se renova e se fortalece no domínio da construção de imagens cativantes. Convivemos com uma obra primorosa de engenharia léxica, da qual se extraiu uma revolução semântica e com ela foram redesenhados conceitos, premissas, convencimentos, ideários, hábitos e preconceitos. O esvaziamento do conteúdo das palavras e do significado recorrente que lhes deu cara e figura tem alcance considerável na fixação do objeto ou da idéia que designam ou pretendem excluir, simplesmente.

 

            É como se houvesse operado uma profilaxia saneadora no seu sentido original, com a retirada do registro inconveniente de significados indesejáveis para substituí-los por outros mais operacionais e socialmente mais convincentes. De uns tempos para cá, passamos a empregar, com freqüência inusitada, o adjetivo “republicano”, depois de termos exaurido o uso da palavra “cidadania”, do emprego das ações “inclusivas” e de terem sido denunciadas intoleráveis situações “excludentes”, pelos quais hão de ser responsabilizadas, naturalmente, as elites que nos colonizaram ao longo destes quinhentos anos de governos liberais e neoliberais, durante os quais foi “inventado” o Brasil.

 

Agora, felizmente, em boa hora, preparamo-nos para a sua “reinvenção”, não só a do Brasil, mas a do mundo, mediante modelos e técnicas sutis, entre elas a de “reaparelhamento” do Estado, como viemos saber na semana passada, ao som de abundantes manifestações patrióticas de um bem sucedido e ruidoso inventário partidário realizado em Brasília.

 

            A ambigüidade das intenções manifestas e das dissimuladas pela conveniência dos significados fez das palavras em uso no mundo político instrumento de múltiplas aplicações, chave-mestra de muitas entradas, “links” reveladores de dissimuladas intenções. No mais das vezes, o maniqueísmo secretado por essa ambigüidade aparentemente ingênua promove a catalogação de posições e dos indivíduos, atribuindo-lhes classificação condenatória ou absolvendo os pecadores, conforme as conveniências da ocasião, a uma simples troca de sinal do seu significado original. 

 

            Da geografia da Convenção herdamos a designação de esquerda, direita e centro, classificação genérica na qual se enquadram – assim imaginamos -- as tendências, os antagonismos e as cumplicidades políticas e ideológicas que alimentam o poder dos homens e as forças do governo. Nesta quadra dos grandes prodígios da “Pátria-grande” a que assistimos afortunadamente, embora sem os merecimentos de outros cidadãos mais aplicados, foram associados ou diluídos, por obra piedosa da semântica, conceitos e acepções discrepantes, cuja serventia está na confusão que produz em quem pretende entendê-los.

 

A “direita”, historicamente representada pelos “girondinos”, agentes pressurosos da consolidação das conquistas burguesas e empenhados em evitar os agravos revolucionários, passou a sinônimo de “liberal” e “neoliberal” e de todo o cinismo de que os homens são capazes de armazenar e carregar durante a sua passagem vacilante por este vale de lágrimas, servidos pelo livre arbítrio, condição que os torna, ainda, mais perigosos para os homens de bem e os cidadãos insuspeitados, as famílias numerosas da esquerda e os eventuais “companheiros de viagem” admitidos em comodato durante o breve percurso do assédio e tomada do poder. 

 

O que mais incrimina e condena, neste jogo de palavras vãs, sortilégio de dúvidas e cumplicidades dissimuladas? A suspeita de ser “liberal” (ou “neoliberal”, pecado em dupla porção) ou a falha de caráter de quem é apontado como “de direita”? Do “centro”, guardamos a má fama de oportunismo que exala, ainda assim útil a todas as intenções, sobretudo as dos “jacobinos”, transformado em esteio da esquerda secular, massa de todas as manobras de “governabilidade”, eufemismo cínico que, no Brasil, explica todas as proezas das alianças e as suas generosas conquistas.

 

            Do que estamos a falar, afinal? Sobre questões imponderáveis, hão de pensar os justiceiros, que tremem de ódio santo ao menor sinal de dúvida sobre os mandamentos e dogmas da verdade eleita. Não são poucos os indícios de um auto-de-fé que se foi armando em torno dos homens desprevenidos, dos que fogem ao engajamento instantâneo, empurrando-os para o canto das definições impositivas. Vale lembrar, a propósito da exacerbação maniqueísta a que nos vimos expostos, as doutas palavras de um eminente assessor presidencial,  para quem existe, no Brasil, um “retraimento do pensamento crítico” fragilidade que favorece a ascensão real de uma “subintelectualidade de direita”.  

 

            Em um país construído e movido por interesses transeuntes, sem identidade política ou fisionomia partidária, como o Brasil antes, durante e pós-Lula, não parece tarefa fácil distinguir com razoável precisão o que diferencia a “direita” da “esquerda” e entender como se mantêm as alianças construídas na base do escambo político, da troca da estipêndios e de provisórias intenções. Discordar, da mesma forma como exercer a oposição, são tarefas ingratas – e perigosas, a História o comprova, segundo os registros sobre a intolerância da fé e das ideologias dos homens.

 

             Diante dessa dúvida “hamleteana”, a “ascensão de uma subintelectualidade de direita” parece menos arriscada para a democracia em construção nos laboratórios do PT, do que o “retraimento” do pensamento critico, cujas evidências se acumulam por força das obras improvisadas da “reinvenção” anunciada do Brasil.

 

 

 

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